Na noite que antecedia a reunião do Conselho, em Londres, na mansão do sumo sacerdote Setita, Camus, que era hospede de Shaka desde a noite anterior, utilizava o pequeno laboratório de seu anfitrião para analisar algumas amostras de tecidos e fios de cabelos que havia coletado de Mu, com sua dada permissão.
Com os olhos avelãs vidrados na lente do microscópio e a mente num frenesi ímpar, o Cesarem observava os micro capilares de coloração extraordinária que pertenciam ao Nut.
— É realmente incrível! — o entusiasmo era grande em sua voz — Mu, seus cabelos possuem uma matriz celular única! Parece que a transformação mudou, a nível molecular, a conformação dos folículos e cutículas, dando aos fios essa coloração única. Na verdade, eles non são lilases. Existe uma combinação microscópica de pigmentos vermelhos e azuis englobando toda a fibra capilar, mas dentro do fio do cabelo propriamente dito não há pigmento algum. O núcleo é branco, quase transparente! Para olhos que non podem enxergar detalhes tão pequenos, as matizes de cor se misturam, produzindo esse tom lavanda único!... Très intèressant! — exclamava em meio à suas conclusões, sem tirar os olhos das lentes do microscópio.
— Ah, sim. — o Nut concordou de modo cordial, sorrindo do modo eufórico com que o alquimista lhe relatava sua descoberta — Essa é uma característica do nosso clã. As pintinhas na testa também, mas elas estão também ligadas a nosso poder telecinético.
— Magnifique! — exclamou ao olhar para ele e esboçar um sorriso enérgico.
Já havia um tempo que estavam ali. Mu se dispusera a auxiliar o francês em sua pesquisa e enquanto Camus concluía os testes para comprovar, através de sua Ciência, tudo aquilo que o próprio Nut em pessoa já havia lhe dito, Mu lia um livro pacientemente.
Vez ou outra deixava escapar um riso contido, pois achava graça de toda aquela empolgação de Camus, mesmo que não entendesse a maioria dos termos científicos que ele usava para lhe descrever suas conclusões.
A Ciência moderna de fato era bem diferente dos ritos de sua época, e de certo modo irrisória, já que Camus poderia lhe virar do avesso que nem assim sua Ciência alcançaria uma resposta precisa que explicasse a fonte de seu poder.
Talvez fosse essa falha na fé de Camus que justificava a de Shaka ser tão mais proeminente!
Pensando nisso, Mu fechou o livro que lia e não pode evitar se abater novamente por uma melancolia que se derramou sobre si desde a noite passada, quando tiveram aquela breve discussão na sala do piano.
Desde então Shaka mantinha-se calado, introspectivo, negara-se a ficar ali com eles no laboratório, a participar das análises, a deliberar com Camus acerca das descobertas, preferindo se isolar no quarto que mantinha com Mu no porão sob a desculpa de que se concentrava para a reunião da noite seguinte.
Porém, Mu sabia que o motivo de todo aquele isolamento era outro.
Shaka sentia sua fé abalada pelas palavras que o Nut lhe dissera.
Contudo, se a fé do sumo sacerdote estava sendo colocada em xeque, seu sentimento por Mu só crescia. Mesmo visivelmente abatido e perturbado, Shaka acolhera o Nut em seus braços e assim dormiram até o por do sol.
Era nisso que Mu pensava, no conforto, segurança, companheirismo, no carinho que sentia vindo do outro, quando Camus lhe chamou a atenção tocando em seu ombro. Nem o havia percebido se aproximar.
— Pode ir.
— O que? — desviou o olhar vago de momentos antes para o rosto amigável do francês — Ah, me desculpe, Camus, eu me distrai um pouco.
— Vá... Eu sei que têm muito a conversar e a resolver até amanhã à noite. Shaka deve estar precisando de você. Eu já terminei aqui. Vá. — sorriu de forma gentil.
Mu lhe devolveu o sorriso já levantando-se da cadeira e indo guardar o livro na estante. Ao voltar, parou em frente ao Cesarem e lhe presenteou com um olhar amistoso.
— Obrigado.
Dando as costas ao francês o Nut deixou o recinto sendo observado por um par de olhos avelãs atentos.
O semblante cortês e terno que Camus trazia estampado em seu belo rosto logo se desmanchara, dando lugar a uma expressão de desassossego e cisma.
Assim que se viu sozinho, o cientista voltou ao microscópio e aproveitando a ausência do Nut retirou do estojo de amostras as lâminas que continham o sangue que coletara de Mu.
— É isso aqui... Isso vai me dar a resposta! — sussurrou para si mesmo ao segurar uma das lâminas entre os dedos como se fosse um artefato de extrema raridade — Isso me dirá se minhas suspeitas são infundadas ou se... — vacilou, pois nem ele mesmo conseguia conceber aquela ideia —... Eu espero que esteja errado, meu amigo. Espero que esteja errado!
Guardou as amostras novamente no estojo, pois para saber realmente se o sangue de Mu equivalia ao sangue de um deus, ou melhor dizendo, a um vampiro tão poderoso que a ele lhe deram o título de deus a caminhar na Terra, Camus precisaria de seu próprio laboratório em Paris, além de uma boa dose de sua alquimia vampírica.
Sem quebrar o silêncio no qual estava mergulhado o ambiente, Mu adentrou o porão vendo Shaka sentando em uma das suntuosas poltronas de veludo negro.
A seu lado um candelabro com algumas velas era apenas o que iluminava o recinto, e nas mãos o sumo sacerdote segurava uma pequena escultura feita em ouro e marfim.
Mu a reconheceu como sendo sua representação clássica, pois era idêntica à outra grande imagem que Shaka mantinha em um altar montado em sua biblioteca, a qual lhe dissera ser Seth.
Sentiu certo desconforto e desassossego ao ver o modo como o sacerdote contemplava a estátua, pois não lhe restava mais dúvidas, amava Shaka, como jamais amou outra criatura em sua existência milenar e ocultar dele a verdade lhe era extremamente penoso.
Aproximando-se lentamente sentou-se no braço da poltrona e delicadamente acariciou os cabelos dourados do Setita, que de imediato passou um braço em torno de sua cintura e o puxou para seu colo, lhe dando um beijo terno no rosto.
— Já terminaram no laboratório? — Shaka perguntou numa tentativa de abandonar aquela perturbação que lhe acometia, afinal, se Mu falava a verdade, se realmente Seth e as Escrituras Sagradas não passavam de um erro de interpretação, uma fraude, então por que ainda sentia sua fé viva como sempre? Por que ainda tinha a certeza irrefutável de que Seth retornaria para si? Por que sentia sua presença mais forte que nunca?
— Sim. — Mu respondeu, e ao sentir a inquietação que tomava o amado, tomou a estatueta de suas mãos e a colocou sobre a mesinha ao lado — E você? Já terminou suas reflexões? Eu espero que sim. Não me agrada vê-lo angustiado dessa forma.
