Às vezes ter relações com o sensei costuma me dar medo. Não pensei que falava sério quando disse que ia me punir, mas, no dia seguinte, estava cheio de marcas dos seus "toques" exacerbados. Ele pediu desculpas várias vezes. "Realmente segue à risca seus instintos" pensei. Mas o mais assustador é que isso não me incomoda. Me pergunto até que ponto posso mudar por causa dele.
Tudo bem mudar, se estivermos felizes. Mas, se nos separássemos, não saberia como voltar à minha vida normal, como da outra vez. "Será que está tudo bem em me envolver desse jeito?". Estava pensando demais.
Felizmente chovia muito naquele dia. Junho começara e este é o mês de chuvas. Na maior parte do país é comum que chova quase todos os dias. Em Kyoto[1], onde moramos, os verões costumam ser bem quentes, mas, no inverno as temperaturas abaixo de zero não são raras. Aproveitei a deixa e vesti um casaco preto, usando um suéter de mangas compridas por baixo que cobria tanto os braços como também o pescoço. As marcas das carícias dele não seriam percebidas. Suspirei aliviado. Quando estava quase saindo para ir à escola, ele abriu um guarda-chuva preto sobre nossas cabeças, sorrindo.
- Vamos.
Corei. Me senti em um daqueles filmes românticos de namorados. Mas, eu não sou a garota frágil, quero deixar bem claro!
- Sim - desviei o olhar dos seus, tímido.
O dia continuou como tinha de ser, porém, havia um pequeno detalhe do qual eu esqueci completamente. Era dia de treino. Além dos caras do time, sempre tinham algumas garotas empolgadas do lado de fora da quadra observando, gritando por nossos nomes e criando coragem para pedir pra sair com algum de nós. Pensei em faltar, mas, não poderia fazer isso com o treinador de novo, afinal, era o campeonato nacional que estava chegando!
Resolvi encarar. Troquei as roupas anteriores pelo uniforme. Por um momento senti-me em êxtase. Vestir o uniforme de capitão com meu nome gravado nas costas trazia uma sensação incrível. Logo no vestiário ouvi um comentário.
- Nossa cara, você tá todo vermelho - Nakamura falava dos arranhões que tentava esconder.
- Ah, isso... - olhei para o meu corpo com desdém, tentando ser natural enquanto procurava uma desculpa que satisfizesse aqueles olhos curiosos - Meu... Gato... Anda muito agressivo ultimamente.
Akira chegou, colocando seu braço sobre o ombro direito de Nakamura, apoiando-se nele e rindo.
- Eu não sabia que aceitavam gatos em apartamentos.
Nakamura riu com o canto dos lábios.
- Entendi.
Fiquei vermelho e franzi o cenho de antemão.
- O que foi? Entendeu o quê?
- Vamos pra quadra.
- Mas...
Akira separou-se de Nakamura e os dois foram em direção à porta, ignorando-me completamente.
- Espera! Entendeu o quê? Ei, vocês dois!!
Deixando isso de lado, reparei que o humor de Akira estava como de costume. Aquilo me deixou menos preocupado. Talvez o basquete o deixasse mais à vontade, relaxado, assim como me sinto quando jogo, mesmo com a pressão das pessoas ao redor.
Outra coisa que me chamou atenção foi o descaso do Nakamura sobre minha relação com o sensei. Ele tava agüentando tudo muito bem, tanto que me incomodava. Sentia que podia estar machucando com isso. Nós não somos íntimos, mas, nos conhecemos melhor do que muitos amigos de verdade. "Ele é da mesma sala que o Akira, por isso se aproximaram tão facilmente, eu acho... Será que são íntimos? Parecem estar à vontade juntos... Mais do que quando estou por perto. Será que o Nakamura sabe o porquê do Akira estar tão estranho?" Mais uma coisa me perturbava. A única coisa que me fazia relaxar era mesmo o basquete. E, no treino, apesar de ouvir alguns comentários maldosos, foi simplesmente incrível. Treinamos por um bom tempo, enquanto isso, a chuva caia fortemente lá fora.
Ao fim do treino, fui até Akira puxar conversa, tentando minimizar a distância que surgia entre nós.
- Cansado?
Dãã.
- É. Acabamos ficando duas horas a mais do que de costume.
- Só vai piorar - ri da desgraça, ele me acompanhou.
- Mas, até que é bom.
- Sim.
Tomei coragem para me aproximar.
- Akira...
- Hum?
- Você... Já vai pra casa?
- Ia esperar passar mais a chuva, mas, não sei. Você tem guarda-chuva?
- Não.
Ele sorriu.
- Eu levo você com o meu.
- Mas...
- Não se preocupe.
Corei. Ele de alguma forma me lembrava o sensei.
A temperatura estava por volta de -10º C. Um frio congelante. Não via a hora de comer o curry do sensei, enrolado em um cobertor.
- Então... Como estão as coisas com você? - indaguei enquanto caminhávamos.
- Por que a pergunta?
- Nada - mirava o nada - Só quero saber como está.
