CAPÍTULO 10

Sawyer estava desconfiado e sem saber o que esperar de Kate. Olhando em volta, ele sorru maliciosamente quando entrou no quarto dela.:
- Estou sendo convidado a entrar no quarto da donzela?
- Bem, já que entrei no seu, sem convite, acho justo você entrar no meu. Afinal, é apenas trabalho - explicou ela, secamente - vamos ter mais tranqüilidade aqui.
- Ok, que trabalho? O que é que você quer?

Puxando um banco que trouxera da cozinha para Sawyer, ela se sentou na cadeira e abriu o notebook. Sawyer notou arquivos da polícia impressos sobre a escrivaninha.

- Eu sei que você tá atrás de George Alan Blake e acho que posso te ajudar a pegá-lo.
Franzindo a testa, ele perguntou:
- Me ajudar? Você vai me ajudar a capturar um fugitivo? Por pura bondade de seu coração generoso?
- Nada disso - respondeu ela, tranquilamente - vou ser franca com você. - Ela se ajeitou de frente para ele, colocando o pé na cadeira e segurando o joelho.
- Esse ano haverá poucas vagas para o cargo de tenente. A competição vai ser imensa. Todo mundo quer mostrar serviço ou entrar na panelinha de algum chefe. Eu não faço parte de nenhuma panelinha...
- Então, quer fazer o dever de casa e mostrar serviço? - completou ele.
Concordando com a cabeça Kate disse:
- Eu quero essa promoção e pensei que se fizesse minha própria investigação, à parte da oficial, teria mais terreno pra trabalhar e me destacar.
Sawyer a observou atentamente:
- E você acha vai se destacar entregando o Blake?
- Eu não quero o Blake! - interrompeu ela - eu quero informações exclusivas sobre e empresa pra qual ele trabalhava. Uma grande investigação sobre a Widmore Company vai começar em breve. Blake não deu um mero desfalque, ele estava num esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Parece que ele começou a se sentir ameaçado e resolveu fugir. A Widmore, então, o denunciou pelos crimes. Aposto que não sabia disso, Sawyer.
- Não, Sardenta, investigação é coisa da polícia. A gente só pega os caras de volta.
Esperta, Kate tocou no ponto fraco:
- Mas você não está conseguindo pegar esse cara...
Respirando fundo, Sawyer afirmou:
- Blake ta meio difícil, mas já tive casos complicados antes, eu me viro... os 95 mil que eu vou embolsar vão compensar os problemas.

Perdendo a paciência, Kate contra atacou:
- Blake não recebeu uma fiança de quase 1 milhão de dólares por nada. Ele é a chave pra se pegar gente graúda, descobrir coisa grande.
- Eu não tenho interesse em descobrir nada grande.
Kate interrompeu:
- Você nunca vai pegá-lo sem a minha ajuda, sem as informações internas que eu tenho. Nunca vai embolsar seus 95 mil. E eu preciso de um parceiro nas investigações.
Refletindo, ele perguntou:
- Por que você não investiga com sua parceira, a Pollyana? Ela parece tão receptiva e agradável... - debochou ele, se referindo à aparência sempre mal humorado de Ana Lucia.
Kate riu da ironia, sem dizer nada.
- Sério - insistiu ele - os parceiros não deveriam se apoiar?
Ela respondeu:
- Já disse! Eu quero uma chance pra promoção pra mim! É a minha chance...
- Ah, já entendi, você quer roubar a promoção da tua parceira! Você quer passar a perna nela. E pensar que ontem mesmo você tava me acusando de ser vigarista! - apontou ele, suavemente.

Se irritando, Kate pensou: "Que homem insuportável!"
- Eu não estou roubando Ana Lucia, não estou roubando ninguém! - exclamou ela, defensivamente. - A promoção dela já está garantida, ela entrou na força antes de mim, tem família na polícia-
- Tem panelinha - completou Sawyer.
- Bem, é! Mas ela é uma boa policial, realmente boa! - reconheceu Kate. - O problema não é Ana! Eu... eu quero a minha promoção, eu quero a minha carreira, quero me destacar, provar que sou uma boa policial, se ela estiver junto, vai ser um trabalho conjunto.

- E você vai ter que dividir o show, já entendi. E como vai investigar, se está trabalhando? - indagou ele.
Os olhos dela brilharam ao responder inocentemente:
- Eu tirei uma semana de folga, por conta de 3 anos na policia sem férias. Afinal, eu estou de mudança, a gente tem direito de se ausentar.
Sawyer e Kate trocaram um sorriso cúmplice.
"Essa é das minhas..." , pensou ele.

- Então? - insistiu ela - tá nessa comigo?
Sawyer hesitou, eram bons argumentos os que ela apresentara. E ele percebia o quanto ela estava decidida e o quanto ela parecia competente e ambiciosa. Mas a ideia de passar, sabe Deus quantas horas - dias até - ao lado de Kate, despertava a mesma inquietação que sentira quando descobrira que ela ia morar na casa ao lado.
Péssima idéia.
O mais sábio para ambos seria dizer não e se afastar dali.

