Capítulo 9 – Pedaços de alma
O ferimento incomodava seus músculos duros na região da perfuração, mas era o silêncio que estava deixando Draco quase louco. A pequena fresta que funcionava como janela do cômodo revelava que já era noite e Weasley dormia calmamente próxima a ele. Alguém em seu lugar com certeza estaria tentando descansar ao máximo, mas simplesmente não tinha sono.
Não havia sons de animais, não havia barulho de vento. Nada exceto a respiração suave dela, que o irritava por nenhum motivo em particular. Sentia-se nu e desprotegido sem sua varinha e seu instinto o alertava para o perigo que Grindelwald representava. Tudo o impelia a se levantar e agir, exceto o estomago perfurado. E Weasley, claro, que o tratava como um cachorrinho machucado.
Virou o rosto para encará-la na escuridão; o fato de ela conseguia dormir tão profundamente numa cadeira desconfortável enquanto ele sofria para fechar os olhos numa cama, o irritava mais ainda. Tinha perdido todo o controle, não é mesmo? Arriscado demais por nenhum motivo aparente. E agora estava dependendo de Weasley, mesmo que por pouco tempo. Desviou o olhar para sua frente, fitando a parede de pedra sem adorno algum. E de repente, quando piscou os olhos, uma figura envolta em sombras apareceu à frente da cama. Sabia de imediato de que se tratava de Grindelwald, não havia mais ninguém vivendo ali.
- Você sobreviveu. Hmm.
- Parece decepcionado.
- Oh sim. Muito.
A face do bruxo velho se iluminou, segurava uma varinha. E pior, era a varinha de Draco. Fechou o punho, apertando fortemente entre os dedos o lençol que o cobria parcialmente. Não tinha dúvidas de que as intenções do outro homem não eram boas. Grindelwald virou o rosto para a direção de Weasley, revelando as rugas e manchas que assolavam sua pele. Era como uma versão desagradável e mal alimentada de Dumbledore, tirando o cabelo enrolado e a expressão maliciosa.
- Ela, eu entendo. Branco e preto. Esperança. Tolice suficiente para mantê-lo vivo.
Draco não respondeu. O velho voltou a fitá-lo diretamente.
- Já você... - olhos azuis dele tentaram aprofundar nos do Comensal. Mas Draco sabia o que ele estava tentando fazer e de imediato esvaziou sua mente. - Não me convence.
- Cedo ou tarde, ele vai alcançar você. Precisa dele morto tanto quanto nós.
- Talvez. De qualquer forma, não confio em quem esconde informação.
- Não poderia concordar mais – replicou sarcástico.
O homem pareceu achar graça no comentário, quase abrindo um sorriso.
- Que informação acha que eu escondo? Estou curioso, Comensal.
- Horcruxes. Se Dumbledore conhecia sobre elas, significa que você sabe muito mais.
Grindelwald se aproximou devagar do lado da cama, e com precisão médica pressionou a varinha contra o exato ponto mais dolorido do ferimento de Draco. Mordeu, mantendo sua boca fechada para não revelar o incômodo causado.
- Dumbledore era um idiota.
- Concordo plenamente – grunhiu em resposta, segurando a vontade de escapar da varinha.
- Ele escolheu morrer, ao invés de lutar e você acha que ele sabia de alguma coisa?!
- Eu não estou perguntando para ele, estou? É com você que quero falar.
O bruxo finalmente relaxou, retirando a varinha. Draco soltou a respiração, aliviado.
- Enquanto continuar com sua mente fechada para mim, rapaz, não vou responder nenhuma de suas dúvidas.
E com isso, o vulto desapareceu. Mais uma vez eram apenas ele e Weasley no quarto. A mulher continuava na mesma posição, e por alguns instantes Draco achou que ela continuava dormindo, mas depois sentiu falta de sua respiração calma e relaxada. Virou para ela e viu que estava bem acordada, o fitando preocupada.
- Ele achou nossas varinhas – sussurrou, surpresa.
- Jura? - zombou, irritado demais para tentar uma resposta mais civilizada. - Quem sabe se tivesse ido procurá-las ao invés de babar a noite toda, nós não estaríamos tão ferrados.
