NA: Não sou judia, não sei como funcionam as tradições judias, mas de acordo com o google, dia 27 de novembro de 2013 é o inicio do Chanukah e eu quero que essa história pareça pelo menos um pouco realista, apesar de tudo... :P
Enfim, só para avisar, temas meio profundos são trazidos a tona nesse capítulo, eu chorei escrevendo um pedaço dele (o que não é muito normal, mas eu estava em sintonia com a Quinn, acho..). Os próximos serão mais leves...
Boa leitura!
=)(=
Elas pararam no Lima Bean para um café e já era fim de tarde quando finalmente viravam a esquina na antiga casa da loira. Elas conversavam animadamente sobre coisas aleatórias quando, atravessando a rua, passaram por uma senhora de idade, elegantemente vestida e com os cabelos brancos presos para trás em um coque firme e livre de falhas. Os olhos azuis da mulher encontraram os de Quinn e se arregalaram quase que imperceptivelmente antes de percorrerem o corpo dela, analisando cada milímetro.
O sorriso de Quinn desapareceu por um momento e ela cumprimentou a senhora educadamente, recebendo um aceno de cabeça cordial em resposta. A violoncelista seguiu a mulher com os olhos e a viu desaparecer dentro da casa de tijolos sem olhar para trás uma única vez.
"Quem era aquela?" Perguntou a morena, selecionando a chave da sua porta da frente no meio das outras em seu chaveiro de estrelinha.
"Minha avó..." A voz de Quinn estava destituída de qualquer emoção e a própria violoncelista não tinha certeza do que sentia naquele momento.
Rachel parou de andar e olhou para sua amiga em surpresa. "Su-sua avó? Há quanto tempo vocês não se..?"
"Cinco anos." A loira não esperou que ela terminasse a pergunta. "Eu não acho que ela goste muito de mim, pelo menos não desde... Desde que eu fiz a minha tatuagem." Ela passou os dedos pelo pescoço conscientemente.
"Quer falar sobre isso?" Rachel tentou esconder a ansiedade em sua voz. Ela não sabia muito sobre o passado de sua amiga, mas desde a chegada em Lima ela havia começado a aprender um pouco mais.
"Agora não." Quinn mordeu o lábio. Ela sabia que precisaria falar para Rachel mais cedo ou mais tarde, mas aquele não parecia o momento ideal.
A cantora concordou com a cabeça. Por mais curiosa que estivesse, ela não iria pressionar.
...
Tudo o que Quinn queria fazer era chegar à casa dos Berry e ir para o quarto de hospedes, ficar um pouco sozinha e talvez ligar para Noah, mas ao invés de encontrar a casa vazia como elas esperavam, as duas meninas se depararam com o som de música em uma língua estranha aos ouvidos da loira. Rachel franziu a testa quando um cheiro familiar de fritura invadiu suas narinas.
A morena imediatamente atravessou a porta que levava a cozinha, encontrando seus pais cozinhando e cantando em hebraico. Seus olhos se arregalaram e sua boca se abriu. "Hoje é... Que dia é hoje?" Ela perguntou para Quinn, que havia parado atrás dela.
"Humm, 27 eu acho..." Respondeu a loira, seus olhos caíram na mesa já arrumada e nos dois pacotes de presente idênticos no lugar aonde seu prato e o de Rachel deveriam estar.
"Eu esqueci totalmente!" Ela exclamou, cobrindo a boca com as mãos.
"Eu disse que ela ia esquecer!" Riu Leroy, parando de cantar e beijando os lábios de seu marido antes de envolver Quinn e Rachel em um abraço apertado. "Feliz Chanukah, estrelinha." Murmurou ele contra os cabelos castanhos de sua filha.
"Tão ocupada com a vida em Nova York, não tem mais tempo para se preocupar com tradições familiares..." Hiram se aproximou e entrou no abraço em grupo também.
Eles se afastaram e Rachel se voltou para sua amiga, lhe oferecendo uma explicação. "Hoje é a primeira noite do Chanukah, a festa das luzes, é como o..."
