Cap 9

1.

- Sara, Sara, Sara! Oh Deus você está maravilhosa! Sempre ein? Eu tinha esquecido o quanto você é alta e magrela... E o seu cabelo!- ela soltou um gritinho abafado - eram ondulados e a cor? Você mudou tanto... Eu estava com tantas saudades de você Sar!

Sara abriu a boca, mas nada saiu.

Mau sinal.

- Puxaaa - ela girou ao redor de Sara como se ela fosse uma mercadoria em exposição. As penas em sua gola ondularam e lançaram uma nuvem de fiapos no ar - Quase vinte anos não é? Como o tempo passa e olha só para você tão diferente! Não que eu tenha mudado muito não é? Alguns extras na cintura, mas quem não ganha? Ah você não ganha sua sortuda!- ela riu alto e jogou a cabeleira loira platinada para trás - Que apartamento bonito, a sua cara, assim tão sóbrio. Que quadro é aquele? Lindo, mas nem chega aos pés do que meu Teddy pode fazer. Você tem que conhecer Teddy ele está lá embaixo, tenho certeza de que vai adorá-lo, todo mundo adora. Vamos nos casar, mas eu já contei isto a você não é? Ah sim, na carta. Oh que bonito isto - ela pegou uma escultura pequena na mão e largou-a em seguida - Me conte tudo! Como você está, sobre esse seu emprego...

-Espere, espere, espere!- Sara levantou a mão calando Bonnie. A enxurrada de palavras cessou e o apartamento caiu em um silencio pesado.

O sorriso dela era enorme e vermelho num rosto que aos poucos ia tornando-se nítido para a morena. Ali estava a velha Bonnie. Os olhos verdes enormes e os cabelos compridos que brilhavam sempre que ela fazia algum trejeito. Ainda era pequena, de curvas generosas e vestia-se com exageros. Os lábios cheios ainda eram exageradamente pintados e o resto do rosto recebia o mesmo cuidado.

Ali estava uma boneca pintada demais. Uma boneca sem um pingo de sanidade que decidira da noite para o dia largar uma filha e dar no pé com o suposto homem de sua vida.

Sara sentiu uma raiva latente começar a se formar em seu âmago. A mulher parada diante de si fora alguém que ela gostara de alguma forma, de conviver no passado. Mas agora as coisas haviam mudado. E por mais que parecesse a sua memória, a Bonnie a sua frente não era a mesma Bonnie do passado.

Oh, ela já estava fervendo de raiva.

- O que você está fazendo aqui?

A voz saiu entre dentes, ríspida e cortante.

- Sar querida eu vim vê-la! Passamos dias maravilhosos mesmo no México, mas sabe, descobrimos que a comida de lá faz muito mal a Teddy, pobrezinho. Ai decidimos voltar. Você conhece o México? É um pequeno inferno na terra, mas um inferno adorável!- ela bateu palminhas como uma colegial entusiasmada - Foi a melhor viagem da minha vida. Voltamos, deixe-me ver, há... Há três dias.

- O que você esta fazendo aqui?!

Ela frisou cada sílaba e Bonnie levantou os olhos esmeraldas para ela de forma inocente.

-Já disse vim ver você e a minha filha claro. Onde esta ela? Quero tanto abraçá-la!-Bonnie largou-se numa poltrona ajeitando a saia do vestido curto. - Trouxe alguns presentes que acho que ela vai adorar e algumas roupas muito coloridas, se bem que Amber odeia cor. Nisso ela puxou a Tony. - ela fazia gestos rebuscados enquanto falava - Eu amo tanto essas coisas berrantes e Amber só usa cores escuras. Se fosse um menino! Mas nem posso reclamar, ela é tão bonita, viu os cabelos? Iguais aos meus!

- Sua filha. Você... Você esta brincando comigo? É isso?

- Brincando? Não entendo Sar...

- Não entende? Quer que eu desenhe na sua cara o que estou tentado dizer? Eu vou... Eu vou matar você!

- Co - como?

- Pare de fazer cena, pare de fingimentos! Você esta ferrada por aparecer aqui. E eu estou me segurando para não pular no seu pescoço.

- Sar, o que esta dizendo?- Bonnie levantou e tentou se aproximar - Sou eu, Bonnie, sua amiga...

- Saia daqui. E rápido. Não vou denunciá-la, não vou criar caso. Não vou quebrar a sua cara. Por enquanto. - ela se afastou. Muito perto só pioraria a situação - Só vá embora. Aproveite a chance camarada que estou lhe dando. Não vai querer estar aqui se eu explodir com você...

