N/A: Primeiro, mil desculpas pela demora. Começaram as aulas, e como eu ainda tô no segundo ano do médio, sabem como é, aulas mil, trabalhos mil..... Forgive me. E minha amada beta também voltou pro colégio, então ela não pôde betar. Aliás, vou logo avisando: Ela ainda não me entregou o cap betado, MAS como eu tenho muito medo de morrer, ser linchada e coisas do gênero, resolvi publicar sem estar betado mesmo. Traduzindo. Ignorem se houver vírgulas fora de lugar, elas me Thanks a todos que me mandaram reviews e até as ameaças.( mas por favor, não matem, senão ficam sem o fim da fic)


Meu relacionamento com Carlisle tinha evoluído consideravelmente desde à ida ao Alaska. Ele continuava mantendo sua palavra e nunca mais tinha tentado se afastar de mim, pelo contrário, nós passávamos uma quantidade de tempo considerável juntos.

Eu sempre agradeceria o fato de não precisar dormir, porque era essa parte de nossa natureza que nos dava tempo pra ficarmos juntos. Carlisle passava as noites trabalhando no hospital e eu passava as minhas reformando a casa. Depois de transformar o meu quarto, ampliado a biblioteca e até mesmo modificado um pouquinho a estrutura do escritório de Carlisle, eu tinha acabado de terminar a ampliação da sala de estar.

Edward, que era o meu ajudante favorito, embora isso talvez se devesse ao fato de ser o único que eu tinha, tinha discordado sobre a ampliação da sala a princípio. Mas eu tinha um forte propósito por trás dessa mudança. Há alguns dias, eu tinha finalmente descoberto o que tanto Edward rabiscava em seus papéis. Depois de uma boa dose de pressão maternal, ele acabou revelando que possuía um piano em seu quarto e às vezes, ele compunha algumas coisas.

Meu filho tinha talento musical e mantinha esse talento confinado em um quarto um tanto quanto claustrofóbico pela presença de um enorme piano. Em todos aqueles meses, algumas vezes eu tinha ouvido sons de piano vindos do quarto dele, mas pensei que era alguma gravação em uma daquelas vitrolas. No que dependesse de mim, o piano não ia passar nenhum segundo além do necessário dentro daquele quarto.

Quando eu revelei o meu propósito, assim que terminamos a reforma, Edward não ficou muito contente. Mas nada que uma nova dose de persusão não resolvesse.

- Porque você não deixa o piano no meu quarto? – ele perguntou, aborrecido.- Eu gosto dele lá.

- Eu sei que você gosta, Edward. Mas eu tenho bons motivos. – ele arqueou a sombrancelha, duvidando dos meus motivos. – Primeiro, porque seu quarto fica praticamente intransitável com essa monstruosidade no meio dele.

- Não se chama um Sohmer de monstruosidade. É um piano magnífico.- ele replicou, horrorizado.

- Um piano magnífico que está tornando o seu quarto intransitável. Pianos não merecem ficar confinados em um quarto, são incríveis demais para isso.- eu estava determinada a colocar o piano na sala. – Segundo, porque eu quero ouvir você tocar. E eu me sentirei muito mais confortável assistindo você sentada no sofá da sala que pendurada no lustre do seu quarto, que é o único lugar disponível. – Edward revirou os olhos, exasperado com minha mania de exagerar. – Portanto, o piano vai para a sala.

- Sim, mamãe. – ele murmurou entre os dentes, sem esconder sua irritação. – Mas depois não reclame se me ouvir tocar o tempo todo começar a lhe dar nos nervos.

Eu sorri, liberando o espaço na sala onde o piano ficaria. Em segundos, Edward descia as escadas, levando o piano até o espaço reservado para ele. Eu me afastei, analisando o efeito geral do ambiente. Perfeito.

- Muito melhor que trancafiado dentro do quarto.- eu pensei em voz alta. Edward também observava, conformado. – Você nunca disse que tocava.

- Eu aprendi quando ainda era uma criança. Sempre gostei de música.

- Você... se importaria em tocar pra mim? – eu pedi, meio sem jeito.

- Claro que eu toco. – Edward sorriu. – O que você quer ouvir?

- Se você quiser me mostrar o que estava compondo naqueles papéis... eu não entendo muito de cifras musicais, então eu estou bem curiosa.

- Certo. – Edward sentou no banquinho em frente ao piano e eu me acomodei no sofá à direita dele.

