Isabella sabia reconhecer uma pessoa alcoolizada mesmo que estivesse há quilômetros de distância.
Os sinais estavam gravados em sua lembrança depois de ter passado a infância testemunhando os passos cambaleantes da mãe e os xingamentos que a deixavam apavorada. Talvez por isso, Isabella detestasse a bebida e estava muito feliz por ter se casado com um homem de hábitos refinados, que jamais abusava do álcool em qualquer que fosse a ocasião.
Contudo, era inegável que Edward estivesse completamente bêbado.
Ele estava na varanda da sala, acomodado em uma espreguiçadeira. Apenas a luz da lua iluminava a camisa branca aberta no peito, o jeans desabotoado na cintura e os pés descalços.
Assim que ele percebeu a chegada de Isabella, tentou se erguer da cadeira e quase perdeu o equilíbrio. O cabelo estava revolto, e o brilho do olhar era quase irreconhecível.
— Edward?
— Eu não quero conversar com você agora. — Ele resmungou em resposta.
— Pois eu acho que é melhor falar comigo, queria você ou não. Qualquer coisa é melhor do que ficar se embriagando sozinho.
Isabella retirou a garrafa de uísque que estava bem ao lado da espreguiçadeira antes que ele a alcançasse outra vez.
Por um instante, ele a fuzilou com os olhos. Mesmo inebriado, Edward não gostava que alguém lhe impedisse de fazer o que estivesse com vontade.
— Você está se embriagando e eu quero saber a razão! — demandou Isabella.
Com visível esforço, Edward endireitou os ombros e depois de um longo suspiro, avisou:
— Agora não.
Ela suavizou a voz e reformulou a questão:
— Eu preciso entender porque você está sofrendo tanto.
— Não está evidente? Eu cometi todos os erros possíveis em nosso casamento!
— Os erros fazem parte da natureza humana. Você apenas precisa aprender a conviver com eles.
— Não está com pena de mim? — perguntou ele, erguendo uma das sobrancelhas.
— Pena? — repetiu ela. — Por que eu teria pena de alguém que me fez viver um inferno?
— Acontece que você tem o poder de me deixar louco de ciúmes... Sempre foi assim. Uma vez eu vi você com outro homem e nunca me esqueci da maneira como fiquei furioso.
Isabella arqueou as sobrancelhas.
— Quando?
— Pouco antes de nos casarmos. Naquela época, eu não estava pensando em assumir um compromisso, e você decidiu terminar comigo. Quando eu a vi com seu novo namorado, quase morri de ciúmes. Você estava sorrindo enquanto ele segurava a sua mão. — Ele deu uma pausa para respirar. Os olhos brilhavam de raiva apenas com a lembrança. — Eu não suportava ver que outro homem tomara o meu lugar e não havia nada que eu pudesse fazer. O fato de ser um homem possessivo sempre fez parte da minha natureza.
Isabella se recordou do dia em que Edward retornou e lhe pediu em casamento. Ela sabia que a decisão viera porque ele não queria perdê-la para outro homem, mas não imaginava que ainda sentisse ciúmes daquela maneira.
— Se você quer saber a verdade, eu lhe direi. — Ele prosseguiu. — Eu detestava vê-la dando tanta atenção para o meu irmão. E foi muito difícil ter que agir de maneira racional. Eu estava trabalhando demais e sabia que você se sentia solitária e infeliz. Por essa razão, decidi tolerar a sua amizade com Jasper. Porém, eu acreditava que o relacionamento entre vocês fosse puramente platônico.
— Mesmo porque eu estava grávida de Thomas. — recordou ela.
— Acontece que a amizade entre você e Jasper começou muito antes de você ter ficado grávida. Ele vivia convidando-a para sair e você sempre aceitava.
— Ele dizia que sentia pena de me ver tão solitária e se oferecia para me proporcionar alguma distração. Eu acreditei na amizade sincera de Jasper e prometi guardar segredo quando ele me contou que era gay. E eu não percebia qualquer tipo de ciúmes da sua parte por causa da minha amizade com seu irmão. Você nunca demonstrou isso!