- Explodir comigo? Continuo sem entender...

Sara riu. Bonnie era uma atriz muito boa. Ou uma pirada da pior espécie.

Ou as duas coisas.

- Certo, vamos fazer do seu jeito então. - ela parou em frente a loira - Você abandonou sua filha, uma criança de onze anos de idade para viver uma aventura adolescente. Isso é crime caso não saiba e eu só não a denunciei legalmente porque Amber me pediu. E você não sabe, não sabe mesmo o quanto difícil foi fazer isso. Você a largou na minha porta, sendo que não nos víamos há vinte anos. Eu nem lembrava mais de você, mas que droga!- ela jogou as mãos para o alto - E agora volta toda saltitante? Mas que inferno você pensa que está fazendo?

- Eu expliquei tudo a você na carta...

- Uma carta!- Sara quase encostou o nariz no de Bonnie. Que se danasse a distância - A droga de uma carta... Você largou uma bomba em minhas mãos e me deixou apenas uma carta!

- Sara, eu sei que talvez eu tenha pego você de surpresa, mas eu estava tão empolgada com a viagem que foi a única coisa que me passou pela cabeça - ela tentou rir- Ora, por favor, Amber não é tão difícil!

Sara cerrou os punhos. Ia arrebentar Bonnie se ela não saísse de sua frente. Ia socá-la até virar uma massa disforme.

Pisando firme caminhou até a porta e a escancarou.

- Caia fora.

- Como assim?

- Quero que você saia daqui. É bem simples até mesmo para você.

- Sara eu vim ver a minha filha!

- Você não vai chegar perto da garota, ok?

- O que?

- Volte para São Francisco, mas sem a garota.

Bonnie levantou e aproximou-se de Sara. Levou a mão à garganta num gesto aflitivo e a olhou sem compreender.

- Eu não vou fazer isso! Sara eu apenas deixei minha Amber aqui por um tempo sabe? Por um tempo, depois eu vinha buscá-la.

- Ah claro, eu tinha me esquecido. - Sara sorriu de forma cínica - Minha casa é um hotel, e eu sou uma boa anfitriã. Quando você quiser hospedar alguém jogue-o na porta da boa Sara e não se preocupe. Ela vai alimentá-lo e cuida-lo até que você volte e o leve de volta. - Ela foi se aproximando de Bonnie que recuava, diante de sua voz cada vez mais elevada - Não, não se preocupe com o que ela vai pensar, não pense no seu trabalho, ou na sua vida pessoal! Sara vai largar tudo para tomar conta do que você não tem tempo de cuidar ou quiser se livrar durante uns dias! Sabe o que parece Bonnie? Que você trata sua filha como um animalzinho de estimação- a voz dela subiu algumas notas- Você a adota, da um pouco de atenção, às vezes se esquece de que ela existe. Então quando precisa se livrar dela por um tempo a entrega para alguém cuidar!

- Sar, não é assim...

- Eu tenho cara de idiota? Espere, não responda, eu sei a resposta. Eu tenho, eu realmente tenho e você sabe por quê?- Sara encurralou Bonie entre ela e a parede - Porque se eu fosse esperta teria entregado o seu caso para o sistema logo no começo e agora você estaria ferrada no lugar que merece e não aqui na minha casa acabando com o meu dia!

- Sara eu achei que fossemos amigas, puxa passamos por tanta coisa juntas, bebemos tantas e prometemos que seríamos amigas por toda vida e agora olha como está falando comigo... E você me devia uma, eu salvei a sua cara naquela noite ou esqueceu?

Oh ali estava alguém que ela conhecia, Sara quase sorriu. A velha Bonnie camarada e sacana estava dando as caras aos poucos.

- Sim, eu esqueci. Porque eu iria me lembrar? Nós éramos duas idiotas que gastavam mais tempo enchendo a cara do que vivendo e não tínhamos mais nada em comum além de uma garrafa...

-Oh meu Deus como você é insensível! Eu adorava você...

- Você adorava o fato de eu sempre ter dinheiro para pagar as rodada Trent. Essa é a verdade.

- Quer dizer que nesses anos todos você nunca lembrou de mim? Nunca?

Ela pareceu magoada e seus cílios postiços piscaram rápido. A voz tinha um tom choroso que fez Sara ter vontade de vomitar. Havia limites para a loucura de uma pessoa como Bonnie?

- De verdade?- Sara a encarou séria - Não, não mesmo. Não lembrava de você e sequer desse favor idiota que eu fiquei devendo numa noite em que nós duas estávamos caindo de tão tortas. Mas você lembrou. E largou uma criança na minha porta por isso.