— Não. Não terminei... Na verdade, creio que só me aquietarei quando encontrar meu deus, ou... Ou quando minha fé me abandonar. — respondeu ajeitando o Nut em seu colo enquanto o abraçava com devoção — Mas, não quero falar mais sobre isso. Prefiro esperar a fazer especulações vãs.
— Se prefere assim, respeito sua decisão. — o Nut sentia o peito comprimir, angustiado, aflito, pois se antes não revelou sua verdadeira identidade ao Setita por dúvida, receio ou apenas conveniência, agora não revelava por medo de sua reação.
Em silêncio então o abraçou de volta, apreciando o toque entre as peles frias deixando escapar um pequeno gemido de satisfação quando seus lábios se tocaram num beijo que de inicio era terno e delicado, mas que logo se tornara intenso e extasiante.
Como amava aquele sacerdote... Seu sacerdote. Seu!
Na noite seguinte, Shaka havia acordado pouco antes do sol se por.
Por saber que Mu era mais sensível à luz o deixou dormindo na cama que dividiam no porão e foi dar inicio aos preparativos da viagem que fariam logo mais.
Não tinha muito tempo, já que o avião que fretara para a Romênia sairia em algumas horas.
Sendo assim, Shaka se apressou em chamar um de seus carniçais para que levasse Camus ao hangar onde o jato do francês já o aguardava. O Cesarem iria na frente para juntar-se a Degel, o líder e representante de seu clã no Conselho, que o aguardaria na sede romena.
Em seguida instruiu Afrodite com algumas tarefas da casa, já que imaginava ficar fora por pelo menos duas noites e deixaria o músico, juntamente com outros servos, encarregados dos cuidados com seu lar.
Tudo pronto, agora tratava de resolver a tarefa que julgava a mais árdua. Convencer Mu a entrar novamente em um avião!
O Nut sequer imaginava o que o aguardava, uma vez que ainda não estava totalmente familiarizado com as dimensões geográficas do novo mundo e mesmo Shaka lhe dizendo que a sede do Conselho ficava em outro país, bem longe de onde estavam, Mu não imaginou que seria preciso subir novamente na temível, barulhenta e mal cheirosa besta voadora.
Pensando numa forma de agradar ao Nut, e juntando o útil ao agradável, assim que Mu despertou e deixou o porão, Shaka o conduziu ao terreno que ficava nos fundos da mansão e onde havia lhe preparado uma surpresa.
Entre as árvores haviam cinco pessoas, entre homens e mulheres, amarrados a grossas cordas de forma a permanecerem sentados no chão de costas um para o outro. Ao sinal de Shaka um carniçal aproximou-se deles e com um facão cortou a corda, afastando-se a medida em que, feito insetos embebidos em formol, eles se levantavam cambaleantes e aos prantos.
Porém, a única coisa que os entorpecia naquele cenário soturno era o medo, puro e instintivo.
— São todos seus. — disse o sumo sacerdote com um sorriso pérfido no rosto — Os escolhi a dedo! Tenho certeza de que vai apreciar o sabor único de cada um.
Com os olhos vidrados no gado que agora já corria entre as árvores do fundo da propriedade aos gritos de socorro e clemência, Mu esboçou um sorriso de satisfação. Olhou para Shaka com pequenos veios de seus olhos já adquirindo um tom de negro intenso, enquanto as íris cintilavam o púrpura vívido de seu desejo, o qual era atiçado pelos gritos de pavor.
— Saia. Não olhe. — disse pouco antes de desaparecer diante dos olhos azuis do Setita.
Havia se teleportado para iniciar sua caça.
Sem questionar, Shaka deu meia volta e retornou ao interior da mansão. Havia se alimentado já o suficiente quando saiu para caçar aqueles humanos e agora era só esperar que Mu retornasse lhe pedindo auxílio para se limpar.
Assim o fez, e como previu poucos minutos depois o Nut regressava à mansão coberto em sangue, vísceras, cartilagens, terra e toda a sorte de imundices.
— Tinha toda razão. — disse Mu ao entrar na sala onde Shaka o aguardava — Eram deliciosos... Preciso me lavar. Me acompanhe até a casa de banho.
— Ainda não. — respondeu o Setita ao virar-se para ele e encarar seus olhos negros como a noite — Há algo que quero fazer antes.
Mu nada disse. Ficou apenas a observar o sacerdote aproximar-se de forma felina, acercando-se de si como uma fera que analisa a presa.
Sentiu-se estranhamente atraído por aquela nova abordagem, uma vez que o olhar que Shaka direcionava a si lhe chegava a causar um frisson que podia sentir como se seu corpo estivesse vivo novamente.
Aquela instigante sensação intensificou-se ainda mais quando o sumo sacerdote parou a sua frente e tomou seus lábios tintos em vermelho num beijo ardente, pleno de anseio.
Sem importar-se em sujar as vestes brancas de linho egípcio, o Setita colou seu corpo ao do Nut enquanto corria ambas as mãos pelos músculos delineados, braços, costas, peito... O sangue que cobria a pele, agora quente e cálida, facilitava o balé dos dedos buliçosos que galgavam cada pedacinho daquela compleição fremente, até chegarem ao objetivo traçado.
— Hum... Shaka... — um gemido baixinho escapou dos lábios de Mu quando o sacerdote enfiou uma das mãos por dentro do saiote egípcio e lhe tomou o membro desperto numa massagem formidável.
Shaka sabia melhor que ninguém que atiçar o apetite sexual de Mu era uma manobra camicase. No entanto, tinha aquela cisma, aquela certeza de que mesmo correndo o risco esse era o passo que faltava para selar suas almas e seu elo sanguíneo em definitivo.
Assim, quando Mu menos esperava, lá estava o Setita se ajoelhando em frente a ele, como um servo devoto e muito dedicado, enquanto iniciava uma felação deliciosa.
Na verdade aquilo era mais uma realização pessoal do que um plano em si. Até porque o medo de Mu de voar era um medo infundado, visto que, se o avião caísse eles não morreriam. No entanto, sabia que para o Nut conceber um objeto que rasga os céus como um pássaro era deveras assustador.
E foi juntando seu desejo em agradar Mu, também como uma forma de se desculpar por faze-lo entrar novamente no pássaro mecânico, somado ao próprio desejo em provar aquela criatura mais que tudo no mundo, foi que o sacerdote retirou o membro rijo de sua boca, massageou algumas vezes, tirando gemidos roucos do Nut, e quando julgou ser o momento exato, disse em voz baixa:
— Nós vamos à Cárpatos de avião.
Shaka então abriu a boca e enfiou o pênis de Mu quase todo dentro, fazendo a glande tocar em sua garganta, e sem quebrar o contado visual com o Nut, deu uma chupada lenta, longa e deliciosa.
