Nota: queria agradecer as reviews de todos os leitores e pedir desculpas pela imensa demora, eu estava sem inspiração e cheia de coisas para fazer na faculdade... (espero que não estejam querendo me matar). E "Yaoi Fan", me adicione no Orkut! Adoro conversar com meus leitores! O link está no meu perfil :D
Capitulo 09
"I feel so pathetic and now I get it
What done is done, just leave it alone and don't regret it
'Cause sometimes, somethings turns into dumb things
And that's when you put your foot down" (Limp Bizkit - Boiler)
Ben não se esforçava nem um pouco para se mostrar interessado no que o juiz falava. Sua expressão facial demonstrava total apatia e descompromisso com o que se passava naquele pequeno tribunal no fórum.
Sua participação no roubo e distribuição do gabarito dos exames foi comprovada, assim como o uso de anabolizantes antes dos jogos da liga intercolegial... Ou seja, sua carreira acadêmica numa universidade, através de uma bolsa esportiva, estava comprometida. Assim como a de Paul, que também teria de responder por violência sexual e sequestro.
Contudo, como pertenciam a famílias ricas e podiam pagar bons advogados, ambos cumpririam apenas medidas sócio-educativas, trabalhando junto com a equipe de limpeza do parque de Bellwood. Além de participarem de sessões de avaliação psicológica, junto com a assistente social que acompanhou o caso. Para evitar que esse problema se tornasse um processo e que fosse a julgamento, com direito a ficha criminal e tudo.
Vingança... Ao pensar nessa palavra, Ben olhou para o lado, encarando Paul. Ainda sentia um forte impulso de cobri-lo de socos e chutes, mas algo dentro dele o impedia de agir dessa maneira. Talvez fosse aquilo que alguns chamam de moral. Ou apenas o instinto de sobrevivência dizendo que se fizesse isso, não teria a menor chance de ganhar e que estaria se arriscando ainda mais.
Assim que chegou em casa, seus pais resolveram conversar, dizendo que não o reconheciam mais, que estava ficando sem limites e esperavam que esse trabalho comunitário pudesse fazer com que percebesse que estava jogando fora sua vida.
Ben simplesmente olhou para eles e sentiu vontade de rir. Desde quando se preocupavam com o que fazia ou não?
-Olha, tem nenhum juiz por perto para vocês continuarem agindo desse jeito, ok? –ele disse, tirando a gravata e abrindo a camisa social.
-Modere suas palavras ao falar comigo. –Carl exigiu, olhando o filho repreensivamente.
-Ah, tá. Eu esqueci que agora vocês resolveram lembrar que são pais e se preocupam comigo... –continuou andando, sem dar atenção a eles. –Essa situação chega a ser ridícula.
-Pare de agir como criança, Benjamin! Você fala como se a culpa fosse exclusivamente nossa. –Sandra foi atrás dele, subindo as escadas. –Até parece que não gosta da boa vida que lhe damos.
-Eu gosto, claro! Quem não gostaria? –ele aumentou o volume da voz antes de fechar a porta do quarto. –Mas de que adianta tudo isso se eu não tenho meus pais por perto?
-Abra essa porta! –a mãe mandou, batendo na porta.
Ben ligou o som do quarto num volume consideravelmente alto, para não ter que ouvir mais nada vindo de seus pais. Estava farto daquilo tudo, precisava sair daquela casa. Enquanto ouvia Foo Fighters – Everlong, despiu-se e foi tomar banho.
Os hematomas que tinha espalhados pelo corpo estavam mais claros e alguns arranhões já tinham cicatrizado. Aos poucos, se recuperava fisicamente e dentro de semanas estaria bom novamente. Enquanto que, interiormente, esse processo devorava mais. Necessitava de mais energia e empenho... Não adiantava continuar em frente e viver sua vida se continuasse com aquele peso sobre as costas, com a ideia de que estava marcado para sempre.
Era simples pensar assim, lógico e racional. O problema todo era colocarem prática. Quandoo juiz lhe pediu para descrever como ocorreu o abuso, todos os olhares se voltaram para ele, inclusive o próprio Paul. Ben sentiu-se mais exposto do que se estivesse nu. Principalmente com o olhar daquele que um dia fora seu amigo, era uma espécie de provocação, como se duvidasse de que ele tivesse coragem de admitir que teve uma relação sexual com outro homem, mesmo sendo forçado.