Weasley fechou a cara, suas sobrancelhas demonstrando a irritação.
- Sim, realmente. Eu devia ter deixado você morrer no precipício enquanto procurava pelas varinhas. E além disso, se não me engano, foi você quem não quis que eu fosse atrás delas.
- Eu estava com outras coisas na minha cabeça na hora. Obedecer a um moribundo que não está pensando a longo prazo não é a escolha mais inteligente do mundo.
Ela revirou os olhos.
- Não se preocupe, na próxima vez vou deixar você morrer mesmo.
- Não vai ter próxima vez – retrucou, sua voz decidida.
O rosto dela fez algo inesperado: mudou da expressão de irritação para uma mais suave e amigável.
- É bom mesmo – murmurou.
Sentiu-se estranho ao ouvi-la. Queria de imediato fazer um comentário cruel, mas não o fez. Não por falta de vontade, mas porque percebeu que qualquer comentário que fizesse tinha o único objetivo de... Avisá-la dos perigos de confiar nas pessoas. Ou seja, mesmo sendo cruel, o estaria fazendo para ajudá-la. A inocência dela, o modo como estava confiando nele tão rápido e facilmente era irritante. Por quê? Talvez fosse a burrice dela, ou talvez fosse a inabilidade dele de lidar com aquele tipo de pessoa. Era muito mais simples quando ela o temia ou desconfiava dele. Era algo que já conhecia, entendia e sabia como lidar.
Quem sabe, notando que o silêncio entre eles se prolongava e que Draco parecia disposto a ignorá-la, Weasley resolveu falar.
- Como você fez? Como evitou que ele lesse sua mente?
- Oclumência.
Uma pausa.
- Me ensine – era mais um comando do que uma sugestão, o que não nada o agradou.
- Não.
Weasley mordeu o lábio, irritada, mas insistiu.
- Seria o inteligente a fazer. Imagine se eu for capturada e questionada. Algum Comensal pode descobrir sobre a sua traição lendo minha mente – ofereceu, esperando a reação dele com cuidado.
Sim, ela tinha razão. Mas isso não significava que ele lhe daria ouvidos.
- Weasley, mesmo se eu quisesse ensinar a você, e não quero, seria impossível você aprender.
- Se você conseguiu, não vejo porque eu não poderia. Eu sou uma ótima mentirosa.
Draco suspirou, cansado da insistência dela. Ajeitou seu corpo na cama, para ficar mais confortável, prevendo que a conversa não acabaria tão cedo.
- Você não tem os pré-requisitos necessários. Encare como um elogio, Weasley. Potter também não conseguiu.
De imediato soube que não devia ter citado o dito cujo. Agora Weasel ficaria ainda mais interessada em aprender. A reação dela foi previsível, sua curiosidade apenas cresceu.
- O que você tem que nem eu ou Harry temos?
Ele quase riu, seria uma risada amarga, mas não deixaria de ser uma. Como a faria entender que era necessário esmagar e eliminar qualquer emoção, esconder e distorcer verdades que ela tanto se importava em preservar? Weasley era incapaz de controlar e reprimir sentimentos.
- Agora fiquei curiosa para saber que talento é esse, tão secreto que você tem?
- Que tal uma demonstração? - sugeriu, de repente, a idéia de humilhá-la lhe parecendo uma lição efetiva para calá-la sobre o assunto.
Felizmente ela não perdera toda a lógica e racionalidade, inicialmente se mostrando desconfiada da idéia. Afinal, ele sugeriu, num passado não tão distante, apagar a memória dela e deixá-la para trás. Porém, a dúvida não durou muito tempo, talvez a curiosidade tivesse vencido a suspeita.
- Está bem.
- Ótimo, você só precisa me responder uma pergunta sem revelar nenhum sentimento. Limpar sua mente de qualquer emoção.
Draco indicou que se sentasse de frente para ele, e a encarou por um longo tempo, pensando em uma pergunta que ela não fosse capaz de mentir, e que ele não tinha como saber da resposta antes daquela conversa.
- Você dormiu com o Potter?
Tinha que admitir que ao menos ela não hesitou em responder, apesar de ser surpreendida pela pergunta.
- Sim.