— Eu era orgulhoso demais para expor minha fraqueza. Mas o ciúme me corroía por dentro. Eu via você tão sorridente quando Jasper estava por perto que comecei a pensar que preferia a companhia dele em vez da minha. — admitiu, com amargura.
Isabella engoliu a saliva por duas vezes antes de declarar:
— Eu agia dessa forma apenas para chamar sua atenção. Considerava que assim, se você visse o quanto Jasper gostava de estar comigo, talvez decidisse ficar mais tempo em casa. Eu não imaginava que a sua obsessão pelo trabalho fosse por causa da situação financeira e sim porque estivesse entediado comigo.
— Eu sentia muitas coisas naquela época, menos tédio. — Ele afirmou com um sorriso malicioso.
Ao observar o contorno perfeito da boca masculina, Isabella teve certeza de que amava Edward mais do que nunca. Principalmente agora, quando ele exibia suas falhas sem se sentir envergonhado. Ele não era perfeito, mas isso não importava, porque ela também não era. E o mais importante era a confissão de que nunca deixara de desejá-la. Antes e depois do casamento. E o ciúme, desde que conseguisse mantê-lo dentro dos limites, até seria bom de suportar.
— Por que você estava se embriagando?
— Porque estava me sentindo muito mal comigo mesmo. Eu a desapontei de todas as maneiras. Você era minha esposa e, em vez de apoiá-la, eu a acusei de traição. Eu fui o culpado por você ter me abandonado.
— Mas agora você já sabe da verdade.
— Uma verdade que eu não gostaria de precisar conviver. — confessou ele, erguendo-se em seguida da cadeira, dessa vez com mais equilíbrio. A conversa que tiveram o tinha deixado plenamente sóbrio. — Vou tomar um banho para poder relaxar. — afirmou enquanto tirava a camisa e passava por ela para se dirigir ao banheiro.
Isabella retornou para a cama e o aguardou. Porém, Edward tinha decidido usar outro banheiro para se refrescar e outro quarto para dormir.
Na manhà seguinte, enquanto desfrutavam do café da manhã, Edward estava trajando um terno impecável e não havia sequer um traço que sugerisse o excesso de bebida da noite anterior. Ele já havia providenciado para que alguém apanhasse o carro de Isabella, que ela havia deixado no estacionamento do prédio onde ficavam seus escritórios, e o levasse para o castelo.
Logo depois, seguiram para o heliporto. Depois de um voo rápido, o helicóptero pousava no gramado nos fundos do castelo.
Thomas veio correndo para abraçar os pais.
Edward abraçou o filho e o segurou nos braços por algum tempo. Isabella ficou emocionada com aquela demonstração de afeto e desejou que o marido reservasse um pouco para ela. Por que o orgulho e a perfeição eram tão importantes para Edward? Por que ela podia aceitar os erros dele com mais facilidade? A maior diferença entre eles era que ela já estava feliz com o fato de que a verdade fora esclarecida com relação a Jasper, enquanto Edward não se conformava por ter falhado em perceber a verdade antes de o engano ter prejudicado o relacionamento deles.
No dia seguinte, Isabella recebeu o segundo telefonema de seu pai. Ela estava com Edward e Thomas na piscina, quando uma das criadas veio lhe avisar de que alguém queria falar com ela ao telefone. Desculpou-se e foi para dentro do castelo atender a chamada.
— É evidente que um homem tenha esperanças que sua filha o ajude. — falava Charlie Swam, usando um tom de autopiedade. — Faz pouco tempo que eu saí da prisão e as coisas estão muito difíceis.
— Você já tentou encontrar trabalho? — perguntou Isabella com austeridade.
— Não é assim tão fácil.
— Claro que não é fácil! Você nunca trabalhou em coisa alguma e nunca se manteve na honestidade. Eu não vou lhe dar mais nenhum centavo!
— Como pode ser tão egoísta? Você está casada com um homem rico! Eu sei que poderia ser generosa comigo.
— Eu não vou deixar você me chantagear pelo resto da vida! E não vou lhe dar sequer um centavo do dinheiro do meu marido! Para começar, eu não tenho esse direito e tampouco desejo sustentar os seus vícios. — esbravejou Isabella com sinceridade, desligando o telefone.
