X – Além das Portas do Elevador
Quase um mês se passou desde que Draco descobriu a verdade sobre a secretária, até o começo das férias de natal. Um mês no qual não dormiu noite nenhuma, não teve um momento tranqüilo sequer. Sua cabeça funcionava num constante turbilhão, estava constantemente aéreo, mais tolerante com os alunos, apesar de ter súbitos acessos de fúria que ninguém era capaz de entender, nem mesmo Harry, de quem ele mantivera uma estranha distância: estava mais frio que normalmente, mais monossilábico que normalmente apesar de, quando estava a sós com Harry, se tornar misteriosamente caloroso, como que se tudo aquilo que o tirava o sono e a calma desaparecesse. No entanto, longe dos momentos de intimidade, Draco estava silencioso com todos, não olhava para ninguém direito, não conversava com ninguém, parecia estar sempre mergulhado em seus pensamentos. Nem mesmo Harry conseguia quebrar essa barreira de silêncio durante o dia.
A grande causa do silêncio: o próprio Harry Potter. Aceitar o fato de que estava realmente gostando do garoto que odiou por tantos anos era algo impossível para ele. Por mais que já soubesse disso e não tivesse como negar, jamais admitiria. Ter um caso com Harry para futuramente ganhar dinheiro era algo perfeitamente aceitável para Draco, agora, ter algo, qualquer coisa com Harry, porque nutria sentimentos por ele, não o era. No entanto, não conseguia vencer o que seus instintos mandavam, não conseguia ficar longe de Harry, não conseguia não beijá-lo com toda a ânsia do mundo, e não se sentir infinitas vezes mais feliz quando estava com ele. Isso ele não podia controlar.
E também tinha a secretária, que não deixava de ter a ver com Harry Potter. Draco sabia que, a qualquer momento, podia largar a missão; era só pagar a secretária. Mas algo dizia que, naquelas circunstâncias, simplesmente pagar com juros e correção não adiantaria. A essa hora ela já sabia que Draco sabia que ela não era uma secretária aleatória querendo que Potter morresse, mas sim, a melhor amiga de Potter querendo que ele morresse. E ela jamais correria o risco de Draco, desistindo de cometer o crime, contar tudo para Harry. Ela, com certeza, contrataria outro assassino para matar Harry e Draco.
E quando as férias de natal chegaram, Draco foi resolver essa situação.
A luz verde acima do elevador que indicava a chegada deste no andar acendeu, sem fazer o barulho costumeiro, o que não despertou a atenção de Elizabeth Laslya, mais compenetrada com o seu trabalho do que com o que acontecia em volta. Só seu deu conta da presença de mais alguém no andar quando viu um par de pés se encaminhando para a porta do presidente da empresa. Ergueu a cabeça devagar, preparando seu tom de voz mais duro para intimidar quem quer que fosse, quando viu de quem se tratava. Levantou-se da cadeira rapidamente, correndo até ele com urgência, segurando-o com força num choque violento, com o qual ele virou-se com cara de poucos amigos, olhando-a gelidamente nos olhos. No entanto, Elizabeth não se deixou abalar pelo olhar e, sustentando-o, falou da maneira mais altiva que conseguiu.
– O que você está fazendo aqui? Eu não me lembro de ter te chamado.
– Me solta – disse o outro entre dentes, mexendo o braço com força, tentando se desvencilhar de Elizabeth, porém, sem conseguir.
– Solto. Depois que você me disser o que veio fazer aqui sem que eu chamasse.
Por um instante nenhum dos dois disse nada, apenas trocaram olhares gelados. Se Elizabeth estivesse mais atenta, notaria um pouco mais do que o desprezo habitual naquele olhar. Notaria ódio, um ódio profundo por ela e por tudo que ela tinha e estava ocasionando. Não que ela tivesse culpa de tudo, ele mesmo sabia de sua parte na culpa mas, se era para achar alguém para por a culpa, por que não Elizabeth, por quem ele nunca nutrira nada de bom, nem mesmo simpatia? O silêncio só foi quebrado quando ele deu um sorriso cínico, um instante antes de murmurar, tão baixo que Elizabeth quase não pôde escutar.
