Capítulo 9

Flashback

Música: All I Wanna Do, Christina Aguilera.

All I wanna do everyday and night
Is love you forever
Wanna rap my arms around you
All I wanna do is to hold you tight
Hold you forever, never never let you go

Aquele dia tinha tudo para ser o pior dia de todo aquele ano, e nem o fato de ser o seu aniversário fazia parecer melhor. Mas aquele pequeno fio de esperança persistira em reinar dentro de seu peito desde que acordara e descobrira que o namorado havia saído, algumas horas mais cedo, para atender alguma emergência.

Oh, bem, não podia pedir para as pessoas não ficarem doentes somente porque estava fazendo dezenove anos. Contentara-se com o breve bilhete que Pierre deixara para trás, explicando rapidamente o que acontecera, completando com um singelo pedido para que lhe ligasse.

E o fizera, recebendo um animado – embora apressado – cumprimento do mais velho, que aproveitou a deixa e lhe convidou para almoçarem juntos, prometendo que passariam a tarde toda juntos.

David não queria, realmente, descobrir como o namorado conseguia tantas tardes de folga, mas não se atrevia a reclamar: apesar de sentir-se egoísta, gostava de saber que Pierre queria passar consigo o dia todo de seu aniversário.

Quando terminara de combinar tudo com o médico, encaminhou-se para sua sala da faculdade, permitindo-se divertir com a aula prática de direito ambiental.

No intervalo, permitira-se ligar para os pais, descobrindo que havia acontecido algum problema nas propriedades que seu pai mantinha na Europa, e que ele precisara ir para lá ás pressas na noite anterior: como sabia que isso não interessava á sua mãe nem minimamente, permitiu-se cogitar o que ela queria comprar em Paris – rotina a qual ela cumpria sempre que ia para a Europa.

O resto de sua manhã passara numa lentidão agonizante, e ele não se surpreendeu a notar que, a cada cinco minutos, olhava para o relógio, querendo que o tempo passasse logo para que pudesse ficar com Pierre.

You, you are the only one I dream about
And you, you got the love I just can't be without
You know I think about you everyday, on the real
When you walk by my poor heart it skips a beat
I look in your eyes and can't even speak
You
take my breath away

Quando o professor dispensara a turma, David não perdera nem um segundo a mais na sala: juntando o seu material de forma rápida, e carregando os grossos livros nos braços, caminhou apressado para o lado de fora da faculdade, não tendo dificuldade em encontrar o carro negro de Pierre no meio de toda a confusão que se formava todos os dias em frente ao portão, quando pais e namorados iam buscar quem quer que fosse.

Almoçaram num agradável restaurante japonês, conversando sobre banalidades e rindo. E, quando estavam caminhando, de mãos dadas, até o carro, Pierre comentara que queria fazer uma pequena viajem e, erguendo as sobrancelhas, David perguntara aonde o namorado iria lhe levar, sendo respondido apenas com um beijo longo.

As próximas horas foram perdidas na estrada, enquanto eles conversavam sobre nada em particular, com o rádio rodando um CD qualquer que David achara esquecido no porta-luvas.

No meio da tarde, eles finalmente chegaram e David entendeu o porquê de ter demorado tanto; Pierre simplesmente caçara a praia mais próxima possível de Montreal – fosse ela onde fosse, David pensou; nunca fora realmente bom em geografia –, e lhe levara até lá.

O dia ali estava quente como o inferno, mas isso não fez a tarde ser menos perfeita; visitaram pequenos pontos turísticos, rindo das coisas mais bobas; perderam algum tempo, em um canto qualquer daquela cidade, apenas namorando.

Ao final da tarde, foram andar á beira do mar, as mãos dadas, os pés tocando a areia fofa, enquanto eram acariciados pela água quente do mar, que ia e vinha calmamente.

Os tons alaranjados tomavam o céu, num show de cores quase divino; e ter esse espetáculo quase que apenas para eles dois, era algo que David não achava que pudesse devolver ao namorado.

All I wanna do everyday and night
Love you forever
Wanna rap my arms around you
All I wanna do is to hold you tight
Hold you forever, and never neve
r let you go

Suspirando pesadamente, apertou os dedos contra a mão quente entre a sua, chamando a atenção do maior, que girou a cabeça de modo que pudesse lhe olhar; um sorriso nos lábios bonitos, revelando os dentes brancos e perfeitamente alinhados.

Sorriu de volta, antes de parar de caminhar, obrigando-o a fazer o mesmo e ficar de frente para si, de modo que pudesse enroscar os braços em torno do pescoço dele e, ficando nas pontas dos pés, tocou-lhe os lábios com os próprios, num roçar singelo.

Os rostos se afastaram, como se um choque houvesse sido dado com o toque mínimo; os corpos se colaram mais. Uma das mãos de Pierre pousaram na base da coluna de David, puxando-o ainda mais de encontro ao seu corpo, enquanto a outra mão ia acariciar a nuca do namorado.

Os olhos fechados, os corações disparados, chicoteando as caixas torácicas, implorando para que todo aquele turbilhão de sentimentos fosse liberto; respirações ofegantes e corpos ligeiramente trêmulos: tudo os permitindo saber que, não importava quanto tempo passasse, sempre iria parecer ser a primeira vez que iam se beijar.

Pressionou, levemente, a mão contra a nuca do menor, aproximando o rosto dele do seu; delirando com o roçar dos lábios; ofegando com os dentes pequenos mordiscando seus lábios; rindo de suas tentativas frustradas de aprofundar o toque.

Sentiu o arrepio correr sua espinha, delicioso, quando os dedos pequenos e quentes seguraram seu maxilar de forma possessiva, enquanto os lábios finos e bonitos soltavam um resmungo.

-Me beija. – o pedido veio num sussurro ofegante, enquanto a mão pequena puxava seu rosto na direção do dele de forma leve, dando-lhe a liberdade de continuar com a brincadeira delirante.

Ohh I, I lie awake at night and wish for you
Ohh I, I say a prayer you'll make my dream come true
I want your kiss, want your love and I need your touch
I want you here right beside me, I need you so much

Era maravilhosa a maneira como David lhe fazia sentir-se; era maravilhoso sentir o coração disparar com apenas um sorriso dele; era maravilhoso sentir-se um bobo apaixonado sempre que tinha os braços magros enroscados em seu corpo, enquanto ele lhe olhava implorando, com aquelas íris magníficas, para que fosse beijado.

Era delirante a forma como os lábios se encaixavam com perfeição; era delirante a forma que as línguas se enlaçavam, sempre com paixão; sempre com devoção. Beijá-lo era como alcançar o céu e voltar á Terra em questão de segundos.

E não conseguiu mais se contentar com o roçar dos lábios; não conseguiu mais se contentar com aquela brincadeira deliciosa: precisava sentir aquele toque ser aprofundado. Precisava sentir David colocar todos os sentimentos naquele ato.

Permitiu que um suspiro trêmulo escapasse por seus lábios, chocando-se contra os do namorado; seus dedos acariciaram a pele sensível da nuca do pequeno a sua frente, antes de forçar a cabeça dele de encontro a sua, fazendo os lábios se colorem num selinho longo.

Sentiu David apoiar-se completamente nos próprios pés, vendo-se obrigado a inclinar levemente para conseguir manter o contato; a mão pequena que ainda estava em seu pescoço correu por seu ombro, indo pousar sobre seu tórax, apertando um punhado do tecido da sua camiseta entre os dedos trêmulos.

Entreabriu os próprios lábios, forçando sua língua contra a boca do menor, que não demorou em ceder passagem, permitindo que as línguas se encontrassem, lentas, apaixonadas; completamente envolvidas naquele momento de nostalgia; completamente envolvidas naquele mar de sensações que nenhum dos dois achou existir e, no entanto, deliravam em estar vivendo-as ao lado do outro.

Os lábios se moviam contra o outro numa sincronia perfeita. Era como se o tempo houvesse parado; era apenas os dois: David e Pierre.

It doesn't matter if you take your time
As long as you'll be mine, yeah oh

All I wanna do everyday and night
Is love you forever
Wanna rap my arms around you
All I wanna do is to hold you tight
Hold you forever, and never never let you go

O vento soprava, leve, fazendo os cabelos dançarem no ritmo que era determinado; as ondas molhavam seus pés e o som das gaivotas, piando ao longe, era o único som que embalava aquele momento, juntamente ao das ondas se quebrando.

-Eu amo você. – David murmurou dentro de sua boca, antes de voltar a lhe beijar.

E ele poderia viver aquele momento para sempre; ele poderia morrer naquele instante, que o faria com extrema felicidade.

Era simplesmente fantástica a maneira como David se entregava aos momentos; era simplesmente fantástica a maneira que se sentia estupidamente feliz em saber que era capaz de causar as mesmas coisas em David, que ele causava em si.

Apertou o abraço, forçando o corpo menor mais contra o seu – como se isso fosse possível.

Queria sentir o calor da pele alva contra a sua; queria sentir o corpo trêmulo contra o seu; queria sentir o coração descompassado contra o seu. Queria amá-lo para sempre, mesmo sabendo que não seria o bastante. Queria senti-lo, como naquele momento, para o resto de sua vida.

Queria-o insana e completamente para todos os dias que ainda vivesse; queria protegê-lo; queria fazê-lo tão feliz quanto ele lhe fazia; queria fazê-lo lhe amar para o resto de suas vidas, como sabia que o amaria.

Os lábios se separaram apenas quando os pulmões começaram a implorar por oxigênio; os olhos continuaram fechados; os corpos tão unidos quanto antes; os lábios, trêmulos e avermelhados, roçando-se, enquanto as respirações ofegantes fazem o hálito quente chocar-se contra os lábios do outro, misturando-se.

Oh baby you and I should
Always be together this way
Forever and ever
Baby you and I could be loving one another
Over and over, day after day

-Casa comigo. – Pierre murmurou, por fim, abraçando o namorado com mais força. David arregalou os olhos, surpreso, deparando-se com um sorriso doce de Pierre, que lhe olhava.

Sentiu os olhos arderem; as mãos pequenas seguraram o rosto do namorado, enquanto esverdeadas fixavam castanhas.

-O quê? – foi a resposta trêmula e ofegante, completamente surpresa. Pierre sorriu, correndo as mãos pelas costas do outro, levando os dedos a perderem-se entre os fios sedosos do cabelo dele.

-Casa comigo. – repetiu. – Eu te amo mais que achei um dia ser capaz de amar alguém. – murmurou, permitindo que uma de suas mãos corressem pelo rosto do outro. Sorriu. – Eu quero você pro resto da minha vida; eu preciso de você. Estou completamente viciado nos seus olhos, no seu sorriso, na sua voz. Estou completamente dependente dos seus beijos, dos seus carinhos. Do seu amor. – inclinou-se o bastante para roçar a ponta do seu nariz no de David.

O menor permitiu que uma lágrima, solitária, escorresse por seu rosto, pressionando suas mãos contra as bochechas de Pierre; um sorriso surgindo em seus lábios, enquanto seu coração falhava um batimento, antes de voltar a bater, violento, num grito mudo de felicidade extrema.

-Ah, minha nossa. – murmurou, rindo de nada em particular, antes de simplesmente enroscar os braços, mais uma vez, ao arredor do pescoço de Pierre, apertando-o contra si. – É claro que eu caso.

Riram, permitindo que os lábios voltassem a se encontrar; os braços fortes de Pierre enlaçaram com força a cintura fina de David, puxando-o para cima, fazendo seus pés saírem do chão e suas mãos agarrarem-se com força aos ombros largos do outro, sem permitir que o toque das línguas fosse quebrado; Pierre girou ao arredor de si mesmo, arrancando uma risada divertida de David, que se permitiu depender completamente da força do namorado naquele instante, segurando-lhe o rosto entre as mãos quentes.

-Eu te amo. – murmurou; um sorriso magnífico nos lábios bonitos.

Pierre riu, esticando o pescoço para beijá-lo brevemente nos lábios.

-Tenho uma coisa para você. – informou, voltando a colocá-lo no chão; as mãos correram para o bolso de sua calça, tirando de lá uma pequena caixinha de um veludo azul-marinho.