Era como se tivessem sequestrado sua dignidade, seu amor-próprio. Ben correu o olhar por todos os presentes e reuniu a coragem, lembrando-se da expressão doentia que Paul tinha, no momento do ato. Queria que os outros sentissem o mesmo nojo e repulsa que ele ainda sentia. Queria que eles jamais esquecessem aquela cena, assim como ele. Mesmo que fosse apenas por ínfimos minutos, mas todos eles fariam parte daquele momento tenebroso.
O que mais doeu em Ben, conforme ele falava, não era descrever a podridão daquilo tudo e sim, ver que Kevin não estava lá... Pela primeira vez, estava se abrindo e contando seu maior segredo e desejava que ele estivesse ao seu lado, escutando. Mesmo que depois disso nunca mais fossem se falar, porém não sabia se teria coragem para contar tudo de novo.
Era o tipo de coisa que dali em diante, se tornaria um segredo novamente. Até porque muitos iriam esquecer o que foi falado e Ben tentaria ao máximo não comentar mais nada relativo... Contudo, pensando melhor, talvez fosse até bom que Kevin não soubesse. Tinha medo de qual pudesse ser a reação dele enquanto a isso e perder sua presença, que sempre fazia tão bem a ele.
Terminou de tomar seu banho, vestiu uma cueca box preta e jogou-se na cama, fechando os olhos. Já fazia quase um mês que não transava, nem tocava punheta ou qualquer coisa do gênero... Não sabia explicar porque tinha pensando nisso. Mas de repente, sentia uma imensa necessidade de se aliviar.
Sem hesitar, desceu a mão direita lentamente pelo tórax enquanto respirava fundo. Seus dedos escorregaram para dentro do elástico da cueca, se fechando ao redor do pênis, subindo e descendo. Mesmo com o som ainda ligado, virou-se de bruços, afundou o rosto contra o travesseiro, abafando os gemidos entrecortados pela respiração ofegante. Fazia tanto tempo que não se tocava de que havia se esquecido de como era gostosa a sensação.
As imagens corriam numa velocidade impressionante pela sua mente, conforme se masturbava. O clímax chegou de uma maneira surpreendente, melando sua mão e arrancando um gemido profundo.
Desligou o som, limpou-se e deitou na cama, olhando para o teto do quarto escuro e silencioso. Por quanto ficaria assim, reduzido a satisfazer sua necessidade sexual com masturbações?
(...)
Os olhos negros de Kevin brilhavam de excitação, como se fosse uma criança que tivesse ganhado o melhor presente do mundo. O que de certa maneira não era mentira. Estava no Salão do Automóvel, que naquele ano aconteciaem Los Angeles. Umdos maiores eventos da área automobilística do mundo.
Ele aproveitava o evento não somente para babar nos novos modelos de luxo que as fábricas lançavam, mas também nas mulheres que ficavam ao lado dos carros. Não era porque tinha relações com outro homem que havia deixado de notar as pessoas do sexo oposto.
Ao olhar para o modelo que a Volkswagen lançou de carros off-road, lembrou da corrida que havia ganhado quatro meses atrás, mas que parecia tão distante em sua memória, como se tivesse acontecido há anos... Naquela época, era uma pessoa muito diferente de quem era hoje em dia.
Sentia-se vivo somente quando se arriscava, ao ponto de quase morrer. Era nessas situações extremas, em que numa fração de segundos, conseguia perceber sua vida. Fora isso, era como se estivesse morto. Não via sentido algum no trabalho ou nas relações que tinha com as pessoas ao seu redor.
Tudo era vazio e comum, nada o instigava, captava sua atenção. Essa mania de se expor constantemente ao perigo surgiu depois que decidiu morar sozinho, longe dos pais...
-Está tudo bem com você, Kevin? –Apollo perguntou, tocando-lhe o ombro.
-Ah, sim. Só estava pensando. –ele respondeu, com um sorriso leve no rosto, espantando os pensamentos para longe. –Vamos comer?
-Você leu minha mente. –o loiro brincou, rindo.
Enquanto caminhavam para a praça de alimentação, Apollo falava alguma coisa, porém Kevin não prestava atenção alguma. Novamente estava recolhido em seus pensamentos e memórias. Não sabia o motivo de estar pensativo daquele jeito...