Isabella se sentia envergonhada por ter cedido à chantagem do pai na primeira vez, quando ele ameaçou contar aos jornais a verdade sobre a origem da família. Ela jamais deveria ter feito um saque daquele valor apenas para manter o pai calado. E, agora que ela sabia da dificuldade financeira pela qual Edward havia passado, seu arrependimento era maior. Ainda assim, estava com medo de que Charlie Swam cumprisse a ameaça de revelar aos jornais quem era o pai da esposa do conde espanhol e que isso causasse algum embaraço para Edward.
— Quem a estava procurando? — perguntou Edward, assim que Isabella retornou.
— Ah, não era nada de importante. — respondeu ela, casualmente, antes de entrar na piscina para brincar com Thomas.
Isabella teve a impressão de que Edward a observava por mais tempo do que o normal. Felizmente, ele não disse nada e se aproximou de Thomas para começar a ensiná-lo a nadar. Feliz com a atenção dos pais, Thomas procurava se exibir e batia as mãos na água com tanta força que os respingos encharcaram o cabelo de Isabella.
Ela decidiu sair da água e tomar um banho de sol na espreguiçadeira. Aproveitou para observar os picos nevados da cadeia de montanhas que tanto gostava, enquanto tentava afastar da mente a discussão desagradável que acabara de ter com o pai.
Edward decidiu tirar uma semana de folga para dedicar mais tempo para a família. Apesar de dormirem juntos todas as noites, ele nunca mais fez amor com ela.
Ele a levou para jantar fora em duas ocasiões. Na última delas, Edward a surpreendeu com um fabuloso anel de diamantes, pouco antes de deixarem o restaurante.
— Por que esse presente tão caro? — perguntou ela, observando a joia que reluzia sob a luz das velas acesas no centro da mesa.
Com as sobrancelhas unidas e um olhar de espanto, ele respondeu:
— Você é minha, esposa. É natural que eu queira agradá-la com o que existe de melhor!
— Desde que não se trate de culpa na consciência... — Ela salientou. — Você não precisa me comprar, Edward. Eu já lhe pertenço.
— Fico muito feliz em ouvir isso, Isabella. Mas acontece que eu gosto de agradá-la e sempre gostei.
Ela enrubesceu.
— Desculpe-me, Edward. Eu não quis dizer que não estou feliz por você querer me agradar. O problema é que eu tive uma infância pobre e, por isso, sempre considerei o gasto com joias uma futilidade.
— Você nunca falou sobre sua infância comigo.
Ela estremeceu e disfarçou o embaraço com um brilhante sorriso.
— Não existe muito para falar. Faltava dinheiro e meus pais brigavam muito. Com certeza não se tratava de um lar feliz.
— Eu me lembro de você ter contado, em uma ocasião, que a sua mãe morreu em um acidente de carro.
— É verdade. Foi uma época muito difícil. — Ela respondeu de maneira sucinta e procurou desviar o assunto. Não queria ser forçada a precisar inventar coisas para disfarçar a verdade. As mentiras quase destruíram seu casamento, e ela não pretendia arriscar sua felicidade por causa do seu passado.
Depois de uma semana estressante, Isabella estava com os nervos à flor da pele. Sentia-se como se estivesse na beira de um abismo lotado de dúvidas e incertezas com relação ao futuro. O pai já havia ligado duas vezes enquanto ela estava fora. Parecia uma repetição do que acontecera no início do seu casamento, quando ele a procurara fazendo ameaças e forçando-a a lhe entregar uma grande soma de dinheiro, que ela fora obrigada a manter em segredo para que Edward não soubesse que a esposa era filha de um criminoso.
Apesar de Isabella ter jurado para o pai que não lhe daria nem mais um centavo, ela decidiu verificar o seu saldo bancário para saber por quanto tempo aquele dinheiro lhe garantiria tranquilidade.
— Eu decidi me encontrar com Jasper nesse fim de semana. —Edward revelou, enquanto eles retornavam para casa. — Eu não acredito que ele irá falar comigo abertamente, mas quero lhe oferecer uma oportunidade de aproximação.
