Notas da Autora

Yuugi se sente...

Yukiko decide...

No Egito...

Capítulo 9 - Experiências

Suspirando, o jovem se recorda da sensação que sentiu e procura recriá-la ao avesso.

Ao abrir os olhos, percebe que estava de volta ao mundo exterior e ao olhar para o lado, vê algo que lembrava um recipiente e que possuía uma espécie de caldo, com ele notando que o dele parecia ter mais conteúdo do que o dos outros e que havia sido deixando dentro da espécie de gaiola.

Então, ele quase salta de onde estava, se pudesse fazer isso, uma vez que a jaula não era muito grande, quando ouve uma voz grossa próxima dele e como se lesse os seus pensamentos, o dono da voz fala:

- Claro que você receberá a melhor comida. Eu o quero saudável e bem para que possa vendê-lo por um bom preço. Você é exótico e conseguirei um excelente valor. – ele leva os dedos calosos ao queixo de Yuugi, forçando-o a olhar para o homem que sorria satisfeito ao observá-lo atentamente – Olhos tão ímpares quanto à aparência perolada da sua pele e cabelos tricolores. Esses olhos são como duas ametistas. De fato, você é um belo espécime exótico. Com certeza, gerará um frenesi de compradores ou compradoras que estarão ávidos para ter alguém tão ímpar consigo.

Então, gargalhando de prazer, pensando no lucro que teria com a venda dele, ele solta o queixo do jovem e se afasta, sendo que fala ao virar o rosto lateralmente:

- Só por esses olhos ímpares, ganhará uma segunda refeição.

O jovem massageia o seu queixo, enquanto tentava se livrar da sensação das mãos oleosas e igualmente repulsivas em sua pele, sendo que havia percebido, conforme observava a movimentação no local, que aquele homem asqueroso era o líder deles.

Então, o cheiro de comida chega novamente as suas narinas e o estômago dele começa a se rebelar, com ele decidindo comer o caldo e quando pega o objeto para por na boca e sorver o conteúdo do mesmo, ouve a voz de Yukiko em sua mente, percebendo que eles podiam ouvir os pensamentos um do outro, com ambos começando a conversar mentalmente:

"Eu queria comer..." – ela comenta em um tom desejoso.

"Eu acho impossível." – ele responde com uma gota na testa.

"Vou encontrar um jeito de me ausentar da sua mente para ser poupada disso." – ela fala, após suspirar tristemente.

"Desculpe" – ele murmura se sentindo culpado.

"O que tem para desculpar?" – o jovem não podia ver as feições dela, mas acreditava que podia vê-la com o cenho arqueado.

"Se eu tivesse seguido os outros, você não estaria nessa situação" – ele fala tristemente.

"Eu fui atingida mortalmente e tinha muitos ferimentos severos. De um jeito ou de outro, eu iria morrer. Ao usar essa técnica mágica, eu garanti a sua vida e a minha."

Yuugi reflete sobre as palavras que ouviu, sendo que não havia assimilado até aquele instante o quanto os ferimentos dela foram gravíssimos ao compreender que ela teria morrido em decorrência deles, se não tivesse usado a técnica mágica que utilizou para salvar a vida de ambos.

"Eu não sabia disso".

"Agora você sabe. Eu vou procurar um local para que não possa vê-lo comendo."

Nisso, ele sente que a presença dela abandona a sua mente, enquanto continuava se sentindo mal, pois com certeza, a sua amiga queria comer algo.

Dentro dele, Yukiko bufava, apoiando o seu focinho em uma das patas, ficando assim por alguns minutos até que decide usar aquele tempo que dispunha para sondar o que era capaz de fazer, pois temia pelo seu amigo.

Portanto, decidiu que sempre que Yuugi se ausentasse de conversar com ela, a mesma pesquisaria ardentemente formas de protegê-lo, enquanto ansiava encontrar uma forma de libertá-lo.

Afinal, ela estava segura dentro dele. Mas ele não e considerando que seriam vendidos como escravos, a dragoa fica desesperada, pois imaginava o sofrimento que os aguardavam e isso a fazia desejar ardentemente salvá-lo.

Após comer, Yuugi encosta as suas costas na jaula, enquanto ficava triste pelo seu destino e dos outros ao olhar para o semblante derrotado deles e sem qualquer esperança, com as crianças grudando em suas mães, enquanto muitos tentavam tocar os seus pais que estavam amarrados longe dali e que andavam a pé, para que eles fizessem a sua própria triagem pelo que descobriu.

O jovem olha para o lado e decide esticar as mãos em direção a uma flor e ora para a Deusa da floresta, para depois concentrar o seu Kiei e ao perceber que ainda não podia usar os seus poderes, ele suspira desanimado, enquanto orava para que os recuperasse no dia seguinte.

Dois dias, depois, eles passavam por uma área de mata densa e fechada.