A melodia começou baixa, um tanto melancólica e foi se suavizando à medida que subia um ou dois tons. Eu o observei, completamente concentrado enquanto percorria os dedos pelo piano, extraindo das teclas uma melodia tão linda, tão terna que me deixava completamente encantada, completamente hipnotizada.

Era fantástico vê-lo tocando as teclas, em uma parte extremamente romântica da melodia. Eu sorri, o orgulho tomando conta de mim. Meu filho era extremamente talentoso e sensível a ponto de compor aquela música tão encantadora. Quando ele tocou os acordes finais da melodia, eu sabia que estaria chorando rios de lágrimas se pudesse.

- O que você achou? – ele perguntou, nervoso ao me ver tão quieta.

- Oh, Edward! – eu murmurei, ainda sob o encanto da música. – É maravilhosa, filho. Tão encantadora, chega a ser deslumbrante. – eu não tinha palavras pra descrever o que eu senti ao ouvir aquela melodia. – Você estava pensando no que quando a compôs? – imediatamente, eu achei que estava sendo curiosa demais. – Ah, não precisa contar, eu falei antes de pensar.

Edward sorriu, os olhos brilhando de contentamento. Ele não parecia ter se aborrecido com minha pergunta, muito pelo contrário, parecia extremamente satisfeito com a minha curiosidade.

- Não foi bem um pensamento e sim, uma inspiração. E fico feliz ao saber que você achou a música deslumbrante, já que eu achava ser impossível transformar em melodia o deslumbramento que eu podia observar. – eu não estava entendendo o que ele estava dizendo, o que ele vira que era tão deslumbrante?

O sorriso dele se alargou ao ouvir meus pensamentos.

- Eu não vi nada. Você que viu. Eu fiz essa melodia inspirado pelos seus pensamentos, pelo seu deslumbramento, pelo seu amor. Por tudo que eu tenho presenciado entre você e o Carlisle.

Eu tinha inspirado uma música. Uma música linda, na verdade, a música mais linda que eu já tinha ouvido tinha sido inspirada nos meus sentimentos. Se eu já não amasse o Edward como um filho, teria começado a amar nesse instante.

- Obrigada, Edward. – eu murmurei, incapaz de expressar o meu encantamento com o gesto dele. – Eu... eu nem sei o que dizer, filho. Obrigada.

- Foi um prazer. – ele sorriu pra mim. – E então, já enjoou de me ouvir? – ele gracejou, começando a tocar For Elise.

Alguns dias depois, Edward disse que ia até Milwaukee, para comprar algumas coisas. Algo sobre a tinta ter acabado e precisar de livros de francês. A idéia de ir passear na cidade me soava bastante agradável, uma vez que tirando a visita aos Denali, eu não saía de casa há quatro meses, três semanas e vinte dias, pra ser exata. Edward não gostou muito da direção dos meus pensamentos, mas Edward costumava ser tão exagerado quanto eu, ás vezes. Não que eu fizesse pouco da tentação que o sangue humano era para nós. Eu sabia da dificuldade que eu teria em manter o controle.

Mas não era por isso que eu ia passar uma década inteira enfurnada dentro de casa. Meu controle podia não ser dos melhores, mas não era por isso que eu ia sair atacando pessoas no meio da rua. Aprender a manter o controle não era uma opção, era praticamente um pré-requisito para continuar com o nosso estilo de vida.

Carlisle não recebeu a notícia de minha curta viagem tão mal quanto Edward. Apesar de eu ter deixado bem claro que não estava pedindo a autorização de ninguém, era óbvio que se ele achasse melhor que eu não fosse, eu não ia discordar. Mesmo sem ler mentes, eu sabia que Edward estava torcendo pra Carlisle ser contra. Mas ele concordou e menos de quarenta e oito horas depois, eu arrastei um Edward ainda espantado com a decisão do pai para Milwaukee.

Resistir a tentação de tanto sangue humano pulsando ao meu redor não era uma tarefa fácil. Uma simples brisa fazia com que milhões de aromas invadissem minhas narinas, aromas de sangue quente e fresco. Não demorou para eu perceber que seria melhor não respirar além do necessário.

Enquanto Edward ia comprar o que precisava, eu passeava em frente as lojas, olhando as vitrines. Milwaukee parecia muito mais bonita que da última vez em que eu a tinha visto. As lojas, as ruas, tudo estava mais iluminado, mais encantador aos meus olhos. Provavelmente porque a minha vida tinha melhorado incrivelmente desde a minha última visita àquela cidade.

