10. Soneca
Ploc.
Era o barulho que fazia quando aparatava. Deu uma olhadinha ao redor e sorriu. O apartamento estava bem diferente da primeira vez que o vira. As paredes estavam pintadas de verde claro e os móveis devidamente colocados em seus lugares. Só não havia nenhum sinal dos garotos.
"Draco? Zabini?"
Silêncio.
Gina foi tirando o casaco e pendurando no mancebo junto com sua bolsa. Prendeu os cabelos num coque mal feito e foi caminhando pelo apartamento livremente, como se o fizesse sempre. Pegou a varinha e foi levitando as coisas que estavam fora do lugar. Camisetas voaram para os quartos e se acomodaram no armário. Objetos, revistas, tudo foi se ajeitando conforme ela caminhava e sacudia a varinha, um pouco desinteressada.
Viu a pia cheia de louças e girou os olhos. Enfeitiçou a bucha e o detergente e a louça começou a se lavar sozinha.
Ser filha de Molly Weasley tinha lá suas vantagens. Como tinha muitos filhos pra cuidar e muitas tarefas domésticas pra fazer, a Sra. Weasley vivia enfeitiçando móveis para fazerem funções dignas de 'Fantasia', da Disney. Até vassouras varriam sozinhas e Gina, quando criança, achava aquilo tudo muito engraçado. Atualmente era muito útil.
Sempre que conseguia, assim que terminava o dia na Gemialidades, Gina aparatava para o apartamento. Nos primeiros dias, estava ajudando os garotos a organizar tudo e pensar em boas posições para móveis e pintura. Era bem complicado quando alguma gota de tinta caia em suas roupas e, ao chegar em casa, tinha que inventar desculpas bem estranhas.
Especialmente quando não notava antes.
Gina foi para o quarto do namorado, e deu uma olhadinha.
Draco não era do tipo bagunceiro. Suas coisas viviam sempre no lugar, ao menos dentro do quarto. Mais de noventa por cento da bagunça da casa era culpa de Zabini.
A Weasley se sentou na cama fofa do namorado e descalçou suas sapatilhas, deixando num cantinho do quarto. Abandonou sua varinha na cabeceira da cama, sem muito cuidado e suspirou baixinho, deitando-se de costas no colchão. Faltavam dois dias pra fazer oito meses que saia com Draco e estava começando a ficar preocupada.
Em oito meses ele ainda não tinha dito a ela nenhuma vez que a amava.
Talvez por que não soubesse como dizer, ou se ela não ia ficar desesperada se ouvisse. Gina compreendia perfeitamente bem que ele não vinha da família mais carinhosa do mundo, e por isso era meio... Insensível. Tanto que, por vezes, discutiam pelo simples descuido que ele tinha ao usar as palavras quando falava com ela.
Mas Gina sentia vontade de dizer, e tinha medo de como ele iria reagir quando ela dissesse. Já estavam afinal no finalzinho de maio, e logo no começo de junho era aniversário de Draco. E, Merlin, ela queria dizer antes. Não entendia direito por que sentia tanta necessidade daquilo, mas queria muito.
A Weasley se aninhou mais no travesseiro. Estava tão cansada de passar o dia todo em pé, tentando persuadir pessoas a comprar aquele monte de coisas para aprontar com os outros, que sua cabeça chegava até a doer um pouco. Por isso, fechou os olhos por um tempo, tentando relaxar.
E dormiu.
Em menos de cinco minutos, estava toda largada e dormindo naquela cama que cheirava todinha a Draco Malfoy. Mais uma das coisas que jamais imaginaria fazer e que foi muito, muito boa.
Por estar tão aconchegada, Gina não acordou quando Draco aparatou na sala. Ele se espantou ao ver tudo arrumado e olhou logo para o Macedo. Viu o casaco e a bolsa de Gina e deu um meio sorriso. Foi até a cozinha e viu a louça que se lavava sozinha. Abriu a geladeira e pegou um pouco de suco, enquanto andava pelo apartamento.
Achou estranho não dar de cara com Gina reclamando da bagunça do Zabini, ou enfezada por ele ter chegado depois dela. Deixou o casaco no sofá e foi até o quarto. Quando viu a Weasley toda encolhida em sua cama, dormindo feito uma criança, Draco se lembrou do por que estava aceitando viver desconfiado, com medo de ser seguido por um cabeça de fósforo irritante.
Valia à pena.
Ele caminhou silenciosamente até a cama e engatinhou até ficar bem ajeitado atrás de Gina. Passou devagar um dos braços sobre a cintura dela e trouxe um pouquinho pra perto do corpo, respirando perto de seus cabelos e sentindo o aroma que emanava dos fios rubros.
Era a primeira vez que via Gina tão calma.
Ele nunca havia sequer convidado-a para fazer algo do tipo "ficar deitadinhos juntos" por que Gina era muito, muito nervosa e podia dar um murro nele, se falasse. Mesmo sem ter a menor ponta de maldade nisso. Então, vê-la num sono tão profundo, foi uma oportunidade irresistível de ficar quietinho e aconchegado a ela.
E Gina tinha um cheirinho tão bom...
Ela era quentinha, ao contrário dele, que costumava ser meio gelado. Ficar abraçado com ela era quase como abraçar uma cobertinha vermelha. Ele suspirou baixinho e apertou um pouquinho mais a ruiva em seus braços. Teve medo que ela despertasse, mas como não fez nenhum movimento...
Na certa, quando acordasse, Gina ia gritar, xingar, esbravejar e dizer que ele estava se aproveitando dela. E ia mandá-lo pro inferno. Mesmo sem ele ter feito absolutamente nada.
Não que eles brigassem todos os dias, mas é que não era muito difícil Gina interpretar errado suas ações. Draco não sabia se expressar direito e ela sempre acabava levando tudo da pior maneira e na pior hipótese possível, levando tudo á níveis catastróficos.
E levava tanto tempo para conseguir convencê-la do contrário, de que ele não havia dito por mal e que não precisava de tudo aquilo...
Ficou mexendo devagar nos cabelos dela, enrolando aos pouquinhos entre seus dedos. Virou-se um pouco na cama logo em seguida, tateando na cabeceira da cama em busca da varinha da ruiva. Quando a alcançou, girou-a suavemente e o cobertor que ficava dentro do armário flutuou até eles.
Draco se ajeitou debaixo do cobertor, cobrindo Gina também. Girou mais uma vez a varinha dela, fazendo as luzes se apagarem e abandonou novamente onde a ruiva havia deixado. Passou novamente o braço pela cintura dela, puxando-a para perto dele, soltando um suspiro baixinho.
Então, aproveitou um daqueles poucos momentos em que Gina ficava de boca fechada e sussurrou bem baixinho algo que não conseguia dizer pra ela quando acordada. Especialmente se ela o estivesse encarando com aqueles olhos castanhos tão nervosinhos e cheios de expectativas que ele temia desapontar.
"Eu te amo, Virgínia."
E logo adormeceu embriagado no perfume dela, afrouxando um pouco o braço que estava em volta da cintura da ruiva, deixando sua respiração bater entre os fios dela.
O que Draco não sabia, é que no momento em que ele subira na cama e a fizera balançar, Gina acordou e ficou em silêncio só pra ver o que ele ia fazer.
E agora, quase escondida no travesseiro, estava uma Gina de olhos fechados, bochechas vermelhas e um sorriso quase de orelha a orelha.
Finalmente, ele disse.
