Espere aqui. — Gaara se sentou em uma confortável e moderna cadeira de couro branco, depois de servir-lhe uma cerveja geladíssima na mais linda tulipa de cristal.

Por razão que desconhecia, Ino lhe pareceu encantada. Seria possível que ninguém antes lhe tivesse dito o quanto era bonita? Impossível de acreditar.

Os lábios dela surgiam, úmidos e deliciosos, em seus sonhos. Os olhos eram de um azul tão fabuloso que poderia mirá-los para sempre. Era do tipo mignon, com todos os atributos femininos mais que perfeitos. Até mesmo as mãos, finas, graciosas, frágeis falavam-lhe de maneira intensa.

Atravessando uma das portas francesas, respirou o ar de verão. No entanto, providenciara que o aroma fosse outro. De acordo com os livros que lera, o outono era um convite ao romance, e para isso pedira que a Sra. Fabbersham, sua caseira, juntasse todas as folhas caídas das árvores perto do muro, e as queimasse devagar em uma estratégica fogueira próxima ao gazebo, de onde vinha a voz de Edith Piaff a cantar La Vie en Rose.

Voltou para a casa. Ino continuava no living, absorta em pensamentos.

Gaara se aproximou com um dedo em riste.

— Preciso pegar algumas coisas. Espere só mais um pouquinho.

Na cozinha, apanhou a cesta de piquenique que a Sra. Fabbersham deixara pronta e uma caixa térmica de aço com as bebidas. Retornou à sala.

— Piquenique?

— Sim — assentiu orgulhoso.

"Obrigado, Judith McNaught", pensou, atribuindo à escritora de romances todo o crédito para sua inspiradora idéia.

— Acompanhe-me, senhorita. E, por favor, traga nossos copos. Ino obedeceu, embora insegura, com um brilho de temerosa antecipação nos olhos.

— Respire fundo. O que sente? — Gaara pediu-lhe, ao chega rem ao pátio.

Ela gostou do perfume no ar. Esboçou um sorriso suave.

— Folhas queimadas!

— Correto! E o que isso a faz lembrar?

A expressão de intensa alegria no semblante dela o embeveceu. Por que não fizera aquilo antes? Por que não descobrira antes os benefícios de se proporcionar um pouco de romance a uma mu lher? Não era assim tão difícil.

— O cheiro do outono — disse, tímida.

— Boa aluna. Nota dez para você. Vamos. Achegaram-se à fogueira, cujas folhas ardiam, crepitantes.

Gaara colocou a cesta e a caixa de bebidas no chão, e logo estendia uma toalha vermelha sobre a grama.

— Posso ajudar?

— Não, obrigado, senhorita, mas esta é minha parte. "Céus! E qual será a minha?"

Muito habilidoso, Gaara arrumou pratos, talheres, guardanapos, sem deixar de observá-la.

Ino mantinha-se calada, tomando pequenos goles da cerveja e admirando o local, resultado de caprichoso serviço de paisagis mo. Árvores de tipos variados perfilavam todo o perímetro do pátio, criando uma espécie de cerca viva.

Alguns bancos de jardim e espreguiçadeiras volteavam a bela jacuzzi enterrada no solo. O gramo estava irrepreensivelmente bem aparado, quase como um tapete.

Gaara, contudo, fingindo-se de muito ocupado, não parava de admirá-la. Ino estava linda de jeans, camisa branca e um par de sandálias prateadas.

— E então? Até agora, tudo bem? — Gaara perguntou, ao se aproximar, prendendo uma mecha de cabelos dela para trás da orelha, cujo lóbulo não resistiu a acariciar.

— Tudo bem, Gaara.

Não, não conseguiria esperar tanto. Com isso em mente, ele se curvou e beijou-lhe de leve os lábios. Um beijo rápido, um quase roçar carinhoso, mas foi o bastante para que o sangue corresse mais rápido pelas veias dela.

— Que tal nos sentarmos?

A forte resposta de sua anatomia lembrou Gaara de que não ficava com mulher alguma havia bastante tempo. Desde que... co nhecera Ino. Como também não saíra com nenhuma outra nem para um drinque sequer. Cada um de seus sentidos estiveram vol tados para ela desde o momento em que a vira pela primeira vez.

E ali estava a menina de seus olhos. Desejava-a com uma in tensidade apavorante. Porém, identificava uma estranha dor. Algo pressionado, apertado em seu peito, para o qual não encontrava explicação.

Serviu aos dois mais um pouco de cerveja e sorriu para Ino.

— Gosto de beijar você.

— É? — Ino quase sussurrou.

— Sim. Muito.

— Eu também.

