Capítulo 10

No Domingo de manhã Emma Portman foi a casa de Melbourne.

- Bom dia William!

- Bom dia Emma! Sente-se!

Sentaram-se ambos.

- Desculpe, talvez seja cedo de mais para vir a sua casa. Mas eu quase nem dormi esta noite e tinha de falar convosco fora do palácio, antes que você voltasse lá...

- O que se passa? – Ele perguntou preocupado, questionando-se se alguma coisa teria acontecido com Victoria.

- Deixe-me dizer-lhe que ontem me provocou um grande susto!

Ah, então é isso! – Ele pensou.

- Eu já pedi desculpa.

- E eu já aceitei as suas desculpas. O que me preocupa agora já não é o atraso da rainha e a minha aflição por causa dele, mas a causa do atraso…

William colocou os olhos no chão.

- Eu senti a forma como entraram os dois naquela sala ontem à noite. – Confessou ela.

- Agradeço o seu cuidado, Emma. Sei que se preocupa verdadeiramente comigo e com a rainha, mas ontem as coisas…

Ele pensou no que ia dizer a seguir.

- Modificaram-se, de certa forma, entre nós… - Concluiu.

Emma olhou para ele com um ar sério e interrogativo.

- Calculo que sim, mas modificaram-se como? Declarou abertamente o seu amor por ela?

Ele olhou para Emma surpreendido.

- O meu amor?

- Oh, William, você acha que engana quem com esse ar de quem está perdidamente apaixonado pela rainha e tentando desesperadamente disfarçar esse sentimento? A generalidade das pessoas pode até nem perceber isso desta forma, mas eu conheço-vos muito bem! Desde que Albert chegou cada vez que a rainha se aproximava dele você quase se desmoronava…E de lá para cá…

- Sabe que ela já se tinha antecipado e já tinha feito isso há meses? Da outra vez que você lhe emprestou a sua carruagem para ela ir a Brocket Hall.

- Eu sabia que algo tinha acontecido lá, pois no regresso ela estava de rastos e muito chorosa, mas chegou mesmo ao ponto de se declarar explicitamente?

- Praticamente…

- E como é que você reagiu a isso?

- Eu? Se ela estava de rastos o que você acha? Eu fui um tolo e disse-lhe que não podia corresponder ao que ela sentia por causa da memória da minha mulher.

- Agora tudo se encaixa. Uma vez ela manifestou, desagradada, que você só se preocupava com a memória da sua mulher. Mas…e ontem? Você acabou por admitir retribuir o sentimento dela?

- Ontem tudo, Emma! Ontem aconteceu tudo…

- Beijaram-se? – Perguntou inquieta.

Ele riu.

- Tudo Emma. Ontem aconteceu tudo o que havia para acontecer entre um homem e uma mulher que se amam.

O coração de Emma saltou do peito com o medo do resultado do que ele acabava de admitir. Engoliu.

- William! Você fez da rainha, virgem, sua amante?

- Não, Emma. Ontem, nós, os dois, tornamo-nos um só. O mundo poderá designar isso como quiser.

A profundidade do que ele dizia deixou Emma sem forças, a não ser para fazer um ar enternecido.

- E sabe o que é mais estranho? É que eu nem me sinto culpado por isso! Você acredita? – Ele perguntou.

Depois fez um ar de incredulidade e continuou:

- Tanto tempo com medo do que poderia acontecer entre nós, das reações dela, das minhas…Tanto tempo a controlá-la a ela e a mim…Tanto tempo em sofrimento pelo que era impossível…Tantos receios da família dela, do Conselho Privado, do Parlamento, do povo…e no fim…Eu estava convencido que ela tinha de casar e eu mesmo a incentivei a isso…Acha possível? Eu empurrei a mulher que eu amo para casar com outro homem! E ela resistiu a isso! Já viu, Emma, como ela teve coragem de se recusar a casar com outro homem, por mim? Ela recusou um príncipe alemão da idade dela por estar apaixonada por mim! Por mim, Emma, por mim! Ela resistiu à pressão de todos os lados sobre ela, inclusive à minha própria pressão e à minha não retribuição dos sentimentos dela! Você vê como ela é pequena e a força que ela tem? Acha possível que eu possa resistir a uma mulher destas?

