ALGUÉM NÃO QUER ESPERAR
"Aquela esperança de tudo se arranjar
Pode esquecer
Aquela aliança você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado..."
MADRUGADA.
Luna acordou com um gemido de dor.
Percebeu que estava no quarto. Levantou-se, pensando em chegar ao banheiro. Mas algo a incomodava. Então, sentou-se na poltrona, ao lado da cama.
Respirava fundo. Estava nervosa e preocupada. Precisava de ajuda. E só havia uma pessoa a quem poderia recorrer àquela hora.
Sua voz saiu em um fio. Era quase impossível ouvi-la:
-Theodore! Ajude-me!
Mas ele não pôde ouvir o seu chamado. Mais uma vez ela tentou:
-Theodore, por favor, acorde! Eu preciso de você!
Pensou em acordá-lo, mas não tinha coragem. Desejava que ele despertasse milagrosamente e a visse precisando de ajuda.
-Theodore, socorro! Ajude-me, Theodore, eu preciso de você!
Sem saber que o homem tinha dormido ao seu lado justamente para ampará-la caso fosse necessário, reprimiu seu ímpeto de ir até ele e sacudi-lo para que acordasse.
-Theodore... Ajude-me... Por favor!
Precisava de ajuda. Precisava de apoio. Mas não estava certa de que os encontraria naquele homem. Depois de tudo o que tinha acontecido, não tinha certeza de mais nada com relação a Theodore. Assim, angustiada e temerosa, permaneceu sentada na poltrona esperando os primeiros raios do sol, assustando-se com a dor que surgia a intervalos e desejando que alguém viesse em seu socorro.
Na manhã seguinte, Theodore encontrou Luna sentada na cozinha, tomando o café com uma expressão de intenso sofrimento. Achou que ela fosse reclamar por ele ter dormido ao seu lado, mas ela sequer demonstrou ter notado sua chegada.
Preocupado, aproximou-se da esposa:
-O que você tem? – Indagou.
-Pressa. – Respondeu ela, quase sussurrando.
-Está sentindo alguma dor?
-Pare com essas perguntas, Theodore.
O bruxo sabia que não tinha direito algum de pressioná-la, portanto, calou-se. Sentou-se em frente a ela e começou a comer, observando-a furtivamente. Notou que ela contraía os lábios continuamente e suspirava com ar cansado. Minutos depois a viu se encolher e levar a mão ao rosto, como se reprimisse uma dor repentina.
-Você não está nada bem, Luna. Eu vou te levar ao hospital.
-Não estou sentindo nada. E já estou de saída. Até mais.
Luna levantou-se e saiu lentamente da cozinha. Theodore ouviu os ruídos indicando que ela havia usado o pó de flu.
Passou alguns minutos pensando no significado daquilo tudo.
Luna estava obviamente passando mal, mas não quis dizer nada. Não confiava nele nem mesmo para socorrê-la. Por Merlin, isso estava indo longe demais. Se ela passasse por alguma situação perigosa, como ele poderia ajudá-la?
Será que havia alguma forma de recuperar a confiança de Luna?
Qual seria o caminho para reconquistá-la?
Sem dúvida alguma, pensou o homem, esse caminho passava por um pequeno ser. O ser que ele vinha ignorando e insultando por todo este tempo.
E se era esse o caminho, era hora de segui-lo.
Theodore subiu as escadas. Ainda faltavam alguns minutos para a hora de ir trabalhar. Daria tempo de fazer o que ele queria.
Já no andar superior, levou a mão à maçaneta daquela porta, que ele não cruzava havia meses. Apesar de temeroso, girou-a e a abriu.
Era hora de saber o que Luna estava preparando para o quarto do bebê.
Ao acender a luz, seus olhos encontraram um quarto quase completamente montado para o bebê.
