Capítulo 19 – ... e menos, e menos, a menos que…
Tema: negação
– Olá, Harry. – O sorriso de Dumbledore forçou Harry a também sorrir, com uma dor a esmagar-lhe o peito. – Estou deixando este depoimento especialmente para você, porque você precisa saber a verdade a seu respeito. Uma coisa maravilhosa aconteceu, Harry, uma coisa que você nunca se deu conta e não podíamos lhe dizer até que você protegesse sua mente com a Oclumência.
Aquilo renovou a dor no peito de Harry. Ele nunca tinha conseguido aprender a tal Oclumência, mas achava que aquilo não tinha feito falta.
– Você, Harry, é uma rara criatura. Um Koboldine Mizrah, um dos mais raros já reconhecido. Mais do que isso, você é de um tipo especial. Tão especial que todos acreditavam que seres como você eram apenas lendas. Você é um Mizrah Arati, um criador. As lendas falam que você é capaz de criar planetas e sóis, criar vida e dar impulso a todas as criaturas. Você é luz, é brilhante, é vida. Você já deve ter notado, por exemplo, que você fica triste com a chuva. Deixe-me dizer-lhe, Harry, que chove porque você está triste. Quando Sirius morreu, Severus e eu tememos por uma enchente. Esse é o tipo de criatura especial que você é. Só se conhecem lendas a seu respeito porque você é um ser extremamente raro. Acredita-se que um Arati tenha entrado para a mitologia com o nome de Apolo ou Hélios, mas ninguém pode dizer com certeza. Dizia-se que Aratis eram descendentes de deuses, mas isso não é verdade porque, como você já deve saber, Koboldines não são classificados por linhagem. Foi o seu amadurecimento Koboldine que propiciou isso. Sim, Harry, foi seu acasalamento com Severus que propiciou seu desabrochar Arati.
Um barulho do lado de fora fez Harry perceber que ele estava com os olhos secos demais, pois ele não piscava há alguns minutos. Mas Dumbledore não tinha terminado:
– Como é comum em Koboldines, a mágica de um Arati precisa ser ativada por sua contraparte – seu parceiro, se preferir. No caso de um Arati, seu complemento é um Sharaman. É um outro Koboldine, um que o completa, que o deixa de pés no chão. Ele também tem poderes, mas esses são ligados ao oculto e ao obscuro. Podem falar com os mortos, visitar o outro lado, visualizar o futuro, ente outros poderes. Mas, para isso, Arati e Sharaman precisam estar em sintonia. Eles têm grande dificuldade de usar seus poderes se não estiverem juntos.
Dumbledore parecia especialmente doce, os olhinhos azuis brilhando ao especificar:
– Mzrahi Arati e Sharaman são sempre um casal, sempre acasalados. Porque é precisamente essa união, essa proximidade, que ativa seus poderes. Separados, eles não conseguem acessar esses poderes. Eles compartilham um elo, diferente do elo bruxo de uniões tradicionais. Portanto, eles precisam ficar juntos. Assim, são uma força formidável de equilíbrio no mundo bruxo. Na verdade, um Arati não é capaz de amar ninguém a não ser seu Sharaman, e vice-versa. Se, por qualquer motivo, eles ficarem separados, os poderes Mizrahi não conseguem ser acessados. Mas, na hipótese de um ser infiel ao outro, procurando união ou consórcio com um outro amante, as conseqüências são terríveis. O amante dará à luz a demônios terríveis e formidáveis, demônios que só podem ser destruídos pelo parceiro traidor, pai dessas criaturas. Só então o equilíbrio será restaurado. – Nesse ponto, Dumbledore suspirou e fez uma pequena pausa antes de acrescentar, gravemente: – Espero que você tenha se dado conta das implicações do que eu estou lhe dizendo, Harry.
"Eu nem sei direito o que é tudo isso, quanto mais as implicações", pensou o rapaz, com uma pontinha de desespero, as emoções se acumulando.
– Você já deve ter desconfiado que Severus é seu Sharaman, Harry – continuou Dumbledore. – Isso me deixou duplamente feliz. Se você tinha dúvidas sobre a lealdade de Severus antes, Harry, mesmo apesar de todas as minhas garantias, então essas dúvidas não têm mais nenhum motivo de ser. Normalmente, um dominante tem por instinto proteger seu submisso, a tal ponto que ele é capaz de morrer pelo seu parceiro. Mas um Sharaman jamais vai prejudicar seu Arati de qualquer maneira, ou deixar que ele seja prejudicado. Ele saberá protegê-lo ainda mais ferozmente, e fará qualquer sacrifício para isso.
