Epílogo
Lunna permaneceu alguns dias hospedada em Áries, contudo, desde o final das batalhas, nada falara. Passava o dia sozinha, dentro do quarto ou no pátio do templo, raramente saindo de Áries. Comia pouco e evitava o contato com os outros cavaleiros. Mu preocupava-se com ela, mas nada fazia, respeitando as vontades da garota. Sabia que quando quisesse, quando estivesse pronta, reagiria, falaria. E depois de uma semana, rompeu o silêncio perguntando-lhe se tinha pão. Naquele mesmo dia, subiu até Escorpião, a procura de Milo, passando por Aldebaram, Aiolia e Shaka de maneira formal e meio distraída. Encontrou-o na cozinha, comendo o que parecia ser o café da manhã. E já passavam de uma da tarde.
Milo encarava-a questionando, mas não por ter sua casa invadida. Lunna encarava-o de volta, com uma ponta de melancolia. Ajeitou uma cadeira e sentou-se a mesa, puxando a caixa de cereais, comendo uns pedaços, parecendo ignorar o rapaz.
- Tem leite na geladeira.
Lunna largou a caixa, olhando fixamente para a mão encima da mesa. Milo estava se irritando, ela sabia.
- Por favor, não faz como Kamus que tem essa mania irritante de ficar mudo.
A garota virou para Milo com uma expressão sofrida pela menção do nome de Kamyu. Ainda não caiu a ficha?
- Desculpa.
- Você ta pedindo desculpa por isso ou por outra coisa?
- Pelo os dois.
Milo pensou em arrastar a cadeira até ela, mas desistiu.
- Estou com raiva. Aquele...aquele desgraçado não quis me contar o que pretendia.
- Porque ele sabia que você ia impedi-lo.
- Claro que eu ia impedi-lo! Imbecil, idiota! – Milo derrubou o prato de comida no chão, o cereal melando tudo.
- Milo... –Lunna aproximou-se abraçando-o.
- Se ele não estivesse morto eu ia matá-lo agora... –Milo chorava.
- Não ia não...
Lunna sentiu as lágrimas do grego molharem seu ombro, mas permanecia com o rosto escondido no seu pescoço. Tinha que falar.
- Milo, eu sabia.
A garota sentiu o choro do amigo diminuir.
- Eu sabia que Kamus ia morrer.
Milo afastou-a dele, os olhos cheios de rancor.
- Mas eu não podia fazer nada, eu não podia dizer nada pra ninguém, eu falei para ele não fazer nenhuma besteira, mas ele não me escutou, falei que você ia sofrer, mas você sabe que ele é todo racional e...—Lunna falava rapidamente soluçando. Sentia-se como se tivesse voltado a vida, como se tivesse saído do estado de dormência que se encontrara todos aqueles dias. E como uma criança ao sair pela primeira vez ao ar livre, chorou. Chorou sem parar de falar, contando tudo o que podia para Milo, seu juiz e carrasco. Desejava que sua condenação fosse rápida e indolor.
Milo olhava-a atarantado. Sentiu o calor da raiva incendiar todo seu corpo, mas o choro compulsivo, acumulado de vários dias da garota, apagava aos poucos sua ira. A princípio quis escutar tudo com atenção, tentando capturar o máximo de informações possíveis. Entretanto, aquilo era difícil e só fazia a sua angustia aumentar.
- Pára.
Lunna fechou a boca como por encanto.
- Não quero saber.
Abraçou-a chorando juntos. Ironicamente, a garota sentia-se completamente feliz. Milo não a queria mal, queria-a por perto. Aquilo ela não perderia. Não perderia mais nada daquilo que restara. Não perderia mais um momento com nenhum deles.
A vida voltaria ao normal, Lunna voltaria ao seu trabalho como guardiã. Mas sempre que poderia, apareceria, vindo ver os amigos que a receberiam com o mesmo carinho de sempre. E quando os cavaleiros entrarem em outras guerras, ela estaria presente, olhando, zelando.
Voltaria a ver Saga, Shura e Kamus como espectros, os olhares cruzando-se cheio de esperanças e dúvidas. Voltaria a ver Aioros nos domínios de Hades, acenar-lhe como fazia nos antigos treinos de arco e flecha. O mesmo riso. A mesma confiança. A mesma fé. O mesmo amor.
(1): Esse trecho é uma referência à música "What Sarah Said" da banda americana Death Cab For Cutie.
"And it came to me then that every plan is a tiny prayer to father time
As I stared at my shoes in the ICU that reeked of piss and 409
And I rationed my breaths as I said to myself that I'd already taken too much today
As each descending peak on the LCD took you a little farther away from me
Away from me
Amongst the vending machines and year-old magazines in a place where we only say goodbye
It stung like a violent wind that our memories depend on a faulty camera in our minds
But I knew that you were a truth I would rather lose than to have never lain beside at all
And I looked around at all the eyes on the ground as the TV entertained itself
'Cause there's no comfort in the waiting room
Just nervous pacers bracing for bad news
And then the nurse comes round and everyone will lift their heads
But I'm thinking of what Sarah said that 'Love is watching someone die'
So who's going to watch you die?.."
