Parte IX
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
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Os olhos abertos, fitando a parede oposta. O lençol branco, cobrindo o corpo pálido e magro até cintura. Marcas de lágrimas no rosto sem expressão.
Harry era, aos olhos de Lucius, uma obra de arte, digna de ser admirada por horas sem fim.
Nas últimas semanas, Lucius apreciara todas as facetas que Harry poderia apresentar. A revolta, o medo, o nojo, a confusão, a luta e, por fim, sua submissão absoluta.
Lucius, na verdade, apreciava mais quando Harry ainda lutava. A maneira como ele havia tentado se desvencilhar de Lucius na primeira manhã. Como conteve sua raiva por quase dois dias inteiros depois que havia manipulado-o a aceitar o Juramento para então explodir, fazendo com as xícaras do café da manhã se quebrassem com sua mágica. Como tentara agir contra Lucius, apenas para se ver impossibilitado, como se amarrado, no último segundo possível.
Agora, no entanto, Harry não lutava mais. Lucius não tinha nem mesmo a satisfação de dizer que Harry se rendia porque a impressão exata que passava era de que Harry simplesmente não estava ali.
Os olhos verdes, sempre tão expressivos, meramente encaravam o que quer que estivesse no seu campo de visão. Comia e bebia e se vestia e se banhava apenas porque eram condições básicas da vida, e ele havia Jurado que não atentaria contra si mesmo.
Sentando-se na cama, Lucius acariciou os cabelos de seu esposo, notando, com certo desapontamento, que ele não se encolhia mais, como fazia nos primeiros dias, nem tampouco tentava se afastar, ou mesmo esboçava alguma reação.
Ele só... ficava ali. Parado, encarando as paredes.
Ele era belo de se ver.
Lucius, por vezes, não gostava nem mesmo de pensar no quanto a inocência contida no rapaz que ele tinha era encantadora.
Lucius, por vezes, se via sentindo pena do rapaz que era mais novo que seu próprio filho.
Lucius, por vezes, queria saber uma maneira de liberá-lo do Juramento, só para ver se Harry voltava a reagir.
Mas Lucius, o tempo todo, lembrava que aquele rapaz era o assassino de Narcissa e, por esse fato apenas, merecia sofrer.
A verdade era que Lucius se via perdendo aquele ódio inicial por Harry. Na maneira como o rapaz se submetia e acatava todos os seus desejos e na maneira como a vida parecia ter sumido dele, deixando ali uma casca... Lucius não conseguia odiar completamente alguém que não lutava contra ele. Ele não conseguia sentir a raiva inicial queimar dentro dele. Não conseguia nem mesmo querer machucar Harry como queria a princípio, porque Harry lutava contra ele. E a luta de Harry alimentava seu ódio, porque cada palavra de Harry contra ele era uma negação a tudo que Narcissa havia feito. Mas a passividade do seu cônjuge era apenas uma demonstração da sua supremacia. E se ele era tão melhor do que Harry, e Harry aceitava isso... a razão do ódio ficava a cada dia mais difícil de se encontrar.
E Lucius amaldiçoava Harry com todas as suas forças por isso.
E foi naquela manhã, ainda olhando Harry na cama, simplesmente porque ninguém havia lhe dito que se levantasse, que Lucius descobriu um motivo verdadeiramente grande para odiar Harry.
Ainda acariciando os cabelos de Harry, Lucius se aproximou dele, de maneira que Harry tivesse de encará-lo.
"Eu acho, Harry, que o sangue ruim da sua mãe causou algum problema com você."
Harry meramente piscou, sem parecer realmente entender o que estava sendo dito. Lucius puxou os cabelos dele com mais força, mas não obteve nenhuma reação nem assim.
"Sabe por que eu acho isso? Porque você ainda não está carregando um filho meu. E o problema certamente veio do sangue sujo da sua mãe. Porque Puros Sangue não têm esses problemas. Eu já tive um filho. Você não. Você tem de me dar um filho, porque se não, eu vou dar um jeito de mandá-lo para Azkaban, por ter matado Narcissa e vencido a guerra, você está me ouvindo?", a voz de Lucius crescia a cada palavra, e seu toque, a princípio quase carinhoso, agora era pesado, sua voz ameaçadora, e Harry meramente o encarava.
Frustrado, Lucius ergueu-se da cama, trazendo Harry consigo, e atirando-o ao chão, arrancando, finalmente, uma exclamação de dor do rapaz.
"Você tem duas semanas para engravidar, seu mestiço nojento. Ou então, eu vou sumir com você tão rápido que ninguém vai saber o que aconteceu."
Lucius saiu, batendo a porta atrás de si.
Dentro do quarto, havia apenas o silêncio.
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Severus estava preocupado.
Não que isso fosse alguma novidade, ele estivera preocupado desde que conseguia se lembrar, e o motivo da sua preocupação era sempre o mesmo: Harry Potter.
Desde que o tal Juramento fora feito, Harry não reagia mais. Nem para o bem, nem para o mal, ele simplesmente não manifestava nenhuma emoção, nenhuma reação, nada. Era como se Harry Potter estivesse de férias, e tivesse deixado um boneco feito à sua imagem e semelhança ali, para representá-lo.