Ainda sentia falta da adrenalina, ainda queria arriscar-se. A presença do loiro era uma espécie de freio, que continha esses impulsos que às vezes tomavam conta de sua mente. Desde que começaram a sair juntos, não tinha feito nada perigoso, era como se a própria relação que tinham, já fosse ousada o suficiente para garantir uma cota mínima de adrenalina no corpo, principalmente quando faziam sexo.
Contudo, precisava de mais. Não podia simplesmente ficar com Apollo porque era uma aventura. Não era desse jeito que desejava se ligar alguém, tinha que existir algo além disso, na verdade, maior que isso.
Kevin acabou forçando um sorriso enquanto almoçavam e tentou espantar aqueles pensamentos para longe. Não estava no momento, muito menos num lugar apropriado para pensar nos seus dramas pessoais. Resolveu que não estragaria o passeio de Apollo só porque não conseguia se controlar.
Quando a noite chegou, jantavam na casa do moreno. Os dois estavam sentados no sofá, comendo macarrão com quatro queijos enquanto conversavam...
-Por acaso já teve aquela sensação de que alguma coisa vai dar errado? –o loiro perguntou, de repente, entre as garfadas no macarrão.
-Já... Mas por que essa pergunta? –Kevin levantou a sobrancelha, curioso.
-Essa noite eu tive o sonho mais estranho de toda a minha vida. –Apollo o encarou, sério. –Eu estava numa festa e tinha uma cartomante numa tenda. Resolvi ler a minha sorte e entrei. A cigana era jovem, com longos cabelos escuros e um vestido vermelho-sangue...
Kevin sentiu um arrepio gelado na nuca, os pêlos ficaram eriçados. Simplesmente, Apollo tinha sonhado com o espírito da cigana que encontrou um dia na rua, ou seja lá o que quer que fosse...
-Ela pegou minha mão e ficou olhando, parecendo pensativa. Eu não tinha aberto minha boca ainda. –ele imitou a fala da mulher. –E do nada, a cigana disse: "Você será levado embora, para que ambos possam enxergar por trás desse véu que os rodeia. E quando finalmente perceberem o que for mais importante nas suas vidas, terão apenas uma escolha."
O moreno ficou alguns segundos digerindo aquilo que a cigana havia dito. Parecia uma espécie de profecia ou algo do tipo.
-Não fique preocupado... –Kevin sorriu, tentando parecer descontraído. –Deve ser sua mente preocupada com a viagem de segunda.
-É, pode ser. –Apollo respirou fundo. –Eu ando muito ansioso com tudo isso. –levantou-se do sofá. –Vou indo pra casa, ainda preciso arrumar as malas.
Eles deram um beijo de despedida, repleto de sentimentos. Depois que o loiro deixou o apartamento, Kevin deitou na cama, olhando para o teto do quarto. O que está acontecendo? Perguntou a si mesmo, antes do sono chegar.
(...)
Ben respirou fundo, xingando todos os palavrões que conhecia, mentalmente. Não tinha a mínima noção que trabalho comunitário poderia ser tão chato e exaustivo. Estava ajudando o pessoal na limpeza do parque da cidade. Quem diria que as pessoas deixavam tanto lixo na grama?
Resolveu fazer uma pausa, à sombra de uma árvore. O verão mal havia começado e já estava sentindo um calor fora do comum. Jogou um pouco d'água no rosto e ficou ali, observando a paisagem enquanto seu cérebro pensava em mil coisas ao mesmo tempo.
Provavelmente, muitos dos seus colegas de classe já tinham começado a mudança para os alojamentos das faculdades, espalhados pelo país. Iriam estudar depois que o verão terminasse, conhecer novas pessoas, entrar para irmandades...
Enquanto ele continuaria preso à Bellwood durante os próximos três meses, tendo que fazer aquele maldito trabalho comunitário, enquanto todos os outros estavam na faculdade. Ben bufou, levantando-se, limpando a calça. Por que estava tão contrariado com toda aquela situação? Não tinha a mínima noção do que iria fazer da vida depois da graduação.
Alguns parentes já tinham dito à Sandra e Carl que Ben era um adolescente muito apático e que não desejava nada do futuro e que com certeza continuaria sendo sustentado pelos pais. Em algum ponto, esses parentes não estavam errados. Como ele poderia ir para uma faculdade se não sabia o que iria estudar?
-Ei, Tennyson! –o líder da equipe o chamou. –Acabei de receber uma nova grade de horários, você foi escalado para ficar apenas na parte da manhã.