Ela ouvia as perguntas dele, mas sabia que não tinha de responder. Ele apenas precisava de verbalizar as questões que já lhe haviam passado tanta vez pelo cérebro e de as fazer ecoar no ar, como se ouvi-las de volta tornasse os factos mais reais.

- Você sempre foi atraído por mulheres impulsivas e obstinadas, cada uma à sua maneira… - Ela acabou por dizer.

- Eu precisava dela, Emma. Depois de tudo o que aconteceu na minha vida…Precisava de sentir que ainda estava vivo, compreende? E agora eu sinto que estou vivo! E eu só quero viver com ela e para ela o tempo todo que for possível!

- Estou encantada William, a ouvi-lo falar assim…

- Ontem eu não podia repetir o mesmo erro da outra vez. Ontem eu não podia deixá-la vir embora…Já não tenho medo de escândalos! Sabe? O medo que sentia antes transformou-se em força para defender o que sinto por ela e para a defender a ela até às últimas consequências! Sabe o que ela me disse? Que nunca me deixará...

Emma sabia o impacto que tal promessa tinha na vida dele. Quando ele disse aquilo sentiu as lágrimas aflorarem-lhe nos olhos e constatou que elas também existiam nos dele.

- Mas o que vão fazer a seguir? – Perguntou Emma preocupada.

- Sinceramente? Não sei! Acha possível? Eu, numa situação destas? Vou falar com ela mais logo…Veremos.

- William, eu não posso dizer que não tenho medo por vós, porque tenho, porque gosto muito de ambos e não vejo como a vossa vida possa ser fácil daqui para a frente. Mas uma coisa posso garantir: eu irei ajudar-vos sempre que precisem!

Ele pegou nas mãos dela e disse:

- Obrigado, Emma!

Depois que Emma saiu Melbourne já sabia o que o tinha impulsionado para agarrar Victoria antes que ela saísse de Brocket Hall. Porque é que o cérebro se submetera ao coração e a vontade da mente se submetera à vontade do corpo. O desejo fora maior do que o medo! E o medo, naquele momento, já não era de escândalos, mas de perdê-la para sempre.

A seguir ao almoço Melbourne foi ao palácio.

Victoria vestira o seu vestido rosa claro. O vestido do pedido de casamento que não acontecera, felizmente! Era muito bonito e se não tinha servido para Albert era magnífico para William! E enfeitara o cabelo com as gardénias que trouxera de Brocket Hall na noite anterior. As flores da primeira vez…

Estava no jardim junto de um pavilhão e fazia-se acompanhar por Emma e Harriet. O dia estava solarengo e ouviam-se os pássaros no jardim e uns sinos ao longe.

Viu-o à distância caminhando na direção dela e o seu coração disparou.

Olhou para Emma.

Ela percebeu a sua ansiedade, melhor do que a rainha podia imaginar naquele momento.

Quando ele chegou fez uma vénia e disse:

- Majestade! Senhoras!

- Boa tarde, Lord M! O que o trás ao palácio num Domingo? – Ela representava para dar credibilidade à presença dele ali.

Ele reparou nas gardénias no cabelo dela e disse:

- Oh, há um assunto urgente sobre o qual é imprescindível falar com Vossa Majestade.

Ele olhou para Emma.

Emma percebeu e disse a Harriet:

- Venha, vamos passear pelo jardim enquanto Sua Majestade trata de assuntos de Estado com Lord Melbourne.

Harriet compreendeu a real necessidade de se afastarem e agiu em conformidade.

