EQUILÍBRIO
Capítulo 10. O Retorno do Pesadelo
Kouyou abriu os olhos, sentindo o corpo pesado e a cabeça oca. Sem muita força para levantar, permaneceu deitado até sentir-se mais desperto.
Virando a cabeça, conferiu o relógio que marcava oito e meia da manhã e mal pode acreditar que a noite simplesmente havia passado e que ele havia dormido. Tudo bem que não tivera tantas horas de sono, mas sentia que era o bastante para enfrentar o dia.
Olhando para a cama oposta viu a cama de Yuu desarrumada. A porta do banheiro estava fechada e pelo barulho imaginou que ele houvesse acordado antes e estivesse fazendo sua higiene. Ficou imaginando se ele teria conseguido dormir depois de tudo e sentiu-se culpado por tê-lo incomodado com algo que deveria ser particular.
Definitivamente ter trazido os calmantes consigo tinha sido uma boa ideia. Não conseguiria dormir sem aquilo. Não naquela noite depois de tudo. Não podia imaginar que seus pesadelos ainda pudessem piorar, mas sim, pioraram. Eram a cada dia mais reais: os sons do metal amassando e dos vidros estilhaçando, as vozes ao redor, o gosto de sangue nos lábios. Reais o bastante para não conseguir deixar aquilo de lado, para acordar impressionado mesmo que na verdade pouco conseguisse se lembrar de algo do acidente. As memórias seguintes eram sempre do hospital, com o cheiro de éter, o som dos aparelhos que lhe monitoravam e o torpor estranho de tantos remédios aplicados em sua veia.
Será que aquilo era real? Que aquilo houvesse realmente acontecido e sua memória estivesse lhe pregando peças? Não sabia responder, mas também não queria perder o tempo pensando nisso.
— Bom dia, Kouyou. – a voz de Aoi interrompeu os pensamentos incômodos ao qual sua mente se dedicava vez ou outra. — Dormiu bem?
— Hai, diante da situação acho que dormi bem sim. – respondeu, sentando-se e observando a forma como o moreno lhe olhava: sempre atento, sempre preocupado e solícito. Sentiu-se confortável em ser olhado daquela forma. — Obrigado por ontem. Espero que tenha conseguido dormir depois do meu escândalo.
— Consegui dormir sim, não precisa se preocupar. Acho que vamos escapar de qualquer ameaça de morte vinda do Kai ou algo assim. – viu-o sorrir suavemente. — O banheiro já está livre, ok?
Uruha levantou, pegando os objetos de higiene dentro da mala e indo ao banheiro. Lavou o rosto, olhando para o espelho em seguida e conferindo seu reflexo, constatando que as olheiras haviam se amenizado um pouco. Ficou satisfeito por isso e talvez isso fosse o bastante para aceitar que não poderia apressar as coisas, embora certamente sua pressa tinha lhe dado bons momentos para se lembrar. Tinha gostado de ver o moreno sendo tão cuidadoso consigo e isso foi o bastante para permitir sentir-se bem. Os gestos dele estavam mais espontâneos e Aoi estava sendo a pessoa gentil e solícita que se lembrava. Sabia que Yuu estava tentando se aproximar e gostava disso, mesmo dizendo para si mesmo não criar falsas expectativas.
Ao contrário dos outros dias, não demorou para que estivesse pronto para descer. Para sua surpresa, Aoi estava a sua espera e com isso acabaram descendo juntos até o restaurante onde estava combinado de encontrarem os outros e tomarem café. Lá encontraram Kai, e em poucos minutos Ruki e Reita também apareceram. Logo todos estavam conversando enquanto faziam a refeição e acertavam a agenda do dia, que por sorte não previa tantos compromissos assim. Pelas contas dos horários, se tudo corresse bem poderia voltar para o hotel mais cedo e descansar. Se conseguisse tirar ao menos um cochilo sem tomar o calmante seria um avanço e tanto.
Durante a manhã resolveram os primeiros compromissos, que envolviam entrevistas às rádios, terminando mais cedo do que pensaram. Depois disso foram imediatamente para o local do live para começar o ensaio e a passagem de som. Sentindo-se mais descansado, o loiro conseguiu se envolver e dedicar-se ao trabalho sem grandes problemas e acima de tudo sem atrapalhar ninguém com o ensaio, tocando suficientemente bem para ficar um pouco mais seguro sobre seu desempenho.