-Então eu já posso ir? –ele perguntou, aliviado pela noticia.
-Pode, mas segunda eu quero você aqui às oito horas. –Harry exigiu. –Não pense que vou te dar moleza, ok?
-Sim senhor. –Ben voltou para o galpão.
Após guardar as ferramentas e o lixo que recolheu durante seu expediente, Ben seguiu para os banheiros dos funcionários, que também ficava no galpão. Tomou um bom banho e trocou de roupa, deixando o uniforme no armário que haviam lhe dado.
Enquanto andava para a saída do parque, viu Kevin correndo ao longe, acompanhado por outro homem. Os dois conversavam animadamente sobre algum assunto, quando resolveram parar para descansar um pouco. Apesar de estarem ofegantes, o assunto continuava.
Ben sentiu vontade de se aproximar para saber como Kevin estava, afinal ele não havia ido ao tribunal, apesar de ter prestado depoimento. Contudo, conforme se aproximava, notou que talvez iria atrapalhar alguma coisa. O modo como estavam próximos e conversavam, era como se estivessem dentro de uma bolha e que nada além deles existisse.
Estavam tão entretidos um com o outro, fazendo piadas e falando sobre um assunto qualquer, mas que para eles era a coisa mais importante do mundo. Ben respirou fundo e deu meia volta, indo para a entrada do parque. Não tinha andado sequer cinco passos, quando ouviu Kevin o chamando.
-Ben! –ele berrou, aproximando-se correndo, seguido pelo loiro. –E ai, tudo tranqüilo?
-É, na medida do possível. –o mais novo respondeu, dando um leve sorriso. –E você?
-Também... –Kevin chegou para o lado. –Queria te apresentar o Apollo. –apontou para o loiro ao seu lado.
Apollo sorriu e estendeu sua mão, cumprimentando Ben. Ficaram se encarando por milésimos de segundos e o mais novo sentiu como se estivesse sendo analisado pelos olhos azuis do outro.
-Vai fazer alguma coisa à noite? –o moreno perguntou, parecendo animado.
-Não... –Ben respondeu, desviando o olhar e encarando Kevin.
-Então, vou dar uma festa lá em casa e queria muito que você fosse.
Ele realmente não soube como conseguiu pensar naquilo, mas de repente o sorriso de Kevin lhe parecia tão encantador. Imediatamente, reagindo a esse pensamento, o rubor tomou conta de seu rosto.
-Claro que eu vou! –o mais novo sentiu-se um idiota por estar sorrindo de volta. –Precisa levar alguma coisa?
-Leve a bebida que você mais gosta. –Kevin o encarava profundamente.
-Você esqueceu de dizer que a festa é à fantasia... –Apollo comentou, olhando para o moreno.
-É mesmo. –acabou rindo e olhou para o loiro rapidamente, voltando sua atenção para Ben de novo. –Pode usar qualquer fantasia, ok? Só não vale ir pelado e dizer que a roupa é invisível.
Os três acabaram rindo da piada. Ben anotou o endereço e despediu-se deles, voltando para casa. Será que era uma boa idéia ir mesmo? Pensando com calma, não havia nada a perder. Fora que, já tinha saído com Kevin uma vez antes e adorou. Ele era uma companhia muito boa, te deixava relaxado e sempre se mostrava interessado no assunto que estivesse conversando.
Chegou em casa e foi direto para a cozinha, estava morto de fome. Mesmo com todo aquele problema, seus pais continuavam fora e só voltando nos finais de semana. Era como se nada tivesse mudado naquela casa.
A empregada havia deixado um almoço maravilhoso pronto. Ben ainda se surpreendia com o fato de a casa estar sempre arrumada e limpa, mas nunca conseguir esbarrar com a empregada, era como se ela fosse um fantasma.
Acabou rindo do próprio pensamento e se concentrouem almoçar. Depoisde comer, sentia-se mais disposto. Subiu para o quarto e começou a vasculhar seu armário em busca de alguma fantasia ou algo que servisse como uma. Jogava algumas peças de roupas na cama que achou que poderiam servir.
Depois de separar o que iria usar, tirou um cochilo, afinal estava morto de cansaço. Acordou de noite, com o celular despertando. Ben levantou-se e saiu cantarolando uma música qualquer, enquanto tomava banho e se arrumava. Antes de sair do quarto, conferiu o resultado e gostou do que viu. Com um sorriso no rosto, desceu as escadas e foi direto para o bar que tinha na sala. O armário estava repleto das mais diversas bebidas, seu pai gostava de colecionar, mas nunca tinha o costume de beber e também quase não mexia no bar.