David olhou-o, o sorriso nunca abandonando seus lábios. Pierre sorriu em resposta, antes de abrir a caixinha, revelando seu conteúdo.

O menor abaixou os olhos, para poder ver o que era: o par de alianças mais belo que ele podia lembrar-se de já ter visto em toda sua vida.

Eram feitas de ouro branco, com um fino fio de ouro dourado ordenando-a no centro; as luzes do pôr do sol fizeram-nas reluzirem e permitiu-lhe ver, no interior das jóias, o nome deles gravados.

Eram lindas, pensou; algo simples e não muito chamativo, mas era impossível não considerá-las de muito bom gosto.

-Pierre... – murmurou, erguendo os olhos para o namorado. – São lindas.

O mais velho sorriu, tirando a menor de dentro de seu suporte e, voltando a colocar a caixinha de seu bolso, segurou a mão direita de David, retirando-lhe a aliança de compromisso, substituindo-a pela nova.

Acariciou-lhe o rosto.

-Obrigado por me fazer a pessoa mais feliz do mundo.

All I wanna do (all I wanna do)
Everyday and night is love you forever
(Love you forever)
Wanna rap my arms around you
All I wanna do (all I wanna do)
Is to hold you tight, hold you forever
(Forever)
Ohh oh, yeah...

Fim do Flashback

-Isso é completamente antiético! – a voz dele soava por todo o cômodo, com a intensidade de um trovão, fazendo-lhe se encolher dentro seu jaleco, mesmo que ele não erguesse os olhos da pasta á sua frente. – Completamente! Achei que soubesse disso, doutor Bouvier!

E ele finalmente ergueu os olhos, lhe fixando maneira aniqüiladora e completamente assustadora. Engoliu em seco, erguendo as sobrancelhas.

-Eu sei que é antiético, doutor Stinco. – respondeu, ajeitando o corpo e colocando as mãos no interior do bolso de seu jaleco. – Mas o que o senhor esperava que eu fizesse?

Jean-François Stinco era um cara legal: do tipo comunicativo, brincalhão e risonho; gostava de ser chamado por seu apelido "Jeff". E, embora fosse amigo da maioria dos seus médicos – ele era o diretor daquela cede do hospital –, sabia separar perfeitamente sua vida social da profissional.

E era o ele estava fazendo agora.

-Que permitisse que o Doutor Hudson cuidasse do senhor Desrosiers; era isso que eu esperava que você fizesse. – ele respondeu, categórico, voltando as íris castanhas para as folhas a sua frente.

O problema todo, Pierre pensou, era que havia dado total conta de cuidar de David completamente sozinho, sem precisar da ajuda de um filhinho de papai que comprara tanto a vaga na faculdade quanto no hospital.

Jeff, pensou, estava apenas seguindo as ordens que lhe eram impostas: bem, dane-se. Não se importava se iria perder sua licença para exercer medicina, só sabia que arredaria pé dali quando tivesse certeza de que David não precisava de mais nenhum cuidado intensivo: ou seja, quando ele recebesse alta.

Cruzou os braços em frente ao peito, enquanto um bico completamente infantil surgia no canto de seus lábios.

-Eu não vou permitir que um cara que se corta com o próprio bisturi toque no meu marido. – ergueu as sobrancelhas, sarcástico. – Talvez quando ele aprender a se preocupar realmente com os pacientes, eu permita que ele tome as rédeas desse caso.

Jeff bufou, fechando a pasta com força e erguendo-se; a mão espalmada sobre a mesa.

-A família Hudson dá uma grande contribuição para o hospital, Bouvier, e não vai ser impedindo-o de trabalhar que você vai nos ajudar a manter essa renda.

Deu de ombros.

-Quando esse dinheiro não for desviado do hospital, bem... Aí eu não me preocupo mais com os pacientes que ele pegar: teremos equipamentos o bastante para concertar as idiotices que ele fizer.

Jeff revirou as íris, pressionando as pontas dos dedos no espaço entre seus olhos, suspirando cansado.

-Olhe, Pierre, você não pode cuidar do David, okay? Eu sei que você se preocupa e tudo o mais, mas você pode perder sua licença se continuar com isso. Além do que... – apontou para a pasta sob sua palma. – Eu andei lendo a ficha do David; o caso dele não é sua especialidade.

Pierre torceu os lábios, voltando a pôr as mãos no bolso.

-Mas é uma emergência. – mordeu o lado de dentro da bochecha. – Que, por sua vez, é uma das minhas especialidades. – Jeff cerrou os olhos.

-Você o ama, não ama? – perguntou, por fim, suspirando derrotado e sentando-se novamente na sua cadeira de couro.

Pierre suspirou.

-Demais.

-Então, deixe que outro médico cuide dele. – pediu. – Você tem um sentimento muito grande por ele, e isso é completamente perceptível. Não é um problema você desejar cuidar dele, mas não será objetivo no tratamento.

Fora a vez de Pierre suspirar derrotado, enquanto inclinava-se de modo que pudesse espalmar as mãos sobre a superfície abarrotada de papel, da mesa de Jeff.

-Não, Jeff. – crispou os lábios. – Eu não desejo cuidar dele: não é um capricho. Não é pra mostrar ao Hudson que eu posso ser objetivo quando se trata de uma das pessoas mais importantes para mim. Não é para provar que eu posso ser um bom médico. – soltou o ar, antes de puxar mais. – É uma necessidade. Eu preciso cuidar dele; eu preciso saber que, de alguma maneira, eu o ajudei nessa história toda. Como acha que me senti desde que soube que ele havia sido seqüestrado? Como acha que eu me senti quando não podia fazer nada, a não ser esperar? – passou uma das mãos pelos cabelos, sentindo os olhos marejarem. Não podia chorar; não agora. – Eu precioso fazer algo mais do que simplesmente me sentar ao lado do seu leitor, lhe segurar a mão e, enquanto choro, murmurar frases clichês de como sei que ele ficará bom.

Jeff permaneceu em silêncio, olhando-lhe de uma maneira que Pierre sabia que ele estava lhe analisando, pensando nas coisas que estava dizendo; cogitando se Pierre seria, realmente, objetivo.

-Eu não quero fazer nada além disso, Jeff. – continuou, sabendo que isso o faria ceder. – Eu só quero cuidar dele, porque eu sei que posso fazer isso. Porque sei que o farei melhor do que ninguém, apenas porque me importo mais do que qualquer outro médico. – suspirou. – Eu... Só preciso saber que, de alguma maneira insana, posso ajudá-lo a superar seja lá o que ele tenha vivido em cativeiro.

Jean suspirou pesadamente, afundando no estofado de couro, finalmente desviando os olhos e Pierre se calou, sabendo que a decisão que ele tomasse naquele momento seria definitiva.

-Sabe que foi encontrada outra vitima no local, não sabe? – Pierre ergueu as sobrancelhas, mas concordou com um aceno de cabeça. – Os federais concluíram que era o cúmplice de Bill. – ergueu as sobrancelhas. – Foi baleado no abdômen, mas não atingiu nenhum órgão vital, o que nos permitiu chegar a tempo, e conseguirmos salvá-lo. – deu de ombros, deixando claro o quanto odiava salvar a vida de pessoas que eram criminosas. – Precisamos de alguém para cuidar dele de agora em diante.

Pierre ergueu as sobrancelhas; de fato, não se importara em olhar para qualquer outra coisa que não fosse David quando entrara no cativeiro. Sequer sabia da existência de um cúmplice, tomando conhecimento de tal fato apenas quando já estava tratando de David e uma das enfermeiras comentara.

-Deixe que Hudson cuide dele. – resmungou e Jeff riu.

-Pensei em fazer isso. – deu de ombros. – Mas, bem... Eu tenho ordens lá de cima e elas não me permitem fazer isso, da mesma maneira que não me permite te dar autorização para continuar cuidando de David... – Pierre abriu a boca para protestar, mas antes que pudesse emitir qualquer som, Jeff continuou: - Mas o melhor que eu consegui para você, Pierre, foi você cuidar do cúmplice e de David. Se for, em algum momento, constato algum destrato com o outro paciente, você não poderá mais cuidar do seu marido e terá que voltar a atender seus pacientes usuais, apenas podendo ir visitar David no horário do hospital.

Pierre ergueu as sobrancelhas: por que tinha a impressão de isso seria difícil?

-Quem é a criatura? – perguntou, por fim, deixando claro que aceitava o acordo.

-Jack Turner. – foi a resposta, desprovida de qualquer emoção.

Ah, merda! Okay, pensaria sobre isso mais tarde: no momento tinha que se manter totalmente profissional, caso quisesse continuar cuidando de David.

-Tudo bem. – respondeu, no momento em que seu nome soava pelo corredor, sendo solicitado no quarto em que David fora internado. – Mande a ficha dele para o meu consultório.

-Seja imparcial, Pierre. – Jeff recomendou, apenas e, concordando com um aceno de cabeça, saiu da sala do superior, caminhando apressado até o corredor paralelo, passando por uma porta de vai-e-vem, a qual somente as pessoas autorizadas poderiam entrar, a fim de acessar a parte semi-intensiva.

Não demorou a chegar ao corredor, onde várias portas de um tom azul-claro encontravam-se fechadas, estando apenas a do fundo aberta, onde alguns enfermeiros entravam.

A enfermeira chefe correu até ele com uma expressão que deixava claro que ela não sabia o que fazer.

-Qual o problema, Stacy? – perguntou, sem parar de andar na direção do quarto.

-Ele acordou um tempo depois que o senhor saiu. – ela respondeu, ofegante. – Eu tentei fazer o que o senhor mandou, mas ele não me deixou nem dar um passo para perto dele, menos ainda aplicar outra dose de sedativo. – passou uma mão pelos cabelos, que se soltavam do coque usualmente bem feito. – Quando insisti que era necessário, ele simplesmente ficou histérico. Os meninos... – Pierre resmungou perante a forma que ela se referia aos enfermeiros. – Estão tentando contê-lo, mas Desrosiers sabe se debater para se livrar deles.

Suspirando, Pierre estalou os dedos, antes de finalmente adentrar o quarto, apenas para se deparar com o caos que estava instalado ali; dois enfermeiros – um de cada lado da cama – tentavam segurar os ombros de David e obrigá-lo a se deitar, enquanto uma enfermeira esperava o momento certo de aplicar-lhe o sedativo, sem machucá-lo.

O aparelho que fora instalado para monitorar os batimentos cardíacos de David apitava insistentemente, já desconectado do corpo magro, o qual se debatia, tentando livrar-se das mãos desconhecidas, enquanto lágrimas grossas corriam pelo rosto pálido.

E aquilo, Pierre pensou, não era histeria: era medo. David estava se sentindo como um animalzinho encurralado, no meio de tantas pessoas desconhecidas.

Estava se sentindo acuado e não sabia o que realmente esperar; por isso ele estava tão agitado, pensou.

-Soltem-no! – mandou, sua voz soando alta o bastante para se sobrepor às dos enfermeiros, que conversavam entre si, tentando achar algo que pudessem fazer.

Os dois homens fizeram o que foi mandado, afastando-se um passo da cama; David lhe olhou, agradecido, enquanto fungava e as lágrimas ainda escorriam por seu rosto.

Ah, minha nossa: isso ia dar um trabalho dos infernos. David com medo era pior que qualquer coisa que ele conseguisse pensar.

Suspirando, mordiscou o lábio inferior perguntando-se se deveria simplesmente mandar todo mundo sair e ele mesmo aplicar o sedativo, ou tentar fazer David aceitar que alguma daquelas pessoas iria ter que fazer isso todos os dias, enquanto o promotor não conseguisse pegar no sono sozinho.

-Pier. – ele resmungou, o sotaque francês soando com toda a força; e antes que qualquer um pudesse prever o que ele faria, David simplesmente levantou-se, caminhando, tão cambaleante quanto um bêbado, na direção do marido.

Um dos enfermeiros fez menção de ampará-lo, mas David simplesmente o repeliu com um gesto violento de seu braço, que quase o fez cair. Oh, Deus! Isso ia ser realmente complicado.

