Capítulo 10 – Perdão
- Você acha que eu to muito ferrado? – Peeta Mellark questionou enquanto via um pacote bem embrulhado na cabeceira da cama.
- Você ficará ofendido se eu mentir? – Cato Summers respondeu com outra pergunta, arqueando a sobrancelha e se espreguiçando na poltrona não tão confortável do quarto.
- Sério que você é mesmo meu amigo?
- Relaxa Peeta. Você só vai enfrentar Lyme em julgamento pela insubordinação.
- Eu to muito ferrado! – o mais novo gemeu em lamento.
Já haviam se passado quase três semanas desde o ataque à mansão de Coriolanus Snow. E para os dois agentes do FBI, tudo aquilo parecia ter sido a uma vida atrás.
Peeta havia sido baleado pelo velho e perdera a consciência antes que Jack Brutus pudesse chegar para socorrê-lo. Primrose Everdeen pediu para que encontrassem gases, morfina e o que mais pudesse ajudar a estabilizá-lo. Gale voltou minutos depois com tudo o que a loira havia pedido.
Após estancarem o sangramento, o rapaz foi levado às pressas para um hospital de Sacramento próximo à base do Tordo. Cato também fora socorrido devido à facada que havia recebido no braço. Peeta havia passado por uma cirurgia para retirar a bala, limpar a ferida e costurar os pontos. Assim que seu quadro foi considerável estável, Brutus mandou que o levassem numa ambulância até Los Angeles, onde lá poderiam acompanhar sua recuperação.
Cato se recuperou rápido e levou alta um dia após chegarem à Los Angeles, enquanto o outro permanecia inconsciente. Katniss foi levada para a penitenciária, isolada dos outros detentos e recebia atendimento médico e psicológico diariamente, a fim de analisar o estado físico e mental da ex-líder do Tordo. A ordem para transferi-la havia sido suspensa enquanto Everdeen não fosse interrogada por Lyme.
Clove havia tido cuidados médicos e consultava a psicóloga do FBI ocasionalmente. Mesmo que a morena fosse forte e inabalável diante dos colegas de trabalho, as constantes torturas havia mexido com ela. Sofria de alucinações e havia desenvolvido transtorno bipolar.
Peeta havia acordado dois dias depois após a chegada do grupo à cidade. No primeiro momento era difícil se movimentar, já que fora baleado no abdômen e a bala havia passado um tempo considerável alojado em seu corpo. Também havia perdido sangue demais e era mantido com soro. Quase uma semana depois, o loiro já conseguia se locomover pelo quarto e por pouco tempo, já que considerava o esforço cansativo.
Os amigos do FBI o visitavam e conversavam por horas. Mas nenhum deles mencionava Katniss Everdeen e isso o enlouquecia. De todas as pessoas com quem convivia no trabalho, o único que não havia ido visitá-lo era Jack Brutus. Até o dia em que o médico havia anunciado que teria alta, após quase um mês hospitalizado. O seu comandante havia aparecido no dia anterior, um pouco antes de Cato lhe fazer companhia.
- Achei que havia se esquecido de mim Jack.
- Não me faça desejar isso Mellark.
- O que aconteceu então? Por favor, não me diga que precisarei passar mais tempo nesse lugar detestável. Não aguento mais esse soro.
O mais alto riu minimamente.
- Depois de tudo o que aconteceu, eu não acredito que sua maior preocupação é ficar aqui para sempre.
O silêncio caiu entre eles por alguns minutos, antes que Peeta decidisse se pronunciar.
- Lyme quer comer meu fígado, não é?
- Nem me fale. Passei os últimos dias tentando aliviar a fúria daquela mulher. Enobaria disse que não poderia fazer muito, então estamos por nossa conta e risco.
- Jack, você sabe que eu não fiz isso apenas por um surto de loucura, não é? Chaff queria matar todos vocês.
- Ele terá a vez dele, mas o foco, por enquanto, está em nós. Soube que receberá alta amanhã. – o comandante comentou como se fosse algo simples.
- É o que o médico me disse.
- Eu pedi a Cato para levá-lo para a North Hope assim que saísse daqui. Lyme chegará pela manhã. Ela e seus homens de D.C. virão para julgá-lo.
O menor recebeu a notícia em silêncio. Não havia o que comentar. Teria o resto de sua vida decidido no dia seguinte. Era bem provável que sua carreira houvesse chegado ao fim.
E agora Peeta estava ali se arrumando para o que poderia ser o seu último dia. Não soube o que Jack havia falado. Certamente não poderia contar com seu apoio. Nem o de ninguém. Tudo o que havia acontecido era culpa dele. Gostaria de ver Katniss Everdeen antes daquele inevitável encontro. As palavras dela antes de perder a consciência na mansão do velho Snow ainda estavam em sua cabeça.
