- Eu sei que o capt ficou um pouco longo, mas não consegui torná-lo menor D:
- A personagem criada para esse capt é totalmente aleatória. O nome dela foi inspirada em uma personagem do anime A-Channel chamada "Run". As personalidades são completamente opostas.
Capítulo 8.5
Yamamoto abriu a porta do guarda-roupa e seus olhos se fixaram em uma parte em especial enquanto escolhia uma das calças. Teoricamente ele não precisaria retornar de social para casa, mas seria estranho aparecer com uma roupa diferente daquela utilizada quando saiu pela manhã. O restaurante estava com o dobro de clientes por causa da época do ano, então o moreno estava ajudando em seu tempo livre.
Naquela noite ele auxiliaria o pai a fechar o restaurante, e se não fosse por esse motivo, o Guardião da Chuva jamais deixaria o apartamento de Gokudera após uma tarde tão proveitosa.
Aquela noite também seria lembrada não somente pelo trabalho que viria em seguida, mas porque assim que fechou o guarda-roupa, Yamamoto ouviu as palavras que desencadeariam uma série de eventos:
- Eu vou para a Itália no fim da semana.
O moreno não soube dizer por que aquela vez foi diferente.
Por anos ele ouviu do Guardião da Tempestade aquele tipo de aviso. Gokudera não era uma pessoa que pedia permissão, conversava ou esperava saber a opinião de outros sobre suas atitudes. Impulsivo e com uma personalidade difícil, foram precisos meses até que o Guardião da Chuva pudesse entender um pouco do que se passava pela mente da pessoa que ele tanto amava.
Porém, naquela noite, toda a racionalização e compreensão por parte de Yamamoto voaram pela janela.
Quando deixou o apartamento de Gokudera naquele fim de noite em dezembro, o moreno não foi embora instantaneamente. Parado no corredor do prédio e encarando a porta que acabara de fechar, ele permaneceu por longos e ansiosos minutos. Sua garganta parecia grudada, o ar não entrava ou saia de seus pulmões, e apesar de sentir cada fibra de seu corpo irritada e frustrada, tudo o que Yamamoto realmente queria era entrar e pedir desculpas. "Eu sinto muito, eu sei que é trabalho". "Não se preocupe, eu estarei esperando". "Hayato, eu..."
As frases ele conhecia, assim como o efeito que elas teriam. Ele viu o olhar do Guardião da Tempestade. Ele viu a maneira como o braço direito do Décimo hesitou. E ele também viu a maneira impertinente e egoísta com que Gokudera vomitou todas aquelas palavras, sem lhe deixar a chance de fazer a única pergunta que realmente importava: Por quê?
Por que você sempre me deixa para trás não importa o quanto eu me esforce para andar ao seu lado?
Não havia uma resposta simples para aquela pergunta. Na realidade não havia uma resposta.
E sabendo disso, o Guardião da Chuva fechou os olhos e seguiu pelo corredor decidindo manter sua palavra de não fazer mais parte da vida do homem de cabelos prateados. Era trabalho. Era importante. Era prioridade. Mas não era mais nada para Yamamoto.
Se Gokudera após todos aqueles anos não havia percebido que ambos não eram somente indivíduos que dividiam a mesma cama, então ele estava esperando demais daquele relacionamento.
O Guardião da Chuva amava Gokudera, provavelmente mais do que a si mesmo, mas ele nunca conseguiu cruzar a fronteira que o braço direito do Décimo criou ao redor de seu coração. Dividir uma cama não era nada se comparada a permissão de poder dar um passo em sua vida pessoal. E infelizmente, Yamamoto sabia que se voltasse para aquele quarto e pedisse desculpas, ele andaria em círculos para o resto de sua vida.
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Antes que o moreno pudesse notar, a estação havia mudado. Do frio e gelado dezembro para a simpática e aquecida primavera. O verão - sua estação preferida - ao contrário dos outros anos não o fez sentir melhor ou pior. Na verdade, ele não sentia absolutamente nada.
Se fosse questionado o que fez durante aquele ano, Yamamoto diria com uma risada tímida que "Brincou de máfia algumas vezes e treinou baseball com os garotos do bairro nas horas vagas". Nada daquilo seria uma mentira. Nada daquilo seria uma total verdade também. Por meses, tudo o que ele fez foi existir. Existir para o trabalho. Existir para os treinos. Existir para as conversas. Existir para basicamente tudo o que antes fazia parte de sua vida.
O Guardião da Tempestade foi para a Itália. Eles não se falaram uma única vez, fosse por telefone, e-mail, carta... Nada. Era como se os dois nunca tivessem se conhecido.
Os primeiros dias do moreno foram difíceis. A saudade o corroeu em carne viva. Os passeios pela cidade que sempre acabavam na porta do apartamento do homem de cabelos prateados, os locais que ambos frequentavam juntos, as músicas, as conversas e todos os momentos que compartilharam durante aquele tempo pareciam servir apenas para deixá-lo pior.