Harry sentiu seu rosto molhado e ficou chocado quando se deu conta de que estava chorando. Ele não sabia exatamente por que chorava.
– Mas infelizmente, Harry, nem Severus nem eu podíamos lhe dizer nada disso. É que você não tinha dominado a Oclumência. Não estou lhe dizendo isso para se sentir culpado, só estou expondo os fatos. Sem a Oclumência, tudo isso poderia chegar aos ouvidos de Lord Voldemort. E isso deixaria você em grande perigo, Harry. Você seria mais do que um troféu para os planos dele. Veja bem, você é – no momento – a maior ameaça a ele, e a maior garantia de vitória das forças da Luz. Porque você tem o poder de destruir as horcruxes dele e sobreviver, se Severus estiver a seu lado. Você não deve ignorar que o que me matou, na verdade, foi a destruição da horcrux contida no anel de Slytherin. Eu vinha morrendo esse ano inteiro, Harry, e era meu dever prepará-lo o máximo que eu podia para enfrentar Lord Voldemort. De algum modo, você percebeu isso.
– Agora – continuou o velho professor – eu calculo que você tenha planos de encontrar as demais horcruxes e mais: é razoável antecipar que você pretenda fazer isso com a ajuda de seus amigos Ron e Hermione. Eles serão úteis, e nem preciso me preocupar de que eles serão leais até o fim. Vão apoiá-lo e protegê-lo em tudo e todas as ocasiões. São amigos valiosos, Harry, e você é uma pessoa afortunada por ter amigos assim. Mas a seu lado, seja no campo de batalha, seja nos bastidores, você não pode abrir mão de Severus. Ele está a par de tudo que nós conversamos, e pode instrumentalizá-lo para a missão, bem como o deixará a par das movimentações de Lord Voldemort. Você precisa de Severus em vários níveis, meu rapaz, e não será sábio acreditar o contrário. Por isso, eu faço um pedido muito extraordinário: repense seus sentimentos em relação a Severus. Ele é a sua única esperança de vitória contra Voldemort. Juntos, vocês podem conquistar muitos grandes feitos. Desde que estejam juntos, Harry.
Aquilo fez Harry sentir o peito se apertando, ficando mais pressionado ainda. Ele não tinha nome para tudo o que estava sentindo, só sabia que era muita coisa junta e misturada.
– Deixe-me dizer-lhe que isso é realmente uma bênção, Harry. Você parece acreditar que o poder que o diferencia de Voldemort é desimportante. Eu acabo de lhe dizer que não é. Sem amor, como você poderia ser um criador, um Arati? Você pode criar vida, Harry, justamente por causa do grande amor que existe em seu coração. Aliás, deixe-me alertá-lo que isso também quer dizer que você, em si, também pode criar vida. Você pode engravidar, Harry, quando quiser. Sei que isso o deixaria muito feliz, e Severus também.
Harry sequer registrou essa última parte, essa de engravidar. A essa altura, o rapaz já não sabia mais o que pensar. Ele tinha que confiar em Snape! Mais do que isso, ele tinha que amar Snape. "De novo," acrescentou. Parecia ser uma tarefa grande demais.
Dumbledore sorriu e continuou:
– Sei que não conversamos sobre isso no último ano, mas acredito que você saiba que eu também sou um Koboldine. Como você, também sou submisso. Encontrei meu dominante, um homem muito poderoso. A nossa união fez de mim um Koboldine Muzarab. Ele me ensinou Legilimência, Oclumência, transfiguração... Eu o amava profundamente. Por razões parecidas com as que o unem a Severus, nunca mais consegui amar outra pessoa do mesmo jeito.
Os olhos azuis adquiriram um matiz de tristeza e saudade, que Harry não se lembrava de ter visto no seu velho mentor:
– Eu tive que matá-lo. – Harry arregalou os olhos. – Seu nome era Grindelwald, e ele se voltou para as trevas. Ele era tão poderoso que ninguém, a não ser eu, poderia fazer o serviço. Veja você que durante muito tempo eu resisti contra isso. Eu teria que matar o homem a quem eu amava, o amor de minha vida. Parecia ser um sacrifício grande demais. Eu parecia não ter forças para levar isso a cabo. Sim, eu sofri muito. Você também deve estar pensando em seu próprio sofrimento, e nas dúvidas de amar Severus nesse momento. Se me permite uma opinião pessoal sobre sua vida, acredito que amar o amor de sua vida é preferível a matar o amor de sua vida. Ame Severus, Harry. Sei que parece ser um sacrifício nesse momento. Mas não pense nisso desse jeito. Você consegue fazer isso, eu tenho a mais absoluta confiança de que consegue.