- Eu, eu não larguei... Eu deixei, eu só...

- Eu não quero ouvir, não mesmo ok? Amber ficou aos meus cuidados e mesmo sendo um problema de começo eu consegui me virar e de verdade, eu, eu me apeguei a ela. E nada, nem você, principalmente você, vai me tirar a garota agora. Isso é tudo Trent. Caia fora. - Ela fez sinal para a porta e cruzou os braços na altura do peito.

Era uma pedra por fora. Dura e impenetrável.

Mas por dentro estava derretendo diante da possibilidade de perder Amber agora. Derretendo de uma forma dolorosa.

- Tudo bem, eu achei que significava algo para você. - Bonnie ajeitou uma mecha de cabelo e empertigou os ombros - Mas parece que me enganei. Você foi uma amiga insensível e acho que não vou mais perder meu tempo aqui... Mas esta enganada ao extremo se acha que vou deixar minha menina aqui. Não mesmo!

- Você não vai levá-la...

- Quer apostar?

- Não vou apostar com quem não sabe jogar.

- Ela é minha filha e vai embora comigo!

Bonnie levantou o queixo e encarou Sara de forma desafiadora.

Oh, então ela queria brigar.

Bem, bem, fazia muito tempo que Sara não socava a cara de alguém, mas não devia ter perdido a prática não é?

- Ela deixou de ser sua filha no momento em que você escreveu aquela carta. Se quiser Amber de volta vai ter que ser na justiça. E lá eu tenho certeza de que quem vai sair perdendo e feio é você.

Sara sorriu e alteou a sobrancelha de uma forma toda dela.

Lidava com a morte e tudo de pior todos os dias.

Não era uma pirada como Trent que iria dobrá-la.

- Oh que idéia infeliz a minha... Você é uma vaca traiçoeira isso sim!

- Realmente foi uma idéia infeliz...

- Você não presta Sidle! Nós éramos amigas, amigas!

- Na sua cabeça talvez.

- Cale a boca!

- Ei, ei, ei!-Sar avançou para ela e quase a pegou pelo pescoço - Não me mande calar a boca se não quiser perder esse sorriso idiota do rosto ok?! Vai baixando sua bola Trent e dê o fora como eu sugeri ou eu vou usar tudo que estiver ao meu alcance pra rebocar essa sua bunda grande para trás das grades!

-Não!!

O grito veio da porta e fez Sara parar a meio caminho de segurar Bonnie pelo colarinho. Amber estava parada na porta com uma mão na maçaneta e a outra apertando forte a alça da mochila. Seus olhos muito grandes estavam marejados e cheios de súplica.

- Sara não faz isso, por favor... Sara por favor...

2.

-Amber meu amor!!

O grito de Bonnie foi tão alto que impediu totalmente Amber de ouvir Sara praguejando.

Merda, não agora!

Ela deixou as mãos que antes avançaram para a loira, caírem ao lado do corpo e suspirou frustrada enquanto via Bonnie atravessar correndo a sala e agarrar Amber com força.

Amber ali só dificultaria as coisas e a impediria de despachar Bonnie antes que ela causasse mais problemas.

Despachar Bonnie...

O que estava fazendo?

Estava lutando. Lutando por alguém que amava e queria manter perto de si. Que se danassem as mudanças e a incerteza do futuro. A garota fazia parte de sua vida agora e Sara ia mante-la perto de qualquer maneira.

Se não desistira de Grissom passados tantos anos, não era com Amber que ia ser diferente.

- Amber, Amber!- Bonnie largou-a do abraço e a segurou pelos ombros. - Oh meu amor mamãe voltou! Não é máximo? Vamos poder voltar para casa agora e matar as saudades... Oh eu estava com tantas saudades suas, tantas! Mas como você está magrinha, por Deus o que comeu aqui? Oh não responda querida, eu já constatei por mim mesma que foi uma idéia tenebrosa te-la deixado aqui com essa... Com Sara. - Bonnie empertigou-se e manteve as mãos sobre Amber - Não se preocupe Amby, você não vai mais precisar...

- Amber você sabe que pode ficar.

Sara postou-se logo atrás de Bonnie, de braços cruzados e encarou a confusa Amber na porta.

- Mãe... Quando? Eu achei que...

- Eu explico tudo no caminho meu amor - Amber foi arrastada para dentro e quase tropeçou nos próprios pés - pegue o que tiver e vamos, Teddy está lá embaixo. Você não o viu? Ele pintou o carro, Amby com três cores! Imagine isso três! É um carro tão fácil de achar... Vamos pegue sua mochila.