Aproveitando-se disso, pegou uma garrafa de espumante e outra de absinto. Pegou as chaves do carro e saiu de casa, animado com a festa. Antes entrar no apartamento, respirou fundo, sentindo-se um pouco nervoso. Da última vez que tinha ido a uma festa, acabou estuprado pouco tempo depois...
Mas por que estava pensando nisso? O momento era outro, as pessoas também... E não tinha tido nenhum sonho estranho ou coisa parecida. Não adiantava nada continuar preso ao passado, com medo das coisas. Pensando nisso, reuniu toda a coragem que tinha e bateu na porta, sentindo o coração na boca.
Quem abriu a porta foi Apollo, com um sorriso animado no rosto. Ele parecia literalmente um deus grego com aquela túnica de um ombro só e a sandália trançada nos pés, além da coroa de louros nos cabelos.
-Oi... –Ben estava sem graça, não sabia como se comportar na frente do loiro. –Eu trouxe bebidas.
-Entra, fica à vontade. –deu espaço para o mais novo entrar. –Vou chamar o Kevin.
Ben ficou parado, olhando a festa. O número de pessoas naquela festa desafiava qualquer lei existente na Física... Até então, não sabia que era possível dar festasem apartamentos. Foraos vizinhos, que com certeza iria reclamar depois.
O que lhe trouxe de volta à realidade foi o toque de uma mão perto da sua nuca. Seus pêlos ficaram eriçados e virou-se para trás, tentando ver quem era. Teve que morder o lábio inferior para não acabar deixando a boca abrir de surpresa. Os olhos escuros de Kevin estavam atrás de uma máscara preta e pareciam mais misteriosos do que nunca.
Vestia uma camisa larga, que parecia com uma bata, deixando uma parte do peitoral à mostra. Faixa na altura da cintura, calça de tecido ajustada e botas de montaria, tudo preto... Aos poucos foi percebendo a fantasia do outro. Estava vestido de Zorro, só que sem o chapéu e as luvas.
-Você me pegou desprevenido. –Ben disse, sentindo o coração batendo rápido. –Não sabia que gostava de Zorro.
-Eu acho legal... –Kevin exibiu seu melhor sorriso. –Mas as pessoas acham que sou um dançarino de strip-tease por causa disso...
-Eu concordo com essas pessoas. –ele riu, entregando as garrafas. –O absinto é um presente pra você.
-Nossa, valeu! É a minha bebida favorita... –o moreno pegou as garrafas e deixou o espumante em cima do balcão. –Toma uma dose comigo?
-Claro...
Ben virou a dose e tomou de uma vez só, acompanhando Kevin. O liquido verde desceu pela garganta e esquentou seu corpo.
-Quer mais uma? –ele perguntou, pegando a garrafa com o rótulo da fada verde.
-Quero! –o mais novo esticou seu copo.
Após a segunda dose, Kevin pediu licença e saiu de perto, dizendo que precisava resolver alguns problemas. Ben aproveitou e foi à cozinha, a fim de achar alguma bebida gelada. Acabou encontrando com Apollo, que estava bebendo cerveja, apoiado na janela, olhando a paisagem. Ele pegou sua bebida e se aproximou do loiro, devagar.
-Tá tudo bem? –perguntou, tirando a tampinha da garrafa long-neck.
-Tá... –respirou fundo, tomando um gole. –Só estava aqui pensando...
-Se você quiser, eu posso ir embora...
-Não precisa. Até porque, eu queria falar com você mesmo. –Apollo o encarou, sério. -Sei que ainda não nos conhecemos muito bem, mas queria te pedir um favor.
-Claro. –Ben tomou um gole da cerveja, que desceu refrescante.
-Amanhã eu vou atravessar o Atlântico, para chefiar uma expedição... –seus olhos azuis pareciam tristes e ansiosos. –E apesar desse ser o reconhecimento que sempre estive esperando por toda a minha carreira, não me sinto tão feliz quanto deveria, sabe? Tive um pesadelo péssimo ontem e acho que isso ficou na minha mente.
Ben não disse nada, apenas balançou a cabeça, num sinal para que Apollo continuasse falando. Enquanto isso, bebia a cerveja.