Internamente, Harry se perguntou se isso era verdade. Será que ele conseguiria? Dumbledore, aparentemente, tinha mais confiança em suas habilidades do que ele mesmo.
Amar Severus.
O assunto não saiu de sua cabeça quando ele abriu a terceira garrafinha, que falava basicamente sobre horcruxes e um modo que Koboldines Mzrahi seriam capazes de destruí-los sem se machucar e sem Lord Voldemort perceber. Estranhamente, Harry estava tão fora do seu normal que fez uma coisa normalmente típica de Hermione Granger. Ele tomou notas sobre horcruxes.
Mas sua cabeça não podia se desligar do que Dumbledore tinha dito. Ele tinha que amar Severus. Mas como diabos ele faria isso se no momento o que ele mais queria era torcer o pescoço seboso dele?
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O nariz de comprido de Petúnia Dursley torceu para cima quando ela abriu a porta e viu que novamente aquele homem esfarrapado estava a bater nela. Ele abriu um sorriso amigável:
– Boa tarde, Madame. Posso falar com Harry, se não for incômodo?
Ela estreitou os olhinhos cruéis e disparou:
– Na verdade, é incômodo, sim. O delinqüente não está em casa, por isso eu agradeceria se fosse embora e não incomodasse mais!
Ela ia fechando a porta na cara do maltrapilho quando ele deu um passo rápido para frente, impedindo-a, já sem o sorriso ou o ar amigável:
– Não tente mentir para mim, senhora. Eu sei que Harry está aí dentro, e acho que não vai querer me impedir de falar com ele.
– Está me ameaçando? Eu vou chamar a polícia!
Os olhos normalmente doces endureceram nitidamente, e o homem mudou o tom de voz para dizer, de maneira calma e persuasiva:
– Não, a senhora não vai chamar a polícia. A senhora vai se acalmar e vai me deixar entrar com prazer. Na verdade, vai me levar até o quarto de Harry e vai se oferecer para trazer um lanche para nós. E não vai achar isso estranho. Porque a senhora vai passar a tratar Harry com delicadeza e decência. Quando chegar a hora de Harry se mudar dessa casa, Madame, a senhora vai dizer que gostaria de tê-lo tratado melhor quando criança e vai sentir falta dele. Até lá, vai tratar dele como um convidado muito querido. Não é verdade?
Petúnia encarava o homem, absorvendo cada palavra, vendo que ele estava coberto de razão. Sim, ela já estava pensando em fazer tudo aquilo mesmo.
– Sim, claro, eu vou levá-lo até Harry agora mesmo. Por favor, queira entrar.
O sorriso voltou ao rosto do homem, quando ele entrou:
– Obrigado. Com sua licença.
"Que homem educado", pensou Petúnia, com admiração, deixando-o entrar na sua casa. Quem sabe ela poderia preparar-lhe um petisco...
Próximo capítulo: Conversa em Wisteria Walk
Capítulo 20 – Chá com Remus sem petúnias
Tema: comida
– Harry, posso entrar? – Petúnia abriu a porta do quarto, sorrindo. – Seu amigo está aqui, e eu pedi que ele subisse. Espero não estar interrompendo nada.
Harry olhou sua tia, de olhos arregalados. De todas as coisas estranhas das últimas horas, aquela era a que ele menos esperava. Tia Petúnia estava sendo gentil.
Remus entrou no quarto:
– Olá, Harry. Não cheguei em má hora, cheguei?
– Não, professor, claro que não. Entre.
Tia Petúnia sorriu:
– Bom, vou deixá-los à vontade agora. Acho que vou preparar um lanchinho para vocês. Gostariam de alguma coisa em especial? Talvez uns biscoitinhos de gengibre?
Harry não pôde evitar ficar boquiaberto, mas Remus recusou polidamente:
– É muita gentileza sua, Madame, mas não precisa se incomodar. Na verdade, eu ia mesmo perguntar a Harry se ele gostaria de sair para um lanche num desses locais de sanduíches rápidos que os jovens gostam tanto hoje em dia. Então, Harry? Que tal dar uma volta e parar para comer um hambúrguer com mil recheios e molhos?