- Mãe, espere.

- Esperar? Esperar o que?

- Eu... - o olhar aflito da menina caiu sobre Sara – Eu não sei se...

- Amby pode me contar depois tudo bem? Vamos logo, Sara estava prestes a pular no meu pescoço você viu... Oh como me arrependo!

- Amber você não precisa ir, e você sabe disso...

O olhar das duas voltou a se cruzar.

Sara entendia o olhar de Amber, seus lábios apertados, o semblante cheio de dúvida. A menina estava confusa e com razão. Num momento tinha uma vida, no outro não tinha mais nada. Seus dias mudavam de acordo com o humor de Bonnie Trent. E num dos seus humores Bonnie lhe dera a chance de ter uma segunda vida, uma segunda casa. E quase uma segunda mãe.

E agora ali estava Bonnie novamente, oferecendo a Amby a oportunidade de tudo voltar a ser como antes.

Ela era pequena demais para tanta coisa. Mas grande o suficiente para entender que naquele momento seu futuro dependia unicamente de sua decisão.

- Mãe, me escute - Amber se livrou dos braços da mãe e largou a mochila sobre o sofá. – sabe, quando você me deixou aqui há mais de um mês, você não me deu certeza que iria voltar. Você sabe disso não é?

- Como não te dei certeza? Amby, mamãe nunca deixaria você! Era óbvio que eu voltaria...

- Você disse que talvez não voltasse.

- Quer ler sua carta Bonnie? E comprovar que realmente deixou a garota?

- Não quero falar com você!

- Mãe!

- E você não vai fazer ninguém aqui de idiota. A garota decide Bonnie.

- Amby vamos embora logo está bem?

- Mãe...

- Amby eu sinto muito que talvez tenha parecido isso a você e também se pareceu que importa hã? Eu voltei e estou louca para que voltemos para casa...

- Como você é nojenta. - Sara balançou a cabeça não podendo acreditar - realmente, realmente nojenta. Parece normal para você largar... Largar uma criança e dar umas voltinhas de meses? Meu Deus, estamos falando de uma menina, de um ser humano... Como... Como você consegue fazer isso?

- Sara não seja tão dramática, minha filha sempre me entendeu. E ela não se importa não é Amby? Ela já sabia da viagem a meses e...

- Amber não é burra. Ela tem os seus cabelos, não seu estado mental.

- O que você está dizendo? Amber entendeu totalmente minha viagem sabe?

- Sério? Que tal perguntar a ela hã? Quer tal saber como ela realmente se sente sendo abandonada!

Elas estavam novamente cara a cara, olhando-se de forma quase mortal.

- Eu não abandonei minha filha!

- Sara... Mãe... - a menina tentou intervir, mas não foi ouvida.

- Pergunte a ela.

- Sabe, você sempre foi uma idiota prepotente Sidle.

- E você nunca teve caráter. Acho que pesa mais na balança. - ela ergue a sobrancelha irônica.

-Eu não vou mais discutir com você! Vamos Amber, pegue suas coisas. - ela virou-se para Amber que se mantinha em pé ao lado das duas.

A garota não se mexeu. Olhava para as duas mulheres a sua frente sem expressão.

Ela as amava. As duas a sua maneira.

Sara era igual a ela. Mesmo que muitas vezes ela jurasse de pés juntos que a morena era uma chata cheia de regras, Amber tinha que admitir que adorava viver com ela e dentro do seu mundo.

Sara a compreendia de uma maneira que Bonnie nunca seria capaz e lhe tratava como ela achava que era o certo. Impunha-lhe regras quando era necessário e a mimava quando merecia. Sar era o que ela gostaria de ser um dia.

Inteligente, capaz, importante em algum lugar e para alguém.

Acima de tudo, Amber a amava por ser a mãe que ela nunca tivera e provavelmente nunca teria vivendo com Bonnie. Alguém que se preocupava com ela acima de tudo e que sempre estaria lá...

Da maneira que ela precisasse.

Mas do outro lado havia sua mãe...

Por mais que Bonnie fosse irresponsável ou agisse de uma forma que quase sempre a magoava, ela ainda era sua mãe. Ainda era aquela que afugentava os monstros de seus pesadelos e lhe pintava quadros quando achava que seu pequeno quarto precisava de cores. Era louca de um jeito, mas a amava de maneira peculiar, nem muito certa, nem muito errada. Apenas diferente.

Sua mãe era diferente.

