10 – Sectumsempra e o conto antitrouxa

Indícios de verão começavam a surgir no horizonte, mas isso estava longe de me animar. Embora estivesse até indo bem nas aulas de Aparatação, agora realizadas em Hogsmeade (apenas para os alunos maiores de idade), tinha consciência de que as de Oclumência haviam ficado para trás. Não que eu sentisse falta, pelo contrário, eu as detestava, mas, sem elas, sentia-me vulnerável. Snape continuava a me evitar, e eu me perguntava o porquê. É certo que a última imagem que vi foi atemorizante, mas Snape não me parecia do tipo que se sentiria intimidado por uma imagem ilusória, como ele mesmo dissera. De qualquer forma, Harry, Ron, Mione e eu nos encontrávamos, naquela tarde, sentados a um canto ensolarado do pátio. Eu lia distraidamente um bom artigo sobre Química Inorgânica que meu pai recebera e me enviara, quando Harry recebeu uma carta de Hagrid.

— Ele está nos pedindo para ir ao enterro de Aragogue — disse Harry de uma vez, após passar os olhos pelo pergaminho.

— De quem? — indaguei, esquecendo por completo as linhas sobre dissolução fracionada.

— A aranha gigante — Harry disse com simplicidade — você não se lembra? Ah, claro que não, você não estava presente. Mas eu te contei depois, e...

— Mas eu me lembro muito bem! — Ron exclamou alarmado — Aquela coisa mandou que os filhos dele nos devorassem! Era só o que me faltava, ir chorar pelo defunto!

— E ele quer que a gente saia do castelo à noite — acrescentou Hermione — sendo que a segurança está mil vezes mais rigorosa. Podem imaginar no que isso acarretaria? Se ao menos forre pra salvar o Aragogue, mas ele já está morto...

— É, Mione tem razão — eu disse — não faz sentido, Harry.

— Não faz. Bom, acho que Hagrid vai sobreviver sem nós.

— Escuta, Harry — chamou Mione — nós teremos teste de Aparatação hoje à tarde. A aula de Poções vai estar quase vazia. Por que é que você não aproveita para tentar arrancar algo do Slughorn?

— Só se eu tivesse muita sorte — disse Harry amargurado.

— É isso, Harry! — exclamou Ron, com ideia tão arrebatadora que o fez pular de onde estivera sentado — Felix Felices.

— É isso! — exclamamos eu e Mione ao mesmo tempo.

— Como isso não passou pela minha cabeça antes? — ela disse empolgada.

—Ou pela minha — murmurei, fitando envergonhada para o artigo sobre Química Inorgânica, pensando que a minha competência em Poções há muito devia ter elaborado essa hipótese.

— Não sei — Harry respondeu meio constrangido — eu estava meio que guardando...

— Para quê? — Ron indagou.

— Nada pode se mais importante — completou Hermione.

— Você não vai precisar de Felix Felices — eu disse, por minha vez, com um sorriso malicioso, que provavelmente fez Harry entender que se tratava de Ginny.

— Então está decidido! — exclamou Mione, tão alegre que parecia perfeitamente capaz de saltitar.

— Vamos indo? — perguntei, consultando o relógio — Ainda tem aquele maldito Sensor de Segredos do Filch.

— Boa sorte, Harry — desejou Ron — bom, com Felix Felices essas palavras se tornam dispensáveis, não? Bem que eu gostaria de um pouco de sorte líquida antes desse teste, e Melvina sabe fazer...

— Felix Felices não é permitida em competições e exames.

— Mas não é propriamente um exame, é só um teste — replicou Ron enquanto Hermione se despedia de Harry.

— Você não precisa disso, Ron. E você, Harry, você vai conseguir hoje, eu tenho certeza. Felix Felices é sempre um bom empurrãozinho nas circunstâncias.

— Espero que você esteja certa, Mel.

— Ah, é uma pena não assistir à aula de Slughorn hoje... Eu queria mostrar esse artigo a ele.

— Você pode mostrar ao Snape quando quiser — disse Ron, malicioso — inclusive fora do horário de aula. Vamos?

Eu nunca vira Hogsmeade mais linda que naquela tarde, com os raios de sol incidindo sobre as casas e as pessoas. Wilkie Twycross, nosso instrutor ministerial de Aparatação, escolheu um lugar mais afastado para fazermos o último teste, onde havia apenas algumas casas abandonadas e comércios desativados.

— Ron, eu acho que você deveria parar de tremer — sugeriu Hermione.

— Seria bom se eu conseguisse, sabe?

— Mas, desse jeito, você não vai conseguir aparatar.

— Eu não vou conseguir aparatar de jeito nenhum, Mione.

— Ei, gente...

Ao meu chamado, os meus amigos voltaram a atenção a Twycross, que definia as regras. Não prestei atenção, porque já as conhecia das outras aulas. Twycross era repetitivo.

— ... E lembrem-se dos três D's...

— Destinação, determinação e deliberação — sussurrei, entediada.

Não aparatamos para longe, porém, era muito mais confortável do que aparatar para dentro de aros. Consegui na primeira tentativa, e a sensação de desconforto foi maior do que das outras vezes. Mas o alívio indescritível por ter passado no teste foi maior do que qualquer dissabor. Hermione, é claro, também foi aprovada, já Ron...

— Por meia sobrancelha, cara — ele dizia inconformado, enquanto nos encaminhávamos para o Três Vassouras — meia sobrancelhinha que eu deixei para trás. Eles deveriam ser um pouco mais tolerantes, sabem?