Instintivamente entraram os dois no pavilhão. Ambos necessitavam de ficar a sós e invisíveis.

Ela rodou para um canto onde não podiam ser vistos e encostou-se à parede.

Abraçaram-se e beijaram-se.

Tê-la ali, comprimida entre ele e a parede, era de endoidecer! E no pavilhão do jardim, às escondidas!

A respiração ofegante de ambos.

- William! – Disse ela baixinho, com as mãos no peito dele enquanto ele lhe envolvia as costas com os braços.

- Senh…,Victoria!

Ela respirou fundo, com a testa encostada ao queixo dele.

Agora já não eram só a rainha e o primeiro-ministro…

- Estava aqui ansiosa para que chegasse! Tive tantas saudades…- Disse ela.

- Eu sei…Eu também estava louco de desejo de vos ver!

Beijaram-se de novo.

- Você está bem? – Perguntou ele tentando acalmar a respiração.

- Claro que sim! Eu não sou uma boneca de porcelana, William! Sou uma mulher de carne e osso!

- Eu sei que você é uma mulher…eu sei…mas eu poderia dizer que você é feita da mais fina porcelana! – Ele afirmou com os olhos semicerrados.

- Mas porque é que eu poderia não estar bem? Eu estou melhor do que nunca em toda a minha existência!

- Às vezes eu fico um pouco preocupado com a sucessão das coisas na sua vida…

- Como o quê? – Ela perguntou curiosa.

- Você teve de se tornar rainha muito depressa… E agora tornou-se mulher ainda mais depressa …

- Oh, eu sempre aprendi rápido…você sabe…

- Sim, eu sei…Mas acho que não lhe dei muito tempo para ir descobrindo a progressão de uma relação entre um homem e uma mulher…Teve as sensações todas de uma vez…

- Oh, William, depois de tantos anos à espera…Foi o melhor que você me poderia ter feito e o melhor que me podia ter acontecido! Você acha que controla tudo não é? Eu é que não lhe dei tempo para me ensinar essa gradação, eu é que não quis levar esse tempo todo. Porque é que você acha que uma mulher vai sozinha à casa de um homem? Sobretudo uma rainha!

Ele estava surpreendido com o que ela dizia.

- Você foi lá com a intenção de…

- Não propriamente. A intenção, como você diz, existia em mim quase desde que eu vos conheci, embora eu não soubesse que intenção era essa…Mas havia algo mais para acontecer entre nós que eu desejava, pois havia em vós um encantamento que me atraía. Ontem eu fui lá porque eu precisava desesperadamente de qualquer coisa que você me pudesse dar para eu poder respirar. Nem que fosse apenas a vossa presença silenciosa. Mas essa intenção estava lá também, aquela força que me puxava e que me fazia ir a Brocket Hall sem pensar nas convenções, nos perigos, embora eu não pudesse prever o que aconteceria, de facto, depois…

- Compreendo.

Ela continuou:

- E há aquela famosa citação de Shakespeare, que você tanto gosta de invocar: "Há uma onda nos assuntos dos homens, que transformada em enchente leva à fortuna. Mas amortecida, a viagem de sua vida encalha em baixios e misérias…"

Ele acompanhou-a e os dois terminaram a citação, como quem recita uma oração:

- "Nesse imenso mar estamos à deriva. E precisamos de saber aproveitar a corrente ou perder as aventuras diante de nós."

Ele sorriu.

- De facto…Mas você foi muito corajosa ontem. Ir a Brocket Hall, dizer o que você disse e… fazer o que você fez… - Disse num tom baixo, de forma arrastada, olhando para ela com as pálpebras meio fechadas. O desejo expresso no rosto, mas em contenção.

- A coragem é você que me dá e o amor que eu sinto por si e que sei que também sente por mim.