Os dias transformaram-se em semanas. As semanas se tornaram meses, e ao perceber que Gokudera não se daria nem ao trabalho de cumprimentá-lo em seu aniversário, Yamamoto decidiu que era hora de olhar para frente. Ele não tinha nenhum sentimento quanto à data, mas os dois sempre se importaram com aniversários e feriados. Eram os únicos dias que o moreno sabia que poderia ver seu amante um pouco mais a vontade.
A distância não foi totalmente negativa. Quando a tristeza começou a dar lugar ao conformismo, o Guardião da Chuva percebeu que precisaria seguir com sua vida. Permanecer preso a um relacionamento que terminara serviria somente para anular a decisão tomada naquela noite. Partiu dele a iniciativa de ter uma resposta definitiva, então o arrependimento teria de dar lugar a coisas novas e diferentes.
Percebendo que não havia nada além de continuar a viver sozinho, Yamamoto trancou Gokudera em uma parte de seu peito. Ele ouvia as informações que vinham da Itália, sempre procurando saber como o braço direito do Décimo estava, mas sem nenhuma pretensão ou esperança intima.
Nessa mesma época ele começou a aceitar os incansáveis convites de Ryohei. O mês de maio estava quase no fim quando o moreno decidiu se juntar ao Guardião do Sol, Kyoko e algumas outras garotas para uma noite de jantar no restaurante de seu pai. Aquela foi a primeira vez que o moreno divertiu-se genuinamente desde a partida de Gokudera. Ryohei não poupava esforços em alegrar a irmã, que estava visivelmente saudosa de seu precioso "Tsu-kun". Hana e o Guardião do Sol já estavam namorando há algum tempo, mas as garotas que faziam parte do grupo eram novidades para Yamamoto.
As jovens moças frequentavam a mesma Universidade de Kyoko, e uma delas era até mesmo colega de sala da futura Sra. Sawada. Satou Rin era o nome da única garota que não disse uma palavra naquela noite até o momento em que todos se despediram. Seus olhos pousaram na direção do moreno, e se não partisse dele a iniciativa para dar um animado boa noite, ele teria recebido apenas um indiferente olhar.
O Guardião da Chuva não precisou de muito para entender o que chamou sua atenção em Rin. Os encontros com o grupo tornaram-se frequentes e com o tempo Yamamoto pôde conhecê-la melhor. Poucas palavras, frases arrogantes, personalidade difícil e sem muita paciência, a jovem garota parecia uma versão feminina do homem de cabelos prateados.
Aquela estranha similaridade acabou tornando-se perigosa. Sem perceber, o moreno começou a dar exclusividade a jovem moça, acabando por confundi-la. Os dois tornaram-se amigos, e Rin declarou-se em uma tarde, surpreendendo o Guardião da Chuva totalmente.
Coincidência ou não, a declaração aconteceu no mesmo dia em que Gokudera retornava da Itália.
Não houve nada. A confissão entrou e saiu por seus ouvidos, e utilizando as mesmas palavras que dissera por tantas vezes no Ensino Médio, o moreno rejeitou a moça. Não importava quanto tempo passasse, o homem de cabelos prateados sempre seria o único diante de seus olhos, e mesmo que Yamamoto eventualmente se envolvesse com outra pessoa, ele não se sentia preparado no momento.
Rin não chorou ou o chamou de vários nomes mal-educados. A jovem respirou fundo e apenas disse que tentaria novamente. Aquelas palavras surpreenderam o Guardião da Chuva e o fizeram sorrir.
Talvez aquele não fosse o momento, mas ele não diria que Rin não poderia conquistar uma chance em seu coração algum dia.
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O moreno ficou surpreso por ver Tsuna no dia seguinte.
Ele sabia do retorno do Décimo, mas não esperava vê-lo tão cedo. A surpresa por aquele encontro só seria maior se Gokudera tivesse aparecido, o que não aconteceu.
Tsuna conversou animadamente com seu braço esquerdo, e mesmo aparentando visível cansaço, o homem de cabelos castanhos permaneceu um tempo considerável contando todas as novidades, relatos de trabalho e qualquer informação pertinente que pudesse interessar seu amigo. Antes de deixar o escritório, o Décimo Vongola comunicou a Yamamoto a mais importante das informações, ou pelo menos foi a única que o moreno realmente ouviu com extrema atenção:
- Essa semana ficará um pouco abarrotada de trabalho. Dei alguns dias de folga para Gokudera. Ele se dedicou bastante durante esses meses.