— Apenas lhe dê mais algum tempo. — Isabella, sugeriu.
— Não posso. — Edward negou, demonstrando desagrado. — Essa história já levou tempo demais. Eu preciso arranjar um jeito de, lidar com a situação e obrigar Jasper a assumir sua condição de gay. A propósito, Rosalie já sabia disso.
— Bem que eu suspeitava que Rosalie já soubesse de alguma coisa. — Isabella admitiu.
— Ela disse que começou a desconfiar pelo fato de saber que o próprio Dario é gay. Mas como Rosalie é muito discreta, ela não quis dizer nada a ninguém por medo de provocar alguma confusão na família — evidenciou Edward, desgostoso. — Eu teria preferido que ela tivesse sido menos escrupulosa, assim não teria acontecido nada do que aconteceu em nosso casamento. Eu jamais a teria acusado de ter tido um caso com meu irmão. — Ao notar um tremor constante nas mãos da esposa, ele quis saber: — Você está nervosa pelo fato de eu me encontrar com Jasper?
— Nervosa, eu? — repetiu ela.
— Sim. Mas não é apenas hoje. Eu tenho notado que você está aborrecida com alguma coisa ultimamente. Se for por causa de Jasper, eu prometo que não vou provocar nenhum escândalo com ele. É um pouco tarde para isso.
Abalada por saber que Edward havia notado que ela estava à beira de um colapso, Isabella assentiu e tentou parecer despreocupada.
Edward prosseguiu:
— Pelo bem da família, eu pretendo manter a situação controlada. Mas não acho que conseguirei perdoar Jasper por não ter desmentido o caso.
— Tente se esquecer disso, Edward. O que aconteceu já aconteceu e faz parte do passado. Para que remoer coisas que já ficaram esclarecidas? — questionou Isabella enquanto descia do carro na entrada do castelo.
Ao subir a escadaria, Edward mantinha uma das mãos repousadas nas costas de Isabella. O aroma cítrico da loção pós-barba a inebriava. Infelizmente, aquela era a única proximidade a que Edward se permitia. Ele continuava a não ter intimidades com ela.
Naquela mesma noite, enquanto dormia ao lado dela na cama e se mantinha a uma distância segura, Isabella se perguntava por que o marido estava fazendo isso. Estava claro que ela poderia tomar a iniciativa, mas não havia razão para fazê-lo, uma vez que estava se sentindo estressada demais para um desempenho satisfatório. Além disso, até mesmo nas madrugadas, ela acordava sobressaltada achando que o telefone estivesse tocando e se tratasse do pai ameaçando destruir-lhe a paz de espírito.
No mais, as coisas agora pareciam perfeitas em seu casamento, e ela estava determinada a não pressionar Edward. Agora, seu maior problema era com o pai e o que Charlie Swam poderia fazer. Ela dizia a si mesma que, se ela continuasse a enfrentá-lo, talvez ele se cansasse e a deixasse em paz.
Quanto ao marido, ela sabia que Edward nunca lhe dissera realmente que a amava, e que provavelmente nunca a amaria da maneira que ela desejava. Bem, mas a vida era assim mesmo, ela concluiu. Não se pode ter tudo o que se deseja. Pelo menos, ele estava se esforçando para fazê-la feliz e havia provado ser um excelente pai.
Além disso, ela conseguira sobreviver sem o marido quando o casamento deles parecia ter acabado. Mas, agora, estava mais madura e mais sábia. Isabella tinha certeza de que nenhum outro homem seria capaz de fazê-la feliz. Edward nem precisava se esforçar para que ela se derretesse por dentro. Bastava um olhar ou uma pequena carícia para que Isabella se sentisse completamente atraída por ele.
Na semana que se seguiu, parecia que Edward estava concorrendo ao prêmio de marido perfeito. Embora ele detestasse clubes noturnos, fez questão de levá-la para dançar em uma casa noturna de Sevilha. Em outra ocasião, eles desfrutaram de um piquenique junto ao lago que ficava próximo do castelo e se divertiram com as travessuras de Thomas. O dia estava quente, e Edward aproveitou para continuar com as aulas de natação do filho na beira do lago. Isabella observava o sorriso feliz de Thomas, que arriscava braçadas desajeitadas.