- Assim como também já tinha sido muito corajosa quando lá foi da outra vez. Ir lá, declarar-se, assim, abertamente…E a sua insistência, por duas vezes, contrariando o que eu lhe dizia…Insistindo que eu já tinha o seu coração e dizendo que, no lugar da minha falecida mulher, nunca me abandonaria…

- Se você me tivesse mandado embora outra vez ontem, depois do que eu lhe pedi… eu teria morrido…

- E eu também... Mas julgo que você acabou por perceber porque é que, naquele dia, eu não podia retribuir o seu amor...

- Sim, depois eu compreendi. Você só não podia corresponder por uma questão de dever. Foi isso que interpretei das suas palavras no baile de máscaras. Às vezes eu tinha dúvidas se a minha interpretação era correta, mas depois achava que sim. Todavia, se isso, por um lado, era mais confortante, por outro, era ainda mais angustiante. Era bom saber que era correspondida, mas era frustrante que, sendo correspondida, esse sentimento não pudesse ser concretizado.

- Você não imagina o que isso me custou! – Ele exclamou.

- E eu fiquei destroçada…

- Mas também tenho a certeza que nas últimas horas, enquanto esteve sozinha, pensou no que acabou por se passar ontem em Brocket Hall… - Continuou ele.

- Claro que sim. Como poderia não pensar? Foi o dia mais feliz da minha vida!

Ele sorriu, suspirou e perguntou:

- E o que é que você pensou?

- Há uma pergunta que eu preciso de lhe fazer… - Ela interpôs.

- Todas as que quiser, Senh…Victoria!

Ela olhou-o nos olhos, sorriu e perguntou determinada:

- William, meu amor, você quer casar comigo?

A pergunta caiu dentro do peito dele como uma pedra num lago provocando ondas circulares…Era verdade o que tinha acontecido na véspera e era verdade que uma das hipóteses de vida para duas pessoas que se amavam era o casamento, sobretudo depois de terem feito o que eles tinham feito. Também era verdade que a partir de agora alguma alternativa tinha de ser encontrada para as suas vidas que estava para além de uma relação política entre a rainha e o primeiro-ministro. Mas ele nunca poderia imaginar que a rainha o pudesse pedir em casamento, assim…É claro que se ela o amava isso era uma consequência natural…E era verdade que já uma outra vez ela lhe fizera praticamente um pedido de casamento, em Brocket Hall. Todavia, neste momento, o pedido caía nele provocando um sobressalto… Agora era diferente, era verbalizado com todas as letras e era formal. Pedido em casamento numa altura destas da vida! Quando não havia mais esperança. E pela rainha! E ela sabia que isso não era possível, não era concretizável…E isso era angustiante! Quer a impossibilidade disso, quer ter de lutar por isso contra o mundo inteiro! Mas ele tinha de responder. E tinha de dizer a verdade. Por ela e por ele.

Sorriu.

Pegou nas mãos dela delicadamente, como fizera em Brocket Hall junto das gralhas.

Olhou nos olhos dela e respondeu:

- Claro que eu quero! Isso é o que eu mais quero na minha vida! O que eu me esforcei por não desejar durante anos!

Ela sorriu de imensa felicidade.

Abraçaram-se e beijaram-se de novo.

Então, com as lágrimas aflorando-lhe nos olhos, ele acrescentou:

- Mas você sabe que isso é impossível. Nós não podemos…Você só pode casar com alguém de uma família real e eu não sou um príncipe…

O alerta dele fez o peito dela apertar.

- Com certeza há de haver uma maneira, William! – Ela disse com algum desespero na voz. – Você que conhece tão bem as leis, poderá tentar descobrir uma forma…

Ainda que não acreditasse muito nisso, para a tranquilizar ele disse:

- Com certeza, Victoria, eu irei estudar esta questão minuciosamente!

- Quando eu tinha 18 anos escrevi no meu diário que só me casaria com um homem que adorasse e esse homem é você!

Ele sorriu.