— E tudo bem para você perder meia sobrancelha? Aí amanhã é um braço, uma perna, meia cabeça...

E tentei não pensar nessas hipóteses macabras.

— A Mel tem razão — defendeu Mione — Aparatação é coisa séria. E você não foi tão ruim.

— Ah, não, com certeza o meu teste foi um sucesso.

— Acho que uma cerveja amanteigada vai te animar — sugeri, ao adentrarmos o bar.

— Ou a própria Madame Rosmerta.

As bochechas de Ron ficaram escarlates, e me diverti enquanto ele tentava dar alguma resposta coerente à Mione, sem, no entanto, conseguir.

— Será que ela gosta de pessoas jovens? — indaguei, fingindo inocência, quando Rosmerta nos entregou as cervejas e se retirou, deixando Ron atordoado, como se tivesse levado um balaço na cabeça.

— Talvez não mais que Snape — ele disse maliciosamente, cortando de vez a minha risada.

— É, mesmo, Mel, quando é que vocês vão sair do zero a zero?

Olhei assustada para a minha amiga, depois para Ron, que tinha um semblante não menos admirado.

— O que há com a cerveja dela? — indaguei, por fim.

Ron deu de ombros, incapaz de falar.

— Eu apoio todas as formas de amor — ela disse, como se aquela fosse uma conversa normal — só isso.

— Vou confessar que já imaginei muitas vezes a Mel com o Harry, mas com Snape... Não, é impossível.

Não ouvi a réplica de Mione, porque imediatamente me lembrei do dia em que Harry e eu perdemos o controle da situação e nos deixamos confundir os sentimentos. Felizmente ele nunca tocara no assunto, nem comentara com outra pessoa. Apenas nós tínhamos conhecimento daquele incidente. Nós e Snape.

— Não é porque ele seja velho pra Mel — ouvi Ron dizer, ao aterrissar no tempo presente — é que ele não é exatamente afetuoso.

— Você sabe? — defendeu Mione — Ele não poderia te demonstrar afeto, poderia? Bem, acho que você não faz o tipo dele, Ron.

E minha mente foi invadida pela imagem de Snape e Ron em uma cena afetuosa.

— Ah, por favor — eu disse, balançando a cabeça para me desvencilhar do pensamento inusitado — eu não quero sonhar com isso, sabem?

— Acho que você pirou, Mione — declarou Ron — decididamente.

— Por que é que os garotos não conseguem trabalhar o emocional? Por que você acha impossível Snape se apaixonar pela Melvina?

— Mione, estamos falando de Snape, caso você não tenha notado.

— E você acha que ele nunca gostou de ninguém?

— Não sei. Na juventude, talvez. Mas não faz o tipo dele gostar de uma garota, de uma aluna.

— Ele olha de um jeito especial pra Mel.

— Bom, olha, porque ela é bonita, diferente...

— Ei, parem de falar de mim como se eu não estivesse presente.

A essa altura, o meu rosto deveria estar escarlate, e eu resistia bravamente à tentação de repetir o teste de Aparatação e sumir das vistas dos meus amigos. Mas eles não pareceram se importar com o meu constrangimento.

— Há centenas de garotas bonitas em Hogwarts — prosseguiu Mione, voltando-se rapidamente a mim — não te desmerecendo, Mel, é claro. Mas, você não acha que ele não olharia pras outras, então?

— E você sabe se não olha? Você anda seguindo os olhares de Snape?

— Ron, é algo que você nunca vai entender. Sensibilidade feminina. Ele não deita os olhos sobre qualquer garota, como um pervertido...

— Até porque imaginar Snape pervertido é quase como imaginar Você-Sabe-Quem montado em um unicórnio.

— ...Mas ele olha pra Mel de um jeito diferente. Como se pudesse ver o que está muito além dos olhos dela.

— Claro, ele é um Legilimens.

Mione impacientou-se e fechou a cara. Ron fez um gesto de incompreensão e voltou as atenções para a sua cerveja. Eu, pivô dessa discussão, apenas conseguia pensar na última frase de Hermione. Eu já percebera esse tipo de olhar advindo de Snape, mas nunca dera atenção. Parecia-me loucura suficiente para me tirar a paz por dias, semanas, quiçá meses.

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Harry realmente tivera de usar a Felix Felices para extrair a lembrança de Slughorn, mas conseguira com absoluto sucesso. Contou-nos a sua façanha durante a aula de Feitiços do dia seguinte.

— E foi mais fácil do que eu pensava. Slughorn bêbado no enterro do Aragogue, emotivo por relembrar a minha mãe... Vocês sabem, ele gostava dela.

— Sim — concordei, pensativa — certa vez ele até disse que eu me parecia com ela.

— Então, usei esse sentimento como artifício para fazer com que ele me desse a lembrança de Voldemort. E deu certo. Fiz com que ele refletisse que, se me entregasse a lembrança verdadeira, ajudaria a acabar com o monstro que matou a minha mãe.

— O que não deixa de ser verdade — completou Mione.

— Cara, você é persuasivo — afirmou Ron, boquiaberto.

— Mais a Felix Felices do que eu. Tive muita sorte.

— Eu queria tanto ter umas gotinhas de Felix Felices — lamentou Ron — mas a Mel tem um estoque, que não divide com ninguém...

— Eu não tenho um estoque, são só alguns experimentos.

— Prossigamos — falou Hermione, olhando para os lados — vocês têm certeza de que esse Abaffiato funciona? Não confio nada naquele Príncipe idiota, e esse feitiço é dele.