Yuugi sempre procurava conversar com Yukiko, enquanto demonstrava o seu medo pelo seu destino e que ficava ainda mais intenso por não conseguir usar os seus poderes, ainda, sendo que achava muito estranho o fato de se sentir fraco, pois ele deveria ter recuperado o seu poder no dia seguinte da sua captura.

O jovem não sabia que a sua amiga havia descoberto um modo de tomar o corpo dele, temporariamente, enquanto que lhe desagradava a virilha, ignorando estoicamente aquela parte, pois era uma garota.

Sempre que o seu amigo ia conversar com ela e deitava contra o seu corpo, acabando por cochilar no processo, a albina o fazia dormir profundamente, para depois assumir o seu corpo, visando testar o uso do Kiei dele, treinando enquanto ele dormia.

Durante o treinamento, ela percebeu que sem oração, conseguia manipular o que desejasse, enquanto que era ciente que os seus treinos intensos faziam com que Yuugi não conseguisse usar o Kiei por causa da fraqueza que o tomava pelo uso consecutivo por parte de Yukiko.

A albina havia decidido ocultar o que fazia, pois não desejava assustá-lo.

Afinal, acreditava que o seu amigo ficaria aterrorizado ao saber que a dragoa podia subjuga-lo, sem que ele percebesse, enquanto tomava o controle do seu corpo, embora fosse uma prática que ela detestasse.

Afinal, além de ser moralmente errado, a seu ver, havia a diferença dos corpos, com ela sendo uma garota e ele um garoto, obrigando-a a ignorar estoicamente e ardentemente a virilha dele.

Yukiko também descobriu que não conseguia assumir a forma humana, sendo obrigada a ficar na forma de dragão para desalento dela.

Alguns dias depois, ela percebeu que podia usar parte dos seus poderes através de Yuugi, além de conseguir fortalecer o Kiei dele e de fato, o jovem não compreendia o motivo de estar melhor do que os outros dias, além de sentir um aumento em seus poderes, enquanto planejava uma forma de libertar todos sem matar ninguém, inclusive os seus captores, pois ele era incapaz de tirar uma vida.

O motivo de ter recuperado o seu poder era porque Yukiko não treinava mais o seu Kiei por se focar em treinar o controle dos seus poderes, através do corpo do seu amigo ao realizar testes, sempre procurando ter uma margem de segurança e fazendo de modo que os seus captores não percebessem o que fazia.

Há centenas de quilômetros dali, no Egito, mais precisamente nos arredores do palácio daquele império, o príncipe Atemu, agora com dezoito anos, estava com o seu falcão alvo que era uma fêmea chamada Kytzia, que domou e treinou, sendo que o ato de domar o animal simbolizava a transição da infância para a vida adulta e como era um falcão, isso também representava a divindade do príncipe com o adicional do falcão ser alvo, tornando-o distinto dos demais.

Afinal, o Deus Sol Rá tinha a cabeça de um falcão e o Faraó era tido como o filho do Deus Sol.

Normalmente, eram domados os machos. A escolha da fêmea foi por ela ser alva, se destacando dos outros falcões e como ele seria o futuro Faraó, um falcão distinto seria digno dele.

Enquanto via o belo animal voando próximo dele, ele se encontrava pensativo sobre os seus sonhos recorrentes envolvendo um garoto de cabeços espetados e tricolores como ele, com o diferencial das franjas douradas serem todas abaixadas, não tendo algumas espetadas como ele, além dos olhos ametistas serem expressivos, sendo que a ametista era uma joia preciosa em seu império, fazendo assim com que os olhos dele fossem preciosos, além de se recordar da pele perolada do jovem.

O príncipe era plenamente ciente que se sentia unido a ele e de uma forma desconcertante, sendo que sempre ficava ansioso para dormir, visando ter o sonho, novamente.

Então, após chamar o seu falcão fêmea que voava no céu, a mesma pousa obedientemente em seu braço, enquanto que os guardas estavam mais afastados e atentos a qualquer aproximação.

Atemu entrega um pedaço de carne fresca para a ave que saboreia a comida, para depois afagá-la gentilmente usando o dorso de um dos seus dedos.

Após suspirar, ele vira a cabeça para o seu lado direito ao ouvir sons de passos, identificando o dono dos passos como sendo o Grão Vizir Shimon, o seu futuro Conselheiro Real quando assumisse o trono, uma vez que o seu pai se encontrava demasiadamente doente, com os médicos reais não conseguindo curá-lo, enquanto que não compreendiam o motivo da doença dele.

O príncipe acreditava que o motivo do seu pai ter adoecido e que nenhum curandeiro conseguia encontrar a causa era em decorrência do pedido do seu genitor feito há anos, atrás, aos Deuses e seus ancestrais, para que poupassem Atemu do pecado que Akhenamkhanen cometeu, clamando humildemente e desesperadamente para que a fúria divina fosse descarregada contra ele em nome do seu pecado imperdoável.