As palavras surpreenderam levemente o Guardião da Chuva. Sua resposta foi um sorriso sem graça, e apenas ao ver-se sozinho na sala foi que ele finalmente conseguiu respirar. Havia dois Yamamotos dentro daquele corpo. Um recebeu a notícia com leve tristeza. Ele ansiava em rever o homem de cabelos prateados após todos aqueles meses. Porém, o outro Yamamoto achou que a notícia era a melhor coisa que poderia ter acontecido naquele dia. Ele não queria ver o Guardião da Tempestade, por não saber direito como deveria se comportar.
Ambos nunca estiveram tanto tempo longe um do outro, e bem, eles não se despediram em bons termos ou com conversas civilizadas.
O encontro fatídico entre eles aconteceria cedo ou tarde, mas naquele dia o moreno ficou feliz em saber que teria uma semana para se preparar.
O momento que o Guardião da Chuva tanto esperou aconteceu sete dias depois. Chegar mais cedo havia se tornado um hábito durante aqueles meses. Seu tempo livre aumentara, então nada melhor do que adiantar o trabalho nas horas certas.
Por longos minutos Yamamoto não fez nada além de degustar o café que havia preparado. Seus olhos estavam no conteúdo da xícara, e ele só ergueu a cabeça ao ver a porta da cozinha sendo aberta. Aquele momento ficaria marcado em sua mente, assim como muitos outros momentos que aconteceram posteriormente. Gokudera adentrou a cozinha com passos largos e firmes. O homem de cabelos prateados não o viu sentado à mesa, andando na direção da pia.
O moreno sabia que seria uma questão de tempo até que o Guardião da Tempestade se virasse. O braço direito do Décimo era extremamente distraído durante as manhãs, e aquela atitude só provou que certas coisas jamais mudariam.
O Guardião da Tempestade serviu-se de café e passou alguns minutos sem se mover. Yamamoto sorriu de canto, admirando as costas do homem parado próximo a pia. Ele não tinha consciência de que estava sorrindo e teria se repreendido se notasse tal coisa. O moreno não se esquecera do que aconteceu meses atrás. A briga e a ferida em seu peito ainda estavam lá, mas era impossível manter-se impassível quando a pessoa que ele mais amava na vida estava tão próxima... Tão perto... Tão ao alcance de suas mãos.
O braço direito do Décimo deu um último gole no café, lavando a xícara em seguida. O Guardião da Chuva sentiu quando seu coração bateu mais rápido, antecipando o encontro que não demoraria a acontecer. Gokudera teria de se virar. Ele teria de dar meia volta para sair da cozinha, e na posição em que o moreno estava, seria impossível não vê-lo.
A reação do homem de cabelos prateados levou novamente o meio sorriso para os lábios de Yamamoto. Grandes olhos verdes o encararam com uma mistura de assombro e surpresa. Era aquele o tipo de resposta que ele tanto queria. Não havia desdém, arrogância ou orgulho.
Naquele momento o moreno soube que o homem diante dos seus olhos não era o mesmo que o tratou de maneira tão fria meses atrás, fosse isso algo positivo ou não. Levantando-se e segurando a xícara vazia em uma de suas mãos, o Guardião da Chuva entreabriu os lábios. Seu coração batia mais rápido, como se aquela fosse a primeira vez na vida que ambos conversavam. O mesmo nervosismo e curiosidade corriam em suas veias em um estranho e prazeroso déjà vu.
- Olá, Hayato.
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Yamamoto não poderia dizer que o retorno de Gokudera foi a melhor coisa que lhe aconteceu, ou seja, pura felicidade e alegria. A primeira impressão continuou firme em sua mente durante todo aquele primeiro dia, tornando-se ainda mais forte quando o homem de cabelos prateados declinou o convite de Tsuna para que todos os Guardiões comemorassem juntos em um almoço no centro comercial.
Era possível contar nos dedos as vezes em que o Guardião da Tempestade recusou os convites feitos por seu Chefe, e aquele foi um sinal claro de que não importasse o quão surpreso ele estivesse, o homem de cabelos prateados não tinha intenção alguma de ter qualquer tipo de contato extra com o moreno.
Não foi fácil para o Yamamoto engolir a vontade de se aproximar naquele mesmo dia. Havia algo dentro dele que o impulsionava a questionar o motivo da recusa, mesmo sabendo que aquele tipo de atitude era completamente ridícula e sem propósito. Gokudera não lhe devia explicações. Teoricamente os dois não tinham mais nada, e era impossível esquecer que aquela ideia partiu dele mesmo. Também não era necessário dizer o quanto ele se arrependia de ter dito aquelas palavras naquela noite, e a maneira como elas o perseguiram como uma sombra durante todo o tempo.