Ágil, Pierre caminhou até o menor, tomando-o entre seus braços; sentiu o braço bom dele enlaçar seu corpo e se surpreendeu ao ver que David não matara ninguém com o gesso em seu braço.

-Amor, você não pode levantar. – resmungou, guiando-o de volta para a cama.

-Eu não quero ficar aqui. – foi a resposta, um tom mimado em sua voz. – Não quero. Quero ir pra casa.

Pierre suspirou, sentando-o de volta na cama, permitindo que ele balançasse as pernas, penduradas para fora do leito. Sorriu de leve para ele.

-Eu sei, mas você precisa ficar aqui por enquanto, está bem? Você precisa de cuidados que não pode ter em casa, meu bem. Eles... – apontou para os enfermeiros. – Vão me ajudar a cuidar de você; vai ter que se acostumar com eles.

David cerrou os olhos, analisando cada uma das pessoas que estavam ali. Por fim, apenas suspirou pesadamente e a expressão dele deixou claro para Pierre que o que ele falaria dali em diante não seria uma simples manha.

-Não. – deu de ombros, por fim. Correu a mão boa pelo rosto, secando-o. – Não quero ninguém me tocando. Não quero. – completou baixinho, suspirando pesadamente e abaixando a cabeça.

-Okay. – Pierre concordou, a mão indo para os cabelos negros, sentindo-o estremecer sob o seu toque. – Eles não vão te tocar, okay? Eles só precisam aplicar seus remédios, mas não precisam te tocar.

Bufando, David se afastou, lhe fuzilando com os olhos. Ergueu as sobrancelhas, estranhando o olhar do marido para si.

-Eu. Não. Os. Quero. Perto. De. Mim. – ele falou pausadamente; os olhos transformando-se em duas linhas esverdeadas. – Não quero ninguém perto de mim, Pierre! Se é pra ficar aqui, você e apenas você vai tocar em mim.

Qual era o maldito problema, afinal? Não era como se algum deles fosse tentar algo.

Suspirando pesadamente, fez um gesto indicando que era para as outras pessoas saírem dali, no que foi prontamente atendido: Stacy fechou a porta ao passar, deixando-os completamente sozinhos.

-Tudo bem. – respondeu, levantando-se. – Deite-se, David. Você não pode forçar suas costas. – disse, simplesmente.

David lhe olhou por alguns segundos; abriu a boca para falar algo, mas mudou de idéia, voltando a fechá-la, deitando-se por fim.

Suspirando, Pierre agachou-se, pegando a ponta da mangueira que estava ligada ao saquinho de soro, prendendo-a no suporte, enquanto dizia a si mesmo que tinha manter a paciência com as manhas de David, mesmo que soubesse que de alguma maneira, não era apenas manha: havia medo ali, também. Só não sabia do que, exatamente.

Caminhou até o pequeno balcão no canto do quarto, abrindo uma das gavetas e tirando de lá uma agulha nova, substituindo-a pela que estava na mangueira.

Mordendo a bochecha, conectou a agulha ao braço do marido, voltando a liberar a saída do soro. Foi quando ouviu um suspiro trêmulo vindo da cama e finalmente ergueu os olhos para o rosto de David, vendo-o chorar novamente, baixinho.

-Davey? – chamou, voltando a sentar-se ao lado dele; uma mão indo pousar na lateral do rosto do mais novo, obrigando-o a erguer a cabeça; as íris tinham um brilho a mais devido às lágrimas, e os lábios finos tremiam violentamente. – Meu anjo, o que foi?

Ele apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, dizendo que não era nada, mas ao contrário do que ele queria dizer, suas lágrimas apenas se tornaram mais intensas, correndo até seu maxilar e pingando sobre suas coxas.

-Eu... Eu só... – soluçou, escondendo o rosto na mão; os ombros movendo-se de acordo com os soluços que escapavam por seus lábios, rápidos e violentos. Intensos.

Ele estava destroçado por dentro, Pierre notou; era algo muito maior do que meramente físico. Era algo que o marcaria para sempre e sentia-se ridiculamente impotente em vê-lo chorar daquela forma desesperada sem saber o que causara aquilo; sentia-se ridiculamente impotente em vê-lo daquela forma e saber que a única coisa que poderia fazer era aninhá-lo entre seus braços, fazendo um carinho em seu cocuruto.

E sentia-se ainda pior em saber que ele não conseguiria lhe contar qual era o problema naquele momento: sabia que só iria irritá-lo se o forçasse a contar; apenas o quebraria ainda mais, e sabia disso.

Mas o modo que se sentia em tê-lo se agarrando á sua roupa de uma forma desesperada, enquanto chorava copiosamente, estava lhe matando; estava lhe quebrando completamente. Estava fazendo-lhe se sentir inútil perante a dor que David sentia.

E não conseguia pensar em absolutamente nada lhe dizer; nenhuma palavra de consolo, nada. Tudo o que conseguia pensar era em como lhe machucava vê-lo daquela forma.

-Você quer me falar o que aconteceu? – perguntou baixinho, mas tudo o que recebeu em resposta foi um balançar de cabeça, enquanto os dedos pequenos e trêmulos apertavam com mais força o punhado de seu jaleco.

Não saberia precisar quanto tempo permaneceram assim, mas sabia que fora bastante. Suspirou aliviado quando o pranto de David se transformara em pequenos e periódicos suspiros trêmulos.

Apertou os braços ao arredor do corpo magro, forçando-o mais ainda contra si, quase como se pudessem se fundir.
Ver David naquele estado acabara consigo e era fato; ver o quão quebrado ele voltara, fizera qualquer coisa dentro si simplesmente se despedaçar; criou um nó em sua garganta; criou um aperto no seu peito e imensa vontade de chorar, e um desejo insano de poder matar as pessoas que lhe fizeram mal.

E, talvez, Jeff tivesse razão: talvez acabasse não sendo tão objetivo quanto sabia que conseguia ser. Talvez seus sentimentos em relação a David não pudessem ser postos de lado nem mesmo quando tivesse que cuidar dele, como cuidaria de qualquer outro paciente.

Inferno!

-Mais calmo, anjo? – perguntou, mesmo sabendo que era tolo fazê-lo; os suspiros estavam cada vez mais espaçados e a mão pequena já não apertava seu jaleco com tanta força; o rosto dele saíra de seu peito, indo se esconder no seu pescoço.

-Sim. – os lábios roçaram a pele, fazendo um arrepio gostoso correr seu corpo, enquanto o braço bom dele corria para abraçar seu pescoço. – Desculpe.

Ergueu as sobrancelhas levemente.

-Pelo quê? – David ficou em silêncio por alguns segundos.

-Seu jaleco. – ele respondeu simplesmente, embora seu tom de voz deixasse claro que isso era mentira. Ele se afastou, forçando um sorriso pequeno, direcionando as íris esverdeadas para sua roupa. – Eu molhei.

Pierre olhou para onde o marido tocava, hesitante, com as pontas dos dedos e isso apenas lhe deixou mais confuso: desde quando David hesitava em lhe tocar?

-Não tem problema. – sorrindo, ergueu a cabeça; David forçou um sorriso, antes de passar a mão pelo rosto, secando-o; seus olhos correndo ao arredor, evitando olhar nos olhos do mais velho. – Você precisa comer alguma coisa. – Pierre murmurou, minutos de silêncio depois.

David suspirou pesadamente, antes de recostar nos travesseiros, gemendo levemente quando os ferimentos em suas costas arderam.

-Não estou com fome. – respondeu, simplesmente, os olhos presos no gesso em seu braço como se fosse a coisa mais interessante do mundo. – Obrigado, de qualquer forma.

Pierre ergueu a sobrancelha; não havia como David não estar com fome, pensou: já estava no hospital há um dia inteiro, e passara o dia anterior todo sem comer também.

-Você precisa comer, amor. – David bufou.

-Já disse que não estou com fome, droga! – okay, esse não era seu David.

-Tudo bem. – respondeu por fim. – Suponho que queira dormir, então? – David deu de ombros, e Pierre se levantou caminhando até onde Stacy deixara a seringa com o sedativo, pegando-a e caminhando até o suporte do soro, inserindo a agulha na pequena entrada extra, esvaziando-a ali.

Não demorou muito para que David simplesmente se acomodasse melhor sobre o colchão e ajeitasse o fino lençol sobre seu corpo, e simplesmente apagasse.

Suspirando, Pierre saiu do quarto, fazendo um sinal para Stacy, que era para ela prestar atenção em David; seu gesto foi retribuído com um aceno de cabeça.

Foi para seu escritório; tinha que estudar o estado físico de outra pessoa e fazê-la falar o que, demônios, acontecera com David.

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-Como Turner está? – Jeff perguntou, assim que Pierre terminou de tomar um gole do seu café.

Estavam na lanchonete do hospital, aproveitando o pequeno intervalo que tinham naquele momento, e Jeff deixara claro que queria, finalmente, saber como estavam indo nos tratamentos, após quase um mês sem cobrar, realmente, alguma nova informação.

Pierre era grato ao superior e amigo, e não podia negar isso; Jeff fora generoso em lhe dar uma oportunidade de cuidar de David – mesmo que, para isso, precisasse cuidar de Jack também – e, além disso, lhe permitira continuar tratando do marido, mesmo depois que chegara ao conhecimento dele as várias crises que David tinha perto dos outros médicos.

-O ferimento já cicatrizou. – respondeu, dando de ombros, antes de tomar mais um gole de café. – O segurei por uns dois dias para ter certeza de que está tudo certo. Vou assinar a alta dele assim que colocar David para dormir, e os federais o levarão para a prisão.

Jeff concordou com um aceno de cabeça, antes de morder seu lanche; as íris castanhas fixando Pierre; o rosto abatido; a barba por fazer; a leve marca roxa que surgia sob os olhos.

-E David? Ainda tendo crises? – perguntou, por fim, sabendo que o cansaço do médico era resultado das noites que ele passava em claro, apenas tentando controlar David, que perdia horas chorando nos braços do marido.

Pierre suspirou pesadamente, apoiando o cotovelo sobre a superfície lisa da mesa; os olhos presos no interior de seu copo, enquanto a outra mão o virava levemente, fazendo o liquido negro girar.

-Fisicamente, ele está bem melhor. – respondeu. – O braço já está bom, embora ele tenha que fazer fisioterapia para recuperar o movimento que o gesso tirou; o ferimento da perna já sarou, e não ficou nenhuma cicatriz. – suspirou novamente.

-E as costas? – Pierre bebeu mais um gole de seu café.

-Bem melhor. – deu de ombros, embora Jeff soubesse que esse descaso não era real. – Um ou dois cortes que insistem em não cicatrizar, mas estou dando um jeito nisso. – bocejou. – Algumas cicatrizes, mas acho que ele pode viver com elas.

Jeff concordou com um resmungo, bebendo um gole de seu chá gelado.

-E as crises? – Pierre gemeu baixinho ao ouvir a pergunta, afastando seu copo e cruzando os braços sobre a mesa, apoiando o queixo neles.

-Piores. – resmungou, evitando fixar suas íris nas de Jeff. – Ele não fala sobre o que tanto o atormenta, e fica extremamente irritado quando eu tento arrancar algo dele. Não deixa ninguém tocar nele, arma o escarcéu quando alguém entra no quarto sem eu estar presente. Parece estar com medo de tudo e todos. – bufou. – Além de estar tão fechado em si quanto uma ostra. – silêncio de alguns minutos. – Eu estou preocupado...

Jeff ergueu as sobrancelhas.

-E não é apenas com o que você acabou de contar. – não era uma pergunta, mas mesmo assim Pierre concordou.

-É. – ergueu a cabeça. – Ele não tem comido direito, e os exames periódicos mostraram inicio de anorexia. – mordiscou o lábio. – Eu falei isso pra ele ontem, e expliquei que ele tinha que comer mais, mas tudo o que ele fez foi me mandar para o inferno.

Jeff pousou seu lanche de volta no prato, dando um pequeno gole na sua latinha, pensativo.