"Natal dos judeus." Completou Quinn. Ela conhecia a festa e sabia que iria ser naquela semana, Puck havia comentado sobre voltar pra casa e estender o feriado para as oito noites para poder ficar com sua mãe.
"É." Rachel sorriu. "É tradição da nossa família trocar pequenos presentes todas as noites, pequenas lembranças, sabe? Nós celebramos o natal também, então deixamos o consumismo para o dia 25 de dezembro." Ela se voltou para seus pais. "Mas eu totalmente esqueci esse ano e não tenho nada pronto para vocês..." Ela murmurou, sentindo-se um pouco envergonhada por ter esquecido.
"Você está aqui com a gente estrelinha... Isso já é o melhor presente que poderíamos ganhar." Disse Hiram, beijando a ponta do nariz dela e a envolvendo em mais um abraço.
Quinn desviou os olhos, sentindo-se fora de lugar ao testemunhar tanto carinho naquela família.
Elas foram forçadas a sentar enquanto os homens terminavam o jantar de pratos típicos (nem todos vegan, mas a cantora sempre abria uma exceção durante o Chanukah). A loira encarou a caixa branca com um laço dourado em sua frente.
"É pra você, querida." Sorriu Hiram. "Você pode abrir se quiser."
"Mas eu nem sou judia..." Ela murmurou, sem saber o que mais dizer.
"Mas você é amiga da nossa estrelinha." Declarou Leroy, colocando alguns pratos na mesa.
"Você é quase da família, Quinn." Disse o outro homem, ainda sorrindo.
Rachel concordou, desfazendo o tope de seu próprio presente.
"Obrigada..." Disse Quinn, sentindo lagrimas lhe encherem os olhos. Era tão estranho saber que era querida em algum lugar. Seus dedos percorreram a fita dourada e ela puxou com cuidado antes de levantar a tampa, revelando uma manta cor de creme.
O tecido era impossivelmente macio e suave, o padrão da trama era cheio de volteios, dando uma aparência elegante a peça. Ela olhou para o lado e viu que Rachel segurava uma manta igual a sua, porém em um tom de amarelo forte.
"É linda... Obrigada." Disse ela, apertando o material sedoso em suas mãos.
"Não foi nada, querida." Sorriram os dois homens.
"Você fica bem de amarelo." Comentou Quinn, olhando para sua amiga que havia enrolado a manta em volta do pescoço. "Eu gosto quando você usa coisas coloridas."
Rachel mordeu o lábio, seu endereço não foi a única coisa que mudou quando ela foi para NY, suas roupas coloridas haviam sido substituídas por peças pretas ou de cores escuras. Parte dela sentia falta do xadrez e das bolinhas.
Ela ia dar uma resposta que acabou se perdendo quando seus pais começaram a colocar a comida na mesa e ela se viu explicando os pratos e tradições para a loira. Depois do jantar, os quatro se reuniram em volta da lareira e acenderam a primeira das oito velas do Chanukah. Os Berry recitaram algo em hebraico que Quinn não entendeu e então Leroy sentou ao piano e começou a tocar mais musicas estranhas e desconhecidas e Rachel e Hiram cantavam alegremente.
A morena segurou a mão da loira no começo, trazendo-a para perto da família e até cantando para ela, mas chegou um ponto no meio da noite em que a violoncelista não aguentou mais. Por mais que os Berry tentassem incluí-la na comemoração, ela ainda se sentia errada, como se não pertencesse àquele lugar, como se não tivesse direito de estar no meio de uma família que não era a sua.
E ver aquelas pessoas interagindo tão naturalmente, tão carinhosamente... Ela sentia inveja. E se sentia muito mal por invejar aquilo que Rachel tinha. A loira nunca havia visto seus pais agirem daquela forma, os Fabray sempre foram muito cordiais e restritos e ela simplesmente não sabia o que fazer, ou como se comportar. Era angustiante.
Ela observava Leroy tocar enquanto Hiram e Rachel se acomodaram no sofá ao lado da poltrona que ela ocupava. O homem mais baixo abraçou sua filha e depositou um beijo em sua testa. Quinn se levantou e saiu da sala silenciosamente quando a cantora retribuiu o abraço de seu pai com um sorriso.
