Capítulo09: Entre Segredos e Pesadelos, a Realidade
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"Syaoran!!!"
O homem acordou abruptamente, enquanto sentia uma mão em seu ombro, olhou para cima, ainda meio atordoado e viu o motorista inclinando-se educadamente, avisando-o de que haviam chegado ao destino final. Syaoran desencostou-se do estofado, enquanto engolia bile que subia por sua garganta, o motorista percebeu a palidez do homem, mas resolveu nada comentar, retirou a bagagem do jovem e acompanhou-o até a entrada da mansão. Vendo que o rapaz não parecia que iria se prontificar em abrir a porta ou tocar a campainha, fez isso por ele, logo um homem alto e magro abriu a porta.
Enquanto os dois trocavam informações, Syaoran permanecia distante, perdido em pensamentos. Não dormia fazia três noites, não conseguia comer direito e ainda sentia dores por todo o corpo. Flashes do que acontecera naquela fatídica noite voltavam a sua mente a toda hora, sem que conseguisse pensar em outra coisa. O grito desesperado dela... Aqueles olhos apavorados... Apertou uma das mãos contra o rosto, rangendo os dentes, sentindo-se novamente impotente diante da situação, como naquele momento.
Ficara desesperado, louco da vida, não escutava direito o que os outros tentavam lhe dizer. Depois do que acontecera, não conseguia discernir nem entender o que lhe falavam, só se preocupava com ela, com ela... Assim que ocorrera, quis imediatamente utilizar-se de magia para alcançar Eriol naquele exato momento, mas Sheng lhe impedira, primeiro porque estava fraco, segundo porque diante do que acabara de ocorrer, ele poderia ser interceptado.
Só aceitou porque não tinha muito mais forças para utilizar-se do encanto, pois tudo o que pensava era em uma forma de...
'Syaoran!'
A voz o fez acordar de seu estupor, quase surpreso. Olhou para frente e viu Eriol olhando-o com grande preocupação. Imaginava que já haviam lhe informado do ocorrido.
Syaoran (com a voz rouca, de quem não a usara muito nos últimos dias): 'Eriol... Ela...' Eriol aproximou-se rapidamente do rapaz, colocando um braço em volta de seu ombro , levando-o para dentro da casa, percebendo o estado aturdido do chinês. Seu próprio cenho estava ligeiramente contraído em preocupação, mas não queria demonstrar seu estado ao outro, que sem dúvida alguma se encontrava em situação inimaginavelmente pior.
Eriol (olhando para o rapaz um segundo): 'Venha, Syaoran, conversaremos lá dentro.' Fez sinal de afirmativo para seu mordomo de forma que tratasse do pagamento do motorista, e em seguida viu Tomoyo ao seu lado. A mulher tinha lágrimas incontidas nos olhos, mas assim que viu o estado de Syaoran prontamente voltou em direção à cozinha pedir que a cozinheira preparasse algo a ele.
Eriol fez Syaoran sentar, enquanto notava a palidez e as olheiras nos olhos do chinês. Engoliu em seco, sem saber por onde iniciar a conversa. Sheng entrara em contato com ele, rapidamente, para que não interceptassem a conversa. Pelo que dissera, tudo ocorrera muito rapidamente, Tao parecia desolado, enquanto Syaoran ficara desesperado. Não entrou em detalhes, mas assim que mencionou o terrível acontecimento sabia que Syaoran logo chegaria para lhe pedir ajuda.
Pelos deuses, jamais pensara que isso poderia acontecer... Olhou novamente para o amigo e fechou os olhos por um segundo, sabendo que seria cruel pedir que contasse tudo o que acontecera na Índia há quase três dias enquanto o chinês ainda se encontrava naquele estado, mas não podiam perder tempo.
Eriol (colocando a mão no ombro do amigo que, parecendo surpreso, voltou o olhar para o inglês): 'Syaoran... Conte-me o que aconteceu...'
O inglês não pôde conter a surpresa diante da expressão cheia de dor e desespero que se formou no rosto do amigo.
# # # - FLASHBACK - # # #
Assim que sentira a presença de Sakura intensificar-se, imediatamente Syaoran correu em direção à floresta que existia naquele lugar, onde estiveram durante o dia. Seu coração apertava, como se algo grave estivesse prestes a acontecer.
Não estava enganado, assim que chegou, encontrou não só Sakura, como a Grã-Sacerdotisa chamada Kagome e seu Guardião Inuyasha cercados pelo que ele imaginou serem guerreiros em negro. Não... Não eram simplesmente homens em negro, e sim sombras em forma de homens, ainda que claramente pudessem atacar e ferir como qualquer outro ser vivo. Os pêlos de seus braços se arrepiaram, nunca tinha visto escuridão mais profunda como aquela, como se olhasse em um buraco negro.
Sem perder mais tempo apreciando a forma do inimigo, correu ao auxílio do grupo. Assim que se aproximou, viu Sheng alcançando-os no mesmo momento, e logo percebeu que Tao também se encontrava ali, mais no extremo do círculo que se formava na clareira.
Syaoran: 'Sakura!' Gritou o nome da jovem, que o olhou, parecendo ligeiramente aliviada, mas não conseguiu alcançá-la, sendo barrado por um grupo daquelas figuras das sombras.
Invocou imediatamente sua espada, enquanto se preparava para o que parecia ser uma batalha difícil. Entretanto, não se precipitou, tentando descobrir se aquele negrume em forma de homens poderia ser ferido como qualquer outra pessoa, ou pior, se ele próprio não seria ferido ao tentar atacá-los.
Seus pensamentos não estavam longe da verdade, ao perceber que Sakura invocara flecha e todas elas pareciam sumir ao tocar o inimigo. Seria esta uma reação apenas contra magia, ou qualquer coisa material que os tocasse? Franziu o cenho, invocando um de seus trovões.
O ataque pareceu funcionar, pois ao menos o grupo se dispersou um pouco, enquanto aquele no qual o golpe atingira diretamente, desmanchava-se em sombras, que pareciam se juntar às outras. Antes que pudesse invocar outro ataque, as sombras humanas imediatamente partiram em sua direção, com lâminas mais negras que a morte parecia ser em sua direção.
Utilizou-se de sua espada para bloquear-se, não tendo muito mais tempo para desviar ou fazer outra coisa. Quase suspirou aliviado, ao perceber que sua lâmina parecia ter efeito contra aquelas criaturas, ainda que não soubesse por quê, salvando-o de um ataque direto.
Queria poder estar próximo de Sakura e dos outros para ajudá-los, mas a verdade é que mal tinha tempo para se defender ele mesmo, sabendo que tudo o que o separava de um fim trágico era sua lâmina mágica, pois ataques corporais pareciam estar fora de questão. Olhou rapidamente para o lado, vendo Sakura a certa distância, parecendo ter encontrado algum meio de proteger-se daqueles inimigos.
Não pôde manter sua atenção na garota, que parecia manter seu escudo em volta da sacerdotisa, também atacada por aquelas sombras, enquanto a japonesa e o guardião da miko tentavam mantê-los afastados.
Arregalou os olhos, um segundo antes de voltar-se para seus inimigos, rolando pelo chão rapidamente, evitando um ataque duplo de duas lanças negras. Olhou o local em que as armas atingiram e viu a grama enegrecer-se no local, parecendo deteriorar-se. Voltou-se novamente para os inimigos, utilizando-se de sua espada para atacá-los e defender-se, tentando de alguma forma poder aproximar-se do outro grupo, pois percebera, com surpresa, que o que aqueles inimigos estavam tentando era, de alguma forma, alcançar a grã-sacerdotisa Kagome.
Rangeu os dentes e fechou mais o cenho, invocando novamente um de seus raios para dissipá-los. O golpe pareceu surtir efeito, mas dessa vez não alcançou nenhum dos inimigos. Não importava... Correu pelo estreito caminho que abrira entre eles, defendendo-se e desferindo golpes precisos, lateralmente, verticalmente, tentando não perder o equilíbrio enquanto corria para frente e enfrentava seu inimigo.
Quando finalmente parecia estar alcançando o grupo, mais viu que sentiu um raio vindo em sua direção, rapidamente saltou para o lado, escapando não ileso do golpe súbito, sentiu a parte inferior de sua perna queimar, ainda que não fosse suficiente para impedi-lo de se manter em pé. Voltou o olhar para o local de onde viera o ataque e percebeu duas formas aparecendo do alto, como se voassem e saíssem de um buraco negro no ar. Viu uma silhueta negra feminina mais a frente, provavelmente quem tentara atingi-lo e mais outra que não pôde definir mais atrás.