Há muito queria fazer aquilo, mas temia que Mu o atacasse por pensar que o morderia logo ali, naquele lugar tão sensível. Por isso, não se demorou a voltar a chupar delicadamente, torcendo para que a reação do outro fosse o menos desastrosa possível. Tanto pelo fato de saber que teria que entrar novamente em um avião, quanto pelo fato de ter um vampiro com a boca em seu membro.
— O... O QUE?... Aquela... Máquina... Aahhh... Que voa... Hum... — indagou entre gemidos, confuso entre a surpresa da sentença e a excitação que sentia.
Olhou para baixo e diante da visão extasiante do sacerdote sugando seu membro daquela maneira tão deliciosa, não foi capaz de elaborar uma resposta negativa, perdido num mar de sensações delirante e relativamente novas para si.
O plano de Shaka havia dado certo. Mu estava cada vez mais envolvido, ligado a ele, e faria absolutamente tudo que pedisse, até entrar novamente na besta voadora.
Com as garras distendidas, o Nut segurava nos cabelos dourados do Setita imprimindo força ao movimento de vai e vem, acelerando o ritmo da felação de maneira instintiva. Apesar do prazer que desfrutava sentia medo, muito medo. De voar pelos céus no demônio metálico moderno feito pelo gado, de perder o controle da Besta ali e devorar o sacerdote, de que Shaka também se descontrolasse e o mordesse logo naquela área que havia pronto descoberto tão sensível.
Medo.
Porém o êxtase sobrepujava o temor e Mu experimentava uma sensação nunca antes vivenciada em toda sua existência. Era como se todo o sangue que consumira há pouco tivesse descido para seu baixo ventre. Sentia-o fervendo, pulsando dentro da boca do Setita e de forma instintiva começou a movimentar o quadril, ansiando por mais contato, mais prazer, estocando de leve a boca do seu sacerdote.
— Hum... Sha... Shaka... Aahh... Isso é... — gemia. Seus olhos denunciando a luta interna que travava contra sua Besta, ora negros como piche, ora com as íris verdes que cintilavam uma faísca púrpura agitada.
Vez ou outra, quando abria os olhos e buscava o rosto do Nut, Shaka se deleitava com a expressão confusa e instigada dele, porém ele próprio se inebriando com o divino sabor que aquele vampiro tão peculiar possuía.
Escorregou ambas as mãos até as nádegas de Mu onde cravou as unhas suavemente, apertando a carne com força, delirando com o calor momentâneo que agora o corpo dele mantinha, enquanto puxava seu quadril para frente a fim de intensificar o contato.
Com habilidade e avidez sugava o sexo do Nut por inteiro, apenas o retirando de dentro da boca quando queria lamber seu períneo e testículos, então passava a língua pela pele cálida algumas vezes para depois voltar a abocanhar o pênis e suga-lo com vigor, pedindo a Seth que Mu não saísse correndo dessa vez antes de provar seu sabor derradeiro.
E com certeza Seth o estava ouvindo!
Ou melhor, estava literalmente delirando de prazer com aquela boca!
Mu estava no limiar da loucura.
A Besta havia despertado completamente e agora ansiava por voar para cima de Shaka e lhe devorar por inteiro, saciar aquela ânsia insana e aquela fome absurda de algo que nem mesmo Mu conseguia compreender o que era.
Contudo, havia algo de que Mu tinha completa certeza no meio de todo aquele torpor alucinante. O sangue do sacerdote jamais lhe serviria para saciar a fome da Besta.
Por isso ele continuou lutando. Para salvar Shaka e também porque tudo que mais queria naquele momento era alívio. Um alivio que instintivamente sabia que viria brevemente.
Foi quando o Setita segurou na base do pênis do Nut e passou a estimulá-lo no mesmo ritmo que o chupava, que sentiu que o momento estava próximo.
Fechando os olhos, cravou os dedos nos fios dourados do vampiro ajoelhado diante de si, soltando pequenos rosnados, tanto de prazer, quanto de fúria, já que não lhe era nada fácil conter o demônio dentro de si.
— Aaahhh... Não pare... Não... Aahhh... — a voz agora era bem mais grave e de tom autoritário.
Grossas gotas de suor vermelho brotavam pelos poros do Nut, e não tardou para que aquele contato tão intimo tivesse seu derradeiro final.
Com um longo uivo animalesco, Mu sentiu uma onda de calor, assim como choques involuntários brotando dentro de si, até que foram aumentando de intensidade e culminaram em uma explosão de prazer.
Havia acabado de experimentar seu primeiro orgasmo humano, ejaculando dentro da boca do sacerdote.
A sensação surtiu um efeito avassalador em seu organismo.
Por segundos acabou liberando uma parte de seu poder, provocando uma lufada forte de ar que varreu todo o local quebrando os vidros das janelas.
Com os espasmos Mu curvou o tronco e debruçou-se sobre Shaka, logo após deixando-se cair de joelhos suavemente à sua frente para envolve-lo com um abraço forte.
Quando aquela explosão de prazer começou a se acalmar e um universo de estrelas parou de girar ao seu redor, o Nut então abriu os olhos e sentindo-se meio tonto e fraco olhou para o Setita, o qual lhe sorria satisfeito.
— Eu... O que foi isso? — balbuciou, sem entender a razão daquela debilidade repentina que tomara seu corpo após aquela explosão de prazer tão intensa.
— Isso foi uma demonstração apenas do que posso fazer você sentir, caso perca o medo e não mais fuja de mim. — Shaka sorria enquanto se levantava do chão puxando Mu consigo para depois segurar me seu rosto com ambas as mãos e encarar seus olhos — O prazer que sentiu não se compara ao verdadeiro êxtase que só os imortais podem provar! Seja meu companheiro, Mu, confie em mim e descobrirá que há um prazer tão sublime quanto saciar sua fome eterna.
Com um beijo o sumo sacerdote selou aquela oferta e puxando o Nut pela mão o conduziu até o banheiro onde o ajudou a se lavar.
A experiência surtira o efeito desejado, pois em nenhum momento Mu fizera objeção quanto a entrar novamente em um avião.
Calado, o Nut agora tinha os pensamentos focados apenas na experiência que vivenciara e no quanto desejava mais! Entendia mais do que nunca agora o motivo de sua família lhe ter privado dos prazeres do sexo, visto que se não fosse Shaka ali, lhe estimulando daquela maneira tão excitante, era certo que teria matado a criatura, devorado até o tutano dos ossos. Foi o amor que sentia pelo Setita que o permitiu ser mais forte que a Besta.
Porém, ainda temia muito e maldizia a si mesmo em silêncio. Desejava mais que nunca provar o sabor daquele vampiro tão poderoso, sentir o sangue dele, suas vivencias e sabedoria transbordando dentro de si, mas o mataria caso se entregasse.