No final das contas, o braço direito do Décimo não compareceu ao almoço, e todas as inúmeras perguntas do Guardião da Chuva não foram respondidas. Entretanto, ele mentiria se dissesse que não se divertiu ou que as horas que passou ao lado de seus amigos não foram bem aproveitadas. A solidão e a tristeza não tinham mais espaço em sua vida. Yamamoto teve tempo suficiente para recolocar seu sorriso habitual nos lábios durante aqueles meses, e mesmo com o retorno de Gokudera, ele não tinha intenção de mudar suas atitudes. Voltar ao estado que ficou nas primeiras semanas pós-briga estava fora de cogitação.
Um dos motivos que fez o moreno esquecer momentaneamente seus problemas foi novamente a amiga de Kyoko. Rin estava acompanhada das amigas, e como esperado, Tsuna estava visivelmente feliz em poder estar novamente ao lado de Kyoko. A jovem moça não pareceu nem um pouco chateada ou magoada com Yamamoto. A recusa de seus sentimentos não parecia tê-la afetado, e sentando-se ao lado do moreno de maneira proposital, Rin foi a responsável por diverti-lo durante todo o almoço
Se no começo o que atraia o Guardião da Chuva à moça eram suas semelhanças com Gokudera, ele já não poderia continuar com a mesma afirmação. Pois foi naquela tarde que Yamamoto realmente viu Rin. Não somente como uma substituta. Não somente como uma boa companhia para as horas solitárias. Mas como uma pessoa de verdade.
Aquela foi a primeira vez que o moreno percebeu que jamais conseguiria seguir em frente se continuasse esperando algum tipo de atitude por parte do braço direito do Décimo. Eles terminaram. Eles não estavam mais juntos. Eles não tinham absolutamente mais nada em comum além de seus cargos como Guardiões.
O moreno acompanhou Rin até em casa naquele dia. Seu melhor sorriso estava em seus lábios, e por alguns minutos ambos conversaram sobre trivialidades. Porém, antes de se despedir, a moça o lembrou novamente que não desistiria e que tentaria conquistá-lo de alguma forma.
Yamamoto riu e passou a mão na nuca, encarando o chão por alguns segundos. Ele não estava acostumado a ser cortejado. Eram dele geralmente as iniciativas, pedidos e tentativas.
Erguendo o olhar e encarando Rin, o moreno voltou a sorrir.
Talvez ele pudesse aprender a amá-la.
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O ponto alto daquele mês de agosto seria o jogo beneficente que o Colégio Namimori sediava todos os anos. O Guardião da Chuva preparou-se para aquele momento, animado em poder finalmente trocar o terno e a gravata pelo seu velho e bom uniforme de baseball. Os treinos aconteceram em seu tempo livre, mas quando ele finalmente pisou no campo e ouviu seu nome ser aclamado pela torcida, Yamamoto teve um daqueles rápidos e inevitáveis momentos de dúvida.
E se eu tivesse escolhido essa vida...?
A resposta para aquela pergunta não existia. Ele sabia que não havia volta e que a escolha que fez foi responsável por mudar toda a sua vida. O moreno amava baseball. Amava o Sol quente sobre seu boné. Amava rebater firmemente as bolas que recebia. Amava correr de base para base. Amava saltar quando comemorava um ponto. Amava tudo o que pudesse envolver aquele "esporte idiota".
Entretanto, ele amava, ou amou, muito mais outra coisa. Outra pessoa. Outra escolha.
Eles não estavam mais juntos, mas o Guardião da Chuva jamais se arrependeria daquela opção. Porque ele nunca esteve tão certo em sua vida como no dia em que se declarou para Gokudera.
O jogo em si aconteceu exatamente como nos anos anteriores.
Yamamoto foi a estrela do time, recebendo todo o carinho da torcida e dos amigos ao término. O Colégio Namimori era invicto, acumulando mais de quatro vitórias consecutivas desde o inicio da feira beneficente.
Por alguns minutos tudo o que o moreno fez foi sorrir, corar e agradecer os incentivos que recebia. Tsuna e alguns amigos o felicitaram, mas durante todo o tempo que passou ainda no campo, Yamamoto não fez outra coisa além de procurar com os olhos outra pessoa. O Décimo comentou que o homem de cabelos prateados estava no Colégio, mas até aquele momento não havia sinal de sua presença.
Após o jogo, todos combinaram de seguir para outro lugar e então comemorariam a vitória em grande estilo. O Guardião da Chuva se juntaria a eles em alguns minutos, pois gostaria primeiro de tomar um banho e trocar de roupa.
Yamamoto deixou o campo e seguiu na direção dos vestiários. Seus passos eram lentos, demorados e incertos. Seu sorriso havia desaparecido, e por alguns segundos ele não fez nada além de indagar mentalmente se Gokudera estaria entre os convidados. Eles não tiveram muito contato desde o momento na cozinha, e isso acontecera na semana anterior.
Os dois acabariam conversando. Era inevitável. A única questão era quando isso aconteceria.