Contudo, antes que pudesse demonstrar qualquer reação, viu a silhueta feminina voltar-se para o local onde estava o outro grupo, virou a cabeça e percebeu que se dirigia em direção à Sakura.
Syaoran (berrando): 'Sakura, cuidado!!!'
O aviso foi preciso, pois assim que o ouviu, sem ao menos olhar para o lado, Sakura girou e projetou o seu escudo, sabendo não ter outra forma de se defender. O raio atingiu em cheio a proteção, que ondulou fortemente, mas não cedeu. Contudo, a tática não era perfeita, pois ao utilizá-lo tão abruptamente, Sakura cedeu à projeção da magia protetora em volta de Kagome.
A japonesa voltou o olhar imediatamente para a outra mulher, e horrorizada percebeu que não teria como alcançá-la ou lançar seu escudo de volta ao redor dela, pois sombras já começavam a consumi-la, ainda que a mulher tentasse proteger-se envolta a uma aura rosada.
Inuyasha (desesperado): 'Kagome!!!' Tentava correr em direção à mulher, mas um grupo massivo de sombras o rodeavam e, impossibilitado de utilizar-se de suas garras, tentava utilizar-se de sua espada que, ainda que efetiva, parecia apenas funcionar como uma espada normal contra aqueles homens, suas técnicas parecendo inúteis contra eles. Olhava a todo o momento com desespero em direção à mulher, seus olhos refletindo o pavor que estava sentindo. 'Kagome!!!'
Syaoran novamente se via cercado de sombras negras e, ainda que estivesse conseguindo combatê-las, parecia que não conseguiria ser rápido suficiente.
Naquele momento percebeu Tao, que até então estava fora do seu campo de visão correr em direção da jovem sacerdotisa, enquanto os outros lutavam desesperadamente contra aquelas sombras. O ancião tinha uma longa lança em suas mãos, enquanto uma luz azulada contornava o instrumento, parecendo ser eficiente contra aquelas criaturas. Parecia que iria alcançar a mulher, quando Syaoran percebeu que o vulto feminino no círculo negro ao céu novamente utilizaria aquele golpe. Olhou a direção que ela apontava e viu Tao, que não parecia ter percebido.
Tentou gritar, mas no mesmo momento teve que aparar outro golpe. Assim que se defendeu, logo em seguida cortando a figura negra no local em que seria o abdômen, voltou-se novamente para Tao. Seus olhos se arregalaram...
Sakura (correndo): 'Cuidado, Tao!!!'
O sangue de Syaoran gelou instantaneamente, quando bem diante de seus olhos viu Sakura saltando na direção do homem, empurrando-o fora do alcance do golpe dourado, mas sem ter tanta sorte ela mesma.
Syaoran: 'Não!!!' Violentamente atacou seus inimigos, desvencilhando-se o melhor que podia do grupo que não parecia diminuir. Tentava aproximar-se de Sakura, desvencilhando-se daquelas sombras macabras, sentindo seu fôlego pesado, e seu corpo cansado. Aproximava-se mais, buscando desesperado o local em que a moça caíra, não via mais nada nem ninguém. Mais um pouco e poderia vê-la... Maldição! Onde ela estava?
Sentiu o ar lhe faltar, enquanto um terrível calafrio percorria-lhe o corpo. Diante de seus olhos via um enorme negrume se formando, cobrindo Sakura, que parecia gemer contra aquelas trevas. Correu desesperado, berrando invocações de raios para liberar seu caminho.
As trevas cobriram totalmente a figura da japonesa, tudo o que se via era o negro infinito, aquele negro de morte...
Syaoran (tropeçando um momento, enquanto continuava correndo em direção à moça, barrado a toda hora por figuras assassinas): 'Sakura!!!!!!'
As trevas que cobriam a mulher diminuíam de volume, até ficarem planas com o gramado, e sumindo sem rastros. O chinês olhava com olhos arregalados, em seguida voltando-se para o riso sinistro daquele buraco negro que se formava no ar. Sentiu sua face contorcer-se de ódio, enquanto continuava atacando o grupo que o cercava, talvez se conseguisse alcançar aquelas duas figuras pudesse ainda alcançar de alguma forma Sakura.
Contudo, enquanto ainda tentava desvencilhar-se das trevas viu a silhueta feminina afastando-se, de volta ao buraco negro de onde viera. Desespero consumia-o, fazendo-o utilizar-se de mais força e mais energia do que precisaria para tentar livrar-se dos inimigos que o cercavam. Finalmente se livrava do grupo, e ao voltar o olhar para o buraco no ar, ainda conseguiu distinguir a outra figura que estivera todo o tempo observando daquele local.
Parecia ser uma figura masculina, que permaneceu parada, encarando-o longamente, antes de dar as costas, e sumir pelo buraco negro, que sumia lentamente.
Syaoran (correndo com suas últimas forças): 'Não!!! Espere!!! Sakura!!! Sakura!!!'
Não percebeu que as sombras não mais tentavam pará-lo, mas não importava, só queria alcançar aquele buraco, só queria buscá-la, só queria ela de volta.
Era tarde de mais... O buraco se fechou completamente... E as trevas sumiram.
O brilho da lua voltou a iluminar o local. Mas nada mais havia ali que se iluminar, apenas negrume... E desespero...
# # # - Fim do FLASHBACK - # # #
Estava sentado ali fazia talvez algumas horas, quase imóvel, com o olhar perdido na paisagem à sua frente. Os acontecimentos dos últimos dias haviam-lhe abalado mais do que gostaria de admitir. Jamais poderia ter imaginado que algo do tipo poderia ocorrer, e jamais poderia ter adivinhado que aquela mulher iria...
Tao soltou o ar que não sabia estar prendendo, fechando os olhos por um momento, e logo os abrindo novamente para o dia ensolarado que não parecia se lembrar da noite sombria de três dias atrás. Tudo ocorrera muito rápido e se perguntava se poderia ter evitado o que ocorrera se tivesse sido mais cauteloso.
A dúvida o perturbava e o remorso pelo que ocorrera começava a lhe corroer. Vira o olhar desesperado de Xiao Lang e, ainda que este não lhe olhasse com olhos acusadores, sabia que o homem jamais o perdoaria se algo acontecesse àquela japonesa. Isso pois aquela mulher, a quem desaprovara desde o primeiro momento e que também claramente demonstrava não apreciá-lo nem um pouco, fizera o que ele julgara ser inimaginável. Ela tinha lhe salvado! Não apenas isso, ela colocara sua própria vida em risco para salvar-lhe!
Fechou novamente os olhos, relembrando o momento, sabendo que muito provavelmente não tivesse feito o mesmo se os papéis tivessem se invertido, se tivesse que pôr sua vida em risco por ela... Perguntava-se se este desapego em relação a si mesmo fora uma das características da moça que pudessem ter chamado a atenção do filho de Shang. Sacudiu a cabeça, tentando afastar tais pensamentos... Tentando pensar em alguma forma de resolver aquele problema.
'Tao...'
A voz suave o fez abrir os olhos, enquanto sentiu a presença de sua noiva aproximar-se e sentar-se ao seu lado. Não voltou o olhar para ela, ainda que sentisse os dela escrutinando seu rosto.
Sheng: 'Tao... Não foi sua culpa....'
O homem não pôde evitar arregalar os olhos por um segundo, em seguida voltando o olhar para a mulher ao seu lado, sem saber exatamente o que responder, ou como ela chegara tão facilmente àquela questão que estava lhe atormentando. Contudo, suavizou quase imediatamente a expressão, voltando o olhar para frente.
Tao (falando em voz neutra): 'Não sei de que está falando, Sheng...' A mulher não fez nenhum comentário, e ele se sentiu obrigado a continuar. 'Precisamos decidir o que faremos de agora em diante, após...' Fez uma leve pausa, escolhendo as palavras... 'Após os eventos dos últimos dias.' Sheng analisou-o por um segundo, logo se voltando para frente também.