Preso a esse ciclo de pensamento, em silêncio Mu acompanhou o sacerdote até o porão onde ambos se vestiram rapidamente com túnicas negras e as tradicionais capas com capuz que encobria quase todo o rosto.
Antes de entrarem no automóvel que os conduziria até o hangar particular de Shaka, o sacerdote ordenou a Afrodite que providenciasse o conserto das janelas da sala.
Motores acionados, piloto e copiloto a postos, pista iluminada, tudo pronto para levantarem voo, não fosse por um detalhe.
— Anda, Mu. Confie em mim. Não há por que temer o avião.
Shaka dizia do topo da escada da aeronave, enquanto Mu permanecia ao pé dela, relutante em subir.
— Eu... Acho que mudei de ideia. Olha... Não tem como irmos em outro veículo? O barulho desse demônio metálico me enlouquece! — usava as mãos para tapar os ouvidos.
— Infelizmente não, meu querido. Anda, venha, já estamos em cima da hora.
Muito a contra gosto, o Nut subia as escadas relutante, mas quando se aproximou do sacerdote esse lhe tomou as mãos e o puxou para um forte abraço, o confortando, enquanto um carniçal recolhia a escada e eles finalmente entravam na aeronave.
O voo foi tenso.
Logo no início passaram por uma turbulência que fez Mu despertar sua Besta por puro instinto de proteção, sendo preciso que Shaka o acalentasse e lhe falasse palavras doces para que conseguisse voltar a seu estado normal.
Mesmo passado aquele momento de tensão, o Nut passou o resto da viagem murmurando antigas preces em egípcio antigo, as quais aprendera com seu pai, Rá. Não que acreditasse que alguém o ouviria, mas acreditava no poder mágico das palavras e que elas o ajudariam a sentir-se um pouco menos aflito.
Felizmente a aterrisagem se deu sem maiores atribulações, mas mal o avião tinha terminado de taxiar pela pista de pouco no hangar romeno, Mu já abria ele mesmo a porta e saltava às pressas, ansioso por se ver livre daquele demônio alado barulhento.
Shaka havia corrido atrás dele, temendo uma nova fuga, mas assim que o viu do lado de fora apenas tomando distância do avião riu, achando graça daquele pavor desmedido.
Nem esperou os carniçais trazerem as escadas de desembarque também saltou para fora, caminhando em direção ao Nut com um semblante divertido.
— Ora, não foi tão ruim assim.
— Não... Foi terrível! Podemos voltar para casa apenas correndo? Não entro novamente nesse pássaro fétido e barulhento nem que me obrigue. — dizia com as pupilas ainda levemente dilatadas devido ao medo.
— Prometo que vou pensar no seu caso. — sorriu, e estava pronto para tomar o Nut em seus braços e tranquiliza-lo quando viu uma silhueta se aproximar.
— Que bom que chegaram!
A figura que parou diante deles vestia o mesmo traje, composto por capa e capuz. Era Asmita, o representante Setita do Conselho, que viera recebe-los para que chegassem juntos à reunião.
— Saudações, Asmita. — Shaka o cumprimentou com um aceno leve de cabeça.
— Saudações, sumo sacerdote, saudações Mu. — respondeu da mesma forma — O concílio já nos aguarda. O carro que nos levará até a sede já está aqui. Por favor, venham.
Durante o percurso, Mu imaginava como seria estar na presença de vampiros dados como os mais influentes de todo o novo mundo.
Em sua época não havia uma sociedade tão grande como a vigente, tampouco Conselhos que normatizavam suas existências. Há quatro mil anos, os pequenos grupos de imortais se reuniam em famílias e cada uma governava uma região do Globo, sob suas próprias leis ou mesmo na total ausência delas.
Agora, pelo pouco que pode entender existiam leis que regiam todos os vampiros a caminharem na Terra. Leis feitas por poucos para controle de muitos.
Não gostou nada daquela ideia. Não era adepto de modernidades e já imaginava que não iria gostar também dos vampiros que conheceria logo mais.
Quando entraram no perímetro da mansão que pertencia ao Conselho, Mu discretamente estendeu o braço e tomou a mão de Shaka na sua, entrelaçando seus dedos aos dele. O sacerdote era seu único porto seguro naquele mundo novo e só ele conseguia trazer alguma paz de espírito à sua alma perturbada e triste.
Dentro da suntuosa construção bizantina, Saga, o Presidente do Conselho, aguardava a chegada dos convocados em seu escritório.
Ansioso, o Patricii andava de um lado para o outro do cômodo repetindo o mesmo percurso sobre o assoalho lustroso.
Estava pensativo, mergulhado em perguntas que sua mente elaborava numa velocidade frenética.
A poucos metros de distância, sentada em uma poltrona, Geisty, sua companheira, o observava atenta, tão ansiosa quanto o amado pelo inicio da assembleia.
Foi a voz lúgubre do mordomo que adentrou a sala após dar três toques na porta que tirou a ambos de seus pensamentos.
— Com sua licença, senhor Presidente. Todos os convocados já estão à postos na sala de conferência aguardando sua chegada. Os Seguidores de Seth, Asmita, Shaka e um convidado de honra acabaram de se juntar aos outros.
Ao ouvir as palavras do mordomo Saga e Geisty trocaram olhares e sem dizerem uma única palavra puderam adivinhar o que se passava na mente um do outro — "A relíquia!".
O Patricii então caminhou até a companheira e tomando sua mão caminharam juntos até à porte de saída.
— Obrigado. Fique no hall como de costume. Já estou indo para câmara. — disse o vampiro de longos cabelos azuis turquesa, elegantemente vestido num terno preto de veludo — Vamos, minha querida. Mal posso esperar para saber o que aquele sacerdote está tramando agora.
Seguram juntos até uma sala que ficava no subsolo daquela mansão. Era grande, em formato circular e o chão todo revestido em mármore negro.
Dispostas em um semicírculo havia doze cadeiras, as quais eram ocupadas por um representante de cada clã convocado, já que aquele era o Conselho Menor, onde estavam presentes apenas os clãs mais influentes que compunham a sociedade vampírica do novo mundo, e por três convidados.
Completando o semicírculo, no espaço vazio que faltava para ligar ambas as partes, havia um palanque que guardava uma cadeira luxuosa, a qual fora ocupada pelo Presidente do Conselho assim que este adentrou a sala em silêncio, acompanhado por sua fiel companheira que agora usava seu dom para manter-se incógnita frente aos membros.
Como sempre fazia, Geisty se posicionou atrás da cadeira presidencial debruçando-se sobre os ombros do amado.
— "Estou curiosa para ver essa relíquia!" — disse ao ouvido dele num leve sussurro — "As cartas não me disseram muita coisa. Apenas vi que nos trará mudanças."
Saga olhou para o lado, admirando os olhos carmins da bela esposa, pois o dom da Ofuscação não a ocultava de si, e logo deu inicio ao debate direcionando sua atenção aos membros do Conselho ali presentes.
