Costumava morar numa cidade litorânea quando era criança. Todo verão, o parque de diversões instalado no cais abria para a temporada com suas mesmas cores desbotadas do ar salino e as mesmas músicas de realejo. O riso das crianças era igual todos os anos, embora as crianças não fossem mais as mesmas. Era a única distração, aquele parque, e foi por muitos anos, com sua inocência e despretensão.
Todo ano ela seguia o mesmo roteiro, aprimorado a cada edição de modo a proporcionar o máximo de diversão. A melhor parte era ver as luzes acenderem conforme o sol baixava, pintando o amplo céu de vermelhos e violetas que caíam sobre o mar como aquarela. Tudo em sua lembrança com certeza era muitas vezes mais bonito, até gostava das lembranças mais.
Era uma estação de alegria eterna, parecia que se alimentava do lótus da Odisseia durante aqueles três meses. Mas era criança, tudo parecia ter mais encanto de fato.
A casa dos espelhos era um refúgio para quando se cansava da agitação da tarde de brincadeira. Na época não entendia bem o propósito da atração, mas era de certa forma relaxante observar as distorções que os espelhos eram capazes de causar em sua imagem. Sempre acabava saindo de lá intrigada, procurando por trás dos reflexos alguma mensagem escondida. Até que fosse distraída por algum convite ou um balão, dedicava-se a seu momento filosófico. Era criança, tinha imaginação extensa em mente impressionável.
Conforme foi ganhando anos, foi perdendo a habilidade de se fascinar com o velho parque, que cada vez parecia-lhe menor e mais vulgar.
Como todos os outros jovens, tinha de sair de lá, de escapar, o som das gaivotas, as sardas, o sal e a areia tendo se tornado um incômodo para si. O mundo era mais do que o parque de diversões e a vida lenta conduzida pelo ritmo das vagas. Sentia-se velha e entediada, sentia-se sábia demais para aquele lugar.
Em seu último verão na cidade, cumpriu seu trajeto no parque e ao admirar-se nos espelhos turvos veio-lhe a inegável certeza de que seu reflexo estava muito mudado. Só não se deteve nas reflexões de antes, se é que se lembrava delas.
Mas as distorções seguiram vindo, mesmo depois, de formas diferentes, em estações diferentes, nem sempre mostrando o seu reflexo. Era mais enlouquecedor assim.
Fora do sistema idílico de verão eterno e felicidade vazia, só existia desilusão. Foi a fase em que mais chorou em sua vida. Colecionou amores perdidos.
Era a força do tempo que a obrigava a não olhar para trás.
Sabia que algo havia ficado perdido no caminho. Estava assombrada pela ausência de algo.
Se tão somente pudesse colocar o dedo no que fazia tanta falta, porém tinham impressão que era qualquer coisa que ainda não tinha possuído.
Sua imagem na água sempre imóvel do lago não era nítida. Costumava procurar-se lá dentro, andava pelo parque frequentemente, sem dinheiro para ir ao cinema ou teatro, jantar fora ou sair para dançar. Patrulhava o grande espaço, contando suas árvores, vagando pelas pontes, visitando fontes e esculturas, às vezes levava uma flor para John Lennon. Simpatizava-se com ele, havia um quê de absurdo na forma com que ele vira o mundo, seu idealismo puro, que ela tomara para si.
Sabia que era tudo uma mentira e que estava cansada de estar sozinha.
Não tinha arranjado coragem para voltar.
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Sentia atração por tudo o que confundia. Engoliu o comprimido com o gole de bebida e as luzes do espaço apertado faziam cada vez menos sentido. Tinha conhecido uma pessoa e até o momento tinha sido divertido. Parecia tudo muito engraçado quando não podia enxergar o contorno das coisas, quando havia uma nuvem a separando do resto. Ria e falava, livre das diferenças entre o que era real e o que era de faz-de-conta. Livre, sim.
O seu rapaz nunca parecia estar por perto, o que não a incomodava. Era bom ter alguém para pagar. Tinha sido demitida de novo naquela semana e se cansara de preocupar-se com dinheiro. Estava cansada de se preocupar, em geral, por isso mesmo estava ali, e embora já não entendesse a música, não reconhecesse ninguém, sentia-se completamente contente. Gastou toda a energia que tinha dançando, admirando as luzes da pista com expressão infantil e tola, abandonada por si mesma.
