N/A: Alguém ainda achava que essa história não tinha sido abandonada? Alguém além de mim? Mil desculpas por esse imenso hiatus. Como recompensa para os leitores que resistiram ao tempo, ofereço o mais longo dos capítulos. E espero que com ele a paciência de vocês se faça recompensada. xx Liv


Parte 10.

Desde o primeiro instante em que o encontro de seus lábios jogou por terra qualquer ilusão de possível distanciamento cultivada até então, Regina é capaz de sentir quase fisicamente o alerta de seus sentidos a serviço de seus instintos mais primitivos de sobrevivência.

Trata-se de um erro. Mais um entre tantos por ela cometidos, embora talvez o maior de todos até então. Ainda assim, de olhos fechados e com um ímpeto que pertence somente a alguém que não tem mais nada a perder, Regina mergulha em cada suspiro contido por lábios, gemidos afogados em curvas, lugares secretos desvendados por dentes e unhas.

No perfume agora familiar de Emma, um traço leve deixado em seus lençóis, e de presença quase intoxicante quando a loira encontra-se em seus braços, Regina encontra um refúgio para seus fantasmas, minutos de paz em uma eternidade de tormenta.

Então, por breves instantes, os ecos de alarme que ressonam em seus ouvidos são abafados por seus próprios gemidos, e por mais que cada passo percorrido por Regina até então apenas sirva para cimentar a certeza absoluta de que nada disso pode acabar bem, ela se entrega, noite após noite, como se cada uma fosse a última, simplesmente porque talvez seja.

Ocorre, no entanto, que mesmo a mágica que Emma possui dentro de si e que ocasionalmente se derrama sobre Regina em difusão quando seus corpos ainda estão quentes e entrelaçados não é o suficiente para sanar as escaras de sua alma enferma.

A distração é bem vinda. Um alívio. Mas é também passageira. Pouco a pouco, ao passo que as batidas de seu coração retornam ao ritmo normal, também as sombras encontram seu caminho de volta.

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É como se ela estivesse prestes a escapar e de repente a gravidade a forçasse para dentro de seu próprio corpo, o ar escapando de seus pulmões em um impacto súbito e por diversos minutos Regina não ousa se mover, com a certeza absoluta de que seus ossos são feitos de chumbo.

A sensação é mais do que desagradável, mas dificilmente surpreendente quando acontece com uma freqüência cada vez maior, velhos fantasmas se deslocando de seu passado e consciência para visitá-la todas as noites.

Normalmente Regina não consegue se recordar dos detalhes, a escuridão dentro de si grande demais para delinear contornos. Essa noite, entretanto, não existem pinceladas borradas para protegê-la dos contornos afiados de seus maiores temores.

As figuras que se escondem no avesso de suas pálpebras exibem traços tão definidos que chegam a ser afiados. As cores vibrantes e as vozes familiares se fazendo presentes e claras mesmo depois de seu despertar e nem mesmo a consciência é o suficiente para apaziguar a turbulência que a agita em seu íntimo.

Em vias de perder a batalha contra a manifestação física de seu mal-estar, Regina abandona o conforto de sua cama lançando-se com resolução na direção do banheiro de sua suíte. O movimento brusco é o suficiente para acordar Emma que, mesmo com a porta fechada, é capaz de ouvir os conteúdos de uma refeição escassa sendo expelidos violentamente.

Deixando-se guiar apenas pelos sons, Emma mapeia mentalmente os menores movimentos de Regina no cômodo ao lado, dividida entre sua preocupação e a certeza de que qualquer gesto seu será não apenas rejeitado, como pode colocar em risco a frágil estrutura sobre a qual, no momento, se equilibra o relacionamento das duas.

Sem se dar ao trabalho de acender qualquer luz Regina retorna com passos leves minutos mais tarde. Durante todo o seu trajeto os olhos de Emma permanecem firmemente cerrados e em meio a sono dissimulado da loira, mãos frias encontram o menor dos confortos em sua simples presença e no silêncio de perguntas não enunciadas.

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Alguns dias são piores do que outros.

Em dias assim, é penoso manter as aparências e Regina se prende as ocupações mais mundanas com um pragmatismo nascido do desespero, em uma tentativa obstinada de se ancorar.

Emma e Henry procuram agir com naturalidade, deliberadamente ignorando a atmosfera carregada em um ato que seria até passável, não fossem os olhares incontestáveis trocados com uma ausência de sutileza que não poderia ser mais hereditária.