A resposta não revelava nenhuma emoção ou mentira. Mas não estava em questão a habilidade dela mentir.
Draco estava dentro da mente dela de imediato. Imagens e sentimentos fluindo como uma tempestade violenta, livres e sem controle. Descobriu que ela em realidade não tinha dormido com Potter, apesar de querer muito. Veio na mente de Weasley os momentos em que quase aconteceu, mas por algum motivo externo foram impedidos. Sentiu nela uma frustração e arrependimento por não ter aproveitado a chance antes dele morrer.
Enfim, ela era um livro aberto.
- Eu não só consigo afirmar sem dúvidas de que você nunca dormiu com ele, como também sei que você se arrepende disso até hoje.
- Isso pode ser só uma suposição sua. Eu respondi a pergunta sem mostrar emoção nenhuma – retrucou, sem se convencer, mesmo que incomodada pela exatidão.
- Mostrar não é a mesma coisa que sentir. Não importa o quanto você mente bem, Weasley. É a sua inabilidade de reprimir os sentimentos associados a uma memória que não servem para a Oclumência. Você é, simplesmente, honesta demais.
- Quer dizer que você é uma pessoa reprimida emocionalmente.
Draco revirou os olhos.
- Não, só que eu consigo reprimir minhas emoções.
Ela soltou um "pfft", não gostando de ser chamada de incapaz. Ficaram em silêncio por um tempo, Draco quase acreditando que ela voltaria a dormir, mas, ao invés, ela levantou da cadeira e sentou na beirada da cama dele.
- Pergunte outra coisa. Agora eu sei como funciona.
- Weasel... Vá dormir.
- Acho que mereço uma liçãozinha por ter salvado a sua vida.
Suspirou. Merlin, ela era irritante.
- Não tenho mais perguntas.
- Vamos Malfoy, pergunte qual é a minha comida favorita.
- Ah claro, porque um Comensal acharia fascinante saber o que você gosta de comer durante uma tortura.
Ela o encarou, cruzando os braços. Draco suspirou, percebendo que tinham coisas mais importantes para se preocuparem, e quanto mais cedo a vontade dela fosse realizada, mais rápido poderiam se concentrar em Grindelwald.
- É melhor praticar com a mesma pergunta. Até você conseguir eliminar qualquer sentimento relacionado a ela.
Weasley abriu um sorriso de triunfo e voltou a fitá-lo, esperando a pergunta. Fechou os olhos e respirou fundo.
- Pronto.
- Você dormiu com Potter?
Ela abriu os olhos castanhos de volta para encarar os cinza dele. Primeiro ela tentou inutilmente pensar em outra coisa, mas Draco conhecia os caminhos para chegar até as memórias associadas a Potter.
- E então? - ela perguntou, curiosa.
- Não adianta pensar em outra coisa, a mente não funciona assim.
- E como a mente funciona?
- Quando pensamos, não conseguimos só pensar em uma única coisa. Cada palavra está associada a milhares de outras coisas na sua cabeça – explicou colocando o dedo em sua testa. - "Você", quem você se considera ser, "dormiu" o que você acredita estar ligado a sexo e "Potter" as memórias e sentimentos que você tem dele. Tudo isso são portas para mim. Eu consigo chegar na resposta através de cada palavra, porque você inconscientemente me dá as chaves. Para fechar sua mente você precisa mentir para si mesmo. Os melhores mentirosos, afinal, são aqueles que acreditam nas mentiras que contam.
- Mas não é tão simples, como eu impeço meu cérebro de fazer o trabalho dele?
- Oclumência e Legimância não são ramos da magia exatos. Eu posso tentar ler sua mente para saber o que você está pensamento nesse exato momento, posso fazer uma pergunta para achar uma informação específica, posso tentar me comunicar com você atrás vez do pensamento.
- Sério?- exclamou, impressionada. - Achava que não era possível.
- Não é muito comum – respondeu, mas sem entrar em detalhes. - De qualquer forma, a defesa melhor depende do ataque. Se você quer evitar revelar informações num interrogatório, o melhor a fazer é enganar o questionador.
- Vamos tentar de novo.
Draco revirou os olhos, convicto que ela não conseguiria evoluir.