Atemu acreditava piamente que os Deuses e seus ancestrais estavam punindo o seu genitor, conforme ele havia implorado há anos, atrás, para que o seu pecado imperdoável não alcançasse o filho dele e que isso justificava a incapacidade dos curandeiros reais de tratá-lo, enquanto que Mahaado havia dito naquela época que não podia contar o motivo do Faraó, pois este o fez prometer nunca contar, enquanto ele reinasse.

Com essa frase, o príncipe sabia que quando ele se tornasse Faraó, poderia ter as respostas que tanto ansiava há anos, pois desejava ardentemente descobrir o motivo dos Deuses e dos seus ancestrais punirem o seu genitor e o motivo deles teriam ido para aquele local quando era mais jovem.

Afinal, eram respostas que ansiava há anos e quando fosse coroado Faraó, o seu amigo de infância teria que contar a ele esse segredo, além de responder as suas perguntas.

Shimon se curva levemente, anunciando a sua presença, enquanto o príncipe mantinha o falcão alvo em seu braço e cujas garras repousavam em algumas das várias pulseiras de ouro puro nos braços dele, enquanto que era plenamente ciente que precisava treinar, urgentemente, o uso da máscara do Faraó quando estivesse em público e no palácio, pois deveria agir como um Deus dentre os homens, exercendo o seu domínio com uma mão autoritária e igualmente divina para manter a ordem.

Como estava em um local isolado e longe do público, o príncipe pretendia relaxar ao ser ele mesmo e não o futuro Faraó.

Então, Atemu pergunta com evidente preocupação em sua face:

- É o meu pai, Shimon? Ele piorou?

- Não. O seu honorável genitor se encontra estável, mas continua demasiadamente fraco.

O príncipe percebeu que quando foi anunciado o adoecimento do seu pai e que os curandeiros reais não conseguiam encontrar a causa para que pudessem tratá-lo, o Grão Vizir não demonstrou surpresa, enquanto exibia apenas dor em seus olhos e uma profunda tristeza pelo estado do monarca, além de ser evidente a preocupação em seu semblante ao ver o estado de Akhenamkhanen.

Portanto, ele acreditava que o amigo e primo do seu pai, Shimon, sabia o que aconteceu ao Faraó e isso o fez desconfiar de que ele sabia sobre o pedido do seu genitor aos Deuses e ancestrais, assim como a culpa e intenso pesar que acometia o Faraó, com Atemu acreditando que o seu pai havia contado a ele sobre a visita que fizeram há anos, atrás.

De fato, Shimon sabia a verdade sobre os Sennen Aitemu e o método de criação deles, pois estava presente quando Mahaado revelou o que descobriu, após investigar as trevas em seu Sennen Ringu, com ele ficando triste pelo seu primo.

Afinal, era ciente que Akhenaden nunca contou ao seu irmão como era o ritual para criar os itens, fazendo com que o Faraó autorizasse um ato hediondo sem saber as consequências de sua autorização, se tornando mais uma vítima, além dos habitantes de Kal Elna, embora Shimon soubesse que ele nunca se veria como vítima e sim, como responsável pelo massacre abominável que se sucedeu sobre as suas ordens e reinado.

Inclusive, ao saber das mentiras do irmão mais novo para com o seu irmão mais velho, ou melhor, a omissão de partes essências do ritual de criação dos itens, o Grão Vizir confrontou Akhenaden.

O mesmo exibia culpa em seu olhar, enquanto justificava que as suas mentiras foram para garantir que o Egito fosse salvo, pois somente o poder de itens mágicos poderosos como os Sennen Aitemu, podia salvar o império de ser subjugado pelo exército invasor e que ele fez em nome da manutenção e segurança do império, assim como de todos os egípcios, além de ter acrescentado que havia mentido para o seu irmão, pois sabia que ele nunca autorizaria um ato tão abominável, enquanto prometia que iria ensinar as futuras gerações sobre a justiça e leis de Ma'at, além de aceitar o julgamento dos seus pecados na vida após a morte.

Mesmo com tais justificativas e promessa, Shimon ainda sentia raiva pelo que Akhenaden fez, pois ele sabia como Akhenamkhanen iria reagir ao descobrir a verdade, se culpando até o final dos seus dias, enquanto que a culpa o devoraria vivo, fazendo com que a visita dele ao templo junto de Atemu não fosse nenhuma surpresa para ele e sim, o esperado.

Então, Shimon sai das suas recordações do passado, quando ouve a voz do príncipe:

- Ele fez algum pedido que eu possa realizar para fazê-lo feliz? – ele pergunta em tom de confirmação, pois desconfiava de um desejo que o seu genitor possuía ao comentar para ele, alguns dias atrás.