Ainda era dia 31 de dezembro.
Eu mal acreditava nisso, quer dizer. Do dia vinte e sete até aqui, o tempo parecera passar do jeito mais lento possível; os segundos se arrastavam como se fossem minutos, e os minutos pareciam horas e as horas eram como dias. E todos esses dias foram como meses, como anos, como décadas; foram quase como uma eternidade, porque eu olhava para o relógio e o tempo não passava e nada acontecia.
Eu estava parada.
E não era como se eu estivesse parada, deitada na cama, sem fazer nada. Não; eu me movia. Acordava, tomava banho, descia à padaria, comprava as coisas para o café, voltava a subir, fazia o café, via as notícias, assistia a um pouco de qualquer série policial que estivesse passando na TV e dava um tempo no site da empresa antes de fazer o almoço. Terminava, lavava a louça, guardava as coisas, via se precisava alguma coisa para o dia seguinte e sempre me decepcionava ao ver que eu tinha o suficiente para o mês inteiro. Depois, lia um pouco de alguns dos livros que estava devendo e, então, colocava um pouco de maquiagem e trocava a roupa para pegar o metrô em direção às lojas nas quais eu teria que trocar algumas coisas do Natal. Me estressava com a quantidade de gente e terminava por não fazer nem metade do que deveria, mas depois meio que me consolava dizendo a mim mesma que era o suficiente para que eu voltasse em algum momento. E, de volta para casa, a rotina continuava; eu fazia alguma coisa para comer, lia mais um pouco e, depois, me revirava na cama até dormir.
Era uma rotina e, na realidade, não era uma rotina idiota. Eu conhecia rotinas bem piores por aí, que se resumiam a ir do trabalho para casa e da casa para o trabalho, passando todo o tempo ou na mesa do escritório ou na cama enquanto comiam e choravam porque a vida não era exatamente como esperavam. Mas a questão era exatamente essa; eu fazia as coisas que eu gostava, eu as aproveitava e me divertia minimamente com elas, mas tudo o que eu conseguia era me irritar e sentir que eu não estava fazendo as coisas certas e que, por isso, eu estava parada no mesmo lugar.
Eu só não sabia se eu queria começar a me mover.
E essa sensação era estranha, de verdade. Eu sempre tinha alguma coisa para fazer, sempre queria ter alguma coisa para fazer e ir além de onde eu estava. Queria aproveitar, não ser uma daquelas pessoas que só reclamavam mas não faziam nada, e a cada oportunidade que eu tinha eu aproveitava para viver mais um pouco; foi assim quando criança e me chamavam para brincar, foi assim quando adolescente e eu experimentava de tudo, e era assim quando adulta e eu ficava a menor quantidade de tempo possível em casa.
Fosse outra época, eu estaria contando os minutos para que chegasse a virada do ano e eu, finalmente, pudesse sair desse meu cotidiano de dona de casa ao ir para a festa da empresa. Não anteciparia nenhum momento, claro, porque eu nunca fora de fazê-lo, mas não o adiaria e o trataria do jeito como estava tratando agora; não como um sacrifício, não como se eu estivesse indo para a forca, mas como se eu estivesse fazendo única e exclusivamente por uma espécie de obrigação.
E eu nunca fazia nada desse jeito.
Mas a questão é que, afinal, eu estava aqui. Escolhera uma blusa e uma saia, pusera as meias, calçara as botas, ajeitara o cabelo e colocara a maquiagem, e então pegara um táxi e esperara o elevador e cumprimentara as pessoas e conversara com algumas. Bebera um pouco, colocara uma ou outra coisa na boca, vira os fogos e conversara mais um pouco, e então eu já achava que era o suficiente e me preparava para ir embora.
Não havia motivo para ficar.
"Já, Marlene?" ouvi alguém me perguntar, virando para descobrir quem era mesmo que, de alguma forma, eu já soubesse quem era. Charles dizia sempre as mesmas coisas, tinha sempre o mesmo tom de voz, quase sempre o mesmo jeito de começar uma conversa "São duas da manhã. Cedo especialmente para você"
"Eu digo se é cedo ou não para mim" retruquei, mas tinha um sorriso no rosto. Não sabia o motivo; eu não queria sorrir e ele não merecia que eu sorrisse, mas mesmo assim eu não consegui não sorrir "E, convenhamos, isso daqui não está nem um pouco legal. Não vale à pena"
Ele não me respondeu, estreitando os olhos. Eram de um tom acinzentado, pendendo para o verde, delineados por cílios aloirados e parcialmente escondidos por algumas partes de seu cabelo. O olhar não era o seu forte e, talvez por isso, eu tenha pensado logo em Black; seus olhos, acinzentados mas pendendo para o azul – e o melhor tom possível dele -, eram complementados por cílios negros, que só contribuíam para o brilho em cada nuance de cor e me faziam perder neles com uma facilidade impressionante.
Mas eu tinha que tirar Black da cabeça.
"Você vale"
No instante em que as palavras saíram da minha boca, eu não consegui acreditar que as havia dito, que havia feito com que ele as escutasse, que havia, ao menos, pensado nelas. Não porque eu nunca falaria algo desse tipo, algo dessa natureza, e até algo mais libidinoso e lascivo ou qualquer palavra que significasse a mesma coisa; não, a pessoa estava errada.
E lá estava Black, de novo. Lá estava Black, porque era no ouvido dele que eu sussurrava todas essas coisas, era com ele que eu sentia vontade de falar tudo isso, era com ele que eu podia falar tudo isso por ser verdade. Black valia à pena, Black me fazia querer sair de qualquer lugar para encontrá-lo, Black fazia parecer – ser – certo fazer tudo isso e mais um pouco.
Black, de alguma forma, era certo.
"Você vai me fazer ter que convidar a mim mesma para o seu apartamento?"
"Você pode aparecer sem avisar" ele me consertou, um sorriso se abrindo no rosto. Isso, exatamente isso; o sorriso dele era bonito, era lindo, e se ele só conseguisse levantar um pouco mais o canto esquerdo da boca, e talvez se não se abrisse demais e se ele...
Merda.