- Você dormiu com Potter?
Dessa vez ela teve sucesso em esvaziar a mente, mas ele sabia que só precisaria pressioná-la um pouco.
- Você dormiu com Potter? Por quanto tempo namoraram?
Ela tentou evitar, mas de cara lembrou de quando ele terminou o namoro... E Draco ficou surpreso.
- Ele te deu um pé na bunda? - riu.
Weasley desviou o olhar finalmente, e por um momento ele achou que desistiria de aprender Oclumência mas depois tornou a encará-lo.
- Eu consigo. De novo.
- Weasley... Você não tem chances.
- Pergunte de novo! - quase gritou, feroz.
Revirou os olhos, mas sentindo que ela logo desistiria se persistisse na pergunta, acabou aceitando a sugestão. Sabia que estava sendo cruel, que apesar da aparência forte Weasley estava cada vez mais abatida com a pergunta, mas infelizmente para ela, Draco não ligava em atormentá-la um pouco para provar que estava certo.
- Você dormiu com Potter?
Novamente impediu que ele conseguisse chegar até as memórias associadas a Potter. Mas ele insistiu, um Comensal não desistiria até que tivesse sucesso em arrancar a força as informações que precisasse.
- Quantas vezes vocês saíram juntos? O que planejavam fazer depois da Guerra? Por que ele te largou?
Ele não estava particularmente interessado nas respostas, insistia porque sabia que quanto mais bombardeasse Weasley, inevitavelmente abriria novamente a mente dela. Era um assunto muito emocional e estes eram os mais fáceis de se invadir.
A cada pergunta que fazia, ela parecia levar um choque dolorido, mordendo o lábio com mais e mais força. Cada vez mais lutava entre desviar o olhar ou então insistir e continuar encarando ele. Draco não parou, no entanto, e insistiu sem dó nem piedade.
- Sobre o que falavam? Como foi a última vez que se viram? Como começaram a namorar? Você dormiu com ele? Weasley, você amava o Potter?
Finalmente ela não resistiu e mais uma vez Draco pôde ler cada memória e sentimento. Mas ele não o fez, desviando o olhar ao invés. Fez isso porque, apesar de continuar parada e o fitando com determinação, Weasley chorava.
- Eu não sirvo para Oclumência mesmo – riu, percebendo as lágrimas e passando a mão no rosto para secá-lo.
- Eu avisei.
- É... Sim... Você avisou – retrucou, um pouco amarga.
Não ia mentir, estava sentindo uma pequena e mínima parcela de culpa por tê-los colocado em um momento incômodo. Não sabia porque deveria, afinal ela fora quem pedira por aquilo, insistindo no assunto. Virou o rosto completamente, dando o tempo e espaço necessário para Weasley se recuperar. Logo depois sentiu a cama se mexer de leve e sabia que ela voltara para sua cadeira, numa distância menos intrusiva.
- Então, qual é o plano agora? - ela arriscou, os olhos ainda um pouco avermelhados, mas a voz normal.
- Recuperar nossas varinhas, só assim teremos a vantagem para interrogá-lo.
Voltavam a se olhar, Draco contentíssimo em esquecer a conversa anterior.
- Não – sussurrou, talvez não querendo que ele ouvisse.
- Como assim não?
Ela sorriu.
- Nada. Relaxe, durma um pouco e vamos ver, quem sabe amanhã você consegue se levantar da cama.
- E ir onde? - retrucou, amargo. - Sem varinha não temos como...
Teve que parar de falar, no entanto. Weasley tinha se levantado e simplesmente saiu do cômodo, o deixando sem explicações. Draco ficou encarando a porta, indeciso se devia se preocupar com a sanidade dela ou ficar ofendido por ter sido ignorado.
Não sabia para onde ia, mas suspeitava que Grindelwald não estava longe. Precisava fazer alguma coisa, conseguir que ele cooperasse. Ser útil. Malfoy acreditava que ela não passava de um estorvo, mesmo depois que ela salvara sua vida, e o modo como ele a humilhou, insistindo em perguntar sobre Harry! Ela estava irritada, com certeza, apesar de determinada em esconder isso dele.