– Claro, professor. Vai ser ótimo.
Tia Petúnia lembrou, com um sorriso doce:
– É bom levar um casaco. Sei que é verão, mas o tempo pode mudar no final do dia.
Eles saíram e Remus observou:
– Sua tia parece ser gente boa.
– Não sei o que deu nela. Juro, ela não é assim. Não é mesmo. Ela me odeia! Será que está sob a Maldição Imperius?
– Harry, você já viu vítimas da maldição antes. Sabe que elas costumam ficar apáticas e com aquele olhar característico de quem está sendo controlado. Sua tia me pareceu bem esperta e energética.
– Não tenho nada com que me preocupar, então?
– Bem, eu não iria tão longe – brincou o lobisomem, sorrindo. – Mas acho que está seguro com sua tia, por mais estranha que ela pareça.
Harry sorriu. Era bom poder sorrir depois de tanta coisa.
– Harry, eu queria convidar você para tomar um suco num lugar Muggle bem longe do mundo bruxo, um lugar onde pudéssemos falar sem medo de sermos vistos. Você sabe, não estamos vivendo em tempos fáceis.
Harry não se importava mesmo, mas acreditou mais que Remus poderia não ter condições de bancar uma ida a um MacDonald's.
– Claro.
Foram a um café ali perto, onde Lupin pediu um chá gelado e Harry tomou um suco de laranja. Fizeram questão de sentar numa mesa bem longe de outras pessoas para poder conversar à vontade. O rapaz confessou:
– Tenho tanta coisa para perguntar que nem sei por onde perguntar.
– Não sei o que posso responder que você não saiba, Harry. Literalmente, eu sei tanto quanto você.
– Então essas garrafinhas não são falsas? É tudo verdade?
– Com certeza, Harry. Pode confiar.
– Mas... eu tenho que confiar em Snape!
– As explicações de Dumbledore me pareceram bem sólidas.
– E se ele estiver errado? Se Snape estiver mentindo?
– Pelo que Dumbledore falou, ele não pode mentir para você. Quero dizer, claro que ele pode lhe dizer uma mentira, mas ele não pode traí-lo. Ele está do nosso lado, Harry. E vocês dois juntos vão derrotar o... – Ele se interrompeu, olhando para os lados. – Bom, você sabe de quem estou falando.
– E o que ele fez a Sirius? Ou a Dumbledore?
– O que tem Sirius a ver com isso? Severus não teve nada a ver com a morte de Sirius. Você estava lá. Você viu o que aconteceu.
– Ele não estava lá, mas ele azucrinou Sirius! Ele o provocou tanto que ele não teve dúvidas em ir para o Ministério naquela noite! Por culpa de Snape!
Lupin o encarou seriamente:
– Harry, eu estava lá quando Severus avisou que você estava em perigo. Lembro-me como se fosse hoje. Severus praticamente implorou para Sirius ficar em Grimmauld Place. Argumentou que ele tinha que avisar Dumbledore do que estava acontecendo, mas você sabe como Sirius era. Eu me lembro da expressão séria de Severus. Aquilo me impressionou na hora, mas depois de tudo que aconteceu... Achei estranho. Era como se ele soubesse o que ia acontecer. – Deu de ombros. – Agora deu para entender por quê.
– Por que ele não impediu? Sirius não estaria morto!
– Harry, ele tentou. Juro a você que tentou.
– Ele também entregou meus pais a Voldemort!
– Você ouviu o que Dumbledore disse. Em primeiro lugar, não foi Severus quem matou, foi Voldemort quem escolheu você. Severus não tinha como saber quem ele ia escolher. Ele ficou muito arrependido. Quando Severus viu o que tinha feito, ele voltou para o nosso lado e nunca mais olhou para trás. Ele aceitou uma vida perigosa, de espião, para tentar se redimir desse fato. Não se esqueça de que ele tinha obrigações para com seu pai, por causa da herança conjunta de vocês. Eu só estou dizendo o que eu vi nas memórias de Dumbledore, e você também viu.
– Tudo bem, esse ele não pôde evitar. Mas e quanto a... matar Dumbledore? Ele podia ter evitado aquilo!
– Você viu a garrafinha, o próprio Dumbledore explicou o que aconteceu. Harry, o que mais vai ser preciso para convencê-lo?
O rapaz suspirou, olhando o seu suco, e deu de ombros:
– Desculpe. Mas é difícil aceitar que, de repente, Snape tenha virado bonzinho.