— Absoluta — defendi, prontamente — aliás, Harry, posso levar o livro comigo essa noite? Gostaria de fazer algumas anotações.

— Claro, Mel. Eu fiz uma orelha em uma página particularmente interessante...

— Harry...

— Certo, Mione, a lembrança. Bom, levei-a ao Dumbledore, e finalmente descobri o que são Horcruxes.

— E...? — indagamos os três em uníssono.

— É horrível, talvez a magia mais mórbida que eu já vi. Consiste em fragmentar a alma e depositar os fragmentos em objetos. Dessa forma, enquanto os fragmentos de alma que residem em cada objeto não forem destruídos, o bruxo não morre.

Nenhum de nós pareceu entender muito bem, nem mesmo Hermione, que franzia o cenho, esforçando-se ao máximo para prender cada palavrinha.

— Vocês entenderam?

— Não — novamente uníssono.

— Bom, Voldemort... Riddle indagou a Slughorn sobre Horcruxes, e ele lhe deu essa resposta.

— Espera — eu disse, olhando de soslaio para a mesa do professor Flitwick — uma Horcrux é um fragmento de alma, depositado em um objeto, que faz do bruxo um ser imortal...

—... Enquanto não for destruída. Ignoro o feitiço, é claro, mas, executando-o, o bruxo é capaz de colocar parte da sua alma em um objeto, ou animal, ou, de repente, uma pessoa. O preço é um homicídio para cada Horcrux...

— ...E, certamente, isso não seria nenhum problema para Você-Sabe-Quem.

— Conclusão perfeita, Ron. Dumbledore presume que Voldemort tenha sete Horcruxes, sendo uma ele mesmo.

— Sete? — indagou Ron, estarrecido — Ele dividiu a alma em sete partes?

— Estamos falando de Voldemort — disse Mione calmamente — Dumbledore tem noção de onde estejam essas Horcruxes, Harry?

— Ele está certo de que uma delas foi o diário de Tom Riddle, destruído por mim na Câmara Secreta, e a outra... Bem, vocês já repararam na mão dele, não?

— Enegrecida por algum feitiço poderoso — sugeri — algum feitiço das trevas.

— É, um feitiço com o qual Voldemort muniu uma Horcrux. Dumbledore viajou em busca de informações sobre ele, Voldemort, e, numa dessas viagens, encontrou o anel de Servolo Gaunt, que servira de Horcrux. Havia nele uma magia muito poderosa, que teria matado Dumbledore, não fosse, segundo ele, a sua exímia capacidade em magia e... E a intervenção de Snape.

— E ele destruiu a Horcrux, afinal? — indagou Hermione.

— Destruiu. Ficou com uma mão inutilizada, mas destruiu.

— Bom, então restam só cinco — sugeri.

cinco — refletiu Ron — como cinco deveres que teríamos de terminar para a semana que vem. Simples assim.

— Antes cinco do que sete.

— Cinco — interpôs-se Harry — sendo que uma é o próprio fragmento de alma que habita o corpo do Voldemort.

— Essa deve ser a mais difícil — sugeriu Ron — mas e aí, há alguma pista das outras quatro?

— Vocês se lembram do medalhão e da tacinha da velha Sra. Smith? Dumbledore presume que sejam duas fortes candidatas a Horcruxes. Também é provável que outra seja a Nagini, a cobra de Voldemort.

— Alguma noção de onde possam estar esses objetos? A cobra, é claro, está no poder de Voldemort...

— Ainda não, Mione, mas Dumbledore me disse que, caso descubra o paradeiro de uma delas, vai me levar com ele.

— Isso é bastante complexo — admitiu Hermione — acho que eu preciso de alguns minutos para absorver todas as informações.

— Eu também — concordei.

— Então essa é uma boa oportunidade — cochichou Ron, provavelmente esquecendo-se do Abaffiato — aí vem o Flitwick, e ele vai querer que prestemos contas dos nossos trabalhos.

Tivemos um período livre depois de Feitiços, e resolvemos passá-lo no salão comunal, ainda que o sol estivesse agradavelmente tentador. Em todo o caso, ele banhava o salão e nos convidava para um cochilo em uma das poltronas. Eu o teria feito de bom grado, não fosse o aglomerado de alunos do sétimo ano. Vislumbrei Kate Bell no momento em que Hermione gritava o seu nome. Ela deu uma resposta rápida, mas animada, às boas vindas de Hermione e iniciou uma conversa sobre quadribol.

— A propósito, Melvina, muito obrigada por me cobrir enquanto estive ausente. Fiquei sabendo que agora temos uma artilheira extremamente competente no time.

— Imagina, Kate, a artilheira mais competente que temos é você. Tenho certeza de que com você agora, a Grifinória vai dar uma surra na Corvinal.

— Acho que não, ainda não estou em forma para voltar a jogar. Quero te pedir, Melvina, que termine essa temporada pra nós.

— Mas e você? É o seu último ano em Hogwarts, e tudo.

— Mais um motivo para eu querer ver uma vitória à altura da nossa equipe. E eu ainda vou jogar muito quadribol nessa vida. Oficialmente.

— Bom, então se você não se importar que eu continue usando o seu uniforme e a sua vassoura...

— Faço questão. Fico aliviada por saber que você aceitou continuar, Melvina. O que você acha, Harry?

— De acordo — ele respondeu meio disperso — Melvina é muito boa.

— Então acho que está resolvido, né?