Ela continuou:

- E um dia eu disse-vos que não iria casar só para vos satisfazer e você respondeu que não, que eu devia satisfazer a mim mesma. Então é isso que estou a querer fazer, o único casamento que me satisfaz… E a você também…

- Claro que me satisfaz, mais do que qualquer outra coisa, mas…

- Mas o quê, William?

- Eu não quero que o meu amor vos prejudique…- Ele disse com a voz embargada apertando-a mais contra si.

Ela beijou o queixo dele, o maxilar e o rosto dizendo:

- Oh, William, prejudicial era não vos ter! O melhor para mim é você! Eu amo-vos! É impensável não vos poder ter junto de mim todos os dias!

Ele beijou o rosto dela e disse:

- Eu sei meu amor! Eu também vos amo loucamente e não posso ficar longe de vós! Não agora…

- Mesmo que queiram impedir o nosso casamento, nós já acasalámos para a vida, não foi William? – Ela perguntou, expectante.

Ele notou a metáfora usada e respondeu:

- Sim, claro…

Beijaram-se.

Recompuseram-se e saíram para andar pelo jardim.

Ela tinha vontade de lhe dar o braço ou de lhe dar a mão, mas não podia!

Viram Emma e Harriet ao longe.

- Estão ali as suas damas. Devia ir ter com elas e eu devo ir-me embora. – Disse William.

- Deixe-as estar…- Respondeu Victoria enquanto caminhava para trás do tronco de uma árvore para que não a vissem.

Ele caminhou até ela.

- Não se vá embora ainda, William! – Disse encostada ao tronco da árvore.

- Eu tenho de ir. Não devemos levantar suspeitas…

Levantou a mão direita dela e beijou-a. Não se podia despedir dela de outra forma uma vez que estavam expostos no jardim.

Ela compreendeu e sorriu.

Caminharam juntos até ao local onde estavam as damas. Ela ficou em sua companhia e ele foi embora.

Victoria sentiu um vazio dentro de si! O vazio que ficava sempre que ele saía! Um vazio que só era preenchido quando ele estava na presença dela! Ele via-a como mulher. Primeiro como mulher e só depois como rainha. E essa era a essência dela. Ser mulher. E ele tinha sido o único a considerá-la assim. E tinha sido assim desde que se tinham conhecido. Todos os outros a viam como se não houvesse nela, primeiro do que tudo, um ser humano igual a qualquer outro.

A rainha estava na sala verde com Emma. As duas sozinhas.

- Senhora…

- Sim?

- Peço desculpa do que vou dizer, mas acho que é melhor comunicar-lhe um assunto pois pode ser-vos útil…

- O que se passa? – Perguntou a Victoria intrigada.

- Eu sei qual é a natureza da vossa relação com o primeiro-ministro… – Naquele momento não achou correto tratá-lo por William, pareceu-lhe demasiado familiar trata-lo assim perante a "mulher" dele.

A rainha olhou para ela meio apreensiva.

- Não precisa de se preocupar, Senhora. Eu não direi nada a ninguém e estou disposta a ajudar-vos em tudo o que for necessário para encobrir este assunto.

- Como é que você sabe?

- Bem, Senhora, não é difícil… Eu sempre tenho observado a adoração que Vossa Majestade tem por Lord Melbourne…e ele por si. O empréstimo da minha carruagem só podia ter um propósito…E o que aconteceu ontem foi muito evidente. A vossa demora e o contentamento com que chegaram aqui… Eu fiquei muito preocupada com essa possibilidade e hoje de manhã fui a casa de William (acabou por dizer) e ele acabou por confirmar o que aconteceu…

Victoria sentiu-se incomodada com a divulgação do facto. Colocou os olhos no chão.

- Não precisa de ficar constrangida, Senhora. Eu compreendo o que se passa entre vós.

Ela voltou a levantar os olhos para Emma, sorriu e disse com ar de gratidão:

- Obrigada Emma!