— Boa noite, senhores. — em seguida encarava um por um — Aspros, representante do clã Patricii. Albafica, dos Filhos da Cacofonia. Máscara da morte, dos Giovannis. Degel, dos Cesarem. Sorento, dos Toreadores. Sage, dos Tremere. Milo, recém empossado líder dos Capadócios. Dohko, dos Ventrue e Asmita, dos Seguidores de Seth... Shaka, sumo sacerdote líder dos Seguidores de Seth e solicitante dessa assembleia. Camus, do clã Cesarem e testemunha pessoal demandada pelo solicitante... — estreitou os olhos ao olhar para a figura encapuzada ao lado do sacerdote Setita —... E a quem devo anunciar a seu lado, sumo sacerdote?
— Logo saberá, Presidente. — respondeu o Setita levantando-se de seu acento — Tão logo eu fizer meu relato.
— Pois bem. — Saga apoiou os cotovelos sobre o palanque cruzando as mãos e entrelaçando os próprios dedos, enquanto encarava o Setita que se dirigia ao centro do semicírculo — O Conselho Menor está reunido nesta noite para ouvi-lo. Diga-nos, Serpente, o que tem a relatar aos membros que julga tão importante ser dito em assembleia extraordinária?
Shaka então assumiu uma postura altiva e deu inicio a seu relato .
— Senhores membros. — correndo os olhos rapidamente pelos rostos curiosos que o fitavam os cumprimentou solenemente com um aceno de cabeça e logo em seguida voltou sua atenção novamente a Saga — Solicitei essa conferência, pois, como já devem ter notado, há um novo imortal entre nós. E qual a relevância desse fato? Certamente é o que devem estar se perguntando. Pois bem, eu lhes direi, porque é dado o modo pelo qual eu o encontrei que solicitei esse concílio nesta noite.
Todos olhavam atentamente para o sacerdote, vez ou outra lançando olhares curiosos para Mu, que coberto pela capa e capuz ocultava sua face deixando pouco a ser analisado.
— Há pouco mais de um mês, uma das sedes de meu clã no Oriente Médio foi brutalmente atacada numa emboscada insidiosa nas áridas terras do Irã. Eu estava presente nesse dia e não fosse apenas por meu poder e minha experiência, teria sucumbido juntamente a todos os outros membros, os quais foram covardemente chacinados por um grande, violento e muito bem organizado contingente de Espectros das Sombras.
Nessa hora houve um agito geral.
O sacerdote agora era alvo de buchichos, olhares surpresos, outros incrédulos e principalmente curiosidade.
— Tenho provas e testemunhas. — olhou discretamente para Camus que estava sentado ao lado de Degel — Se assim desejarem verificar a autenticidade do que digo. Contudo, não acho necessário provar nada, visto que é só lhes apresentar o relatório com as baixas que meu clã vem sofrendo de uns tempos para cá, o que, a meu ver, é uma prova mais que irrefutável de que nós, Seguidores de Seth, estamos servindo de alimento para uma causa ainda desconhecida, mas claramente engendrada pelos Espectros das Sombras.
— Você disse que tem provas. Que provas você tem? — inquiriu Albafica de pronto.
— Sim. — concordou Máscara da Morte de forma veemente — Não pode acusar um clã ligado diretamente ao Conselho. Ainda mais quando o representante dele não está presente para sua defesa.
— Os Seguidores de Seth são conhecidos por seus blefes e truques. Sabe muito bem que o canibalismo é pratica hedionda e mesmo assim acusa um clã ligado ao Conselho dessa prática abominável? Por quem nos toma, sumo sacerdote? — proferiu Aspros de forma explosiva, até meio grosseira.
— Sim! Queremos provas! Ou julga esse Conselho leviano? — Degel deu seu parecer.
— Ordem, por favor, senhores, ordem! — pediu o Presidente ao ver os ânimos se exaltarem.
— "Ele não parece estar mentindo. Seus olhos dizem a verdade." — sentando-se no braço da grande poltrona presidencial, Geisty falava diretamente à mente de Saga, usando o dom de seu sangue.
Sempre atento às palavras da companheira, o Patricii levantou-se de seu acento e se impondo aos demais proferiu em tom vigoroso.
— Sumo sacerdote, se realmente sofreu um ataque dessa magnitude, motivado por uma causa que a meu ver me parece bem preocupante, as lembranças do dia dessa emboscada estão contidas em seu sangue. Aproxime-se. — estendeu o braço chamando o outro — Eu legitimarei sua acusação. Apenas um gole do seu sangue será suficiente para provar a mim e a todos presentes que diz a verdade.
Conforme lhe fora ordenado, Shaka se aproximou da bancada presidencial, e assim que se viu frente a frente com o Presidente, sem quebrar o contato visual que mantinha com ele puxou a manga longa da túnica que vestia apenas o suficiente para desnudar seu punho e o ofereceu ao Patricii, que de pronto o tomou pelas mãos e liberando sua Besta interior lhe cravou uma das presas, sorvendo apenas uma gota do sangue do Setita, exatamente como havia dito.
Como uma onda que varre as areias da praia, as lembranças do sumo sacerdote atingiram em cheio a mente de Saga em segundos, e também de sua companheira, Geisty, através do elo sanguíneo que possuía com o Patricii, confirmando a denúncia de Shaka.
— Malditos! — murmurou ao soltar o braço do sacerdote, depois elevou o tom de voz para se fazer ouvir por todos presentes naquela assembleia — Está confirmado! A acusação é legítima e será investigada.
Novamente um burburinho exaltado tomou no recinto, enquanto Shaka voltava para o centro do plenário.
— É pensando na segurança dos Seguidores de Seth e agora também na de meu "hospede", que certamente se tornará uma arma em potencial caso caia em mãos erradas, assim como na segurança dos demais clãs, que digo que o Conselho deve se mobilizar a respeito dos Espectros das Sombras. — continuou o sumo sacerdote.
— Seu... Hospede? — questionou Saga, ainda de pé atrás do palanque.
— "A relíquia!" — Geisty falou em sobressalto à mente do companheiro ao ver a figura encapuzada se levantar do assento que ocupava ao sumo sacerdote lhe ter feito um sinal — "Será possível que..."
— Sim. A outra razão de eu ter solicitado a atenção de vocês nesta noite. — respondeu Shaka dando um passo ao lado, abrindo caminho para que Mu pudesse se colocar a frente do palanque — Ao conseguir fugir do ataque sofrido no Irã, me refugiei do terrível amanhecer em uma caverna, onde encontrei um mausoléu intocado pelo tempo. Nele haviam escritos antigos, em sânscrito e egípcio antigo. Como arqueólogo, estudei o local durante todo o tempo que fiquei recolhido e encontrei uma múmia... Não sabia se tratar de um imortal, só descobrindo depois que o havia desperto por acidente. Eu o trouxe aqui, senhores, pois sei bem que já andam me investigando e a meu amigo Camus, dos Cesarens. Sendo assim, lhes poupei o trabalho de me espionar.