Mas mais do que irritada, pretendia provar a ele que era mais do que capaz de recuperar as varinhas. Enquanto caminhava pelo corredor gelado, procurando algum sinal do bruxo velho, forjou um plano para convencê-lo a cooperar. Suspeitava que ele estava os observava desde que chegaram e esperava que ele percebesse que queria conversar.
Provando-a correta, Grindelwald apareceu alguns minutos depois, ou melhor, Gina foi convidada a entrar por uma porta que se formou na parede mais próxima, semelhante à entrada do Beco Diagonal. Era um quarto com mais móveis, comparado ao que Malfoy ocupava, mas não era confortável ou convidativo. Havia uma cama tão simples e desconfortável quanto à dele, com uma estante de livros em um dos cantos e uma mesa cheia de papéis e ingredientes de poções espalhados sem cuidado. Grindelwald a esperava de pé, perto da estante e com um livro em mãos, folhava sem pressa buscando algo.
- Me pergunto o quanto será patética a sua tentativa.
- Garanto que vou surpreendê-lo – tentou, querendo parecer confiante.
- Menina, eu tenho quase cento e cinqüenta anos. Nada me surpreende.
Gina continuou fingindo estar certa de que teria sucesso, chegou perto da mesa, olhando com curiosidade as inúmeras anotações nos pedaços de papel velhos e gastos, estavam todas em alemão então não foi inútil tentar lê-las.
- Quero as varinhas de volta. Especialmente a minha.
Grindelwald riu abertamente, fechando o livro e o colocando de volta na estante. Estava genuinamente contente.
- Sim, sim, é claro que quer. Querer não é poder, no entanto.
- O que você quer em troca?
O bruxo parou para considerar, a encarando.
- Que tal... Hmm... Você matar o Comensal?
Gina congelou, olhos arregalados.
- Como é que é? - questionou, tal pedido jamais passou por sua cabeça.
- Tão difícil assim? Ele é mais um deles. Distorcido, mentiroso...
- Ele não é...
Mais uma vez hesitou, exatamente quando Slughorn a lembrara do fato, mas dessa vez não conseguiu completar a frase. Porém, por outro motivo. Se segurou porque estranhou a rapidez com que estava pronta para defendê-lo. Ele salvara a vida dela, sim. Mas onze anos de trevas não podiam ser esquecidos tão rapidamente! Qual era o problema dela? Grindelwald sorriu, com certeza lendo os pensamentos dela e seu conflito interno.
- Não. Eu não mato pessoas. Além disso, acabei de salvar a vida dele, depois de todo o trabalho que tive, não vou matá-lo – tentou fazer uma piada, para diminuir as dúvidas.
Grindelwald tinha uma expressão de tédio no rosto, e voltou a pegar um livro, dessa vez um de capa de couro vermelho, parecia antigo.
- Mas eu tenho outra coisa para oferecer. Disse que responderia as dúvidas de Malfoy, se ele deixasse você ler a mente dele, não é?
- É uma maneira de ver os fatos – sorriu.
- Então, leia a minha. Eu estou com ele já há um bom tempo, e sou da Ordem. E acho que também sabe que não sirvo para Oclumência.
O bruxo pareceu considerar a sugestão com interesse.
- Você realmente é inocente, menina. Puro branco. Acha que eu preciso de informação?
- Estamos numa montanha no Tibete, não há meios de se comunicar com a civilização, então sim, acho que você precisa de informação.
Ele riu mais uma vez, começava a ficar irritada pelo fato que ele a achava tão engraçada. Sentiu suas orelhas ficarem quentes, e também provavelmente vermelhas.
- Se não é informação que quer, então o quê? Tirando mortes.
- Nada. Hmm... Não, não. Não é verdade – ele sorriu estranhamente. - Quero vocês longe daqui, mortos de preferência.
- Posso garantir que depois de responder algumas perguntas e dar nossas varinhas de volta, iremos embora para nunca mais voltar.
E então Grindelwald resolveu ignorá-la completamente, concentrado na leitura do livro vermelho. Gina percebeu que sua chance estava terminando, era hora de medidas desesperadas.
- Nós achamos a espada de Gryffindor.
Isso teve sucesso em chamar a atenção do velho, que fechou o livro com uma força inesperada.