-A sensação de que alguma pode dar errada é muito grande. Nunca me senti assim antes... –ele apertou a garrafa em uma das mãos. –E eu gosto muito do Kevin, ele é importante pra mim e por isso escrevi uma carta... Estava pensando em deixar escondido nas coisas dele, mas queria que você ficasse com ela e entregasse pra mim.
-Sem problemas, Apollo. –Ben sorriu levemente. -Quando você quer que eu entregue?
-Quando você sentir que é o momento certo. Vou pegar a carta e já volto.
Apollo saiu da cozinha e Ben encostou-se à janela, várias coisas correndo pela sua mente. Sabia que não conhecia o loiro, mas ele parecia tão desesperado por alguma ajuda, tão ansioso... Não conseguiu dizer não. "A sensação de que alguma pode dar errada é muito grande"... Ao lembrar-se da frase, um forte arrepio gelado percorreu seu corpo. Em poucos minutos, Apollo voltou à cozinha, com um envelope.
-Eu gostaria que isso ficasse entre a gente. Não quero que ele saiba da existência dessa carta até você entregar... –ele encarou o outro, no fundo dos olhos. –E, por favor, não abra a carta ainda. É fundamental que você leia junto com ele.
-Tudo bem, pode acreditar que essa carta será entregue da maneira que pediu. –Ben devolveu a mesma seriedade no olhar, guardando a carta no bolso da calça.
(...)
Kevin foi até a cozinha, para pegar mais ponche e percebeu que Ben e Apollo estavam conversando, mas pareciam muito sérios.
-Ei, vocês dois ai! –ele se aproximou, animado. –Que seriedade toda é essa? Isso é uma festa, porra!
-A gente só estava conversando sobre profissões e eu estava explicando ao Ben com o que eu trabalho. –Apollo mentiu, piscando para o mais novo.
-É isso mesmo, Kevin. –ele sorriu, levantando a cerveja. –Agora vamos festejar!
-Tá vendo Apollo, o Tennyson aqui sabe como se divertir numa festa! –Kevin riu puxando o mais novo e o loiro.
O trio voltou para a sala, que estava fervilhando de pessoas dançando. O moreno estava se divertindo tanto, estava cercado das pessoas que mais gostava, curtindo uma boa festa em casa, que parecia um sonho. Aproveitando que as luzes estavam acessas apenas no banheiro e na cozinha e fora isso o apartamento inteiro estava escuro, apenas com as luzes coloridas piscando, Kevin puxou Apollo para um canto e o devorou de beijos intensos.
Fazia muito tempo que não se sentia assim tão livre para fazer o que quisesse. Foi ao banheiro e depois quando saiu, viu Ben tentando tirar a rolha da garrafa de espumante que trouxe. Ficou ao longe, encostando à parede observando a cena.
O mais novo já tinha bebido um pouco além do limite e parecia não conseguir usar o saca-rolha. Era engraçado ver o modo como ele reclamava baixinho, olhando para os lados, como se estivesse fazendo algo errado. O único homem por quem tinha algum interesse era Apollo, mas não pôde deixar de repararem como Benera atraente.
Os cabelos castanhos caindo sobre os olhos muito verdes, os cílios longos e os lábios finos e rosados. O corpo ainda estava em crescimento, mas já era delineado e esguio, mostrando que teria um porte atlético no futuro. E a fantasia havia combinado perfeitamente. Vestia um casaco azul-marinho com detalhes dourados nos ombros e várias condecorações em um dos lados do peito, calça e sapatos sociais. Lembrava aquelas roupas sociais que os príncipes costumam usar, tirando o fato de que Ben tinha uma máscara preta. Kevin notou que Ben acabaria se machucando e resolveu intervir.
-Por que você quer abrir esse espumante? –brincou, enquanto abria a garrafa com facilidade.
-Sei lá... Eu tava a fim de experimentar pra saber como era o gosto. –ele respondeu, dando de ombros.
-Então vamos matar sua curiosidade!
A garrafa fez ploc e os dois começaram a comemorar. O moreno serviu o espumante em dois cálices.
-Qual vai ser nosso brinde? –Kevin perguntou, encarando Ben.
-Um brinde ao recomeço, às mudanças!