"Vamos logo"
Eu precisava desviar minha atenção, e Charles serviria para isso.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
Eu estava na festa há apenas um minuto quando Gabrielle veio falar comigo.
Ela fora rápida, extremamente rápida. Eu ainda nem tinha conseguido falar com a segunda pessoa que viera me cumprimentar quando senti o toque de sua mão na base das minhas costas, sem precisar me virar para saber que era ela mesmo que, ainda, não a tivesse visto. Era o jeito dela de chamar minha atenção, sempre fora; era assim quando estávamos trabalhando, assim quando nos encontrávamos na rua, assim nas vezes em que dormíramos juntos e nos dias nos quais ela tentava puxar conversa comigo.
Gabrielle não me surpreendia mais.
"Vim achando que pudesse te encontrar"
"E o plano ia até...?"
Ela riu.
"Você me diz" respondeu, com um gesto de cabeça me chamando para um outro canto. Não me importei em pedir licença às outras pessoas e só a segui ao que parecia ser à uma janela, mantendo uns dois passos de distância e não me aproximando nem um pouco quando, finalmente, paramos "Até onde eu posso ir"
Fiquei quieto por um tempo, olhando-a. Estava, como sempre, bonita; o tom escuro de ruivo preso em um coque meio desarrumado, os olhos azuis maquiados de leve e a boca com um tom forte de vermelho, o vestido branco decotado revelando um pouco mais da pele de seus seios.
Eu conseguiria desenhá-la se quisesse.
"Não além disso"
"Mesmo?" perguntou, um dos olhos meio que se estreitando em uma expressão de dúvida. Parecia quase pega de surpresa, na realidade, como se a última coisa que esperava fosse que eu desse essa resposta "Vi você chegando sozinho, e pensei 'sem namorada'"
"Não pensou errado" respondi, para então pensar que quem poderia ter cometido algum erro era eu. Não que eu achasse que estivéssemos namorando a ponto de ser como... como James e Lily, mas eu, definitivamente, não conseguia pensar – ou mesmo aceitar – que o que nós dois tínhamos era, como ela chamava, apenas sexo.
Não poderia ser.
Não, porque nós não ficávamos apenas na cama. Já havíamos passado dessa fase – de transarmos, sairmos da casa um do outro, voltarmos a nos encontrar única e exclusivamente para transarmos mais – e, em algum momento dela, havíamos decidido que estava tarde demais e dormimos, de verdade, na mesma cama. Em outro momento, acordamos e decidimos que iríamos tomar o café juntos, e então iríamos almoçar e dar uma volta e conhecer um ao outro sem que realmente pensássemos nisso.
Eu não pensava. Nunca pensei. Mas também não achava que era algo que deveria ser pensado, analisado, detalhado em cada espaço que poderia ser; não, eu achava que deveria acontecer, só acontecer. E aconteceu; de noites a cafés a almoços, chegamos a viagens e a mais momentos juntos, e chegamos a nos conhecer mais do que eu achei que iríamos no começo.
Mais do que ela achou que iríamos no começo.
Porque essa era a única coisa que explicava ela ter agido do jeito que agiu. Mckinnon não parecia com raiva, não parecia superior, não parecia debochada; parecia, talvez, perdida. Eu não poderia ter certeza, claro, porque ficara com raiva – e ainda estava, mesmo que menos que antes – e não era mesmo de analisar as coisas, mas parecia haver algo mais ali.
E tudo, tudo o que eu falara para ela era verdade. Eu gostava dela – estava apaixonado, só podia estar apaixonado - e eu a respeitava, e era por esses dois fatores que eu me daria um tempo para me acalmar e, de novo, tentar falar com ela.
Não dormiria com a primeira que aparecesse, nem que fosse Gabrielle.
"Sem namorada"
"Mas sem que nós dois podemos..."
Ri.
"'Possamos', Gabrielle" corrigi, divertido "Inglês é a língua universal, sabe"
Ela me mandou a língua em uma careta, contendo o sorriso "Eu já disse que treino com você"
"Verdade. Você sempre falou muito"
"Nunca reclamou, mon amour"
"Nunca tive vontade de reclamar, ma belle"
Gabrielle sorriu, satisfeita.
"Eu pediria a você para falar em francês comigo" começou, o sorriso sem parecer que sairia do rosto por um tempo. Ela sorria fácil, sempre sorrira, não importava a situação "Se não achasse você falando inglês a melhor coisa do mundo"
Sorri.
"Você sabe, conheci um fotógrafo americano, e o sotaque britânico é incrivelmente melhor"
"Olhe ao redor e vai encontrar um monte" mas, antes que ela pudesse ter tempo de responder, continuei "Como chegou até aqui, aliás? É restrita a fotógrafos britânicos, e você não é nem um nem outro"
"Ah, eu não te contei? Meu irmão mais velho está namorando uma das diretoras" ela me respondeu, animada, os olhos brilhando um pouco mais "Ele tem quarenta anos e ela uns sessenta, veja só. Quem diria encontrar um amor depois dos trinta"
"Você tem trinta e dois"
"Só daqui a quinze dias, ok? E não espalha, para a maioria aqui eu só tenho vinte e oito"
Revirei os olhos, divertido.
"E por que a surpresa? Nem todas as mulheres são sonhadoras"
Eu sabia disso. Como eu sabia disso.
"Embora algumas gostem de ouvir que não... parecem ter a idade que têm?"
Abri um outro sorriso.
"Parfait" disse, e o olhar de satisfação que ela soltou foi tão infantil e tão sincero que me fez ter vontade de rir "E não, você não parece ter a idade que tem"
"Que bom. Odiaria que nos vissem agora e pensassem que sou cinco anos mais velha que você"
"Bom, você é. Exatamente cinco anos mais velha que eu"
"Dois, mon amour. Dois anos só, lembra?"
Ri, alto, e então fiz que sim, comentando alguma coisa e depois outra e, por fim, mais uma. Mas só conseguimos passar mais quinze minutos sem que ninguém nos interrompesse; as pessoas começaram a chegar e a cumprimentar e as conversas caíram para outros lados sempre que tínhamos que parar a nossa.
Que sempre era recuperada.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
A boca dele na minha estava errada.