Em seu íntimo, Regina se sente grata pela maior parte. No entanto, em dias como esse, os menores gestos de gentileza são um gatilho e cada toque – mesmo que despropositado – é o equivalente a uma descarga de adrenalina se espalhando pelas suas veias, como a possibilidade de um tiro em falso oferecida pelo contato do cano frio de um revólver pressionado contra sua têmpora. Assim, é inevitável que uma substancial parte sua acabe se sentindo sufocada pela desajeitada solicitude oferecida pelos dois.

Eles não fazem por mal. Até mesmo porque todo o mal já foi feito.

Quando a campainha toca, seu som percorre a mesa deixando em seu caminho uma trilha de interrogações. Com uma expressão vazia Regina levanta o guardanapo que traz em seu colo, preparando-se para atender a porta quando, sem aviso, a mão de Emma resvala de encontro a sua. Tamanha é a suavidade do gesto que é preciso o acréscimo de palavras para que Regina assimile suas intenções.

"Deixa, eu vou."

Sem a disposição necessária para buscar sua própria voz, Regina apenas assente com um quase imperceptível meneio. Do outro lado da mesa, Henry a estuda com olhos atentos e o sorriso pequeno que ele lhe oferece naquele momento é o suficiente para que ela não se deixe afogar.

Ao menos por enquanto.

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"Mary Margaret?" Emma não tem porque esconder sua surpresa. "O que você ta fazendo aqui?"

"Eu trouxe uma torta." A mulher a qual Emma ainda não se habituou completamente a chamar de mãe, oferece um sorriso radiante ao que Emma não sabe ao certo como responder.

"Eu posso ver que sim." Ela atesta recebendo a inusitada oferenda em mãos. "A parte do 'por que' é que ainda não ficou muito clara."

Com um longo suspiro o sorriso ostentado por Snow estremece e instintivamente Emma dá um passo a frente, fechando a porta atrás de si.

"Ok, você me pegou. A torta não é apenas um mero presente."

"Não me diga que você usou 'maldição do sono' como um dos ingredientes." O olhar oferecido por Snow é o suficiente para censurar o senso de humor inapropriado de sua filha.

"A torta é uma oferta de paz." Snow justifica, optando por ignorar o comentário.

"Olha Mary Margaret, sem querer ser estraga-prazeres, mas depois de quase 30 anos de desavenças eu acho difícil acreditar que uma sobremesa possa resolver a disputa entre você e a Regina."

"A torta não é para Regina, Emma. É para você."

"Para mim? Por quê?" Emma questiona sem entender. "Nós não estamos em guerra."

"Eu sei disso. Mas as coisas não tem sido as mesmas desde a nossa conversa no restaurante e depois de pensar muito a respeito e conversar com seu pai, eu cheguei à conclusão de que poderia ter sido mais compreensível diante de toda essa... situação." Snow gesticula apontando para a casa, claramente se referindo ao arranjo estabelecido entre Regina e Emma, embora Emma esteja 100% convencida de que nem de longe passe pela sua cabeça a real extensão do que tem se passado.

Fosse esse o caso, Mary Margaret teria aparecido à sua porta munida de seu arco e flecha, bem como sede pelo sangue da vilã, a acusando de ter roubado também o coração de sua filha. Ou ao menos é o que Emma imagina e o que, apesar de seu sentimento de culpa, apenas reforça a decisão da loira em sequer cogitar a possibilidade de confessar tudo.

Tomando o silêncio da filha como concordância, Snow dá continuidade ao discurso que ensaiou. "Eu sei que todas essas mudanças não tem sido fáceis para você. Não tem sido fácil para nenhum de nós na verdade. Mas é fundamental que você saiba, Emma que não importa o que aconteça, você pode contar com o seu pai e eu."

"Eu sei." A resposta de Emma, acompanhada por uma expressão desconfortável, é mais um reflexo do que uma sincera admissão.

Para o seu alívio, Snow não parece notar a diferença, recompensando a filha com um olhar esperançoso.

"Que bom!" Snow sorri também aliviada, embora por motivos diversos. "Bem, eu esperava aproveitar para ver como estão as coisas, talvez dar um beijo no Henry antes de ele ir para escola. Você não me convida para entrar?"

"Como?" Emma quase engasga com as palavras. Seus olhos subitamente imensos e arregalados. "Na verdade, eu não acho que esse seja o melhor momento."

A tensão na voz de Emma é o suficiente para levantar as suspeitas de Snow que não disfarça a sua preocupação, a testa franzida de uma maneira que – pelo mais breve dos instantes – faz com que Emma se recorde de Henry. Então, em um piscar de olhos a semelhança parece evaporar, a voz de Snow quebrando o encanto.