– Push Master! Expelliarmus!
Draco foi arrastado junto com Elizabeth quando ela saiu voando pela sala, para o lado oposto de sua varinha, por alguns metros, antes que ela, por fim, o soltasse em frente ao elevador, pouco antes de se chocar com a parte de cima da mesa, caindo do outro lado, levando consigo papéis e vidros de tinta que se quebraram, manchando o chão e o conjunto cor de rosa dela de preto. Draco observou o espetáculo de Elizabeth voando pela sala arrastando tudo pela frente por um instante, antes de se virar e sair correndo em direção a porta da presidência. Tentou a maçaneta, mas a porta estava trancada. Atrás de si, Elizabeth ainda se esforçava para se levantar depois de ter sido atirada contra a parede. Então, levantou os olhos para a porta, e encontrou o que procurava, aquela placa que da primeira vez que estivera ali não deu atenção, aquela placa dourada, com o nome do presidente da empresa em baixo relevo.
"Harry James Potter
Presidente"
Um ódio sem medida se apoderou do corpo de Draco, enquanto ele juntava as peças daquele quebra-cabeça. A voz de Harry ecoava em sua cabeça, lhe contando sobre as procurações, lhe dizendo que, se ele morresse, Elizabeth seria a dona de tudo. Milionária do dia para a noite. Tudo estava claro para Draco. Elizabeth queria um crime que parecesse um acidente porque, se fosse de outra forma, se fosse um assassinato óbvio, com certeza, as desconfianças recairiam sobre ela. Agora, se fosse um acidente, quem pensaria na quase idosa secretária do próprio morto? Uma secretária que ele tinha como segunda mãe? Ninguém. Mesmo que ela herdasse todo aquele império, tudo tinha uma justificativa criada pelo próprio Harry Potter que Auror nenhum conseguiria quebrar. Um segundo Draco passou parado onde estava, remoendo seu ódio, antes de se virar e berrar:
– Serpenccia!
Elizabeth, que mal tinha acabado de se levantar e ainda estava tonta, com a mesma violência que foi, voltou. Os sapatos por pouco não rasgando o tapete, parando a poucos milímetros de Draco, bufando quando a varinha deste foi encostada em sua barriga com força, fazendo-a perder o ar. Draco segurou seu rosto com força, enterrando a ponta dos dedos na pele de Elizabeth, observando-a por um instante. A tão imponente secretária agora parecia tão menos poderosa... Os cabelos estavam todos fora do coque que ela costumeiramente usava, colados em seu rosto. O conjunto cor de rosa manchado de preto. A respiração ofegante. Mesmo naquela desvantagem, com uma varinha apontada para si, indefesa, ainda assim, ela não perdia a expressão superiora. Olhava para Draco com desprezo, como se o desafiasse a fazer algo.
– Sua vagabunda – disse Draco num sussurro, enfiando os dedos no rosto de Elizabeth com mais intensidade. – Agora eu sei para que você quer que eu o mate. Cretina. E ainda usa o dinheiro da empresa dele! – disse a última palavra num berro.
– Que importa? – respondeu ela desafiadora. – Eu te paguei. Importa com o dinheiro de quem? Importa quem você vai matar? Eu te paguei para isso, e você não tem que questionar. Garanto que você matou pessoas por motivos muito menos justificáveis do que aqueles que eu tive para mandar você matá-lo.
– Nenhum dos meus outros clientes foi tão baixo quanto você. Ninguém se passou por grande amigo, ou por mãe, como ele me disse que você era para ele, para depois apunhalar.
Elizabeth riu cinicamente.
– Não seja melodramático, Malfoy. Não foi esse Draco Malfoy que eu conheci aqui na minha sala há alguns meses. O que aconteceu com você? Resolveu se importar mais com valores do que com os seus interesses? Resolveu virar defensor da moral e dos bons costumes? Virou Grifinório? Ou melhor, caiu nas garras de Harry Potter, bem como tantos outros que ele usou de edredom enquanto eram interessantes, e depois jogou fora, quando a diversão acabou?