Sheng: 'O irmão do Guardião Inuyasha, Sesshoumaru, nos forneceu algumas informações que talvez devêssemos compartilhar com Hiragisawa Eriol.' Fez uma pausa, esperando algum comentário que não veio de Tao. 'Parece que os grupos que ele e o Guardião Inuyasha irão formar para procurar pela grã-sacerdotisa partirão amanhã cedo.'
Tao: 'Sim... Talvez devêssemos partir juntos, assim poderíamos acompanhá-los por um trecho, se forem por algum caminho que seja em direção à Londres.'
Sheng: 'Era o que eu estava pensando também. Além disso...' Fez outra pausa, voltando o olhar para o homem. 'Assim que você saiu conversei por mais um tempo com Mestre Sesshoumaru, que nos prometeu nos informar se tiverem alguma notícia, e solicitou o mesmo de nós.'
Tao (sem olhá-la, apenas acenando que sim): 'Sem dúvida, precisamos manter contato, não só devido ao ocorrido, mas em relação ao que possa ocorrer.' Voltou o olhar para Sheng, antes de continuar. 'Mais tarde, volte a falar com ele, e informe-o de tudo que julgar ser relevante e que nós saibamos sobre esses eventos. É uma boa forma de conseguir que ele fale qualquer coisa que ainda não nos tenha dito e que poderá nos ajudar.'
A mulher fez que sim com a cabeça, e já se preparava para levantar, quando sentiu o leve toque da mão de Tao na sua, parou, percebendo o olhar baixo do homem.
Tao (com voz baixa): 'Preciso salvá-la, Sheng...' Voltou o olhar a mulher. 'E não apenas por Syaoran...'
O homem não precisou completar a frase, Sheng entendia. Virou a palma de sua mão, segurando a de seu noivo. Tao era um homem rígido, mas seu senso de justiça era inigualável e o admirava por isso... Precisava salvar Sakura não apenas por Syaoran, e não apenas porque ela o havia salvado... Mas porque era o certo.
Sorriu para o chinês, e voltou-se para a paisagem a sua frente, ainda segurando-lhe a mão, sabendo que ele precisava de companhia e consolo, ainda que no silêncio...
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Eriol apertava seus punhos com força contra os braços de sua poltrona, calado quando Syaoran terminou de contar, com agonia, o que ocorrera.
Sakura havia sido seqüestrada. E junto com ela a grã-sacerdotisa Kagome. Nada pior poderia estar acontecendo. Não previra isso, imaginara apenas que havia alguém atrás das relíquias, mas jamais atrás...
Eriol: 'Dos representantes dos deuses...' Falou baixo, mais para si que para Syaoran ouvir, mesmo porque o rapaz não parecia estar prestando muito a atenção.
Pelo que o chinês relatara, assim que Sakura e Kagome sumiram, as outras sombras também desapareceram. Sheng e Tao aparentemente permaneceram no local pois nos próximos dias um informante chegaria ao Templo e talvez conseguissem alguma informação que pudessem ajudá-los.
Entretanto, ainda que fosse uma possibilidade, Eriol tinha suas dúvidas de que alguém do mundo mágico pudesse ter alguma idéia do que estava acontecendo. Ainda que, sentiu um calafrio enquanto pensava no assunto, começava a ter uma idéia do que poderia estar acontecendo, de acordo com o que escutara de Syaoran mais o que estivera acontecendo até então. Esperava estar errado, para o bem de todos.
Olhou novamente para Syaoran, sabendo que o rapaz estava devastado, e sem ter certeza se deveria contar de suas suspeitas para ele. Balançou a cabeça em negativo, enquanto tomava um gole do chá que Tomoyo trouxera para eles, enquanto saíra calada, ainda que quisesse saber de Syaoran qualquer coisa sobre sua prima. Eriol olhou novamente para o rapaz, imaginando se Sakura contara a ele dos fatos que ocorreram durante aqueles dois anos e meio em que não se viram.
Fechou os olhos por um segundo, abrindo-os em seguida para olhar para sua xícara à sua frente. Se suas suspeitas estivessem certas, havia uma forte possibilidade de que o que ocorrera naqueles dois anos viessem a interferir no futuro deles, principalmente no de Sakura, e julgava se seria ou não necessário revelar a Syaoran o que Sakura parecia estar prolatando em fazer. Suspirou fundo, não queria falar do que só cabia à japonesa revelar ao jovem, mas talvez não tivesse alternativa.
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O local isolado, negro e úmido estava vazio e silencioso, a não ser pelos passos leves, mas firmes, que cruzavam toda distância entre a entrada e o fim do salão, que parecia dar entrada a outro aposento, através de duas altas e pesadas portas.
Ela respirou fundo, sabendo estar entrando em campo perigoso, dependendo da reação de quem estava ali dentro. Fechou os olhos e sentiu seu cenho se fechar ao relembrar da situação que ocorrera até minutos antes. Até três dias atrás estivera em júbilo quando conseguira capturar não só uma, mas duas daquelas pessoinhas. Ah... A sensação fora doce, doce demais ao lembrar-se das expressões contorcidas e agoniadas de quem fora deixado para trás.
Estivera tão contente consigo mesma que jamais poderia imaginar o que descobriria. Estavam quase chegando à fase conclusiva de seus planos, tinham mais da metade do que precisavam pronto, só mais alguns ajustes, quando... Respirou fundo, exasperada, quando descobrira, após várias horas de trabalho, que ela não lhes serviria como planejara. Quase gritou frustrada, mas fechou os olhos, se controlando, sabendo que quem estava prestes a encontrar poderia ser ainda mais frustrante, ou quem sabe... Ameaçador.
Abriu as duas portas, silenciosamente, para o que parecia ser um local mais sombrio que o outro, ainda que iluminado por uma chama sepulcral contra a parede mais ao fundo, ao lado de uma figura esbelta. A figura não se voltou, e ela engoliu em seco, sabendo que deveria se aproximar. Quando estava a dois metros de distância da figura, que ainda permanecia estática, observando aquela chama sepulcral, ajoelhou-se, apresentando-se.
Mulher (humildemente, em um sussurro): 'Mestre...' Não ouve resposta, e a mulher respirou fundo novamente, perguntando-se se deveria dizer algo mais...
Mestre (ainda de costas): 'Ah... Veja como é bela... Veja, querida, veja a chama brilhar intensamente, cada dia mais viva...' Falou como uma criança, animada diante do novo brinquedo de Natal. A mulher ajoelhada, por sua vez, voltou o olhar, mas não ousou se levantar. A outra figura, que possuía uma voz longa e serena, viva e ao mesmo tempo distante, sonora e opaca, aguda e ao mesmo tempo grave, convidativa e aterrorizante, voltou a falar. 'Mais um pouco, minha querida... Mais um pouco e não precisarei mais deste recipiente.'
Mulher (sorrindo ansiosa): 'Óh, Mestre! Não vejo a hora de que isso ocorra! Esperei por tanto, tanto tempo!' A ansiedade e antecipação transbordavam por todo seu corpo, sentindo o arrepio e o sangue correr rápido diante da expectativa longamente aguardada. A figura finalmente pareceu notar de fato a mulher aos seus pés e voltou-se para ela, olhando-a com certo desinteresse.
Mestre (sentando-se numa longa cadeira ao seu lado): 'Então... Minha querida... Quais são as novidades?' Diante da lembrança, a mulher sentiu seu sangue gelar, sem saber se deveria contar de uma vez o que ocorrera. Voltou o olhar para a figura a sua frente e sentiu medo.
A figura imediatamente sentiu a emoção aflorando na outra, e um sorriso frio e sinistro surgiu em seu rosto, enquanto levantava-se lentamente, aproximando-se da mulher ao chão.
Mestre: 'Levante-se, minha querida...' A mulher vacilou por um segundo, sentindo apreensão, mas as palavras daquela figura eram absolutas e ela fez como ordenado.
Mal se colocou em posição ereta e a mulher sentiu o corpo da figura aproximar-se ao seu, braços longos e esbeltos rodearam-lhe, em um abraço íntimo. Sentiu seu corpo tremer.
Figura (sussurrando contra o ouvido da mulher): 'Minha doce e mais fiel serva...' Dizia as palavras enquanto percorria suas mãos finas e geladas pelo corpo da outra mulher. 'Está com medo de mim? Eu? Que te amo tanto?' A outra não conseguiu evitar o gemido de escapar-lhe pelos lábios, fosse de pavor, fosse de antecipação.