Às vezes quando ela dormia e Amber a observava, comparava sua mãe a uma fada. Daquelas travessas que não gostavam de crescer e que sempre tentariam se manter pequenas.

Era uma fada que precisava ser cuidada para não morrer no mundo dos adultos. E era seu dever cuidá-la.

Somente seu.

- Certo.

- Certo?

- É, certo Sara... Vou voltar para casa.

- Você o que?!

- Oh graças a Deus, vamos dear, estamos perdendo tempo.

- Amber você não quer voltar.

- Eu quero Sara, vou pegar... Vou pegar minha mochila e livros... É, livros.

- Você não vai pegar nada porque não vai embora ok?

Sara se adiantou e um pouco sem jeito colocou uma mão sobre o ombro de Amber.

- Escute... Eu, eu quero dizer você pode ficar e sabe disso, eu sei que muitas vezes parece que estou incomodada com você e... E falo algumas coisas, mas eu quero que fique. Amber...

- Sar eu tenho que ir. Tenho.

- Você quer parar?- Bonnie afastou Amby de Sara - a garota já disse o que quer, pare de amolar.

- Se você falar mais alguma coisa torço seu pescoço! Amber - ela apertou os lábios frustrada. – fique, você pode e eu sei que você gosta de estar aqui...

- Sara, não posso... – os olhos da menina ficaram marejados. - Não posso, me desculpe. Desculpe...

Ela deu meia volta e sumiu no quarto.

Sara engoliu com esforço o bolo que se formava em sua garganta e deu as costas a Bonnie que a olhava de esguelha satisfeita.

Cruzou os braços de forma defensiva e olhou pela janela.

Entendia não é? Entendia que talvez Amber tivesse percebido o quanto sentia falta da mãe e decidira voltar. Claro, uma criança por mais independente e diferente que fosse como Amby era, ia querer viver com a mãe.

Ela entendia.

Ou entenderia depois que seu peito parasse de doer.

Ou não entenderia droga nenhuma!

Caramba ela conhecia a garota como a si mesma. Sabia o que ela pensava e como se portava diante das situações. Sabia o quanto ela sofria mesmo sem dizer vivendo em São Francisco. Então porque ela decidira volta com Bonnie?

Podia ficar. Elas se davam bem, eram amigas...

Sara a amava como se fosse... Como se fosse sua filha?

Será?

- Está pronta?

- Sim, mãe...

Amber saíra do quarto com a mochila pesada, a mesma meio surrada que usara no dia em que chegara a Vegas. Os cabelos estavam presos numa trança folgada e havia uma pilha de livros em seus braços.

- Ótimo. Diga adeus a Sara e agradeça pelo tempo que ela gentilmente a acolheu. Mesmo que não tenha sido tão bom assim.

Bonnie deu as costas as duas e saiu. Sara virou-se e olhou para Amber que fitava o chão.

- Então, espero que fique bem. De verdade. Se precisar de alguma coisa sabe como me achar.

Amber assentiu e caminhou até a porta em silêncio. Um pouco antes de sair virou-se e levantou os olhos molhados para Sara.

- Sara eu sinto muito, mas é melhor entende? Ela precisa... Ela não ia ficar bem sozinha, ela... - Amber parou de falar e passou manga da blusa sob os olhos enxugando-os - Eu gostei de ficar aqui. Eu gostei mesmo. Sara eu... Por favor, diz pra todo mundo que eu vou ficar com saudades ta?

- Certo. Falo sim... Falo. - Sara enfiou as mãos nos bolsos do jeans para evitar o impulso de correr ate a garota e abraça-la.

- Bom, vou indo. Obrigada por tudo, você é... Você é bem legal e eu agradeço tudo mesmo que fez por mim, tudo que comprou e as roupas, a escola... E me desculpe pelas vezes que se querer, ou por querer, hum eu incomodei você... Não foi assim por mal, talvez eu seja mesmo muito chata - ela tentou sorrir- Mas então é isso. Hã, eu não me arrependo de ter ficado aqui... E – ela olhou para o chão- eu amo você assim, de verdade...

Antes que Sara pudesse dizer algo, Amber deu meia volta e saiu correndo.

E ela sentou-se olhando para o nada.

Respirou fundo e apoiou os cotovelos nos joelhos. De repente tudo estava silencioso, como não ficava há tempos. Ela podia ouvir a própria respiração e alguma coisa que tocava muito baixo no rádio.

Há quase dois meses atrás ela amava aquele silêncio.

Agora não havia nada mais perturbador.

Por longos minutos ela permitiu-se lamentar...