"Por que não? Aconteceu alguma coisa?"

"Não é nada sério." Emma justifica prontamente, a tensão ainda visível em seus ombros. "Apenas... Olha, a Regina não está tendo um de seus melhores dias, é só."

As palavras de Emma, no entanto, em nada tranqüilizam sua mãe. "Querida, o que você está dizendo? Por acaso a Regina fez alguma coisa? Ela tentou alguma coisa contra você?"

"O quê?! Não!" A simples dedução, por algum motivo que Emma não consegue pontuar ao certo, a irrita profundamente. "Por que você sequer diria algo assim?"

"Porque é sobre a Rainha Má que estamos falando, Emma. Não importa o que aconteça, você não pode esquecer com quem estamos lidando aqui."

"Como eu poderia? Isso é tudo sobre o que vocês sabem falar. Tudo o que acontece de errado é instantaneamente culpa da Regina." Procurando se acalmar, Emma respira fundo, seu tom de voz baixando consideravelmente para um sussurro não menos furioso. "Quer saber? Eu não dou a mínima para o que o restante da cidade acredita ou não, mas se até o Henry, no auge dos seus doze anos, conseguiu sair dessa fase, eu me pergunto se algum dia você e o David serão capazes de fazer o mesmo?"

"Emma, eu..." Snow não é capaz de encontrar palavras, completamente surpreendida pelo rompante da filha. A sua expressão, no entanto, parece o suficiente para apaziguar a reação de Emma.

"Eu sinto muito. Eu não quis ser rude. Talvez eu também não esteja tendo um bom dia." Emma suspira visivelmente frustrada. "Não era minha intenção descontar em você."

"Não! Sou eu quem tem que se desculpar. Nunca foi minha intenção te chatear, Emma."

"Você não fez isso Mary Margaret, é só que..." Emma tenta encontrar a forma certa de se expressar. "Vocês seguem se referindo a ela como Rainha Má. E eu entendo que vocês têm uma história."

"É mais do que apenas uma história, Emma. Eu a conheço há um longo tempo, talvez mais do que qualquer outra pessoa agora que a Cora não está mais entre nós."

"Eu sei. O que é mais do que esquisito pra caramba, por sinal. Mas questão é: eu não estou dizendo que a rainha a qual vocês se referem não exista. Só que eu não estou inteiramente convencida de que ela e a Regina sejam a mesma pessoa."

Snow está prestes a contestar, mas Emma a interrompe. "Pelo menos não mais. Ela é a mãe do meu filho, para começo de conversa. Mas mais do que isso, no momento, a Regina é também alguém que está passando por maus bocados. Ela teve que matar a própria mãe para proteger não apenas o Henry, mas a todos nós. Sinceramente eu não consigo sequer imaginar o que seja carregar esse tipo de peso. Mas o que eu sei, o que eu posso dizer com certeza, é que pelo menos nessa realidade há mais para Regina Mills do que apenas o título de Rainha Má."

"Emma, você não pode esquecer as coisas que ela fez. E sinceramente, como você pode ser tão compreensiva? Quero dizer, além de todas as atrocidades, o sangue derramado, os corações que ela roubou, olha o que ela fez conosco! Tudo o que ela tirou de nós por vingança."

"Eu não estou dizendo que abono ou justifico as coisas que ela fez em seu passado. E muito menos estou dizendo que você deveria. Mas eu cresci em um mundo diferente do seu, Mary Margaret. De onde eu vim ninguém é só bom ou só ruim. E isso vale tanto para Regina, quanto para mim."

"Emma, eu sei que você não gosta de ser chamada de salvadora, mas acredite em mim filha, você é boa!"

"Ah claro, porque eu nunca lancei uma maldição ou roubei um coração, acho que posso dizer que sim. Mas se você acha que eu não teria matado a Cora, ou quem quer que estivesse ameaçando a minha família, então você não me conhece Mary Margaret. Eu a teria matado com minhas próprias mãos se necessário."

"Mas querida isso é diferente! As circunstâncias..."

"Exato! As circunstâncias fazem toda a diferença! Não se trata de quem você é apenas, mas das escolhas que você faz! E é por isso que eu acho que a Regina merece esse mesmo tratamento. Nem mais, nem menos."

"É disso que se trata essa situação, então? Você acha que pode mudar a Regina?"

"Eu não estou tentando mudar ninguém, Mary Margaret. Eu só queria que você entendesse que as coisas não são sempre tão preto no branco. E se vocês pudessem parar um pouco com essas constantes acusações sobre quem arruinou a vida de quem, bem, isso também seria uma boa."