- Pode ler minha mente, se acha que é mentira.
E ele o fez, a encarando da mesma forma que Malfoy fez já várias vezes. Era bizarro deixar alguém invadir o que você tem de mais secreto e privado, mas ela não tinha escolha de qualquer forma, sabendo que não havia habilidade suficiente no mundo para impedir Grindelwald.
Quando ele teve certeza que realmente a espada estava com ela, os olhos dele brilharam com uma vida inesperada e a expressão que tinha no rosto o rejuvenesceu cinqüenta anos.
- Sim, sim... E você disse que estava com o menino?
Ela não dissera nada claro, mas talvez em sua animação Grindelwald estava confundindo pensamento com voz.
- Ele deixou para trás, para nos ajudar.
- Ha! Para trás? Tolo! E por todo esse tempo!
Todas as proteções dele tinham desaparecido agora, Gina sabia que era o momento para tentar extrair informação.
- Você tem a tiara e a taça não tem? Achou tantos anos atrás.
- Não, não! As perdi, é claro. Acha que eles deixam levar itens pessoais para a prisão? Ha! - a voz dele revelava uma pitada de insanidade e amargura. - Tudo ficou com aquele traidor, aquele mesquinho.
- Dumbledore?
- Ele levou tudo para sua preciosa Hogwarts. Irônico não? Perfeitamente irônico que ele perdeu tudo para outro mesquinho!
- Por que vocês queriam tanto as relíquias dos fundadores?
Os olhos dele brilharam novamente, o prazer em falar sobre elas era evidente.
- Ah, você, tão jovem e boba, não aprecia a história! A magia antiga, a verdadeira magia, pura! Sem a diluição do sangue.
Quase revirou os olhos, mais um maluco maníaco por puro-sangues. Mas resistiu e o deixou continuar com o discurso sobre sua ideologia preconceituosa.
- E as alianças antigas... A técnica meticulosa dos duendes, a sabedoria dos centauros, a força dos gigantes... Tudo isso em quatro objetos espetaculares. Feitos para servir a nós, bruxos! Quem não gostaria de tê-los? Apreciá-los e replicar seu poder?
- E quanto as Horcruxes?
Grindelwald pareceu retomar seus sentidos, a voz mais calma e controlada.
- Essa é outra história – riu.
- Em quantos pedaços você pode dividir uma alma? - tentou mesmo assim.
Novamente o velho soltou uma risada. Gina começava a odiar aquele som.
- Em quantos você está disposta a dividi-la?
Isso não a alegrou em nada, apostava que Voldemort estava disposto a dividir o máximo possível.
- Imortalidade tem um preço. Algo que ninguém está disposto a pagar, a não ser aqueles que não pretendem pagar.
- Não entendo...
- É bem simples – riu. - O que importa salvar algo que não lhe servirá para nada? A alma é algo lhe garante a próxima grande aventura, por assim se dizer. Ele não pretende morrer, portanto não precisa de garantias no pós-vida.
- Mas... Quantas vezes é...
- Fisicamente possível, você está pensando. Tudo tem um limite. A alma enfraquece cada vez que se divide, você sabe como ele ficou na última vez que "morreu". Fraco, um mero espectro, dependente de servos inferiores. É por isso que nunca quis utilizar esse meio. Não tão garantido quanto eu gostaria.
- Quer dizer então que ele já dividiu muitas vezes, para estar tão fraco assim?
Ele pareceu surpreso, mas contente, com a conclusão de Gina.
- Sim. Dividir em quanto? Hmm... Se eu fosse ele, e felizmente não sou! - riu. - Dividiria o suficiente para ser quase impossível destruir todas a tempo, mas não tanto que correria riscos de não me recuperar de uma possível derrota temporária. Anos e anos como um fantasma do que era... Paciência tem limites. E Voldemort odeia fraqueza, mesmo que não para sempre.
- Mas quantos?
- Ora menina. Sete.
- Sete?
Ficou surpresa com um número específico.
- O único número que realmente importa. O número mais mágico. É um tabu em nossa cultura, não fico surpreso que nunca ficou sabendo de seu poder. Ele, no entanto, saberia muito bem.