Não era a primeira vez que eu sentia isso. Estava longe de ser a primeira vez que eu sentia isso. Se eu tivesse começado a contar as vezes em que o meu beijo não se encaixara com o de um cara de primeira, eu desistiria depois que o número alcançasse as dezenas. Era algo natural, na realidade, e um beijo poderia e deveria ser trabalhado até que nos permitisse sentir aquele arrepio percorrendo o corpo e aquela vontade de gemer quase incontrolável.
Mas não; não, o beijo de Charles estava errado. Não apenas porque já havíamos nos beijado e já deveríamos nos conhecer, não apenas porque ele gemia com o contato de minha língua e tudo o que eu conseguia pensar era que aquele gesto estava errado; não, estava errado porque só bastara um segundo e um roçar de lábios para que Black me fizesse querer arrancar as minhas roupas para ele.
O toque de suas mãos estava errado.
E tão, tão errado, que eu não conseguia nem me lembrar como, um dia, eu me excitara com ele. Não conseguia me lembrar como eu conseguira ficar impaciente para tê-lo me deixando nua, não conseguia me lembrar o motivo que eu tinha para, ao menos, deixar que suas mãos encontrassem o caminho para dentro de minha saia e afastassem minha calcinha para me tocarem em um dos meus lugares mais íntimos.
Era o contrário disso. Era o contrário exato disso. Cada novo pedaço de pele que ele descobria e que tocava me repelia ainda mais, cada roupa que ele superava e afastava e tirava me deixava com mais nojo dele e de mim mesma, cada contato de sua pele com a minha me causava uma repulsa tão impressionante que a minha vontade era tacá-lo longe e nunca mais vê-lo, tudo o que eu não sentia com Black.
Seu olhar em meu corpo era errado.
E isso, por si só, era errado. Eu sempre adorara receber olhares como os que Charles me soltava, sempre adorara tê-los me olhando com uma excitação que era destinada única e exclusivamente a mim, sempre adorara o jeito como eles não deixavam escapar um centímetro de meu corpo. Vê-los reagir a mim era único, para cada um deles, mesmo que todos eles suspirassem e gemessem e sentissem vontade de me tocar.
Mas eu não queria ser olhada. Não queria que suspirassem por mim, não queria que gemessem por mim e muito, muito menos, que me tocassem e passassem a mão e a língua por meu corpo. Poderia ser um roçar de braços, um aperto de mãos, um beijo ou, então, as mordidas em meu pescoço e o arrastar de dedos por minha barriga – descendo e descendo e descendo – que Charles fazia agora; tudo isso não estava certo, porque era o jeito de Black de fazê-lo que me levava à loucura.
Eu nunca me sentira tão errada.
"Puta merda, Marlene. Como você pôde ficar ainda mais gostosa?"
Black sabia como me beijar. Ele sempre soube, desde o momento em que entramos naquele banheiro e sua língua se projetou entre meus lábios para que, no beijo, sufocássemos nossos gemidos mesmo que cada toque me desse vontade de gemer mais. Eu adorava, ansiava pelo momento em que ele inclinaria o rosto na direção do meu, as mãos em todos os lugares – nuca, cintura, costas, barriga, qualquer parte mais íntima – me apertando contra ele, os dentes mordiscando meu lábio inferior e me dando a oportunidade de gemer e fazer qualquer um perceber o quanto eu adorava estar com ele.
"É melhor do que quando eu sonho com você"
Black sabia como me tocar. E era tudo, tudo sempre novo, porque ele reconhecia minhas nuances e me fazia reconhecer as dele e fazia com que cada roçar de pele trouxesse uma sensação nova. Eu não conseguia me acostumar com o jeito com o qual ele tirava minhas roupas, com o qual ele descobria meu corpo – com dedos e lábios e língua - com o qual ele o tocava com o dele e me fazia me sentir daquele jeito único.
"Sabe que eu fico esperando o momento de você me dizer que me quer?"
Black sabia como me olhar. Estreitava os olhos e me apreciava como se nunca houvesse visto nada melhor, não importava o número de vezes em que já havia me visto nua. Eu me sentia a melhor das mulheres, única no mundo, quando ele o fazia, e me fazia me sentir que eu poderia fazer qualquer coisa no mundo exatamente por isso.
"Fico esperando para te fazer suspirar, gemer, gritar. Fico esperando para te masturbar. Quer ser masturbada, Marlene...?"
Black nunca me parecera tão certo. Era certa a maneira como ele sorria ao me ver, certa a maneira como ele ria comigo e gargalhava quando, na cama, discutíamos os assuntos mais imbecis do mundo. Falar com ele, ouvi-lo falar, descobrir mais dele e me deixar ser descoberta; tudo, tudo isso era certo, porque não havia jeito algum de aparecer alguma nuance de errado.
E, então, em um reflexo, eu fechei as pernas.
Não poderia ser diferente, quer dizer. Não poderia ser nada diferente, porque seus dedos estavam a um centímetro do espaço entre elas e aquilo seria invasão demais para mim. Eu não conseguia suportar a idéia de vê-lo me tocando naquele lugar, não conseguia suportar a idéia de tê-lo deixado chegar tão longe, não conseguia suportar a idéia de que ele chegara perto o suficiente para fazer tudo isso comigo.
Não queria que Charles me tocasse. Não queria que Charles me visse. Não queria que ele ficasse no mesmo lugar que eu e não queria, também, que eu passasse por aquela situação ridícula de medo e invasão e ódio por mim mesma. Só queria sair dali, me vestir, ir embora e tentar encontrar algum motivo para o que eu estava fazendo agora.
Eu só encontrava motivos para sair dali.
"O que você...?"
"Sai de cima de mim" pedi, quase chutando-o, tateando em busca do lençol para que pudesse cobrir meu corpo enquanto buscava por minhas roupas. Eu conseguia ver, de onde eu estava, minha calcinha e meu soutien, e eu sabia que minha blusa estava em algum ponto perto da mesa que ele usava para trabalho "Onde estão minhas roupas?"
"Roupas? Você está brincando, Marlene?" Charles me perguntou, mas eu só fiz outro movimento de pernas e o afastei um pouco mais para que pudesse sair da cama. Nesse movimento, peguei de canto de olho minha meia calça mas, sem me importar de ainda faltar bastante coisa, comecei a percorrer o espaço para que encontrasse tudo o que precisava "O que você pensa que está fazendo?"