Segunda-feira de manhã ele voltou no ritmo diário do costume.

Entrou nos aposentos dela pela sala verde procurando-a com os olhos, enquanto um lacaio fechava a porta atrás de si. Victoria estava junto à lareira, sentada numa cadeira, com um dos volumes de Commentaries on the Laws of England na mão.

Dash dormia sobre outra cadeira.

Assim que o viu entrar, ela largou o livro na mesa de apoio, levantou-se e correu para ele, descendo os degraus que a separavam do espaço por onde ele entrava, sorrindo abertamente. Ele retribuiu o sorriso, amparou o impacto do corpo dela no seu, abraçaram-se e beijaram-se intensamente.

Ela virou-se de costas para ele, com o corpo pressionado contra o dele.

Ele colocou os braços à volta da cintura dela e ela agarrou as mãos dele.

Ele beijou-a no pescoço, do lado direito.

Ela fechou os olhos e disse:

- Adoro quando você me agarra assim, pelas costas, e adoro que me beije no pescoço!

- Eu posso beijar o vosso corpo todo, sempre que você quiser!

Victoria riu, colocou a mão direita no rosto dele, fez-lhe uma festa na pele macia e depois voltou-se para olhar para ele de frente. Agarrou-lhe os virados do casaco, esticou-se e beijou-lhe a boca. Meteu as mãos entre o casaco e o colete, envolveu-lhe as costas e apertou o corpo dele contra o seu.

Melbourne retribuiu, mas advertiu:

- Victoria, eu adoraria ficar aqui sendo o alvo de toda essa sua ternura, mas acho que não é prudente que continuemos mais tempo nestas circunstâncias…

- Você tem razão. – Ela concordou, suspirando e afastando-se dele. - Sente-se.

Sentaram-se, cada um numa cadeira, de frente um para o outro, em frente da grande janela da sala verde por onde entrava o sol que inundava a sala.

Ele ficou a olhar para ela.

Ela ficou a olhar para ele.

Ambos sabiam o que tinha de ser dito a seguir.

Nenhum dos dois queria ser o primeiro a começar, quebrando o quase encantamento dos últimos dois dias.

Ele começou:

- Bem, acho que temos uma questão de extrema importância para tratar... Pela Inglaterra e pelas nossas vidas.

Ela debruçou-se para a frente, agarrou as mãos dele com as suas e disse:

- A única coisa que eu quero é casar convosco e esta é a única hipótese que eu admito que se venha a concretizar. A partir de agora está completamente fora de questão casar com qualquer outra pessoa que não com você, William.

- Esse seu desejo deixa-me radiante, Victoria, mas você sabe, tão bem quanto eu, que isso é muito difícil, que ninguém irá apoiar essa decisão e que se insistir vão forçá-la a abdicar. E eu não quero que você abdique e você também não.

- E qual seria a alternativa? Sermos amantes? Como Elisabeth e Robert Dudley? - Victoria perguntou sorrindo.

William retribuiu o sorriso e respondeu:

- Todas as rainhas precisam de um companheiro, se não houver um marido, tem de haver outra pessoa. Mas a condição de amantes não é uma boa opção para ninguém, muito menos para nós dois, por tudo o que isso acarreta…

Ela continuou:

- Por mim, desde que eu possa ter-vos a meu lado, é igualmente maravilhoso, mas teríamos de viver escondidos, sem nos podermos mostrar ao mundo, sempre com medo que alguém descobrisse…

- Mas insistir num casamento oficial comigo vai originar uma batalha para a qual eu não consigo prever o resultado neste momento, a não ser o fracasso…

- Pelo menos temos de tentar.

- Victoria, eu gostaria de ter uma solução para a nossa situação de vida atual, mas eu não a tenho. Devia tê-la! Devia ter pensado nela antes de…

- Não! Você não tem de ter soluções. A solução tem de ser encontrada por nós dois porque eu sou tão, ou mais, responsável por esta situação do que você. – Ela afirmou, perentória.

