- Shaka? Shakinha? – ela dizia em tom quase infantil – Onde você está? Venha brincar com a tia Marin...

O loiro estava acuado num canto. Não pensava que Marin fosse ter uma reação daquelas. A empresa o assustava cada vez mais... Novamente, tateou pelas paredes, implorando silenciosamente que outra porta se abrisse.

– Onde está você, desgraçado?! – ela berrou, novamente, fazendo o som ecoar por todo o local.

Shaka se assustou e acabou por tropeçar num pequeno banco onde havia uma saboneteira. O objeto caiu no chão, fazendo um ruído metálico um tanto alto. A ruiva virou o rosto na direção do barulho e deu um sorriso assassino.

– Achei você! – e disparou na direção do loiro.

Shaka correu e por sua sorte, uma nova passagem se abriu próxima a ele. Passou para o novo cômodo sem pensar duas vezes. Estava agora num lugar gramado onde havia um lago. Não entendeu muito bem o propósito daquela sala no meio da empresa. Estaria ainda no subterrâneo de Tokyo? Não sabia e nem estava interessado em saber agora. Correu na direção do lago, onde avistou um barco a remo.

Enquanto corria, Marin também entrou na sala, seguindo-o.

– Não ouse entrar nesse barco! – ela gritou.

O barco era dela e de Mitsumasa e apenas dos dois. Era o local onde ficavam sozinhos e ninguém tinha o direito de entrar nele. Aquela sala toda era especial. Não ia permitir que aquele verme a pisasse ali.

O loiro já não ouvia nada do que a outra dizia. Não conseguia nem ao menos raciocinar direito. Apenas viu o barco ali e pulou nele, tentando desamarrar a corda que o prendia na margem rapidamente.

– Não! Não! – ela gritava desesperadamente. Não conseguia suportar aquilo. O barco era apenas dela e de Mitsumasa! Apressou ainda mais o passo que já estava bastante rápido.

Dentro do pequeno meio de transporte, Shaka tentava desamarrar o nó que mantinha o barco preso, mas estava tão nervoso que não conseguiu. Marin já estava bastante próxima à margem, berrando, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. A faca na mão, apontando para ele.

Sem pensar direito, tomou o remo do barco nas mãos e ficou em pé no barco, esperando... Marin estava a menos de um passo dele, quando o loiro levantou o remo e acertou-lhe a cabeça. Não havia batido com muita força, mas fora o suficiente para começar um sangramento na parte atingida e faze-la cair no chão, um pouco tonta.

Ele saiu do barco e pegou a faca, que Marin havia soltado ao cair. Foi até a corda e a cortou rapidamente. A ruiva já estava se levantando e tentava se apoiar sobre os joelhos, mas ainda cambaleava muito devido à pancada.

Shaka ficou ainda mais nervoso. Em seu desespero por sair dali, apoiou o remo contra a margem, tentando tomar um certo impulso, mas Marin, ainda meio zonza, pulou sobre ele, fazendo com que os dois caíssem para fora do barco.

Na água, ele tentou logo se afastar da enfermeira, que o segurava pelas roupas, tentando afoga-lo. Marin o puxava e grunhia como fosse um animal selvagem. Sem muitas alternativas, Shaka acertou-lhe um soco no rosto e ela o soltou, afastando-se um pouco. Mas não demorou muito para que ela se voltasse para ele, pronta para atacar de novo.

A água já tinha um tom vermelho fraco.

Shaka tratou de nadar até a outra margem. Tinha arranhões nos braços, no rosto e no pescoço, que ardiam ao entrar em contato com a água. Mas precisava suportar a dor. Precisa chegar ao outro lado se quisesse viver.

~oOo~

– Me perdoe, Mu... – disse o moreno, de olhos baixos.

Mu estava paralisado, sem saber o que dizer. Shaka também era cliente de Mitsumasa, tinha um caso com o outro cliente e havia tido a idéia maluca de matá-lo... Como se não bastasse, a enfermeira louca de Mitsumasa havia achado a idéia fantástica e feito o velho prosseguir com tudo isso, mandando Aldebaran para executar o plano

– Você ia me matar?! – ele perguntou, enraivecido.

– Não! Você não!

– Mas qualquer outra pessoa você mataria, não mataria?!