Enquanto a mulher sentia seu corpo reagindo aos toques do Mestre, seus pensamentos ficavam enevoados, ainda que soubesse do risco que estava correndo. Sentiu o rosto da figura próximo de seu rosto, e logo sentiu sua face contra a face de seu Mestre, que respirava longamente contra seu pescoço.
Figura: 'Heru... Conte-me.' A voz era imperiosa, convidativamente perigosa, e a mulher sentiu seu corpo tencionar ao escutar o nome que seu Mestre pronunciara. Soltou um gritinho, enquanto as chamas sepulcrais daquele salão iluminavam parte de seu rosto.
Sentiu as pontas dos dedos da outra criatura percorrer seus longos cabelos amarelo alaranjado, e fechou os olhos instintivamente. As jóias e seda branca que parcialmente cobriam-lhe o corpo, entre um traje egípcio e romano, pouco evitavam a outra mão de tocar-lhe a pele, fazendo-a arrepiar-se com o contato frio. De seus lábios vermelhos um suspiro escapou.
Heru: 'Mestre... Eu não sabia, juro que não sabia...' Sentiu o abraço de seu mestre e fechou os olhos, apavorada e ansiosa. 'Estive todo esse tempo trabalhando, desvendando, perseguindo a Mestra das Cartas...' Diante do nome, a outra figura parou momentaneamente de abraçar a mulher, soltando-a levemente, sobre um leve protesto calado. Heru abriu os olhos que até então estavam fechados, e engoliu em seco.
Mestre: 'O que tem a Mestra das Cartas, minha Heru?' A mulher prendeu a respiração, cheia de pavor, quando dois sinistros e astutos olhos dourados, com pupilas felinas, brilharam contra a chama sepulcral.
Heru: 'Óh, Mestre!!!' Heru imediatamente caiu sobre o chão, abraçando as pernas da outra figura. 'Perdoe-me! Perdoe-me!!! Quando eu e ele fomos capturar aquela outra pessoinha e a Mestra das Cartas... Eu tinha tanta certeza que poderíamos usá-la! Tanta que imediatamente tive que capturá-la, mesmo que o objetivo inicial tivesse sido só a outra... Mas... Mas...' A mulher soluçava, desesperada, abraçando a outra figura com apego.
A figura olhava-a com olhos frios e arrogantes... Parecendo estar decidindo o que iria fazer com sua querida serva.
A figura abaixou-se e colocou suas mãos dos dois lados do rosto de Heru. A mulher continuava chorando, soluçando, sem olhar para seu Mestre. Contudo, antes que pudesse suplicar novamente, Heru arregalou os olhos quando sentiu os lábios de seu Mestre contra os seus, intensamente. Imediatamente os soluços pararam, e as lágrimas começaram a cessar. Mas antes que Heru pudesse fechar seus olhos, os lábios se foram.
Mestre (olhando-a com doçura): 'Heru... Diga-me, porque não podemos utilizá-la?'
Heru (num sussurro): 'Mestre... Não podemos usá-la porque...' Falava tão baixo que a outra figura teve de aproximar seu ouvido contra a boca da mulher, que continuou 'Porque ela não...' As últimas palavras foram pronunciadas tão levemente que seu Mestre quase não escutou.
Entretanto, a figura a ouvira... E voltou o rosto para ela, olhando-a nos olhos... Parecendo... Parecendo mais perplexo que enfurecido!!!
Mestre: 'Não é?!' Heru fez que não com a cabeça e, para total surpresa sua, tudo o que escutou foi uma longa e deliciada gargalhada. Heru ficou calada, olhando para a outra figura sem saber o que fazer. Quando este finalmente sentiu a risada sumindo, limpou as lágrimas de diversão do rosto, segurando o rosto de Heru de novo. 'Óh, Heru... Que notícia mais inusitada... Jamais poderia imaginar que nossa querida Sakura...' Quase começou a rir de novo... Controlou-se, e sorriu para Heru mais uma vez, que parecia perdida. 'Minha doce Heru-chan... Venha cá...' Abraçou a mulher, ambos agachados no chão e, ainda que sem entender o que ocorrera, a mulher em seda retornou o abraço.
Heru: 'Mas... Mestre... O que faremos agora...?' Heru parou de falar imediatamente, sentindo a outra figura encostar o nariz e aboca contra seu pescoço, respirando fundo.
Mestre (afastando a boca do pescoço apenas o suficiente para falar): 'Heru, Heru... Minha querida... E você não sabe que há outras formas de concluirmos meus planos?' Heru piscou os olhos duas vezes. De fato, não sabia... Sentiu o Mestre rindo contra seu pescoço, enquanto roçava o nariz contra sua pele como um gato. 'Que divertido... Com esta nova notícia terei que pensar em formas mais... interessantes... de usar nossa Sakura-chan...'
Heru, por um segundo, quase sentiu fúria tomá-la quando escutou seu Mestre falar daquela forma da desprezível mulher... Mas logo sentiu seus pensamentos anuviarem, quando a figura apertou-a mais perto contra seu corpo.
Heru: 'Hai... Mestre... Tudo o que desejar...'
O quarto era isolado, negro e úmido... Assim como todos os aposentos daquele lugar. E tudo o que a chama intensa e sepulcral da câmara iluminou ali, foram os corpos abraçados de duas mulheres...
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Passara toda tarde desde que Eriol encontrara-se novamente com Syaoran. Depois da longa conversa, o inglês fizera o amigo seguir até um dos quartos da casa para descansar. A princípio, o rapaz não quisera, alegando que mesmo que tentasse não conseguiria dormir; Assim, Eriol foi obrigado a utilizar-se de magia para fazê-lo descansar ao menos algumas horas.
Depois de deixá-lo, seguiu até o escritório em sua mansão, buscando entre vários de seus livros algum que pudesse ajudá-lo. Assim que escolheu meia dúzia deles, sentou-se à mesa e pôs-se a estudar. Tomoyo viera conversar com ele pouco tempo depois e, após compartilhar com sua companheira o que o chinês lhe contara, a mulher deixara-o estudando, precisando ela própria distrair-se com algo antes que voltasse a chorar de preocupação pela amiga.
Eriol queria consolar sua querida Tomoyo, mas não poderia fazer nada mais enquanto não descobrisse algo que os ajudasse a encontrar sua amiga. Tentara inclusive entrar em contato com a Ordem. Entretanto, momentaneamente, só conseguira o aviso de um dos discípulos da Ordem que falaria com seus mestres sobre o acontecido e voltaria a entrar em contato assim que tivesse notícias. Assim... Tudo o que restava ao mago era procurar por conta própria pistas sobre quais poderiam ser os próximos passos do misterioso grupo que agora abertamente podia chamar de inimigo.
Duas horas depois de longa leitura, o rapaz recostou-se contra sua poltrona, apertando seu polegar e indicador contra o meio de seus olhos, exasperado. De fato, após muita busca começava a formular alguma idéia do que estava acontecendo, ainda que esperasse estar enganado. Iria aguardar resposta da Ordem... Mas se eles não tivessem nada melhor, talvez tivesse que assumir que sua hipótese estava certa... Esperava que não, pelo bem de Sakura... E Syaoran.
Pelos deuses! O que poderia fazer caso estivesse certo? Precisava conversar com alguém, buscar alguma opinião...
Ouviu o som característico de ondas mágicas, enquanto um vento leve soprou-lhe contra o rosto. Observou o globo ao lado de sua escrivaninha, e logo viu a figura de uma figura familiar, com quem às vezes mantinha contato, trocando informações sobre os fatos que vinham ocorrendo, formar-se no cristal esférico.
Eriol (surpreso): 'Yelan!' A figura ao outro lado do globo sorriu-lhe, ainda que um sorriso reservado, fazendo uma leve reverência com a cabeça. 'Que fortuita oportunidade...'
Yelan (interrompendo-o): 'É sobre Sakura, não é, Eriol?' O homem abriu mais os olhos por um momento, de fato surpreso, antes de afirmar com a cabeça que sim. Antes de poder perguntar como sabia do que se tratava, a mulher continuou. 'Você não é o único que está acompanhando o progresso de meu filho, Eriol... Ainda que, infelizmente, não tinha ninguém presente para ajudá-los naquele momento de necessidade... Contudo, consegui entrar em contato com Sheng há algumas horas, ela e Tao logo estarão partindo da Índia, acompanhados, pelo menos por enquanto.'