- Sete... Mas sete o quê?
- Quantas dúvidas você tem, menina! Demais, não? Achei que as varinhas eram o seu objetivo.
Preferiu ignorar, estava concentrada demais em absorver tudo que ele falara para prestar atenção.
- As relíquias... São três. Se estão em Hogwarts então estão com ele, faz sentido ele as transformar em Horcruxes. Mas o que mais?
- Acredito que seu bichinho de estimação precisa de você – a interrompeu, com um sorriso amarelo.
- O quê? - questionou distraída, quase pensou que ele falava de Bichento.
Grindelwald desapareceu num piscar de olhos e Gina ouviu graças à porta aberta do quarto, o som de passos ecoarem pelo corredor vazio. Franziu a testa e saiu, a procura da origem do barulho.
- Malfoy? - sua voz ecoou.
Mas os passos tinham parado e quando ela virou para entrar novamente no quarto de Grindelwald, a porta desaparecera, a parede de pedra novamente completa sem nenhum sinal de que alguma vez tinha se transformado. Confusa, Gina resolveu voltar para ver Malfoy e o encontrou sentando na cama, na mesma posição que o deixara.
- Voltei. - anunciou, e de repente se lembrou que não tinha conseguido as varinhas.
Ele não respondeu.
- Não conseguiu dormir, uh? - tentou conversar, querendo esquecer de sua derrota.
- O que você fez... Foi incrivelmente estúpido.
- Quê?
Malfoy falava baixo, mas era impossível não ver que ele estava irritado.
- Deixar ele ler sua mente.
- Importa? Ele conseguiria de qualquer forma, pelo menos assim achei que ganharia a confiança dele.
Ele não respondeu, surpreendendo Gina. Normalmente ele a chamaria de burra, pelo menos.
- E além do mais, descobri muitas coisas sobre as Horcruxes, não era esse nosso objetivo?
Malfoy continuou quieto.
- E como você sabe disso de qualquer forma? Consegue ler pensamentos tão distante assim?
Ele balançou a cabeça, e então apontou para a mesa perto dela. Ela virou e arregalou os olhos: as varinhas estavam lá, intactas.
- Ele fez uma visita antes de você chegar.
- Mas... Por quê...? Devolvê-las assim... Tão fácil.
Para sua irritação, ele voltou a ignorá-la.
- Malfoy? - insistiu.
- Ele... Algo lhe deu a impressão que... Esqueça.
Confusa, Gina pegou sua varinha imediatamente sentindo-se mais segura e confiante. Pegou a de Malfoy e lhe jogou, quando ele levantou o braço para pegá-la viu que a bandagem em volta de seu estomago estava avermelhada.
- Ah não... - de imediato estava ao lado dele. - Pelo menos agora posso fechar o ferimento de forma civilizada!
Ele não se mexeu, varinha em mãos. Gina desenrolou o pano avermelhado com cuidado e quando o ferimento estava exposto usou sua varinha para começar o processo de fechá-lo. Estava concentrada no começo, mas com o passar dos segundos sentiu o olhar de Malfoy nela, intenso. Por algum motivo sentiu as orelhas ficarem quentes e arriscou levantar o rosto. Encontrou os olhos cinza a fitando com suspeita e confusão.
- Algum problema?
- O que ele falou sobre as Horcruxes?
Gina sorriu um pouco, contente que ele reconhecera finalmente que ela fizera algo de bom, mesmo que não admitindo em voz alta.
- Ele acha que são sete, porque é o número mais mágico, ou algo assim. As duas relíquias que ele tinha estão em Hogwarts, ou seja...
- Com o Lorde das Trevas.
- Sim.
- Mas será que são Horcruxes?
Ela voltou a se concentrar em fechar o ferimento, mas sentia que Malfoy continuava a encará-la.
- Você não viu como Grindelwald falava sobre elas. Parecia outra pessoa, totalmente encantado. Acho que não é diferente com ele.
- Sim. Faz sentido. Mas e quanto ao objeto de Salazar?
- Talvez ele já o tenha. Afinal ele é descendente do homem, não?
- Isso nos deixa faltando quatro. E com duas, talvez três, impossíveis de chegarmos perto – resmungou.