— Ah, Kate — Harry retomou — agora você se lembra de quem te deu aquele colar?

— Não — ela disse pesarosa — a última coisa de que me lembro é que entrei no banheiro feminino do Três Vassouras.

— Então você entrou, definitivamente? — indagou Mione.

— Eu me lembro de ter aberto a porta, e, então, alguém deve ter me lançado a Maldição Imperius. Depois disso, minha memória apagou tudo até as duas últimas semanas no St. Mungus. Agora eu preciso ir, pessoal. A gente se vê.

Sentamo-nos a uma mesa perto da janela, e eu deitei sobre os meus braços, bocejando. Ouvi os meus amigos discutindo sobre Kate ter sido amaldiçoada por uma mulher ou garota, uma vez que aconteceu no banheiro feminino. Harry levantou a hipótese de ter sido um dos rapazes de Malfoy utilizando a Poção Polissuco, e, nesse momento, pediu a minha opinião.

— Malfoy fazer Polissuco? Ele é burro o bastante pra não saber sequer fazer um suco de abóbora.

— De fato — apoiou Ron — o cérebro do Malfoy é menor do que uma ervilha.

— Mas há um caldeirão de Polissuco em Hogwarts, lembram? E nós sabemos que roubaram um pouco.

— Faz sentido — disse Hermione pensativa.

— Filho da mãe! — Harry exclamou de repente, socando de leve a mesa — Ele está indo longe demais!

— Harry, nós não temos certeza — lembrou Mione.

— Lavender terminou comigo.

A afirmação de Ron fez com que Harry e eu adquiríssemos uma expressão bizarra de surpresa, ao indagarmos "como?" em uníssono. Mione parecia já saber, e suspeitei que o largo sorriso em seu rosto durante todo o dia se devesse a esse detalhe.

— Ela achou que eu estava saindo com Hermione — disse, corando intensamente — e teve uma crise de ciúme. Bom, ela terminou comigo antes que eu precisasse. Gritou muito, é claro, mas agora eu estou livre.

Olhei significativamente para Hermione, que baixou os olhos e emendou outro assunto.

— É, os relacionamentos vão mal, então. Ginny terminou com Dean.

Dessa vez os meus olhos encontraram os de Harry, muito rapidamente. Havia um brilho diferente neles.

— E onde é que eu estava quando tudo isso aconteceu? — indaguei, tentando amenizar o desconforto do meu amigo, ainda que soubesse perfeitamente onde passara uma boa parte da noite passada.

— Na Torre de Astronomia — disse Ron — onde mais?

— A Astronomia é abrangente, há muito que estudar ainda.

— Por falar em estudar, você me pediu o livro, né? Pode pegar na minha mochila.

— Valeu, Harry. Eu devolvo amanhã.

— Então quer dizer que a Princesa Mestiça vai passar uma noite com seu Príncipe?

Nem mesmo Hermione resistiu à piada improvisada de Ron, até porque estava especialmente risonha naquele dia. E continuou dessa forma pelos próximos. Ron também parecia aliviado por não estar mais com Lavender Brown, e Harry, por Ginny não estar mais com Dean. Seu desempenho nos treinos de quadribol ficou excepcional, e eu adquiri muito mais técnica e velocidade. Era realmente um alívio não jogar com McLaggen, assim eu podia apenas me preocupar com a goles, em lugar de ter de pensar em vários xingamentos diferentes para insultá-lo.

Uma noite eu voltava do treino com Harry, Ron e Ginny, e encontramos Hermione à entrada do castelo. Vinha com um sorriso largo e um brilho extraordinário nos olhos. Indaguei-lhe o motivo, e ela disse apenas que fazia uma noite bonita. Assim, chegamos ao salão comunal e nos acomodamos a um canto. Conversávamos animados, ou, pelo menos, eles conversavam. Eu percebi que, embora nada assumissem ou demonstrassem, os meus amigos estavam separados em pares, e eu era o número ímpar. Discretamente, ergui-me, alegando que estava muito cansada e ia me deitar. Não olhei para trás, e me desviei rapidamente de alguns primeiranistas para alcançar a escada do dormitório. E pensei, durante o banho, que a minha angústia era egoísta, e eu deveria ficar feliz por ver que meus amigos assim estavam, mas eu simplesmente não podia. E não podia porque meu irmão estava morto, porque meu pai não gostava de mim, porque o mundo bruxo estava ameaçado por Voldemort, porque eu tinha visões, e porque, principalmente porque Snape cancelara as aulas de Oclumência. Na verdade, ele nem mesmo se deu ao trabalho de cancelá-las, apenas passou a me evitar constantemente. Eu, que detestava aquela aulas, nunca pensara que poderia sentir falta delas um dia. Deixei a água levar o meu cansaço, e não tardei a adormecer quando me deitei à cama. Porém, lá pelo meio da madrugada, eu despertei sobressaltada. Tão sobressaltada que acordei Hermione.

— Tudo bem, Mel? — ela indagou, abrindo o meu cortinado.

— Não sei — respondi sinceramente, enxugando o suor da testa.

— Com o que você estava sonhando?

— Só me lembro que havia uma neblina muito espessa, nada mais.

— Você estava chamando um nome.

— Que nome?

— Lorens, eu acho. É, acho que era isso. Era o nome do... Você sabe... Seu irmão?

— Não — respondi confusa, tentando me lembrar se eu havia contado a história à Hermione, e por fim decidi que sim, há duas semanas — o meu irmão se chamava Rian. Mas onde foi que eu ouvi esse nome?