Minha última visita, assim como minha vida anterior, era algo que eu estava determinada a esquecer. Era algo que nunca deveria ter acontecido, uma verdadeira fatalidade. Eu tirei os olhos da vitrine, tentando mandar aqueles pensamentos de volta ao esquecimento. E me deparei com a verdadeira razão pela qual tudo se transformara em um pesadelo.

Charles Evenson estava na porta de um bar, conversando, ou melhor murmurando com uma ruiva que parecia beber nas palavras dele.

- Eu tinha uma esposa, sabe. Uma mulher desalmada, a minha. – ele olhou para a moça com a expressão mais enganadora do universo. – Ela foi embora pouco depois da minha volta da guerra.

- Meu Deus, como ela pôde? – a pobre moça parecia com pena dele. Ela não o conhecia tão bem quanto eu.

- E ela foi embora esperando um filho meu. – eu arregalei os olhos, espantada. Como ele soube do bebê? Alguém tinha dado com a língua nos dentes. – Meu único herdeiro, Harriet.

Herdeiro? Meu herdeiro, só se fosse. Charles Evenson não tinha lá muita coisa pra deixar de herança quando eu fui embora. A única herança que o meu filho poderia ter tido seria a minha herança, os meus bens por direito de nascença.

- Eu vou procurá-lo até o fim dos dias. Se ela quiser desaparecer, tudo bem, mas eu quero o meu herdeiro.

Naquele instante, eu entendi. Charles Evenson nunca dava ponto sem nó. Ele não queria o herdeiro dele, queria o meu. O plano dele era me encontrar e levar o herdeiro que ele pensava ter, o herdeiro das fazendas e bens dos Platt. Charles queria roubar o meu dinheiro e o filho que ele julgava ter.

A raiva que eu senti naquele instante foi tão forte que eu me vi correndo até Charles e arrancando a cabeça dele, ali mesmo, no meio de uma das ruas principais de Milwaukee. Mas eu não podia fazer isso, não podia expor a família. Eu me concentrei no fato de Charles estar cercado de pessoas inocentes. Tão inocente quanto eu um dia tinha sido, quanto o meu bebê morto. Eu não matar nenhuma pessoa inocente. Eu me escondi na esquina, esperando minhas emoções se acalmarem, simplesmente esperando. Eu iria embora e Charles continuaria ali, vivo.

Vivo, enquanto meu bebê estava morto. Vivo, pra transformar a vida de outra pessoa, provavelmente da pobre Harriet, em um inferno. Charles vivo não era algo bom de se pensar. Eu não ia matá-lo ali, no meio de outras pessoas, mas tampouco teria outra oportunidade de exterminá-lo.

Charles resolveu meu impasse no instante em que saiu do bar em direção a um beco. Passava das nove da noite e o beco era escuro. Eu o segui, mantendo meus pensamentos em uma bolsa linda que eu tinha visto em uma loja. Edward tinha que pensar que eu estava distraída olhando vitrines e não perseguindo um humano, ou seja lá o que Charles Evenson fosse.

Eu tinha poucos minutos pra agir. Soltei meus cabelos e corri até a próxima esquina, esperando Charles passar.

- Charles. – eu murmurei com minha voz mais doce. Eu queria que ele sofresse. Sofresse muito.

Charles parou, seduzido pelo som da minha voz. Eu respirei fundo, deixando a tentação do sangue percorrer meus sentidos, melhorando meus instintos. A caça tinha começado.

- Charles, querido. Venha aqui. – ele veio em minha direção. – Não lembra de mim? – eu deixei a luz dos lampiões me iluminarem.

- Es.... Esme? – os olhos dele se arregalaram de surpresa e pavor. Charles não estava acostumado a sentir medo. Ainda mais medo de sua esposa, ou melhor seu antigo saco de pancadas favorito.

- Eu mesma. – eu sorri, antecipando meu triunfo. Eu não era mais a apavorada garota que tremia de medo do marido mais forte. Agora eu era a mais forte.

Charles se encheu de coragem e me encarou com o olhar que me fizera tremer de medo por semanas seguidas.

- O que você fez com... o meu filho?

Em um segundo, minha mãos estavam no pescoço de Charles, sem fazer muita pressão.