- Mas pelo menos é mais do que tínhamos antes.
- Não passam de suposições.
- Acha que vamos ter mais do que isso? - replicou, determinada a manter-se positiva.
- Não... Realmente não.
Terminou o feitiço de cura em silêncio, satisfeita com seu progresso. A cor arroxeada da pele em volta do ferimento sumiu e voltando a ficar branca, apesar de não parecer mais saudável, ela sabia que era o normal para o corpo dele.
- Da próxima vez, que tal irmos até o Caribe?
- Caribe?
- Você precisa de um bronzeado.
Malfoy revirou os olhos e de imediato se afastou do toque dela.
- Amanhã nós vamos embora – anunciou. - Se eu pudesse, ia hoje.
- Acha que Grindelwald não vai contar mais nada?
- Tenho certeza.
Ela não, mas também estava ansiosa para ir embora daquele templo vazio e frio. Não que a Inglaterra fosse uma opção mais aconchegante.
- E daqui nós vamos para onde? Caribe? - tentou brincar, sorrindo.
Malfoy encarou o teto antes de responder.
- Hogwarts.
Arregalou os olhos, não acreditando.
- Está louco? Não podemos ir até lá! Ele vai descobrir, nos matar e tudo estará perdido!
Para sua surpresa, ele sorriu. Era um sorriso amargo, mas ainda sim estava em seu rosto.
- Weasley, você fica na casa de Snape. Eu vou fazer uma visita ao meu mestre e reportar sobre minha última missão.
- O quê?
Ele levantou o braço, mostrando para ela claramente a Marca Negra, nítida e se mexendo, a cobra deslizando pela boca da caveira, lhe dando calafrios. Gina sabia o que significava: Voldemort estava chamando Malfoy.
- Mas isso... Mas como você vai...?
- Não tenho escolha. Estava na hora de ele me chamar, de qualquer forma – deu os ombros, mas Gina sentiu que ele não estava tão confiante como aparentava. - Parece que eles finalmente acharam o corpo de Snape.
- Será que acham que foi você quem o matou?
- Eu não sei.
- Mas e quanto nossa missão?
- Vou tentar aproveitar o convite para investigar algumas coisas. Você... Pesquise mais sobre objetos mágicos poderosos, talvez encontre alguma coisa.
Ela não sabia porque, mas a voz dele era tão calma que a deixou mais nervosa ainda.
N/A: There you go!! Espero que tenham gostado... E voltamos para a Inglaterra no próximo capítulo :D.
Lauh Malfoy: Valeu!! Sim, inicia-se algo, mas o que? ;) Espero que tenha gostado desse cap tb!
Munyra Fassina: Agora foi mais rápido não?? :D Eles estão caminhando devagar, mas prometo que vai ter muita ação DG quando o momento for oportuno! Valeu pela review!
carol:hahaha, brigada! DG ação terá bastante, mas admito que eu sou lenta! Haha sorry!
Bella Black Malfoy: Eeee, que bom que você gostou! Que bom que está tudo justificado, é uma sempre uma das minhas principais preocupações com DG :D Valeu mesmo pela review, espero que continue gostando haha.
Lou Malfoy: Brigada pela review!! Eu não ia matar o Draco tão cedooo! Hahaha, no worries! Ainda não sei quantos capítulos vai ter, mas provavelmente terá mais ou menos o tamanho da Falsos Heróis, uns 18 ou mais capítulos. Desistir de fics? Ha! O vicio não deixa :P Ainda bem que vcs não desistiram de ler fics também! Hauahau. Thanks again!
Jane Alves: Imagina, eu entendo muito bem de sofrer nas mãos cruéis da vida real :D haha. Acho que dessa vez a atualização foi mais rapidinha né? Juro que estou tentando!! Thanks por comentar! :D
Dark-Bride: Ohhh, muito brigada por conseguir um tempinho pra ler a fic!! :D E que booomm que você está gostando! Sim, eu acho importante os personagens se "conhecerem" e interagirem antes de se pegarem hohoho... Ahh V de Vingança, adorei esse filme! Agora a máscara vai ficar sempre essa na minha cabeça haha. Muito brigada pela review! :D
