Cologne estava a alguns quilômetros da Cidade Proibida em companhia dos colegas da sua neta, analisando algo num livro da história da Antiga China que havia trazido consigo. Subitamente, a anciã sentiu um aperto assolar seu peito, fazendo ela parar a leitura e derrubar o livro.

- Tudo bem obaachan*? – Akane indagou, preocupada.

- Os dois estão em perigo... – Cologne disse – nós precisamos fazer alguma coisa o mais rápido possível...

- O problema que estamos aqui acampados em vigia a umas duas semanas velha – Ranma comentou, bocejando.

Nesse instante, a karateca percebeu uma mudança nas páginas abertas do livro caído no chão. Ela tomou um susto e soltou um grito abafado, chamando a atenção de todos.

- Está tudo bem Akane-san? – Ryoga chegou antes do seu prometido e manipulando a ocasião para uma aproximação mais íntima, indagou preocupado.

- Sai para lá seu "porco tarado"! – Ranma chutou seu colega para longe da sua namorada, repetindo a pergunta feita por ele em outras palavras – O que houve?

- As páginas do livro... – a karateca respondeu, gaguejando – elas modificaram!

- Mentira, eu não vi nada de diferente – Saotome disse, olhando as páginas – eu acho que essa viagem está te fazendo ma... – antes que ele terminasse a fala, Akane interrompeu, o socando violentamente em seu rosto.

- Seu grosso! – a karateca bufou baixinho – nem deveria ter respondido...

- Eu gostaria muito de te dar razão mukodono... – Cologne analisou as folhas uma por uma e concluiu, apreensiva – a história já começou a tomar outros rumos...

- E agora o que vamos fazer? – Ryoga indagou.

- O jeito é esperar o anoitecer e invadir a Cidade... – a anciã sugeriu – provavelmente de noite será mais fácil...

- Vamos entrar lá de novo? – Ranma comentou, contrariado – Tomara que seu plano dê certo porque não estou a fim de ser preso outra vez...

- Talvez seja necessário aquecer um pouco o corpo... – Cologne falou.

- Fazer o quê... – Saotome disse.

As horas passaram num sopro e o sol já se escondia no horizonte e anunciava a chegada do anoitecer. Um pequeno grupo de homens mascarados de preto surgiram a certa distância da entrada principal e ficaram à espera da ocasião adequada para iniciar o ataque. Logo em seguida, atiradores apareceram em todos os lados, cercando a Cidade Proibida.

O homem que parecia o líder dos encapotados, acenou para os outros lutadores ao notar o momento da troca de escala entre os guardas.

E a invasão começou.

Lei Li aproveitou a distração dos guardas e aproximou-se de um deles pelas costas, o silenciando apenas com um golpe na região abaixo das orelhas. Embora Li estivesse disfarçado, outros soldados logo reconheceram através daquele golpe tão familiar.

- Você é o... – um deles arriscou em citar o nome – você é o... – antes que o guarda terminasse de falar seu nome, esse foi calado pelo lutador de Kung-Fu.

- Lei Li – o homem retirou a máscara e sorriu malevolamente – é hoje que irei me vingar daquele que roubou tudo o que era meu! Me aguarde Liang!

Mousse clamou "socorro", quase num grito e abriu os olhos como se despertasse de um pesadelo. Passou a mão na sua testa, limpando o suor gelado ao mesmo tempo que ofegava por ar. Yu a gatinha também acordaram devido o susto do amazona.

- É aquele mesmo pesadelo? – Yu disse com uma voz sonolenta, acariciando o rosto dele para tranquilizar – Fique calmo que eu estou aqui com você...

- "Que tipo de sonho será esse?" – Shampoo indagou para si, curiosa.

- Eu já estou bem...

O amazona saiu da cama e seguiu em direção a entrada, acompanhado pela Lianhua. Aquela situação virara rotina desde sua chegada na Cidade Proibida. Mousse empurrava alguém e ficava embaixo dos escombros de árvores num lugar desconhecido.