-Ele está irritadiço demais. – comentou, baixinho. – Quero dizer, ele é irritado, normalmente, mas nunca te destratou e, no entanto, é o que ele mais tem feito, não é? – Pierre concordou com um grunhido. – Choros aparentemente sem sentido, não deixa ninguém tocá-lo sem que ele o faça antes. – ergueu as sobrancelhas. – Você provavelmente não vai conseguir arrancar nada dele, já que é claro que ele não quer te falar. – mais um gole na latinha. – Talvez seja melhor pedirmos para o Doutor Lefebvre conversar com ele.

Pierre pareceu ligeiramente perturbado com essa hipótese.

-Um psicólogo? – perguntou, num resmungou. – Eu não sei, Jeff. Não acho que ele vá falar algo. – Jeff sorriu, reconfortante.

-Sebastien é o melhor de sua área. – mordeu o lanche. – Mesmo que David não fale, Sebastien o fará pensar em, ao menos, contar a você o que aconteceu. – deu de ombros. – Você sabe como Seb é; não espera confiança nele mesmo, nem que os pacientes contem seus problemas para ele, mas que contem para as pessoas em que confiam.

Pierre sorriu, de leve.

-O lema profissional do Seb é: de problemas já bastam os meus. – Jeff gargalhou.

-Sebastien é um bom médico. – deu de ombros, pondo o último pedaço do lanche na boca, o mastigando lentamente. – Pode pegar um pouco pesado, e isso provavelmente será motivo para manha por parte do David, mas duvido que Sebastien vá se deixar abalar por causa de meia dúzia de grosserias.

Pierre ergueu as sobrancelhas, tomando seu último gole de café.

-Grosserias não são nada perto das ameaças que ele já recebeu. – Jeff sorriu, dando de ombros, antes de terminar seu refrigerante. – Falo sério, Jeff. Você devia pegar menos pesado com ele; colocá-lo para cuidar dos criminosos do hospital com algum distúrbio, foi um pouco de mais.

Jeff suspirou, antes de limpar a boca num guardanapo.

-Não tenho culpa que ele desagrada os donos do hospital. – ergueu as sobrancelhas. – Aliás, você e Sebastien são os recordistas de reclamações da chefia, e o único motivo de não terem sido demitidos ainda, é por serem os melhores. – suspirou. – Você ainda é simpático, mas Sebastien realmente irritou os chefes quando mandou aquele paciente se tocar que não passava de um zero a esquerda.

Pierre riu.

-Ele foi sincero. Cumpriu o juramento, suponho; faça um louco se tocar que não passa de um lixo, e seja feliz. – Jeff riu. – E, de qualquer modo, o cara já estava com os pés no hospício. Sebastien não tinha mais nenhuma obrigação de bancar o psicólogo bonzinho. A transferência para o hospício já estava assinada, as malas prontas e o diabo já estava esquentando a cama do camarada.

-Você é um sádico. – Pierre girou os olhos, enquanto ambos se levantando, jogando os restos de seus lanches fora, caminhando lentamente até o elevador, para que pudessem voltar para seu andar. – É sério; esse não é o tipo de coisa que se fala de pessoas com problemas mentais.

Pierre resmungou qualquer coisa inteligível, no mesmo instante em que as portas metálicas a sua frente se abriam, e ele e o amigo entravam no elevador; Jeff apertando o número do andar.

Ficaram em silêncio o resto do caminho, cada qual perdido nos próprios pensamentos, embora soubessem que não seguiam uma linha muito diferente um do outro.

David era, de fato, um motivo para preocupações; as crises quando alguém se aproximava demais estavam cada vez piores, bem como a cada dia mais ele se fechava em si mesmo, recusando-se a falar mais do que o necessário.

Comia apenas quando passava mal pela falta de alimentação, bem como apenas conseguia dormir com a ajuda de tranqüilizantes e sedativos. Sem contar as inúmeras noites que acordava, após algum pesadelo, chorando mais compulsivamente do que nos primeiros dias, e nenhum remédio parecia fazer efeito nele nesses momentos, o que obrigava Pierre a ficar com ele, permitindo-o se agarrar a seu corpo com toda a força que seu corpo debilitado o permitia, enquanto simplesmente enterrava o rosto em seu peito, permitindo que as lágrimas escorressem rápidas e intensas; o corpo pequeno tremendo no ritmo ditado pelos soluços que escapavam pelos lábios finos.

Isso, Pierre pensou, sem mencionar as várias vezes que o mais novo passara a noite toda lhe implorando, em meio a soluços, para que o perdoasse. E quando perguntava pelo que deveria perdoá-lo, ele simplesmente chorava com mais vontade, pedindo – novamente – pelo seu perdão.

E passar quase um mês vivendo nessa situação, apenas aumentara sua sensação de impotência; apenas aumentara sua confusão. Apenas aumentara aquela vontade de poder dar uma boa surra em quer que o houvesse ferido daquela maneira.

Suspirando, desencostou-se da parede metálica, caminhando para fora do elevador, quando as portas se abriram, o visor em uma das paredes indicando seu andar.

Caminhou ao lado de Jeff até o balcão das enfermeiras, parando apenas para trocar as últimas palavras.

-Vamos tentar com o Seb. – disse simplesmente. – Se David não reagir bem, desistimos. – Jeff concordou com um aceno de cabeça.

-Tudo bem; vou entrar em contato com o Sebastien, vou ver se ele tem um horário vago para a primeira hora, amanhã. – Pierre concordou com um aceno de cabeça e, despedindo-se do outro, caminhou para o corredor da área semi-intensiva.

Cumprimentou as enfermeiras que ficavam rondando os corredores, procurando ajudar os pacientes que precisassem, caminhando até a última porta, parando de frente para esta, com a mão sobre a maçaneta.

Puxando o ar com força, abriu a peça de madeira, voltando a fechá-la quando se viu dentro do quarto; levou os olhos para a cama: ele estava acordado.

Os cabelos estavam maiores do que antes; a raiz castanho-clara já começava a aparecer; ele estava escorado em uma pequena pilha de travesseiros, alta o bastante para deixá-lo sentado confortavelmente.

Nas mãos, um livro qualquer que pedira para que levassem, para que pudesse passar o tempo; ao ouvir o som da porta, ele ergueu as íris esverdeadas – outrora tão brilhantes e vivas e, no entanto, agora eram opacas -, permitindo que um pequeníssimo sorriso dançasse na esquina de seus lábios.

E Pierre queria acreditar que isso era um bom sinal.

-Ei, amor. – cumprimentou, sorrindo docemente para ele, caminhando até o lado da cama, vendo-o lhe acompanhar com os olhos; o sorriso crescendo um pouco.

-Oi. – ele disse simplesmente, baixando o olhar para o livro em seu colo, dobrando levemente a ponta da página e fechando-o. – Já está na hora de dormir?

Pierre suspirou e concordou com um aceno de cabeça.

-Huh, estou cansado mesmo. – ele disse simplesmente. – Isso é um bom sinal, não é? – Pierre se viu impelido a mentir e dizer que sim, era um bom sinal, mas sabia que não seria justo com ele.

-Na verdade, não, meu amor. – respondeu, erguendo os olhos para a bandeja intocada na mesinha ao lado da cama. – Seu corpo está sem de onde tirar energias, e como você não está comendo, você se sente cansado. Você ainda não pode sair para queimar alguma energia que a comida pode te dar, então isso não é um bom sinal.

David grunhiu baixinho, torcendo os lábios e fixando a capa do livro.

-Não tenho tido fome, de qualquer forma. – ele disse, enrugando a testa para o livro. – Me sinto mal quando como.

Pierre ergueu as sobrancelhas.

-Seu corpo meio que se desacostumou com receber uma alimentação mais pesada. – disse, olhando para a bandeja e pegando o suco que havia ali, esticado-o para David, que segurou o copo entre as mãos, analisando-o. – Você vai ter que acostumá-lo novamente com as coisas que você gosta, mas tem que ir aos poucos, com coisas leves.

David deu um pequeno gole em seu suco, antes de suspirar.

-Desculpe tê-lo mandado para o inferno. – disse, baixinho, sem erguer os olhos. – Aliás, me desculpe por tudo o que tenho feito, o modo como ando me comportando. Eu só... – suspirando, deu mais um gole. – Bem, desculpe.

Pierre sorriu de leve, acariciando os cabelos dele, que não pareceu se importar com o afago.

-Tudo bem. – respondeu, sentando-se na ponta do colchão, vendo-o tomar goles mais longos, antes de pegar o livro sobre as pernas dele, vendo que era de medicina. – Medicina? Desde quando você se gosta desses livros?

Ele riu de leve, terminando seu suco e devolvendo o copo ao mais velho, que o coloco onde estava antes.

-Não gosto. – bocejou. – Mas as enfermeiras disseram que esse era o volume mais interessante da biblioteca do hospital. – Pierre riu, apenas balançando a cabeça.

Levantando-se, colocou o livro juntamente aos outros.

-Pierre? – ele lhe chamou, quando viu que o médico iria pegar a dose certa para seu remédio. Sorrindo de leve, o mais velho virou-se, de modo que pudesse olhá-lo.

-Sim?

-Eu gostaria de tentar dormir sem o remédio hoje. Se importa? – ele parecia sem jeito de falar isso, mas Pierre não se importou; o fato de David estar de bom-humor naquela noite lhe melhorara muito o próprio humor.

Sorrindo de leve, caminhou os passos que havia se afastado, negando com um aceno de cabeça, sentando-se na beirada da cama dele.

-Acho até melhor você tentar. – David sorriu bem de leve, desviando os olhos, parecendo sem jeito, antes de escorregar sobre o colchão, de modo a ficar deitado e, antes que pudesse impedir, Pierre ajeitou o cobertor sobre seu corpo magro; as mãos quentes do médico correram para seu rosto, fazendo um carinho de leve, antes de ele depositar um beijo na sua testa.

Um suspiro trêmulo escapou dos lábios finos e, antes que Pierre pudesse entender o que ele estava fazendo, David inclinou-se levemente para cima, puxando o marido levemente pela nuca, pressionando os lábios nos dele, bem brevemente.

Quando ele se afastou, as bochechas tinham um leve tom rosado e um pequeno sorriso sem jeito no canto dos lábios; Pierre permitiu que um sorriso tomasse seus lábios.

De fato, a forma como David estava agindo aquela noite estava lhe deixando de muito bom humor, a forma como ele estava tentando agir como se nada tivesse acontecendo, estava lhe encantando.

Abaixou seus olhos para sua mão, quando sentiu a de David nela, brincando com seus dedos.

-O que foi? – perguntou, de leve, voltando a olhá-lo no rosto, quando notou que ele queria falar alguma coisa, mas não parecia ter coragem.

-Eu... – mordiscou o lábio, parecendo totalmente sem jeito. – Amo você.

Quando essas palavras foram processadas, foi como se algo dentro de si simplesmente derretesse, enquanto o coração disparava, dançando enlouquecido dentro da sua caixa torácica, agindo como se quisesse sair de seu peito e correr tamanha a felicidade que essa simples frase lhe trouxera.

Um sorriso tomou seus lábios, antes mesmo que pudesse pensar em fazê-lo; seus dedos apertaram com força os dedos do mais novo, num aperto gostoso.

-Também te amo. – respondeu e, após um segundo de hesitação, pressionou seus lábios contra os dele novamente. Sorriu de leve. – Você precisa dormir agora, meu bem.

David concordou com um aceno de cabeça, ajeitando-se sobre o colchão fofo, enterrando a cabeça nos travesseiros e fechando os olhos.

E Pierre seria capaz de jurar que ele era o mais próximo de um anjo que poderia existir sobre a Terra; os cabelos escuros faziam um contraste belo com a pele pálida; os lábios finos estavam levemente torcidos num sorriso, enquanto o peito subia e descia no ritmo calmo da respiração.

E Pierre se permitiu ficar ali, admirando o mais novo, pensando em como tivera sorte de conseguir conquistá-lo; como tivera sorte de casar com ele.

Em como tivera sorte em amá-lo.

Não demorou muito, de fato, para que David caísse no sono. Sorriu de leve perante a facilidade com que ele dormiu, antes de inclinar-se sobre ele, beijando-o breve e levemente nos lábios, erguendo-se e caminhando para fora do quarto, parando apenas no balcão do andar, sorrindo para uma das enfermeiras da noite.