Quando a noite estava fresca, eles jantavam no terraço. Um hábito que Esme considerava como não apropriado para uma família nobre como a deles. Em uma festa na residência do tio de Edward, que estava completando setenta anos, Jasper e Dario se apresentaram como um casal. Esme alegou que não estava se sentindo bem e foi embora o mais rápido possível.
Alguns dias depois, Jasper avisou que estava retornando para Nova York com Dario. Esme ficou aliviada com a notícia. Pelo menos, o segredo poderia ficar escondido em família. Embora ela não tivesse aceitado muito bem a descoberta sobre a verdadeira natureza do filho, decidiu por fim que não lhe cortaria a mesada.
Quanto a Edward, ele prosseguiu olhando para o irmão com indisfarçada frieza.
Certa manhã, Isabella estava acomodada no sofá da sala tentando idealizar os arranjos de flores para o casamento de um primo de Edward, que havia pedido se ela poderia se encarregar da decoração do salão onde seria realizada a festa de recepção dos noivos. Maria entrou na sala e, depois de pedir desculpas pela interrupção, avisou que um homem estava pedindo para falar com ela, mas não quisera se identificar.
No instante em que a governanta terminava de dar o recado e se retirava do recinto, Isabella viu o pai entrar na sala sem esperar um convite. Charlie Gray, embora não fosse muito alto, era robusto: com a cabeça raspada e a quantidade de tatuagem que ostentava nos braços, dificilmente alguém adivinharia se tratar do pai da esposa do Conde Edward Cullen Vasquez.
— Esse lugar é mais longe do que o inferno! — berrou ele. — Eu precisei gastar uma grana para um táxi me trazer até aqui! — Ele espiou ao redor como se estivesse avaliando a riqueza que servia de decoração para a sala. — Espero que você faça valer a pena a minha viagem até esse fim de mundo!
Constrangida com a aparência do pai e abalada com sua súbita aparição, Isabella respirou fundo para conseguir manter o fôlego. Ela estava grata por Edward estar visitando a fazenda da família, pois não retornaria antes do anoitecer.
— O que você está fazendo aqui? Eu não avisei para me deixar em paz? — perguntou Isabella, erguendo-se do sofá e o encarando com o nariz empinado.
Ele a fuzilou com os olhos.
— Como se atreve a me tratar dessa maneira? Eu sou seu pai e você me deve respeito!
Isabella estava trêmula, mas não quis demonstrar fragilidade.
— Depois da maneira como você tratou minha mãe e a mim, eu tenho certeza de que não lhe devo nada! — argumentou, furiosa. — Além disso, me expulsou de casa quando eu era apenas uma adolescente! Eu e meu filho estamos seguros aqui e não vou deixar que você arruíne a nossa vida!
— Eu só quero ver se o seu marido esnobe irá mantê-la quando souber da sua origem. — esbravejou Charlie Swam. Depois, foi até a lareira, retirou do consolo uma estatueta de ouro e a examinou com atenção.
— Por favor, ponha isso de volta na prateleira! — Ela pediu alarmada. — Trata-se de uma peça antiga e muito valiosa para a família do meu marido. O pai exibiu um sorriso matreiro.
— Ela poderá render uma boa grana no mercado de antiguidades. Se você não quiser me dar mais dinheiro, eu poderei levar algumas lembranças... Você é quem escolhe!
— Não! — gritou Isabella, cruzando o tapete largo até estacar na frente dele. — Você não pode ficar com isso! - Devolva a estatueta!
O pai enfiou a estatueta num bolso da jaqueta e ameaçou:
— Ou você me entrega algumas coisas para que eu possa vender ou eu voltarei com meus capangas e roubaremos tudo o que tiver de valor nesse castelo!
— Se acontecer algum roubo no castelo, eu contarei a verdade para o meu marido!
Charlie Swam deu risada.
