A terça feira fora diferente do normal: Kitty e Kurt ainda eram os mesmos, continuavam agitados, mas, naquele dia, eles deram uma 'trégua'; Vampira estava um pouco mais quieta; Mirela não estava de bom humor, evitando olhar ou falar com Linus; Linus não parecia animado, como de costume, parecia abalado; os mais novos estavam exaustos com o dia anterior, desacostumados com a volta das aulas, e os mais velhos aparentavam um certo desânimo momentâneo...
Para piorar, o céu estava claro, mas carregado de nuvens bem escuras, que o tampavam quase que completamente. O tempo estava frio, o ar, seco. Não havia grandes ventos, contribuindo para o silêncio geral.
Apesar das comemorações de domingo, ou talvez por causa dela, a mansão estava sonolenta, sem vontade para nada.
Foram para a escola sem a bagunça de costume. Lá, Espectro sentiu-se livre de Mirela, mas, assim como os amigos, sentiu cada minuto das aulas durar uma eternidade... o resto da classe contribuía para tanto com um absoluto silêncio... Culpa do clima? Provavelmente.
Quando voltaram ao Instituto, Linus comentou várias vezes com Vampira, dizia o quão irritado estava com a atitude de Mirela.
"Por que não fala com ela?" Vampira sugeriu.
"Pra você é fácil dizer, né? Acha que vai adiantar alguma coisa?"
"Só saberá tentando, Linus."
Ele bufou, cansado. Seguiria o conselho de Vampira, mas o que menos esperava era uma mudança. Aliás, achava estranho ela dar conselhos... Vampira não era a pessoa mais social que existia, fazê-la se expressar já era uma grande conquista... de qualquer forma, ela estava certa.
Linus pensara muito sobre sua mãe... e sobre a opinião de Mirela. Era difícil chegar a uma conclusão se nem ao menos a conhecera... Julgar alguém por um só erro também não seria justo, assim como condená-la por falta de controle... Acontece que esse erro não era tão simples assim... duas mortes, a vida de uma família arruinada...
Ele se pôs no lugar da italiana várias vezes, percebendo que ela tinha uma certa razão. Mas, mesmo deste modo, não conseguira mudar sua opinião, nada o faria mudar.
Ele bateu na porta do quarto de Mirela. Nada. Bateu mais duas vezes... Silêncio. Nenhuma resposta. Insistiu mais uma vez. "Mirela, sou eu..."
"O que quer?" Respondeu a garota, sem abrir a porta.
"Precisamos conversar..."
"Não, não precisamos"
"Qual é! Vai me ignorar para sempre?"
Ela abrira a porta. "Fala."
"Não vai me deixar entrar?"
Ela bufou, abrindo passagem e fechando a porta assim que ele entrara.
"Está brava?"
"Não, imagina..."
"Pára com isso, Mirela! Por que está assim? Por que eu escondi o que sabia de você? Ou é por causa da minha mãe?"
"O que você acha? Esconder algo é tão grave quanto matar alguém." Ironizou ela, revirando seus olhos. "Ah, sim, me esqueci. Ela é inocente porque é sua mãe."
Linus encarou-a, desta vez com um ar distinto. "Não! Não é por isso, será que não entende? O que faria se estivesse no lugar dela, heim? Diga-me!"
"Isso não muda --"
"Que droga, Mirela! Acha que ela traiu seus avós? Acha que ela quis fazer isso? Ora, --"
"E se ela quis?"
"Ela não faria isso."
"Mesmo se não... meus avós não vão voltar! O que há com você, Linus! Você simplesmente não consegue enxergar, você não quer enxergar. Sua mãe matou duas pessoas inocentes! Aceite isso!"
"É, ela matou! Mas isso não a faz --"
"Sim, isso faz!" Mirela gritava com ele, havia determinação em sua voz.
Linus ficou em silêncio por um tempo. Aquela conversa realmente não mudaria nada...
"Você fala como se a condenasse. Se eles tivessem morrido por acidentes com armas... se fossem mortos por humanos você não os condenaria!"
"Linus, eu sou uma mutante! Não sou como seu pai que é um --"
"Meu pai era um maníaco, é verdade, e você caiu nas armadilhas dele!"