Não me importei em responder, fazendo malabarismo para que conseguisse segurar o lençol ao mesmo tempo em que pegava algumas das roupas. Ao não conseguir pegar o casaco, então, me decidi por só levar até o banheiro o que eu precisava para esconder minimamente meu corpo.
"Marlene, eu estou falando com..."
"Eu vou embora"
"Embora? Puta merda, você não vai embora" ele disse, projetando o corpo para fora da cama. Antes que ele ao menos conseguisse colocar o primeiro de seus pés no chão, entretanto, eu já entrava no banheiro, trancando a porta para que ele não pudesse se aproximar de mim "Abre essa porta"
Só continuei a me vestir, o mais rápido possível, querendo sair dali e não voltar nunca mais. Calcinha, soutien, blusa de manga comprida, um casaco um pouco mais fino por baixo do sobretudo; e, então, eu estava pronta para sair do banheiro, abrindo a porta de uma vez só e desviando de Charles quando ele tentou bloquear minha saída.
"Cadê a pegadinha?" ele resolveu perguntar assim que alcancei minha saia, desistindo totalmente da idéia de colocar minha meia-calça que pegava toda minha perna. Quer dizer, para isso, eu precisaria sentar na cama ou, então, perder um tempo que não queria perder, e não estava nem um pouco afim de aumentar minha estadia aqui "Que porra é essa?"
"Não entendeu? Eu vou embora"
Graças a Deus eu não havia tirado nada dos meus acessórios.
"Não quero mais"
"Não quer mais? Você não quer mais?" ele repetiu, e pareceu tão estúpido e tão ridículo que o meu nojo dele só aumentou "Que tipo de brincadeira é essa?"
"Parece que eu estou brincando?" fechei o zíper da minha saia, peguei minhas meias para colocar por debaixo das botas e vesti-as. Só faltavam as botas em si, o sobretudo e o cachecol, mas eu poderia colocar tudo isso no elevador "Não quero mais e vou embora"
"Que merda de frescura é essa agora, Mckinnon?" mas eu só passei por ele, puxando meu braço com força quando ele o pegou e tentou me parar a meio caminho de me deixar descer o degrau que dividia seu quarto da sala. Quase derrubei o objeto que ele usava para separar um do outro mas, sem me importar, só segui caminho para abrir a porta "Vai bancar a santinha? Você veio até a porra da minha casa, já deu para mim, e só vai sair quando tiver dado mais..."
"Quero ver só você me parar" nojo, nojo, nojo, e uma vontade interminável de sair dali. Só faltava, agora, esperar o elevador e terminar de me ajeitar lá dentro; e mesmo isso não demorou demais, e assim que eu pude apertei o andar do térreo e esperei que a porta se fechasse.
Mas Charles a segurou.
"Vai me pagar por essa, está ouvindo?"
"Estou. Quer que eu aperte o botão da emergência agora?"
Ele soltou a porta, e quando o elevador começou a descer eu suspirei em alívio antes de começar a me arrumar. A vontade que eu tinha era de chorar, de chorar e de não parar, mas eu consegui me controlar; consegui me aprontar antes de chegar ao térreo, saí em direção às ruas completamente vazias por causa da virada do ano e andei vinte quarteirões até o meu prédio, sentindo que o mundo poderia acabar de vez quando finalmente me taquei na minha cama.
Sentindo que meu mundo acabara de vez.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
"É aqui" Gabrielle disse, tocando meu braço com a ponta dos dedos enquanto a outra mão apontava para o pequeno hotel. Freei um pouco o carro e fui um pouco para a esquerda, parando exatamente na pequena entrada para que ela não precisasse andar muito naqueles saltos e naquele frio "Tem certeza de que não quer subir?"
Sorri "O quarto é bom?"
Ela sorriu com meu tom entre o deboche e a provocação.
"Então, é isso?" perguntou, apoiando-se mais no banco, sem a menor intenção de sair "Só vamos nos encontrar mesmo no Japão?"
"Só" concordei "E é melhor você descer e arrumar a sua mala para chegar o mais cedo possível em Paris e, desse jeito, se ajeitar para Tokio"
Gabrielle abriu outro sorriso.
"As duas malas já estão prontas, mon amour" respondeu, divertida "Mas pode deixar, eu peguei o fora e já estou indo"
Sorri para ela "Bonne nuit"
Ela fez que sim, me dando um último sorriso antes de, então, sair do carro. Observei-a passar pelo portão e, então, pela recepção, indo para a esquerda no que eu achava ser em direção aos elevadores, andando de um jeito meio lento mas contínuo.
E, então, dei a partida e voltei para o meu apartamento. Abri a porta e, meio segundo depois, já jogava as chaves no sofá e seguia para o estúdio, aproveitando a falta de sono e de cansaço – apesar de serem quatro da manhã – para revelar algumas fotos e selecionar algumas outras. Não era uma tarefa fácil mas, ao mesmo tempo, não era difícil; e devia ser o prazer que eu sentia nisso, porque passar séculos sentado não era exatamente comum para mim.
Eu não conseguia explicar o motivo pelo qual eu gostava tanto de tudo isso.
E todo mundo, praticamente todo mundo – com exceção de James, claro, que era como eu; mais impulsivo e menos preocupado em analisar as coisas -, encontrava todas as razões para isso. Minha mãe, por exemplo, achava que era pura e simplesmente para provocá-la e desonrá-la, mas eu provei que tinha mais o que fazer do que me preocupar com o que ela pensava de mim quando continuei com a fotografia mesmo depois de tanto tempo fora de casa. Segundo Dorea, desde o começo ela reconhecera em mim algo menos burocrático e mais artístico, porque eu era uma pessoa mais livre que sempre fizera o que eu queria. Remus me provocava dizendo que, afinal, era eu que sempre tirava o melhor das pessoas, e Tonks discordava e dizia que era porque eu sempre quis ter as mulheres mais bonitas ao redor.
