Capítulo 9
A vida de Sakurauchi Riko nunca fora das mais tranquilas. Tendo sua origem em uma família de grandes artistas do Reino de Akiba, ela teve que lidar desde muito cedo com segredos para sobreviver.
Isso porque, assim como seus pais, ela nascera com a alma destinada a seguir pelos caminhos da Magia Natural.
Em sua família tanto a música como a magia eram coisas presentes. Ela estudou o piano desde os três anos de idade e transcreveu seus primeiros feitiços em seu Livro Sombrio aos cinco. Sua casa era afastada das cidades e lá ela era livre para descobrir a ligação misteriosa que existia entre sonoridade e energia mágica. Não demorou para que ela começasse a utilizar o som, em todas as suas formas, como uma maneira poderosa de criar e reverberar energia das mais variadas formas.
Era como tocar diferentes estilos de música. Uma valsa, um crescente, uma marcha. . . Existiam maneira de utilizar a magia tão diversos quanto os estilos de música no mundo. Sempre descobria novas combinações enquanto ensaiava acordes de improviso. Sua vida era repleta de sonoridades na liberdade de sua casa, por isso seu poder crescia de maneira exponencial.
Porém, fora de casa, o mundo de Riko não tinha música. Apenas sons desconexos de vozes, de passos, de sopros gelados do fim da tarde. Seus pais eram muito requisitados para realizarem concertos na capital do Reino de Akiba, portanto Riko todas as semanas tinha que passar algumas noites em ansiedade. A pressão era tremenda. Um descuido e toda a imagem da família iria ser destruída. Mais do que isso, se qualquer um descobrisse sobre os poderes dos Sakurauchi, todos iriam se transformar em criminosos no mesmo instante. Ainda que fosse jovem demais para entender o funcionamento do mundo, Riko era bastante capaz de ver como aquilo tudo era insano e exagerado.
O medo era uma sombra gigante na mente de Riko todas as vezes que estava naquela maldita cidade imensa. Uma assombração real, que se aproximava cada vez mais com suas garras cheias de veneno, pronta para arrancar-lhe a cabeça. Riko se escondia da melhor maneira possível, mas parecia que mais cedo ou mais tarde ela seria alcançada.
E não foi diferente disso. Uma armadilha, na preparação de mais uma apresentação o do peculiar par Sakurauchi. Riko estava sentada na primeira fileira e viu quando a poção reveladora foi atirada por um mago arcano. A reação dos musicistas foi involuntária, causada pelo efeito do líquido penetrando os poros da pele. Ecos mágicos poderosos voaram pelo auditório e todas as luzes foram varridas de uma só vez. Riko estagnou de pavor quando tudo escureceu. Vultos voaram sobre seus pais e uma mão tapou seu nariz e boca. Ela desmaiou antes que visse outra coisa qualquer.
Era o fim do mundo.
Ela tinha apenas doze anos quando isso aconteceu. Foi presa e torturada. Acharam que a forca seria cruel demais para uma criança, então lhe submeteram à fome, frio e sede extremas. Não chorava, então não devia estar tão mal. Decidiram que ela viveria, mas que teria que ter o núcleo mágico arrancado de si.
Toda a alma humana tem uma ligação fundamental com a magia do mundo e a magia interna. Isso tudo passa pelo Núcleo Mágico - um órgão de energia pura, que fica instalado no centro da alma. Sem esse núcleo a capacidade mágica de uma pessoa desaparece. É possível reconstituir essa parte tão preciosa da alma, mas nunca mais será da mesma maneira. Perder o núcleo é, para qualquer tipo de mago, como perder a capacidade de ver ou ouvir.
As pessoas de Akiba não poderiam enforca-la, por ser cruel demais. Porém, arrancar e destroçar seu órgão mágico mais fundamental não pareceu assim tão cruel. Dessa vez ela gritou, chorou e convulsionou (muitos simplesmente morrem no processo), então talvez tenha sido um pouco ruim. Ainda assim deu resultado. Ela estava pior do que aleijada. Foi jogada na boca de um bosque, apenas com as roupas do corpo. Sentia dores terríveis por todos os músculos, mesmo que não tivesse qualquer problema neles. Sentiu-se sangrar um sangue invisível.
Mas, o pior de tudo, foi que Riko não conseguiu mais escutar a melodia da natureza.
Ela caminhou, floresta a dentro, sem arma ou capacidade de se defender. Teria morrido, mas foi amparada. Uma bruxa, uma bruxa de verdade lhe sorriu quando despertou em sua cabana bruxesca. Ela era bondosa e cuidou de Riko, lhe contando que não era tarde para acreditar que recuperaria sua magia.
Talvez levasse uma vida inteira de estudo e prática lenta, mas ela poderia ser tão boa quanto qualquer outra. Se tivesse a sorte talvez uma fonte de magia poderosa fosse capaz de restabelecê-la.