...
Alguns minutos se passaram até que Rachel percebesse que sua amiga havia desaparecido. Seus instintos diziam que ela deveria ir atrás dela, mas por outro lado, talvez a loira só tivesse ido ao banheiro, ou algo assim, então ela continuou sentada com seus pais, cantando, conversando e relembrando momentos passados.
Hiram foi o primeiro a bocejar e logo sua filha e marido o imitaram. Os dois homens deram boa noite e foram se deitar, a morena subiu para o próprio quarto, esperando encontrar Quinn já dormindo em sua cama, mas a loira não estava em lugar algum. Ela decidiu vestir o pijama e escovar os dentes antes de procurar pela violoncelista. O quarto de hospedes estava vazio, exceto pela mochila e violoncelo, além de algumas partituras espalhadas pela cama e anotações na letra fluída e já familiar.
O banheiro do corredor também estava deserto e a cantora desceu as escadas de pés descalços, entrando na cozinha e finalmente abrindo a porta da varanda, encontrando sua amiga escorada contra uma coluna de madeira, fones de ouvido nas orelhas, um Ipod em uma mão e um cigarro pela metade na outra.
A loira tragou distraidamente, olhando para frente, quando Rachel puxou o fio branco de seus fones. "Está frio." Disse ela, notando os arrepios nos braços expostos da violoncelista, que usava um vestido azul escuro com um cardigã amarelo mostarda por cima, por algum motivo, as mangas do casaquinho estavam arregaçadas, como se Quinn quisesse sentir o frio.
"Eu não queria voltar para casa cheirando a cigarro. Sei que você odeia."
A morena parou ao lado dela e passou uma mão gentil por suas costas. Ela sabia que Quinn só fumava quando algo ruim acontecia, ou quando estava triste ou nervosa. Elas ficaram em silencio e quando Rachel achava que seu nariz ia cair com o frio, a loira finalmente disse:
"Eu quero falar agora." Ela ainda olhava fixamente para as luzinhas de natal na casa do vizinho e deu uma ultima tragada forte no cigarro antes de apaga-lo em uma pocinha d'agua que se formava no beiral da varanda (havia nevado um pouco durante a tarde).
"Ok..." Respirou a cantora, vendo a fumaça sair dos lábios partidos de sua amiga. Sua própria respiração se condensava em fumaça. "Será que pode ser lá dentro? Eu não quero te ver doente.."
A loira concordou e seguiu Rachel até o quarto. A morena fechou a porta silenciosamente e parou em frente a Quinn, passando as mãos para cima e para baixo nos seus braços, tentando aquece-la um pouco.
"Você pode me contar qualquer coisa, Quinn." Disse ela suavemente. "E eu vou entender se não quiser falar nada também."
A loira passou uma mão por seus cabelos levemente ondulados e olhou para o tapete de teclado aonde tinha dormido na noite anterior. "Eu não sei por onde começar..." Ela só sabia que precisava conversar com alguém sobre isso e provavelmente a pequena morena não fosse entender, mas elas eram amigas e Quinn sabia que ela não julgaria.
Ela fechou os olhos e de repente não estava mais no quarto de sua amiga, mas sim de volta a Minnesota, andando pelos corredores de seu antigo colégio. Seus cabelos longos estavam presos firmemente em um rabo de cavalo e as tiras da saia de seu uniforme azul de Líder de Torcida batiam contra suas pernas enquanto ela caminhava.
"Eu tinha tudo..." Ela murmurou, mesmo de olhos fechados ela podia sentir o olhar de Rachel em seu rosto. A mão da morena apertou seu cotovelo. "Eu era capitã das líderes de torcida, tinha as melhores notas da minha turma, namorava o capitão do time de Hockey, meus pais tinham orgulho de mim e meus colegas me respeitavam." Ela inspirou profundamente.