"Emma, eu não vou mentir para você: o que você está pedindo não é assim tão simples."

"Eu sei." Emma admite, cansada. "Talvez a gente pudesse começar com pequenos passos? Usando nomes, por exemplo, ao invés de títulos maléficos. Até porque, a essa altura isso já nem faz mais sentido. Faz décadas desde que a Regina foi rainha de qualquer coisa. Ela não tem poderes mais. No momento, ela não tem nem mesmo o título de prefeita."

"Muito bem, eu prometo que irei tentar. Por você." Snow envolve a filha em um abraço conciliatório, ao qual Emma recebe sem jeito.

"Obrigada."

"Acho melhor eu ir então." Ela fala acariciando o rosto de Emma de uma forma maternal que lhe é instintiva, ao que Emma não pode evitar, mas sentir-se mais culpada.

"Hey, talvez a gente possa almoçar juntas hoje ou amanhã. Você sabe... para que você me atualize sobre todos os detalhes entediantes da administração de um reino convertido em cidade enquanto eu como fritas com ketchup."

A sugestão é o suficiente para colocar um sorriso iluminado no rosto de Snow. "Eu adoraria."

"É." Emma responde, pensando consigo – eu sei.

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Ao entrar novamente Emma encontra Henry sentado junto às escadas, mochila nas costas, pronto para mais um dia de aula.

"Hey garoto, cadê sua mãe?" Ela pergunta instintivamente ao não identificar a presença de Regina nas proximidades e ao mesmo tempo preocupada que a ex-prefeita tenha ouvido ou testemunhado a discussão que Emma acabou de ter com a mãe.

"Ela disse que não estava se sentindo bem e foi se deitar um pouco."

"Hmm." Emma resmunga sem dizer nada, sentando-se ao lado do menino junto aos degraus. "Quanto da conversa você ouviu?"

"Quase nada. Eu passei a maior parte do tempo tentando distrair minha mãe." Emma não o repreende, concedendo-lhe pontos pela sinceridade. "Você acha que algum dia eles vão acreditar que ela não é mais a Rainha Má?"

"Eu não sei, garoto. Mas você acredita não é mesmo? E eu sei que para sua mãe isso é tudo o que importa."

"Bem, para falar a verdade eu nem ligo mais."

"Não?"

"Eu só quero que ela pare de se sentir triste o tempo todo." Emma não sabe ao certo como responder a isso, seu coração apertado pela resignação do tom oferecido pelo filho. "É melhor a gente ir, eu já estou mais do que atrasado."

"É, você provavelmente está certo." Emma afaga os seus cabelos e o segue.

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"Seria pedir demais que você se concentrasse na tarefa em questão?" A voz de Regina é o suficiente para que Emma abra os olhos e quando ela o faz, é para se deparar com a imagem da morena emergindo em meio aos lençóis, os cabelos escuros em completo desalinho e as faces mais do que ligeiramente coradas.

"Desculpa, o problema não é você..." Emma balbucia suas desculpas, o que em nada serve para abrandar a irritação de Regina.

"Isso é óbvio." A ex-prefeita afirma sem qualquer vestígio de modéstia e, usando o corpo de Emma como ponto de apoio, retorna ao conforto de seus travesseiros. Então, com uma mão apoiando causalmente seu queixo, os mesmos olhos escuros analisam Emma com atenção. "Qual é o problema?"

O tom de Regina é de indisfarçado aborrecimento, mas nem por isso maquia seu interesse. Emma não se dá ao trabalho de tentar esconder sua frustração. "Eu estava pensando na Mary Margaret."

No instante em que as palavras abandonam seus lábios, Emma percebe seu erro e não fosse isso o suficiente, a expressão que ela encontra fixada no rosto de Regina é mais do que clara. Mais do que rapidamente Emma procura desfazer o estrago. "Eu não quis dizer assim! Isso seria perturbador."

Emma faz uma careta ao que Regina não hesita em rebater. "Mencionar o nome da sua mãe enquanto você está nua em minha cama é suficientemente perturbador, Miss Swan."

"Bem, esse é meio que o problema em questão."

"Perdão, mas não estou conseguindo acompanhar sua linha de raciocínio. Se é que ela existe."

"É só que... Eu não consigo parar de pensar no que eles diriam se soubessem que a filha está dormindo – biblicamente – com o inimigo."