As paredes estavam pintadas em azul bem claro, dando ao ambiente um ar ameno. Um tapete fino, com motivos infantis, decorava o chão. Os móveis e prateleiras eram brancos. Uma cortina azul e branca protegia o ambiente da luz.
Theodore entrou no quarto, observando o que havia ali. Brinquedos, produtos de higiene, várias coisas que ele não vira entrar na casa estavam lá.
Caminhou até um canto em que havia algo em uma caixa comprida: o berço do bebê, ainda desmontado. Ao lado, um colchonete com lençol e travesseiro - o local onde Luna andava dormindo. Sentiu remorso ao perceber o desconforto a que ela vinha se submetendo por sua causa.
Olhou para a parede e viu pintadas nela as figuras de dez carneirinhos sorridentes, cada um com um número. Sem entender a referência ao costume trouxa de contar carneirinhos para dormir, apenas sorriu ao ver a singela imagem. Notou uma caixinha sobre o berço desmontado. Pegou-a e a abriu. Encontrou o móbile dado pelo avô da criança. Olhou-o por alguns instantes e voltou a sorrir.
Devolveu o objeto à caixa e continuou analisando o quarto. Havia uma cômoda branca, com alguns porta-retratos sobre ela. Theodore se aproximou para verificar as fotos.
Em um deles havia uma imagem escura, estranha, que ele identificou como um exame que mostrava o bebê. Theodore tentou identificar a criança em meio aos tons da figura, mas sem olhos experientes de uma mãe para ajudar, não conseguiu. Passou então a olhar as outras fotos. Viu uma em que Luna aparecia grávida e linda, sorrindo feliz, a barriga crescida e bem evidente. Theodore apertou os lábios, triste. Olhou a próxima foto. Era um porta-retratos grande, onde se liam as palavras: Papai, mamãe e eu. Na foto, aparecia Luna com o pai, que fazia carinho na barriga da filha.
O bruxo ficou um bom tempo olhando para aquela foto, com uma sensação de perda. Faltava algo ali: faltava ele. A família estava incompleta, porque faltava o pai.
Engoliu em seco, porque sabia que se faltava o pai, era por culpa dele próprio.
Saiu de perto da cômoda e observou mais objetos. Os brinquedinhos estavam arrumados em prateleiras. A maioria parecia ser para meninos, embora houvesse umas duas bonecas também.
Theodore abriu o guarda-roupa e viu uma infinidade de roupas de cama, quase todas em tons de azul. "Como ela sabe se é menino?", perguntou-se. Tudo parecia preparado para a chegada de um filho homem. Mexendo nas gavetas, porém, encontrou um vestido cor de rosa e sapatinhos de menina.
Em outra, viu vários sapatinhos coloridos. Pegou um par e encaixou nos dedos, sorrindo ao ver um objeto tão pequenino. Ficou pensando na pessoinha que teria um pezinho tão miudinho a ponto de caber ali.
A atmosfera do quarto estava emocionando Theodore completamente. A cada novidade ele sentia a presença de Luna.
Viu uma confortável poltrona, certamente o lugar onde Luna se acomodaria para amamentar o filho. Sobre a poltrona algo que ele logo se apressou a analisar.
Primeiro viu a manta que ele próprio tinha rasgado. Luna havia terminado de bordar o cachorrinho e também conseguiu amenizar a marca deixada pelo rasgo. Theodore sentiu vergonha lembrando-se do que tinha feito.
Depois viu o livro com nomes de bebês. Pegou-o e sentou-se no chão, recostando se na poltrona. Viu vários nomes iniciados com a letra L marcados, alguns poucos com T também assinalados. A maioria era de nomes masculinos, embora houvesse alguns poucos femininos também. Theodore folheou o livro e encontrou uma folha solta. A emoção o dominou ao ler o conteúdo.
Luna tinha escrito várias combinações de nome, começados com T e L: Lewis Trevor, Lucy Tifany, Liam Tracy... Vários nomes em que os dois, pai e mãe, estavam representados.