"Eu não era exatamente legal com as pessoas, na verdade, quase todos tinham medo de mim. Não me leve a mal..." Disse ela, abrindo os olhos e encontrando os castanhos. Rachel a olhava como se a ouvisse de verdade, quase como se entendesse o que a loira dizia. "Eu precisava me proteger, e amedrontar os outros era minha defesa contra aquilo que não conseguia entender. Contra as coisas que não queria sentir."
"E até o final do segundo ano (na: são 4 nos EUA), o mundo parecia girar ao meu redor e nada dava errado, e então vieram as férias de verão. Meu namoro não estava muito bem, Owen e eu brigávamos o tempo todo por qualquer coisa. Tudo nele me irritava, sua voz grossa demais, o pelo no rosto dele, o cheiro, a altura, o modo como as mãos dele me agarravam e seus beijos..." Ela fez uma careta. "Eu passava mal toda a vez que ele me beijava. E então, duas semanas antes da volta as aulas, Noah deu uma daquelas festas para os garotos populares e meu namorado me arrastou para lá contra a minha vontade. Eu detestava aquelas festas cheias de gente falsa bebendo até vomitar."
"Ele ficou bêbado com três cervejas e tentou me levar para um quarto. Eu era virgem na época e me neguei a fazer qualquer coisa com ele. Owen começou a gritar no meio da sala dos Puckerman, pedindo qual era o problema comigo, por que qualquer outra menina estaria louca pra dar pra ele a qualquer momento. E que ele estava cansado de contar vantagens para seus amigos sobre coisas que nós não fazíamos de verdade. Ele me beijou a força e eu dei um tapa naquela cara horrenda, mandei ele ir foder com alguma das outras lideres de torcida e me tranquei num banheiro."
"Imbecil..." Murmurou Rachel, fazendo Quinn sorrir um pouquinho.
Em algum momento durante a história, elas haviam sentado na cama e a loira aproveitou para tirar suas botas antes de continuar.
"Alguém tinha deixado meia garrafa de tequila no chão do lado do vaso e eu comecei a beber, sem pensar no que fazia. A princípio, a bebida não parecia estar fazendo nada e eu não me senti diferente, só com mais raiva, a ponto de me permitir chorar por causa daquele idiota." Ela trincou os dentes. "Então eu levantei e percebi o quanto estava tonta. Me apoiei na pia e esperei minha visão clarear antes de voltar pra festa, determinada a ir embora. Só que quando sai do banheiro, encontrei o Owen de novo e ele não estava sozinho, mas também não estava com uma das lideres de torcida como eu imaginava que estaria. Ele estava escorado na parede, enfiado a língua na garganta da Angie..."
"Quem é essa?" Perguntou Rachel, de frente para a loira que escorava as costas na cabeceira da cama.
"Uma menina do nosso ano, Angela... Acho que posso dizer que ela era neutra, sabe? Aquela menina que não têm inimigos e se dá bem com todo mundo?"
A cantora concordou.
"Ela era tão bonita e tão querida o tempo todo e eu acho que tinha uma quedinha por ela naquela época por que quando vi os dois ficando no meio do corredor, tudo o que conseguia sentir era ciúmes e definitivamente não por causa do Owen. Então eu senti confusão e nojo de mim mesma por que o que sentia ia contra tudo aquilo o que acreditava." Sua mão percorreu a cruz de ouro que pendia de seu pescoço. "Eu entrei no primeiro quarto que vi e Noah estava lá, ficando com uma guria aleatória perto da porta. Eu estava tão bêbada e... Com tanta raiva de mim mesma... Eu precisava apagar a imagem do Owen e da Angie da minha cabeça e até hoje eu não lembro direito o que aconteceu, só sei que agarrei a menina que estava com Puck e a enxotei para fora do quarto, tranquei a porta e..." Ela parou de falar, sentindo seu rosto esquentar em vergonha.
Rachel já imaginava o que sua amiga poderia lhe dizer a seguir, mas ficou em silencio, esperando que ela continuasse.