– Mu, me escute, por favor.

– Saia daqui! Sai! – disse pegando as roupas do moreno e atirando-as contra ele – Nunca mais eu quero lhe ver!

– Não fale isso, Mu, por favor... – disse, pegando suas coisas.

– Sai!

Finalmente o empurrou para fora do apartamento e trancou a porta. Virou-se de costas e encostou-se nela, chorando ininterruptamente.

~oOo~

Cruzou o lago quase sem fôlego. A mulher o seguia de perto.

Correu pela grama, aos tropeções. Tentava procurar algum lugar onde se esconder. Qualquer lugar... E então, foi que viu aquela porta. Aquela porta diferente de todas as outras. Uma porta comum. Podia ver claramente a maçaneta dela, assim como toda a sua extensão: a madeira, as dobradiças, a fechadura...

– Eu vou matar você! – berrou a ruiva, novamente, correndo em sua direção.

Sabia que não era seguro abrir aquela porta. Mas era menos seguro continuar ali. O desespero foi apertando ainda mais seu coração, fazendo-o correr até ela. Girou a maçaneta e a abriu, precipitando-se para a outra sala.

Tudo estava escuro naquele novo cômodo. Era impossível enxergar qualquer objeto que estivesse disposto no lugar. Foi andando rente à parede e sentiu que haviam alguns quadros pendurados ao longo dela. Um deles cai no chão fazendo um grande estrondo. Sua pulsação aumentou. Logo Marin estaria ali e...

– Shaka?! – berrou a mulher abrindo a porta rapidamente – Onde você está, seu desgraçado?
O loiro permaneceu em silêncio apenas ouvindo a respiração brusca da mulher. Também ouvia sua mão tateando pela parede como se buscasse algo.

Então uma lâmpada se acendeu, iluminando toda a sala. O interruptor! Era isso que ela buscava!

Não era hora de vacilar. Enquanto a ruiva se preparava para examinar a sala, Shaka a segurou pelas mãos e empurrou contra a outra parede, derrubando mais alguns quadros.

– Me solte! Me larga! – ela dizia, se debatendo – Vou matar você, seu idiota!

– Cale a boca! Cale a boca! – ele berrava de volta, empurrando-a contra a parede e derrubando mais alguns dos quadros.

– Seu porco! Nojento!

– Maluca! Doida!

Pouco tempo depois a parede do outro lado da sala se abriu e de lá saíram Mitsumasa, Máscara da Morte, Shina, June e Afrodite. O italiano e a moça de cabelos esverdeados trataram de segurar Marin e injetaram-lhe um tranqüilizante na veia do braço.

– Não! Não! – gemia Marin, ainda se debatendo.

– Pare com isso! Vai se machucar! – advertiu o médico.

– Eu vou servir ao senhor Mitsumasa... O senhor Mitsu...

Enquanto o remédio fazia efeito, June tratou de manter Shaka afastado da mulher até que ela dormisse. Foi então que ele pode perceber o que havia nos quadros daquela sala: fotos de pessoas. Pessoas famosas que havia morrido recentemente.

Cada foto contava com a data do 'início da prestação de serviços' da empresa e com a data de morte. Examinou mais alguns quadros e pôde ver diferentes pessoas, desde empresários até cantores, passando por playboys e atletas. Os três últimos quadros lhe chamaram a atenção. Eram as fotos, respectivamente, de Afrodite, dele e de Mu... Mas o que Mu fazia ali? Ele também era cliente da empresa?

Próximo à porta e ignorado completamente pelos outros, Mitsumasa sentia uma forte dor em seu peito. Não era outro ataque cardíaco, mas sim uma grande tristeza pela falha de seu projeto. O velho dono da empresa olhava tudo sem acreditar no quão fora de controle estava aquela situação. Aqueles não eram seus planos... O que havia acontecido? Onde havia errado? Sim, muitos haviam se suicidado... Mas não havia visto nenhum dos outros clientes em estado tão perturbador.

Estava vendo agora... O projeto da empresa havia deixado as pessoas daquele jeito. A interferência na vida de cada um deles era responsável por esses resultados assustadores. Ele era culpado por tudo aquilo... Cada briga, cada morte e toda aquela dor... Tudo era sua culpa...