Era a décima-terceira princesa bailarina, girando, girando dentro do mundo secreto, perdido, subterrâneo, povoado de neblina e encanto indecifrável. De repente, em meio do vórtice, ouviu outra música, ouviu o realejo, se sentiu rodando nas xícaras do velho parque que nunca falhavam em fazê-la rir alucinada.
Parou abruptamente, se concentrando no ruído cada vez mais alto e cambaleou até um sofá, abrindo espaço inconvenientemente entre os casais de namorados. O realejo a estava ensurdecendo e não estava mais conseguindo rir.
Apoiou o rosto em uma das mãos geladas, e até mesmo o chão rodava. Era hora do momento de lucidez, a brecha que o corpo abria para alertar que algo ia muito mal. Ela engoliu em seco, e respirou fundo, apertou os olhos com os dedos.
Não conseguiu fixar-se em nenhum pensamento por muito tempo, uma onda nova de delírio abatendo-a. Olhou o redor, desavergonhadamente sem fazer ideia de que caminho seguir. Deixou a insegurança para lá, incapaz de lidar com ela, e focou qualquer direção. Riu sozinha e acompanhou o aproximar de um vulto.
Era igual à casa de espelhos. A obsessão com o parque estava indo longe, mas as lembranças não tinham nenhum sabor. Era igual aos espelhos malucos, só que não era o reflexo dela distorcido diante de si. Mas bem podia ser. Estava se enxergando ali, estava se imaginando ali, havia encontrado algo.
A figura se recortava cada vez mais perto, às vezes alta demais, às veze em ângulos impossíveis para os ossos humanos, às vezes achatada, às vezes assustadora, às vezes ridícula.
Agora ia ser Alice e deixar-se absorver pelo espelho. Primeiro, uma mão, depois a outra, e a figura, que passou a identificar como um rapaz, a ajudou a se levantar.
Nada era nítido, com exceção dos olhos que ele tinha, azuis como o mar aberto onde uma vez ela foi pescar. Se ele falou, ela não ouviu, sorria frívola, tentando com dificuldade entender o que via. Mas a imagem dele era cada vez mais distorcida, mesmo que a presença fosse quente e palpável.
Suspirou, sem saber que estava exausta, sorrindo lânguida, deixando a cabeça cair para trás. Sentiu o beijo arder na pele da sua garganta, o prazer se espalhando a partir daquele ponto por todo seu corpo extremamente sensibilizado. Não havia como entender o que acontecia, e só o agarre dele era firme e a prendia à realidade.
_Você existe? –ela pronunciou com dificuldade.
_Me responda você. –ouviu a resposta e só conseguiu rir.
_Não… –e falou depois, bêbada, soltando o peso, dobrando nos braços dele. –A única realidade é a ilusão. É o que todo mundo persegue. –e formulou, inteligente, apesar de dominada pelo alucinógeno.
Era essa a conclusão que ela tinha medo de enfrentar sóbria. Era isso que a fazia pensar nas tarde de verão, vendo o parque se acender e querer voltar. A vida era fácil, o mundo era simples, aquilo não era ilusório, mas o que foi buscar era. A grande metrópole catalizadora de desapontamentos só podia ser conhecida de dentro.
_Não está falando coisa com coisa. –escutou, mas percebeu que não era com ela que ele falava. –Onde ela mora? –ela se endireitou ao ouvir. –Onde você mora? –e viu os olhos dele traspassá-la.
_Quem é você?
_Sou Heero. Onde você mora?
_Em South Haven Beach.
Ouviu-o rir. Riu junto. Sustentou-se nos ombros dele, os saltos de repente altos demais. Quando deu por si, estava na rua, o vento gelado acertando-a impiedosamente. Foi embrulhada em seu próprio casaco, Deus sabe como o conseguiram encontrar, e a zoeira na rua não a perturbava, era até mais suave que bagunça dentro do clube.
_Está na hora.
_Do quê?
Ele não respondeu e um minuto depois o céu começou a explodir. Enquanto ele a arrastava, desviando das pessoas festeiras, ela só conseguia prestar atenção no alto. Fogos de artifício riscavam a noite no meio da neve. Nunca tinha visto tão lindos.
Sorriu, ao mesmo tempo as lágrimas escorreram dos seus olhos.
_Cadê suas chaves? –ele pediu.
Ela enfiou a mão dentro do vestido, por baixo, e tirou a chave de uma cinta que trazia uma bolsinha e ficava ao redor de sua coxa. Pôs o objeto na não dele, o metal queimava. Não pensava se devia confiar.