"Eu perdi minha virgindade naquela noite. E nem sei se foi bom ou ruim, não lembro de nada depois do primeiro beijo que trocamos, só de acordar ao lado dele na manhã seguinte, ajuntar minhas roupas do chão e voltar a pé para casa. As aulas voltaram e foi como se nada tivesse acontecido. Quero dizer, eu e Owen tínhamos terminado e ele continuava ficando com Angela, mas fora isso, nada havia mudado. Até que mudou." Ela mordeu o lábio e olhou para Rachel, com receio de continuar sua história, com medo do que sua amiga poderia pensar. Mas a morena continuava lhe dando total atenção com aquele mesmo olhar afetuoso de sempre, então ela tomou coragem e continuou:
"Eu desmaiei na segunda semana de aula durante um treino das líderes de torcida e depois daquele dia, comecei a passar mal todas as manhãs. Eu vomitava e me sentia tonta, mas não falei nada para ninguém. Não tinha ninguém com quem falar. Então minha menstruação não veio na semana em que deveria vir e eu..." Ela abaixou a cabeça para os próprios dedos, fugindo do choque estampado no rosto de sua amiga.
"Um mês depois daquela noite na casa do Puck, Angela veio falar comigo, ela disse que Owen a havia pedido em namoro, mas ela não queria aceitar se eu ainda tivesse algum problema com isso. Respondi que ela não podia ficar com ele. Ela pareceu magoada e perguntou por que e... Angie foi a primeira pessoa para quem eu contei que estava grávida."
Rachel não conseguiu conter o som de surpresa que escapou de sua garganta e Quinn fechou os olhos, sentindo vontade de chorar. A diva passou uma mão por suas costas e a trouxe para perto em um abraço. "Quinn..." Ela sussurrou contra seu ouvido.
"Eu menti pra ela, Rachel. Eu não queria que ela ficasse com Owen, então disse que ele era o pai. Ele ficou sabendo e, mesmo que a gente nunca tivesse feito nada, consegui fazer com que ele acreditasse que tinha me engravidado..."
"Ele realmente era um idiota, não é mesmo?" Perguntou Rachel, tentando amenizar a tensão que havia caído sobre elas. Quinn deu uma risadinha e concordou com a cabeça, deslizando pela cama e deitando de barriga para cima, seu vestido subiu até o meio de suas coxas, mas a loira não se moveu para ajeitá-lo. Ela olhou para o teto antes de continuar.
"O único problema era que Puck e Owen eram melhores amigos, colegas de equipe e contavam tudo um para o outro. Logo, Noah ficou sabendo e foi me procurar. Ele ameaçou contar a verdade, mas eu não podia deixar aquilo acontecer. Se Owen descobrisse, a escola inteira ficaria sabendo e eu não podia arriscar perder tudo. Implorei pra que ele ficasse quieto e por um tempo, ele realmente não se intrometeu nas nossas vidas."
"Eu já estava completando três meses e minha barriga estava começando a se fazer notar quando ele entrou em uma briga com Owen, no meio do corredor da escola para todo mundo ouvir. Ele disse que Owen nunca iria ser um bom pai e que ele não sabia cuidar de mim como eu merecia ser cuidada... Não lembro exatamente as palavras por que fui uma das ultimas pessoas a chegar na cena, só sei que naquele dia a escola inteira ficou sabendo que eu estava grávida e que Puck era o pai."
Rachel deitou de lado ao lado de sua amiga e passou um braço por seu abdômen em um meio abraço, fazendo Quinn virar a cabeça em sua direção.
"Eu e Noah meio que viramos um casal por um tempo. Eu fui expulsa da equipe e comecei a ser tratada pior do que lixo. Eu era invisível, era como se ninguém se desse ao trabalho de notar a minha presença dentro da escola. Por um lado, não ter mais que usar aquele uniforme me ajudava a esconder a barriga de meus pais, sabe?"
A morena não sabia, mas concordou mesmo assim.
"Puck queria ficar com o bebê, ele começou a trabalhar em uma loja de utilidades domésticas para poder pagar minhas contas médicas. Eu não sabia o que queria, ou o que iria fazer. Estava vivendo um dia de cada vez, tentando esconder a verdade dos meus pais pelo maior tempo possível. Então tudo começou a acontecer muito rápido, nós fomos fazer uma ecografia no começo do quarto mês e a medica disse que iria ser uma menina."