"Primeiramente, Emma, eu estava sob a impressão de que estava me relacionando com uma mulher adulta que, por sua vez, não precisaria prestar contas a ninguém no que se refere aos seus 'envolvimentos pessoais'. Em segundo lugar, isso é algo com o que a senhorita não precisa se preocupar tendo em vista que absolutamente ninguém deve tomar conhecimento deste nosso... arranjo."

É a primeira vez que a situação em questão é mencionada por Regina, de modo que Emma não pode deixar de se mostrar ligeiramente pasma. Isto é, até o instante em que o absurdo da situação se faz impossível de ignorar e Emma não consegue conter o escape de uma risada engasgada.

O arquear de sobrancelha que Regina oferece em resposta evoca uma imediata explicação.

"Desculpa, mas é meio tarde pra isso você não acha?" Emma pergunta e o sorriso em seus lábios se desfaz diante do olhar afiado que Regina lança em sua direção.

"O que você quer dizer com isso, Miss Swan?"

"Relaxa Regina, eu ainda não mandei os convites de casamento pelo correio nem nada." As palavras de Emma são idealizadas com ironia, mas sua entrega deixa a desejar e imediatamente ela se arrepende de sua escolha. "O que eu estou dizendo é que da porta pra fora ninguém sabe de nada ainda, mas Henry é outra história."

A irritação de Regina instantaneamente se converte em temor, de uma forma quase palpável. "O que você está dizendo? Por acaso ele lhe disse alguma coisa?"

Emma tenta amenizar o golpe assumindo uma entonação mais suave. "Não Regina, mas ele é um garoto esperto demais para o seu próprio bem. Além do mais ele mora debaixo do mesmo teto, logo..."

"Você está deduzindo isso, mas não sabe ao certo, não é?" Regina ajoelha sobre o colchão, o lençol envolto ao redor de seu corpo enquanto o pânico se espalha pela sua corrente sanguínea. Então ela começa a falar com ninguém em particular, um brilho quase maníaco no olhar. "Ele não pode saber sobre isso, ele não pode sequer sonhar. Depois de tudo... ele não pode... eu..."

Quando os olhos de Regina recaem sobre Emma, é com uma desolação quase devastadora e imediatamente a xerife se arrepende de ter trazido o assunto à tona. Apesar da lógica, Emma se sente compelida a amenizar o estrago provocado por suas palavras. "Escuta, talvez eu esteja enganada. Talvez o garoto não tenha sacado nada ainda..."

"Mas nós tampouco sabemos isso ao certo." Regina refuta imediatamente, sua preocupação dominando sua linha de raciocínio. "Nós precisamos averiguar exatamente o que ele sabe."

"E como você sugere que a gente faça isso?" Emma pergunta, confusa.

"Você é a xerife, querida. É de se esperar que esse tipo de atividade faça parte do seu currículo, não?"

"Regina, nós estamos falando do nosso filho aqui, não algum tipo de meliante. O que você espera que eu faça? O interrogue?"

"Você provavelmente deveria tentar uma abordagem mais sutil primeiro. Miss Swan, você ao menos sabe o que é isso?"

"Por Deus, você realmente está falando sério?" Um erguer de sobrancelha é toda resposta que Emma recebe.

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Regina não estava inteiramente equivocada em sua observação: sutileza dificilmente poderia ser incluída na lista de aptidões de Emma. Não que Emma jamais fosse admitir isso. Assim, dentro da viatura de polícia, a xerife aguarda impacientemente o fim do turno escolar e quando o sinal toca e as portas do prédio são escancaradas dando vazão a uma multidão de crianças das mais diversas idades, Emma não precisa se esforçar para reconhecer a que lhe pertence.

Com o nariz mergulhado em um livro, os cabelos caindo sobre seus olhos e nenhum interesse pelos que o cercam, o garoto segue a passos lentos, sua concentração completamente capturada. Ao observá-lo Emma não pode deixar de sentir-se aliviada pelo livro em questão não ser o de contos de fadas, isso, e o fato de aparentemente o garoto não ter herdado sua propensão a acidentes, caso contrário ele já teria quebrado o pescoço ao atropelar uma árvore.

Firmando um sorriso no rosto, Emma abandona seu posto e com uma leve pancada na buzina busca chamar a atenção do filho. O gesto funciona – para ele e as demais pessoas que ainda se encontram nos arredores do pátio da escola.

"O que você está fazendo aqui?" São as primeiras palavras oferecidas pelo garoto cujo alarme se mostra claramente espalhado em seu rosto.