— Eu duvido. Você fará qualquer coisa para que o seu conde espanhol nunca fique sabendo da minha existência! Não foi você quem acertou um valor para que eu me afastasse?
— É verdade. Mas esse foi um erro que eu não pretendo repetir. Agora, me devolva a estatueta ou eu vou chamar a polícia!
— Você não ousaria chamar a polícia. — Ele afirmou com segurança.
Isabella sabia que ele tinha razão. Ela jamais chamaria a polícia. O fato de o ladrão ser seu próprio pai traria um extremo embaraço para a família.
Isabella tentou enfiar a mão no bolso da jaqueta dele para retirar a estatueta e ele reagiu com uma potente sacudida do ombro gigantesco contra o corpo frágil da filha. O impacto fez com que ela perdesse o equilíbrio e caísse de costas contra a mesa de jantar. Isabella deu um grito de dor no instante em que sentiu a cabeça se chocar com força num canto da madeira.
Ela ficou estendida no chão com uma das mãos sobre a cabeça para aliviar a dor do inchaço que se instalou instantaneamente onde acontecera a pancada. O barulho chamou a atenção dos criados, que se apressaram em entrar na sala para saber o que estava acontecendo.
Minutos depois, Edward ajudava Isabella a se erguer do chão e se acomodar no sofá.
— O que aconteceu?—perguntou Edward, alarmado.
— Esse é meu pai e ele estava me ameaçando. Ele guardou a estatueta de ouro no bolso da jaqueta, e quando eu tentei pegá-la de volta, ele me empurrou e eu bati com a cabeça na beirada da mesa.
— Espere aí! Eu não tinha intenção de feri-la. — Defendeu-se o pai.
Edward caminhou até o homem e estendeu a mão.
— Entregue-me a estatueta. — Ordenou em tom autoritário.
Charlie Swam retirou a estatueta do bolso e, com as feições contrariadas, depositou o objeto na palma da mão de Edward.
— Agora saia da minha casa antes que eu chame a polícia. E nunca mais volte aqui. Entendeu?
Edward chamou dois seguranças através do celular, e os homens se incumbiram de levar Charlie Swam para fora do castelo.
— Como você ficou sabendo do que estava acontecendo aqui? — Isabella perguntou para o marido assim que viu o pai ser levado para fora da sala.
— Maria ficou assustada quando o viu irromper na sala e estava com medo de que pudesse acontecer algo ruim com você. Por isso, ligou para o meu celular.
— Acho que você nunca irá me perdoar por nunca ter contado para você como era o meu pai. — murmurou Isabella enquanto Edward sentava-se ao seu lado e examinava-lhe o ferimento na cabeça. — Acontece que, quando nos conhecemos, já fazia muito tempo que eu não via meu pai e achei melhor dizer que ele estava morto do que ter que lhe contar toda a história.
Edward deu um suspiro.
— Eu posso entender as suas razões.
— Meu pai não passa de um criminoso inveterado. — Ela começou e então contou toda a história de sua infância infeliz e a maneira como ela o expulsara de casa quando ainda era apenas uma adolescente.
— Então você conseguiu um emprego decente e construiu sua independência — concluiu ele. — Eu sempre desconfiei que houvesse coisas da sua infância que você preferia não me contar. Mas eu nunca me importei com isso. Para mim, nunca foi essencial saber a respeito de como eram seus pais.
— Verdade?
— Claro que é verdade. Para mim, só você era importante. Os fins de semana que passamos juntos na casa que eu aluguei perto do hotel onde você trabalhava foram os dias mais felizes da minha vida. E eu sabia que não poderia mais viver sem ter você ao meu lado.
— Mas você vivia ligando no último instante para desmarcar um encontro e, às vezes, nem mesmo ligava.
— Eu me arrependo de ter agido daquela maneira com você. O problema era que eu estava lutando comigo mesmo para negar o que eu sentia por você. Eu não estava pronto para um compromisso. Depois de ter presenciado a obsessão do meu pai pela sua segunda esposa, eu prometi a mim mesmo que nunca me apaixonaria por ninguém.
— Mas a diferença social entre nós o aborrecia.