"Eu não tinha certeza se queria aquele bebê, mas saber que iria ser uma menininha me deixou tão feliz e eu percebi que queria ficar com ela e talvez, Puck e Beth – esse era o nome que ele queria dar para ela." Explicou a loira, sorrindo involuntariamente. "Talvez nós pudéssemos formar uma família... Eu cheguei em casa naquele dia e pela primeira vez desde que o teste de farmácia havia dado positivo, me senti segura, como se nada de ruim pudesse acontecer. Lembro de entrar em meu quarto e me deparar com minha mãe, sentada na minha cama segurando algo preto nas mãos. Ela olhou para mim e ela estava tão desapontada, Rach..."
A voz da loira quebrou e Rachel apertou sua lateral, fazendo-a deitar de lado também. Olhos esverdeados encontraram os castanhos e lágrimas silenciosas escorreram por sua face, se acumulando na fronha sob sua cabeça.
"Ela... Ela me mostrou uma foto do meu último ultrassom que havia achado embaixo do meu travesseiro e perguntou o que era aquilo e eu não tive escolha senão contar para ela e ela me abraçou e pareceu entender. Ela disse que ia falar com meu pai e que eles iam dar um jeito e eu acreditei nela, me senti aliviada por finalmente não precisar mais esconder." Ela fungou e Rachel usou o polegar para secar a umidade em volta de seus olhos gentilmente.
"Eu cheguei em casa no dia seguinte para encontrar os meus pais brigando no meio da sala, meu pai gritava coisas incoerentes para a minha mãe e levantou a mão para ela quando percebeu que eu estava parada na porta. Então a raiva dele se voltou para mim e os olhos azuis dele ficaram ainda mais frios do que o normal. Ele disse que eu tinha dez minutos para juntar minhas coisas e sair da casa deles."
Rachel expirou, percebendo que havia prendido a respiração e alcançou pelas mãos de Quinn, segurando-as contra o peito enquanto esperava pelo que ela achava que seria o final da história. Ela nunca havia imaginado que sua amiga pudesse ter passado por coisas assim e pela primeira vez em algum tempo, se encontrou sem palavras.
"Ele estava furioso e eu estava com tanto medo. Minha mãe parecia aterrorizada e eu sabia que ela não iria fazer nada para me ajudar, então não discuti e subi para o meu quarto, juntando algumas roupas antes de fazer o que meu pai pedia e ir embora. Fui para o único lugar que pude pensar e Noah me abraçou e me deixou chorar. Ele disse que eu podia ficar com ele e naquela noite, contamos para sua mãe sobre a gravidez. Ela ficou chocada, mas permitiu que eu dormisse lá e..." Ela mordeu o lábio, tentando conter mais uma onda de choro. "Eu estava tão quebrada, Rach. Em alguns meses eu consegui perder tudo o que tinha e quando eu achava que nada poderia ficar pior..."
"Fica pior?" Perguntou a morena, um pouco incrédula, sem acreditar que pudesse ficar pior do que aquilo.
"Duas semanas depois eu vi meu pai no mercado e saí correndo de lá, com medo que ele me visse e tentasse fazer alguma coisa comigo. Eu passei mal no meio do caminho de volta para a casa do Noah e fui parar no hospital com um sangramento intenso." A loira começou a tremer por causa do esforço que fazia para terminar a história sem ter uma crise de choro. "Eu fiz todo o tipo de exame e a minha medica tentou dizer que estava tudo bem, mas quando ela fez a ecografia, tanto eu quanto Noah sentimos falta de uma coisa. O coração da nossa filha, o som dos batimentos cardíacos que tínhamos escutado todas as outras vezes, não estava mais lá." Ela soluçou, não aguentando mais, dobrando as pernas e abraçando o próprio corpo. "Minha filha estava morta, Rachel... Ela estava dentro de mim, mas não estava mais lá, a vida dela tinha ido embora e..." A morena a abraçou com força, forçando sua cabeça contra seu ombro até que Quinn relaxou. A loira tremia desesperadamente, seu corpo inteiro chacoalhava em soluços e ela não conseguia mais falar. A própria Rachel havia começado a soluçar contra os cabelos loiros.