A atenção do moreno não permaneceu por muito tempo nesse assunto.
O Guardião da Chuva percebeu que tinha companhia, ficando levemente surpreso por ver Rin ao seu lado. A moça tinha as bochechas coradas, o que demonstrava que ela havia corrido para estar ali.
A conversa entre eles girou em torno do jogo, a vitória e o que fariam em seguida. Entretanto, em determinado momento Yamamoto sentiu sua mão ser puxada para uma direção totalmente impensada.
Rin atravessou boa parte do caminho em uma leve e delicada corrida, escondendo-se na primeira sombra que surgiu diante de seus olhos. O local o surpreendeu. O sorriso desapareceu de seus lábios ao perceber onde estavam. Ele conhecia aquele local. Ele conhecia muito bem a sombra que o prédio projetava daquele lado, e o sentimento solitário que aquele lugar transmitia.
- Eu só queria que você soubesse que vou desistir de você, Yamamoto.
As palavras de Rin fizeram com que o moreno erguesse as sobrancelhas, levemente curioso. O que era aquilo? Quando ele decidia dar uma chance ao destino era isso o que acontecia?
- Eu não posso mais tentar mudar seu coração. Eu achei que conseguiria, mas não consigo. Por favor, deixe-me continuar... - Rin ergueu uma das mãos ao notar que Yamamoto pretendia interrompê-la. - Quando Kyoko-chan me falou sobre você pela primeira vez, eu fiquei realmente ansiosa para conhecê-lo. Você é exatamente como ela descreveu. Simpático, alegre, confiável e amigo. E é assim que eu gostaria de mantê-lo em meu coração. Porque por mais que eu me esforce, eu sei que jamais vou conseguir conquistar um espaço maior em sua vida.
A moça coçou uma das bochechas, escolhendo as palavras.
- Então como sua amiga, vou pedir que ouça o que vou dizer por que é importante. Eu não sei quem foi e quando, mas a pessoa que te magoou não merece toda essa preocupação. Por meses eu o tenho observado e você claramente continua apaixonado por alguém que aparentemente não sente o mesmo. Como uma veterana nesse assunto, digo com experiência que você tem duas opções - Rin ergueu os dedos enquanto falava - Você pode esquecer e seguir em frente, ou pode tentar reconquistá-la. Eu darei meu apoio incondicional independente da sua escolha, mas gostaria de entender como alguém que já esteve com você pôde ser tão tola a ponto de perdê-lo. Você é um homem extremamente apaixonante, Yamamoto, e eu realmente sinto por não ter conseguido conquistá-lo.
O Guardião da Chuva não poderia esconder a expressão surpresa em seu rosto. Aquela era a primeira vez que uma garota era tão sincera, dizendo exatamente o que ele precisava ouvir, sugerindo exatamente o que ele deveria fazer.
O discurso de Rin fez o moreno sorrir. Yamamoto estava pronto para agradecer pelas palavras quando se sentiu puxado pela segunda vez naquele dia. Seu corpo projetou-se para frente e a única coisa que o moreno sentiu foram os lábios da jovem em seus próprios lábios.
A reação inicial do Guardião da Chuva foi de afastá-la, mas ele não o fez. As mãos que agarravam a blusa do uniforme de baseball tremiam, e naquele momento Yamamoto soube o que deveria fazer. Aquela era a forma que Rin encontrou de deixá-lo ir.
O moreno deu um passo à frente, segurando delicadamente o rosto da jovem e correspondendo o beijo de maneira gentil. Não havia amor, excitação, desejo ou nenhum tipo de sentimento naquele gesto.
A atitude não era nobre, mas aquela foi a única maneira que o Guardião da Chuva encontrou de agradecer a pessoa que esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis, e que o havia incentivado a não desistir.
Yamamoto continuava amando Gokudera.
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A ideia do Guardião da Chuva de se reaproximar do braço direito do Décimo recebeu um incentivo a mais no dia seguinte ao jogo. Foi um casual e totalmente impensado encontro que resultou em uma grande oportunidade para começar seu plano.
O moreno havia decidido ir ao centro comercial no lugar de seu pai. Tsuyoshi estava ocupado demais com os assuntos referentes ao restaurante, então as compras básicas da casa ficavam a cargo de Yamamoto. Os passeios pelas ruas e lojas não o incomodavam, e naquele dia em especial ele ficou feliz por ver um rosto conhecido na multidão de pessoas sem faces.
- Olá! Se não é o Guardião da Chuva dos Vongola.
Dino acenou, aproximando-se com um meio sorriso.
Romário estava atrás de seu Chefe, mas assim que o viu caminhar na direção do moreno, o braço direito dos Cavallone afastou-se sutilmente. Havia mais meia dúzia de subordinados espalhados pelo perímetro, e toda aquela segurança extra surpreendeu um pouco Yamamoto. Porém, era difícil manter-se preocupado quando alguém como italiano estava por perto.