Riko lembrou-se da alegria durante os meses em que a feiticeira Toujou lhe cuidou e ensinou. Saiu de lá mais forte, decida a enfrentar o mundo. Saiu do Reino de Akiba e vagou, vivendo à custa de roubos e pequenos truques.
Assim como todos, Riko ouviu falar do Anjo Caído. Uma entidade sombria poderosíssima, que possuíra um corpo humano para vagar pelas terras de Numazu. Um ser tão cruel quanto destrutivo, capaz de reduzir magos a cinzas apenas com o olhar. Uma figura a ser temida por quase todos, em caçada pelos mais poderosos e corajosos. Sem dúvidas que Riko não estava entre os poderosos, mas sua vontade de utilizar o poder do Anjo Caído para curar seu núcleo mágico lhe levou à caçada.
Pegou uma boa pista, chegou à uma cidade no litoral mais ao sul do reino. Uma época de chuvas e pouco sol. Porém, quando chegou ao esconderijo de viagem da criatura, descobriu que um outro caçador havia chegado primeiro. Desapontada, ela voltou para a única taverna da cidade. Lá ela foi abordada por uma mulher em trajes muito elegantes, com palavras carregadas de sotaque que não sabia distinguir:
"Então era você que também estava observando Yohane. " Disse a estrangeira, com um sorriso de lado. Ela trouxe consigo duas taças de vinho, oferecendo uma à Riko.
"Do que falas? " Perguntara Sakurauchi, estando já acostumada à uma vida onde esconder tudo era a primeira regra.
"Não seja difícil, honey. " Silvou a mulher de cabelos alourados, caindo em cachos pesados sobre seus ombros pouco cobertos. "Eu sou uma irmã, uma feiticeira como você. "
Riko levantou em choque, fintando os olhos felinos da mulher. Seu coração bateu pesado contra os ouvidos. As lembranças na prisão e tortura voltaram vívidas ao primeiro patamar do seu pensamento. Pensou que enlouqueceria e fugiria dali, porém a estrangeira foi mais rápida. Com um toque simples em seu pulso desnudo, fez com que Riko fosse tomada por uma onda de tranquilidade que lhe seria impossível por conta própria:
"Sente-se, não sou uma ameaça. " Disse a mulher que logo após se apresentou como Ohara Mari.
A verdade é que Mari desejava libertar Yohane da maga arcana que havia lhe prendido ("Essa gente de Akiba é terrível"). Contou que estava na caçada de um item mágico de poder transcendental, chamado Cristal de Raburaibu. Após várias taças de vinho e muita conversa, Riko foi convencida de que ajudando a ianque teria a chance de ter parte do poder da jóia ilimitada para si, o que seria mais do que o suficiente para restaurar seu núcleo mágico.
Aliou-se à feiticeira e, depois de uma noite de pouco descanso ("Vamos ser verdadeiras irmãs! " Fora a expressão de péssimo tom utilizada pela loira) as duas voltaram ao esconderijo onde o Anjo Caído era mantido prisioneiro.
Ainda chovia forte no início daquela manhã. Riko tinha uma capa ordinária de couro tingido de verde musgo sobre si, mas de pouco adiantava. A umidade entrava por todos os lados, fazendo a bruxa sentir-se molhada até os ossos
Mari não tinha apenas muito dinheiro, mas muitos itens mágicos. Ela cedeu um amuleto e um báculo de extremo poder para que Riko fosse útil na abordagem. Não planejaram muito, pois o estado físico do corpo que portava a alma da figura amaldiçoada estava no limite da vida. Agiram. Enfrentaram um guerreiro mágico de curto alcance, um tipo que só se via na armada de Akiba, e venceram.
Claro que o caso não se resolveu apenas com aquilo. Tiveram que domar a criatura maldita, cheia de desconfiança. Mari não hesitou em propor um pacto de sangue, do tipo que apenas feiticeiras naturais de alto nível faziam entre si. Riko, que se julgava uma incapaz, não foi tratada assim nem por Mari nem pela figura peculiar de Yohane, a encarnação do Anjo Caído. Após alguns dias de discussões e hostilidades, enfim a criatura aceitara o pacto. Assim surgiu uma aliança mágica secreta, inquebrável a qual Riko sempre estaria presa, não importa o quanto sua vida mudasse em quanto tempo mudasse.
Era o começo do pacto Guilty Kiss.
As três mulheres tentaram buscar juntas pelo Cristal de Raburaibu por algum tempo, mas nada foi muito efetivo. Além disso três bruxas juntas eram algo muito mais difícil de não ser percebido do que uma mulher com capa de viagem surrada passando pela estrada (até porque Mari jamais usaria uma roupa surrada, não importa a situação). Assim sendo se separaram, jurando manter a fidelidade do Guilty Kiss, e desejando cada uma ser a primeira a colocar as mãos no item que tanto desejavam.