- Não ouse falar do meu filho, seu cretino! – meus olhos se estreitaram em fúria.- Você vai ter o que merece, desgraçado! – milhões de maneiras de torturá-lo passaram pela minha mente. Mas eu não ia ter tempo pra nenhuma.

Eu senti a presença de Edward há menos de cinco minutos de distância. Não haveria tempo para uma grande tortura, como eu havia planejado. Mas eu o faria sofrer. Com um movimento rápido, quebrei o braço de Charles como se fosse feito de papel. O grito que ele soltou era alto o suficiente pra acordar os mortos.

- Ninguém virá salvá-lo. Demônios não tem salvação. – eu o interrompi quando ele começou a gritar por socorro. Eu também tinha implorado por ajuda, um dia. Mas ninguém tinha me ajudado.

Com um chute, transformei o joelho dele em uma massa ensanguentada. Charles berrava feito o covarde que sempre tinha sido. A fúria cega me levou a arrancar o ombro dele do lugar e quando o osso perfurou a carne, o sangue dele caiu no meu rosto.

- Você está morto, Charles Evenson. – eu mordi o braço dele, com muito mais força que o necessário. Eu poderia ter destruído uma barra de ferro com aquela mordida, um braço não era nada.

Depois de drenar todo o sangue do corpo de Charles Evenson, eu me arrependi. Não de tê-lo matado e sim de ter bebido o seu sangue. Tinha sido uma fraqueza, eu jamais deveria ter me alimentado dele. Mas arrependimento não me levaria a lugar algum, agora.

- Mas ajudaria bastante. – Edward afirmou, como sempre, respondendo ao meu pensamento. Eu recuei, assustada com a chegada silenciosa dele.

- Você estava... distraída. – ele me encarou, sombrio. – Eu sabia que não devia ter trazido você. Droga, mil vezes droga!

A visão de Edward me trouxe de volta do furor homicida. E a realidade não era nada acolhedora. Eu tinha perseguido, assassinado e me alimentado de uma pessoa. Em poucos instantes eu tinha me transformado no monstro que eu prometi a mim mesma jamais me tornar. Tudo por causa de uma maldita vingança estúpida.

- Eu não devia ter vindo aqui. – eu murmurei, encarando o corpo de Charles. – Droga, eu não podia ter feito isso.

- Não, não podia. – Edward confirmou, aborrecido. – Mas fez. Diabos, eu não devia ter te deixado sozinha, se eu estivesse onde deveria estar, não haveria nenhum inocente morto.

Charles sendo considerado um ser inocente era um absurdo tão gritante que se não fosse uma tremenda falta de educação rir próximo a um morto, eu teria dado uma sonora gargalhada.

- Não há inocente algum. Se existe alguém nesse mundo que jamais poderia ser considerado inocente de qualquer coisa, esse alguém é Charles Evenson.

- Charles o quê? – Edward estreitou os olhos. – Você conhecia esse cara.

Eu rapidamente pensei em todas as barbaridades que eu lembrava ter sofrido nas mãos de Charles. Minhas memórias humanas estavam meio embaçadas, mas ainda eram nítidas o suficiente pra demonstrar a baixeza de Charles.

- Queime no inferno, maldito! – Edward olhou pro corpo de Charles com extrema repulsa, apanhou vários papelões que estavam espalhados no beco, jogou por cima do corpo e tacou fogo em tudo.

Nós observamos o corpo queimando lentamente em silêncio. A expressão de Edward refletia a minha própria ao observar o fim de Charles. Uma expressão de alívio e leve triunfo. Saber que agora Charles devia estar no inferno, pagando por seus pecados, fazia com que eu me sentisse muito bem. Mesmo que eu tivesse feito o trabalho sujo de enviá-lo ao inferno.

- Você fez um serviço humanitário. – Edward afirmou, sério. – Um verdadeiro ato caridoso. Ninguém mais vai precisar temer esse monstro.

Eu assenti, embora não acreditasse muito nisso. Por um lado, eu saboreava o prazer da vingança. Devolver a Charles um pouco do seu próprio veneno tinha sido bastante prazeroso. Vê-lo sofrendo e apavorado depois de tudo que ele me fez passar era algo impossível de explicar. Era vingança pura.

Por outro lado, a culpa estava me consumindo. Não culpa por ter matado Charles e sim por ter matado, seja lá quem fosse. Propositadamente, eu tinha me aproveitado do fato de ser uma recém-nascida pra aniquilar um ser humano. Eu sabia que não poderia parar no instante em que eu começasse a caçar e mesmo assim eu me permiti caçar. Eu me permiti caçar um humano.