Estava tudo indo bem quando Kai sinalizou que parassem, que fariam um intervalo. Kouyou se resignou em aceitar sem reclamar visto que seria voto vencido. Além de todos aceitarem qualquer pretexto para uma pausa sem discutir muito, estavam fazendo aquilo por sua causa, com receio de que passasse mal novamente. Simplesmente tirou a guitarra do ombro e foi procurar um lugar para sentar e ao encontrar deixou-se ficar ali, respirando fundo e sentindo a leve dor nos braços que sempre tinha quando faziam alguma pausa, distraído com o próprio cansaço sem sentir que Yuu estava se aproximando de si.
— Tá tudo bem, Kou-chan?
— Hai, tudo bem. – respondeu, pensando no quanto aquela situação era cada vez mais comum. Yuu sempre por perto, de uma forma ou de outra, sempre sendo gentil.
Uruha gostava daquela gentileza, mas procurava não se apegar a algo que poderia ser tão dúbio. Gentileza era uma das características mais marcantes de Aoi, mas também poderia ser algo absolutamente impessoal. Não deveria sentir-se especial de nenhuma forma por causa disso.
— Eu vi que você não comeu bem durante a manhã, então eu trouxe isso aqui. – disse, entregando um embrulho. Kouyou abriu o pacote e encontrou um sanduíche. — O dia ainda é muito longo e promete ser pesado. Não dá pra ficar sem se alimentar direito.
— Arigatou, Yuu. – agradeceu, sem realmente notar a forma como o chamara. Instintivamente a formalidade ia sendo deixada de lado quando se referia ao guitarrista moreno. Uruha não se deu conta em que momento começou a deixar de chamá-lo de "Aoi-san" ou "Shiroyama-san". Apenas foi acontecendo sem que pudesse notar e quando finalmente foi se dando conta, simplesmente deixou acontecer, sem interpretar aquilo como um sinal além da cordialidade. — Não precisava ter se incomodado.
— Não é incômodo. – ele respondeu, sentando-se ao seu lado, observando-o de esguelha como se o vigiasse, esperando que comesse. Sem querer decepcionar, Uruha o fez mesmo sem sentir fome. — Acho que realmente já escapamos de sermos trucidados pelo Kai hoje...
— Ah, pelo menos por hoje nós temos um desconto. O Nao-kun está ajudando a aplacar a sanha assassina dele.
— Eu não tinha a mínima ideia que esses dois... Eu sou tão desligado assim?
— Bom, o Kai sempre foi muito discreto a respeito de com quem ele sai. É normal que você nunca tenha percebido nada.
— Tá, mas você sabia, não sabia?
— Hai. Eu já tinha visto os dois juntos então o Kai deixou escapar que estavam se entendendo. – respondeu, lembrando-se da ocasião em que o líder deixou escapar sobre aquele relacionamento, ainda antes do acidente em uma espécie de confissão em nome de tudo pelo qual Kouyou estava passando, de saber que não estava sozinho e que não era o único no The GazettE que também gostava de homens, quando nenhum deles sabia ainda a respeito de Ruki e Reita. Um voto de confiança pelo qual realmente foi grato e isso o levou praticamente a ser uma espécie de padrinho do casal enquanto vocalista e baixista sequer pensavam em dar um nome ao que tinham, quanto mais assumir algo. — Isso já faz bastante tempo.
— Eu via os dois conversando vez ou outra, mas realmente não tinha ideia. – disse o moreno, sorrindo levemente. — Eles combinam e Kai parece satisfeito. Tomara que dê certo.
O loiro ficou surpreso com aquela afirmação. Talvez ainda não estivesse preparado para uma declaração tão positiva a respeito de relacionamentos com o mesmo sexo vindas de Aoi depois de tudo que passou, mesmo que tivesse escutado a declaração secreta vinda do mais velho. Gostou de escutar aquilo, ainda que dissesse para si mesmo que isso poderia não significar nada.
ooOOooO dia passou tão rápido que Aoi mal pode acreditar. Compromissos cumpridos, ensaio feito, hora do descanso. Tudo havia corrido inacreditavelmente bem, sem qualquer sobressalto e não havia motivos para acreditar que não pudesse acontecer a mesma coisa para o dia seguinte.