- Merda – o jovem general murmurou baixo, atordoado – eu queria tanto parar de sonhar com essas coisas...

- "E eu queria tanto que você se lembrasse de tudo..." – a gatinha pensou, entristecida.

Um dia Mousse se lembraria de tudo e Shampoo esperaria ansiosamente por esse dia, seja ela cedo ou tarde. Mal sabiam ambos que esse grande momento estava prestes a acontecer...

De repente, um vulto negro assaltou o amazona. Mesmo sob forte enxaqueca, Mousse enfrentou o invasor com fervor. Seus golpes eram tão familiares a ponto de imaginar que estava lutando contra seu mestre.

Enquanto isso, Shampoo corria apressadamente em direção ao aposento. A gatinha chegou afobada no quarto e pulou sobre a Yu para pedir ajuda. Após muita insistência, a jovem cedeu aos apelos da pequenina.

- Eu já vou... – Yu murmurou, espreguiçando os braços.

O barulho da porta sendo arrombada bruscamente tratou de reativar seus sentidos. Um homem disfarçado de soldado do império invadiu o quarto, empalidecendo a face da chinesa. Shampoo se enfiou debaixo das cobertas para escutar a conversa.

- O mestre Lei Li mandou-me informar sobre o assalto de hoje – o espião anunciou, em reverência – ele também pediu que você se juntasse aos invasores.

- Como assim? – Yu reclamou, desesperada – Isso não foi o combinado!

- "Quer dizer que essa mulher é uma espiã?" – Shampoo refletiu, aflita – "Mu-Tsu precisa saber disso o mais rápido possível..."

Shampoo saiu daquele quarto sem ser vista, buscando desesperadamente por água quente. Lembrou-se então da sala de banho frequentada pelas empregadas e rumou na esperança dos invasores não terem alcançado ainda o pavilhão das serviçais.

Ao notar algumas criadas se banhando tranquilamente, a gatinha não pensou duas vezes e enfiou-se no meio delas, retornando a sua forma de humana. As mulheres gritaram de pavor e Shampoo foi obrigada a golpear todas elas.

- Shampoo não gosta de bater em pessoas indefesas – Shampoo continuou, vestindo-se com as roupas delas – mas gomen, é por uma causa maior!

Com passos rápidos e determinados, Shampoo disparou dali, e cruzando com alguns mascarados, despistou todos eles. Atravessou alguns edifícios e reencontrou sua bisavó em companhia da karateca, perdidas naquele labirinto.

- Minha neta! – Cologne comentou, emocionada.

- Ainda bem que está viva! – Akane disse, aliviada.

- Você pensa que eu sou quem? – Shampoo respondeu cheio de si – Eu sou a Shampoo, uma mulher do clã dos Amazonas.

- Vamos continuar essa conversa em outro lugar porque ficar aqui é perigoso – a anciã sugeriu, em estado de alerta.

- Falando nisso, onde você estava indo com tanta pressa? – a karateca indagou.

- Aquela desgraçada traiu o Mu-Tsu... – Shampoo mordeu o lábio inferior e fechando a mão em punho, disse – eu preciso avisar ele antes que seja tarde demais...

- Shampoo... você... – Akane falou, surpresa com a preocupação da amazona em relação ao Mousse.

Shampoo entendeu a mensagem e corando violentamente, desconversou: - Eu não estou interessada nele, só fiquei com pena daquele pato idiota e ingênuo...

- Mas você é mesmo carne de pescoço hein garota... – a karateca confessou.

- Kuso**, esse lugar é enorme! – Ranma reclamou, chutando a face de um soldado.

- Pára de reclamar um pouco e se preocupe mais com a sua noiva, seu imbecil! – Ryoga desabafou, dando uma cotovelada num adversário – se você não tivesse perdido ela de vista...

- Você que não tem senso de direção e a culpa é minha? – Saotome socou um inimigo e sorriu brincalhão – Isso está fácil demais... – disse, golpeando mais um soldado – vinte e quatro!

- Vinte e cinco! – Ryoga gritou, descontando a fúria no homem fardado diante dos seus olhos – Eu já irei te salvar minha amada Akane-san!