Não era isso, não era nada disso. Eu já havia passado da idade de fazer as coisas apenas para contrariar a mãe, não achava que fazer o que eu queria significava não seguir uma carreira mais tradicional, era péssimo em ver o melhor das pessoas – além do físico, claro. Isso eu via, e fácil – e eu não precisava de uma profissão para conhecer as pessoas que eu queria. E as modelos, exatamente como eu dissera para Mckinnon, nem eram tão bonitas assim; Vanessa, Barbara, Marcella, para nenhuma delas eu daria uma segunda olhada se fosse uma sexta à noite. Nem mesmo para Gabrielle eu olharia uma segunda vez; descartaria, só porque haveria mulheres mais bonitas e mais gostosas ao redor e eu não conheceria sua personalidade como agora.
Mas a questão é que, até agora, eu não saberia explicar porque eu gostava tanto de fotografar. E não achava que deveria, também; se eu tivesse que arrumar uma explicação para cada coisa que gostava, passaria a vida tentando e não conseguiria chegar até a décima parte do que gostaria.
Mckinnon estava entre elas.
Porque sim, eu a achava bonita. Linda. A combinação do cabelo preto, dos olhos azuis, do corpo curvilíneo; tudo isso, comigo na cama – se movendo contra mim, gemendo comigo, me levando ao orgasmo como nunca antes -, me fazia perder a razão. Mas não era a sua beleza que me fazia admirá-la; eu admirava o jeito como ela trabalhava, como ela se lançava ao desenho, como ela parecia ser sincera acima de tudo.
Parecia, claro. Porque aí estava a parte que eu não entendia; ela não se entregava por inteiro, ela era instável e ela não me levava a sério, e mesmo assim eu continuo achando que, quando essa raiva passar, eu vou procurá-la.
Isso não fazia o menor sentido para mim.
Continuar pensando nela não fazia sentido. Continuar me lembrando de como foi a primeira vez que transamos, de como foi a primeira vez que estivemos em uma cama, de como foram todas as vezes nas quais saímos de onde estávamos e fomos em direção a qualquer lugar em que ficássemos sozinhos. Eu continuava a me lembrar de como conversamos naquele carro quando fomos para Gales, de como decidimos viajar para assistirmos, juntos, ao jogo do Manchester, de como ela se esforçara para criar um projeto antes do tempo para, desse jeito, não ter problema.
Não era disso tudo que eu deveria me lembrar. Eu deveria ter na memória, única e exclusivamente, o momento no qual ela falara que era só sexo, e que eu era uma menininha por colocar algum compromisso por ter comprado um presente a ela.
Era incrível que esse momento viesse junto de todos os outros. E era incrível, também, eu não insistir nele; eu não forçava para que ele viesse, não forçava para me lembrar apenas dele, achava mais fácil que todos os outros viessem antes dessa briga e, provavelmente, de qualquer outra que poderia ter vindo ou que ainda viria.
Eu não conseguia deixar de pensar nela.
OoOoOoOoOoOoOoO
Cinco dias haviam se passado e eu ainda não conseguia deixar de pensar em tudo aquilo.
Não saía da minha cabeça, simplesmente não saía. E eu fazia de tudo para tirar; lia, via TV, desenhava, adiantava projetos de trabalho, lia mais um pouco, ficava vendo bobeiras no computador, pegava revistas de decoração para decidir o que eu iria mudar, terminava o livro e pegava outro completamente diferente para ver se a história me chamava mais atenção. Tentei com uns sete antes de, finalmente, desistir de olhar no meu quarto; fui parar no da Lily para pegar alguns completamente fora da minha realidade, para ver se algo que eu não conhecia conseguia me prender o suficiente para esquecer de todo o resto.
Deu errado. Deu tudo errado, desde os programas de TV – CSI, House, Brothers & Sisters, Doctor Who, os mais variados possíveis – até cada livro que peguei para ler. Não importava se a história fosse de um médico, fosse de uma família, fosse de acontecimentos históricos; eu sempre, sempre voltava para a noite de Ano Novo, sem conseguir me concentrar em mais nada senão nela e tudo o que eu vivera nela.
Mesmo que não, não fosse tudo novo.
Eu já havia vivido tudo aquilo, quer dizer. Já havia sentido a sensação de que um toque em meu corpo era errado, já havia convivido com a sensação de repulsa e frustração que isso me causava. Até mesmo já comparara, já me lembrara de outras pessoas quando estava prestes a cair na cama com alguém que não tinha nada a ver com ela; sabia como era, reconhecia cada pensamento, e convivia com eles numa boa.
O problema estava na intensidade de tudo aquilo. Não, nunca fora tão intenso, e nunca fora algo de dois lados; a sensação de que aquilo estava errado, a sensação de nojo que eu sentira ao me ter nua e ter alguém me tocando daquele jeito se destinava a mim também. Talvez, só talvez, eu conseguisse ignorar se fosse só o Charles, mas...
Não. não, eu não conseguiria, porque eu não queria.
Em todas as outras vezes, fora diferente. Em todas as outras vezes, eu queria me forçar a continuar, eu me forçava a continuar porque sabia, simplesmente sabia, que havia algumas coisas que nem tempo nem pessoas conseguiriam superar. Não importava o quanto eu tentasse, não importava quanto tempo passasse e nem quantas pessoas eu conhecesse; a sensação continuaria lá, e tudo o que eu poderia fazer seria tentar colocá-la de lado – na impossibilidade de superá-la ou, ao menos, esquecê-la – sem me dar o tempo que todo mundo dizia que era certo.
E eu fazia isso. Eu sempre fizera isso, sem me importar com os outros e com o que eles poderiam pensar de mim. Havia vezes, como nessas nas quais eu continuava apesar de tudo, que eu não me importava nem comigo mesma. Era fácil, sempre fora, usar todos esses pensamentos a favor do meu objetivo final, e eu passava por cima de qualquer coisa para fazê-lo.