— Apenas no início. Porém, o ciúme que senti quando vi você ao lado de outro homem me fez compreender o quanto eu precisava de você na minha vida. Você era a única mulher que conseguia me completar em todos os sentidos.
— Eu achava que você só estava interessado em sexo e nada mais.
— Se fosse apenas sexo, seria fácil lidar com isso. E, no princípio, eu não sabia que você representava a minha verdadeira alma gêmea. Quando descobri que desejava você comigo todos os dias da minha vida e não apenas nos fins de semana em que eu pudesse viajar para Londres, foi quando decidi pedi-la em casamento.
— Você nunca me disse que precisava de mim dessa maneira.
— Eu sempre fui orgulhoso demais para compartilhar meus verdadeiros sentimentos. Por isso, me sinto culpado por você não ter tido a coragem de me contar a respeito do seu pai.
— Você não precisa se culpar por isso. Antes de conhecê-lo, eu já estava acostumada a dizer que meus pais eram falecidos para as pessoas que me perguntavam sobre eles. E a razão de eu ter sacado todo aquele dinheiro no início do nosso casamento foi para pagar a chantagem do meu pai. Ele havia me ameaçado de comparecer aos jornais e revelar a verdade para embaraçar você.
— Eu jamais ficaria embaraçado por causa disso. Se ele quiser contar para todo o mundo que é seu pai, eu não dou a mínima para isso. — respondeu Edward, muito seguro de si.
— Eu achava que você me rejeitaria se soubesse que meu pai era um criminoso.
Edward segurou-lhe as mãos e afirmou:
— A única coisa que eu quero de você é que confie em mim e me conte a verdade sempre que se sentir ameaçada. Seja como for.
— Você deve estar aborrecido por eu ter desperdiçado todo aquele dinheiro com a chantagem do meu pai em um momento tão crítico da sua vida.
— Você era ingênua e não confiava em mim. Eu também não era um modelo de marido naquela época para lhe oferecer a segurança que você precisava para poder confiar em mim. E o seu pai se aproveitou disso.
— Além do problema com Jasper, meu pai também representou um motivo para que eu saísse da Espanha. Ele nunca me daria sossego agora que sabia onde eu estava. Por isso, eu achava que a melhor coisa a fazer era me afastar para um lugar onde ninguém me encontrasse.
— A melhor coisa que teria feito seria a de ter confiado em mim. E eu nunca mais permitirei que alguém a magoe novamente. — falou Edward com convicção. — E prometo também mudar meus hábitos de não compartilhar os sentimentos com você. Essa foi uma das principais razões que prejudicou nosso casamento.
Isabella ergueu os olhos para o belo rosto do marido e aproximou os lábios para beijá-lo. Ele hesitou por um instante, depois retribuiu o carinho com tanto furor que Isabella precisou interromper o beijo para poder respirar.
Com o coração acelerado, ela confessou:
— Eu estava começando a pensar que você nunca mais iria querer me beijar dessa maneira.
— Eu estava apenas me prevenindo para não aceitar outras imposições.
Ela ficou confusa.
— Do que você está falando?
— Do período de três meses que concordamos como experiência para saber se valia a pena dar uma nova chance para o nosso casamento. Ele termina nessa semana, e como você estava agindo de maneira estranha ultimamente, eu pensei que estivesse pensando em voltar para a Inglaterra e iniciar um pedido de custódia do nosso filho. Isabella ergueu as sobrancelhas com surpresa.
— Meu Deus! Eu havia me esquecido completamente do nosso acordo de três meses de experiência!
— Você havia se esquecido? — perguntou ele, incrédulo. — Como poderia ter-se esquecido se você mesma propôs esse acordo? E eu estava tão preocupado por ter sido estúpido e aceitado essa imposição!
— Em vez de se preocupar com isso, eu acho que deveria se preparar para me tolerar pelo resto da vida, porque eu não quero ficar com você por três meses, e sim, para sempre.
— Para sempre? — repetiu ele, quase não sem acreditar no que estava ouvindo.
— Sim. Para sempre. Exatamente como nos fins felizes dos contos de fadas.