- Ah! Bem.
- Tem certeza? - olhei para ele de imediato.
Ele surpreendeu-se.
- Escuta, se tem algo que quer me falar, pode falar! - continuei, percebendo a falta de resposta.
- Não tem nada pra falar.
- Mesmo? - não pude acreditar naquilo.
- Mas, o que há com você? - parou.
- Eu só tô preocupado porque você parece estranho ultimamente!! - franzia a testa enquanto falava.
Ele suspirou.
- Como vai o sensei? - dizia calmamente.
- Quer parar de fugir? - irritei-me ainda mais.
- Eu não tô fugindo.
- Então pare de falar coisas que não tem nada a ver.
- Tem tudo a ver - murmurou, quase inaudível.
Fiquei estático. O que ele queria dizer com aquilo?
- Vamos logo ou acabaremos congelados - sorri.
Continuei parado.
- Akira...
- Vamos.
- Akira! - segurei o braço dele com uma das mãos. Nem mesmo assim ele me olhava.
- Você é feliz?
- O quê? - soltei seu braço.
- Você é feliz do jeito que está, Hikaru?
- S-sim.
- Foi o que pensei - seus olhos de repente fitaram uma direção. Acompanhei com o olhar, vendo um homem debaixo de uma sombrinha preta.
- Sen...sei?
- Eu ligo pra você mais tarde - Akira deu um tapa leve em minhas costas para que eu fosse até ele.
- Espera! Akira!
- Tudo bem, Shin-chan - sorriu, piscando um dos olhos.
- Ei!
- Fujimoto-san! Obrigado por ontem. A comida estava ótima!
- Ah, pode voltar quando quiser - sorriu gentilmente.
Akira retribuiu o sorriso, se afastando logo depois.
Cada vez ficava mais difícil entender aquilo tudo.
- Pretende ir comigo pra casa ou quer ficar aí pegando chuva? - sorria.
Quando chegamos em casa, estava exausto.
- Precisa se enxugar ou ficará doente.
Eu quase não ouvia suas palavras.
- Bem, eu posso fazer isso então.
Colocou suas mãos dentro da minha camisa, deslizando seus dedos quentes pelo meu abdômen. Gemi baixo. Ainda não tinha me recuperado da última noite. Qualquer toque me causava dores. Franzi o cenho em forma de reprovação.
- Pare... Está me machucando.
Afastou-se.
- Deve estar morrendo de fome... O que quer que eu faça?
- Não sei.
Retirei o casaco e a blusa de frio.
- Posso tomar um banho?
- Claro - sorri.
Estava tão distante que não notei a angústia nele. Tentei relaxar com um banho quente, mas, só serviu para que eu pensasse em mais coisas. "Eu estou feliz desse jeito?" Era o que começava a me perguntar. Acabei adormecendo na banheira.
- Hikaru-kun? - batia na porta - A comida já está pronta. Eu fiz curry!
Silêncio.
- Hikaru-kun? Está me ouvindo? Hikaru?
Esperou alguns instantes e abriu a porta à força.
- Hikaru!!
Aos poucos sua voz ecoava em minha cabeça. Sentia náuseas.
- Hikaru!
Abri os olhos lentamente. O encontrei preocupado, sentado a beira da cama.
- Como se sente?
- Um pouco tonto.
Tocou minha testa.
- Ainda está um pouco quente - concluiu, retirando a mão em seguida - Sabia que faz mal ficar muito tempo em banho quente?
- Agora eu sei - sorri com dificuldade.
Ele não achou graça e continuou me olhando, sério.
- Francamente...
- O Akira ligou?
Ele hesitou por um instante.
- Ainda não. Acho... Que ele não vai ligar.
- Por que acha isso?
Percebi a ausência de resposta e sentei-me na cama, ficando mais próximo dele.
- Por que acha isso? - repeti a pergunta - Ele te disse alguma coisa?
- Ele vai sair do time de basquete.
- O quê? Por quê??
- Eu não sei.
- Ele disse isso?
- Descanse - Levantou da cama, dando de ombros. Se ele ligar, eu chamo você.
- Sensei!!
- Isso não importa agora, você precisa descansar.
- "Isso não importa..." Espera! Ele disse que tem a ver com você!
- O quê? - virou-se.
- O que ele quis dizer com isso?
- Não sei. Também estou surpreso.
- Não é verdade.
- Estou dando razões pra que desconfie de mim?
- Não disse que sabia algo sobre o Akira.
- Eu não queria me envolver na amizade de vocês, só isso.
- Mas parece que você já está envolvido demais.
- O que quer dizer com isso?
O que eu estava falando? Estava fora de controle. Estava machucando-o.
Ele saiu e fechou a porta. Abaixei a cabeça.
- Desculpe - murmurei.
"Eu estou realmente feliz desse jeito?" Não.
[1] Kyoto: Cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Fica na ilha Honshu, na região central do Japão. Em Honshu encontram-se as cidades mais importantes do país (como Tóquio, Yokohama, Osaka e outros).