E era incrível, simplesmente incrível, que eu não houvesse passado por cima dos pensamentos que eu tinha sobre Black. Era incrível que eu não houvesse passado por cima dos pensamentos que eu tinha sobre nós dois juntos, na cama, nos movendo contra ela ou, então, só deitados enquanto tentávamos não conversar e dormir porque tínhamos que levantar cedo no dia seguinte. Eu não havia ignorado tudo o que ele me causava – o arrepio só de me olhar, a vontade de ficar nua só por causa de seu beijo, os gemidos que me fazia soltar quando qualquer pedaço de seu corpo tocava o meu – e, mais do que isso, respeitara todos esses momentos e parara antes que a lembrança deles e o que estava acontecendo de verdade me deixassem com vontade de vomitar. Eu não conseguia suportar a diferença entre os dois, não conseguia...
Isso era alguém entrando?
Piscando os olhos, então, me levantei da cama – onde eu estava jogada, olhando para o teto, pensando na próxima coisa inútil que faria – e saí do quarto, cruzando o corredor no limiar entre a vontade de continuar entre aquelas quatro paredes enquanto me escondia do mundo e a necessidade de saber quem era. Eu sabia, quer dizer, que era inútil que eu esperasse que fosse Black; ele não tinha a chave do meu apartamento, ele nem ao menos podia subir sem que o porteiro avisasse.
Pensar naquilo era infantil. Mais do que isso; era ridículo.
"Lily?"
E foi com certo alívio que reparei que a única companhia dela era um bando de malas. Sem James, sem melhor-amigo-do-cara-no-qual-eu-não-parava-de-pensar, sem olhares por parte dele que me fizessem ter certeza de que ele sabia que não estávamos bem. Quer dizer, eu não queria nem que Lily soubesse que havíamos brigado – até porque ela parecia estar irradiando felicidade -, e qualquer coisa além dela seria demais.
"Ué, por aqui? Achei que fosse ficar no James"
Ela me soltou uma careta, claramente brincalhona.
"Passo dias fora de casa e você já começa me expulsando quando volto" disse, e eu consegui revirar os olhos em resposta enquanto, com um pouco de esforço, pegava uma das malas para ajudá-la. Pretendia voltar depois mas, pelo visto, ela dera um jeito sozinha "De qualquer jeito, eu me surpreendi que esteja aqui"
Lutei contra um respirar mais fundo "Por quê...?"
"James foi ver o Sirius. Ele vai viajar para Tókio"
Pisquei os olhos, voltando ainda mais meu rosto para frente para que ela não visse o movimento. Quer dizer, eu sabia que ele ia ter que ir em algum momento mas, mesmo assim, eu não esperava que fosse tão cedo.
Não esperava que ele fosse e não falasse comigo.
"Vai?" perguntei, deixando a mala à beira da cama enquanto me sentava no colchão "Hoje?"
Franziu o cenho "É"
"E vai ficar quanto tempo lá?"
"Quinze dias" e, quando ela disse isso, tive certeza que meu olhar se perdeu "Pouco menos, eu acho. Vocês não...?"
"Não nos encontramos faz uma semana, e não acho que vamos voltar a nos encontrar" disse, a última parte da minha frase não fazendo sentido mesmo para mim. Eu queria vê-lo, eu queria vê-lo de verdade, e não conseguia entender o motivo pelo qual estava prostrada no mesmo lugar, sem fazer nada em relação a isso, sem nem ao menos entender alguma coisa do que estava acontecendo de verdade.
Eu estava entendendo alguma coisa?
"Posso te ajudar com as malas?"
Lily sorriu em resposta e, devagar, fez que sim. Só pelo seu olhar, misturando preocupação e cuidado, eu sabia que ela queria saber mais pura e simplesmente para me ajudar, mas também não abriria mais a boca sobre isso até que eu a abrisse e, então, contasse o que havia acontecido a ela. Me respeitava – respeitava a praticamente qualquer um, e eu saberia dizer quais porque, infelizmente, faziam respeito à mim – e tinha o meu tempo, e esperaria o que fosse preciso até que eu ficasse confortável com o que quer que fosse.
Eu só não me imaginava confortável por isso.
Talvez tenha sido por isso que eu, realmente, não insisti no assunto. Poderia, porque talvez precisasse, mas então eu teria, além do respeito, a preocupação e o cuidado. Era tudo o que ela não precisava; estava feliz, estava claramente feliz, e merecia de mim que eu não estragasse em nada tudo isso.
E eu não iria.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoO
"E então?" James perguntou assim que Remus voltou à mesa, o seu sorriso provocante de sempre quando queria brincar com alguém. E era impossível, na realidade, que ele deixasse essa escapar; ter Remus saindo da mesa para atender a uma possível ligação da namorada merecia mesmo ser alvo de provocação "Era mesmo a Tonks?"
Ele concordou.
"O que houve?"
"Não conhece a prima que tem, Sirius?" ele me replicou, divertido, colocando a mão no bolso para tirar a carteira "Está em uma dessas lojas de maquiagem, no caixa, com os produtos passados e sem a carteira"
James e eu gargalhamos.
"Estou indo lá salvá-la"
"É aqui perto?"
"E ela tira os olhos dele, Jay?" provoquei de novo, piscando o olho para Remus quando ele, com uma falsa careta, me olhou "Talvez ela possa comprovar a teoria de que os certinhos são os piores"
"Por que vocês tiraram o dia para me provocar, como se... esquece, vocês sempre me provocam" ele mesmo se interrompeu, rindo com a gente ao colocar algumas notas de dinheiro sobre a mesa "Ela mandou um beijo para você, aliás. E um oi para você, James. Disse que também ganha um beijo perto do seu aniversário"
Rimos de novo.
"Avise a ela que vai ter o mesmo tratamento" James retrucou, brincando de volta, apertando seu ombro em despedida antes que Remus passasse por ele para vir até mim. Disse algo como 'Boa viagem' antes de sair do bar, seguindo para a esquerda onde eu sabia que seu carro estava estacionado. Eu o vira lá, quer dizer, quando eu mesmo fora... "Impressionante como é atrapalhada, não é?"