Então, pensou ele, apesar de tudo, ela não o excluíra completamente da vida da criança. Apesar de tudo, considerava homenageá-lo com a primeira letra de seu nome. Uma homenagem que ele não merecia, pensou.
Com os olhos pesados de lágrimas, Theodore colocou o livro de volta na poltrona e viu o que mais havia lá. Observando mais atentamente, notou que era um diário.
"Não posso ler o diário dela", pensou. Mas afinal, depois de todas as bobagens que já tinha feito, isso não era nada.
Pegou o diário e o abriu.
A primeira data era a do dia seguinte àquele em que a gravidez fora descoberta.
Theodore se aprumou junto à poltrona e leu:
"Olá!
Há muitos anos não escrevo um diário, pois o último que eu tive não trouxe bons acontecimentos. Mas agora resolvi criar este, porque tenho uma grande novidade! Eu estou grávida!
Quero registrar aqui tudo o que acontecer de importante durante o desenvolvimento do meu bebê.
Estou muito feliz! Finalmente poderei dar um filho a Theodore e teremos uma família completa!
Eu descobri que estou esperando um bebê quando..." E o texto seguia com o relato da visita de Luna à casa dos Weasley, quando descobrira o bebê.
Mais adiante, outras anotações.
"Hoje ouvi o coração do meu filho ou filhinha. Fiquei tão emocionada que cheguei a chorar. Parece um sonho, pensar que tem alguém crescendo dentro de mim!"
Theodore lembrou-se de Luna comentando este fato. A cada momento sentia-se mais miserável, percebendo tudo o que tinha deixado de viver junto à sua esposa.
"Meu corpo está ficando muito engraçado! Pensei que só a barriga cresceria, mas não, tudo está mudando. É divertido!"
Theodore sorria, imaginando Luna escrever essas coisas. E foi encontrando várias anotações interessantes, em que a loira relatava suas emoções como futura mãe.
"Theodore conseguiu chocolates de Hagrid para mim! Não é maravilhoso? Fico feliz que ele tenha se preocupado em realizar o meu desejo. É como se ele estivesse participando da gestação."
Lendo cada registro, Theodore achava graça no encanto demonstrado por Luna por sua futura maternidade.
"Meu umbigo parece que vai pular para fora!"
Mas notou que havia algumas anotações que pareciam ter sido escritas em momentos difíceis.
"Não me importa o que digam. Eu e Theodore somos muito felizes, nos amamos e formaremos uma linda família. Vai dar tudo certo!"
E mais adiante:
"Estou louca para ver seu rostinho, meu filho, e mostrar para todos a criança linda que mamãe Luna e papai Théo fizeram. Você vai ver! Vou desfilar pelas ruas muito orgulhosa de você, isso sim."
Theodore parou de ler por alguns instantes, pensando. O que teria acontecido para que ela escrevesse essas coisas?
Ficou em dúvida, mas continuou a leitura, encontrando aqui e ali anotações sobre a criança.
Então, chegou ao fatídico dia.
Respirou fundo, antes de começar a ler o que Luna havia escrito naquele dia. Ele leu:
"Hoje foi o pior dia da minha vida. Quero esquecer que ele existiu. Não aconteceu. Não aconteceu. Não aconteceu."
A frase "não aconteceu" se repetia até a última linha da página.
Theodore sentiu seus olhos pesarem. Imaginou a dor que ela sentira ao escrever aquelas palavras e a vergonha se intensificou.
Engoliu em seco e virou a página. Notou que as anotações eram bem curtas e tinham um tom dramático.
"Vai dar tudo certo, meu bebê. Seja forte! Eu preciso muito de você."
E depois:
"É só mais um obstáculo que vamos vencer. Nada vai tirar você de mim. Seja forte! Lute!"