Um gole mais da bebida gelada, e Gaara estirou as pernas, como que relaxado. E de súbito entendeu que não havia outro lugar em que gostaria de estar a não ser ali, e era Ino a pessoa exata para ter a seu lado. Jamais experimentara nada semelhante. Com outras garotas, os pensamentos divagavam; e o passar das horas se arras tava. Ino era tudo o que mais queria. Essa era a surpreendente revelação que seu coração lhe fazia.

— Está tudo muito bonito, Gaara. — Ela fitava o céu escuro.

— Acha mesmo?

— Muito.

— Ótimo, vamos ao jantar. — Ele puxou alguns galhos secos e finos perto da fogueira.

— Não acredito! Salsichas e cubinhos de carne grelhada no espeto?! Que delícia! Não faço nada assim desde a época dos acampamentos escolares.

Gaara a encarou, curioso.

— Posso imaginar.

— O quê?

— Que você teve uma infância perfeita. Ino ponderou por minutos.

— Não creio que isso exista. Mas fui uma criança muito feliz.

— Disse que tinha um irmão mais velho.

— Sim, o Mark.

— E ele mandava em você, quando garotos? A risada de Gaara aqueceu-lhe o espírito.

— Claro que sim! Mas eu me vinguei. A cada vez que Mark tentava me dizer o que fazer, ameaçava delatá-lo para suas namo radas.

— Pura chantagem!

Aquilo tudo era outro mundo para Gaara. Estavam tendo uma conversa interessante, diferente, que até pouco tempo atrás o entediaria ao extremo.

— Deixe-me adivinhar. Você sempre fez tudo direitinho, foi ótima estudante, rainha da primavera e animadora de torcida, e namorou o capitão do time de futebol. Acertei?

— Fui rainha dos estudantes e namorei o capitão do time de basquete. — corrigiu-o, gargalhando. — Será que sou tão previsível assim?

Gaara apanhou mais um graveto.

— Previsível, não. Apenas... não sei... de bem consigo mesma. Confiante. Feliz.

— Sou feliz, sim, apesar de ainda não haver alcançado tudo o que sonhei para mim.

As chamas iluminaram o rosto de Ino, conferindo-lhe um ar etéreo, vago.

— E o que mais deseja, Ino?

Ela abraçou os joelhos junto ao peito como uma adolescente no meio das amigas, e olhou direto para as labaredas.

— Ah, bem... Meus sonhos devem ser os mais comuns. Apai xonar-me, casar e ter uma família.

Um quê um tanto amargo chegou à boca de Gaara. Algo muito parecido com ressentimento. Bebeu outro gole de cerveja antes de dizer:

— É natural. Ei, quer ouvir uma coisa muito engraçada? Pela primeira vez na vida não sou capaz de realizar os sonhos de uma mulher.

Gaara se ocupou de colocar mais carne no espeto.

Ao notar a súbita tristeza dele, Ino não resistiu a indagar:

— Gaara, o que houve com você quando era mais jovem? Um arrepio subiu pela espinha de Gaara No Sabaku. Rememorar a infância destruída, perdida em sofrimento, lhe fustigava a alma. Ainda considerou por uma fração de segundo se deveria ou não confiar a ela seu mais negro sentimento; aquilo que o fazia ser o que era.

— Quando Temari eu estávamos com cinco anos, nossa mãe teve de tomar a decisão de nos dar para adoção.

— Oh, não!

— Mas não foi culpa de mamãe. Ela não teve escolha. Não tinha condições de nos criar, de cuidar de duas crianças.

— Estou certa disso. Não consigo imaginar uma mãe que tome medidas tão drásticas a menos que tenha esgotado todas as possi bilidades e perdido todas as batalhas.

Ino o compreendia. E Gaara sentiu um nó na garganta. En goliu em seco e seguiu em frente:

— Temari e eu fomos enviados para diferentes orfanatos. Em um ano, ela foi adotada por uma família maravilhosa. Teve uma infância muito parecida com a sua. — Virou o espeto na brasa. — Na verdade, Você, com sua alegria, me lembra muito minha irmã, sempre contente consigo mesma.

— Quer dizer que você não é assim? Gaara fez que não.

— Não do mesmo modo. Tenho orgulho de minhas conquistas.

Trabalhei desde a universidade com o objetivo único de ser bem-sucedido. Subi sozinho cada degrau do sucesso. Gaara tomou mais um pouco do copo a seu lado.

— Mas não tive a mesma boa sorte de Temari. Minha família adotiva era um pesadelo contínuo. O casal que me adotou não se entendia e não se respeitava, e nem a nenhuma das crianças que não sei por que cargas d'água recebiam em sua casa. — Respirou fundo. — O sr. Howard era um alcoólatra disfarçado em bom moço, cujo único e maior prazer era atormentar a esposa e os filhos. Quanto mais lhe desobedecíamos, mais ele abusava de todos.

— E você o desafiava, era desobediente.

— Sim, era mesmo.

— E a Sra. Howard?