Depois de estudar mais a fundo o Juramento que Harry havia feito, Severus descobriu que isso era, na verdade, a maneira como a magia de Harry decidira protegê-lo e fazê-lo obedecer ao Juramento ao mesmo tempo. Sob nenhuma razão Harry iria obedecer a Lucius, mesmo que soubesse que havia feito o Juramento. Em um último caso, a magia de Harry iria, sim, abandoná-lo e então Harry morreria. E por isso, para proteger a si mesma e a seu receptáculo, a magia de Harry criara alguma forma de bloqueio mental em Harry, que então se tornara aquela massa apática, até que o rapaz pudesse aceitar o Juramento e conviver com ele.
Mas Severus conhecia Lucius Malfoy, e a brincadeira de Lucius não tinha tanta graça se o seu brinquedo estava quebrado.
Se Potter não sentia, então Potter não sofria.
E se ele não sofria, o casamento não valia de nada.
Severus estava, mais uma vez, na Mansão do Terror, subindo as escadas para o quarto de Harry e Lucius. O homem o havia chamado por razões desconhecidas há alguns minutos, e Severus estava contando os segundos para chegar ao quarto.
Sua mente não conseguia parar de imaginar que Lucius havia, finalmente, ido longe demais e Harry havia quebrado o Juramento, e agora estava agonizando, ou outro cenário tão terrível quanto esse.
Batendo na porta, Severus ouviu o chamado de Lucius para que entrasse.
Sem saber se se sentia aliviado ao ver Harry sentado em uma cadeira, olhando pela janela, ou preocupado ao notar que havia um hematoma no braço e rosto do rapaz, Severus cumprimentou Lucius curtamente.
"Severus, tem alguma coisa errada com ele.", Lucius disse, soando impossivelmente como uma criança que reclama para o pai que seu brinquedo não funciona como devia.
"O que aconteceu?", Severus perguntou cuidadosamente. Havia tantas coisas erradas com Harry nesse exato momento, que Severus não conseguiria nem mesmo começar a enumerá-las.
"O que não aconteceu, Severus, é a gravidez de Harry. Ele não está carregando meu filho. De que me adianta um cônjuge, se ele não consegue nem mesmo carregar meu herdeiro?"
Severus se conteve para não lembrar a Lucius que ele já tinha um herdeiro.
"O que você quer que eu faça, Lucius?", ele indagou, sua voz absolutamente neutra.
"Não há nenhuma poção de fertilidade que ele possa tomar?"
"Você sabe que não, Lucius.", Snape respondeu, seu tom mais ríspido. O problema não poderia ser com Harry, ou a fraude de medibruxo que havia feito Pentru a da Naştere em Harry teria notado algo de errado.
Lucius encarava Harry com uma dose renovada de nojo, e Severus queria muito apenas tirar Harry dali e mandá-lo para longe. Lucius havia encontrado um novo motivo para odiar Harry.
"Você já foi testado, Lucius?", Severus perguntou, mantendo seu tom calmo.
"Testado para que, Severus?", Lucius devolveu, seu tom uma ameaçada irritada.
"Fertilidade. Você sabe que eu só não tive de obedecer a essa Lei estúpida porque sou infértil. E também sabe que a razão da minha infertilidade foram os anos trabalhando em contato direto com Magia Negra, somado à Marca que nós dois tínhamos, e que estava coberta por Magia Negra, mesmo quando o Lord não estava entre nós. Talvez o problema não seja com Harry. Talvez seja com você."
Severus estava preparado para diversas reações que Lucius pudesse ter, de uma ameaça à sua vida a uma crise de raiva generalizada.
O que ele não estava preparado para receber, no entanto, fora o riso alto e desdenhoso de Lucius, que tinha até mesmo algumas lágrimas nos olhos, de tão engraçada que ele achara toda a situação.
"Severus, meu velho amigo, eu sou um bruxo Puro Sangue. Eu jamais teria um defeito desse porte em mim. Seu pai era um trouxa, exatamente com a mãe de Harry era uma sangue ruim. O problema está na linhagem de vocês, não comigo.", ele terminou sorrindo.
Voltando a olhar para Harry, todo e qualquer vestígio de sorriso desfeito em uma máscara do mais profundo desprezo, Lucius balançou a cabeça.
"Se ele não estiver carregando um filho meu em duas semanas, eu vou mandar prendê-lo."
"Você não pode fazer isso.", Severus disse, recebendo um sorriso maldoso de Lucius em troca.
"Se ele me atacar, posso. A Ministra vai ficar completamente feliz em colocá-lo em uma cela em Azkaban e esquecer que Harry Potter jamais existiu.", caminhando em direção à porta, Lucius já ia saindo do quarto quando chamou Severus mais uma vez, "Veja se ele reage ao que quer que seja, sim, Severus? Ele está me entediando nesses últimos dias."
Assim que Lucius saíra do quarto, Harry voltara o olhar para Severus, e fechara os olhos, como se já exausto, apesar de ter acabado de acordar, o que era óbvio pelo fato de que nem mesmo a cama estava feita.