Ele se levantou, caminhou pelo quarto e disse:
- As informações são suas e o Blake é meu. Sem discussões.
Se levantando também, Kate confirmou:
- Sem discussões.
Soltando o ar ruidosamente, Sawyer disse:
- Acabou de ganhar um parceiro, Sardenta!

Enquanto Kate foi pegar um café, Sawyer resolveu dar uma espiada no quarto.
E por que não? Ele tinha direito, já que ela fizera o mesmo primeiro. Embora a desvantagem fosse dele, já que o ambiente ainda estava em construção. Parecia ainda sem a forma de sua moradora, sem seu cheiro, seu ritmo.
Mas de uma coisa Sawyer tinha certeza: não encontraria nada cor de rosa ali. Nem bonequinhos ou bichinhos de pelúcia.
Kate parecia ser uma amante da praticidade e do clean.

Os móveis eram modernos, de um design seco, arrojado.
Encostados na parede, quadros bonitos, sobre o mar, esperavam para serem pendurados.
Havia também um toque rústico nas coisas dela.
"Rústico como a Sardenta!" avaliou ele, ao ver um par de botas de caminhada jogados num canto do quarto.
Ele sorriu ao lembrar o quanto ela era sensual andando pelo quarto descalça, sem maquiagem, de jeans e camiseta tank, os cabelos revoltos enrolados num coque mal feito.
Mentira! O quarto já possuía muito da sensualidade inquieta e transgressora que gritava de dentro dela.
Um ruído de rock, uma guitarra country... tão Sardenta!

- Que maluquice! - murmurou ele, espantado com o rumo de seus pensamentos.

Voltando Kate indagou, com uma expressão envergonhada no rosto:
- Então, tirando a forra por eu ter entrado no seu quarto?
Por algum motivo, Kate estava nervosa por ele estar ali, no quarto dela. Se impressionara muito com o quarto dele e queria causar uma igualmente boa impressão nele.
Decidido a afastar o sentimentalismo, Sawyer respondeu:
- Querida,a minha forra no seu quarto ainda nem começou.
Kate fingiu que não ouviu e lhe passou a xícara de café. Sorrindo, Sawyer brincou:
- Não disse que você ainda ia fazer um capuccino só pra mim?
"Convencido!" Kate o encarou com os olhos espremidos:
- É café solúvel! - e enfatizou - descafeinado.

Recolhendo o sorriso, Sawyer fez uma cara de nojo para a xícara:
- Por isso que tua parceira tá sempre de mal humor contigo...

Eles passaram a manhã estudando os relatórios e esmiuçando as informações que Kate baixara do computador da polícia.
Sawyer entendia agora por que não estava conseguindo encontrar Blake da forma habitual com a qual sempre achara os fugitivos.
O cara era complicação pura!
Kate tinha razão, Blake estava afundado na merda até as orelhas e acompanhado de gente rica e perigosa.

Ele estava mesmo metido em lavagem de dinheiro e facilitava a saída para paraísos fiscais no Caribe.
De uma hora para outra, dera um desfalque e tentara fugir. A compania o denunciara como o único responsável pelo esquema. Ele fora preso, o Grego pagara a fiança e ele desaparecera, dessa vez para valer.

- Não vai ser mole encontrar esse cara, Sardenta. Ele tá se escondendo de todo mundo. Da polícia, dos cúmplices, do chefe dele no esquema, do Grego. Até dos pais e da namorada... ele deve estar com muito medo pra se esconder desse jeito - afirmou Sawyer.
- Você já falou com os pais dele?
- Caçadores não podem abordar as famílias dos fugitivos, é contra a lei. Posso perder minha licensa se fizer isso. Mas não interessa falar com eles, Blake não tem procurado os pais. Nem por telefone.
- Como sabe?
Ele hesitou:
- Coloquei uma escuta no telefone deles.
Kate revirou os olhos, criticando:
- Isso é ilegal, não se pode colocar escutas sem mandado judicial.
- Olha só quem fala - retrucou Sawyer - Pensei que fosse ilegal usar relatórios da polícia em proveito próprio. Você não devia nem estar me mostrando isso.
Kate respondeu com uma cara de inocente.
- Como você é trapaceira, Sardenta...
Kate sorriu, quase envaidecida.
"Esquisito," pensou ela vagamente, "devia estar ofendida."

Ela indagou:
- Quem você investigou até agora?
- Fiz campana na porta da casa da namorada e dos pais. Grampeei os telefones e segui os três. Blake não se comunicou com eles em nenhum momento. Mas pode ser que tenham se falado por messenger ou email. E tem o celular, também.
Kate escutou atentamente, enquanto tomava o café. Sawyer continuou:
- O cara que grampeou os telefones é um gênio da lâmpada nessas coisas. Já ia pedir pra ele hackear os computadores dos velhos e da namorada. E dar um jeito nos celulares.
- Ele é de confiança?
- Trabalha pro Grego há bastante tempo e já fez alguns serviços pra mim também. É tão de confiança quanto qualquer um.
Kate lhe mostrou um relatório com uma foto:
- Esse cara aqui, Burguess, ele viajou com Blake pras Seychelles ano passado, devem ter ido fazer alguma transferência. Era uma boa a gente grampear esse cara, também.
- E levar um papo com ele, pressionar um pouco pra ver o que ele faz. Quem sabe não vai correndo atrás do coleguinha de seminário?