– Na verdade – lembrou Remus, mexendo-se na cadeira –, ele não virou bonzinho. Claro, você é quem vai tomar suas próprias decisões, se confia nele ou não. Só lembre-se do que Dumbledore lhe disse. Aparentemente, Severus sempre esteve do nosso lado. E você, mocinho, poderia ficar mais feliz. Está ameaçando chover de novo, e eu não trouxe guarda-chuva.
Harry não entendeu do que ele estava falando, até Remus erguer a sobrancelha, divertido. Aí Harry se deu conta do motivo da piada, e não pôde evitar rir também. Ele viu Remus tirar um frasquinho de poção do casaco surrado e indagou:
– Tudo bem?
– Oh, não se incomode, Harry – disse Remus, tomando um gole. – É apenas aquele... velho problema de sempre.
– Oh, nem lembrei que a lua cheia estava chegando.
– O que nos faz apressar as coisas significativamente, Harry – lembrou seu ex-professor. – Precisarei retornar à minha missão, mas preciso saber quais são seus planos e em que posso ajudá-los.
– Francamente, eu estou tão confuso que nem saberia por onde começar.
– Que tal começar por seu coração? Diga, você vai conseguir trabalhar com Severus? Vai conseguir encará-lo de novo? Responda, mas responda honestamente.
Harry pensou um pouco, tentando sondar o que se passava dentro de si.
– Quando estávamos... juntos, no quinto ano... eu acho que me apaixonei por ele. Eu queria tanto ficar com ele depois daquela época, pensava que podíamos nos encontrar depois. Aí eu vi aquele episódio no Pensieve, e depois aconteceu aquilo com Sirius, e eu culpei ele, e aí eu fiquei com tanto ódio e a última conversa que tive com ele foi uma briga, uma daquelas bem feias, sabe? Eu falei tanta coisa ruim, e então a gente foi se afastando, e tudo ficou tão complicado...
Foi interrompido:
– Harry, Harry: calma, você não está fazendo sentido. Pense apenas nisso: você consegue?
"Você consegue fazer isso, eu tenho a mais absoluta confiança de que consegue", soou Dumbledore na cabeça do rapaz. Ele imaginou encarar de novo o rosto de Severus, o nariz inconfundível, a pele pálida, a expressão enigmática. E então ele se distraiu, lembrando das expressões daquele rosto no tempo que eles passaram isolados na enfermaria, quando Harry sinalizava que estava pronto, ou que precisava de mais contato, apontando para o Kama Sutra Gay.
– Eu não sei – respondeu Harry, com sinceridade.
– Muito bom – foi a resposta de Lupin. – Ao menos, você é sincero. Você ouviu Dumbledore: há outras maneiras de destruir as horcruxes, maneiras que não envolvem a participação de Severus. Se você acha que não consegue...
– Eu não sei se consigo! – interrompeu Harry, agitado. – Não é que eu não ache. Mas, de qualquer forma, ele está foragido. Mesmo que eu decida que posso trabalhar com ele, como entrar em contato?
– Por isso é que eu perguntei se você podia fazer isso, Harry. Os Muggles têm um ditado: "Querer é poder". Se você realmente quiser fazer isso, isso vai acontecer.
– Assim como... por mágica?
Remus deu um sorrisinho sarcástico:
– Pode ser mágica. Mas também pode ser que, enquanto eu estiver infiltrado na colônia de lobisomens, alguns Death Eaters apareçam para falar com Greyback, e com sorte um desses Death Eaters pode ser Severus.
Harry sorriu também, compartilhando a ironia.
– Bom, se isso acontecer, e se Snape e eu trabalharmos juntos, pelo menos não vamos ter trabalho em nos encontrarmos, pois eu estarei fora de Hogwarts.
O sorriso de Remus se desfez:
– O que está dizendo?
– Não vou a Hogwarts, mesmo se a escola reabrir. Para caçar as tais horcruxes.
– Harry – A voz de Remus mudou completamente –, eu o aconselho fortemente contra isso. Em primeiro lugar, porque tudo indica que Hogwarts pode ter as respostas às suas perguntas sobre horcruxes. Em segundo lugar, e mais importante, é lá que estará mais seguro. Se Hogwarts reabrir, como você mesmo diz, é o melhor lugar para você estar. Nem preciso dizer que você precisa completar sua educação, Harry.
– Como pode dizer isso diante de tudo o que está acontecendo? Não acha que preciso rever minhas prioridades?