Não precisava de um espelho para enxergar no que eu tinha me transformado. Meus olhos gritavam aos quatro ventos que eu era uma assassina. Tinham passado do vinho-amarronzado de quem está deixando aos poucos de ser um recém-nascido para o burgúndia de quem passa os dias matando pessoas. Declaravam meu crime para quem quisesse ver.

Eu tinha feito uma coisa pela qual eu não podia me perdoar. Eu tinha decepcionado Carlisle. Ele tinha me oferecido uma maneira de não ser um monstro sem alma, sem coração e o que eu fazia? Por um sentimento tão mesquinho como a vingança, eu tinha jogado tudo fora. Eu nunca teria coragem de encará-lo e ver a decepção no rosto dele. Não que eu fosse capaz de desaparecer da vida dele, mesmo sabendo que eu não o merecia. Mas talvez eu pudesse me esconder por uns dias, até a vergonha e a culpa se tornarem suportáveis, até eu ter coragem...

- Nem pense nisso! – Edward interrompeu meus pensamentos. – Carlisle vai ter um surto e arrancar o meu pescoço se você não voltar comigo pra casa. Eu não estou exagerando, ele vai mesmo ter um ataque se você simplesmente sumir. – Edward segurou o meu pulso esquerdo, transformando sua mão em uma espécie de algema improvisada. – Desculpe, mãe, mas eu não vou deixar você ir. Eu realmente gostaria de continuar vivo.

Edward estava apelando. Mais uma vez, ele usava o amor maternal que eu tinha por ele pra me manipular. Mesmo que eu não acreditasse nem por um instante que Carlisle pudesse machucá-lo. Mas eu sabia que não poderia, além de decepcioná-lo, preocupá-lo, deixando-o sem saber onde eu estava.

E também sabia que no instante em que eu estivesse perto dele, eu não seria capaz de deixá-lo por nada no mundo. Como mentir pra Carlisle era algo completamente fora de cogitação, só me restava uma opção: Contar toda a verdade.

Edward me encarou, silencioso. Pela primeira vez em muito tempo, Edward não manifestou sua opinião. O que significava que a minha escolha não tinha sido das melhores, apesar de ser a única que eu tinha. Se eu não podia mentir e não podia ir embora, só me restava encarar os fatos.

Conformada com o que me aguardava, eu acompanhei Edward de volta pra casa, onde eu ia encarar as consequências do que eu tinha feito. Pra minha infelicidade, Edward estava decidido a correr da forma mais devagar possível, tentando adiar o inevitável.

Assim que nós chegamos no portão de casa, eu pude sentir a presença de Carlisle. Droga, eram onze e quarenta e cinco da noite. Carlisle deveria estar no plantão, como em praticamente todas as noites. Mas de todas as noites, ele tinha escolhido justo essa pra ficar em casa. Eu não estava com muita sorte.

Cada vez mais nervosa, eu me forcei a entrar em casa. Carlisle estava sentado no sofá da sala, lendo um jornal, a expressão da serenidade. Eu me forcei a observar o chão, envergonhada demais pra encará-lo. A pouca coragem que eu tinha reunido desapareceu. Eu não estava preparada pra ver a decepção nos olhos dele.

Carlisle ergueu os olhos do jornal e me encarou. Imediatamente, eu espelhei o movimento dele, uma reação que já estava me dando nos nervos de tão inconveniente. A surpresa tomou conta da expressão dele assim que nossos olhares se encontraram.

Eu queria desaparecer naquele instante. Eu não ia suportar ver que ele estava decepcionado comigo. Carlisle não merecia passar por isso, ele tinha confiado em mim. Eu não merecia a confiança dele, eu não o merecia.

- Por favor, Carlisle, me perdoe. – eu murmurei e saí correndo dali como uma covarde, incapaz de encarar os próprios atos. Eu fugi pra floresta, onde eu não precisava ver a mágoa e a decepção que eu tinha causado.

Carlisle POV.

Ela tinha se alimentado de um humano. A mudança na cor dos olhos dela não deixava espaço pra nenhuma dúvida. Esme, minha Esme, havia perdido o controle e atacado um humano.

Era uma coisa ruim? Com certeza. Mas era a nossa natureza e nem sempre conseguiamos contê-la, principalmente quando se é um recém-nascido como ela. Em que diabos eu estava pensando quando concordei com aquela ida até Milwaukee?!