- É frustrante que as duas hipóteses consideradas sejam as duas negativas: o casamento não será autorizado sem uma abdicação forçada e uma relação ilícita comporta imensos perigos. – Ele concluiu.

- Espero que dentro de algum tempo nós tenhamos encontrado uma via possível… É preciso estudar as leis sobre o casamento, descobrir precedentes em Inglaterra, exemplos noutras monarquias… Entretanto podemos ser apenas Elisabeth e Leicester. Seremos apenas companheiros… - Victoria sugeriu.

Ele sorriu.

Ela levantou-se da cadeira, ajoelhou-se no chão e deitou a cabeça no colo dele. Ele colocou a mão esquerda sobre a cabeça dela. Ela agarrou a mão direita dele e beijou-a.

- Victoria! – Disse ele rindo. – Tenho a rainha de Inglaterra ajoelhada aos meus pés!

Ela sorriu, mas manteve-se na mesma posição.

Passado um instante, William introduziu uma questão crucial que o preocupava.

- Meu amor…Você tem noção que, por causa do que aconteceu entre nós, você pode ficar à espera de um bebé?

- Sim, eu sei… Mas foi só uma vez…

Ele suspirou de forma compreensiva e continuou:

- Bem, Victoria, não é assim tão simples… Mesmo tendo acontecido apenas uma vez pode acontecer…

Ela ergueu a cabeça do colo dele, fez uma expressão assustada e colocou-se de pé, virando-lhe as costas e afastando-se alguns passos. Lembrou-se de Flora Hastings.

Ele levantou-se também e aproximou-se dela.

- Mas também pode não estar. – Tentou serená-la.

William passou para a frente dela e fê-la olhar para ele, levantando o queixo dela suavemente e agarrando-a depois nos ombros com ambas as mãos.

- Se as suas regras vierem como sempre este mês você não está grávida. Só estará provavelmente grávida se elas não aparecerem…

- E se estiver?

- Se estiver vamos atuar em conformidade. Você mesma disse que quer casar comigo, não é? Eu nunca vos deixarei e se existir um bebé ele terá um pai…

Abraçaram-se. Ela encostou a face esquerda no peito dele.

- Mas, como você disse há pouco, não é provável que o casamento seja aprovado… - Ela observou, agora já apreensiva.

- Mas foi você mesma que disse que temos de encontrar uma hipótese para que essa aprovação exista…Não vai desistir de lutar agora… - Advertiu ele cujo discurso, anteriormente descrente, se inverteu para a tentar tranquilizar.

- Não, não vou!

- Tudo depende do que o Conselho Privado, o Parlamento e a Inglaterra exigirem de nós… - Ele constatou.

- Em último caso eu posso ter de abdicar…

- Mas nós não queremos isso e vamos fazer tudo para que isso não aconteça! – William exclamou.

- Eu não quero abdicar, mas, se não houver outra alternativa…

- Acha que eu valho a pena o risco? – Ele perguntou olhando seriamente para ela.

- Claro que sim, William! Eu posso ter de abdicar como rainha, mas eu não abdico de si. Não escolhi ser rainha, mas escolhi-vos. Eu quero ser rainha de Inglaterra, mas quero você também e não consigo conceber uma coisa sem a outra. Não vos posso perder! Nem a vós nem …a um fruto do nosso amor…

Dito assim Melbourne sentiu um baque no peito.

Apertou-a contra si novamente.

- Um filho… Um filho vosso… Meu e vosso… Isso era algo que me deixaria muito feliz! – Disse emocionado.

Ela afastou-se de novo para olhar para ele.

Ele terminou:

- Só as eventuais consequências políticas me deixam apreensivo…Mas vamos esperar, pode não acontecer nada… E se acontecer teremos de encontrar uma solução.

Beijaram-se.