E mais adiante:
"Não posso nem imaginar a vida sem você, minha criança. Vou fazer tudo o que puder para garantir que você chegue em paz e com saúde. Te amo, meu bebê. Força!"
Theodore fechou os olhos com força e contraiu os lábios. Agora tinha certeza: Luna estava passando por problemas, o bebê estava em risco, e ela sofrera sozinha. Ele havia prometido estar sempre ao lado dela, mas não estava quando ela precisou de apoio.
Já sentindo-se mal, Theodore decidiu continuar lendo o diário e descobrindo mais sobre os pensamentos de Luna.
Virou mais uma página e deparou com outra em que Luna havia preenchido todas as linhas. Ajeitou-se onde estava sentado e leu:
"Esvaziei uma gaveta hoje. Não tive coragem de esvaziar mais. Dobrei cada roupinha com um terrível sentimento de perda em meu coração.
Não consegui continuar, porque comecei a chorar. É algo que não costumo fazer, mas desta vez não pude evitar.
Doi muito saber que acabou. Olhar para trás e ver tudo o que vai ficar é a pior coisa. Mal consigo acreditar que depois de tanto tempo, tudo vai terminar assim.
Ainda não tive coragem de conversar com Theodore. Não estou preparada para ouvi-lo me acusar de não amá-lo o bastante, de tê-lo trocado pelo bebê e outras coisas que eu sei que ele pensa. E que não são verdade, nem de longe. Eu o amo muito, com tanta força que chega a dar raiva. A última coisa que eu queria era ter de deixá-lo. Mas Théo me pôs diante da pior decisão que uma mulher precisa tomar: entre seu amor e seu filho. E acho que nenhuma mulher sensata poderia escolher senão o seu filho. Além de ser o fruto do meu ventre, é o fruto do nosso amor. É um pedacinho meu e dele. Meu pequeno sonho, algo que eu jamais imaginei viver, e ele se recusou a viver isso junto comigo.
Hoje fiquei observando Théo dormir. Imaginei a falta que sentirei dele, de seu abraço, de seus beijos... De tudo que vivemos até bem pouco tempo atrás. Como será a vida sem Theodore, depois de tê-lo amado? Não faço ideia. Acostumei-me de tal forma a viver com esse homem imperfeito e complicadinho que não consigo sequer me imaginar sem ele. Tive vontade de abraçá-lo e implorar para que parasse com as atitudes erradas. Depois quis bater nele, socá-lo até fazê-lo entender que preciso de apoio e que o momento é para estarmos felizes. Mas não fiz nada disso. Apenas o observei dormindo. Depois de alguns minutos, não resisti: fui lá bem devagarzinho e lhe roubei um beijo. Foi bem rápido, mas eu precisava sentir que ele ainda era o mesmo, o meu querido, o meu maridinho lindo. Mas nos lábios dele, acabei sentindo o gosto do adeus. Pensei em acordá-lo e contar que irei embora, mas tive medo. Não sei como vou me sentir quando ele disser que não se importa.
Não compreendo a indiferença de Theodore quanto à paternidade. Ele, assim como eu, é órfão de mãe e sabe o valor do pai na vida de uma pessoa. O pai é o nosso chão, a nossa fortaleza, as nossas asas. É ele quem nos ensina a crescer e que segura a nossa mão e nos conduz pela vida com firmeza e cuidado. Theodore sabe disso, porque teve o pai ao seu lado. Como pode ignorar a grandeza deste papel tão lindo que a vida lhe deu?
Ainda estou magoada. A bofetada ainda doi, principalmente pelas consequências. Eu não sei se o perdoarei um dia. Mas que diferença faz agora? Ele não precisa do perdão da mulher que agrediu, nem do filho que rejeitou.