- Vinte e seis! – Ranma debochou, desferindo uma joelhada num homem de sabre – ela não está nem aí para você seu porco!

- Vinte e sete! – Ryoga entrou na frente do seu rival e golpeu a face do soldado – cala essa boca seu travesti!

- Hei, esse alvo era meu! – Saotome bufou.

Duas presenças fortes trataram de incomodar Ranma. Ele parou de atacar os inimigos, deixando todo o serviço sujo para o Ryoga. Avistou dois homens lutando incessantemente sobre o telhado de um dos pavilhões próximos dali.

- Me ajuda aqui seu inútil! – Ryoga comentou, chutando e socando os adversários.

- Veja aquilo – Ranma disse sério, apontando com seu dedo indicador.

- Mas aquele é o Mousse... – Ryoga golpeou o último soldado.

- Vamos lá – Saotome falou.

Os dois deixaram a montanha de soldados desfalecidos para trás, rumando em direção ao cenário de uma batalha que parecia sem fim. Eles se limitaram em assistir o espétaculo a alguns palmos, tentando acompanhar os movimentos predatórios e extremamente velozes aos seus olhares.

- Você está enxergando alguma coisa? – Ryoga indagou, engolindo saliva.

- Só um pouco... – Ranma respondeu, sem desviar o olhar do Mousse.

- Ranma, Ryoga-kun! – Akane acenou a mão para eles.

- Até que enfim nos reencontramos! – Ryoga comentou, aliviado.

- Está tudo bem com você Shampoo? – Ranma indagou.

- Eu estou... – a amazona respondeu desinteressada, fitando atentamente o seu amigo de infância.

Todos continuaram a assistir a difícil disputa entre Mousse e o Lei Li. Tanto um como o outro não cediam a vitória e aumentavam cada vez mais a sequência de golpes. Ambos abusavam das técnicas poderosas de Kung-Fu, mescladas a golpes utilizando energias psíquicas.

A batalha se estendeu até o alvorecer e o amazona sabia que não iria aguentar muito tempo naquele ritmo tenso e acelerado. Lei aproveitou o deslize de Mousse para golpear fortemente a face, o derrubando do telhado.

Num ato impulsivo, Shampoo interrompeu a luta, correndo para socorrer seu amigo de infância. Yu chegou primeiro, empurrando sua rival para bem longe.

- Não ouse em chegar perto do meu homem! – Yu murmurou para ela mesma – Eu devia ter acabado com ela naquela hora...

- Vai enganar ele até quando sua pistoleira? – Shampoo disse em alto e bom som – eu escutei aquele soldado dizendo para você se juntar a esse homem que está lutando contra o Mu-Tsu!

- Agora eu entendi tudo... – Yu comentou – aquele gato não era inofensivo coisa alguma – enfatizou – era você transformada! – bateu os pés no chão – como eu não desconfiei disso antes?

- Larga do Mu-Tsu, sua espiã! – a amazona tomou posição de combate.

- O que aquela mulher está dizendo é verdade? – Mousse indagou, encarando Lei.

- Ela não te ama de verdade Mu-Tsu! – Shampoo alertou – Ela teria falado a verdade se realmente te amasse...– acrescentou – eu jamais ia trair o homem que amo!

Lei não queria que aquela conversa se estendesse mais e desceu rapidamente sobre o amazona, atingindo sua barriga com seu punho de aço. O impacto era tamanha que Mousse cuspiu saliva pela boca.

- Espero que não tenha se esquecido de mim... – Li disse, cheio de ironia.

Um vulto apareceu rapidamente atrás do Lei e golpeou lhe pelas costas, surpreendendo a todos, principalmente o Mousse.

- Eu serei o seu próximo oponente – Hu falou, amparando o seu aprendiz – meus parabéns pela luta Mu-Tsu, estou muito impressionado com a sua evolução em tão pouco tempo – confortou – agora descanse um pouco.

- Mestre... – essas foram as últimas palavras do Mousse antes dele perder a consciência.