Todos os meus pensamentos desapareceram quando eu reparei na expressão dela. Esme estava olhando pra mim como se estivesse em intensa agonia. A dor tão explícita nos olhos dela me deixou sem ação.

- Por favor, Carlisle , me perdoe. – ela murmurou em um tom choroso.

Antes que eu pudesse detê-la, ela saiu correndo em direção à floresta, me deixando completamente desnorteado.

Eu tentei manter um raciocínio lógico. Esme não encararia o fato de ter se descontrolado de forma tranquila. Ela provavelmente estava se recriminando sem parar, morrendo de vergonha de si mesma. Assim que descobriu no que eu a tinha transformado, sua primeira preocupação tinha sido em relação a matar pessoas e agora ela tinha matado. Eu não podia deixá-la passar por isso sozinha.

- Onde ela está, Edward?! – eu gritei, nervoso, incapaz de me concentrar o bastante para rastreá-la.

- Não muito longe, uns dois quilômetros ao oeste.

Eu saí atrás dela assim que Edward me passou as direções. Eu tinha que achá-la, eu queria estar com ela, apoiá-la, mesmo que ela quisesse ficar sozinha. Depois de minutos intermináveis de busca, eu senti a presença dela. Esme estava sentada em um galho quase no topo de uma árvore, encostada no tronco, os olhos fechados.

Ela parecia tão triste, tão deprimida que doía olhar pra ela. Eu escalei a árvore o mais silenciosamente que eu pude, tentando não assustá-la, mas ela estava tão perdida em seus pensamentos que só me viu quando eu estava poucos galhos abaixo dela.

Antes que ela pudesse se afastar de novo, eu me sentei no mesmo galho que ela, impedindo-a de fugir.

- Não vá embora. – eu pedi, sem conseguir me conter. Eu estava oficialmente desistindo da promessa que eu tinha feito a mim mesmo de deixá-la ir se ela quisesse. Eu não podia deixá-la ir, nem nunca poderia. Aquilo estava claro pra mim agora.

Eu tinha passado tanto tempo preocupado com a dependência que ela tinha em relação a mim que tinha subestimado a minha dependência dela. Eu estava completamente preso a ela, o simples pensamento de que eu poderia ficar sem ela me enlouquecia de dor. Dor física, mental, psicológica, todos os tipos de dor existentes e os que ainda seriam descobertos.

Eu não poderia viver sem minha vida e faria qualquer coisa pra impedi-la de ir.

- Eu fiz uma coisa terrível, Carlisle.- ela sussurrou, fechando os olhos.

- Não, querida. Você perdeu o controle. Esse é um risco que corremos por contrariar a natureza, um risco que eu escolhi correr.

Esme me encarou, estreitando os olhos. Ela sempre sabia quando eu me culpava por alguma coisa.

- Não é sua culpa. Nada do que eu fiz hoje é culpa de alguém além de mim. Eu fiz algo lamentável hoje. Eu decepcionei e magoei você. Sinto muito.

- Esme..

- Eu matei uma pessoa. Deliberadamente. No minuto em que eu coloquei os olhos no cretino que era meu marido, eu escolhi matá-lo. Eu tinha que matá-lo.

Esme me contou a história do seu infeliz casório. E quanto mais eu ouvia, menos eu podia acreditar nos meus ouvidos. Ela tinha me dito que o marido era um monstro, mas eu não podia imaginar tamanha monstruosidade. Além de mantê-la em um estado de completo pavor por anos a fio, o desgraçado batia nela.

Um cretino qualquer tinha espancado por várias vezes a criatura mais amorosa, encantadora e doce do universo. Só de pensar que um ser tão desprezível tinha tido o atrevimento de machucá-la, eu me enfurecia. Charles Evenson, que Deus o mantivesse no inferno pela eternidade, tinha muita sorte por estar morto.

Se eu o tivesse encontrado, eu duvido que a morte dele teria sido tão tranquila. Mesmo odiando violência, eu teria feito com que ele sofresse tanto quanto ela tinha sofrido.

Eu senti meu corpo enrijecer, tentando controlar a fúria que me consumia. Ele tinha feito ela sofrer. Mantive meus punhos fechados ao lado do corpo, tentando conter a necessidade de destruir alguma coisa. Uma necessidade que estava se tornando cada vez mais forte.