As pessoas sempre diziam que ele era animado e alegre, mas todos esses elogios pareciam resumir melhor o homem à sua frente.
- Há quanto tempo, Dino - O Guardião da Chuva sorriu e estendeu a mão para cumprimentar o louro. Dino era uma das poucas pessoas que ele fazia questão de utilizar o cumprimento ocidental.
- Compras? - O Chefe dos Cavallone sorriu enquanto retribuía o cumprimento, apontando as duas sacolas penduradas no braço do moreno.
- Hahaha mais ou menos. Passeando por aqui?
A conversa básica durou mais alguns segundos, até o italiano convidar Yamamoto para beberem algo refrescante. O dia estava incrivelmente abafado, e o refúgio encontrado pelos homens foi o interior de um agradável restaurante familiar. O ar condicionado era o melhor amigo nos dias quentes.
Por alguns minutos o Guardião da Chuva ouviu as novidades da Itália e compartilhou um pouco de sua simples vida. Não eram comuns os momentos em que ele se via sentado com Dino falando sobre aqueles tipos de assuntos. O louro era uma pessoa bastante ocupada, e ele mesmo tinha seu cargo no jogo de máfia para se preocupar.
Entretanto, sentados frente a frente e conversando casualmente, o moreno percebeu que não havia segredo algum para aquele tipo de situação acontecer. Era necessário somente uma oportunidade.
A entrada de Romário no restaurante minutos depois mostrou que os momentos de frescor de Yamamoto chegariam ao fim. Dino sorriu na direção de seu braço direito e ficou de pé, colocando o dinheiro em cima da mesa e se desculpando por ter de se ausentar de maneira tão repentina. O Guardião da Chuva riu e demonstrou que entendia a situação, agradecendo pelo suco e a excelente companhia.
O louro deu as costas, mas não se afastou. Aquela atitude chamou a atenção do moreno, que juntou as sobrancelhas instintivamente ao vê-lo virar-se novamente. O sorriso do italiano havia desaparecido e algo em seus olhos cor de mel deixou Yamamoto inquieto.
- Eu sei que isso não é da minha conta, mas existe algo que eu gostaria que você soubesse e que vem me incomodando por algum tempo - O Chefe dos Cavallone aproximou-se e retirou novamente a carteira do bolso - Esse bar fica entre os limites de Namimori e só funciona durante a noite. Acredito que você gostaria de conhecê-lo.
Dino pousou os dedos na mesa, deixando um pequeno cartão de visitas branco. As letras eram escritas em vermelho escuro e o nome era estrangeiro.
O Guardião da Chuva pegou o pequeno pedaço de papel, ainda sem entender até onde aquela conversa iria. Ele não era uma pessoa que frequentava aquele tipo de lugar.
- Soube por fontes confiáveis que uma pessoa que ambos conhecemos é frequentador assíduo desse local, e isso me deixou um pouco preocupado - O louro coçou o queixo, lançando um olhar significativo para o moreno. Só havia uma pessoa que pudesse ser relacionada a isso - Como eu disse, não é da minha conta, mas acredito que você possa fazer algo a respeito.
O Chefe dos Cavallone sorriu e afastou-se.
Yamamoto encarou o cartão de visitas em suas mãos de maneira séria. Até aquele momento ele não tinha parado para realmente pensar no que pudesse estar acontecendo à Gokudera. Desde o retorno do homem de cabelos prateados, ele estava tão focado em aproximar-se, que se esqueceu totalmente de ponderar se a outra parte tinha intenção de aceitar essa reaproximação.
O moreno sentiu o maxilar tremer ao imaginar o quão diferente o Guardião da Tempestade poderia estar. A ideia de seu ex-amante frequentar bares e locais desse nível jamais passou por sua mente.
Yamamoto ficou de pé e deixou o restaurante. Havia uma lista de compras em um de seus bolsos e ele precisava retornar para casa antes de tomar qualquer tipo de decisão.
Era preciso ver com seus próprios olhos a pessoa que o braço direito do Décimo aparentemente havia se tornado depois desses meses.
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Se dissessem para Yamamoto que um dia ele viveria para ver o Guardião da Tempestade convidá-lo sensualmente para irem para casa, ele jamais acreditaria.
Por anos o moreno precisou lutar contra a timidez e arrogância de um sempre orgulhoso e temperamental homem de cabelos prateados. Os convites, as insinuações e qualquer tipo de iniciativa sexual sempre partiu do Guardião da Chuva. O nível de alegria que Yamamoto sentiu ao ouvir aquelas palavras foi indescritível. Seus lábios tremerem em um meio sorriso, e somente ao ver que algo fora jogado em sua direção foi que o moreno percebeu que não estava sonhando. Seu tão esperado momento estava acontecendo.