– Traga uma maca para mim, Shina – ordenou Máscara da Morte.

– Certo... – disse a mulher indo em direção à parede, que se abriu novamente.

– June, leve Shaka para outra sala e faça os curativos.

– Sim, sensei! – ela disse, tomando Shaka pela mão – Vamos sair daqui porque já temos muitos problemas!

Enquanto iam deixando o local, o loiro segurou na mão de Afrodite. Não sabia o que ia dizer, mas precisava falar algo logo.

– Dite, eu...

– Não toque em mim! – disse o sueco, dando-lhe um tapa no rosto.

– Ora, seu...

Shaka ainda tentou reagir, mas Máscara da Morte foi mais ligeiro e acertou-lhe um soco que o fez cair para o lado.

– Não piore as coisas, seu idiota! Saia daqui!
Ele ficou caído no chão sob os olhares assustados de June e Afrodite. Porém, "Rosa Vermelha" não estava assustado com a violência do golpe do italiano, mas sim com a rapidez que ele o defendera...

– Maca chegando! – avisou Shina, entrando na sala novamente.

– Ótimo... Venha conosco Afrodite – disse Máscara da Morte, puxando-o pela mão.

– Também devemos ir, Shaka-san... – falou June, puxando o loiro para fora da sala rapidamente.

Logo, Shina e Máscara da Morte deixaram o local carregando Marin e sendo seguidos por Afrodite.

Mitsumasa continuou ali, esquecido. Ligou o motor da cadeira de rodas e entrou na sala onde ficava o lago artificial. O barco havia ficado na outra margem. Sem problemas. Daria a volta pelas salas até sair do outro lado.

~oOo~

Mu abriu a porta e observou se havia alguém no oitavo andar, porém, estava totalmente deserto. Trancou o apartamento e retirou o papel que estava em seu bolso revendo onde estaria sua nova passagem para a empresa. Havia ganho o papel no dia que visitaram a Toudai...

"Vamos ser felizes para sempre agora. Igualzinho no mangá!"

Teve vontade voltar para trás e ficar chorando sozinho no quarto, mas não podia. Tinha que ser forte.

Desceu as escadas apreensivo, verificando cada andar. Só faltava essa! Ser perseguido pela empresa de Mitsumasa a mando de Shaka! Deixou o prédio a passos rápidos tentando se afastar dali e se embrenhar ao máximo em meio à multidão da avenida. Precisava encontrar o Café Tayou que, para sua sorte, ficava próximo ao apartamento. Iria conversar com Mitsumasa e tirar tudo a limpo!

Dobrou a esquina. Tinha que descer mais uma quadra ou duas se sua memória não lhe enganava...

Não olhava as pessoas nos olhos. Ia com os seus bem fixos na calçada, tentando esconder a tristeza e a confusão que estava sentindo. Porque Aldebaran? Porque justo ele tinha que ser encarregado de matá-lo? Shaka o escolheu? Shaka sabia? O moreno poderia mesmo tê-lo matado?

Eram tantas dúvidas... Tanta coisa... Se não fosse a velhinha que tivesse lhe alertado sobre o sinal verde, ele seria atropelado pelos carros ao atravessar a rua. Mas não podia evitar. Mal conseguia pensar no que ia fazer quando estivesse frente a frente com Mitsumasa e Shaka. Sua cabeça não conseguia formular nenhuma idéia.

Atravessou a faixa lentamente, quase sendo empurrado pelos outros pedestres apressados. Quando pisou sobre o concreto da outra calçada, ouviu algo que lhe fez gelar a espinha.

– Mu! – gritou uma voz vindo do meio das pessoas.

Olhou para trás e pôde ver o brasileiro se aproximando apressado.

– Fique longe de mim! – ele gritou e apressou ainda mais a caminhada.

Os dois iam correndo por entre as pessoas, trombando em alguns dos transeuntes e ouvindo xingamentos irritados em resposta.

– Me espera, por favor!

– Não! – disse Mu, atravessando a faixa de pedestres em sinal verde e tentando desviar dos carros.

– Cuidado!

– Não me siga!