Antes que eu fizesse alguma besteira, como encher a árvore onde nós estávamos de socos, eu me afastei um pouco, ocupando minhas mãos esmigalhando um pequeno galho no lugar da cabeça daquele imbecil. Eu o odiava como eu nunca tinha imaginado ser capaz de odiar alguém.

- Carlisle? – Esme se aproximou de mim, preocupada. Eu a encarei, ainda sob o efeito da raiva.

- Aquele... maldito machucou você. Como ele foi capaz de tocar em você?!

Os olhos dela se arregalaram ao ver o meu aparente descontrole. Eu nunca tinha me sentido tão instável em meus quase trezentos anos de vida, nunca tinha me enfurecido tanto a ponto de mal conseguir raciocinar. Naquele momento, tudo que eu queria era aniquilar o desgraçado que tinha machucado a Esme.

Eu tentei voltar ao meu costumeiro controle, temendo que eu acabasse assustando-a. Mas minha recém-descoberta ânsia por vingança era forte demais pra ser controlada, por mais que eu tentasse.

- Por favor, Carlisle, se acalme. – Esme me implorou, extremamente aflita. Eu realmente devia estar assustando-a. Como se ela precisasse de mais esse trauma hoje.

Antes que eu decidisse se devia ou não me afastar até que eu estivesse controlado de novo, ela decidiu por mim. Esme tocou o meu rosto com a ponta dos dedos, fazendo com que eu a encarasse. O toque suave dela mandou pequenas descargas elétricas por todo o meu corpo. Era incrível como mesmo em um estado de latente descontrole, ela me fazia desejá-la com um simples toque.

Eu a puxei pra perto de mim, colocando meus braços ao redor do corpo dela. A presença dela tão próxima de mim parecia colocar a raiva um pouco de lado.

- Ninguém nunca mais vai machucar você. – eu prometi, prendendo os olhos dela nos meus. Eu ia fazer tudo que eu pudesse pra me certificar que ela nunca mais passasse por qualquer tipo de sofrimento. – Nunca mais.

Ela sorriu pra mim, o sorriso encantador que eu adorava estava de volta no rosto dela.

- Eu sei, Carlisle. Eu estou com você. – ela disse, como se ela soubesse da promessa que eu tinha feito a mim mesmo segundos atrás.

- Você realmente confia em mim.- eu sempre me surpreendia com a maneira incondicional como ela confiava em mim. Ela nem mesmo tinha recuado ao me ver perdendo o controle, como qualquer outro vampiro faria, mesmo um companheiro se afastava quando o outro estava descontrolado.

- Claro que eu confio.- ela afirmou, sem entender a minha surpresa. – Eu amo você.

Sempre que ela dizia isso, meu coração ameaçava se partir ao meio. Porque eu acreditava nela, mas ainda assim, sabia que ela não me amava. E mesmo assim, eu me pegava desejando com todas as minhas forças que ela me amasse.

Mas dessa vez, algo no jeito como ela falou, fez com que eu me sentisse esperançoso. Talvez eu estivesse errado, afinal, ela se comportava como se ela realmente me amasse. Eu estava bastante tentado a acreditar no que ela dizia. E então meus olhos encontraram os dela mais uma vez.

Quem inventou a expressão "os olhos são o espelho da alma" devia ter imaginado os olhos da Esme. Os olhos dela eram tão expressivos que eu só podia culpar a mim e a minha teimosia por não ter percebido o que estava o tempo todo na minha frente.

Ela me amava. O amor que eu via nos olhos dela era um amor quase tão grande quanto o que eu sentia por ela. Eu a encarava, completamente encantado. Depois de quase três séculos de solidão, eu tinha encontrado o amor, eu a tinha encontrado.

Eu quase não acreditava na minha boa sorte. A mulher mais encantadora, doce e amorosa de todo o universo tinha se apaixonado por mim. Minha Esme me amava.

- Eu também amo você. – eu respondi, mandando a minha promessa anterior de fingir não amá-la para o inferno. Eu estava cansado de conter minha felicidade.

Esme sorriu, os olhos brilhando tanto que poderiam ser facilmente confundidos com duas estrelas. Ela me olhou com um pouco de cautela, como se temesse ter escutado errado.

- Esme, eu amo você. Você não tem idéia do quanto. – eu repeti, tentando convencê-la.

- Mesmo eu sendo uma assassina? – ela perguntou, a incerteza explícita em sua voz.

- Se fosse o contrário, se eu tivesse matado alguém, você não me amaria mais por causa disso?