Saiu do banheiro e olhou para o amigo. O outro o lançou um olhar de consolação. Já não adiantava mais adiar o inevitável.
O médico apareceu alguns minutos depois e o informou que já poderia ser levado. Apenas alertou para que não fizesse muito esforço pelas próximas semanas e que voltasse ali a cada quinze dias para que pudesse saber como estava.
Após assinar alguns papéis, Peeta finalmente estava livre do hospital. Apesar de não ter a mínima vontade de comparecer ao escritório do FBI, era ótimo se livrar daquele lugar e daquele cheiro de antisséptico que aprendeu a odiar.
O caminho do hospital para a North Hope foi rápido. Naquela hora da tarde não havia muito trânsito. Era quase como se todos conspirassem para que aquele momento acontecesse. Bufou e cruzou os braços.
- Sabe que não adianta ficar assim, não é?
- Não é você que está sofrendo um inquérito por insubordinação. – o mais novo explicou. – E não me fale da maldita academia!
- Eu jamais pensei em mencioná-la. – Cato comentou com um ar inocente, segurando o riso enquanto dirigia.
- Tem alguma notícia da Katniss? – o loiro questionou, sem ligar para a mudança repentina do assunto.
O mais velho o olhou de relance e foi sua vez de suspirar. Não mencionar Katniss Everdeen havia sido uma decisão em conjunto da equipe. Não queria que aquilo o afetasse principalmente naquele momento. Mas sabia que aquele poderia ser o último momento do amigo como agente do FBI. E como agente, ele deveria saber.
- Ela ainda permanece na prisão. O julgamento dela ocorrerá em algum tempo após o seu, eu não sei ao certo. Ao menos o FBI manteve o acordo feito por ela e os membros do Tordo estão livres. Gale tem questionado muito a Glimmer pela líder dele nos últimos dias. Mas nem nós sabemos muito sobre ela.
- Acha que ela pode ser inocentada?
- Depois de tudo o que aconteceu? Não sei dizer. – o outro suspirou.
- Falarei por ela...
- Peeta, você já está encrencado o suficiente sem ela...
- Não posso deixar que Lyme a mate. Não depois de todo o serviço prestado ao FBI. Katniss é mais útil viva do que morta! Sem falar que aquela mulher poderia nos ajudar com suas armas. Muito das ideias são dela...
A voz do menor morreu. Havia chegado ao prédio do FBI. Cato estacionou o carro. Os dois permaneceram no estacionamento por mais alguns minutos, em silêncio. Peeta olhou para o amigo e agradeceu antes de sair do veículo.
Caminhou até o elevador, sem esperar por Cato, e agradeceu quando se encontrou sozinho. Deveria passar em sua sala antes de seguir para o tribunal que havia no prédio para cuidar de agentes que desobedecessem as ordens. Como ele havia feito.
Ao alcançar o andar no qual trabalhava, ele percebeu uma figura loira o encarando. Assim que deixou o compartimento, Madge Undersee correu para abraçá-lo. Seus companheiros também se aproximaram e o cumprimentaram. Porém, todos se afastaram quando Jack Brutus se aproximou. Sabia que era agora.
O maior, ladeado por Amber Griffin, entrou no elevador. Peeta o seguiu em silêncio e o elevador subiu mais alguns andares antes das portas abrirem para um corredor estreito.
- Mellark. – Jack o chamou e mandou que Amber fosse na frente. – Quero que saiba que, apesar de tudo, agradeço pelo que fez em Sacramento. Tentei ao máximo aliviar a sua barra, mas está por sua conta e risco assim que atravessar aquela porta.
- Não se preocupe. No pior dos casos, saiba que foi bom trabalhar com você.
- Com você também Peeta. – o outro abriu um sorriso mínimo.
O loiro prestou continência e seu comandante fez o mesmo como resposta. O menor acenou e voltou a andar em direção ao tribunal. Respirou fundo e entrou.
A sala era ampla. Possuía duas fileiras de arquibancadas em cada lado da sala. No lado oposto havia uma bancada, composto por três pessoas, onde Lyme se encontrava séria, sentada no meio de agentes do alto escalão da organização. E ao centro do ambiente havia uma cadeira com uma mesa pequena.
Ele andou devagar e ignorou a entrada de Jack e Amber no recinto. Sentou-se na cadeira e pousou as mãos sobre a mesa, com os olhos azuis fixos nos olhos azuis dela.
- Agente Peeta Mellark. – a mulher pronunciou. – Está sendo acusado por insubordinação pela missão de assalto a Coriolanus Snow...