Ela depositou beijinhos por todo o rosto da violoncelista, tentando acalma-la enquanto murmurava palavras tranquilizadoras. "Eu estou aqui... Já passou... Sinto muito... Quinn... Eu te amo... Vai ficar tudo bem..." Ela pressionou os lábios contra a testa da loira e os manteve ali até que sua amiga se acalmou o suficiente para voltar a falar.
"A med-ica mand-ou fazer mais alguns, alguns..." Ela respirou tremulamente, levantando a cabeça do ombro de sua amiga e tentando se ancorar nos olhos escuros a sua frente. "Eu perdi minha filha." Ela falou finalmente, em um sussurro muito baixo. "Eles tiveram que tirar ela de dentro de mim, Rachel. Eu não pude conhecê-la e não pude me despedir." Elas ficaram em silencio por alguns longos minutos enquanto Rachel acariciava seus cabelos e ocasionalmente, beijava as lagrimas que ainda escorriam de seus olhos. "Eu sentia como se tivesse morrido com Beth, como se ela tivesse levado consigo tudo o que havia dentro de mim. Continuei morando com os Puckerman por mais de um mês depois disso e então minha mãe ficou sabendo o que havia acontecido e foi atrás de mim." Ela suspirou e fechou os olhos.
"Ela disse que meu pai tinha ido embora e que ela me queria de volta. Acabei deixando que ela me levasse para casa, mas minha vida mudou drasticamente do que era antes daquele festa com Puck. Eu passava os dias trancadas no quarto, foi quando comecei a tocar violoncelo... Eventualmente, antes do ultimo ano do ensino médio, meu pai voltou para casa e foi quando eu me rebelei, pus um piercing no mamilo, outro no lábio, cortei os cabelos e pintei-os de rosa. Também foi quando comecei a fumar, entre outras coisas..."
"O que fez você.. voltar ao...?" Começou Rachel, sem saber como terminar a pergunta.
"Eu passava o meu tempo livre na escola dentro da sala de música, brincando com os instrumentos e me afogando em música, por assim dizer. Não queria ficar perto de pessoas, sabendo que elas iriam olhar para mim com pena, ou me julgar por aquilo que havia feito. O que me fez sair do estado de entorpecimento foi Angie..." Ela mordeu o lábio. "Ela brigou comigo na realidade, disse que eu tinha que parar de usar máscaras e que eu podia ser quem eu quisesse ser. E que se viver naquele lugar no meio daquelas pessoas estava me fazendo tão mal, a única coisa que eu podia fazer era me esforçar ao máximo para sair de lá."
"Ela tinha razão. Voltei a ser loira, tirei o brinco que ficava na minha boca, mudei todo o meu guarda-roupa contraditório que antes consistia em coisas pretas e rasgadas do meu momento punk e vestidos superdelicados que minha mãe havia me dado antes de me deserdar. Comprei coisas mais normais e neutras e acabei entrando para a banda com o único objetivo de sair daquela cidade. Eu precisava fugir de lá o quanto antes e a música era minha única chance." Ela coçou o nariz com as costas da mão. "E deu certo. Fui aceita em diversas universidades, inclusive Julliard, mas acabei optando pela NYU, que me ofereceu uma bolsa total." Rachel arqueou as sobrancelhas. Ela não sabia que Quinn era bolsista. "Eu queria depender o mínimo possível do meu pai... E é por isso que eu não os visito, ou falo sobre a minha família. Por isso que eu não via a minha avó há mais de 5 anos e por isso ela me tratou como uma estranha... Eles também não me consideram mais parte da família. Por mais que meu pai tente fingir que está orgulhoso por eu ter entrado em uma faculdade prestigiada e tudo o mais..."