"Eu não --"
"Não tente negar! É, fato, Mirela! E mesmo que minha mãe tenha culpa... O que você tem contra mim?"
Foi a vez de Mirela parar para refletir, sem deixar de encará-lo.
"Você é um idiota! Filho de dois maníacos assassinos e os defende até a morte! É isso que você é, Linus, um idiota!"
"Mas não sou eu quem ficou cego com isso, Mirela. Você vive do passado. Nada do que você fizer vai mudar isso, nada. Pense nisso."
"Exato! Nada muda o fato de que sua mãe --"
"Basta!" Esbravejou Linus. "Quer saber? Tanto faz! Eu não me importo com o que você pense! Só não me culpe pelo que eu não fiz!"
Ele saiu sem esperar resposta, batendo a porta. Isso chamou a atenção de alguns mutantes, mas ninguém ousou a dizer uma palavra sequer.
Mais tarde, ele contou o ocorrido a Vampira, enquanto, em cima do telhado, olhavam o céu nublado. "E assim termina seu brilhante plano, Vampira..."
"Calma, Linus, vocês vão se entender, você vai ver..."
"Eu já desencanei dessa... se ela pensa o que diz, o problema é dela, não meu."
"Sabe o que eu acho, você é muito estressado, isso sim..." Completou ela, sorrindo.
Ele arqueou uma sobrancelha. "Estressado, eu? Se eu fosse estressado..." Ele começou a resmungar tantas de coisas, que Vampira negou-se a ouvir, ignorando-o.
"Ei, você está me ouvindo?"
"Sinceramente... não"
"Percebe-se." Ele passou a olhar o céu mais uma vez. Vampira fez-se indiferente.
Era noite, mas mal via-se a lua. O clima continuava estranho: céu carregado, frio, mas sem ventos nem chuva. O telhado trazia paz... era estranho lá em cima, não havia ninguém, sem a multidão de mutantes, sem humanos ou poderes para se preocupar...
Não era tão tarde, mas a escuridão dava a sensação de que eles estavam ali há horas... As telhas estavam geladas e, junto com o frio, isso não era nem um pouco refrescante...
"Onde vocês passam o Natal?" Linus perguntou, logo se arrependendo por tê-lo feito.
"No Instituto... ou com a família."
Realmente, uma pergunta idiota... e nem um pouco animadora. Mas, por outro lado, o Natal seria uma coisa que Linus adoraria experimentar... Todos os anos o passara em internatos diferentes ou em casas desconhecidas, jamais vira o Natal como uma festa, até porque era um momento familiar, o qual ele jamais tivera.
-Sala-
Kurt assistia televisão com Scott e Bobby, quando Kitty apareceu, arrastando-o para longe.
"Ei, Kurt, assim, tipo, onde tá o Linus e a Vampira?"
"Sei lá, mas precisava me tirar da sala pra isso?"
"Não."
"Beleza, então até mais, amor." Ele beijou-a de leve e, com um pulo alto, virou-se de costas, preparando-se para teleportar-se... mas Kitty puxara sua cauda. "Minha cauda!"
"Espera aí, elfo, eu não acabei."
"Tem mais?"
"Me diz uma coisa... tipo, você num acha que rola alguma coisa entre eles?"
Kurt só não caiu porque já estava no chão. Ele olhou para cima, vendo o rosto da garota de ponta-cabeça. "O-o quê! Eu ouvi isso direito?"
"É isso mesmo que você ouviu, poxa."
Ele começou a piscar os olhos rapidamente. Fazendo uma acrobacia maluca, ele pôs-se em pé, derrubando o vaso da mesinha ao lado, mas resgatando-o a tempo, com a cauda.
Fingindo limpar os ouvidos, ele continuou. "Rola alguma coisa do tipo... hmm... amizade?"
Kitty revirou os olhos. "Claro, Kurt."
"Ah, eu sempre soube!"
Ela repetiu a ação de antes. "Além da amizade."
"Ei, eu tava brincando! Num so tão idiota assim. Mas... você fala sério?"