Durante o dia observou Kouyou de modo atento, se descobrindo mais seguro para estar por perto. O loiro também parecia mais a vontade em aceitá-lo tão próximo e isso o deixava satisfeito. Queria mesmo estar mais atento a ele depois do que presenciara na noite anterior. Ainda se assustava com aquilo, sentia o coração apertado ao lembrar-se da forma como o mais novo estava agitado, a forma como ele acordara assustado após o pesadelo. Kouyou acabaria doente se tivesse de lidar com aquilo por mais tempo. Talvez por isso tivesse ficado tão aliviado ao vê-lo dormir depois de tudo. Agora precisava fazer alguma coisa se quisesse ajudar.
Às vezes se perguntava a respeito de como tinha sido aquele acidente para que Kouyou sofresse tanto depois deste tempo. De acordo com os médicos, pelo menos na ocasião em que ele acordou, o loiro não tinha lembranças concretas. Apenas flashes do caminhão avançando na pista oposta e mais nada, e pelo jeito nada indicava que a situação houvesse mudado. Talvez fosse a memória do loiro querendo se manifestar com lembranças indesejadas mesmo que estas fossem dispensáveis.
Quanto a si próprio, durante aqueles dias e até agora Aoi tinha se recusado a tentar saber mais. Seu conhecimento sobre o acidente de Kouyou até o momento se resumia a simplesmente ao que tinham lhe contado por alto. Kai e Reita eram os mais informados a respeito por razões óbvias e nunca se arriscara a ir além do que sabia. Não por falta de interesse. Apenas tinha medo do que poderia encontrar. Não tinha vontade de voltar aos dias difíceis em que a vida de Kouyou estava por um fio e tudo parecia conspirar contra. Para o moreno era como se tudo aquilo tivesse acontecido no dia anterior e se os pesadelos de Uruha eram sobre o acidente, os seus eram sobre o tempo em que esteve plantado naquela sala de espera aguardando por qualquer chance de continuar acreditando que o mais novo sobreviveria...
Mas agora sentia que talvez precisasse saber. Era por isso que estava em frente ao seu notebook, lendo tudo que pudesse duelando consigo mesmo enquanto Kouyou tomava banho. Sabia que ele ficaria no chuveiro por um tempo considerável. Nos melhores dias, Reita se perguntava se por acaso o amigo não teria morrido dentro do banheiro então tempo era algo que tinha de sobra. Lia as notícias e tudo que pudesse encontrar a respeito do acidente de Uruha: tudo que ignorara nos últimos meses. Respirou fundo antes de fazer aquilo, mas o material que encontrou foi o mais do mesmo. Agradeceu imensamente por não ter encontrado mais que as simples notícias, a grande maioria sem imagens.
Kai e a PSC tinham sido bastante eficientes em driblar a imprensa nesse caso e assim proteger o loiro e sua família de especulações, mesmo que nada desabonasse Kouyou e sua conduta nessa história: nada de bebida, ou alta velocidade, nem condução de risco. Ficou aliviado por não ter encontrado nada então antes que pudesse encontrar algo acabou fechando o computador, sem disposição nem mesmo para se divertir com Twitter e o Facebook como era o usual. Francamente, não queria nada que o distraísse do que realmente lhe interessava naquela noite.
— Gomen – disse o loiro ao sair do banheiro, interrompendo os devaneios e as perspectivas de encontrar o que não queria em troca de uma realidade mais concreta e mais interessante. — Acho que perdi a noção do tempo, como sempre. Bom, já tá liberado, caso precise.
Observou-o tanto quanto pode sem que parecesse inapropriado. Sua aparência era de cansaço, mas aparentemente era um cansaço bom e não mais necessariamente os frutos de diversas noites de insônia. Ele parecia estar bem e ficou satisfeito com isso.
— Não tem problema, não vou precisar. – respondeu, colocando o notebook de lado. — Cansado?
— Um pouco, nada demais. Acho que no fim Kai-kun pegou leve com a gente. E você?
- Na mesma. Acho que Nao-kun está deixando ele de bom humor. Ele precisa aparecer mais vezes... – comentou por alto, fazendo com que o mais novo sorrisse. — Vai deitar agora?
— Acho que sim, mas não precisa se incomodar por minha causa. O computador não me atrapalha.
— Só estava esperando você sair. Não vou precisar disso.
Prontos para dormir, não demoraram a apagar a luz. Imersos naquele silêncio e embalados pelo cansaço de um dia produtivo, certamente o sono não demoraria a chegar. O moreno ainda demorou um pouco mais para realmente deixar-se levar, preocupado com o outro. Não se lembrava de tê-lo visto tomando o calmante, então preferiu ficar atento. E estava apenas cochilando quando aconteceu novamente: quando Kouyou começou a se agitar e balbuciar durante o sono, mas antes que algo mais pudesse acontecer levantou-se da cama, indo até ele, despertando-o antes que ficasse pior.