Como será que é cuidar de um filho sozinha? Eu estou com tanto medo! Será que conseguirei? Mas papai talvez me ajude. O que me preocupa é saber que quando ele crescer irá fazer perguntas, e eu terei que mentir, porque jamais permitirei que minha criança saiba que foi renegada pelo pai. Terei que dizer que está morto. E talvez, para mim, vá estar mesmo, depois que eu cruzar a porta da rua. Será insuportável para mim viver sabendo que tive de deixá-lo e pensar nele, imaginar o que estará fazendo, onde estará e com quem.
Eu estou arrependida de ter xingado Theodore daquela coisa que ele tanto odeia. Foi muito cruel da minha parte. Queria não ter dito aquilo, mas na hora eu estava com muita raiva. Agora, sei que é disso que ele vai lembrar quando pensar em mim, pois tudo o que eu fiz por ele parece não ter valido nada. Se tivesse servido para alguma coisa, ele não teria tido coragem para me abandonar quando mais precisei.
Eu pediria desculpas por isso. Mas se eu pedir vou confundir tudo e ele vai perder a noção do quão grave foi o que ele fez.
Eu queria jamais ter encontrado Theodore. Queria que nossos caminhos nunca tivessem se cruzado. Assim, eu não teria me apaixonado e não teria conhecido o amor. E um dia apareceria outro homem, e eu acreditaria que o amava, e me casaria com ele, e nunca saberia da existência de Théo. Não seria o amor verdadeiro, pois esse eu sei que não poderia sentir por outro senão pelo meu Théo. Mas eu nunca iria saber. Eu pensaria que era o amor real. E sem amar de verdade, eu não sofreria tanto. É uma imensa infelicidade saber que conheci o meu amor, mas tive que abandoná-lo.
Agora preciso desmontar tudo o que arrumei com tanto carinho e cuidado. Pensei em mandar Théo embora e ficar com a casa, mas não vou suportar viver aqui, lembrando dele a cada instante. Tenho que tirar tudo daqui e levar para meu antigo quarto, até conseguir alugar um apartamento para mim e o bebê. Quanta dor, por Merlin, quanta dor desfazer o quarto tão lindo, mas que jamais receberá a minha criança.
Já pensei em pedir a Hermione que modifique as minhas lembranças e apague Theodore da minha mente. Quem sabe se ela me fizer pensar que o pai do meu filho é outro e está morto? Talvez eu seja mais feliz assim, sem lembrar dele, e possa mentir melhor para meu filho.
Não sei o que estive esperando esses dias todos. Sei que desculpas não são suficientes para apagar o que Theodore fez. Não entendo o porquê de não ter arrumado as minhas coisas e ido embora imediatamente. Acho que, no fundo, eu não queria encarar a realidade e ver que o meu sonho junto ao homem que amo chegou ao fim.
Ainda não sei muito bem o que fazer. Só sei que acabou. Esperei o quanto pude, mas o amor de Theodore pelo bebê não aconteceu. Ele fechou as portas para o fruto do nosso amor. Ele nos colocou em caminhos opostos. Eu lamento, mas não posso fazer mais nada. Amo-o demais, mas não posso e não quero abrir mão do meu filho. Então não me resta nada mais. Mesmo destruída, mesmo sofrendo, tenho que aceitar: acabou."
Theodore acabou de ler, mas não tirou os olhos do diário. Estava chocado com o que acabara de ler.
Ver o coração de Luna exposto naquele papel, sem máscaras e sem meias palavras, mostrou a ele a face de sua frieza nos últimos tempos.
Seu rosto estava vermelho e completamente molhado pelas lágrimas que rolaram fartas, conforme ele percebia o quanto tinha sido cruel com Luna. A letra tremida, a tinta manchada, mostrando que ela tinha chorado. O sofrimento e o desapontamento estavam expostos naquele papel.
Passou vários minutos com os olhos fixos no diário, respirando rápido e ainda chorando. Depois fechou-o e afundou o rosto nas mãos. A vergonha e o arrependimento caíram como uma rocha sobre ele.