Ao retornar para casa naquela tarde, o Guardião da Chuva decidiu que se ausentaria do restaurante naquela noite e que visitaria o lugar escrito no cartão que recebera de Dino. Ele não sabia exatamente o tipo de roupa que deveria vestir ou como se comportar nesse tipo de lugar, então para todos os efeitos, ele estava deixando sua casa para mais um "trabalho na madrugada".
O local ficava realmente afastado e se Yamamoto não pegasse um taxi, ele tinha certeza de que correria um sério risco de se perder. As ruas pareciam iguais, as esquinas eram as mesmas e ao entrar finalmente no tal bar, a primeira coisa que o moreno pensou foi em ir embora. O ar era pesado e cheirava a cigarros. O cheiro em si era um pouco nostálgico, mas nenhum dos rostos que lhe encaravam mereceriam ser lembrados.
O Guardião da Chuva não precisou buscar muito para encontrar quem ele procurava. A principio a realização de que uma das pessoas sentadas no balcão era Gokudera o fez ficar sério. O Chefe dos Cavallone não mentira e apesar de estar longe e não ter ideia do que o homem de cabelos prateados falava com sua companhia, Yamamoto percebeu que teria de manter a cabeça fria naquela noite.
A mulher deixou a banqueta vaga ao lado de Gokudera, e o moreno sentou-se sem hesitar. Seus olhos correram ao redor, como um predador que estivesse ao lado de sua presa e que quisesse deixar claro para os outros predadores de que eles não deveriam se aproximar. O Guardião da Chuva podia sentir os olhares em cima do braço direito do Décimo, e seu peito apertou-se ao imaginar que aquele tipo de situação poderia estar acontecendo há algum tempo.
A atenção de Yamamoto foi roubada por sua nova companhia. Gokudera tinha o copo na mão, mas o olhava com surpresa. Por um momento o moreno sorriu, tímido e levemente embaraçado. Ele havia ido até ali, entrado e se sentado, mas não tinha a mínima ideia de como deveria agir ou o que deveria falar.
Por alguns segundos tudo o que cruzava a mente do Guardião da Chuva eram desculpas e pretextos para tirar Gokudera dali. Um parecia mais sórdido do que o outro, e ao notar que nenhuma das suas ideias soava convincente o suficiente, Yamamoto suspirou e achou melhor esperar o homem ao seu lado tomar alguma iniciativa.
A surpresa não poderia ter sido maior quando tais palavras chegaram aos seus ouvidos:
- Nee, por que você não me faz companhia nesta noite?
Os lábios rosados do Guardião da Tempestade moveram-se devagar.
Os olhos verdes estavam semicerrados e não era preciso muito para ver que ele havia bebido "um pouco".
O convite foi aceito, e a certeza de que aquela noite seria inesquecível veio na forma da chave do carro jogada em sua direção. Yamamoto ficou de pé no instante seguinte, seguindo atrás do homem de cabelos prateados, mantendo uma das mãos em sua cintura, esperando que ele não caísse ou coisa parecida.
O carro do braço direito do Décimo estava estacionado não muito longe dali.
O moreno sentou-se e respirou fundo, tentando ao máximo esconder o nervosismo por estar novamente naquele carro depois de todos aqueles meses. Sua mão girou a chave e o carro cantou baixo e silencioso embaixo de seu corpo. Entretanto, foi outra coisa que o fez realmente tremer e seus olhos se arregalarem com a surpresa.
- Whoa!
O Guardião da Chuva não conseguiu tirar as mãos do volante ao sentir-se apalpado por Gokudera. A mão do homem de cabelos prateados segurava firme seu baixo ventre, em uma atitude totalmente desembaraçante.
A resposta de Yamamoto foi automática, retirando delicadamente a mão de Gokudera, apenas para sentir a outra mão apalpar-lhe com mais intensidade. Por alguns segundos ele sentiu-se repreendendo uma criança que tentava brincar em uma prateleira cheia de peças de vidro. Suas tentativas foram obviamente desnecessárias, pois quando o braço direito do Décimo projetou-se para frente e abriu o zíper de sua calça, o Guardião da Chuva soube imediatamente que havia perdido.
O carro movimentava-se de forma lenta, e foi difícil para Yamamoto manter a concentração nas ruas escuras. Seus olhos dançavam de direção, e o único som dentro do carro era de seus próprios gemidos.
Por alguns minutos ele permitiu-se ser vitima daquele erótico jogo que parecia excitar Gokudera. O orgasmo não demorou a chegar e com ele veio o senso de responsabilidade do moreno.
Ele tinha de reconhecer que ambos já fizeram coisas piores naquele mesmo carro, mas não era de sua natureza aproveitar-se de pessoas que não estavam em seu juízo perfeito.
O restante do caminho foi feito em silêncio.