Com um pequeno aperto no peito, Emma não pode deixar de pensar que há pouco mais de um ano, sua recepção teria sido completamente diferente. Ela está prestes a fazer um comentário a respeito quando se recorda do tipo de recepção que Regina costumava receber então, e percebe que as coisas poderiam ser bem piores.

"Você acreditaria em mim se eu dissesse que estava na vizinhança?"

Henry ignora completamente seu comentário, mas sem revirar os olhos, o que Emma imagina se tratar de uma cortesia estendida, embora não sem algum esforço. "Aconteceu alguma coisa com a minha mãe?"

"Quê? Não!" Emma refuta sem pestanejar, procurando apaziguar sua preocupação. "Só pensei que a gente podia, sei lá, ir à Granny's tomar um milkshake ou coisa parecida..."

A preocupação em seu rosto parece atenuar, embora Henry permaneça sério. "E quanto ao jantar?"

"O que tem o jantar?"

"A minha mãe não vai preparar? Como ela tem feito todos os dias?"

"Bem, imagino que sim. Mas não sei o que isso tem a ver."

"Ela se esforça para fazer tudo perfeito, Emma. Não seria justo a gente estragar o apetite depois de todo trabalho que ela tem."

A resposta não convence Emma inteiramente, ainda que o raciocínio seja coerente, especialmente vindo de um menino que foi criado por Regina.

"É só um milkshake, Henry. Mas se você quiser, você pode, sei lá, pedir um copo de água."

"Acho melhor a gente ir direto pra casa. Eu tenho um monte de dever de casa mesmo, e aí a minha mãe também não vai precisar passar tanto tempo sozinha." Ele acrescenta a explicação de forma quase casual, os olhos presos nos cadarços de seu tênis. Emma pode não ter os instintos maternais mais afiados do mundo, mas mesmo ela é capaz de enxergar o problema aqui.

"Você não precisa se preocupar com a sua mãe, Henry. Ela está melhorando."

"Não, ela não está." Ele afirma com convicção e seus olhos exploram as feições de Emma do mesmo jeito que ela faz quando está tentando averiguar se alguém está dizendo a verdade ou não. "Você não consegue ver?"

A resposta de Emma, lógica e imediata, morre presa em sua garganta, porque a realidade é que sim, ela consegue ver. E sim, Henry está certo. Ela respira fundo e passa a mão pelos cabelos, procurando ganhar tempo em sua busca por uma resposta que seja sincera e que ao mesmo tempo não oblitere por completo as esperanças de seu filho.

"Garoto, a gente já conversou sobre isso. Esse negócio todo com a sua mãe não vai passar da noite pro dia." Emma tenta explicar gentilmente, mas Henry não se conforma.

"Em quanto tempo então?"

"Henry-"

"Não tem mais nada que a gente possa fazer?" A aflição do menino é evidente. E não pela primeira vez, Emma deseja ter o poder de fazê-la desaparecer. Entretanto, ela não é muito boa com palavras e verdadeiramente, gestos também não são o seu forte.

O esforço que Emma faz para oferecer a Henry algum conforto a despeito de suas limitações é uma prova de o quanto o filho lhe é importante.

"O que você está fazendo é o que ela mais precisa no momento." O olhar que Henry direciona à sua mãe biológica é um misto de descrença e confusão. A mão de Emma vai ao encontro de seu rosto em um gentil afago que poderia muito bem pertencer a sua outra mãe. Henry relaxa por um breve instante, concedendo-lhe o benefício da dúvida, ao que Emma se dispõe a clarificar. "Ela sabe o quanto você a ama. E permanecer ao seu lado nesse momento tão difícil... Essa é a maior prova de todas. E o que ela mais precisa agora."

Henry parece absorver suas palavras com cuidado em uma silenciosa análise e quando sua voz chega aos ouvidos de Emma mais uma vez, é para arrebatá-la com a mais inesperada das perguntas.

"Ela sabe que você a ama?"

Emma quase se afoga com a surpresa entalada em sua garganta até que ela cuspa as palavras em uma seca interjeição. "Quê!"

A reação de Emma, por sua vez, é recebida com uma imperturbável resolução por parte de Henry. "Ela me disse uma vez que não sabe amar muito bem. O que eu não acho que seja culpa dela, especialmente não depois de tudo que a mãe dela fez..." Ele acrescenta com uma careta e Emma não encontra sua voz para interrompê-lo. "Então talvez você precise ser bastante clara, porque é possível que ela não saiba reconhecer também, não sem alguma ajuda."

"Garoto, do que você ta falando?" Dessa vez, o olhar direcionado por Henry é decididamente impaciente.