— Kou-chan... Kou-chan acorda. – sussurrou, tocando-o delicadamente tentando não assustá-lo mais do que certamente já estava e após duas tentativas viu-o reagir assustado. Mais uma vez pegou em sua mão, em uma tentativa de lhe transmitir segurança. — É só um pesadelo. Tá tudo bem. Não aconteceu nada.
— Aoi...?
O moreno acendeu a luz do abajur ao lado, tentando vê-lo melhor. Encontrou a expressão assustada de quem repentinamente sai de uma situação de perigo, mas sabia que ainda era melhor do que deixá-lo acordar aos gritos.
— Sou eu, não se preocupa. Não aconteceu nada, foi só um pesadelo.
Viu-o respirar fundo, se acalmando aos poucos e voltando à realidade sem rejeitar a carícia em sua mão. Parecia mais concentrado em dizer a si mesmo que aquilo não estava acontecendo novamente, que aquele acidente não estava acontecendo de novo. Que aquilo já tinha acabado.
— Droga... – lamentou quase em um sussurro. — Isso não acaba nunca.
— As coisas não acontecem tão rápido, Kou-chan. Não pode ter pressa.
— Já se passaram meses...
— É, mas as coisas não são assim em um caso desses. Demora a passar. Mais do que a gente quer, mas é preciso ter paciência. Tem de dar tempo ao tempo. – disse, desejando que Kouyou não exigisse tanto de si mesmo, embora soubesse que essa era uma postura normal do loiro, sempre tentando se superar de alguma forma. Não seria diferente em um momento como aquele. — Você tomou o calmante?
— Eu esqueci. – disse, displicentemente, fazendo o moreno ter suas dúvidas se Uruha tinha realmente esquecido ou apenas feito de propósito, em mais uma tentativa de se manter longe do remédio. Não era como se desse para saber, mas também não iria perder tempo pensando nisso.
— O live é amanhã à noite. Você precisa dormir pelo menos hoje pra ter um bom desempenho. Nos dias seguintes só vamos ter ensaios e outros compromissos menores então é mais fácil tentar dormir sem eles caso queira continuar tentando.
— Hai, tudo bem. Você tem razão. Eu vou tomar o remédio.
Solícito, o moreno novamente pegou o remédio para que Kouyou tomasse. O loiro o fez sem reclamar, agradecendo e voltou a deitar em seguida, tendo o olhar triste, porém de certa forma, conformado com as expectativas. E novamente Aoi ficou ao seu lado, esperando que ele dormisse. Novamente Uruha disse que não precisava e novamente Yuu disse que não se importava, cumprindo um acordo silenciosamente estabelecido consigo mesmo, e aparando as distâncias que ainda pudessem ter.
No fim, a noite passou mais rápido do que poderiam imaginar e tendo pouco tempo para preguiça, dedicaram-se aos últimos preparativos para o live. Acordaram cedo, tomaram o café da manhã e logo já estavam no local da apresentação, executando o checklist de tudo que ainda seria necessário para que tudo corresse bem e todos estavam concentrados em suas respectivas tarefas quando o celular de Kai começou a tocar.
— Moshi-moshi – ouviu Kai dizer, atendendo o aparelho. — Iie, ele não está aqui, está no palco passando o som agora. O que houve?
As palavras bastaram para que Aoi deixasse de afinar sua guitarra e começasse a prestar atenção na conversa. Fosse como fosse, o assunto referia-se a Uruha. Era ele quem estava no palco cuidando da passagem de som naquele momento enquanto os outros estavam ocupados com outras coisas no backstage. E por alguns instantes viu Reita e Ruki terem a mesma reação, observando o baterista, esperando pelo que ele pudesse dizer.
— (...) Quando foi isso? (...) Iie, eu não sabia. Não, nenhum de nós. Eles teriam contado se tivessem visto alguma coisa. (...) Iie! Não! Ele não pode saber, pelo menos não agora. (...) Onegai, Sakai-san, veja o que consegue fazer. Eu vou tentar fazer com que isso não chegue até ele. (...) Hai, avisa pra eles, por favor. Ok, até mais.
— O que houve, Kai? – perguntou Yuu, ansioso — Aconteceu alguma coisa?