- Missão na qual eu ajudei a matar Snow...
- Silêncio! Desobedeceu a seu comandante e poderia ter comprometido toda a missão e a vida de nossos agentes por isso. O que tem a dizer a respeito?
- Não me arrependo nada do que fiz. A responsabilidade pela missão era minha. A responsabilidade por Katniss Everdeen e Clove Blake era minha. Elas foram capturadas por minha culpa. Então eu tinha que resgatá-las. Não deixaria que as sacrificassem por nada.
- O garoto tem coragem. Admita que ele foi crucial para a missão. Conhecemos Chaff suficientemente bem para saber que tudo poderia ter sido um desastre sem ele. – comentou John Blight, o agente sentado do lado direito de Lyme.
- Isso não é motivo para a desobediência dele. – a mulher rebateu.
- Talvez não. – Caine Woof interveio, sentando à esquerda. – O rapaz não poderá sair impune.
- E o que quer fazer Woof? Criar um alarde e enfrentar a Casa Branca quando simplesmente podemos deixar que a segurança nacional quieta e com outras preocupações? – Blight questionou, arqueando a sobrancelha acobreada para o conselheiro mais velho.
- Quieto os dois. – a mulher ao centro falou, ajeitando os cabelos loiros. – Ambos conhecem bem a situação. Precisamos chegar a uma decisão. Ainda hoje.
Os dois assentiram. O trio deixou o pequeno tribunal e atravessaram uma porta que se encontrava atrás de onde Lyme se sentava anteriormente.
Peeta soltou todo o ar que prendia. Olhou para trás e percebeu que Jack estava impassível, enquanto Amber parecia apreensiva. Era provável que ela estivesse atualizando a todos do que acontecia ali, já que ninguém de sua equipe estava presente.
Os minutos se arrastaram até que Lyme voltasse com Blight e Woof. A expressão dos três não parecia demonstrar nada. E isso deixava o loiro ainda mais nervoso. Engoliu em seco assim que a mulher mais velha o encarou.
- Agente Peeta Mellark. – ela começou. – Sempre foi um bom agente. Condecorado pela academia por ser um perito em disfarces. Cabeça da missão que levou a prisão de Katniss Everdeen e, posteriormente, Coriolanus Snow, impedindo um possível ataque nuclear em solo americano.
O rapaz sentado segurou o impulso de fazer qualquer comentário ou olhar para seu comandante, sentado um pouco mais atrás.
- Eu, Lyme LaRue, venho a dar seu julgamento como a voz deste conselho, que decidiu por inocentá-lo de suas acusações, mas, para que sirva de exemplo, perderá a liderança de sua equipe até que se prove merecedor deste novamente.
Peeta levou quase um minuto para assimilar tudo o que Lyme havia dito. Ele ainda era um agente. Havia perdido sua equipe, é claro, mas ainda sim um agente. Não importava se permaneceria em Los Angeles ou o mandariam para Louisiana.
- Está dispensado, senhor Mellark. Aguardará por novas instruções em breve. – a mulher falou quase que sorrindo minimamente.
O loiro assentiu e levantou da cadeira, com as pernas trêmulas. Não iria esboçar nenhuma reação ainda. Não até descer alguns andares e contar à sua antiga equipe que eles haviam perdido o líder, mas que tudo havia dado certo no fim.
Olhou para Jack e ele ainda não expressava nada. Amber também parecia apreensiva e olhava para algo em seu tablete. Havia algo mais e o rapaz não sabia dizer o que era.
- Avisem a Katniss Everdeen que ela já pode entrar.
Peeta ficou estático em meio ao caminho da porta de saída. Olhou para Lyme e depois para Jack. Seu comandante não o encarava. O loiro caminhou lentamente em direção à arquibancada. As portas da sala se abriram e Katniss Everdeen entrou, acompanhada por dois agentes.
Os olhos cinza encontraram os azuis. Não havia medo no olhar dela. Apenas indiferença. Como ele havia visto quando foi visitá-la na prisão para pedir ajuda com Coriolanus Snow. Porém, antes que ela pudesse ignorá-lo e continuar a caminhar de cabeça erguida para o seu julgamento, ele pôde ver um mar de sentimentos em meio aquela tempestade, antes do cinza expressar a calmaria e não encará-lo mais.
O rapaz observou a mulher se sentar na cadeira que antes ele havia ocupado. Podia ver o cabelo trançado cair sobre o ombro e sua postura relaxada.
- Senhorita Katniss Everdeen. – Lyme começou. – Líder da organização pelo qual atende o nome de Tordo. Você é acusada de tráfico e confecção de armas em solo americano, além de cúmplice de terrorismo.