Mas não adiantou. A louca perseguição continuou na quadra seguinte. Finalmente encontrou o Café. Adentrou a loja rapidamente, derrubando um dos garçons no chão e tropeçando em algumas cadeiras. Entrou na cozinha, sem saber muito bem para onde deveria seguir. De acordo com o papel, a cabine estava nos fundos do local. O moreno também já estava dentro da loja, seguindo-o de perto.

– Mu! – gritou ele mais uma vez.

– Vá embora! – disse ele – Onde é a porta dos fundos? – perguntou ele para uma das cozinheiras, que lhe respondeu bastante assustada.

– A-a-ali, mo-mo-ço-ço-ço.

–Obrigado! – e abriu uma porta de vidro que havia próxima ao fogão, chegando a um local que parecia ser um estacionamento para funcionários. Ao ver que o brasileiro também já estava na cozinha, correu até ela, tropeçando um pouco antes de alcaça-la.

– Mu... – disse Aldebaran, ajudando-o a se levantar – Por favor, me escute.

– Não! Me escute você! – disse dando um forte tapa no rosto do outro que se afastou um pouco dele – Você ia matar outra pessoa se não fosse eu?

Não houve resposta imediata. O brasileiro não sabia responder. Também estava confuso e nervoso e a única coisa que conseguia pensar era em fugir dali com Mu e implorar seu perdão pelo resto da vida. Sentia medo como nunca havia sentido antes...

– Me diga!

– Eu não sei, merda! Eu não sei! Eu não sei! Eu não sei! Eu apenas faço o que Mitsumasa manda! A única coisa que eu fiz por vontade própria em todos esses anos foi ter me apaixonado por você quando lhe vi naquela noite de chuva

Mu se levantou e se aproximou um pouco dele, ainda apreensivo.

– Eu nunca imaginei que fôssemos nos ver novamente. Nada disso passou pela minha cabeça! Só sei que naquela hora... eu tive vontade de largar tudo para trás e fugir. Ir embora com você...

– Alde...

– Não me importa mais nada! Eu não ligo pro meu trabalho ou pro Mitsumasa ou para minha merda de vida! Eu só sei que eu não quero perder você. Você me fez sentir prazer em viver novamente...E se você for embora eu não saberei o que fazer.

Não disseram mais nada um para o outro. Ficaram se encarando por um longo tempo, sem hostilidades, ambos com lágrimas nos olhos. Foram se aproximando aos poucos e se abraçaram novamente, embalados pelo silêncio profundo que nem toda a barulheira da cidade conseguia quebrar.

– Ei vocês! Saiam do meu café ou eu vou chamar a polícia! – gritou um homem que estava parado á porta da cozinha e que parecia ser o proprietário.

– Vai à merda! – gritou Mu. O homem então respondeu com um gesto obsceno e entrou.

– Me perdoe, Mu... Eu nunca mataria você... Nem ninguém... Nem que minha vida dependesse disso...

– Shh... – ele disse baixinho, tentando acalma-lo.

– Eu apenas queria ajudar as pessoas e o senhor Mitsumasa... mas agora eu percebi que as coisas não são assim... Ninguém pode interferir na felicidade de ninguém.

– Por favor, Alde, tenha calma.

– Eu amo você, Mu. Eu te amo muito – abraçava-se ao outro totalmente tomado por sua tristeza e arrependimento. Não se lembrava da última vez em que se deixara levar pelos sentimentos com tanta facilidade, mas isso não importava. Queria apenas o perdão de Mu. Só isso o faria sorrir.

– Eu também te amo, Aldebaran. Te amo como nunca amei alguém antes.

– Me perdoa, por favor...

Mu ficou calado por alguns instantes. Sabia que era uma situação arriscada, mas seu amado não era um assassino. Não daquele jeito. Não com aquele estado emocional.

– Se eu perdoar, você promete que vai sair da empresa do Mitsumasa?

– Tudo o que você quiser!
~oOo~

– Está melhor, Shaka-san? – perguntou June, em tom atencioso.

– Sim... – respondeu ele sem muito entusiasmo enquanto a garota passava álcool em suas feridas.

– Quer tomar um banho? Deve estar com frio...

"Quero ir embora! Quero sair daqui!" Era isso que ele queria! Mas não ia dizer nada. Preferia fugir silenciosamente a fazer algum escarcéu. Mas como?

– Shaka-san?

– Oh, sim! Vou tomar um banho June. Pode me trazer roupas limpas, por favor?