Os membros ali presentes olhavam agora para as duas figuras ao centro da convenção num misto de curiosidade e cisma. Não apreciaram nem um pouco o tom pedante com que o Setita lhes falava, mas mantinham-se calados devido ao interesse em saber quem era a criatura por baixo das vestes negras.
Mas, se todos ali aguardavam ansiosos e curiosos pela revelação sem sequer imaginar que estavam diante de um primordial, um, ou melhor, uma imortal em particular se exaltava ao lado do Presidente do Conselho.
— "Ele me vê!" — disse Geisty ao mirar o par de olhos ferinos que a encaravam por debaixo do capuz negro.
— "O... O que?" — Saga questionou-a surpreso, uma vez que sabia que nenhum vampiro ali tinha poder suficiente para quebrar o dom da Ofuscação da companheira.
— "Ele me vê. Está olhando para mim!" — trêmula e estarrecida, ela encarava os olhos de Mu apreensiva — "Isso é um mau agouro! Um péssimo sinal!... Os únicos vampiros poderosos o suficiente para quebrarem minha Ofuscação eram os... Não pode ser!"
As palavras da amada foram de repente sublimadas por um gesto executado pelo Nut, que sem mais esperar apresentações resolveu ele mesmo se fazer anunciar ao puxar o capuz para trás da cabeça e revelar seu rosto. Assim como Geisty, Mu não tirava os olhos da cigana, intrigado por sua Presença destoar de todos que estavam ali.
— Eu sou Mu... — disse com voz firme e vigorosa. Conhecia bem aquele tipo de ocasião e não poderia demonstrar nem uma sombra de fraqueza, ou viriam para cima de si como abutres. Também não havia governado o Egito por dois mil anos junto da família para não ter aprendido nada. Ali, diante daquele Conselho de grandes teria de agir conforme seu antigo título de poder. Teria de ser Seth, o deus, e não Mu o vampiro apenas. Por isso, seguiu retirando a capa que vestia, revelando-se por inteiro e liberando sua Presença avassaladora —...Do extinto clã Nut... E companheiro do sumo sacerdote Shaka, do clã Seguidores de Seth.
A surpresa foi geral, tanto pela revelação do clã ao qual pertencia, quanto ao dado relacionamento com o sacerdote Setita.
Camus, que estava ali apenas caso fosse preciso testemunhar, arregalou os olhos quando um dos seus temores se mostraram concretos. Agora era oficial. Seu amigo estava definitivamente ligado aquele Nut e em grande perigo, porém ninguém ali ficara mais estupefato que Shaka ao ouvir aquelas palavras.
O Setita, que olhava para Saga no alto do palanque enquanto Mu se apresentava, ao ouvir o que ele dissera imediatamente virou o roto para trás com um semblante que ao mesmo denotava surpresa e euforia.
— Mu! — balbuciou o sacerdote ao olhar para ele.
Então o Nut aceitara sua proposta, ou seu convite!
Imediatamente uma satisfação, parecida com o sentimento humano de alegria, tomou o sacerdote Setita de assalto, mas só fora de fato expressa através do olhar cúmplice que trocaram.
Não demonstraria nada perante o Conselho, nada que denotasse sua vaidade, mas por dentro Shaka era euforia pura!
Mu aceitar ser seu companheiro era ao mesmo tempo regozijo e temor. Porém, Shaka não vacilou por um só momento. Sua fé lhe dava toda a certeza de que estava no caminho certo quando fez o convite ao Nut.
Mu então desviou o olhar dos olhos de Shaka e novamente encarou os olhos do Presidente do Conselho e da cigana a seu lado, expandindo sua Presença ainda mais, numa demonstração do Poder desmedido que possuía.
Saga sentiu de imediato o peso de sua ancestralidade, e como se tivesse sido golpeado por aquela revelação assustadora, recostou-se à poltrona encarando o Nut com olhos arregalados.
— "Um Nut? Um Nut! O pouco que sei deles é a partir de suas lembranças, Geisty."
— "É muito mais forte que todos nós juntos! Eu posso sentir. Não era para existir mais nenhum deles! Saga, isso não é um bom agouro!"
— "Um Nut... E companheiro de Shaka! Foi isso mesmo que ouvi, ou são meus ouvidos me pregando uma peça? Não posso acreditar. Isso é muito raro!... O que devo fazer?"
Devagar, Geisty deu dois passos para trás vendo os olhos do Nut a acompanhar. Deu mais três passos para o lado esquerdo, e ainda os olhos milenares a acompanhavam.
Em desespero, a cigana olhou para todos os presentes ali, um por um, e ainda que eufóricos pareciam continuar ignorando sua presença como de costume, o que a fez sentir um mínimo de calma, mesmo que momentânea.
— "Querido..." — falou à mente do presidente do conselho — "Ele me vê, mas não pode desfazer minha Ofuscação. Dos males o menor! Continue. Diga-lhes que o Conselho pode ajudar, mas os questione! Pergunte se possuem um plano engendrado contra os Espectros das Sombras. Por mais que sejam desmedidos esses ataques, não podemos agir de forma precipitada... Nem tomar medidas antes de sabermos os motivos dos agressores. Precisamos analisar a intenção de cada um dos lados, para só assim escolhermos qual nos beneficiará melhor."
Enquanto Geisty conversava com Saga, no salão um alvoroço tomava proporções cada vez maiores.
A presença de um Nut entre eles era ao mesmo tempo fascinante e ameaçadora. Por isso as opiniões se dividiam.
Máscara da Morte, que parecia o mais exaltado, assim que Mu se revelou, levantou de seu acento e disse em voz alta e potente:
— Um Nut entre nós? E só agora você o revela? — encarou Shaka — Não é a toa que vocês, Serpentes, carregam nas costas a má fama que merecem! Biltres! Isso é inadmissível! Ele tem que ser contido!
— Ei! Se acalme, Máscara da Morte. — disse Degel, que parecia bem mais ponderado, mas não menos assustado — Ele veio até nós, e pelo que vejo não tem a mínima intenção de nos atacar.
O líder Cesarem olhava para Mu com olhos curiosos. Parecia defende-lo perante o Conselho, mas em sua mente atiçada pela curiosidade e devota da Ciência, já pensava em uma forma de captura-lo e disseca-lo, pois ele era uma espécime rara e seu sangue podia conter a chave de muitos dos mistérios atuais que envolviam a sociedade vampírica no que concerne o seu inicio e formação.
A seu lado, Aspros, dos Patricii, olhava com firmeza pra o Nut, sem teme-lo ou fazer qualquer rodeio.