"Tonks? Você não viu nada" discordei, desviando os olhos da rua para James. Ele estava bebendo, eu achava, água; ganhara um pouco de responsabilidade depois que começara a namorar a Lily, me parecia "Tirando aquelas histórias que você já conhece, posso citar umas cem ocorridas só no último mês. Teve a vez em que ela tropeçou e deu de cara no poste, outra na qual ela levou a bolsa errada na loja e teve que se entender com o segurança e outra na qual pegou o ingresso errado até Mckinnon dizer a ela que a atendente estava certa"
Ele riu, alto, mas não respondeu nada de imediato. Não era como se pensasse, entretanto; James nunca pensava demais antes de falar alguma coisa – e, quando adolescente, nunca pensava -, e não seria agora, sem nenhum motivo, que iria começar.
E muito menos comigo.
"Falando nela..." começou, bebendo mais um goles, brincando com o gelo no copo. Sempre gostara, podendo a temperatura lá fora beirar os quarenta graus positivos ou os quarenta negativos "... vai ficar no fora ou vai insistir?"
Não demorei "Agora? Ficar no fora. Daqui a três dias? Insistir"
Sorriu.
"Entendo você" comentou "Estamos menos imediatistas, ahn...?"
Ri.
"Ia dizer para você ficar mesmo assim" continuou, me fazendo pender a cabeça para o lado "Talvez o Remus esteja certo, quer dizer. Lily... Lily meio que deixou escapar que realmente havia alguma coisa a mais. Antes do Natal"
Fiz que sim, sem conseguir me impedir de, de novo, pensar sobre isso.
Essa mulher, de um jeito ou de outro, ia acabar comigo.
"O quê?"
Ele deu de ombros.
"Estávamos conversando sobre... livros. Ela disse que queria dar um para a Cassie, a secretária dela, e, acho, acabei perguntando se ela tinha faculdade" respondeu, piscando os olhos no que eu sabia ser a sua tentativa de se lembrar "Ela respondeu que não, e disse que não poderia tirar nenhuma conclusão sem conhecê-la um pouco mais porque várias coisas aconteciam a várias pessoas. E falou 'Tem a Marlene, por exemplo, que...' e se cortou"
Não respondi nada por um tempo, de novo sem conseguir ignorar aquilo. Queria descobrir sobre ela, descobrir o que havia acontecido com ela para ela parecer ter tanto medo de se colocar em um compromisso, para ela ter feito a expressão que fez quando eu disse que gostava dela. Porque não, não era algo parecido com 'que merda, ele gosta de mim e eu não, vou ter que parar com isso'. Era como se ela não quisesse que eu dissesse porque não queria parar.
Ou, talvez, não fosse nada disso.
Porque eu estava pensando isso agora, quer dizer. Estava pensando agora, única e exclusivamente agora, depois que James me dissera isso e depois que a raiva que eu sentia – que não fora pequena. Não fora nem um pouco pequena – diminuíra um pouco, o suficiente para que eu pensasse. E isso não fora algo que eu fizera há uma semana; na realidade, pela raiva que eu sentira, eu até acho que um 'Vá se foder' saiu barato. Mais do que barato.
Eu só queria ter prestado mais atenção em sua expressão. Queria ter certeza de tudo o que eu começara a pensar depois que o momento passou, queria ter certeza que ela parecera perdida, queria ter certeza de que todas as nuances que eu via nela agora não eram criadas pela minha vontade de que tudo ficasse bem. Já era dia cinco e, por isso, já havia se passado mais de uma semana, e mesmo eu conseguia deixar um pouco de tudo o que sentira para trás enquanto dava espaço a querer uma conversa.
Porque aquilo não fora uma.
"... Por que eu tenho a impressão de que eu não devo comentar isso perto de Lily?"
"Porque eu tenho a impressão de que não deveria contar isso a você"
Sorri.
"Aliás, tenho certeza" ele continuou, divertido "Então, boca fechada"
"Deixa comigo" brinquei de volta "Mas vou querer de presente alguma coisa melhor que um cartão animado"
"Tá brincando? O meu cartão animado não é um cartão animado qualquer, Black, e você vai agradecer depois de ter recebido um tão bom. Não precisa nem me dizer o que quer, claro, porque nós praticamente moramos juntos desde que tínhamos onze anos, e se eu não te conhecesse seria, no mínimo, estranho. E acho que..."
"Não acha que está falando demais? Como a namorada?"
"Ora, cale a boca. Remus é o cara que você provoca, não eu"
"Remus é o cara que nós dois provocamos" corrigi, prendendo a risada "Na falta dele, vai você mesmo"
"Desse jeito, eu vou embora"
"Sinta-se livre"
Só saímos duas horas depois.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
"Campainha?" Lily me perguntou assim que o som se fez ouvir, o cenho franzido não conseguindo esconder em nada o brilho que surgira em seu olhar. E eu que achava que ela estava clara e obviamente apaixonada só nesse gesto; não, quando fiz que sim o brilho aumentou e seu corpo todo pareceu reagir à expectativa que ela já tinha, como se ela estivesse preparada para isso desde que se separara de Potter.
Eu realmente não poderia acabar com nada daquilo.
"Vou lá atender, ok?"
Não tive tempo nem de fazer que sim de novo antes dela saltar da cama e sair para o corredor, o som de seus passos se perdendo quando voltei minha atenção para o que estávamos fazendo. Estava sensivelmente melhor do que quando começamos mas, mesmo assim, ainda era uma bagunça considerável; como todo bom namorado, inclusive, Potter deveria...
Era eu que não deveria vê-lo como namorado de Lily, mas como amigo de Black.
Porque era isso que ele era, quer dizer. Era de onde ele tinha acabado de chegar, na realidade, se eu quisesse piorar as coisas para o meu lado; eles haviam estado juntos, no mesmo bar e na mesma mesa, trocando palavras que poderiam envolver tanto a neve de ontem quanto o próximo clássico ou, então, o que havia acontecido entre a gente. Tudo, tudo isso era importante; eu queria saber se ele usara o meu casaco preferido – um azul-quase-preto, perfeito para realçar seus olhos nas duas principais nuances que eles tinham - para afastar o frio, queria saber se ele achava que o Chelsea alcançaria a gente, queria saber se ele olharia para mim de novo. Queria saber se ele conversaria comigo sobre a viagem, se ele me mostraria as fotos, se ele as deixaria de lado enquanto me observava desenhar e...