– Quem você pensa que é para falar alguma coisa de Harry?
– Alguém que conhece ele melhor do que você. Não é porque você divide a cama com ele que você o conhece melhor do que eu. Nos últimos anos, quem esteve com ele noite e dia fui eu, e não você. Harry Potter mudou, Malfoy. Ele ainda vai te surpreender, mesmo depois que você for embora daqui se achando o herói do dia porque apontou essa varinha para mim e enfiou os dedos na minha cara – e riu novamente, fazendo uma leve rajada de ar atingir o rosto de Draco, despertando novamente o ódio dele, que respirou fundo por um instante, antes de dizer:
– Relaxo! – Elizabeth caiu com um grito, como uma pedra, logo a seus pés. Draco chutou-a, enquanto ela soluçava de dor, com os braços em torno da barriga. Ele esperou, observando-a no chão. Quando ela finalmente parou de soluçar, e se deitou de braços abertos e olhos fechados, ele se ajoelhou ao lado dela e disse:
– Como deve ser uma futura milionária morta?
– Melhor do que ser um atual milionário futuramente sem alma – respondeu ela num sussurro, sem abrir os olhos. Draco chutou-a com força novamente ao que ela respondeu com um gemido.
– Você é realmente patética. Iria matá-lo para ficar milionária, e pretendia que eu nunca descobrisse.
– Sabe, Malfoy, o que era Harry Potter pra mim, além de um amigo incômodo, daqueles que você pede para se livrar? – e riu novamente. – Eu sinceramente acho que Harry não ia se incomodar muito em morrer. Mas, que tal você me escutar um...
– Cala a boca! – berrou Draco lhe desferindo vários chutes, o que a fez parar de falar instantaneamente, e começar a tossir virada para o lado. – Cala a boca, sua vagabunda – disse Draco sibilando a frase. – Chega! Cansei de ouvir a sua voz nauseante. E para não ter que ouvi-la nunca mais, vou fazer o que quero fazer desde que te conheci. Acho que vai ser o assassinato mais prazeroso de minha vida.
– Mate-me, Malfoy. Mate-me. Sua alma já pertence a um dementador, mesmo. O que é uma morte a...
– Sectusempra! – como se uma espada invisível atingisse Elizabeth, seu sangue espirrou pela sala, tingindo as paredes com borrifos de sangue. Elizabeth parou com a boca aberta, os olhos arregalados, sem respirar. Por duas vezes fez um som estranho com a boca, como que procurando um ar que não vinha. Antes de, por fim, conseguir respirar, prolongando uma morte certa. Draco se abaixou perto dela, assistindo o sangue começar a escorrer, tingindo o carpete de vermelho. Encostou a boca no ouvido de Elizabeth, e disse num sussurro – Pessoas como eu e você, Elizabeth, não temos o luxo de morrer piedosamente por um Avada Kedavra. Pessoas como nós, Elizabeth, morrem sofrendo. Sabe, ver alguém morrer não é algo agradável, mas, no seu caso, é um espetáculo valoroso – Elizabeth fez novamente aquele barulho de quem perdeu o ar, e começa a buscá-lo, antes de soltar um suspiro aliviado. – Dói, né? Eu sei. Eu sei. Eu poderia fazer doer mais. Mas acho que ver você agonizando já é o suficiente. Pena que eu não posso ficar aqui assistindo. Tenho coisas mais importantes para fazer.
Elizabeth se mexeu, estendendo a mão fracamente, apontando para uma câmera, como que num último gesto de triunfo.
– Não, não. Não é dessa vez que você vai sair vencendo. Eu cuidei delas muito antes de chegar na sua sala. Você vai morrer, sim, mas com o gosto amargo da derrota na boca.
Draco entrou no elevador, apertou o botão para descer, e um segundo antes que a porta se fechasse, deu um tchauzinho cínico para Elizabeth, deitada no chão com uma expressão perdida no rosto. Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto da secretária, antes que ela fechasse os olhos por fim, para nunca mais abri-los.