-Doutor. – ela o cumprimentou, parando na sua frente e, após uma breve conversa, Pierre saiu de lá com uma prancheta nas mãos, onde estavam os exames principais de Jack Turner, e seu documento de alta.

Caminhou apressado – embora distraído – até a ala do hospital, onde criminosos ficavam, suspirando pesadamente por ter que ficar entrando naquele corredor todos os dias do último mês.

Bem, pensou, ao menos aquela seria a última vez que teria que fazê-lo, pelo menos por causa do idiota que era Jack Turner; e, pensou, parando em frente aos federais que guardavam a porta, estava na hora de fazer algumas perguntas para aquele loiro aguado.

-Doutor Bouvier. – um deles disse, olhando para as coisas em sua mão, antes de abrir a porta para que Pierre pudesse passar; o médico o fez, deixando para trás apenas um aceno de cabeça.

Jack estava sentado na cama, enquanto as íris fixavam qualquer coisa que a janela mostrava, parecendo tranqüilo, mesmo que soubesse que assim que Pierre saísse do quarto, ele iria diretamente para a cadeia, aguardar o julgamento.

Julgamento o qual, pensou, quando o loiro lhe olhou, Andre Desrosiers faria questão de estar presente, bem como estaria aconselhando o promotor.

-Turner. – murmurou simplesmente, caminhando até a pequena mesa que havia ao lado da cama, pondo ali sua prancheta, antes de virar-se de frente para o loiro, que lhe olhava com qualquer coisa de zombaria, coisa a qual não fizera quando estava quase morrendo, Pierre pensou com amargura.

-Bouvier. – esse fora o diálogo entre ambos na maior parte dos dias; nada além de perguntas extremamente necessárias e profissionais. O que, aliás, estava para terminar assim que Pierre assinasse a alta de Jack. – Como está David? – a pergunta soou pelo quarto, vários minutos depois, quando Pierre terminara de fazer o último exame, e constatar que o outro já estava bom o bastante para passar uma temporada na cadeia.

Parou, no entanto, no meio do ato de tirar uma caneta do bolso do seu jaleco, quando ouviu a perguntar, erguendo os olhos dos papéis a sua frente, de modo que pudesse encarar o homem loiro.

-Por que quer saber? – perguntou, apenas, finalmente pegando sua caneta e assinando a alta do outro; ao menos, pensou, tecnicamente não tinha mais nenhuma responsabilidade em manter a boa saúde de Jack.

Jack deu de ombros, sorrindo, enquanto ajeitava sua blusa e se levantava, caminhando até onde Pierre estava, colocando uma mão sobre o ombro largo.

-Porque não acho que ele tenha saído muito bem do cativeiro. – ergueu as sobrancelhas, debochado. – Embora ele provavelmente quisesse ter conseguido chegar aonde você nunca conseguiu levá-lo. Eu teria feito isso por ele, se Bill não tivesse interrompido.

Pierre colocou a caneta no bolso, e virando-se de frente para o loiro, cruzou os braços em frente ao peito, erguendo as sobrancelhas.

-Do que você está falando? – perguntou, pensando se devia, realmente, segurar Jack por mais alguns dias, para acompanhamento psicológico.

Jack, por outro lado, parecia estar se divertindo com o que ele sabia estar preste a acontecer; o sorriso divertido dançava sobre seus lábios, enquanto seus olhos fixavam o rosto de Pierre, como que para não perder nenhum detalhe da expressão do outro, quando verbalizasse tudo o que tinha em mente.

-David, Pierre, foi a melhor transa que eu já tive. – os olhos se arregalaram, as sobrancelhas ergueram-se e a cor fugiu do rosto dele, enquanto Pierre lhe olhava como se fosse louco. – É realmente muito excitante o modo como o corpo dele se contorce; o corpo dele é maravilhoso, Pierre. Maravilhoso. E os gemidos, então? – permitiu que um breve gemido de satisfação escapasse por seus lábios, enquanto fechava os olhos. – Eu realmente entendo porque você quis ficar com ele; David é simplesmente fabuloso durante o sexo.

Minutos de silêncio se seguiram, e Jack abriu os olhos, vendo Pierre apenas lhe encarando, a expressão chocada, enquanto os dedos apertavam com força o tecido do braço do jaleco.

Frouxo, Jack pensou, era isso que Pierre era; um completo frouxo. Quando outra pessoa, que estivesse no lugar dele, já teria gritado meia dúzia de obscenidades e estaria pendurado em seu pescoço. Pierre, no entanto, apenas lhe parecia um pouco bravo e chocado.

-Você...? – Jack riu, sem o permitir terminar a pergunta, balançando a cabeça de cima para baixo.

-Oh, sim. Eu o tive da mesma forma que sempre quis, e que apenas você tinha. – ergueu as sobrancelhas. – Digamos que até eu conseguir penetrá-lo, ele não estava muito certo se realmente queria, mas depois foi como se o desejo simplesmente explodisse dentro dele, foi como...

O resto de sua frase foi esquecida quando uma dor alucinante se espalhou por seu rosto, surgindo de seu maxilar; cambaleou alguns passos, antes de sentir as mãos de Pierre no seu colarinho, fazendo suas costas chocarem-se contra uma parede.

Os olhos castanhos estavam mais escuros e cerrados de forma a transformarem-se em duas linhas castanhas; os lábios estavam cerrados e a expressão deixava claro todo o ódio que sentia.

-Como você pôde? – ele perguntou, apertando mais ainda os dedos, fazendo Jack sentir um leve aperto em sua garganta. – Que tipo de verme você é, afinal? Que tipo de fracassado você é, que não consegue aceitar que alguém não te queira?

Jack riu.

-Não parecia que ele não me queria. – disse, permitindo sentir-se estupidamente feliz em ver como conseguia fazer com que Pierre se descontrolasse; permitindo-se sentir estupidamente feliz em ver que David sequer havia tido coragem de contar a Pierre o que acontecera. – Ele nem te contou, não é? Para você ver como ele confia em você, Bouvier, a ponto de sequer conseguir contar que, inocentemente, dormiu com outra pessoa!

Pierre grunhiu, antes de soltar o loiro, permitindo que seu corpo escorregasse pela parede; contudo, mal seus pés tocaram o chão, sentiu o punho do médico se chocar contra seu estômago, fazendo o ar faltar e uma dor alucinante tomar seu corpo.

Resmungando qualquer coisa inteligível, puxou o ar com força e, juntando toda a força que conseguiu encontrar naquele momento, fez seu punho chocar-se contra o queixo de Pierre, que cambaleou alguns passos; e antes que Jack pudesse entender o que diabos estava acontecendo, ele e Pierre já estavam numa seqüência confusa de socos e pontapés, atingindo um ao outro em todos os lugares que conseguissem alcançar, embora Jack tivesse que admitir que estava tomando uma bela surra.

Num gesto que surpreendeu a si mesmo, Jack conseguiu empurrar Pierre, fazendo-o esbarrar numa espécie de mesa de metal, onde havia alguns equipamentos metálicos, que haviam usado para o seu tratamento, fazendo-os cair no chão com um baque surdo e irritante.

Aproveitando o momento em que o médico estava atordoado, jogou-se sobre ele, desferindo um soco com toda a força que conseguiu reunir, atingindo-o bem no abdômen, o que fez Pierre, por reflexo, erguer o braço, chocando-o contra qualquer parte do corpo do outro, no mesmo instante em que um par de mãos segurava os braços de cada um dos dois, afastando-os.

Ofegante, Pierre viu que eram os federais.

-Mas que merda foi essa? – o grandalhão que lhe segurava perguntou, lhe arrastando para fora do quarto.

-Legitima defesa. – resmungou a primeira coisa que veio em sua mente, sabendo que se falasse a verdade não poderia mais cuidar de David.

Escorou-se na parede ao lado da porta, passando a mão pelo rosto, sentindo-o levemente machucado.

Puxou o ar com força, sentindo finalmente seu corpo começar a tremer quase violentamente e permitiu-se escorregar, até que estivesse sentado no chão, os joelhos dobrados em frente ao peito, e escondendo o rosto ali.

O corpo não parava de tremer, e seu coração batia rápido demais; na sua mente não parava de passar todas as palavras que Jack lhe falara, enquanto imagens de todas as vezes que David chorara, pedindo seu perdão, passavam na frente de seus olhos, como um filme em câmera lenta; sua respiração ficava cada vez mais ofegante, enquanto o nó em sua garganta surgia com força total, tornando quase impossível respirar.

E antes que se desse conta, as lágrimas vieram, escorrendo por seu rosto rápidas e fortes, enquanto seu corpo tremulava com mais intensidade; um soluço escapou por seus lábios.

Passara quase um mês apenas ouvindo os lamurios de David, o qual sequer parecia – mesmo que minimamente – inclinado a sair da depressão em que se encontrava, desde que saíra do cativeiro; muito pelo contrário, pensou, apertando os braços ao arredor das próprias pernas, ele parecia apenas se afundar cada vez mais na tristeza que sentia, e quando ouvira tudo o que Jack tinha para dizer, compreendera que o bom-humor daquela noite não deveria ser encarado como alguma coisa duradoura.

Quando ouvira tudo o que acontecera ao marido, foi como se algo dentro de si simplesmente estalasse, lhe fazendo compreender toda a dor a qual David suportava há quase um mês, sozinho, sem ter coragem de contar para alguém; compreendera todos os pedidos de perdão. Compreendera aquele brilho de culpa nas íris esverdeadas, bem como compreendera toda a hesitação em lhe tocar.

Compreendera o medo das pessoas; ele ficara com medo de confiar em qualquer um que ele não conhecesse muito bem, e não tivesse certeza de que não lhe faria mal.

Conhecia o marido bem demais, e sabia que ele sendo tão inseguro quanto era, aquele acontecimento apenas fizera com que ele se quebrasse de tal modo, que demoraria muito para que ele conseguisse se convencer, mesmo que sozinho, que não tinha a mínima culpa do que acontecera.

E perguntou-se como alguém conseguira ter coragem de fazer tanto mal á ele; perguntou-se como alguém tivera coragem de marcá-lo daquela forma: de destruí-lo de tal maneira que ele permitira-se crescer de uma maneira absurda; que ele permitira-se perder todo o seu lado espontâneo, risonho, ingênuo.

Perguntou-se, acima de tudo, como fora burro a ponto de não ter pensado nessa possibilidade; sentiu-se idiota por não ter notado que tudo aquilo que David sentia, fazia e falava, não se devia apenas ao seqüestro em si; não se devia apenas a Bill.

Jack fora o maior culpado do maior horror que David vivera; Jack era o responsável por David estar do jeito que estava.

Seu David, pensou. Era o seu David que estava deprimido, destroçado e, muito provavelmente, sentindo-se um lixo. Sentindo-se sujo, humilhado.

Era o seu David, droga! O seu anjo, o seu amor... A sua vida. Era a pessoa que mais amava que fora magoada daquela maneira.

E, então, uma súbita vontade de tomá-lo em seus braços lhe invadiu de uma maneira que ele não achou que algum dia fosse sentir; queria tê-lo em seus braços para dizer o quanto o amava, e o quanto ele não era culpado por nada do que passara.

Queria abraçá-lo e dizer o quanto queria ajudá-lo a superar tudo aquilo, assim como queria poder voltar no tempo e trocar de lugar com ele; queria impedir que ele tivesse que ter passado por isso, e não se importava exatamente com o como.

Mais um soluço escapasse por seus lábios, e ele pôs mais força nos braços; sentia-se idiota. Sentia-se burro por não ter conseguido fazer David sorrir verdadeiramente nenhuma vez desde que chegara ao hospital; tudo o que conseguira fora sorrisos forçados e sorrisos mínimos, os quais sumiam sempre rápido demais para que conseguisse aproveitar bem aquela sensação maravilhosa que tomava seu corpo sempre que os lábios finos se esticavam, deixando a mostra os dentes pequenos, enquanto os músculos da face se contraiam para mostrar o mais belo sorriso que Pierre já vira.