— Você, Nut, pelo que Shaka disse despertou há pouco no novo mundo. Deve saber que não pode abraçar ninguém. Imagino que Shaka já lhe tenha dito isso, mas se não disse eu estou o advertindo. Ninguém inferior a 25° geração pode abraçar sem autorização prévia deste Conselho... O equilíbrio seria perdido pelo surgimento de um exército de vampiros com dígitos únicos.
— Isso se já não abraçou! — quem falou foi Albafica, dos Filhos da Cacofonia — Há dias ele está desperto e sua existência oculta perante Conselho. — encarou o sacerdote Setita com um olhar ameaçador.
Shaka por sua vez, permanecia calado, não iria ceder às provocações.
— Nuts não são lendas? — Milo agora tomava a palavra — Se o que dizem é verdade, então isso é um achado e tanto! — o Capadócio já via em Mu o avanço que há anos procurava em seus estudos de farmacêutica — Se é mesmo um Nut, deve conter muitos segredos de magia e cura gravados em seu sangue! Vocês estão insultado alguém que pode nos dar uma fonte de saber sem limites!
— Cala a boca! — gritou Máscara da Morte — Você é uma vergonha, Milo! Ele tem que ser preso! Não é possível que não o vejam como uma ameaça!
Enquanto discutiam, Asmita dos Seguidores de Seth se levantou do acento que ocupava e se dirigiu até Mu.
Quando ninguém esperava, o Setita representante daquele clã junto ao Conselho ajoelhou-se aos pés do Nut e fazendo uma sutil reverencia disse:
— Se é companheiro do meu sumo sacerdote, eu o devo honra-lo como tal. Os Seguidores de Seth estão a seu lado, Mu, do clã dos Nuts.
Shaka, que já estava bem consternado com toda aquele falatório vil, notou no gesto de Asmita uma esperança de que aos poucos pudesse conseguir o apoio de todos eles. Asmita era um membro muito respeitado pelo Conselho devido sua ancestralidade e excelente conduta.
Nessa hora, Saga se levantou e encarou Mu nos olhos.
No salão algumas vozes ainda eram ouvidas quando o Patricii ergueu a sua e fez todas as demais se calarem.
— Pois bem, Mu, companheiro de Shaka. Vejo que já escolheu o seu lado.
— Sim. Já o escolhi. — Mu respondeu firme e vigoroso. Nada do que ouvira ali o abalara de fato.
— O que pretendem com essa revelação?
— Deixar claro que os Seguidores de Seth não estão sozinhos. — o Nut esclareceu de forma veemente — Shaka é meu companheiro, o clã Setita é minha família no novo mundo. Shaka lhes fez uma denuncia, e esperamos uma posição.
— Exato. — o sumo sacerdote resolveu tomar a palavra, extremamente orgulhoso e exaltado depois de ouvir Mu aceitar seu pedido — E se o Conselho não tomar providencias quando aos ataques arquitetados pelos Espectros das Sombras, eu as tomarei.
Saga se remexeu na cadeira.
Era muita audácia daquele sacerdote petulante dizer que agiria sem o consentimento do Conselho.
O Patricii então olhou para Mu novamente. Sua aparência frágil e inofensiva contrastava absurdamente com o poder que era emanado de si, deixando claro que ninguém ali naquela sala poderia dobrá-lo.
Aquele Nut era um problema e tanto a ser resolvido!
Sabendo que Mu podia ver Geisty e que os ânimos poderiam se exaltar ainda mais, Saga não se demorou em encaminhar a conferência para seu final.
Sendo assim, o Presidente foi claro em querer sanar sua maior duvida ali.
— E você, Mu, dos Nuts. O que pretende com essa demonstração de poder, além de vir aqui deixar clara sua aliança ao clã Setita?
Mu, que já havia sinalizado de forma cortês para que Asmita se levantasse e retornasse a seu lugar, franziu a testa direcionando os olhos para a cigana a analisando.
A estranha mulher o olhou de volta e então levou o dedo indicador à frente dos lábios lhe pedindo silêncio.
Ainda que intrigado a deixou em paz e voltou seus olhos a Saga, respondendo sua pergunta.
— O que pretendo? Devo pretender a algo? Apenas soube que no novo mundo os imortais se espalharam como uma praga, e que erroneamente acreditam estar existindo graças a uma pseudo organização. Bem falha, a meu ver.
— Isso é um absurdo! — gritou Máscara da Morte se levantando da cadeira — Zomba do Conselho, Nut?
— Não. — continuou Mu com a voz potente, enquanto encarava os olhos de cada um naquela sala — Apenas não sei como sua hierarquia funciona nos tempos atuais. Em meu tempo e em meu clã nós abraçávamos apenas aqueles a quem desejássemos ter como parentes próximos. A benção das trevas era uma dádiva que alcançava apenas aos escolhidos. — disse lançando um olhar severo a Aspros e Albafica, que foram os dois que o questionaram a respeito daquele assunto — Em meu tempo, não existia essa quantidade absurda de filhos da noite, nem todos esses clãs... Tampouco concílios como esses eram necessários. Eu não me interesso por nada disso!
— Está dizendo que não vai seguir os preceitos do Conselho, Mu dos Nuts? — perguntou Saga em tom autoritário.
— Enquanto não julgar necessário seguir...
— Que absurdo! — disse Máscara da Morte se sentando enquanto batia os pés um no outro e resmungava em baixo tom para si mesmo — Onde essa múmia quer chegar com isso?
— Senhores, por enquanto apenas quero conhecer o novo mundo, entender o que me cerca e compreender no que o dom das trevas se tornou nessa Era. Essa lei absurda que proíbe abraçar um ser humano que não tenha a aprovação do Conselho, e que vocês tiveram que criar para tentar frear a imaturidade de si mesmos como imortais que são, além de ser falha é ridícula! Ou não haveria tantos vampiros fracos, decadentes e insípidos entre vocês. Vocês se perderam e agora precisam tentar controlar o próprio mal que trouxeram ao mundo em que vivem... Não. Eu não vou manchar o nome do meu clã, senhores. Se um dia desejar ter um filho, se um dia desejar passar o meu dom para outra criatura, ou se desejar salvar alguém que seja caro para mim, eu assim o farei, sem que tenham que me autorizar. Outro ponto: Não sou objeto de estudo. — dessa vez olhou para Milo — Se eu permitir que alguém me examine ou me interrogue, será apenas por minha boa vontade.
Nessa hora o Nut olhou para Camus, que sentado ao lado de Degel vibrava internamente, admirado por sua coragem, e também reconhecendo o recado velado.