- Lyme. – Peeta pronunciou, virando-se para encarar o conselho. – Antes que quaisquer uns de vocês possam tomar a sua decisão, eu quero deixar uma coisa bem clara.
- Peeta... – Jack o chamou em tom ameaçador, levantando-se de onde estava.
- Ela é uma das mulheres mais corajosas que já conheci. – ele começou, sem se importar com seu comandante. – Sem ela, a missão teria sido um fracasso. Não a veja como terrorista, vejam como a cientista que ela é. Como a pessoa que ela é. Habilidades assim são valorizadas por nós e vocês sabem disso...
- Já chega senhor Mellark! – Lyme o cortou secamente. – Agora pode se retirar.
Era uma ordem e o loiro sabia disso. Já havia sido inocentado. Não poderia abusar da sorte naquele momento. Olhou para a morena uma última vez, da qual o encarava por cima do ombro. Pôde jurar que viu o esboço de um sorriso percorrer seus lábios antes de ela olhar para frente, pronta para encarar seu julgamento.
Peeta deixou a sala de audiência, ignorando Jack e Amber. Caminhou pelo corredor estreito até o elevador e apertou o botão de seu andar. Assim que as portas abriram e ele saiu do compartimento, o rapaz viu que Cato o encarava curioso, assim como o resto de sua equipe.
- Parece que não se livrarão de mim nem tão cedo. – ele comentou dando de ombros.
Cato sorriu e o abraçou, seguido por Marvel e Glimmer.
- É uma pena não ser mais o líder da equipe.
- Você não... – Cato começou. – Acho que foi por isso que Jack me promoveu na semana passada.
- Como é que é?
- Rá! Agora vai ter que me obedecer Mellark! Vai ser parecido com...
- Ah não. Não acredito que vai mencionar a academia de novo... – o menor resmungou revirando os olhos.
Todos riram.
- Katniss está lá em cima agora. – Peeta murmurou de repente.
As risadas morreram e todos o encararam. O rapaz evitou para olhar alguém em específico. Andou até sua mesa e se sentou, ignorando os poucos papéis bem arrumados sobre a madeira.
As horas se passaram devagar e poucos vinham falar com ele. Estava absorto em pensamentos quando Jack Brutus surgiu na sala, ladeado por Amber Griffin. Todos o observaram e esperaram que ele dissesse algo.
O comandante caminhou até sua sala, deixando todos para trás. Peeta viu Foxface mexer em alguma coisa em seu tablet, quando se virou para encarar os olhares curiosos.
- Vamos Abby. Desembucha. – Marvel falou, cruzando os braços e esticando-se na própria cadeira.
- O que foi? – a ruiva questionou desconfiada.
- O acontecimento do século. O julgamento de Katniss Everdeen.
- E o que isso tem a ver?
- O resultado Foxface! – Cato falou exasperado. – O que aconteceu com ela? Ela vai receber perpétua? Cadeira elétrica?
- Cato! – Glimmer exclamou horrorizada, e ele se calou antes que pudesse dizer mais sugestões sobre o julgamento.
- Lyme a inocentou, – Amber falou num suspiro e todos os olhos a encararam surpresos. – contudo, ela precisará acabar com o Tordo. Tudo o que a organização tem agora pertencerá ao FBI e ao governo dos Estados Unidos. Cato e Marvel deverão levar os agentes para Mojave ainda hoje ou amanhã cedo, a fim de que tudo seja confiscado.
- Então é só isso? Acabou? – Peeta questionou.
- Sim. Vão ocultar o caso da imprensa. Não querem causar pânico, nem chamar a atenção para a Casa Branca com isso. Tudo pertencente ao Tordo será levado para os laboratórios espalhados pelo país a fim de serem estudados.
- E onde ela está agora? – o loiro questionou.
- Aguardando os agentes para o deslocamento até Mojave.
- Eu irei...
- Você ficará aqui Mellark. – Jack falou, deixando sua sala. – Três semanas de ausência e você tem diversos relatórios para preencher. Não ache que só porque voltou do hospital e foi inocentado que não há trabalho para você. Até lá, Hastings e Summers virão comigo para acompanhar a senhorita Everdeen. Aparentemente, nós temos muito que recolher.
Os dois agentes assentiram, enquanto todos ficavam em silêncio, encarando o comandante de forma séria. Até que Peeta riu e acenou, recolhendo os papéis que repousavam em sua mesa e ligando o computador. Folheou rapidamente tudo o que havia sido deixado para ele.
Acenou em despedida e voltou sua atenção para o trabalho. Era bom estar de volta à ativa depois de tudo que aconteceu. Principalmente agora, com a certeza de que tudo ficaria bem.