-Doutor Bouvier? – a voz do grandalhão que lhe segurava soou, enquanto sentia a mão dele sobre seu ombro. – Está tudo bem? – Pierre apenas negou com um aceno de cabeça, embora a tenha erguido, escorando o cocuruto na parede. As mãos tremulas correram por seu rosto, secando-o.

Puxou o ar com força, tentando fazer seu coração parar de bater tão descompassado; tentando fazer o nó em sua garganta sumir, e permitir que o ar voltasse a chegar a seus pulmões com mais facilidade do que o fazia agora.

Correu as mãos pelos cabelos, bagunçando-os, no mesmo instante em que ouvia a voz de uma das enfermeiras soarem pelo corredor, pelos auto-falantes, sua presença sendo solicitada na sala de Jeff, no que Pierre sabia que já havia chegado ao conhecimento do amigo o que acontecera.

Um suspiro trêmulo escapou por seus lábios, antes que se erguesse, sentindo o corpo ainda muito trêmulo. Lentamente, caminhou o mais rápido que suas pernas bambas permitiram, não demorando tanto quanto gostaria para chegar à sala do Jeff, o qual estava com a porta aberta, apenas lhe esperando.

Quando entrou, a cabeça baixa, os olhos fixando o chão, e os pensamentos perdidos em tudo o que acontecera há pouco mais de dez minutos, sem prestar real atenção ao olhar repreensor que Jeff lhe lançava, enquanto fechava a porta, e ia sentar-se em sua cadeira, atrás de sua mesa.

Aceitou quando Jeff lhe indicou a cadeira na frente da mesa, sentando-se, esperando pacientemente que o mais velho começasse, enquanto seus olhos fixavam suas mãos trêmulas sobre suas pernas.

Minutos de silêncio se seguiram, enquanto Pierre permanecia na mesma posição e Jeff lhe olhava, apenas esperando, enquanto seus olhos corriam pelo corte que havia no canto dos lábios de Pierre e no pequeno hematoma no queixo.

Puxando o ar com força, Jean apoiou os braços sobre sua mesa, inclinando-se para frente.

-Muito bem. – Pierre finalmente suspirou, erguendo os olhos para o do amigo, olhando para qualquer lugar que não fosse os olhos do outro. – Eu espero que você tenha uma boa explicação para o que acabou de acontecer.

Sua cabeça estava doendo, Pierre pensou; estava quase explodindo, enquanto seus olhos ardiam, no que ele sabia ainda existir uma grande vontade dentro de si de continuar chorando, mas sabia que aquele não era o momento. Não era mesmo.

Mas ainda assim não conseguiu; simplesmente não conseguiu voltar a ser o profissional indiferente, que sabia a hora de permitir-se levar pelas emoções, e a hora de ser uma pessoa fria. Simplesmente não havia como.

As lágrimas voltaram a escorrer fortes, intensas, molhando sua bochecha, pingando de seu maxilar sobre suas mãos. Jeff fez menção de falar qualquer coisa, mas Pierre não permitiu, começando a falar antes que o superior emitisse qualquer som.

-O filho da puta o estuprou, Jeff. – ódio e dor em cada palavra, Jeff notou. – Tocou nele, o feriu. Simplesmente o quebrou, como se ele fosse o pior verme do mundo. – os lábios começaram a tremer cada vez mais violentos, enquanto as lágrimas ganhavam mais força. – E tudo isso apenas porque David não quis dormir com ele quando tinha dezesseis anos. Dezesseis malditos anos! – ergueu-se, caminhando de um lado para o outro. – Turner não tem dignidade, não tem a mínima compaixão pelos outros. Não passa de um acéfalo estúpido, sem um pingo de escrúpulos, ou senso de ridículo. Não passa de um idiota com uma necessidade de se auto-provar de alguma forma, mesmo que todas as vezes que ele tente, ele apenas prove que não passa de um fracassado, frustrado com a vida.

As mãos corriam pelos cabelos, puxando-os levemente, como se isso fosse fazer toda e qualquer dor que sentisse passar; e Jeff se admirou em ver Pierre daquela forma, mesmo sabendo que não era o momento ideal para estar surpreso com algo.

Nunca vira Pierre se descontrolar de tal forma; nunca o vira derramar uma única lágrima, mesmo quando ele pedira para sair mais cedo quando brigara com David: ele agüentara firme, ao menos na sua frente, jurando que iria conseguir o perdão do outro: e Jeff sabia, na ocasião, que David não conseguiria ficar muito tempo sem Pierre.

E isso se provara certo; e Pierre passara os dias sem David agüentando firme, sem deixar de ser objetivo no trabalho.

Mas, pensou, ao ficar sabendo do que David passara, ele simplesmente tomara a dor para si; e Jean seria capaz de jurar que Pierre, de alguma maneira, se sentia culpado e, arriscaria dizer, impotente com tudo isso.

O amor que Pierre tinha por David, pensou, era indescritível de tão grande. E Jean se atrevia a imaginar como Pierre se sentira ao descobrir que David fora estuprado... Isso explicava o comportamento do promotor, pensou.

-Você não precisava tê-lo agredido. – disse, mesmo que admitisse que teria feito o mesmo se isso tudo estivesse acontecendo consigo. – Eu sei que é difícil, e imagino o que você deve ter sentindo quando ouviu isso, mas você deveria ter pensado em David, em como ele vai se sentir se eu não conseguir explicar para a chefia o que aconteceu, e convencê-los de que foi um acontecimento isolado, e eu tiver que colocar outro médico para cuidar dele.

Pierre pareceu irritado com essa hipótese, e Jean concordaria com tudo o que ele falasse agora, sabendo que seria verdade: mas sabia melhor ainda que era sua obrigação avisá-lo do que poderia acontecer por causa de seu descontrole.

-Não precisava tê-lo agredido? – perguntou, espalmando as mãos sobre a superfície da mesa de Jeff. – É claro que precisava! Aquele cretino falava como se David quisesse aquilo; falava como se David não passasse de uma puta. – passou uma mão pelo rosto, num gesto cansado. – Ele merecia muito mais apenas pelo fato de ter tocado no David.

Jeff suspirou pesadamente; isso ia dar um trabalho dos infernos.

[hr]

Sebastien Lefebvre não achava que seus pacientes deviam lhe contar as
coisas; de fato, acreditava piamente que seu trabalho se baseava apenas em falar o que as outras pessoas não tinham coragem de dizer, fazendo com que seus pacientes contassem seus problemas para quem achassem melhor.
De fato, seu método não era aprovado pelos donos do hospital, mas Sebastien tinha plena consciência de que apenas não fora demitido por sempre conseguir resolver os problemas dos pacientes - embora até hoje não tivesse a mínima idéia de quais eram.
E, de qualquer modo, não se importava realmente com o que seus superiores podiam pensar do seu método: gostava dele. A coisa, pensou, funcionava como Jeff sempre falava; de problemas bastavam os seus. E isso o fazia pensar que estava na profissão errada.

Fosse como fosse, era interessante ver como algumas pessoas podiam ficar incrivelmente bravas quando Sebastien falava tudo o que elas precisavam ouvir - e não o que elas queriam.
Achava interessante como as pessoas reagiam de formas diferentes a um mesmo acontecimento; Jeff lhe ligara na noite anterior para marcar uma hora para o marido de Pierre e, horas depois, Jean ligara novamente para conversar melhor sobre o caso, falando que finalmente havia descoberto o que havia acontecido a David.
E saber exatamente que tipo de coisas o promotor enfrentara tornava ainda mais fácil; saber como ele vinha agindo com Pierre; saber como ele agia sempre que uma pessoa desconhecida entrava no quarto: e exatamente por isso, pedira para que Jeff desse seu jeito de evitar que Pierre estivesse presente durante a consulta.

Apesar de saber que o amigo queria o melhor a David, tinha que admitir que Pierre mimava demais o marido: mesmo que em momentos como o que o promotor enfrentava as pessoas sempre precisavam de alguém que amassem ao seu lado, Pierre fazia isso em excesso e isso, Sebastien pensou, finalmente alcançando a porta do quarto tão esperado, apenas retardava a melhora.
Mas, completou com um suspiro, Pierre apenas não sabia o que fazer, e estava agindo como julgava ser o mais correto.
Mordendo a parte de dentro da bochecha, deu três batidas secas na porta e, sem esperar resposta - sabendo que ela não viria -, girou a maçaneta, empurrando a porta, e entrando no quarto, voltou a fechar a peça de madeira atrás de si, quando se viu dentro do cômodo sendo encarando por David.

Ele não era como Sebastien sempre imaginara, mas ainda assim era tão belo quanto Pierre sempre falara que ele era; os cabelos estavam bagunçados, e a expressão ainda sonolenta deixava claro que ele acordara há pouco tempo.
As íris esverdeadas lhe fixaram, numa pergunta muda do que estava
acontecendo, embora a expressão tornando-se cuidadosa deixasse claro que ele não hesitaria em realmente armar o escarcéu se achasse necessário.
-David. - cumprimentou, abrindo a pasta em sua mão e lendo alguns dados que anotara em um papel a parte, antes de voltar a erguer os olhos, deparando-se com o olhar curioso do outro homem. - Eu sou Sebastien Lefebvre, psicólogo. - ergueu as sobrancelhas quando David se remexeu incomodado. - Pierre tem completa consciência de que estou aqui e...
-Onde Pierre está? - ele perguntou, cerrando os olhos.