Rachel ficou quieta, absorvendo toda a historia que havia acabado de ouvir, seus olhos percorreram o rosto da loira e sua mão foi parar na nuca dela, seus dedos contornaram a tatuagem sem ver. Quinn fechou os olhos, sentindo-se sonolenta em função da carícia em seu pescoço.
"E a tatuagem?" A morena perguntou quietamente.
"Alguns dias antes da minha mãe ir me buscar na casa dos Puckerman, Noah e eu fomos para um estúdio de tatuagem. Nós precisávamos de algo concreto para elaborar a perda da nossa filha, eu acho..." Seus olhos se encheram de lágrimas mais uma vez. "Essa música," Disse ela, alcançando pelos dedos da cantora em sua nuca. "Puck costumava cantar para mim depois que Owen descobriu a verdade. Ele estava tocando essa música no violão quando Beth se mexeu pela primeira vez... Eu quase não senti na verdade, foi como uma cosquinha de dentro para fora... Eu não sei explicar, eu já estava entrando no quarto mês, mas a medica disse que provavelmente fosse só minha imaginação por que ela era muito pequena para que eu percebesse seus movimentos, mas eu sei que senti..." Ela murmurou suavemente. "E a letra da música... Significa pra mim que mesmo que uma parte de mim tenha desaparecido com ela, que o meu coração tenha se quebrado em milhões de pedaços, eu tenho que continuar vivendo." Quinn fungou e sentiu o gosto salgado das próprias lagrimas que entravam em sua boca. "Puck tatuou a primeira parte da frase no lado esquerdo do peito. Foi como o nosso enterro particular, sabe?"
Rachel fez que sim.
"E me desculpa por chorar, Rachel, mas eu não costumo falar sobre isso com as pessoas..." Soluçou a loira.
"Você é uma das pessoas mais fortes que eu conheço, Quinn." Sorriu a morena, apoiando a palma da mão contra o rosto de sua amiga. "Mas você não precisa ser forte o tempo inteiro..."
O queixo da loira tremeu e ela se permitiu chorar contra o pescoço da morena até eventualmente pegar no sono. Rachel, por sua vez, esperou até ter certeza que Quinn dormia antes de soltá-la e apagar a luz. Ela alcançou pelo cobertor dobrado aos pés da cama e o puxou para cima delas, envolvendo Quinn cuidadosamente com o material amarelo e macio.
Ela queria abraçar sua amiga e segura-la junto a si, mas acabou se contentado por descansar a cabeça no mesmo travesseiro que a loira ocupava e escanear os traços de seu rosto sob a luz que se infiltrava pela janela. Quinn parecia exausta, mesmo dormindo, como se contar tudo aquilo para Rachel tivesse sugado todas as suas energias.
De repente, a cantora sentiu-se consumir por uma necessidade louca de proteger a menina deitada ao seu lado. Ela não queria ver aqueles olhos dourados que tanto amava cheios de dor novamente. Ela amava os olhos de Quinn. Amava Quinn. A respiração da morena oscilou quando ela finalmente se deu conta do que estava sentindo. Do que vinha sentindo já há algum tempo.
Seu corpo todo pareceu se aquecer e formigar. Ela não tinha certeza se já tinha sentido algo assim. Ela já havia amado Finn e Jesse e Brody, mas o que sentia por Quinn parecia diferente, maior até. Talvez por que a loira fosse sua melhor amiga, ou talvez por que, por mais que se amem muitas pessoas em uma vida, nenhum amor é igual ao outro... Ela não sabia dizer.
Ela afastou alguns cabelos para trás da orelha de sua amiga antes de aproximar o rosto do dela e selar seus lábios no beijo mais suave e delicado de sua vida, não querendo acordar a violoncelista. O contato não durou mais do que alguns segundos, mas ela sentiu seu estomago vibrar de excitação e desejo, mesmo que Quinn não a tivesse beijado de volta.
==/==
NA: próximo capítulo de volta na faculdade, teremos um pequeno time jump, Puck e Quinn cuidando da Rachel :)
Comentem se quiserem saber o que acontece depois...