– Certo. E aí será até melhor de se fazer os curativos! Volto num instante!

– Não precisa ter pressa!

Então ela saiu da sala. Foi a deixa para que ele se levantasse e começasse a tatear por uma nova saída nas paredes.

~oOo~
– Marin acordou... – disse Shina. Mas o aviso talvez nem fosse preciso: logo podiam ouvir os gritos da ruiva vindo do outro quarto.

– Eu já vou vê-la – disse Máscara da Morte, e a moça de cabelos esverdeados se retirou.

O médico estava na cozinha, junto de Afrodite que bebia um copo de água com açúcar. Precisava decidir o que faria com Marin, mas pouco lhe importava o destino daquela ruiva maluca. Estava preocupado com Afrodite, que ainda estava bastante nervoso com tudo o que havia acontecido. Não queria deixá-lo sozinho.

– Máscara da Morte... – murmurou ele – Porque haviam tantos retratos na sala e os nossos também?

Fora pego de surpresa. Não sabia como responder a ele.

– Aquela sala, bom... Os retratos são os retratos das pessoas que foram nossos clientes...
– Todos eles morreram?

Baixou os olhos, sem saber se deveria dizer a verdade ou não. Mas já era tarde agora. Nada podia ser escondido.

– Se mataram...

O sueco não respondeu. Apenas ergueu as sobrancelhas sem demonstrar muita surpresa e se levantou para pegar um pouco mais de água na geladeira.

– Eu também pensei em fazer isso...

– O que?

– Me matar. Você não sabe como é horrível ficar servindo de experimento para um velho maluco e seus empregados...

– Meus pensamentos são diferentes dos pensamentos de Mitsumasa! – ele disse, indo em direção a Afrodite.

– Não se aproxime! – disse, jogando o copo contra o outro, num rompante de fúria que logo desapareceu – Meu Deus... Eu nunca me senti tão alterado assim...

– Tenha calma, Afrodite...

– E não tente dar mais um passo ou eu... ou eu... – virou o rosto para o lado e pegou a primeira coisa que estava sobre o balcão da cozinha – lhe acerto com essa coisa. O que é isso?

– É uma... – Parou de falar por um instante. Ainda se lembrava do acontecido do dia anterior – Pasta de desenhos...

– Então eu te acerto com esta...

Não terminou a frase. De dentro da pasta saiu uma folha de papel que havia sido esquecida pelo italiano e havia sido salva do mesmo destino que as outras. Afrodite abaixou-se lentamente e pegou o papel.

– Sou eu?

Máscara da Morte não conseguiu responder de imediato... Porque havia esquecido aquela folha? Teria que sofrer novamente ao ver seu segredo revelado para o objeto de seu amor?

– É...

– Puxa... Ficou bonito...

– Me desculpe por ter feito o desenho.

– Porque pede desculpas?

– Eu não sei...

Afrodite deu alguns passos á frente, ficando próximo do outro. Olhava para o desenho e para a expressão triste no rosto do italiano.

– Eu... gostei do desenho...

– Eu gosto de você.

– O que?!

– Me desculpe, eu preciso ver como está a Marin... – disse o médico, tentando escapar daquela situação, mas Afrodite o segurou.

– Você gosta de mim?

Novamente silêncio. Nenhum dos dois sabia exatamente o que dizer.

– Porque não disse antes? – perguntou o sueco, surpreso.

– Não podia interferir na sua relação de médico e paciente...

– Como?! Você não disse por causa disso?!

– E porque você não dava bola pra mim.

– Mas...

– Eu preciso ver como ela está – soltou-se dele e seguiu para a outra sala, apresado.

~oOo~

– Me solta, Shina! Me solte agora!

A moça de cabelos esverdeados acendeu outro cigarro e ficou observando enquanto a ruiva se debatia furiosamente na cama. Parecia que as fivelas que a mantinham presa na cama iam se soltar a qualquer minuto. Era uma visão assustadora, mas ela não se afetaria pela brutalidade de Marin.

– O que foi? Está brava?

– Me solte, sua vaca! – tentou cuspir na outra, mas foi em vão: apenas se sujou com a própria saliva.

– Ora, mas nem cuspir você sabe... – se aproximou dela e cuspiu em seu rosto – É assim que se cospe.