"É, Kurt, tipo... paixão, atração, amor, ou sei lá como vocês garotos chamam"
"Amor?"
Ela o encarou com mais atenção desta vez, aguardando uma resposta.
"Digo, como eu e você? Jean e Scott?"
Ela manteve o olhar, aumentando a expectativa, ainda sem dizer nada.
"Quero dizer... amor, assim... amor mesmo?"
Kitty fez sinal positivo com a cabeça.
"Você diz... amor... além de amizade?"
"É."
"Ahn... amor... de estar apaixonado?"
"É, Kurt! E, tipo, pára de me enrolar!"
Kurt caiu novamente no chão, rolando de rir. Kitty já estava tonta de tanto rolar os olhos.
"Cara... Kitty... você... é maluca!" Ele falou, em meio a risos.
"Ah, fala sério... você num reparou não? Seu insensível"
"Putz, cara, sabe que... pensando melhor... você está certa!" Agora ele se recuperava das gargalhadas. "Mas, por que acha isso?"
"Se você num reparou, eu divido o quarto com Vampira..."
"... e..."
"... e, tipo, ela está estranha desde que ele chegou..."
"... e..."
"... e desde o baile ela parece pensativa..."
"... e..."
"Pára com isso, seu bobo! Você parece uma criança." Ela deu um tapa em sua nuca, sorrindo. "... e ela pareceu chateada ontem..."
"Ciúmes, Kitty, sabe como é, eu sou o irmãozinho dela e..."
"E como você explica as vezes que, tipo, ela se abala com Jean e Scott juntos?"
"Ciúmes também..."
"Sei... e por que passa tanto tempo com Linus?"
"Amizade..."
"Por que, depois que ele chegou, ela se soltou mais?"
"Ela se soltou mais?" Kurt se divertia com as teorias de Kitty, enquanto essa as defendia sabiamente.
"Pelo menos quando fala com ele... sim. Ela praticamente não tem conversa com os outros... mas com Linus é diferente..."
"Tá, próxima..."
"Ela mudou... está mais... hmm, assim... 'alegre'"
"Avanços... com Xavier? Ou talvez, mais um amigo." Ele sorriu.
"E por que os dois não estão aqui agora?"
"Porque... por que?" Agora que se deu conta, Kurt olhou para Kitty, que estava com cara de interrogação.
Em instantes, eles saíram em disparada, rodando a mansão inteira.
-Telhado-
"É incrível como o telhado pode ser mais relaxante que a mansão..." Comentou Linus.
"É que a mansão é muito cheia..."
"Você não gosta disso?"
"Sei lá, eu acostumei... você gosta?"
"Sei lá, eu acostumei" Ele sorriu.
Vampira o olhou pelo canto dos olhos, amarrando a cara com a imitação barata.
"Mudando de assunto... é estranho voltar às aulas... não acha, Vampira?"
"Não." Ela sorriu, fazendo ele fingir se desapontar. "Sério, por quê?"
"Não sei... só é estranho. É algo novo pra mim, sabe, voltar à escola... Eu quase não saía das escolas e, nas poucas vezes que o fazia, era por pouco tempo... E, também, é nosso último ano, já pensou nisso? Somos os mais velhos da escola! Num é legal olhar para o corredor e sentir que você 'manda' ali?"
"Pois é, Linus... logo estaremos iguais a Scott e Jean, saindo para a faculdade... Mas não acho que mandamos em alguma coisa por lá, sabe como é, o povo ainda não aceitou o fato de que --"
"Esquece isso... E por falar em faculdade, já pensou no que vai fazer?"
"Não, eu sinceramente não sei pra que a gente estuda... ninguém nos aceitaria para trabalhar mesmo... Acho que já aprendemos tudo para viver, o que vier agora é pra trabalho..."
"É... mas seria legal, imagina, trabalhar em filmes... Já pensou em trabalhar com efeitos especiais? Seria muito show." Ele voltou a olhar o céu nublado, imaginando como seria.
"Tanto faz, eu em um filme seria um desastre..."
"Ah, que isso, Vampira... Pensa bem você poderia abs--" Mas, lembrando do que ela não gostava, preferiu não prosseguir. "Me desculpe."