-Ele não veio a meu pedido. - voltou a olhar para a ficha. - Acho que nos
daremos melhor se você não puder apelar a ninguém sempre que se sentir acuado.
David ergueu as sobrancelhas, parecendo não acreditar no que acabara de ouvir, mas permaneceu em silêncio, acompanhando com os olhos cada pequeno movimento que Sebastien fazia.
-Se pudermos começar. - Sebastien disse, sentando-se na cadeira que tinha próxima a cama, vendo David se encolher sob as coberta; as íris esverdeadas não saiam de cima do médico por nenhum segundo.
Aliás, Sebastien notou, ele sequer piscava.
-Eu quero que o Pierre esteja aqui. - foi a resposta, seca, o que fez Seb
erguer as sobrancelhas, antes de dar de ombros, sorrindo de leve.
-Isso quer dizer que você não vai falar comigo a não ser que seu marido
esteja presente? - seu sorriso aumentou, enquanto David dava de ombros, remexendo-se incomodado sobre o colchão.
-Algo do gênero. - Seb riu bem baixinho; obviamente era preocupante a forma como David estava se comportando, mas não deixava de ser engraçado, na sua opinião.
Ajeitando a ficha sobre suas pernas, cruzou os braços sobre o peito,
encarando David pacientemente.
-A presença de Pierre pode, e vai, prejudicar o tratamento. - David deu de ombros.
-Não me importo. - cerrou os olhos. - Eu só falo com você sobre alguma
coisa, se Pierre estiver aqui.
Sebastien girou as orbes, antes de se erguer, indo sentar-se no colchão, o que fez David se encolher quase comicamente contra a cabeceira da cama; as mãos pequenas apertando com força o lençol entre os dedos pequenos e trêmulos.
Inclinando-se levemente para frente, Sebastien tirou o ar divertido da face, preferindo colocar um profissional; talvez, assim David confiasse em si, mesmo que apenas minimamente.
Pierre o mimara muito, e isso era perfeitamente perceptível, mas Sebastien não se importava realmente: sabia que David tinha idade e maturidade o bastante para saber ouvir um "não", mesmo que Seb tivesse que insistir nisso por toda a manhã.
-Eu até prefiro que você não fale. - disse, simplesmente, e David pareceu confuso ao ouvir isso. - Muitos psicólogos são da teoria que ao fazer seus pacientes falarem o que tanto os incomoda, está ajudando-os, mas eu acho que você apenas precisa ouvir algumas coisas; se você quiser falar para mim, tudo bem. Se preferir não me dizer nada, mas contar ao Pierre, por mim tudo bem também. - deu de ombros, ajeitando o corpo. - Já que todos acreditam que psicólogos são amigos de seus pacientes, eu vou ser seu amigo, David. E amigos não te obrigam a contar algo. – sorriu reconfortante.
David piscou lentamente, parecendo absorver o que fora dito, mas ainda assim não parecendo muito certo se deveria acreditar.
Sebastien suspirou pesadamente; isso ia ser bem difícil, mas ele teria que falar tudo o que era preciso em casos de estupros - mesmo que masculinos - e seqüestros, e tinha certeza de que David não deixaria passar nada, irritando-se na primeira verdade que fosse verbalizada, mas... Bem, estava acostumado a ser odiado por aqueles que gostava de chamar de pacientes.
Ficou mais alguns segundos em silêncio, esperando que David falasse algo, mas como isso não aconteceu, Sebastien simplesmente começou a falar, sabendo que teria que verbalizar muitas coisas até que o promotor esboçasse alguma reação.
-Eu sei o que aconteceu com você. - David lhe olhou, curioso e amedrontado. - Foi seqüestrado e torturado por um cara que condenou há uns três anos, passou um dia difícil com ele e, embora tenha sido um único dia, foi o bastante para que você se ferisse, não apenas fisicamente, mas emocionalmente também. Não faço idéia do que ele te disse, David; não mesmo. E seja lá o que for, é mentira. - deu de ombros. - Imagine o quão gratificante deve ter sido para ele ver sua dor quando você acreditava em cada uma das palavras dele. Ele te odiava e na mente dele, isso tudo acabaria com sua morte, então para ele era indiferente se as coisas que ele estava lhe dizendo eram ou não verdades.
David revirou os olhos, antes de fixá-los na janela, observando a fina garoa que caia, sem se importar com o homem a sua frente; sabia disso que fora dito e, realmente, não precisava de nenhum psicólogo para saber que Bill provavelmente mentira em todas as coisas que lhe falara. Era uma completa perca de tempo o médico continuar ali; ele não poderia lhe ajudar na pior de suas dores e inseguranças, então era completamente inútil.
Aliás, queria apenas que Pierre fosse até ali lhe fazer companhia.
Não queria conversar sobre o que acontecera e, menos ainda, queria alguém lhe dizendo o que pensar sobre cada acontecimento.
-David. - Sebastien chamou, mas o menor continuou olhando para a janela. Seb bufou, revirando os olhos discretamente. - Me diz uma coisa... Como você conheceu Jack Turner?
E Sebastien viu exatamente o que esperava; o corpo pequeno ficou
terrivelmente tenso, enquanto apertava com mais força ainda o lençol entre seus dedos, fazendo os nós ficarem brancos. As íris esverdeadas ficaram mais opacas do que já estavam, enquanto enchiam-se de lágrimas, que Sebastien sabia que seria fácil fazê-lo derramar.
-No colegial. - ele respondeu com a voz tremulando, sem olhar para o médico, que apenas passou uma mão pelo cabelo, esperando que David terminasse. - Namoramos por alguns meses, mas não deu certo.
Pela falta de detalhes, Seb soube que David nunca se importara realmente com o final de seu namoro com Jack, e isso provava que o promotor não tivera nenhum sentimento pelo outro homem - uma atração talvez, mas nada que pudesse envolvê-lo realmente.
-Você transou com ele quando vocês namoraram? - David negou com um aceno de cabeça, ficando mais tenso. - E foi esse o motivo que ele te deu quando te tocou? Te culpou por ainda ter uma atração, ou algo assim? Fez você acreditar que, de algum modo, era o culpado do que estava acontecendo? Ou ele te fez achar que você estava traindo Pierre?
As lágrimas escorreram antes mesmo que David pudesse piscar, rápidas, mas ele não desviou os olhos da janela, falando no tom de voz mais frio que conseguiu:
-Não sei do que está falando. - Sebastien ergueu as sobrancelhas; droga, ele ainda estava na fase de negação.
Rápido, Sebastien caminhou até o outro lado da cama, parando na frente de David e, segurando-o pelo queixo, obrigou-o a lhe encarar.
-Sabe perfeitamente bem do que estou falando. - ergueu uma única
sobrancelha. - Não estou falando que você quis o que aconteceu, porque é óbvio que não queria. Mas você não tem que acreditar em tudo que lhe foi dito. Pierre saberia lidar com essa situação, se fosse você a contar. Pierre sabe perfeitamente bem que estupro não é traição.

David desvencilhou-se dos dedos de Sebastien de um modo até violento, enquanto o fuzilava com os olhos; as lágrimas correndo rápidas por seu rosto, mas ele não parecia se importar.
-Cale a boca se não sabe do que está falando. - foi o que ele disse e Seb
apenas crispou os lábios.

-Se eu não soubesse do que estou falando, ou se estivesse mentindo, você não estaria chorando como está, David. - replicou, voltando a obrigá-lo a lhe olhar, quando David se levantou, tentando desviar os olhos. - Você sabe o que te aconteceu, David, e eu também sei. Ele te feriu de uma forma muito intensa e isso é óbvio somente de olhar para você. É natural que você se sinta sujo, ou que ache não mereça quem você tem, mas não é como se você...

-Cale a maldita boca! - David gritou, lhe empurrando. - Se fosse tudo tão fácil quanto você faz parecer, você não estaria aqui me torrando. Se fosse tão fácil, eu não estaria me sentido um lixo. Se eu fosse tão inocente quanto você faz parecer, eu teria conseguido pará-lo. Eu... - ele soluçou, antes de esconder o rosto nas mãos; os ombros balançando no ritmo dos outros soluços que se seguiram.
Sebastien puxou o ar com força, olhando para David, pela primeira vez sem saber o que fazer; deu um pequeno passo na direção dele, mas o promotor pareceu perceber seu movimento, pois deu um passo para trás.
-Se fosse tão fácil, eu não sentiria como se houvesse jogado tudo o que
Pierre me forneceu por dez anos para o alto. Eu não sentiria como se eu
fosse a merda de um traidor. - a cabeça foi balançada de um lado para o outro. - Eu não sentiria como se merecesse cada segundo de sofrimento que tenho tido no último mês! - e ele ergueu a cabeça, revelando o rosto lavado em lágrimas, a expressão de ódio deixando claro que Sebastien o irritara profundamente. - Eu ainda não estaria nessa merda de hospital! - ele completou, a voz novamente várias oitavas acima do tom normal.
-Acalme-se, David. - Sebastien pediu, embora seu tom de voz fizesse parecer uma ordem. - Ficando nesse estado, e agindo como se eu fosse o culpado de tudo o que te aconteceu, não vai nos ajudar em nada. Você sabe que não havia como pará-lo. - voltou a dar um passo na direção de David, que voltou a recuar. - Você tentou, eu sei que tentou. Você fez tudo o que a situação permitia, mas ainda assim não havia como impedi-lo de ser o verme que ele é. Não foi e não é culpa sua se ele é um completo bastardo. Você não traiu seu marido.
David soluçou, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro; as lágrimas pareciam escorrer cada vez mais rápidas, mas isso nunca fora o bastante para que Sebastien parasse o que estava fazendo. David poderia lhe odiar, e Pierre também, mas ao menos teria em mente que verbalizara todas as coisas que nenhuma outra pessoa tivera coragem de verbalizar.

Puxando o ar com força, voltou a se sentar na ponta do colchão, tentando manter a expressão indiferente; as íris incrivelmente azuis fixando atentamente David.
-Você não sabe como é. - David murmurou, por fim. - Você não sabe como foi... Você não tem a mínima idéia de como é ter seu casamento quase destruído por causa de uma pessoa e, uma semana depois de você ter concertado tudo, essa pessoa faz algo do tipo. Você não tem noção de como isso parece uma traição.
Sebastien suspirou pesadamente.

-Você tem razão. - deu de ombros. - Isso parece uma traição, mas não é. Teria sido uma traição se você tivesse desejado também; teria sido uma traição se você houvesse permitido. Mas se fosse esse o caso, você não estaria se sentindo culpado e deprimido. Apenas culpado. E não me parece que seja assim. Aliás, me parece que você não teria a mínima coragem de trair o Pierre.
Silêncio; longo e tenso, enquanto ambos se encaravam. A antipatia que David sentia pelo médico a sua frente era algo quase palpável no ar.
Mas isso não preocupava Sebastien; o que realmente o preocupava era a relutância de David em ver que nada do que lhe acontecera era sua culpa; sua relutância em ver que Pierre não veria isso como uma traição e que o ajudaria a superar aquilo tudo.
Talvez, pensou, David apenas achasse que Pierre não pensasse isso: ou,
talvez, isso tivesse a ver com aquela sensação dele de que não merecia
absolutamente nada do que Pierre lhe dera no tempo em que eles estavam juntos. Talvez ele achasse que não merecia Pierre.
Fosse como fosse, pensou, naquele momento não tinha mais nada que pudesse fazer por David; ele ainda tinha que aceitar que não fora sua culpa, para então Sebastien ajudá-lo a superar aquilo.
Suspirando pesadamente, Sebastien se levantou, caminhando até David, fixando seus olhos nos dele.
-Olhe, você tem que aceitar que isso não é sua culpa. - disse, erguendo as sobrancelhas. - Você tem que aceitar que não havia nada mais que você pudesse fazer. Não vou dizer que vai ser fácil você superar, porque não vai. Daqui algum tempo, você provavelmente vai querer dormir com Pierre, mas não vai conseguir... Isso é normal, mas você agir como se fosse sua culpa, não é. A culpa não é sua. Se você parar e analisar tudo o que aconteceu, você vai ver isso e talvez se torne mais fácil de superar, quem sabe.

E, sorrindo levemente para o outro, simplesmente saiu do quarto.

[hr]

Era como se o mundo estivesse acabando.

A garoa que caíra a manhã toda se transformara numa tempestade, a qual ninguém realmente esperava; o vento soprava forte, fazendo as árvores balançarem violentamente, enquanto fachos de luz cortavam o céu negro – o qual fazia parecer que anoitecera cedo demais, embora não passasse do meio dia -, dando uma luminosidade maior ao interior do hospital.

Os trovões soavam fortes e impiedosos a cada novo raio que caia, fazendo parecer que os vidros das janelas estavam tremulando perante o som rouco, porém poderoso.

Mas ele não estava prestando real atenção ao que acontecia fora das paredes daquele quarto, preferindo manter-se impassível, enquanto esperava que o pequeno em seus braços parasse de soluçar, como se sua vida dependesse de todo aquele choro.

Não havia como negar, obviamente, que o aperto em seu peito parecia aumentar a cada novo tremor do corpo magro, e o nó em sua garganta fazia parecer que o ar não chegava em quantidade suficiente em seus pulmões, tornando difícil o ato de respirar.

E, embora seu coração palpitasse contra sua caixa torácica como se quisesse simplesmente sair dali, e seus olhos ardessem de modo espantoso, querendo expelir cada lágrima que a dor dele lhe causava, sabia que se mostrasse que vê-lo daquela maneira lhe afetava dessa forma, não iria conseguir ter a conversa a qual passara a manhã toda planejando para ter com ele.

O silêncio ali dentro era quebrado apenas pelos soluços dele e pelo som de suas respirações; os corpos estavam colados num abraço, onde os braços magros circulavam seu corpo na altura das costelas, enquanto o rosto pálido e de traços belos estava escondido na curva do seu pescoço; seus próprios braços o circulavam da maneira mais reconfortando que pudera encontrar, ao se sentir abraçado de supetão tão logo entrara no quarto.

E mesmo que sua vontade fosse tomá-lo em seus braços e o confortar da mesma maneira que fizera no último mês, tinha que confessar – apesar de ser apenas para si mesmo – que Sebastien tinha completa razão quando falara que ele havia mimado David demais.

E isso, pensou, apertando-o ainda mais entre seus braços, era um dos motivos para David ainda estar negando tudo o que passara; era um dos motivos de ele manter tanto sofrimento, e sentimentos sem o mínimo fundamento, guardados dentro de si, permitindo-os lhe corroer de uma forma dilacerante até mesmo para Pierre.

Puxando o ar com força, permitiu o perfume tentador que emanava dos cabelos negros, invadisse o seu nariz, impregnando-se nas suas vias respiratórias, e espalhando-se por todo o seu corpo, lhe embriagando de uma maneira que sentira falta desde que todo aquele inferno se iniciara.