- Carlisle, eu continuaria te amando mesmo se você tivesse exterminado todos os humanos do planeta. Eu não sei como não amar você. Mas... você se empenha tanto em preservar as pessoas e eu... bem, e se eu não conseguir me controlar mais?

- Nós arrumaremos uma maneira de lidar com isso, se for necessário. Você é minha companheira, minha vida. Eu não posso viver sem você.

Esme me olhava como se eu tivesse dito a ela que ela tinha ganho o que queria de Natal. Ela ficava esplêndida quando estava feliz, completamente irresistível. Ela colocou os braços ao redor do meus pescoço e aquele contato, aquela proximidade teve um efeito semelhante ao de ser atingido por um raio sobre os meus sentidos.

O corpo dela estava tão colado ao meu que eu podia sentir cada músculo dela contra o meu. Meus olhos se perdiam nos dela, enquanto a respiração dela se acelerava em expectativa. Gentilmente, eu encostei meus lábios nos dela, tentando manter as coisas tranquilas.

Esme não parecia gostar das coisas tranquilas. Os dedos dela percorreram o meu peito, o toque dela me deixava em chamas. Ela colocou as mãos por baixo da minha camisa, pele contra pele, fazendo meu corpo todo tremer de desejo.

Meu tremor fez a árvore tremer também, me recordando das chances elevadas que nós tinhamos de colocar aquela árvore no chão se continuassemos daquele jeito.

- Esme... – eu a afastei um pouco.- A árvore... não aguenta. – eu expliquei, meio ofegante.

- Ah. Eu tinha esquecido. – ela respondeu, respirando fundo.

Eu a encarei, ainda maravilhado com o fato dela me amar. Ela era minha para sempre, mas eu queria que ela fosse minha legalmente falando. Nós podíamos viver no início do século vinte, mas eu trazia comigo as maneiras do século dezessete. Eu queria que ela tivesse meu nome, fosse minha esposa. O mais rápido possível.

- Esme, querida. – eu segurei a mão dela entre as minhas.- Talvez não seja a melhor hora, mas eu realmente não quero esperar nem mais um segundo. – ela me encarou, curiosa. – Esme Anne Platt Evenson, você aceita ser minha esposa?

Ela mordeu o lábio e eu pude ver que os olhos dela estavam brilhando como se estivessem cheios de lágrimas. Eu esperei que ela se acalmasse, ansioso pra ouvir o que ela ia responder.

- Oh, meu Deus! – ela exclamou. – Eu... Deus do céu, Carlisle, claro que eu aceito!

Eu beijei a mão dela, resistindo a tentação de beijá-la nos lábios. Eu queria mostrar algo a ela, coisa que não poderia fazer se estivesse ocupado colocando uma árvore abaixo.

Segundos depois, eu a coloquei sentada na poltrona do meu escritório enquanto eu tirava da primeira gaveta algo que eu esperava que ela gostasse. Eu estava incrivelmente nervoso, eu nunca tinha pedido ninguém em casamento nem comprado um anel pra uma mulher antes. Eu não fazia a menor idéia de como agir nessas ocasiões.

Eu me ajoelhei na frente dela, segurando uma caixinha de veludo. Esme adivinhou no mesmo instante do que se tratava.

- É... é pra mim? – ela não fazia idéia do quão adorável ela estava, olhando com curiosidade pra caixinha.

- É. – eu abri a caixinha e coloquei o anel no dedo anelar dela. – Quando eu fui na joalheria, a moça me disse pra trazer uma esmeralda pra você. Ela é espanhola e quando eu falei o seu nome, ela disse que o seu nome, Esme, era uma variação de Esmeralda. Depois disso, não fazia sentido pra mim dar outra pedra pra você.

Ela observou o anel e sorriu o meu sorriso favorito. Eu respirei aliviado ao ver que ela realmente tinha gostado.

- Você é incrível, Carlisle. Incrível. Eu adorei o anel, é perfeito. – ela se atirou nos meus braços, radiante.

Eu a abracei, contente. A mulher que eu amava, me amava também e muito em breve, seria minha esposa. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eu estava verdadeiramente feliz.


N/A: AAAAAh, o amor é lindo!! Como todo mundo viu, eu voltei a usar o Carlisle como narrador. Não resisti XD Bom, espero que vocês tenham gostado do capítulo e que me perdoem pela demora! Para os que desejam o próximo capítulo, mandem reviews!!