Eriol (agravado): 'Yelan... O rapto de Sakura e da grã-sacerdotisa Kagome é algo pelo qual eu não estava esperando...' Seu cenho entristeceu-se mais... 'Syaoran está devastado.' Viu a mulher suspirar fundo.
Yelan (continuando, depois de um segundo): 'Eriol... Gostaria de prolongar a conversa, mas tenho medo de que se entrar em detalhes talvez nossos inimigos consigam interceptar nossa conversa.' O rapaz ia falar, mas a mulher levantou a mão. 'Agora não é o momento, Eriol...' A mulher olhou para o lado e em seguida voltou-se de novo para o inglês. 'Tem alguém que precisa falar com você.' O rapaz fez que sim com a cabeça e logo outra figura substituiu a de Yelan no globo, os olhos de Eriol arregalaram-se.
Eriol (olhos arregalados): 'Mestre Lan!'
De fato, a surpresa era grande, fazia alguns meses que não recebia notícias no homem. Mantinha relações cordiais há anos com o guerreiro, anos antes de Sakura ir treinar com ele, sob indicação sua. O homem vinha mantendo um olhar atento no mundo mágico já fazia vária décadas e, se alguém sabia de algo, provavelmente seria ele.
Mestre Lan: 'Rapaz... Não podemos perder tempo...' O homem severo e prático não esperou que o inglês respondesse. 'Já estou sabendo o que ocorreu e, tenho certeza que você já deve ter chego a alguma conclusão, provavelmente parecida com as minhas.' Eriol fechou o cenho, começando a perder a esperança de que pudesse ser outra coisa se não aquilo.
Eriol (interrompendo o outro): 'Mestre Lan... Como irei contar a Syaoran o que houve nesses dois anos em que ele e Sakura estiveram separados?! Eu acho que ela ainda não contou nada a ele e...' Não pôde concluir, pois Mestre Lan levantou a mão, fazendo-o calar-se.
Mestre Lan: 'Se você tocou neste assunto, então é porque chegou a alguma conclusão parecida com a minha.' Eriol apenas fez que sim, ainda que infeliz, com a cabeça. Não ousavam mencionar nada mais além que insinuações, temendo que o inimigo pudesse captar alguma mensagem. Mestre Lan mantinha-se rígido e com o olhar determinado. 'Sei que é um assunto delicado, jovem, e sei que não deveria ser você a revelá-lo ao jovem Xiao Lang. Mas estamos falando da segurança da minha pupila e, quanto mais cedo ele souber, mais cedo e mais fácil será conseguir recuperá-la sem que isso signifique trauma maior para ela... Você bem sabe os tipos de coisa que o inimigo poderá fazer quando descobrir.'
Eriol arregalou os olhos, ainda não tinha pensado nisso. Se o que Mestre Lan disse fosse verdade, então a situação ainda podia se complicar ainda mais. Óh, pobre Sakura! O que deveria estar sofrendo.
Eriol (com olhos determinados): 'Parece que não tenho muita opção, não é?' Mestre Lan fez que não com a cabeça.
Mestre Lan: 'Como Yelan já disse, não podemos informar-lhe de mais nada através desse encanto. O que te posso dizer é que há pessoas a caminho para ajudá-los...' Mestre Lan fez uma pausa, lembrando-se de algo... 'Eriol... Talvez seja melhor eu te lembrar de que, quando for falar com Xiao Lang, seja melhor que ele... Não esteja por perto...' Eriol franziu o cenho, sem entender ao que o homem se referia. Contudo, ao observar o olhar sério do homem por mais um momento pareceu entender.
Eriol (olhos um pouco arregalados): 'Ow... Realmente...'
Antes que Eriol pudesse continuar, sentiu a luz que envolvia o globo começar a tremer com mais intensidade. Fechou o cenho, sabendo que se o inimigo os estivera escutando, talvez fosse possível que tentasse cortar o contato, para que não pudessem trocar mais informações. Mestre Lan também pareceu perceber.
Mestre Lan (apressado): 'Lembre-se! Xiao Lang precisa entender a situação antes que possamos tomar qualquer outra atitude... Além disso, tente segurá-lo algum tempo aí, nossa ajuda está chegando!'
Pouco antes de o homem concluir a frase, o sinal foi cortado, o globo brilhou intensamente, para logo em seguida apagar completamente. Eriol apertou uma das mãos contra seu rosto, respirando fundo... As coisas não podiam estar pior...
Ouviu alguém batendo à porta, que estava aberta e abriu os olhos para ver de quem se tratava.
Syaoran: 'Eriol... Quando partiremos em busca de Sakura?' Eriol suspirou, esticando o braço em direção a um dos bancos em frente à sua escrivaninha. Syaoran se aproximou e sentou-se.
Eriol: 'Syaoran... Precisamos conversar...' O rapaz quis protestar, mas Eriol o fez se calar com um gesto da mão. 'É sobre Sakura....'
Ah... Pelo visto as coisas poderiam ficar piores sim...
# # # -
Ela sentia todo seu corpo dolorido, sua cabeça girava e seu mundo parecia confuso. O que ocorrera? Estivera lutando, sim... Ah, lembrava de algo... Uma batalha inesperada, sombras por todos os lados, sangue, dor e escuridão... Sentira-se envolvida pela morte, enquanto suspiros gélidos roçavam por todo seu corpo, tentando consumi-la.
Fora imobilizada, privada de todos seus movimentos, até mesmo o ar lhe entrava e saía com dificuldade de seus pulmões. O que ocorrera exatamente? Onde estava? E os outros? Parecia que haviam outros... Mas, lembrava-se de alguém lhe chamando pelo nome, várias vezes, quem era?
Sakura sentiu uma lufada de vento no rosto, e olhou para cima, o céu coberto por nuvens, sobre as quais algumas estrelas apareciam de vez em quando. Olhou para baixo, e sentiu seus olhos arregalarem-se... Sangue em suas mãos, sangue carmim, forte, intenso, como um rio que escorria por entre seus dedos. Olhou para os lados, desesperada, enquanto o rio de sangue começava a jorrar...
Faces... Faces que conhecia!!!
Aquela mulher, de longos cabelos negros e cacheados, com os mesmos olhos seus... Quem era... Quem era? Não conseguia mover-se direito, sentindo seu corpo pesado, lutou contra a força invisível, tentando se aproximar. Quando finalmente aproximava da mulher, esticou uma de suas mãos, tentando alcançá-la... Foi quando viu os olhos suplicantes, verdes e intensos... Seus olhos encheram-se de lágrimas de dor...
"Mamãe!!!"
A voz não lhe saiu pela boca, só escutava o grito dentro de sua cabeça, e antes que alcançasse a mão da mulher, ela começou a desaparecer no mar de vermelho, sem que Sakura pudesse fazer nada... Gritou, mas ninguém lhe respondeu...
Subitamente, sentiu uma mão em seu ombro e virou-se imediatamente. Seus olhos mais uma vez derramavam lágrimas, enquanto o homem lhe sorria com doçura à sua frente, convidando-a ao abraço...
"Papai!!!"
Mais uma vez a voz não saiu, mas ela conseguiu se movimentar, alcançando os braços do homem, saudade indescritível preencheu-lhe o corpo, e tentou falar de novo... Foi quando sentiu o corpo abraçado ao seu repentinamente tornar-se rígido... "Papai...?" Soltou-se ligeiramente do abraço do homem, para olhar-lhe no rosto, e sentiu um nó na garganta quando seus olhos refletiram os olhos castanhos do homem, vidrados, opacos...
Sakura tentou chamar, mas sua voz perdia a força antes de sair de seus lábios... Tão rápido quanto ficou tenso, o corpo do homem começou a relaxar e pesar, e Sakura se via com dificuldade de sustentar o corpo que começava a escorregar do seu abraço, olhando-a ainda nos olhos, olhos arregalados, tentando dizer o que não conseguia pronunciar em palavras... Sakura sentiu uma terrível onda de desespero começar a tomar-lhe o ser, enquanto seu corpo começava a cair junto com o peso do corpo de seu pai, que não se movia mais...
"Naaaaão!!!" Gritou um grito de desespero e agonia, enquanto via o corpo em seus braços desmanchar-se em sangue... Escorregando por seus dedos, inconsciente de suas súplicas...