– Sua puta! Vadia! Eu vou te matar! Você vai...

Máscara da Morte entrou nesse instante e, se deparando com a confusão, soltou um olhar furioso para Shina, exigindo explicações.

– Não sei de nada... Ela começou a xingar sem mais nem menos – disse ela e deixou a sala.

~oOo~

Finalmente havia dado toda a volta pelas salas da empresa até que chegou à outra margem do lago. Apertou o botão e a cadeira começou a marchar em direção à grama e daí até à borda do tanque de água.

Não conseguia pensar em mais nada ao não ser no modo de como as coisas haviam fugido de seu controle e chegaram a tais pontos. Porque? Porque era tão difícil ajudar as pessoas? Queria apenas o bem delas... De cada um de seus clientes...

Tentou esquecer de tudo.

Pôs-se a observar o lago, silencioso e calmo. Talvez a calma daquelas águas lhe fizesse algum bem. Fechou os olhos. Seu desejo de fugir dali era enorme... O coração parecia querer explodir de tanta ansiedade.

– Vovô? Porque está triste, vovô?

Abriu os olhos lentamente e pôde ver sua pequena neta Saori, parada à sua frente, usando as mesmas roupas do dia do acidente, porém, não havia sangue, não havia ferimentos. Ela apenas estava ali, sorridente e alegre.

– Me diga, vovô. O que aconteceu?

– Eu falhei, Saori...

– Falhou, vovô? O que quer dizer?

– Eu não consegui alcançar meu objetivo... Não ajudei ninguém... Apenas causei mortes e dor...

– Acalme-se vovô... – Saori aproximou-se ainda mais dele, acariciando seu pescoço – O senhor sempre foi um...

– VELHO FILHO DA PUTA! VOCÊ QUASE DESTRUIU MINHA VIDA!

Quando abriu os olhos, deparou-se com Mu à sua frente, tentando estrangula-lo com as próprias mãos.

– Não, Mu! – disse Aldebaran, afastando-o.

Finalmente o grandalhão conseguiu separa-los. Mitsumasa começou a tossir pouco depois do ataque enquanto Mu ainda tentava avançar sobre ele.

– EU VOU MATAR ELE! ME SOLTA!

– Por favor, Mu! Se acalme! – dizia Aldebaran, tentando contê-lo – Não se esqueça que viemos aqui resolver tudo!

Ainda teve que lutar um pouco para segurá-lo. Nunca vira seu amado tão alterado. Quando finalmente os ânimos melhoraram o moreno se aproximou do velho.

– Senhor Mitsumasa, eu tenho algo a dizer.

– Pode falar... – ele disse, ainda olhando para Mu e passando as mãos pelo pescoço.

– Eu estou indo embora.

– O que? – perguntou, tossindo um pouco.

– Eu não quero mais trabalhar com você.

Mitsumasa olhou novamente para Mu. Com certeza ele era a razão disso. Mas de que adiantava prender Aldebaran ali? De que adiantava prender todos os outros empregados? Nada. O plano havia falhado e não havia mais nada o que fazer... Na verdade, precisaria de um último favor do brasileiro.

– Não vou ir contra suas vontades, Alde, mas quero pedir uma última coisa...

– Não! Ele não vai fazer! – Mu tentou inferir.

– Por favor, Mu...

O cliente balançou a cabeça negativamente e suspirou desapontado. Bom, fosse o que fosse, se Aldebaran aceitasse alguma tarefa louca ele não ia mais perdoa-lo.

– Eu gostaria que você me colocasse no barco.

– Desculpe, senhor. Não vou atravessar o lago com você...

– Não precisa atravessar! Apenas me coloque dentro dele! Eu ainda posso remar.

O moreno olhou para Mu que contraiu os ombros, sem querer se envolver. Bom, que mal havia em colocar o velho no barco? Puxou a embarcação até a borda e então colocou a cadeira de rodas dentro dela. Notou um tom avermelhado na água, mas não quis perguntar nada. Não queria saber de mais nada.

– Obrigado – disse o velho, tomando o remo nas mãos – Esperem só mais um pouco, sim?

– Nós não vamos esperar! – disse Mu, já começando a sair.

– É rápido, sim? – disse Mitsumasa, ligando seu celular.