— Talvez seja um nome comum na Irlanda, não? E pode até ser que você tenha algum familiar...

— Não, eu não ouvi esse nome. Decididamente, eu li.

— Talvez em algum livro...

— É isso! O livro de contos que tem no sótão da minha casa. Foi lá que eu vi.

— Livro de contos?

— É um livro para crianças, mas feito por bruxos preconceituosos. Meu pai disse que há ensinamentos desprezíveis nele, mas foi lá que eu vi esse nome. Lorens...

E quando mais eu dizia, mais parecia conhecê-lo.

— Vou pedir que papai mande para mim. Digo que preciso fazer uns trabalhos extracurriculares. Ele não vai se importar, desde quando se preocupa comigo? É isso!

— Por que dar tanta importância a um sonho, Mel?

— Porque estou certa de que este nome está intimamente ligado às visões.

Hermione ainda tentou contestar, enquanto eu escrevia rapidamente uma carta ao meu pai, pedindo que me mandasse o livro o mais rápido que pudesse. A resposta chegou dali a dois dias, no café da manhã.

— Mel, é a sua coruja — cochichou-me Hermione.

— Eu não tenho uma coruja — respondi distraída, enquanto lia o Profeta Diário e comia uma cereja.

— Bom, então uma coruja do castelo trouxe algo pra você — disse-me ironicamente — você estava esperando alguma coisa?

Praticamente lancei à minha amiga o Profeta, e peguei imediatamente o embrulho que a coruja cinzenta trazia no bico. Ela não gostou da euforia e me bicou a mão, mas não me importei com o pequeno filete de sangue que escorreu.

— O que é isso, Mel? — indagou Ron curioso.

— Um livro que eu pedi ao meu pai. Um livro de Astronomia.

Consegui o resultado desejado: Nem ele nem Harry se interessaram pelo embrulho, e pude calmamente me desviar para os jardins com Hermione.

— Vão caçar garotos? — indagou Harry quando nos levantamos.

— Se dermos sorte — Hermione respondeu, e possivelmente se deliciou com a expressão intrigada de Ron.

Estava vazio lá fora, uma vez que praticamente todos os alunos ainda tomavam o café da manhã. Abri o pacote vorazmente e folheei o livro sem cuidado, não me importando que as páginas, já desgastadas pelo tempo, protestassem.

— Está aqui! — exclamei, com o coração disparado — O Conto de Gwineth e Lorens.

— Então leia, Mel! Depois de tudo isso, até fiquei curiosa.

Há muito tempo, em um povoado bruxo muito distante, viveu uma excepcional feiticeira chamada Gwineth. Era dotada da magia inigualável de sua família que nunca conhecera outro sangue, que não o sangue bruxo, e, não bastasse, era ainda a mais bela bruxa de todo o povoado. Tinha na pele a alvura da neve, nos cabelos, o alaranjado do fogo sagrado, e, nos olhos, o verde tão presente naqueles bosques.

— Ela se parece com você — opinou Hermione.

— Pelo nome é irlandesa — eu respondi, rindo — são, ou pelo menos já foram muito comuns entre os irlandeses, os cabelos ruivos e os olhos verdes.

— Certo, prossigamos.

Gwineth era o sonho de todos os rapazes do povoado, mas era indiferente a qualquer declaração de amor. Os mais exímios bruxos pediram-na em casamento, mas ela recusou sem pestanejar. Diziam as mulheres invejosas que Gwineth era incapaz de amar, e morreria fria e seca, sem nenhum descendente. Um dia, porém, encontrou em seu caminho um cavaleiro. Um rapaz magro, pálido e doentio, com cabelos cor de palha, trançados em algumas mechas como os de uma moça, e olhos meditativos, de um azul triste e apagado. Um guerreiro irlandês, trouxa e cristão, que, talvez, por intermédio de seu deus, ganhou imediatamente o coração indiferente de Gwineth. Chamava-se Lorens.

Parei um segundo para refletir, e, assombrada, constatei que a descrição do guerreiro conferia com a do rapaz das minhas visões.

"Era tão hipócrita que usava no pescoço um enorme crucifixo cristão, e, ao mesmo tempo, contrariava as crenças de seu povo, ao ser dado, principalmente, à magnífica arte da Astronomia, que era vista pela Igreja trouxa como obra do que eles chamavam de "Demônio". Lorens, que não respeitava sequer a sua crença, passou a visitar constantemente o povoado bruxo, profanando-o com seus pés e com suas cruzes. Há que se concordar que o cristão era muito esperto e estudioso, e descobriu no céu, para a sua Gwineth, uma estrela nova, que batizou de Estrela Magna, atribuindo ao astro recém encontrado toda a importância e grandeza que significava para ele a existência de sua amada."

Olhei para Hermione, que me devolveu um olhar não menos perplexo.

— A Estrela Magna é um mito — ela disse com uma voz incerta — e o seu surgimento deve ter milhares de teorias, das mais lógicas às mais fantasiosas, como esta.

— Não acredito em tantas coincidências, Mione.

— Bem, continue lendo.

...toda a importância e grandeza que significava para ele a existência de sua amada. Esse gesto fez com que Gwineth entregasse a ele, definitivamente, o seu amor e a sua sanidade, de modo que pisou em toda a tradição milenar de seu povo e deu ao mundo o primeiro mestiço de uma família tão tradicional, que jamais conhecera o sangue impuro dos trouxas. Tal ignomínia, porém, teve o seu preço, e Gwineth foi queimada viva em uma fogueira, possivelmente uma emboscada preparada por Lorens, que não queria se casar. Por fim, o covarde sentiu todo o peso da culpa e se lançou aos braços de Gwineth, e, consequentemente, ao fogo.