"Tudo bem, Linus."
Ele se esquecera disso... Vampira estava incapacitada de encostar em alguém sem absorvê-lo... Por mais que ela não se mostrasse afetada, Linus sabia que Vampira se importava. Era por isso que ela se afastava das pessoas... Ao contrário do que muitos fariam, ela não se comportava como uma coitada, se torturando... ela escondia isso, escondia sua dor para si, aprendendo a lidar com sua mutação a cada dia, mesmo que sem controle nenhum. Vampira era forte e tinha seu orgulho, não se renderia tão fácil.
--Baque!—
Um certo alemão azulado aparecera por ali, entre os dois, olhando de um para o outro. "Ahá! Então é aqui que os dois se escondem! O que fazem aqui?"
"Procurando um pouco de paz" Respondeu Vampira.
"Privacidade, você quer dizer."
Eles coraram.
"Vocês fazem muita zona, isso sim, Kurt. Cadê a Kitty pra te segurar?"
"Nem vem, Linus. Anda, desçam daí, a janta está servida."
Eles desceram do telhado e encaminharam-se para dentro da mansão.
Quando os dois se distanciaram, Kurt apareceu ao lado de Kitty, que logo reclamou com ele.
"Viu? É isso que eu digo, Kurt. Tipo, coisas como você impedem que eles saiam do lugar... Eles estavam tão lindos lá em cima, seu estraga prazeres."
"Até parece que se eu num tivesse lá iria rolar alguma coisa..."
"Não, mas você só piora a situação."
"Tá bom, tá bom, eu definitivamente sou um estraga prazeres, satisfeita, Kitty?" Ele beijou-a, levemente.
"Não." Ela fingiu estar brava, depois puxou-o para mais perto, retribuindo o beijo.
"Sem graça."
"Agora concorda comigo?"
"Com o quê?"
"Que realmente há alguma coisa entre eles."
"Desta vez você me convenceu. Mas e daí?"
"Como assim 'e daí'?"
"E daí que há alguma coisa entre eles?" Perguntou Kurt, fazendo o queixo da garota cair.
"Kurt, olha só, por que não fala com Linus?"
"Falar o que?"
"Como assim 'o quê'? Para ele deixar de ser besta e se declarar logo, é óbvio!"
"Por quê?"
"Como assim 'por que'?"
"Cala a boca, Kitty, pára com isso. Dessa vez não sou eu, é você quem está me enrolando..." Ele disse, não em um tom agressivo, mas amigável.
"Porque ele ama ela, oras!"
"Quem disse isso? Você me provou que ela gosta dele, não o contrário..."
"Mas não é óbvio? Ele nunca te disse nada?"
Kurt balançou a cabeça, negativamente.
"Ok, então taí mas uma coisa que a gente tem que descobrir."
"Ei, Kitty, espera aí... você disse a gente?"
"É, Kurt, a gente, eu e você, nós, Kurt e Kitty, Lince Negra e Noturno, Katherine --"
"Tudo bem, já entendi!"
"Que bom, então tá combinado. Mas você acha que ele gosta dela?"
"Quem?"
"Francamente, Kurt, você bebeu?"
"Nah, só tava te testando, amor."
Kitty revirou os olhos. "Mas você acha?"
"Talvez."
"Descobriremos."
"Mas, Kitty, do que adianta? Eles não podem se tocar mesmo..."
"A gente dá um jeito."
" 'A gente', 'a gente'... eu estava certo quando dizia que namoro --"
"O quê?"
"Ahn, nada não... hehe" Apressou-se a completar Kurt, tapando a boca com as mãos.
"Bom mesmo..."
"Mas como?"
"Como o quê?
"Como a gente vai dar um jeito?"
"Pra tudo se dá um jeito"
"Como?"
"A vida é bela, Kurt"
"É, a gente que estraga ela..."
N/A: Gostei de escrever esse capítulo xD escrever diálogos entre Kurt e Kitty é sempre muito legal. Então, serão eles bons detetives? (como se precisasse muito para isso ¬¬) Serão eles bons cupidos? A vida é bela, gente :D
Deixem seu comentário e façam uma alma feliz! ;D