***

O técnico amigo de Sawyer morava num galpão, a uns 40 minutos do centro da cidade.
Um homem moreno, de traços do oriente médio e belos olhos amendoados abriu a porta.
Sawyer fez as apresentações:
- Sardenta, este é o Mustafá. Mustafá, essa é a Sardenta. A gente tá precisando do teu serviço - disse ele, entrando sem cerimônia.
Kate e o estranho se entreolharam e, como que já conhecendo Sawyer, eles se adiantaram.
- Kate Austen, prazer.
- Sayid Jarrah, o prazer é todo meu.
Observando-a atentamente, Sayid a convidou a entrar e beijou-lhe galantemente a mão .
Kate achou graça do gesto.
Ao entrar e olhar em volta, ela não pode deixar de ficar atônita com o quanto aquele galpão, visto de fora, escondia o que havia do lado de dentro.

O local mais parecia um centro de comunicações, cheios de grandes monitores, teclados, cpus, consoles, pequenas e grandes antenas de vários formatos, chips, drives, ferramentas e mais uma infinidade de aparelhos eletrônicos espalhados por todo o lado.
Apesar de todo esse aparato, o lugar era limpo e parecia em completa ordem.

Definitivamente Sayid era um profissional competente.
Kate sentiu uma confiança e uma simpatia imediata por ele.
Ele escutou silenciosamente, sem tecer comentários, até o fim da explicação, floreada como sempre, de Sawyer.

- O serviço pode ser feito - começou ele, com seu forte e curioso sotaque - mas vai custar mais. Vou ter montar um interceptor para as mensagens dos celulares. E quebrar a segurança dos computadores. Os domésticos dos pais e da namorada vão ser moleza, mas a do outro sujeito deve ser mais difícil. Ele deve ter colocado senhas se está envolvido em tudo isso.

Ele deu uma longa pausa, sem pressa.
- Vocês pretendem fazer campana? Então vou ter que montar um receptor para vocês captarem as conversas de uma certa distância. E ainda tem os agrados para uns amigos meus... para facilitarem as instalações. Posso também tentar entrar nos computadores da Widmore, se conseguir hackear direito o computador desse Burguess. É só me dar tempo.

Kate ficou entusiasmada, agora sim, podia sentir que as coisas iam dar certo! Sawyer, por sua vez, ouvia, resignadamente toda a lista de façanhas cibernéticas que Sayid se dspunha a realizar e já imaginava que o preço seria outra façanha.
- Quanto? - cortou Sawyer, melancólico.
- 20 mil.

Dando uma risada sarcástica, Sawyer disse:
- Acho que aquele sol todo que você pegou no deserto te deixou com o miolo mole, Ali Babá. Você acha mesmo que eu vou te pagar 20 mil por isso?!
Sayid levantou tranquilamente os olhos irônicos, para total exaspero de Sawyer, que achava uma ofensa pessoal Sayid ser tão ponderado.
- Esse trabalho custa, no mínimo, 25 mil. Fiz uma cortesia... em homenagem à Kate. Vai ser um trabalho de primeira, não vão se arrepender.

"E é charmoso, também! Não podia ser melhor!" , comemorou Kate, sorrindo para Sayid.
- Tenho certeza disso, Sayid - respondeu Kate, contente.
O pequeno flerte entre os dois irritou Sawyer ainda mais. Cedendo, ele falou suavemente:
- Tudo bem, Sheik, ainda aceita cartão de crédito?

Sayid prometeu aprontar os receptadores para conversas à distância para a manhã seguinte e começaria a hackear os computadores imediatamente. Antes disso Kate e Sawyer não poderiam pressionar Burguess.
Mas resolveram dar uma passada para checar o endereço e a vizinhança.
Deram uma volta no quarteirão, caminharam pela calçada da casa e escolheram o melhor lugar para estacionar o carro durante a campana.
Na volta para casa, Kate observou para Sawyer:
- Seu amigo, Sayid, é muito sedutor.
- É! Um perfeito Don Juan! - retrucou eie.
- Ele é casado?
- Tá interessada? Pensei que você tivesse narmorado.
- E tenho - respondeu ela, arrogante - um namorado excelente! O melhor namorado que uma garota pode ter. Ele é cirurgião.

Olhando de esguelha, Sawyer resolveu deixá-la tão irritada quanto ele estava:
- Se ele fosse mesmo excelente e o melhor, você não ia precisar ficar falando que ele é.
Mordida, Kate exclamou:
- O que quer dizer com isso?
- Que você tá querendo vender uma coisa que você mesma não comprou.
Se sentindo acuada, Kate disparou:
- Como você sabe? Até parece que alguém já disse que você é excelente em alguma coisa!
Sawyer esteve a ponto de dizer em que, precisamente, era excelente, mas preferiu engolir o insulto a seco. Os dois se encararam a ponto de se engalfinhar, mas resolveram deixar a coisa como estava.

Ia ser um longo trabalho juntos...