"Eu não sou idiota, Emma. Eu sei que vocês têm passado tempo juntas." O revirar de olhos oferecido com essa franca declaração é flagrantemente óbvio. "Não se preocupe, eu não estou chateado nem nada. Na verdade, depois de pensar a respeito eu cheguei à conclusão de que faz total sentido."

"Sentido?" Emma repete atordoada.

"Yep. Você é a salvadora. Logo, é o seu papel salvar a todos. E a minha mãe, bem, ela só se tornou a Rainha Má depois de perder seu amor verdadeiro. Assim, o único jeito dela encontrar seu final feliz é amando novamente. É aí que você entra na jogada..."

"Olha, Henry, amor é uma palavra muito grande e um sentimento maior ainda. O que eu e a sua mãe temos... As coisas são muito mais complicadas do que você pode imaginar. E chamar isso de amor não as torna mais simples. Muito pelo contrário. Amor não é simples."

"Claro que é." Henry deliberadamente ignora as justificativas de Emma e se dirige ao carro, dando por encerrada a conversa, mas não sem antes complementar. "Vocês é que tem mania de complicar tudo."

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Diante da porta do quarto de Regina, Emma hesita. Até então ela conseguiu evitar as inquisições da ex-prefeita, a presença de Henry se colocando entre as duas como uma cerca protetora. Mas agora restam apenas as duas, as incertezas de Emma ainda mais embaralhadas com as palavras de seu filho e a realidade dos fatos à qual Regina se recusa a aceitar.

Esta se trata, no entanto, de uma situação a qual Emma não tem como escapar. Ela entra no quarto a passos leves e à meia luz derramada pelo abajur que Regina tem sobre o criado-mudo. Sentada na cama com seus óculos de leitura e um livro descansando sobre seu colo, Regina não se revela surpresa e tampouco impressionada.

"Finalmente. Por que demorou tanto? Por acaso havia se perdido no caminho?"

"Sim, mas então eu segui a trilha de sarcasmo e provocações mordazes e bem, aqui estou." Emma oferece o seu melhor sorriso de deboche e em troca recebe o esperado revirar de olhos por parte de Regina.

"Eu tenho pouco interesse – ou paciência – para suas tentativas catastróficas de humor, Miss Swan." Regina tira os óculos, os depositando junto ao seu livro sobre o criado-mudo, sua postura imediatamente transformando-se em algo mais formal, assim como o tom de sua voz. "Como foram as coisas com Henry? O que você descobriu?"

Que o nosso filho de doze anos acredita que o que existe entre nós duas é 'amor verdadeiro' e que é o meu papel lhe trazer o seu final feliz, o que é uma teoria quase tão absurda quanto a que ele me apresentou há quase dois anos sobre sua mãe adotiva ser uma bruxa de contos de fada que lançou uma maldição sobre toda uma cidade.

O fato da primeira teoria de Henry ter se provado verdadeira, é algo que Emma prefere não se fixar. E tampouco é sua intenção revelar os pormenores da discussão que teve com o garoto. Por ora, a versão resumida dos fatos vai ter que bastar.

"Ele sabe." A resposta de Emma é tudo o que Regina não gostaria de ouvir, o que é apenas reforçado pela forma como ela fecha os olhos e prende a respiração ao ouvi-la. Para Emma, no momento, essa é a menor de suas preocupações.

"Isso é um desastre." Regina levanta da cama e se põe a caminhar de um lado para o outro, seus os olhos e atenção ainda cerrados enquanto suas mãos massageiam sistematicamente suas têmporas.

"Regina, existem outras questões mais importantes que a gente precisa discutir."

"O que seria mais importante do que o Henry, Emma?"

"Nada!" Emma responde com firmeza e se munindo com essa certeza, ela reúne forças para adentrar o que, ela não duvida, irá se tratar de um inevitável confronto. "Motivo pelo qual nós precisamos falar sobre você. Sobre a sua... situação."

"Como?" Regina se volta em sua direção de uma só vez, uma interrogação pintada em seu rosto. Entretanto à Emma não restam dúvidas de que Regina saiba exatamente ao que a loira está se referindo e que a surpresa em sua voz se refira, em verdade, à confrontação direta.

"Olha, quando você voltou do hospital eu tentei preparar o garoto. Eu lhe disse que a recuperação após algo tão... tão horrível, bem, não é algo que acontece assim, sem mais nem menos. Eu disse que iria levar um tempo, e que muito provavelmente seria um caminho acidentado."