Depois de beberem alguns cálices, o mais novo foi ao banheiro e deixou Kevin rindo sozinho. Realmente Ben não estava em condições de voltar pra casa de carro. Desde quando uma pessoa que conta as piadas mais pervertidas possíveis está totalmente sóbria? Ainda estava rindo ao lembrar-se da expressão que Ben fez ao imitar uma prostituta, quando Apollo se aproximou, ofegante.
-Rachel me obrigou a dançar 5 músicas seguidas com ela, dizendo que era sua música favorita. –ele brincou, servindo-se de espumante.
-Ela é assim mesmo, não pára um minuto sequer. –Kevin sorriu, comendo alguns amendoins.
-Eu tenho que ir... –Apollo levantou-se, depois de beber o cálice de uma vez só. –Ainda tenho que arrumar as malas.
-Já? –ele arregalou os olhos, surpreso.
-Kevin, eu tenho que viajar daqui a algumas horas...- revirou os olhos, parecendo cansado. –Provavelmente eu vou chegar virado no aeroporto.
-Quer que eu te leve?
-Não precisa, o carro da empresa vai me dar uma carona. –aproximou-se, segurando o rosto do outro entre as mãos. –Vou sentir sua falta.
-Eu também... –levantou o rosto e deu um selinho em Apollo. –Boa viagem amanhã. Me liga quando chegar lá?
-Sim, claro. –ele sorriu de volta. –E vê se cuida do Ben, ele está bêbado feito um gambá.
-Pode deixar. –Kevin seguiu o outro até a porta do apartamento.
-Ele é um garoto legal, gostei dele... –Apollo segurou-o pela cintura. –Até mais.
-Até mais...
O beijo foi inundado de várias emoções intensas. Enquanto observava Apollo entrando no elevador, Kevin sentiu algo apertando seu coração. Era em momentos parecidos com aquele, em que o protagonista do filme romântico dizia "Eu te amo" para o outro. Porém, não sabia se realmente deveria dizer tais palavras. Acreditava que era algo muito sério e não devia sair falando em qualquer momento...
De qualquer maneira, não iria adiantar nada, porque o loiro já havia entrado no elevador e agora descia os andares. Ele respirou fundo e fechou a porta do apartamento, voltando para a festa. Quando foi ao banheiro, pela milésima vez na noite, ouviu um barulho estranho vindo do seu quarto. Ao acender as luzes, teve vontade de rir.
Ben estava estatelado na cama, ainda com a fantasia completa, inclusive os sapatos, dormindo um sono pesadíssimo, que até roncava.
-Você não é mole Tennyson... –Kevin riu e fechou a porta do quarto, entrando.
Era melhor encontrar o mais novo dormindo assim do que vomitando no banheiro ou passando mal. Afinal de contas, tinha misturado várias bebidas. Provavelmente teria uma ressaca horrenda no dia seguinte e ai sim, iria vomitar no banheiro.
Cuidadosamente, ele tirou os sapatos do outro, colocando ao lado da cama e as meias também. Sentou-se na cama e tirou a máscara de Ben. Perdeu alguns segundos, observando aquele rosto tranqüilo e as minúsculas sardas que tinha. Depois desabotoou o casaco e ficou indeciso ao que fazer em relação à calça.
Suas mãos apenas encostaram no botão e Ben despertou, assustado. Seus olhos verdes arregalados voaram de encontro aos de Kevin, que tirou as mãos rapidamente, deixando-as sobre seu próprio colo.
-Desculpe, não queria te acordar. –ele levantou, sem graça.
-Eu acabei apagando aqui? –o mais novo parecia um pouco confuso.
-Você está bêbado demais pra voltar pra casa... –Kevin já estava na porta. –Durma aqui e amanhã você volta, ok?
-Mas você vai dormir aonde?
-Ainda estou elétrico demais pra pensar em dormir. –ele sorriu e Ben pareceu corar um pouco. -Fique à vontade e descanse.
-Obrigado... –Ben sorriu de volta.
Ele fechou a porta e voltou para a festa. Aos poucos as pessoas foram indo embora e dentro de algumas horas, o apartamento estava vazio, restando apenas lixo por todo lado. Contudo, não estava no momento de pensar nisso.
Kevin desligou o som e as luzes, tomou um banho e certificou-se de que o sofá estava limpo, antes de dormir nele. O sono veio rapidamente e apagou feito uma pedra. Acordou era cerca de três da tarde, porque havia se esquecido de fechar as cortinas e o sol iluminava a sala.