Parei em busca de novo fôlego, com mil pensamentos conflitando na minha mente.

— Isso é um conto infantil? — indagou Hermione enjoada — Tem certeza?

Assenti, incapaz de falar, e levei ainda alguns segundos para conseguir ler o desfecho.

Gwineth, bruxa tão exímia, que possivelmente teria um futuro prodigioso ao lado de algum outro grande bruxo, destruiu a sua vida no auge da juventude, ao cair nos encantos de um trouxa. Além disso, deixou ao seu povo o fardo de um medonho filho mestiço, de feições deformadas devido à mistura do sagrado sangue bruxo com o imundo sangue trouxa. Tratando-se de miscigenação, nada coopera para um final feliz.

— Eu fico me perguntando como é que os pais deixam que os filhos leiam algo desse tipo. Você certamente não leu esse absurdo quando criança, mas e os seus pais, leram?

— Possivelmente. Mione, esse conto é a releitura das minhas visões, mesmo sendo narrado de um ponto de vista nojento.

— Mel, isso nunca aconteceu. É só uma história, uma terrível história para pregar às crianças a moral dos costumes de bruxos conservadores.

— Mas é idêntico! Mesmo a descrição de Lorens...

— Talvez seja um recurso de Voldemort. Sim, esse livro faz bem o perfil dele.

— Não, ele não tem nada a ver com as minhas visões, sei disso. Droga, eu preciso falar com Snape. A gente se vê na aula de Herbologia.

— Mel, o que é que você vai dizer a ele?

— Não sei, mas essas aulas de Oclumência ainda não podem acabar.

Cheguei ofegante ao escritório que já conhecia tão bem. Snape pareceu surpreso ao me receber.

— Não devia estar em aula?

— Devia, mas tive um motivo especial para vir até aqui.

Por um momento pensei que ele fosse me bater a porta na cara, e talvez ele tenha pensado o mesmo, mas não o fez. Ao contrário, pediu-me que entrasse.

— E então, Melvina?

Tomei novo fôlego antes de responder.

— Eu sei que pode parecer loucura, mas encontrei o retrato escrito das minhas visões em um livro de contos infantis.

— Os Contos de Beedle, o Bardo?

— Não, é outro. Um horrível e mórbido, feito de e para bruxos da estirpe de Você-Sabe-Quem. Eu achei que deveria te mostrar, porque... Porque o senhor foi quem realmente viu aquelas imagens além de mim, e pensei que apesar de as aulas de Oclumência terem acabado...

— O conto está aí com você?

Tremendo veementemente, abri na página em que fizera uma orelha e entreguei a ele, que leu em silêncio durante alguns minutos. Por fim, sorriu.

— É realmente amargo para crianças.

— Ele descreve as minhas visões, não é verdade?

— Não sei, Melvina. Há muitos rapazes louros, muitas moças ruivas, e muita gente foi queimada na fogueira em um passado triste e remoto.

— Mas a soma de todos esses fatores combinada não lhe diz nada? E a Estrela Magna?

— A Estrela Magna, por ser o grande mistério da Astronomia, é fonte de muitas lendas, Melvina, como a que eu lhe contei certa vez.

— Sim, e a sua lenda faz todo o sentido! A Estrela Magna foi descoberta por um trouxa, e se apagou do universo quando a noiva dele morreu, não é isso? Então, que me diz?

— Todas as lendas sobre a Estrela Magna têm certa proximidade, mas você não vai encontrar nenhuma real. Você, como a exímia astrônoma que daria, não deveria se deixar influenciar por esse tipo de história.

— Mas há toda uma lógica.

— Não, Melvina, não há lógica nenhuma. E como é que vão as suas visões, nunca mais?

— Não, senhor.

— Melhor assim. Agora volte à sua aula. Ah, sim, leve o seu livro.

— Senhor, eu ainda insisto que...

— Melvina, você já está bem crescida para acreditar em contos infantis, mesmo que sejam eles tão pouco infantis como esses. Tenha um bom dia.

Vi em mim uma criança absolutamente tola e ilógica, mas não conseguia deixar de acreditar que as coincidências não podiam ser tão demasiadas, que aquele conto tinha uma ligação indiscutível com as minhas visões.

Em vão tentei mudar o rumo dos meus pensamentos nos dias que seguiram. Estávamos cada vez mais próximos da última partida de quadribol, e eu me sentia massacrada pela pressão de substituir Kate Bells na final. Nós da equipe éramos constantemente intimidados por rivais nos corredores. Eu não ligava a menor importância, mas Ron passava mal cada vez que pensava em quadribol.

— Você está parecendo uma mulher grávida — ralhei, ao ver que ele corria para o banheiro mais uma vez.

— Que ele vomite tudo o que tiver de vomitar agora — disse Harry, não podendo conter o riso — seria bastante desagradável que vomitasse a vários metros do chão.

— Harry, você se esquece que nós estamos indo jantar?

— Desculpe. Mas onde é que está a Mione?

— Foi falar com a professora Vector, de Aritmancia, sobre um trabalho. Disse que nos encontra no Salão Principal.

— Ah, certo. Então vai indo, Mel, que eu vou...

— Vai aonde, Harry?

— Vou procurar o Malfoy, e não me critique.