"Realmente, pior do que a sua descrição" e, então, eu acordei de todos os meus pensamentos, levantando meus olhos para Potter. Ele piscava um dos olhos para Lily mas, logo depois, desviou os olhos dela, fixando-os em mim quando tive a minha vez de saltar da cama "Ei, Marlene"
Meu coração deu um salto, e eu percebi que estava quase implorando para que ele sorrisse para mim e mostrasse que estava tudo bem, não do jeito 'eu-não-sei', mas do jeito 'ele-me-falou-que-entende'. Mas isso não aconteceria, isso nunca aconteceria; não havia como Black me entender, não quando, eu sabia, uma justificativa era a última coisa que eu dera – a última coisa que eu me sentia capaz de dar – a ele.
Era a única coisa que eu tinha medo de dar a ele.
"Potter" cumprimentei de volta, tentando me colocar mais distante, tentando não parecer confusa como eu me sentia agora. E, pelo visto, consegui; Potter estreitou um pouquinho os olhos e Lily franziu o cenho, preocupada, e preocupada de tal forma que eu tive que lhe dar um beijo rápido de desculpas na bochecha "Vou para o meu quarto, ok?"
E saí do dela, batendo a porta atrás de mim para não ouvir nada da conversa, para deixá-los mais à vontade e, ao mesmo tempo, para dificultar a minha própria vontade de voltar até os dois e perguntar ao Potter tudo o que eu não sabia que queria ouvir. Tinha tanta coisa que eu queria deixar de lado e, ao mesmo tempo, queria não esquecer. Tanta coisa que eu queria falar e, ao mesmo tempo, deixar guardado. Tanta coisa que me dava vontade de sentar lá com eles, contar à Lily o que aconteceu, perguntar ao James o que ele sabia, e tanta coisa que me dava vontade de ir para bem longe dos dois e deixá-los sozinhos e longe de tudo isso para que pudessem viver o que estavam vivendo sem que eu os atrapalhasse.
Lily merecia isso.
E, por isso, quando ela gritou em despedida para mim, eu só respondi para deixá-la mais tranqüila, porque era melhor que ela não se preocupasse comigo. Eu não precisava mesmo de preocupação; precisava só de um tempo na minha cama, olhando para o teto, tentando dispersar meus pensamentos porque era isso que o branco fazia comigo.
Ou, então, me dava vontade de fazer outras coisas.
E foi isso o que eu fiz, afinal. Me levantei em um salto e dei dois passos largos em direção à pequena mesa no meu quarto que, acoplada à parede, era lotada de blocos de desenho; havia alguns totalmente cheios, outros com esboços, outros com algumas folhas em branco. O ideal, o lógico, seria que eu fosse direto nesses, mas peguei um totalmente vazio e o levei para a cama, no meio do caminho parando para pegar todos os tipos de lápis e borrachas.
Alguma parte dentro de mim sabia que aquilo era ridículo, que era como se eu fosse uma adolescente ridícula e apaixonada que estivesse escrevendo no caderno o primeiro nome com o sobrenome do garoto que ela gostava. outra parte dizia que eu estava sendo infantil não por causa disso, mas por adiar minha confusão enquanto a usava para um hobby. Mas também havia aquela parte, uma parte que não era exatamente pequena, que me impelia por completo a fazer aquilo.
E eu preferia acreditar que era por sua beleza.
Porque sim, Black era a pessoa – não o homem, mas a pessoa, de verdade – mas bonita que eu já havia visto. Tudo nele combinava e, ao mesmo tempo, era um contraste; a pele branca, os olhos azul-acinzentados, o cabelo negro, o corpo alto e definido na medida certa. Era como se nada nele estivesse fora do lugar, como se nada nele estivesse fora de proporção, como se eu pudesse olhá-lo por horas e horas e não conseguir achar nada de imperfeição.
Nem no meu desenho eu conseguia encontrar. Comecei por seu rosto – pelos traços definidos, fortes, que ficaram marcados desde a primeira vez que o vi, parcialmente de perfil naquele bar – e desci por seu corpo, passando pelas linhas de seu pescoço e seus ombros e por seu tórax e seu abdômen, sentindo muito que a folha acabara e que eu não tinha espaço para desenhar o que era a parte inferior de seu corpo e...
E foi aí que eu reparei que não importava.
Não importava que seus olhos fossem os mais bonitos que eu já havia visto. Importava o jeito como ele me olhava, ou quando ele me via pela primeira vez assim que eu chegava ou quando apoiava a testa na minha e deixava claro os traços de prazer. Não importava que sua boca tivesse os melhores traços. Importava que ela sorria ao me ver, importava que ela deixava escapar risadas e falas que eram o máximo, importava que ela se colocava sobre qualquer espaço de meu corpo e me fazia acalcar lugares nos quais eu nunca chegara. Não importava que seu rosto fosse perfeito; não, importava o jeito como ele se inclinava para receber o meu, como ele encontrava o ponto certo entre meu ombro e meu pescoço para se colocar enquanto ele se movia contra mim, importava o jeito como eu conhecia cada pedaço dele tão perfeitamente que o desenho mais do que fluía em minhas mãos.
Eu o tinha por inteiro, e não soubera o que fazer com ele.
E me odiava por isso.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
OoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Antes de mais nada, vejam a review da Renata para Drinks;
'Você sabe que já fazem 15 dias que atualizou a Drinks? E que disse que não atualizou antes porque queria que a FD estivesse pronta? E que a FD não é atualizada desde janeiro? Tipo, JANEIRO! PELAMORDEDEUS! Socorro! rs'
E foi só então que eu reparei que não havia postado F&D u.u
Sei que parece meio estranho, mas o fato é que eu realmente esqueci. O capítulo já estava na página do fanfiction, já estava revisado, já tinha até uma nota - totalmente esquecida agora, porque não faz mais sentido - e, por algum motivo que eu não sei dizer qual é, eu já achei que o tinha postado. Mesmo. Achei que... sei lá, que ele já estava aqui. Então, gente, mil desculpas. E eu já vou agora, para não me atrasar ainda mais.
Beeeeijos ;*
PS: ahh, esse capítulo vai para a Renata. Sem essa review dela, eu provavelmente postaria o próximo sem que esse estivesse aqui ^-^