— Não dava a mínima. Tudo o que lhe importava era estar bem. Não suportava nos ver alegres e rindo, como jovens que éramos. Logo encontrava uma maneira de apagar qualquer traço de sorriso de nossos rostos. Já que era sua sina ser infeliz, que todos lhe fizéssemos companhia em seu infortúnio.

— Gaara!

Ele sorriu com amargura.

— Entende agora que meus modelos de pais não foram os melhores? Há anos decidi que nunca cairia nesse tipo de armadi lha, enquanto vivesse. Foi uma escolha consciente e racional. Agora, já está cristalizada em mim, suponho. Não tenho como me modificar.

— Você poderia tentar aprender.

— Não. — Gaara a encarou, firme. Respeitava-a muito e não poderia mascarar a realidade.

— Conheço-me muito bem. Não tenho nem a genética necessária para tal. Isso não existe para mim.

O coração de Ino sangrava. Tudo ficava claro. A expressão impassível, o riso amargo, o absoluto desapego. E, mais impor tante, a necessidade de sempre estar no controle dos aconte cimentos.

Durante os anos de formação Gaara esteve à mercê de dois seres humanos desequilibrados, doentes e infelizes, que o marca ram de forma indelével. Não recebera amor, nem aprendera a amar e a ser feliz. O amor romântico era para Gaara uma completa abstração.

Apesar de doer mais do que qualquer outra coisa constatar que Gaara nunca seria o homem com quem gostaria de estar até o fim de seus dias, Ino respeitava sua honestidade. Ele acabara de falar de sua limitações.

E, desse modo, mais uma vez assumia o controle. Se Ino o dispensasse, Gaara iria embora sem pestanejar. E se restringisse seus encontros ao âmbito estritamente profissional, seria acatada.

E, apesar de ser óbvio que o atraía, nunca viria a amá-la. Sob outras circunstâncias, Gaara No Sabaku seria a realização de seus sonhos mais lindos. Se não estivesse tão calejado pela dor, se o sofrimento do menino que fora não houvesse desvirtuado sua visão de tudo a seu redor, ela, talvez, pudesse encontrar um meio de curá-lo.

Todavia, não haveria cura sem consentimento. A tristeza era uma espécie de escudo contra qualquer emoção. Gaara a reforçava para não sentir, não viver. Não lhe daria o que esperava.

Ino, entretanto, por sua vez, podia oferecer-lhe aquilo que tanto necessitava.

— Gaara?

— Sim? — respondeu, sem desviar o olhar do fogo.

— Não tenho mais apetite. Desculpe-me.

Afinal, ele se virou para Ino, demonstrando arrependimento e um início de pânico.

— Quer... ir para casa?!

— Não, meu querido. Quero fazer amor com você.

— O quê?!

— Você me ouviu.

— Ino, nada mudará. Tem de estar ciente de que...

— Eu sei.

— Eu a quero tanto... Esperei muito por você.

— Bem, qual o problema, então? Estou aqui.

Gaara pôs-se em pé. Passou as mãos pelos cabelos ruivos e espessos.

— Não quero magoá-la. Gosto de você e a respeito.

— Eu também.

— Ino... — murmurou-lhe o nome como em uma carícia.

— Merece muito mais, muito mais do que eu.

— Essa é minha escolha.

Gaara fixava-lhe os olhos, sem saber direito o que fazer.

— Não sei... Nunca quis alguém como desejo você. Sonho noite e dia, mas não sei se posso.

— Sim, você pode. Confio em você.

— Diga-me que não se arrependerá.

— Não, não vou me arrepender.

— Eu te quero tanto!

— Sou toda sua, Gaara No Sabaku.

Sem promessas, sem depois. Sem "viveram felizes para sem pre". Só o momento. Só o "aqui e agora".

Gaara a abraçou e beijou-lhe a testa, a têmpora, os olhos, os lábios e a boca. Enterrou os dedos nos cabelos loiros e puxou-os, com delicadeza, para trás. Levou o rosto ao pescoço suave, ina lando o inebriante aroma da pele perfumada.

— Adoro seu cheiro.

— Sou toda sua, meu querido. — Ino sabia que nunca mais seria a mesma depois daquela noite.

Sem poderem mais esperar, uniram-se no gramado, sob a luz das estrelas, como jovens que brincam de amor, que se descobrem e se espiam no alegre despertar da vida.

Amaram-se sob um céu de verão com aromas de outono, a deixar um no outro, no corpo e na alma, as marcas eternas de um sentimento arrebatador.

Amaram-se como se fosse a primeira vez.

Amaram-se com fome, com urgência.

Amaram-se com suavidade.

Muito tempo depois, exaustos, deixaram-se estar, abraçados e silentes, cúmplices do mesmo pecado. Ino soube uma vez mais que, não importasse o quanto vivesse, nunca se recuperaria.

Apaixonara-se perdidamente por Gaara No Sabaku.