Regina escuta ao que Emma tem a dizer e a xerife tenta não se deixar impressionar pela sua falta de reação ou a tempestade que está se formando em seus olhos escuros. Assim, ela prossegue. "A questão é: ele tem se esforçado bastante, todos temos, você principalmente. É algo notável, realmente. Mas ao mesmo tempo Regina, eu preciso dizer, não acho que tem sido o suficiente."

A expressão de Regina nada revela e não fosse pelos seus punhos cerrados com a mais absoluta firmeza, Emma não estaria certa de que ela está sequer registrando suas palavras. "O que eu estou dizendo é que, olha, eu sei que isso é difícil-"

"Você não sabe absolutamente nada sobre o que está se passando comigo, Xerife." A voz de Regina escapa em um furioso sibilar, cortando Emma.

Talvez seja algo em seu tom, as tonalidades de frieza e desprezo parecendo se agarrar em cada sílaba. Talvez seja a adoção do título formal que ao mesmo tempo em que as distancia, tem o objetivo de colocar Emma em seu lugar. Seja o que for, é o suficiente para incendiar o temperamento inflamável de Emma.

"Bem, talvez eu soubesse um pouco mais se você se dispusesse a ter pelo menos uma conversa comigo que não se tratasse de um punhado de ofensas e alfinetadas."

"Oh, mas é claro. Façamos o seguinte: Mate a sua mãe com suas próprias mãos e então nós podemos sentar e juntas bater um papo a respeito. Quem sabe até mesmo trocar notas."

É a primeira vez desde a sua liberação do hospital que Regina menciona o ato que desencadeou todos os eventos até então e Emma perde o balanço diante da crueza de seu comentário.

"Não foi isso o que eu quis dizer."

"Então o que precisamente você quis dizer, Xerife?"

"Eu não sei." Emma confessa desajeitadamente, o que em nada abate a então formidável ira de Regina.

"Agora isso sim é surpreendente!"

"Escuta, talvez eu não seja a pessoa com quem você deva conversar Regina, talvez você precise de um especialista, um profissional, um padre, pra mim pouco importa. O que eu sei é que o que quer que você esteja guardando dentro de você está te comendo por dentro!"

"E você acha que eu não sei disso? Que eu não sinto?"

"Então por que você não faz algo a respeito? Qualquer coisa?"

"Quem disse que existe algo que possa ser feito?"

"Do que você está falando?"

"Talvez esse seja o preço a pagar. Talvez seja isso o que eu mereça pelos meus pecados, por ser a Rainha Má."

"Não! Eu não acredito nisso!" Emma se aproxima, mas Regina dá um passo para trás. "Regina, esse é um preço alto demais a se pagar."

"Quem disse?" Seu fogo oscila e por um instante tudo o que Emma enxerga é abatida resignação.

"Você realmente acredita merecer isso? Viver em meio a tanta dor e devastação?"

"Eu aprendi a minha lição há um longo tempo atrás, Emma. Algumas pessoas não estão destinadas a um final feliz. Ocorre que eu sou apenas mais uma delas."

"Muito bem." Emma engole as palavras com dificuldade. "Digamos que seja isso o que você merece; sua punição por todos os seus erros. Sua cruz para carregar. Como fica o Henry nessa história? O que ele fez para merecer isso? Para ter que testemunhar sua mãe sendo consumida pela culpa até que não reste mais nada. O que você acha que isso vai fazer com o garoto?"

"Isso não tem nada a ver com Henry." Regina afirma resoluta e Emma não é capaz de conciliar sua exasperação.

"Você realmente consegue ser assim tão cega? Ou tão egoísta?"

"Egoísta? Como você ousa! Depois de tudo o que eu fiz pelo meu filho? E você, de todas as pessoas?"

"Ah sim, a mim não cabe dizer nada, porque realmente quem sou eu além da xerife que lhe dá nos nervos e tem mantido seus lençóis aquecidos noite após noite, ein? Ao que tudo indica eu não passo de uma versão remodelada do Graham. Podia muito bem arrumar uma etiqueta de identificação com o nome Graham 2.0."

"Se isso é o que você pensa, talvez você devesse ser mais cuidadosa com seu coração, querida."

"Corta o ato de Rainha Má, Regina. Você nem mesmo tem mágica mais."

Emma não tem a intenção de desafiá-la, mas suas palavras são recebidas assim da mesma forma. Assim, antes mesmo de pensar na implicação de seus atos, em um gesto que é absolutamente impulsivo, Regina ergue uma das mãos e com um estalar de dedos uma chama lilás se acende em suas mãos.

"Você estava dizendo?"

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Continua...