Antes que pudesse controlar sua tristeza, entretanto, percebeu alguém se aproximando, e viu duas pernas paradas há um pouco mais de um metro à sua frente. Olhou para cima, reconhecendo o rosto escuro e bonito de seu irmão... Contraiu as sobrancelhas.
Sakura (sussurrando): 'Touya... Papai... Mamãe...' Esticou a mão, procurando consolo no olhar do rapaz. Contudo, sentiu seu peito contrair-se com a expressão de acusação nos olhos do irmão.. Acusando-a... Acusando-a pelo que ocorrera com seu pai... E com a perda de sua mãe...
Sakura tentou engatinhar em direção ao homem, rogando-lhe com os olhos por misericórdia, por perdão. Antes que pudesse perceber, o rapaz estava bem à sua frente, agachado, olhando-a a poucos centímetros de seus olhos. Sakura viu os olhos cheios de dor, acusando-a mais uma vez. Tentou virar o rosto, mas ele segurou-a com uma das mãos, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. Quando o fez... Quando o fez ele começou a desaparecer, transformando-se em sangue, enquanto mantinha o olhar acusador nos olhos dela, enquanto lágrimas de sangue corriam por seu rosto moreno.
E desapareceu. Touya a deixava... desaparecia de sua vida como o resto de sua família... A dor era demais, demais...
Sakura apoiou ambas as mãos no chão carmim, enquanto a dor e o sofrimento começavam a despedaçá-la. Enquanto sentia seu corpo tremer, mirrado de suas forças, a agonia tirando-lhe o ar dos pulmões, ar que não conseguia voltar a respirar... Olhava para o chão, vendo suas lágrimas sendo levadas pelo rio de sangue que corria abaixo de si...
E antes que se desse conta, se não suficiente o sentimento de dor em seu peito, uma face surgiu entre suas mãos, flutuando no líquido intenso e escuro abaixo de si... Sakura arregalou os olhos, reconhecia aquele rosto...
Saigo (face pálida como a morte, expressão impassível): 'Assassina...'
Sakura saltou para trás, surpresa e aterrorizada, o rosto voltava a desaparecer, deixando Sakura sozinha, desesperada, respirando pesadamente, cheia de emoções conflitando por seu ser...
'Sakura...' Sakura, que estava com os olhos para baixo, não queria olhar para cima, sabendo que mais alguém iria acusá-la, iria lhe mostrar seus pecados, condená-la. Contudo, a voz continuou ressoando, e ela não viu outra alternativa senão levantar o olhar. Seus olhos mais uma vez ficaram surpresos diante de outra figura que lhe aparecia alguns metros à sua frente. Era uma mulher, uma mulher de semblante triste, sofrido, sentada ao chão, enquanto suas mãos seguravam um corpo ao seu colo, de outra mulher, mais nova, semelhante à outra...
"Yukio... Não, Cheong... Cheong-san!' A mulher olhou-a com tristeza, enquanto derramava lágrimas de sangue contra o rosto da outra em seus braços, que parecia sem vida... Olhou de novo para Sakura, que tentou correr para ela, em vão... A mulher começou a sumir, desaparecendo, assim como as outras naquele rio de morte...Sakura não podia fazer nada... Não podia ajudá-la, como não ajudara a ninguém sua vida toda...
Todos a deixaram... Todos se foram, por culpa dela ou sem que ela pudesse fazer nada... Por quê? Por que nada do que fazia parecia certo? Por que todos a abandonavam? Talvez merecesse sofrer...
Silêncio...
Subitamente... Todo o vermelho que cercava Sakura sumiu, sendo substituído por um branco eterno. A japonesa olhava freneticamente de um lado ao outro, sem parecer entender, quando escutou passos ecoando por todo o espaço. Olhou na direção que parecia vir os passos e, ainda tremendo, arregalou os olhos, sentada ao chão, uma das mãos apoiando seu corpo.
Sentiu as lágrimas que desciam por seu rosto serem secadas por uma mão que não a sua... E esperança encheu seu ser.
# # # -
Já estavam ali sentados havia alguns minutos e Eriol parecia estar enrolando-o demais para seu gosto. Estava demasiado preocupado com Sakura para continuar perdendo tempo com o homem. Tudo o que ele lhe dissera era que talvez soubesse o que seus inimigos pretendiam fazer com Sakura.
Syaoran (cerrando o cenho): 'Eriol, pelo amor dos deuses, quer me dizer de uma vez por todas o que eles pretendem fazer com Sakura?'
Eriol (engolindo em seco): 'Syaoran... Eu acho que isso quem deveria contar para você não sou eu, mas devido às circunstâncias -' Parou subitamente, vendo a expressão de Syaoran se fechar ainda mais, como lhe dizendo para que parasse de enrolar. Eriol suspirou, abaixou os olhos e em seguida voltou-se novamente para Syaoran. 'Um rito... Acredito que querem submeter Sakura a um rito.' Syaoran sentiu seus olhos arregalaram-se, nova onda de pavor começando a preenchê-lo.
Syaoran (contido): 'Que tipo de rito, Eriol?'
Eriol: 'Bem... Disso eu ainda não tenho certeza. Contudo, visto o que vem ocorrendo até agora, o fato de este inimigo estar atrás de relíquias dos Representantes dos Deuses e o fato de terem seqüestrado Higurashi Kagome que é, assim como você e Sakura, uma representante, me levaram a deduzir que eles pretendem utilizar-se de alguma forma da conexão que possa existir entre representantes e as relíquias.'
Syaoran (franzindo o cenho e fazendo um gesto com a mão para Eriol se calar): 'Espere... Espere só um momento...' Voltou o olhar sério para o amigo. 'Está me dizendo que eles podem não estar atrás apenas das relíquias?'
Eriol (olhando o outro atentamente, antes de continuar): 'São apenas hipóteses, Syaoran. Talvez eles queiram todos os representantes, talvez eles só queiram Higurashi Kagome.' Visto o olhar interrogativo do chinês, esclareceu. 'Higurashi é a representante da Deusa da Alma, isso diz muita coisa, Syaoran... Acredita-se que a Deusa da Alma tem o controle sobre a vida e a morte, tem a... "chave"... por assim dizer, do mundo espiritual, entre outros...'
Syaoran (colocando a mão na testa, pensativo e sério): 'E por que levaram Sakura também, Eriol? O que querem com ela?!' A isso Eriol fez uma leve pausa... Sem ter certeza de como continuar.
Eriol: 'Syaoran... Sakura é a representante da Deusa das Estrelas... Assim como não posso te dizer com certeza quais são todas as possibilidades de poderes da Deusa da Alma, também não sabemos quais são todos os poderes da Deusa das Estrelas. Mas um destes poderes eu posso te dizer qual é com certeza... Ela tem o poder de canalizar magia... Todo tipo de magia...'
Syaoran observou o amigo fixamente, tentando entender o que queria lhe dizer. Entretanto, antes que pudesse questionar, Eriol continuou, após um longo suspiro.
Eriol: 'Deixe-me esclarecer... Higurashi Kagome, como uma grã-sacerdotisa, pode até ter acesso a algum poder espiritual, mas ela não é uma maga. Os únicos representantes deste período em que vivemos que tem poderes mágicos é você e Sakura. O que significa que, se alguém quiser utilizar-se de alguma quantidade de energia proveniente dos poderes de qualquer outro deus que não seja o Deus do Trovão, através de você, ou a Deusa das Estrelas, terá que utilizar-se...
Syaoran (completando): 'De um receptor...' Syaoran arregalou os olhos... 'Sakura...'
Eriol (acenando gravemente em afirmativo): 'Possivelmente... Sakura, infelizmente, pode ser utilizada como canalizadora de qualquer magia, pois é representante da Deusa das Estrelas.' Syaoran sentiu o pavor tomar-lhe conta. Ainda que tudo aquilo fosse suposição, se fosse verdade, Sakura corria grande perigo! Ela não só poderia ser usada, como o poder que passaria por ela poderia ser grande demais para o corpo dela suportar, e... 'E, para isso, para poderem controlá-la, eles poderiam tentar... "quebrá-la"...'
# # # -
Todo aquele vermelho de morte sumira e com um longo suspiro de quem deixa de se afogar, Sakura sentiu que talvez pudesse escapar daquilo tudo. Alguém fizera aquilo, alguém a tirara daquele mundo de dor. E sentiu sua respiração prender na boca quando percebeu quem era que se aproximava. Apertou a palma da mão contra a boca, tentando conter o soluço, enquanto lágrimas desciam novamente por seu rosto, lágrimas que ele prontamente secou com uma de suas mãos...