Entreolhamo-nos com alguma hesitação e desatamos a rir.

— Tudo bem, eu vou com você. Mas que seja breve.

— Sim, senhora.

Andamos pelo sétimo andar, de olho no Mapa do Maroto.

— Não está em lugar nenhum, aparentemente — disse Harry desanimado.

— Ótimo, então podemos jantar, que Malfoy está muito bem acolhido na Sala Precisa, fazendo sei lá o que.

— Você brinca com isso, Mel?

— É você que leva muito a sério. Você cismou com o cara, Harry. Vai saber se ele...

— ESPERA!

— Quê?

— Ele está em um banheiro masculino no sexto andar.

— Ah, é boa, Harry! Agora você vai querer controlar o que Malfoy faz no banheiro?

— Mas ele está na companhia da Murta-Que-Geme.

— Então ela não fica atrás de todos os garotos do colégio? E Malfoy é até bonitinho...

— Vamos, Mel.

— Ei, espera! — exclamei, enquanto era arrastada — Harry, eu não vou a um banheiro masculino.

Fui, e ao chegarmos Harry pediu que fizesse silêncio. Empurrou com cuidado a porta, sem fazer ruído, e vimos Malfoy parado de costas, com as mãos apoiadas na pia e a cabeça curvada. Murta-Que-Geme, de um dos boxes, perguntava-lhe qual era o problema e oferecia algum tipo de ajuda que não poderia dar.

— Não — Malfoy respondeu — ninguém pode me ajudar. Eu não posso fazer isso... Simplesmente não posso. Mas eu preciso fazer logo, senão ele me mata.

Malfoy claramente chorava. Harry e eu nos entreolhamos abismados, como se o rosto de um fosse espelho do outro. E, por falar nisso, fui tomada de sobressalto ao mirar o reflexo pálido de Malfoy no espelho rachado, e saber que ele também mirava a mim e ao Harry. Tentei puxar Harry para fora do banheiro, mas Malfoy decidiu brigar, e tivemos de trocar feitiços. Murta berrava, agonizante, enquanto o banheiro era destruído por nossos feitiços. Harry escorregou na água, que vazava para todos os cantos, na hora em que Malfoy, imerso em seu ódio, exclamou:

— Cruci...

— SECTUMSEMPRA!

Estarrecida, agarrei-me a uma metade de pia que esguichava água. Malfoy vacilou e caiu de costas, com o rosto e o peito ensanguentados. Tremendo, agonizando.

— Que foi que você fez, Harry? — indaguei assombrada, com a voz vacilante.

— Não, Mel... Eu não sabia, eu...

E, cambaleante, acercou-se de Malfoy. Eu, admirada que ainda soubesse andar, fiz o mesmo, e toquei o pulso do garoto exangue.

— Os batimentos estão ficando fracos, Harry, e agora?

— Eu não sei...

— CRIME! — berrou Murta — CRIME NO BANHEIRO!

— Precisamos chamar alguém, Harry.

Não foram as minhas palavras que trouxeram ajuda, e sim os gritos da fantasma. Snape adentrou o banheiro, lívido. Fez um sinal para que nos afastássemos, e não hesitamos. Com um encantamento preciso, ele aos poucos cicatrizou os cortes de Malfoy. Ao som dos melancólicos e agourentos gemidos da Murta, vimos Malfoy se reerguer, débil, apoiado em Snape, que exigiu que ficássemos exatamente onde estávamos. Não pensamos no contrário.

— Dê ditamno a ele — opinei — pode evitar as cicatrizes.

Snape apenas olhou muito feio para mim, e nada respondeu ao se retirar.

— O que é que você acha que vai acontecer? — indaguei, ajudando Harry a se levantar.

— Talvez sejamos expulsos, na melhor das hipóteses.

Não, não era realmente a melhor. A ideia me aterrorizou, e me imaginei fazendo as malas e voltando para o rancho, sem terminar a escola. Longe dos estudos, dos telescópios, dos amigos, e...

— Vai embora — eu disse isso mais ao meu próprio pensamento que à lamentosa Murta.

— Assassinos!

— NÃO DIZ O QUE VOCÊ NÃO SABE! SOME DAQUI OU EU TE MATO DE NOVO!

Ao menos os meus gritos surtiram efeito, e ela mergulhou em um vaso, deixando um silêncio desconfortável no banheiro, que perdurou por mais alguns minutos, até que Snape voltou e fechou a porta às suas costas.

— Qual de vocês fez aquilo? Liadan tem um vasto conhecimento sobre tudo...

— Não, senhor — interrompeu Harry imediatamente — Melvina não tem nada a ver com isso. Ela não queria sequer estar aqui, fui eu. Mas eu não tive intenção, eu... Eu não sabia qual era o efeito daquele feitiço.

— Então eu estou surpreso, Potter, com a sua intimidade com as artes das Trevas. Quem lhe ensinou aquele feitiço?

— Eu li... Eu li em algum lugar, num livro da biblioteca.

— Que livro?

— Eu não me lembro do título.

— Você mente, Potter.

Naquele momento, eu revi as já remotas aulas de Oclumência. Sabia que Snape estava usando Legilimência, e Harry não sabia bloquear os pensamentos.

— É verdade — interrompi, fazendo com que ele me deitasse, lentamente, os olhos desinteressados — eu estava com Harry no dia, e...

— Vá apanhar a sua mochila, Potter. Traga-a para mim, com todos os seus livros escolares. Todos.

Harry hesitou por meio segundo, e então se encaminhou para a porta. Eu não sabia exatamente que atitude tomar.