O baterista não respondeu em um primeiro momento. Aoi viu-o pegar o notebook e digitar algo de forma apressada e também viu quando a expressão ansiosa do líder deu lugar ao choque.
— Ah, não... Merda.
— Kai, Kai o que houve? – repetiu Yuu, elevando um pouco o tom de voz.
— É com o Kou-chan? – inquiriu Reita. — Aconteceu alguma coisa com os pais ou com as irmãs dele?
Sem tirar os olhos da tela, o baterista balançou a cabeça dizendo que não, ou pelo menos que não era bem assim. Coçou a cabeça como se quisesse colocar as ideias em ordem e ainda não soubesse bem o que fazer, olhando para os lados e para a porta, certificando-se de quem poderia estar por perto.
— O Sakai-san me ligou pra avisar que tem um vídeo do acidente do Kou circulando na internet. Parece que isso apareceu ontem de madrugada e está se espalhando. Está causando a maior confusão e a imprensa tá toda atrás da PSC a procura dele.
— Mas... Mas como assim um vídeo do acidente? – Reita perguntou, aparentemente sem entender bem do que se tratava.
— A batida, os paramédicos, o resgate... Tudo. O Sakai-san assistiu. Parece que realmente filmaram tudo, Akira. Já se espalhou na rede pra quem quiser ver, como se fosse uma praga. Está aqui na minha tela e não é um engano. Não é um vídeo falso nem uma pegadinha de internet. É realmente o carro do Kou. – explicou, com um ar chocado.
Imediatamente os rapazes tiveram a mesma reação, indo para o lado de Kai, que colocou o vídeo no começo novamente, olhando para a tela do notebook, vendo as cenas dantescas que se desenrolavam naquele vídeo. Começando com o para-brisa de um carro, vozes jovens que conversavam animados falando de uma festa, e de repente focalizam um par de faróis, ziguezagueando na pista contrária, logo notando que pertencem a um caminhão, que invadiu a pista a frente deles vindo em alta velocidade. O carro de Uruha entrou em foco, trafegando normalmente na estrada, e o caminhão que invadiu a pista entrando em rota de colisão frontal sem deixar qualquer tempo ou espaço de reação.
— MEU DEUS! VAI BATER! – O grito apavorado de quem estava filmando sobrepõe o som do rádio do carro, que passa pelo choque violento. — AAAHHHHHHHH! Encosta! Encosta! – Ele gritou nervoso, a imagem balançando, a câmera virando para o vidro traseiro tentando não perder o foco da imagem. — Um de vocês liga pro resgate, o outro pra polícia, pra emergência! Eu vou lá ver o que esta acontecendo!
A porta se abriu, a pessoa desceu, a câmera a uma grande distancia mostrando a traseira do caminhão. A imagem trepidante junto com a respiração ofegante, ficando claro que a pessoa corria para perto do acidente, mostrando o choque que reduziu o carro preto e bonito do loiro em uma carcaça de ferro e aço retorcido, do qual jamais poderiam esperar que alguém saísse vivo. O estrondo da porta do caminhão chamando a atenção do câmera-man, que focalizou o caminhoneiro cambaleante descendo dele e indo em direção ao choque.
Viram a câmera se aproximar, através do zoom com uma qualidade surpreendentemente alta, o motorista bêbado olhando indiferente o corpo jogado no banco do veículo, e reconheceram as feições delicadas do amigo preso nas ferragens, imóvel, com os olhos vidrados e entreabertos além do sangue que lhe escorria pelo rosto dando um aspecto apavorante. Viram, embasbacados, o rosto nítido e sem expressão do motorista quando se virou, deixando o local sumindo pela lateral da estrada, pela vegetação alta.
— ALGUEM FAZ ALGUMA COISA! – Ouviram a voz histérica. — Eu não sei se ele está vivo ou morto... LIGARAM PRA EMERGENCIA? – A voz gritou para os companheiros que se mantinham à distância, assustados com a situação macabra.
A sirene soou ao fundo ficando cada vez mais alta, a ambulância chegando e os paramédicos descendo apressados, tentando obter os sinais vitais de Kouyou, através da janela aberta do motorista, procurando a pulsação no pescoço do jovem que jazia inerte como se nada acontecesse a sua volta. Outros aguardavam ao lado com a maca, esperando que os bombeiros, que chegaram quase ao mesmo com a polícia, se aproximassem munidos de alicates hidráulicos e motosserras, trabalhando com urgência para que pudessem retira-lo de lá o mais rápido possível. A polícia isolando com cones o local, interditando parte da estrada.