– Sua prioridade é se defender, Harry. Sobreviver. Se quiser enfrentar a ameaça que está lá fora, você precisa sobreviver. A melhor maneira de assegurar sua sobrevivência é uma educação mágica. Além disso, você e seus amigos precisam se reunir em algum lugar.
– E Grimmauld Place? Ah, claro. A Ordem estará lá.
– Deixe-me corrigi-lo. A Ordem não se encontra mais ali; agora eles têm um outro local de reunião. Mas é a sua casa. Você pode marcar um encontro com Severus lá. Com a morte de Dumbledore, ninguém mais pode passar o segredo da localização de Grimmauld Place adiante. Vocês estarão seguros.
– E por que Ron e Hermione não podem ir para lá também?
– Porque eu conheço Arthur e Molly Weasley, e se Ron não aparecer na escola, eles vão armar um verdadeiro escândalo. Talvez os pais de Hermione também façam a mesma coisa. Vocês vão ter dificuldade em se manter discretos como a caçada de Horcruxes exige.
Harry terminou seu suco de laranja, suspirando.
– Não tem jeito, não é?
Remus o encarou, um olhar interrogativo, e Harry esclareceu:
– Vou ter que lidar com Severus, não vou? Preciso de Oclumência, ou Voldemort vai saber que estamos procurando suas preciosas horcruxes. Preciso formar o tal elo Koboldine com ele para poder destruir as horcruxes do jeito que Dumbledore explicou, sem arriscar a vida de mais ninguém. É o jeito mais seguro: Severus e eu podemos fazer isso. Se eu tentar sozinho, Ron ou Hermione podem se machucar.
– Harry, eu não vou poder estar por perto para ajudar. Mas posso lhe dar sugestões? – Ao sinal afirmativo do rapaz, ele continuou. – Em primeiro lugar, não preciso dizer da importância de manter tudo que estamos conversando em segredo. Não diga nada a ninguém sob hipótese alguma, a não ser para Ron e Hermione, claro. Estude tudo o que Dumbledore lhe disse sobre as horcruxes. Você nunca sabe quando isso pode ser importante. Acho que, depois do seu aniversário, quando não precisar mais da proteção do sangue de sua tia, você deve ir para os Weasley um tempo. Tirar férias, conviver com seus amigos. Isso é importante para sua saúde mental. Depois, você pode usar Grimmauld Place como residência e local de pesquisa de horcruxes. A biblioteca da família Black não é nada desprezível, Harry, e pode ser muito útil. Como já falei, também é um excelente lugar para encontrar com Severus... quero dizer, caso você decida falar com ele. E quando você estiver pronto, claro.
Harry fez um sinal afirmativo, tentando dar um sorriso. Naquele momento, ele sentiu a importância e a proximidade da hora da verdade. Era bom poder partilhar aquilo com alguém como Remus, mas ele sentia que talvez gostaria de poder compartilhar aquilo com outra pessoa. De qualquer forma, ele era grato ao lobisomem por dar-lhe apoio emocional. E conselhos valiosos. Como sempre, Remus se mostrara um homem sensato.
– Obrigado.
– Ei, que tal aquele sanduíche agora? Você deve estar com fome.
– Na verdade, não estou com fome, não.
– Harry, você está muito magro. Precisa comer. Olhe, eu também vou comer alguma coisa. Assim fazemos um jantar um pouco mais cedo e ficamos os dois alimentados.
– Você parece a mãe do Ron insistindo para eu comer.
– É que eu vou ter que ir embora daqui a pouco, Harry. A lua sai mais cedo essa noite, e minha poção está quase no fim.
Foi o que bastou para deter os protestos de Harry, que pediu o cheeseburger especial do lugar enquanto Remus se decidia por um sanduíche de queijo grelhado. Depois Remus o deixou perto de Privet Drive, seguindo direto para o ponto de aparatação mais próximo da colônia de lobisomens.
Harry entrou na casa dos Dursley satisfeito com o encontro com o último dos Marotos. Ele se sentia confortado e apoiado. Lembrou que era assim que tinha se sentido com Severus. Imaginou se ele poderia ter isso de novo com seu dominante, que também era Shandaman, Sharandaram, Sharanan, ou seja lá o nome que davam a criaturas como eles.
Por que a vida de Harry Potter não podia ser simples?
Próximo capítulo: Hora do casamento! Mas antes de casar, sempre é bom encerrar um namoro em grande estilo.