— E os meus? — indaguei com a voz insegura.

— Melvina, o seu caro amigo nunca foi tão bom em Oclumência quanto você, então digo que me bastam os livros de Potter. Agora suma do meu campo de visão.

Senti que os meus pés pesavam o triplo ao me afastar após tal represália. Uma vez no corredor, entretanto, corri desabalada, indo encontrar Harry à entrada do salão comunal.

— Leve o meu livro de Poções — sugeri, em voz baixa e ofegante.

— E o do Príncipe?

— Não sei. Nós precisamos escondê-lo. Precisamos.

— É isso! A Sala Precisa.

Uma vez com a posse do meu livro na mochila de Harry, corremos até a Sala Precisa, em frente à qual Harry murmurou três vezes: "Preciso de um lugar para esconder meu livro", dando três voltas.

— Aí está — eu disse, apontando para a porta que se materializou na parede lisa à nossa frente — vamos?

Nem por toda a pressa que tínhamos, pudemos deixar de notar que a sala tinha o tamanho de uma catedral, lotada dos mais diversos objetos empilhados. Caminhamos por entre eles, desviando-nos de toda a sorte de coisas, desde inúteis, como chapéus, até perigosas, como um machado sujo de sangue enegrecido, que chamou a minha atenção. Encontramos um armário grande, que, ao abrir a porta, percebemos que escondia uma gaiola com o esqueleto de algum bicho. Harry escondeu o livro atrás da gaiola.

— Perfeito. É uma pena perdermos o Príncipe, mas...

— Ele quase me levou a matar alguém, Mel. Vamos embora.

Mas percebeu, imediatamente, que não podíamos deixá-lo para trás, sem a esperança de encontrá-lo um dia em meio a toda a enorme bagunça da Sala. Tomou, então, o busto de mármore de um bruxo velho e colocou-o sobre o armário, e, em sua cabeça, pôs uma peruca e uma tiara oxidada, para distingui-la posteriormente.

— Agora vamos, Harry. Vamos depressa, ou Snape vai desconfiar.

Ao deixarmos a Sala Precisa, estaquei.

— Eu não posso ir junto, Harry. Snape me dispensou, e se eu for com você, ele pode desconfiar do livro.

— Claro. Eu te vejo no salão comunal.

— Boa sorte, Harry. Tente fechar a mente, se esforce, ok?

Ele assentiu, mas eu não vi nenhuma convicção naquele gesto. Voltou a correr, e eu também me encaminhei depressa ao salão comunal.

Aproximadamente uma hora depois, estávamos reunidos no mesmo lugar de sempre, perto da lareira. Harry e eu agora usávamos roupas limpas e secas. Ginny, distraidamente, penteava meus cabelos molhados, mas estava tão atenta quanto Ron e Hermione à narração do incidente.

— Mas você acha que ele desconfiou do livro, Harry? — indaguei preocupada.

— Penso que sim. Ele viu algo como Cherry Pie na segunda capa.

— O Ron idiota que escreve isso em qualquer objeto meu em que consiga colocar as mãos. Porque eu gosto de cerejas.

— E por causa da semelhança com os seus cabelos — Ron completou — bem, os nossos.

— Nossos cabelos não têm cor de cereja, Ron, de onde é que você tirou isso? Têm cor de fogo.

— Então cereja flambada.

— Calem a boca pra variar — repreendeu Harry, passando nervosamente a mão pelos cabelos — eu tive de dizer ao Snape que esse era o meu apelido.

Rimos em conjunto, e Ginny até puxou, acidentalmente, alguns fios do meu cabelo.

— Mas colou? — indaguei, retomando o fôlego.

— Creio que ele tenha achado adequado. De qualquer forma, me deu detenções, que começam no sábado de manhã.

Dessa vez, Ginny largou a escova ao chão, e nós duas, com o acréscimo de Ron, adiantamo-nos.

— E o quadribol, cara?

— Eu não vou poder participar do último jogo, Ron. Snape me deu detenções, e eu agradeço por não ter sido expulso.

— Filho da mãe! — exclamei.

— A Mel também não vai jogar? — Ginny perguntou, desesperada — Porque também estava envolvida...

— Eu não peguei detenção — respondi sem graça.

— A Mel foi absolvida, porque realmente quem usou o feitiço fui eu.

— Não, Harry — rebateu Ron, com raiva — pensa que se eu estivesse com você, também não pegaria detenção? Mas é até utópico pensar que Snape vá castigar a Mel. Velho safado!

Eu quis responder, mas Hermione me impediu, silenciando a todos nós.

— Não vem ao caso agora questionarmos as decisões de Snape — ela disse em tom grave — o fato é que vocês confiaram demais nesse tal Príncipe, e vejam no que deu. Não passava de um maluco, dado às artes das Trevas. Satisfeitos agora?

— Numa boa, Hermione — disse Ron, cobrando de si paciência — cala a boca, tá legal?

— Eu jogo como apanhadora — prontificou-se Ginny — e Dean toma o meu lugar como artilheiro. Ele estava mesmo querendo o posto da Mel quando a Kate se ausentou.

Percebi que os olhos de Harry baixaram, faiscando de ódio, e pude adivinhar o que ele pensava. Dean e Ginny jogando juntos. Se a Grifinória ganhasse, talvez fizessem as pazes durante a euforia pós-jogo. Percebi que o meu amigo fechou a mão esquerda com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Teria o pescoço de Snape entre ela, se pudesse.