Olhando os lençóis ainda amassados, Severus conteve um arrepio de nojo com a ideia que havia tido, mas ele precisava de confirmações. Uma mancha já ressecada de sêmen estava nos lençóis claros, alguns fios de cabelo sobre a cama. Engolindo em seco, Severus pegou um dos longos fios loiros e o colocou em um frasco que trazia no bolso. Em um outro frasco, ele colheu um pouco do sêmen e sumiu com os dois vidrinhos, mandando-os diretamente para seu laboratório em casa.
Correndo as mãos pelos cabelos de Harry em despedida, Severus foi até as bordas da mansão e seguiu para casa.
Ele só esperava que as respostas não fossem ser piores do que as suas perguntas.
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"Nós temos um problema.", Severus disse assim que Draco entrara na sua casa. O dia já estava no fim, e Severus passara as últimas doze horas preparando poções e testando resultados, até ter a confirmação da sua suspeita.
"Tudo que nós temos tido desde o dia em que meu pai achou Harry são problemas, Severus. Mas qual o problema agora?", o loiro indagou, em um tom cansado.
"Seu pai é estéril, Draco. Ele não pode ter filhos."
"Ele não pode ser estéril, Severus. Eu estou aqui, não estou?"
"É o efeito da Marca Negra por tempo demais na nossa pele, Draco. Você não a teve por mais de dois anos, mas eu e seu pai passamos décadas com Magia Negra literalmente dentro de nós. Eu me tornei infértil pouco depois de você nascer. Seu pai deve ter tido o mesmo problema, mas ele jamais descobriu, ou descobriu e não lembra agora, por causa do seu estado."
"Como você pode ter certeza?", Draco perguntou, preocupado.
"Eu colhi... amostras. E, sim, eu tenho certeza que eram do seu pai, eu comparei o DNA ao dos cabelos dele. Seu pai não pode mais ter filhos."
Draco correu as mãos pelos cabelos.
"Bom, então teremos de encontrar uma nova maneira de fazer com que ele decida tirar o bracelete de Harry, só isso.", ele respondeu.
"Não adianta, nós não temos tempo.", Severus respondeu gravemente.
"Como assim?"
"Seu pai me disse, hoje pela manhã, que se Harry não engravidar em duas semanas ele vai mandar prendê-lo. E nós dois sabemos que ele pode fazer isso acontecer."
Os dois se mantiveram em silêncio durante longos momentos.
"Bom, Severus, nós fizemos o que podia ser feito, não foi? Está fora das nossas mãos."
Severus se aproximou de Draco em fúria, seu rosto pálido tão frio, que Draco deu um passo involuntário para trás.
"Eu não salvei aquele garoto do Lorde das Trevas para vê-lo morto pelo seu pai, Draco."
"E o que você quer que eu faça, Severus, engravide Potter?", Draco perguntou, exasperado.
Mas sua exasperação tornou-se descrença quando Severus apenas o encarou, com uma sobrancelha arqueada.
"Oh, não. Não, não, não, não. Eu não vou tocar em um fio de cabelo de POTTER, Severus, do esposo do meu pai!"
"Draco, é a única solução. Você sabe que seu pai vai fazer um feitiço de paternidade assim que descobrir que Harry está carregando um filho, e se a criança não for um Malfoy, Harry vai ser morto antes que possa sequer tentar se defender."
"NÃO!", Draco gritou, frustrado e confuso, indo até a porta para sair, "E NADA do que você disser pode me convencer!", ele reafirmou, abrindo a porta.
Com um estouro, a porta se fechou e trancou, Severus indo a passos largos até o rapaz agora tão alto quanto ele.
"Você me deve, Malfoy.", Draco gelou ao ouvir a voz sibilada, "Eu salvei você mais de uma vez, você me deve. E você deve a Potter também, mais de uma vez. E agora eu estou exigindo o pagamento. Você vai engravidar Potter."
Draco podia sentir a magia da cobrança de um débito daquele porte. Eles haviam salvado a sua vida, e agora Severus estava cobrando-o de volta.
Com um suspiro pesado, Draco virou-se para encarar Severus novamente.
"E quando você pretende que eu faça isso, Severus? Que peça licença para meu pai hoje à noite, porque eu quero dormir com o marido dele?"
"Seu pai deve chegar aqui em alguns minutos. Eu disse que havia descoberto algumas poções de fertilidade para que ele desse a Harry. E eu sei que Gabrielle está na casa da irmã até amanhã à noite. Você tem uma hora, Draco. Use-a bem."
"Você não pode querer que eu..."
"O tempo está PASSANDO, Draco.", Severus repetiu, seu tom de voz alterado, "Você nos deve. Agora vá, e pague as suas dívidas."
E tomando toda a coragem que tinha, Draco aparatou para casa, deixando um Severus preocupado para trás.
Hehe. Mais alguém aí com agonia do que vai acontecer??? Hehehehehehe
Sorte de vocês que eu vou postar os dois capítulos juntos, porque não tive tempo de postá-los semana passada, ahn??
Hahahahaha
Beijos e
R E V I E W !