— Oh, Kami-sama, parece que ele está morto... Que tragédia... Tão jovem...
Chocados, os quatro integrantes do The GazettE ouvem a voz embargada, assistindo os homens darem o guitarrista como morto ainda no local e já se preparando para remover o cadáver do veículo quando um deles parou pedindo silêncio, entrando novamente no carro e tomando os sinais vitais, tendo como resposta um som quase inaudível e mudando toda a história.
— Graças a Deus, ele está vivo!
Acompanharam a forma como a partir dali rapidamente começaram o resgate e o jeito cuidadoso com o qual o retiraram do carro e deram inicio aos primeiros procedimentos médicos ainda na pista, antes de o levarem para a ambulância. Assim como o fim abrupto na filmagem clandestina quando um policial se aproximou, o mandando se afastar e parar de filmar no momento que os paramédicos o levavam.
Estava tudo lá, não era um trote e muito menos um exagero. Estava tudo ali para quem quisesse ver. E pela primeira vez Aoi teve a absoluta noção do quanto estiveram perto de perdê-lo e do quanto haviam tido sorte pelo pior não ter acontecido. Tudo que temia ver estava ali, acontecendo a sua frente podendo acontecer tantas vezes mais quisesse, ao menor clique. Tudo muito mais grave do que ousava imaginar. Não era a toa que Uruha vinha tendo pesadelos. Yuu agora tinha certeza absoluta que essas imagens também estariam em seus pesadelos por muito tempo.
Mal sentiu quando as lágrimas vieram aos seus olhos, mas notou o próprio estado somente quando saiu do torpor e viu o mesmo acontecer com os outros. Reita então parecia completamente perdido e em choque pelas imagens, sendo desperto somente pelo chamado baixo de Ruki ao seu lado.
Talvez todos tivessem se dado conta exatamente da mesma coisa: tinha sido absolutamente por um triz. Que se tudo não havia simplesmente acabado talvez não fosse a hora, porque no fim tudo levava a crer que não haveria uma mínima esperança. Que se Kouyou estava vivo agora, naquele palco fazendo a passagem de som e praticamente sem sequelas, era porque todos ali haviam ganhado uma segunda chance.
— Mas... – o baixista balbuciou, quebrando o silêncio sepulcral entre eles após o fim do vídeo. — Mas quem fez isso...?
— Ninguém tem ideia de quem fez Rei-chan, mas talvez tenha demorado a descobrir que se tratava de alguém famoso. Só isso pra justificar terem colocado na internet depois de tanto tempo. – explicou o líder, fazendo um esforço notável para ficar calmo. — A imprensa vai fazer plantão na nossa porta. Eles sabem da nossa agenda e vão vir atrás do Kouyou. Foi por causa disso que o Sakai-san telefonou. Ele vai tentar fazer o possível pra manter a ordem por lá, mas não creio que vá conseguir concentrar a mídia nas notícias oficiais. Eu ainda vou tentar telefonar para os pais do Kou. Muito provavelmente a imprensa vai acabar indo atrás deles também.
— O que dá pra fazer, Kai? – Yuu se manifestou, preocupado — Ele não pode ficar sabendo desse jeito.
— Não sei. Francamente não sei. Acho que podemos até contornar isso hoje por causa do live. Se criarmos mais tarefas e inventarmos alguns problemas nos equipamentos, podemos mantê-lo longe da TV e da internet. Fora isso, também podemos pedir ao pessoal do staff que não comente nada sobre o assunto. Podemos recusar conceder qualquer entrevista hoje também. Sair do live direto para o hotel pela porta de emergência se for necessário, mas não dá pra garantir como vai ser amanhã. Temos que ser realistas. Nós sabemos como isso funciona. Não vamos conseguir segurar por muito tempo.
Aoi respirou fundo, tentando se controlar enquanto os outros faziam o mesmo, cada um distraído com seus próprios pensamentos, tentando lidar como podiam com o que tinham acabado de assistir. Fosse como fosse, precisavam se acalmar. Uruha não podia saber o que estava acontecendo, pelo menos não por hora.
Naquele dia Aoi tinha uma certeza: o maior desejo dos quatro era se afogar em bebida se isso pudesse fazê-los esquecer de alguma forma. Mas não podiam e nem conseguiriam esquecer por mais que tentassem.