Fungou e saiu do carro com dificuldade. A vertigem caiu sobre ela como um balde de água fria.
_Venha logo. –ele soou irritado, puxando-a pela mão, vendo que ela podia desmaiar a qualquer momento.
Despertou completamente debaixo do chuveiro. Ele a colocou na ducha fria. Com um grito, ela protegeu a cabeça usando as mãos, sentindo-se ferir pela água. O vestido de tecido fino colou no seu corpo em instantes.
Ainda bem que durou pouco. Ouviu o rangido do registro se fechando com pressa, tirou a água dos olhos e procurou quem estava ali.
Sem imagens distorcidas então. O braço dele envolvia sua cintura e a tirou de dentro do box com rudeza. O banheiro era pequeno demais para os dois. Ele a colou a seu corpo, tentando sair para o quarto, molhando-se todo no processo.
_Eu quero uma toalha. –ela reclamou, grogue, a mão esquerda na têmpora, a cabeça pronta pra explodir. –Por que me trouxe para casa?
_Me pediram.
_Simples assim?
_Você não parecia nada bem.
_Mas eu me sentia muito bem. Muito melhor que agora. –e abriu os braços, mostrando sua roupa encharcada e transparente, aborrecida. Ele lhe entregou a toalha, seus olhos duros absorviam a imagem dela inafetado.
_Acho que não. –e replicou, uma voz séria com um fundo de afronta.
Ela jogou a toalha nele depois de terminar de se secar.
_Sai daqui! –mandou, furiosa. –Idiota.
Ele ergueu as mãos se eximindo de culpa, rindo de canto.
_Não tem graça! –ela reclamou, sem conseguir deixar de notar como ele era bonito.
_Desculpa te acordar do sonho. Tomara que se lembre de alguma coisa. –ele comentou, dando as costas, procurando a saída. –Eu volto outra hora… –a voz dele ficou com ela, colada em seu corpo junto do vestido.
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O som do zíper ecoou longamente dentro do ambiente escuro e vazio. Toda sua vida cabia em duas bolsas de ginástica grandes, de lona, herdadas do pai. Era hora de escapar da mentira. Já passara do momento de parar de evitar os fatos. Ele tinha razão quando desejara que ela se lembrasse do seu desvairo na noite de ano-novo. Tudo não passara de uma ilusão que agora ela sabia que fora amarga. Colocou uma mala em cada ombro, pendurou as sapatilhas de balé em torno do pescoço – vermelhas e gastas, suas preferidas, suas únicas. Quando ouviu a buzina chamar já estava no último degrau. Não se afoitava. Fazer o caminho inverso não tinha mais segredo. Devolvia o sonho a seu lugar, sentindo-se mais sábia do que nunca. O caminho diante dos espelhos turvos a tinha levado até ali.
Até ele.
O velho conversível estava ligado, ela jogou as bolsas no banco de trás e resistiu a vontade de pular para dentro. Abriu a porta e se encostou ao banco, jogando a cabeça para trás, imitando Heero. Ele estava impaciente.
_Cinto de segurança, mocinha. –ele avisou, monótono.
_Ok… –ela se atrapalhou com o cinto, tirando as sapatilhas do pescoço e as colocando no colo. Ele a assistiu com exame sério, fixando-se nos rasgos do cetim vermelho.
_Você tem certeza disso? –e perguntou uma última vez, relanceando-a outra vez através das lentes dégradé dos óculos de sol.
_Tenho. –e sorriu vibrante.
Ele cambiou a marcha e saiu com o carro, logo acelerando, e ela encheu o peito do vento. Já sentia o cheiro do sal, ouvia os guinchos das gaivotas e o realejo a chamando. Sua imaginação era forte. Sua ânsia pelo sonho, insaciável. Sua velha conhecida fantasia era então nítida e querida e não via a hora de sentir-se em casa.
Retorno triunfal da última parte do desafio.
Achei o tema muito difícil. Recolhi um monte de inspiração e reuni um monte de referências nesse texto. Gosto assim, com bastante intertextualidade. O final destoa porque entra outro personagem, Heero, que é forte e desestabiliza o ritmo.
Eu tentei me preocupar super pouco e escrever o que desse na telha e desse vontade aqui, cansei de ser tão severa e responsável.
Espero que gostem!
Não esqueçam de ler as respostas de minha desafiante, Miyavi Kikumaru.
Beijos!
21.09.2015