"Syaoran..."
As palavras não lhe saíram, mas o rapaz a sua frente pareceu escutar, sorrindo-lhe, cheio de ternura. Sakura contraiu o cenho, mas sorriu, aceitando a mão que ele lhe oferecia. Levantou-se, pronta para abraçar o rapaz... Talvez não merecesse aquele sofrimento... Talvez ainda pudesse ter esperança... Talvez alguém estivesse lá para ela.
Não imaginava ela, no entanto, que suas esperanças iriam desaparecer tão rápido surgiram. Assim que deu um passo à frente, aquela figura que julgara ter vindo lhe socorrer deu um para trás e o sorriso do rosto masculino desapareceu. Confusão estampou-se no rosto da japonesa, como se alguém de repente lhe tirasse seu apoio.
Olhou com olhos questionadores para o homem à sua frente, que lhe olhava com tristeza, balançando a cabeça em negativo. Um gemido escapou pelos lábios de Sakura, enquanto sentia renovado angústia começar a lhe consumir. Tentou dar um passo a frente, mas não conseguia se mover, suas pernas tremeram e ela caiu ao chão. Olhou à sua frente, pedindo com os olhos que o homem lhe ajudasse de novo...
Mas ele não se aproximou... Pelo contrário, continuou andando de costas, olhando-a, mas se afastando dela. Sakura fazia que não com a cabeça, mas antes que percebesse, ele já estava longe, virando-se, e afastando-se dela, até sumir...
O local era todo branco, vazio, sem vida, sem ninguém... Sakura abaixou a cabeça, sentindo suas mãos tremerem... Não havia mais lágrimas em seus olhos... Não tinha mais lágrimas para derramar. Tudo o que ela sentia era... Solidão...
Abraçou-se e deitou contra o chão, encolhida, não tinha forças para gritar...
Estava apavorada...
(...)
'Sakura...'
'Sakura...'
Sakura abriu os olhos de súbito, sentindo uma mão levemente apertar-lhe o ombro, como para chamar-lhe a atenção... Estava em um trem, sentiu-se desorientada e olhou para o lado, reconhecendo o rosto, sorriu-lhe...
Figura masculina: 'Você está bem?' Ela fez que sim com a cabeça e ele continuou. 'Estava cansada e eu resolvi deixá-la dormir um pouco depois da viagem, mas não conseguia mais te acordar.' Sakura apenas sorriu e olhou para janela ao seu lado. Reconheceu o local, estavam desembarcando no terminal ferroviário de Londres.
Sakura sentiu um braço rodear-lhe os ombros enquanto desciam do trem, sentiu-se reconfortada e a salvo. Ele lhe transmitia segurança e lhe fazia sentir-se em casa. Sabia que podia confiar nele, ele sabia tudo pelo o que passara e estivera sempre lá por ela... Estavam juntos fazia alguns meses e foram os únicos meses em que seus pesadelos haviam diminuído consideravelmente.
Contudo, parecia que nas últimas semanas voltara a ser perseguida, e cada pesadelo parecia se tornar cada vez pior, cada vez mais vívido e aterrorizante. Cada noite era um pesadelo diferente, e todos a faziam querer vomitar quando acordava. Naquele dia em especial, desde que pegaram o trem de volta para Londres da pequena viagem que fizeram a uma cidade vizinha, sentia seus sentidos mais aguçados. Calafrios subiam e desciam por seu corpo e ela sentia uma intensidade que jamais sentira nas presenças à sua volta, como se lhe tocassem fisicamente.
Olhou ao redor, e sentiu-se mais uma vez zonza, sentindo as cores mais vívidas, fazendo seus olhos arderem. Apertou uma das mãos contra seus olhos, e assim que o fez pareceu que sua audição ficou mais aguçada. Veículos, vozes, passos, tudo parecia vivo e intenso demais. Seu coração batia com força e ela sentia o sangue pulsando contra sua cabeça. Foi quando voltou a ouvir vozes de seus sonhos retumbarem em sua mente. Arregalou os olhos, o que estava lhe acontecendo?
Começou a se sentir confusa, desesperada, dor apertava-lhe o peito, parou. O homem ao seu lado sentiu a parada brusca e logo se voltou para ela. Chamou-a, olhando-a com preocupação nos olhos, mas Sakura respirou fundo, tirando a mão dos olhos, passando a olhá-lo e sorriu. Aproximou-se de novo dele, e posicionou-se contra a lateral de seu. Ele colocou o braço protetor em volta dela mais uma vez, ainda olhando-a com preocupação. Não parecia acreditar nas palavras dela de que estava bem, mas não queria forçá-la a falar.
Sakura sentiu o contato com o corpo alheio reconfortar-lhe imensamente, sentindo alívio pelas vozes e a energia do mundo ao seu redor parecerem incomodá-la menos. Voltaram a andar mais lentamente, em silêncio, Sakura olhando à frente, atenta, parecendo pensar em algo.
Sakura (puxando-o pelo casaco, para que ele a olhasse): 'Eu... Não queria ficar sozinha hoje...' Olhou-o com intensidade nos olhos e viu-o arregalar os seus. Ele parou por um segundo, analisando a expressão suplicante dela, e fez que sim com a cabeça.
Pegaram um táxi que os levou até a casa do homem, onde ela sabia que teria alguém para cuidar dela. Sabia que sozinha em seu apartamento provavelmente voltaria a ter aqueles pesadelos horríveis, e aquela sensação intensa que lhe preenchia o corpo, mente e espírito voltaria a atormentá-la. O homem guiou-a até a porta e, assim que a abriu, questionou-a com os olhos, ela sorriu-lhe e fez que sim. Os dois entraram e o homem fechou a porta.
Sakura já estivera lá antes, mas dessa vez, dessa vez sentia que era um momento diferente... Sentia seu corpo inteiro gritar por proteção, por segurança, por conforto... Sentia ondas de náuseas percorrerem-na e, assim que o homem voltou da cozinha com um copo de água para ela, Sakura correu para seus braços, abraçando-o com força.
Figura masculina: 'Sakura...? Sakura... O que há?' Ela apenas o abraçou com mais força, afundando seu rosto entre o pescoço e o corpo dele. O homem afastou-se ligeiramente da mulher, levantando o rosto dela com uma de suas mãos, delicadamente, querendo olhá-la nos olhos. Sakura encarou aqueles olhos queridos intensamente.
Sakura (num suspiro): 'Beije-me...' O homem cerrou ligeiramente o cenho, preocupado com a moça. Mas ela levantou mais o rosto e os lábios convidativos fizeram-no ceder sem questionar. Beijaram-se com intensidade e Sakura sentiu seu sangue correr intensamente por seu corpo. A sensação prazerosa parecia fazer-lhe relaxar, e ela se entregou ao abraço do homem.
O beijo intenso deixou o homem ligeiramente atordoado. Olhou Sakura nos olhos mais uma vez, nunca ela o beijara daquela forma, e sentiu a paixão nublando-lhe a mente, jamais pensara que poderia se sentir daquela forma com qualquer pessoa. Sakura viu a forma como o homem lhe olhou e beijou-o novamente, sentindo sua própria mente nublada, seu corpo inteiro pulsando com uma energia que nunca sentira antes, era viciante.
A mulher começou a guiar o homem para o quarto dele, seus pensamentos corriam por sua mente rapidamente, sem que ela conseguisse prestar a atenção em qualquer um deles. Tudo o que sentia era aquela energia intensa transbordando por todos os poros de seu corpo, sentia-se atraída por aquele homem, de uma forma que a fazia esquecer-se de tudo, toda dor, toda solidão. Não suportava mais aquela solidão, ela a engolia, a sufocava, e ela se sentia desesperada. Precisava de alguém que a fizesse esquecer, precisava sentir prazer em viver, precisava voltar a viver!
A lua brilhava com intensidade pela janela, iluminando o quarto masculino e aconchegante. Sakura sentia as emoções irem e virem pelo seu corpo, seus pensamentos desprezados, deixados de lado, no fundo de sua mente. Tudo o que importava era aquela energia, atraente, viciante, intensa, que a consumia e a fazia esquecer... Sentiu o outro corpo contra si, fechou os olhos com força, enquanto lágrimas escapavam por seus olhos, perdendo-se nas ondas de magia que envolviam os dois ali...