— Isso era tudo o que eu sempre esperei ouvir. — confessou Edward com a voz enrouquecida. — Você é a mulher da minha vida, Isabella. A mulher que eu amo e sempre amarei.
— Você nunca admitiu o seu amor por mim.
— Porque eu era um tolo orgulhoso. Também porque nunca fui muito bom com as palavras. Mas por que eu teria me casado com você se não a amasse? Estava certo que éramos como dinamite na cama, mas seria preciso muito mais que isso para suportar um casamento. Por isso, eu fiquei arrasado quando você me abandonou.
— Talvez o mal tenha vindo para o bem. — Isabella argumentou. Os olhos da cor da violeta inundado de lágrimas. — Eu precisava aprender muita coisa. Era imatura demais para saber lidar com um homem como você.
— Eu sabia que você era jovem demais para enfrentar um casamento, mas eu não conseguiria esperar por mais tempo. Eu nem mesmo consegui esperar o tempo suficiente para que uma festa de casamento fosse organizada da maneira correta. Eu estava contando os dias para poder trazê-la comigo para a Espanha. Foi por isso que eu optei por uma cerimônia simples e rápida na Inglaterra.
Pela primeira vez, Isabella acreditava na sinceridade das palavras dele, e um sorriso feliz iluminou-lhe a face.
— Nosso casamento foi mesmo apressado — concordou Isabella.
— Mas com a melhor das intenções. — Ele fez questão de salientar. — Portanto, nunca mais ouse me abandonar.
—Prometo que nunca mais farei isso. — respondeu ela, com um sorriso. Então, se lembrou de perguntar: — Enquanto estivemos separados, você teve outras mulheres?
— Não. Eu dizia a mim mesmo que iria esperar até que estivesse legalmente divorciado. Principalmente porque eu ainda a amava muito e não sentia vontade de estar com nenhuma outra mulher.
— Eu também nunca senti desejo de estar com outro homem que não fosse você. — Ela admitiu, antes mesmo de ser perguntada.
Ele tomou-lhe o rosto entre as palmas enormes e pediu:
— Nunca mais me abandone, meu amor.
— Eu não vou a lugar algum que não seja onde você estiver.
— Falando em ir para algum lugar, você não acha que deveríamos comparecer a uma clínica, para que o médico examine esse ferimento?
— Não é preciso. Trata-se apenas de um pequeno inchaço. Logo desaparecerá. O que eu preciso mesmo é...
— O que eu estou ansioso para lhe proporcionar, minha querida. —Ele falou com entusiasmo enquanto se levantava do sofá e a erguia nos braços para levá-la para o quarto.
Algumas horas depois, enquanto relaxavam abraçados depois de terem feito amor de maneira apaixonada, Edward revelou:
— Será que esse é o momento certo para dizer que eu não usei um preservativo?
Isabella analisou por um instante as probabilidades de uma nova gravidez e respondeu com um sorriso:
— Suponho que não, porque eu também me esqueci de lhe cobrar essa obrigação.
— Eu adoraria ter mais um filho com você. — revelou Edward com ternura na voz.
Ela se aninhou no peito dele e confessou:
— Eu também adoraria que isso acontecesse.
— Bem, se não der certo dessa vez, poderemos continuar tentando. — Lançou-lhe um olhar cobiçoso para o corpo esbelto da esposa e gracejou: — Terei muito prazer em tentar engravidá-la outra vez.
— E eu vou adorar que você prossiga tentando. — devolveu Isabella no mesmo tom jocoso.
— Eu estava pensando que esse seria o momento ideal para planejarmos uma segunda lua de mel. Poderíamos ir para algum hotel no litoral. Thomas vai adorar brincar nas areias da praia.
— Eu te amo muito, Edward Cullen Vasquez. — Isabella declarou abraçando o peito largo do marido.
— Não tanto quanto eu a amo, minha vida! Você e Thomas representam o meu mundo. Sem vocês, eu não seria nada.
Envolvida em uma nuvem de felicidade e deixando para trás todos os aborrecimentos e medos, Isabella o beijou com uma ternura infinita.