-Precisamos conversar. – disse, por fim, vendo alguns fios negros balançarem levemente de acordo com sua respiração. As mãos pequenas, espalmadas em suas costas, agarraram um punhado do tecido da sua blusa com força, como que prevendo o que estava por vir.

-Precisa ser agora? – foi a resposta, a voz ainda contendo qualquer coisa chorosa, embora já houvesse alguns minutos que o choro cessara; mas ainda assim Pierre podia sentir o coração do outro bater descompassado contra o seu peito, e o corpo pequeno ainda tremular vez ou outra, embora não fosse mais tão intenso quanto antes.

Suspirando pesadamente, afastou-o o bastante para que pudesse olhá-lo; o rosto ainda estava úmido no caminho que as lágrimas haviam feito; os lábios finos e bonitos tinham qualquer coisa a mais de vermelho, o que deixava claro que ele os mordera durante o pranto.

As íris estupendas fixaram o seu rosto e, teve que admitir, aquela falta de contato visual estava lhe irritando; era como se David apenas pudesse pensar que Pierre fosse ler sua alma, se olhasse em seus olhos por meros cinco segundos. Era como se o contato visual fosse o que faltava para Pierre simplesmente descobrisse tudo o que se passava com David.

E eram em momentos como esse, onde David simplesmente se recusava silenciosamente a manter um contato ocular, que Pierre se perguntava onde, infernos, estava a confiança.

Era em momentos como esse que se perguntava no que seu relacionamento com David havia se transformado.

-Precisa. – respondeu, lembrando-se que o marido havia feito uma pergunta e que lhe olhava, curioso por sua demora em responder. Talvez, perder-se em pensamentos e nostalgias fosse a forma que encontrara de adiar o máximo possível a conversa que queria ter.

David suspirou pesadamente, soltando uma mão pelo tempo o suficiente de corrê-la pelo rosto, secando-o; voltou a segurar um punhado do tecido de sua blusa em suas costas, dando um pequeno passo para frente, de modo que pudesse aprofundar mais ainda o abraço que compartilhavam.
Erguendo levemente a cabeça, ele sorriu bem de leve e Pierre notou o quanto aquilo estava lhe soando forçado; embora qualquer coisa dentro de si derretesse perante a visão dos lábios contorcidos daquela forma graciosa, deixando a mostra os dentes pequenos e branquinhos, enquanto os olhos pareciam diminuir um pouco de tamanho, de uma forma até mesmo enlevada.

E ele poderia ficar nesse momento pelo resto do dia; ele poderia perder-se no esboço do que costumava ser um sorriso genuíno, tendo o som da chuva que caia lá fora como trilha sonora; ele poderia perder-se naquele abraço, como se sua vida dependesse de sentir os braços magros ao arredor de seu corpo, mostrando o quanto aquele pequeno a sua frente confiava em si, e até mesmo precisava de si. E era com certa ousadia que admitia acontecer o mesmo consigo: permitia David saber o quanto precisava dele, apenas com um abraço.

Mordicando o lábio inferior levemente, correu suas mãos para o rosto dele, segurando-o entre suas palmas, impedindo-o de desviar o olhar, ou até mesmo se afastar.

-Eu... – puxou o ar com força, sabendo que o resto de sua frase iria desencadear o inferno. – Quero que você me conte o que aconteceu com você quando estava em cativeiro.

O pequeno sorriso simplesmente sumiu, enquanto a pouca cor do rosto desaparecia; os dedos pequenos apertaram com mais força o tecido de sua blusa, enquanto a íris fixavam seu queixo, evitando o contato visual que Pierre tentava criar.

Uma única sobrancelha foi erguida, enquanto os dentes pequenos mordiscavam o lábio de forma nervosa. Os lábios se afastaram, prontos para emitir qualquer frase grosseira, mas David pareceu mudar de idéia, pois voltou a fechá-los antes que qualquer som escapasse. O corpo pequeno ficara tenso, mas a expressão indiferente que ele mantinha em seu rosto, não deixava nenhum rastro de tensão.

-Não quero falar sobre isso. – sentenciou, por fim, antes de seus dedos darem liberdade ao tecido que seguravam, e suas mãos correrem até o tórax de Pierre, espalmando-o, antes de tentar empurrá-lo.

Mas o maior foi mais rápido, permitindo que suas mãos corressem até o centro das costas de David, o pressionado contra o próprio corpo, impedindo-o de sair dali; de fato, não pretendia liberá-lo antes de ouvir tudo o que gostaria.

-Eu preciso ouvir de você o que aconteceu lá, David. – ergueu as sobrancelhas. – Não quero saber pelo Sebastien ou qualquer outra pessoa. – e, apesar de tudo, isso não era uma completa mentira: preferia ter descoberto do estupro por David, e não por Jack ou até mesmo Sebastien.

David fechou os olhos brevemente, resmungando qualquer coisa inteligível ate para si mesmo, ainda tentando se afastar.

-Eu não quero contar, Pierre. – ele disse de modo pausado, como se isso fosse fazer o mais velho desistir do que fosse.

Contudo, Pierre apenas o apertou mais ainda contra o próprio corpo, sentindo-o cada vez mais tenso com o contato que estava sendo criando entre os corpos.

-Eu tenho o direito de saber. – replicou, crispando os lábios. – Você tem a mínima idéia de como eu me sinto sabendo que você passou por coisas horríveis, que te assombram nos seus sonhos, e eu sequer sei o que eu poderia falar para te fazer, ao menos, parar de chorar? Você tem idéia de como é horrível ver a pessoa que você mais ama nesse estado, e não poder fazer nada além de ouvir pedidos de perdão, que soam completamente sem sentido? Será que você não percebe que isso não está acabando apenas com você mesmo, mas comigo e com... Nós?

As mãos pequenas, ainda pousadas em seu tórax, voltaram a tentar lhe afastar, mas Pierre não permitiu, levando uma das suas próprias mãos até as de David, segurando-as levemente pelo pulso.

-Eu não estou pronto para falar o que aconteceu, Pierre. – ele respondeu, num resmungo, enquanto as lágrimas voltavam a correr, e Pierre se perguntou como ele conseguia chorar tanto. – Eu não quero falar; eu não quero ter que ficar lembrando disso a todo instante: já me basta ter que o fazer nos meus sonhos todas as malditas noites!

E Pierre viu a expressão indiferente ruir, dando lugar a de raiva, enquanto David tentava a todo o custo soltar-se dos braços do marido, o qual apenar o apertava ainda mais contra si.

-E quem que fica do seu lado todas as malditas noites, David? Quem que fica ouvindo você pedir perdão por nada, enquanto se acaba de chorar? Quem é a droga da pessoa que fica com você sempre que você precisa, sem perguntar nada? Apenas esperando que você conte? – sem que notasse, sua voz ia aumentando uma oitava a cada nova pergunta. – Eu cansei de te ver remoendo suas dores, guardando-as apenas para si mesmo, como se isso fosse o certo. Eu quero te ajudar, merda! Eu quero te apoiar toda vez que você ameaçar cair novamente. Mas se você não me ajuda, como você espera que eu te perdoe, seja lá pelo quê? Como você espera superar alguma coisa, se sequer fala sobre isso?

-Você está querendo me obrigar a te contar. – ele balançou a cabeça, voltando a pôr força nas mãos, mas não conseguindo se afastar nem um passo sequer. – Eu não vou te contar.

Cerrando os olhos e os lábios, levou uma de suas mãos até o rosto dele, segurando-lhe o queixo entre os dedos, forçando-o a erguer a cabeça e lhe encarar, finalmente fixando os olhos; raiva emanando de cada um, enquanto se encaravam, um desafiando o outro em silêncio.

-Você vai me contar, Desrosiers. – murmurou, erguendo uma única sobrancelha.

David crispou os lábios.

-Por que eu deveria? – resmungou em resposta, voltando a empurrar o outro, que bufou. – Hein, Piér? Porque eu deveria contar algo para uma pessoa que diz estar ao meu lado, mas que não sabe esperar eu me sentir bem para falar sobre o que aconteceu?

Silêncio; a tensão era quase palpável no ar, enquanto os olhos ainda se fixavam: faíscas de raiva sendo trocadas, enquanto as mãos de Pierre apertavam um punhado do tecido da blusa de David, como que para conter a raiva que sentia pela teimosia do outro.

Estava pau da vida e não havia nem como pensar em negar isso.

-Porque eu te amo, porra! – exclamou, juntando ainda mais os corpos, como se isso ainda fosse possível, sentindo-o ficar tenso. – Porque eu não agüento mais te ver nesse estado; não agüento mais sentir que você não tem mais confiança em mim. – puxou o ar com força. – Porque eu não sei mais se sou bom o bastante para você, já que você sequer confia mais em mim p...

-EU FUI ESTUPRADO, MERDA! – David gritou, interrompendo o marido, quando Pierre começou a aumentar a voz; cada vez mais lhe machucando ouvir aquelas coisas, cada vez mais lhe fazendo se sentir mais culpado e destroçado. Pierre ficou em silêncio. – Não era isso que você queria saber? Ótimo! Foi isso; Jack fez o que vem sonhando nos últimos dez anos, AGORA SOME DA MINHA FRENTE! – tirando força de onde nem ele mesmo sabia, empurrou Pierre, fazendo-o afastar-se e, por fim, lhe soltar; as lágrimas corriam rápidas demais por seu rosto e ele não sabia se chorava, respirava ou falava.

Pierre ficou em silêncio, apenas lhe olhando, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto; o coração batia desesperado contra a caixa torácica, enquanto o ar se perdia em um ponto qualquer do caminho até seus pulmões.

Apesar de já saber tudo o que Jack fizera com David, ouvir da boca dele apenas fazia as coisas parecerem ainda piores; ouvir o marido dizer isso com a dor e raiva com que fizera, antes de lhe empurrar, apenas fizera tudo aquilo soar muito mais cruel que antes.

-Anda, Pierre! – David continuou com a voz ainda alterada. – Não era isso que você queria ouvir? Você não queria saber o que me marcou tanto? Foi isso! Agora, você já pode ir, já que eu não acho que você tenha vindo até aqui porque se preocupa. – um sorriso debochado surgiu no canto dos seus lábios, enquanto as lágrimas escorriam cada vez mais rápidas. – Ou será que você quer me ouvir te dizer como machuca ser esmurrado? Ou talvez você prefira ouvir como é divertido ser "chicoteado" com uma corrente? – ergueu as sobrancelhas, secando o rosto com um gesto brusco da mão. – Mas se você for tão preocupado quanto pretende parecer, você talvez queira ouvir um relato detalhado de como eu me sinto sujo, e de como eu acho que não te mereço!

E antes mesmo que David pudesse registrar o que estava acontecendo, Pierre voltou a lhe segurar entre os braços, escondendo o rosto no seu pescoço, enquanto as lágrimas corriam rápidas por seu rosto; o corpo tremendo pelos soluços.

-Me desculpa. – ele murmurou, apertando o marido entre os braços fortes; era simplesmente horrível sentir que não havia, realmente, algo que pudesse fazer por aquele que amava; era horrível desejar poder ter passado por aquelas coisas no lugar dele, mas saber ser impossível. – Me perdoa por ser um idiota estúpido.

David passou os braços ao arredor do corpo dele, permitindo-se chorar como ele o fazia. Permitindo-se sentir-se mais aliviado depois de ter verbalizado aquelas coisas e ver que Pierre não se importava: ele lhe apoiaria e lhe mostrava isso somente com o abraço que estava lhe dando naquele momento.

E como sempre, pensou, seus temores mostraram-se completamente errados; como sempre, subestimara demais Pierre, e este mostrara que era exatamente como se mostrava ser.

E o amava indescritivelmente por isso.

-Eu vou te curar, Davey. – Pierre murmurou, segundos de silêncio depois. – Você vai ver, anjo: isso tudo não vai passar de uma péssima lembrança. Prometo.

E David se atrevia a acreditar piamente nisso, mesmo que Pierre não conseguisse cumprir essa promessa, apenas porque não conseguiria seguir em frente sem ele.