— Quanto à suas tramas políticas, bem... — continuou o Nut — Não escolho lados ou me envolvo com elas, pois pouco me importa seus jogos de poder. Não conseguiriam me prender ou me aniquilar nem mesmo se tentassem, já que não existem grades, magia ou poder que seja superior ao meu nessa Era. Portanto, se estou aqui é unicamente por desejo meu e de Shaka. Que fique claro que não estou me opondo a ninguém, nem me aliando politicamente a ninguém, mas, sendo Shaka meu companheiro é comigo que baterão de frente caso algo, ou alguém, ameaçar sua segurança. Se para protegê-lo e aos Seguidores de Seth, dos ataques dos Espetros das Sombras eu tiver de lutar, assim o farei. Com sua autorização ou não.
Com olhar severo direcionado a Saga e voz tempestuosa, Mu encerrou sua participação no concílio, esperando ter sido bem claro!
Nunca fora, e jamais seria, servo de ninguém.
Havia sido um líder grandioso no passado e não abriria mão de seu orgulho e independência para obedecer a um Conselho criado com o objetivo de por ordem ao caos.
A seu lado Shaka ouvira a tudo com muita atenção.
Estava acostumado com a postura doce que Mu sempre assumia quando estava junto de si, e naquela hora ele exalava altivez e liderança.
Havia ficado muito claro para todos ali que o Nut não queria ser perturbado e que não os perturbaria em troca. No entanto, não era bem assim que a sociedade vampírica do novo mundo funcionava.
Sentindo o tamanho do problema que tinha nas mãos, Saga não viu alternativa a não ser declarar encerrado aquele concílio.
— Espero, Nut, que caminhe com prudência, pois esses são novos tempos, novas condutas e novas alianças que se formam a cada Era. Meça suas ameaças veladas. Você não é daqui e não faz ideia do que pode estar lhe aguardando. — repreendeu de modo severo — Pois bem, senhores, creio que todos os pontos foram discutidos, e todas as peças foram colocadas na mesa. Sumo sacerdote Shaka, dos Seguidores de Seth, o Conselho irá investigar sua denúncia e punir aos devidos culpados. Hades, o líder dos Espectros das Sombras, será convocado por mim e levado a julgamento. No mais, já sabemos sua postura e a do seu... companheiro. Se ninguém tem mais nada para falar dou esse concílio por encerrado.
Ainda que estivesse com as mentes repletas de perguntas e os ânimos em polvorosa, um por um os membros do Conselho se levantavam de seus acentos e deixavam a sala.
Quando chegou na vez de Mu, que vinha logo após Shaka e Asmita, o Nut interrompeu seus passos e discretamente olhou para trás, na direção do Presidente Patricii.
Porém, não era para ele que direcionava seu olhar, e sim para a cigana que se mantinha oculta através de seu dom de sangue.
— "Não apenas a vi, mas a ouvi também. Já entendi como esse Conselho funciona, e quem de fato manda nessa balburdia. Seja inteligente, mulher."
Cruzou a porta deixando a sala.
Assustada e completamente surpresa pelo Nut estar usando telepatia para falar consigo, já que não possuíam nenhuma ligação sanguínea, Geisty se deixou cair sentada no braço da poltrona ao lado de Saga.
— E-Ele... Ele é muito mais perigoso do que parece. — disse ainda trêmula e assustada.
— Sim. Temo que não possamos ficar parados, minha amada. Primeiro essa denuncia contra os Espectros das Sombras, depois um Nut se declarando companheiro do sumo sacerdote daquelas víboras traiçoeiras... — trazendo a mulher para junto de si Saga a olhou nos olhos e questionou — As mudanças que viu nas cartas. Eram favoráveis a nós?
— Não sei precisar. O futuro está nublado, meu amado. E é isso que eu temo. — respondeu com preocupação — Temos que agir e escolher a quem apoiar. Mesmo sem o Tarô, posso ver que uma guerra se aproxima, e todos teremos que escolher um lado.
Do lado de fora da mansão, os automóveis negros já se perfilavam para conduzir cada líder à sua sede romena, onde passariam o dia e seguiriam para suas moradas na noite seguinte.
Quando o chofer que levaria Shaka, Asmita e Mu para a sede Setita encostou o carro para que entrassem, Camus veio até eles se despedir
— Façam boa viagem, e creio que temos que tomar muito cuidado daqui para frente. Estejam em alerta! — falou lançando um olhar a Shaka, o qual lhe estendeu a mão.
— Você também, Camus. Nos veremos em breve.
— Acredito que mais cedo que imagina!
Com um sorriso, o francês se despediu do amigo e depois de Mu, seguindo após até carro que conduziria a ele e a Degel até a sede Cesarem.
No carro que saiu à frente, Shaka mal esperou que Asmita ocupasse o assento da frente ao lado do motorista, e que o automóvel desse partida, para tomar as mãos de Mu nas suas e olhar profundamente em seus olhos.
— Então aceitou o meu convite! Cheguei a pensar que minha proposta o tivesse ofendido de alguma forma, já que não me respondeu mesmo depois de dias. — disse com um sorriso singelo no rosto — Me alegra muito a sua decisão e a sua confiança, Mu. Há tanto que quero lhe mostrar, tanto que...
Mu olhou confuso para o loiro e então lhe disse com extrema sinceridade:
— Eu pensei que já soubesse a resposta, afinal eu não estou com você? Se eu não o quisesse já teria partido, Shaka.
Mu aproximou seu rosto ao de Shaka selando seus lábios em um beijo suave e doce, sem se importar com a presença de Asmita e do carniçal que dirigia o carro.
— Mu...
— Eu também sinto que nosso encontro foi obra do destino. Que fomos feitos um para o outro... Sinto isso forte dentro de mim. Talvez por isso tenha dormido por tanto tempo e tenha sido você a me despertar... Só estou aqui por você Shaka... Minha pós vida acabou quando descobri que perdi para todo o sempre minha família. Hoje, a única coisa que ainda me prende à essa existência amaldiçoada é a sua companhia.
— Eu sei perfeitamente como se sente, meu querido. A vida de todas as criaturas é feita de ciclos. Mesmo para nós, imortais, não seria diferente. Passei muitos anos sozinho, e de fato me acostumei com o silêncio e a ausência. No entanto, meu coração nunca desejou com tanta força como agora ouvir um sorriso ao despertar... Sentir um toque na pele, dividir um prazer, compartilhar uma descoberta... Vamos começar nossa própria história e o passado que te faz melancólico logo se tornará uma saudosa e agradável lembrança. — outro beijo e depois um abraço forte e cúmplice unia seus corpos.
Através do vidro do automóvel que os conduzia pelas cordilheiras íngremes dos Cárpatos Ocidentais, Mu vislumbrava a paisagem noturna que lhe parecia mais bela naquela noite.
— "Eu o estava esperando... Esperando que meu sumo sacerdote me despertasse. Você me pertence, Shaka. Foi dedicado a mim e eu o reclamo em meu nome, Seth! Para todo o sempre!" — pensou com os olhos fixos na estrada tortuosa que se desenhava no horizonte e o pensamento preso a seu primeiro e único companheiro.