"O que estou fazendo...?" Foi o último pensamento que Sakura conseguiu formular...
# # # -
'E, para isso, para poderem controlá-la, eles poderiam tentar... "quebrá-la"...' As palavras aturdiram Syaoran.
Syaoran (olhando Eriol com ansiedade): 'Eriol, pelo amor dos deuses! Não podemos perder tempo, então -' Não pôde concluir, Eriol o fez calar-se com um gesto da mão.
Eriol: 'Syaoran, por favor, tente manter a calma.' Syaoran já ia protestar, quando Eriol continuou. 'Eu disse que é uma hipótese que eles tentariam fazer isso. Além do mais, mesmo que eles quisessem utilizar-se de um rito, para este tipo de rito em específico eles provavelmente não conseguiriam usar Sakura...' Syaoran encarou Eriol longamente, tentando desvendar quais os segredos que o inglês estava tentando esconder deles.
Syaoran (seriamente): 'Por que não irão poder utilizá-la, Eriol?' Eriol olhou para o lado rapidamente, fechando o cenho e xingando mentalmente o fato de Syaoran fazer exatamente a pergunta que não queria responder. Syaoran percebeu. 'Eriol...' Disse em tom de aviso. O outro mago voltou o olhar para ele, analisando-o por vários segundos, parecendo querer ter certeza de que o chinês não iria reagir da pior maneira possível ao que iria dizer. Suspirou derrotado diante do olhar de Syaoran, agora não havia mais volta.
Eriol: 'Syaoran... Se o que eles pretendem fazer é realmente um rito... Não poderão utilizar Sakura porque ela...' Parou para olhar Syaoran uma última vez, como se pudesse evitar falar aquilo... Percebeu a determinação nos olhos do outro e fechou os seus, não podia mais evitar.
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"O que estou fazendo...?" Foi o último pensamento que Sakura conseguiu formular... Antes que aquelas ondas de energia a envolvessem totalmente. Seus olhos brilharam, intensa e perigosamente. Sentiu como se toda energia do mundo vivo e do mundo mágico transpasse seu corpo, aquele era um poder que jamais havia sentido, suficiente para eclipsar toda sua vida em um só momento.
Sentiu seu corpo cheio de energia e vida, tão intenso, tão forte, tão incomensurável que finalmente começava a perder, de fato, o controle de todas suas emoções, de seu corpo e sua alma. Estava em êxtase!
Entretanto, antes que pudesse se perder, o sentiu parar de tocá-la, observando-a, preocupado. Sakura voltou o olhar para o homem, que vacilava, cheio de preocupação e apreensão, chamando-a pelo nome, perguntando se ela estava bem, se afastando dela...
Sakura (num sussurro): 'Não... Não...' Sua voz era quase inaudível, mas o homem sentiu quando ela segurou-o, impedindo que ele se afastasse. O toque dela o inebriava, o enchia de paixão, e ele precisou lutar contra aquela atração com vontade que talvez não quisesse ter. Continuou parado, ainda nos braços dela, mas com olhar ainda preocupado.
Homem (ainda tentando se conter): 'Sakura... ' Sakura balançava levemente a cabeça de um lado para o outro. Não queria escutar, não queria raciocinar, só queria sentir, se perder, esquecer, e aquela era a única forma! Ele tentou convencê-la, assim com a si mesmo. 'Sakura... Talvez seja melhor...?'
Não pôde concluir, pois Sakura puxou-o para outro beijo longo e intenso. Subitamente, magia e energia, como numa explosão, passaram a envolvê-los. Energia pura e inebriante, incontrolável, poderosa demais para ser contida.
O homem logo se viu consumido por aquele poder desconhecido... E Sakura não o impediu... Não se impediu...
Só queria se perder naquela sensação...
(...)
A japonesa acordou com os pássaros cantando do lado de fora da janela, a luz do sol ainda era fraca, mas suficiente para fazê-la abrir os olhos... Sentia-se cansada, pesada e drenada. Piscou os olhos várias vezes, cerrando o cenho, tentando lembrar-se do que ocorrera na noite anterior... Tudo parecera tão... surreal, tão... confuso... Lembrava-se do trem... Lembrava-se de andar pelas ruas... Depois... Colocou uma mão contra a cabeça, sentindo-a latejar.
Em seguida, a mulher apoiou as mãos contra o coxão da cama e sentou-se contra o encosto da cama. Olhou pela janela um momento, aquela não era a paisagem de seu apartamento.
Arregalou os olhos, flashes de memória voltando à sua mente. Rapidamente voltou o olhar para o outro lado da cama.
Sakura (arrepio correu-lhe pelo corpo): 'Óh, não... O que eu fiz...?' O rapaz ao seu lado gemeu, estava acordando, e ela teria que encará-lo...
# # # -
Syaoran olhava o inglês com expectativa nos olhos. Fosse lá o que o inglês estava tentando dizer-lhe provavelmente iria virar seu mundo de cabeça para baixo. Nunca vira o amigo vacilar tanto e, se não fosse extremamente sério o assunto, talvez teria dito a ele que poderiam falar daquilo outra hora. Não era o caso, e Eriol também sabia disso.
Syaoran não percebeu que prendia o fôlego segundos antes de Eriol concluir.
Eriol: 'Syaoran... Se o que eles pretendem fazer é realmente um rito... Não poderão utilizar Sakura porque ela não é...' Eriol tomou fôlego... E concluiu. 'Porque Sakura não é virgem.'
Depois da frase o escritório ficou silencioso, perigosamente silencioso. Eriol vacilou olhar Syaoran nos olhos, mas quando o fez, quase surpreendeu-se por vê-lo imóvel, sem reação nenhuma. Eriol não sabia se deveria falar algo ou permanecer calado, a reação não era a que imaginava, talvez... Seus pensamentos foram interrompidos com a segunda pior pergunta que Syaoran poderia lhe fazer.
Syaoran (neutro e impassivo): 'Quem?'
Eriol conteve a vontade de arregalar os olhos... A pergunta seca e direta lhe dizia que tentar contornar a questão seria extremamente perigoso. Os olhos de Syaoran estavam destituídos de qualquer emoção, e isso era o que estava deixando Eriol apreensivo. Não sabia o que Syaoran iria fazer, qual seria a reação dele, o que diria... Mas não havia mais volta, precisaria ir até o fim.
Eriol (depois de um longo suspiro): 'Yukito.'
# # # -
(Continua)
13/11/2009
Mary Marcato
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OBSERVAÇÕES:
Devo fazer algumas considerações sobre nossos "vilões", Heru e o Mestre. Quero deixar claro que aquela cena não quer dizer que algo "a mais" de fato ocorreu. Minha intenção foi fazer uma cena em que há um mestre que fica atentando um de seus servos totalmente devotados a ele, mesmo que não esteja planejando que algo ocorra de verdade. Como aqueles mestres que parecem crianças atentando quem não deve, enquanto o servo fica se contendo por adoração a ele, entenderam? Tenho certeza que a maioria já viu animes e mangás com personagens com esta natureza, por isso não acho que seja algo de mais.
A outra questão é sobre o fato de serem figuras de duas mulheres... Pelo amor dos deuses! Estamos falando de CCS, feito pela CLAMP... Duh... Se não conseguem conviver com a possibilidade, talvez não devesse ler mangá!!! Então... Sem mais comentários sobre esse tema. \o/
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Comentários da autora: Bem... Bem... Bem (pose de mestre de kung fu)... Terminei mais um cap! (perdendo a pose) Terminei! \o/ Anyway... Este deve ser o maior capítulo de VFII. Muuuuitos fatos novos, muitas surpresas, muitas mesmo, não? Quer dizer... Eu não queria revelar tanto de uma vez só, mas não queria mais um capítulo para lhes dizer qual era o segredo de Sakura. Bem... O que posso lhes dizer é que não é tão simples assim, apesar de virgindade, naquele tempo, ser algo levado mais a "sério" que hoje em dia... Sinto muito se foi um cap grande demais, pretendo diminuir o tamanho nos próximos. Mas espero que estejam satisfeitos... Se sim, please, qnt mais review, mais rápido eu posto (Chantagem! Chantagem!). Acho que é isso, beijão a todos, até o próximo cap.!