-Eu sou um monstro! Como pude fazer isso com ela? Como pude lhe causar tanta tristeza? – Disse, sem conseguir se controlar. – Ela só queria atenção. Só queria carinho e cuidado. Por Merlin, só queria que eu fosse companheiro, e eu a deixei só! Ela sempre esteve comigo, em todos os momentos em que precisei, mas quando chegou a vez dela, eu lhe virei as costas!
O bruxo inspirou profundamente. A culpa o corroia como ácido. A consciência de que tinha feito e da dor que causara à sua mulher o fizeram sentir-se o mais miserável dos humanos.
Uma frase dita por Luna veio à sua mente: "Tenho que agradecer por você não ser meu inimigo, porque se pelo meu bem você me faz sofrer tanto...". Ela tinha razão. Theodore tinha cometido todos os erros que podia, tentando protegê-la. E Luna tinha sido paciente demais, compreensiva demais por todo o tempo em que estiveram juntos. Mas tudo tem limites, e ele ultrapassou todos ao agir daquele modo inaceitável. Não podia culpá-la pelo que estava sentindo. Ele tinha causado tudo aquilo.
Ainda imerso em arrependimento e lágrimas, lembrou-se da conversa com Luna, logo que se reuniram após ele deixar a prisão.
A loira tinha participado da festa de aniversário do filho de Ginny e Harry, e Theodore ouviu-a falar com algumas das convidadas sobre seus planos de ser mãe em breve. Falava sobre suas preferências quanto ao sexo, dos possíveis nomes, de quantos queria... Vários planos, que ele se viu obrigado a interromper. Ao chegarem em casa naquele dia, Theodore alertou Luna de que não poderiam. Era impossível para ele. E quanto antes ela encarasse o fato, melhor seria para os dois.
Naquele dia, pela primeira vez Theodore viu Luna chorar desconsolada. Ela caiu em prantos diante dele, ao compreender que precisaria abdicar desse desejo em prol do marido. Embora já soubesse disso, ela explicou, ouvi-lo dizer tornou tudo mil vezes pior.
E agora, anos mais tarde, foram surpreendidos pela chegada de um filho, sem saber como isso foi possível, contrariando todas as medidas preventivas que eram obrigados a adotar. Luna abriu os braços para receber seu tesouro. Theodore virou-lhe as costas. O que deveria ser um elo terminou por separá-los.
E ele não podia fazer mais nada.
Ao pensar nisso, levou novamente as mãos ao rosto, inspirando profundamente. Depois abriu os olhos e instintivamente eles pousaram na cômoda cheia de fotos. Viu o rosto dela sorrindo. Viu a barriga onde o filho dela estava crescendo.
O seu filho crescendo.
Refletiu que, mesmo magoada, ela não negava o amor por ele. Apesar da dor e do choque de ter sido agredida, expressava sofrimento ao decidir deixá-lo. Arrependera-se de tê-lo xingado, embora ele tivesse merecido. Considerava até mudar a própria memória, para não sofrer pensando nele.
Sua mente vagou até um futuro não muito distante. Neste futuro, uma Luna sorridente, mas com aparência cansada, embalava e amamentava um bebê. Não sentada na confortável poltrona em que ele estava encostado, mas em uma cama de solteira, num quarto que misturava as coisas da mãe e do bebê, em uma certa casa circular. Imaginou-a passando madrugadas em claro cuidando da criança, sem ninguém para ajudá-la.
Depois lhe veio à mente a imagem de uma mãe com um menino crescido, talvez com uns cinco anos, que olhava outros meninos acompanhados de seus pais e perguntava por que ele não tinha um pai. E imaginou a loira tentando explicar a ele, se esforçando para ser convincente ao lhe dizer uma mentira.
E pensou nela anos mais tarde, na plataforma nove e meia, embarcando seu filho para Hogwarts, e indo embora sozinha.
Completamente sozinha.
A mulher que largou tudo por ele. Que enfrentou os amigos por ele. Que perdoou suas mentiras e seus erros, se arriscou por ele, sofreu por ele, sofreu por três anos esperando-o sair da prisão, esperando para revê-lo.
A mulher que ainda dizia amá-lo, depois de tudo de ruim que ele tinha feito.
A sua mulher.
Sozinha.
Completamente sozinha.
Olhou o retrato dela outra vez. Seu sorriso lhe injetou ânimo. Se ela o amava, ainda mais com tanta intensidade, ele não ia desperdiçar esse sentimento.
Levantou-se, esfregou o rosto com as mãos e disse:
-Chega de ser covarde, Theodore. Está na hora de crescer e agir como homem. Vamos! Já passou da hora de pedir perdão à sua mulher e assumir o seu filho.
E após dar uma última olhada no quarto, saiu com a decisão de tomar a atitude que Luna há muito esperava, e que ele teimava em evitar.
Já no trabalho, o pensamento de Theodore estava frenético. Muitas coisas sendo planejadas, visando não apenas a reconciliação, mas a mudança em sua atitude.
-Vou mostrar a Luna que posso ser um homem correto. Sim, vou fazer o que já devia ter feito há sete meses: vou assumir o meu filho. Vou ser um marido de verdade e também um bom pai. Vou acompanhar os últimos meses da gravidez. Irei com ela às consultas, vamos juntos comprar o que estiver faltando para o bebê.
A foto de Luna estava agora em sua mesa. Olhava a todo instante a imagem da esposa grávida, encorajando-se para falar com ela mais tarde.
-Mesmo que eu tenha que me arrastar no chão, beijar-lhe os pés, ajoelhar-me diante dela ou lamber o caminho por onde passar, vou conseguir seu perdão. Sei que não mereço. Sei que nem devia pensar em contar com a consideração dela, mas vou tentar tudo o que puder. Não vou deixá-la desamparada com um filho nos braços. Não vou deixá-la ir embora, de jeito nenhum. Ela lutou muito para ficar comigo. Agora é minha vez de provar que a amo e que ela está enganada sobre os meus sentimentos.
Pensou no bebê e em tudo o que tinha perdido desde que o tinham descoberto.
-Será mesmo um menino? E se for uma menina? Aquele quarto todinho azul... Só Luna mesmo. Qual será o nome dele ou dela? Não sei como pude ser tão estúpido por tanto tempo. Mas tenho dois meses. Não se compara aos sete que já perdi, mas ao menos terei uma oportunidade de viver esse momento com ela. Quando Luna chegar em casa, darei um beijo naquele barrigão, ah, darei!
Theodore estava trabalhando em ritmo alucinado, querendo ganhar tempo.
-Vou sair mais cedo hoje e preparar o jantar para ela. Mas antes vou passar naquela loja de roupas de bebê e comprar um par de sapatinhos. Não, vou comprar uma roupa. Ou os dois. Ou mamadeiras, chupetas... Qualquer coisa. Mas levarei algo. O meu primeiro presente para o meu filho. Meu filho... Por Merlin! Mal posso acreditar que vou ser pai!
E assim, com a cabeça a mil, Theodore trabalhava nas primeiras horas da manhã, quando um duende entrou em sua sala.
-Você tem visita, Nott. É uma funcionária do Ministério.
Theodore olhou para a porta assustado. Não era possível, justamente quando resolveu deixar de agir como um tolo, aquela maldita Christine Umbridge tinha que aparecer? Mas dessa vez não se descontrolaria. Desta vez iria suportar o que fosse para não correr o risco de outra vez se desentender com Luna.
Para sua surpresa, porém, não foi Christine que entrou na sala, mas Hermione.
-Hermione? Bom dia. O que a traz aqui tão cedo?
A jovem tinha uma expressão tensa quando respondeu:
-Vim buscar você, Theodore. Luna está no hospital. Seu filho está nascendo.