O Guardião da Chuva estava envergonhado demais para iniciar uma conversa, e sua companhia também não parecia das mais falantes naquela noite.
Os dois homens desceram do carro, e assim como a caminhada para fora do bar, Yamamoto permaneceu ao lado do homem de cabelos prateados por todo o caminho. A porta do apartamento o fez engolir seco, imaginando que aquela seria a primeira vez que ele entraria naquele local depois de oito meses.
- F-Feche a porta... - O Guardião da Tempestade tentava tirar os sapatos com os pés, mas não entendia como poderia estar vendo seis pernas - E cuidado com o degrau. Eu mesmo já cai várias vezes.
- Eu posso ajudá-lo. - O moreno ajoelhou-se. Ver Gokudera travar uma briga com os sapatos era adorável, mas ele realmente gostaria de se livrar de toda aquela roupa o quanto antes.
- Por favor.
Gokudera sentou-se no degrau e Yamamoto o ajudou com os sapatos e as meias. Havia um tolo meio sorriso em seus lábios, que só aumentou - ou melhor, desapareceu por não conseguir manter-se - quando o braço direito do Décimo segurou seu rosto e o beijou.
Aquele simples toque foi o desencadeador de todas as atitudes naquela noite. O moreno hesitou de inicio, sentindo um misto de surpresa e encanto por finalmente sentir o gosto dos lábios que tanto ansiou.
Entretanto, havia mais do que simples excitação e desejo naquele beijo. Era a inexperiência sobre o desconhecido.
O corpo do Guardião da Chuva projetou-se para frente e todos os bons e alegres sentimentos que o moveram naquela noite desapareceram. Seus olhos - opacos e sem vida - fecharam-se lentamente e seus lábios movimentaram-se com fome, devorando a boca de Gokudera com um ardente beijo.
O convite não foi para ele. O olhar, o sorriso e a insinuação não foram direcionados a ele. A cena do carro, o sensual convite na entrada do apartamento... Tudo foi dito e feito para um homem sem rosto, cuja função era oferecer algum tipo de alivio físico para o Guardião da Tempestade.
E foi exatamente isso que Yamamoto fez naquela noite.
Por horas o moreno esqueceu-se de todas as lembranças e memórias que ambos já haviam compartilhado naquele apartamento. Ele sabia que seus atos jamais poderiam ser compreendidos ou explicados, mas não havia nada que ele pudesse fazer além de proporcionar gemidos e suspiros necessitados que saiam pelos lábios de Gokudera em uma sequência absurda.
Da entrada para o corredor. Do corredor para a cama. Eles trocavam de posições. Eles invertiam movimentos. Mas eles não compartilhavam sentimentos ou emoções.
Quando o dia começou a nascer e o quarto tornar-se claro, o Guardião da Tempestade deitou-se inconsciente em seu lado da cama. O moreno encarava o teto, respirando alto e sentindo o peito arfar por causa do exercício. Uma de suas mãos só teve o trabalho de alcançar o telefone na cabeceira da cama e discar o número um. A voz da secretaria eletrônica cantou aos seus ouvidos e movendo lentamente os lábios, Yamamoto deixou um casual recado.
O telefone foi desligado e o Guardião da Chuva fechou os olhos. A vergonha que ele sentia só não era maior do que a decepção e tristeza que o impossibilitavam até mesmo de chorar.
Ele nunca se sentiu tão arrependido quanto naquele momento.
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Os dias passaram como um pesadelo para Yamamoto. Seu corpo moveu-se para o trabalho, tanto no escritório de Tsuna quanto no restaurante de seu pai, mas sua mente não estava em lugar algum.
As férias forçadas que Gokudera precisou tirar não o afetaram. Já havia magoa e tristeza suficientes em seu coração, e ele não precisava que alguém o lembra-se diariamente quem fora o causador dos dias livres do homem de cabelos prateados.
Por noites tudo o que o moreno fez foi rolar na cama e encarar o teto. Sua mente teimava em lhe mostrar novamente o que acontecera naquela noite, e toda vez que fechava os olhos, era como se ele pudesse reviver as mesmas cenas. Sentir o mesmo gosto, tocar a mesma pele, ouvir os mesmos sons... Um torturante e desnecessário flashback.
Entretanto, o Guardião da Chuva não era o tipo de pessoa que deixava assuntos mal resolvidos, ainda mais quando envolviam sua vida pessoal. As primeiras sensações deram lugar a uma visão mais racional e imparcial dos fatos e com o tempo seu coração tornou-se mais calmo e ele pôde pensar no que faria.
Uma conversa definitiva aconteceria e isso era inevitável. Se até aquele momento o moreno pretendia buscar alguma forma de reaproximação, então era necessário ponderar se seu objetivo continuava o mesmo. Gokudera retornaria, mas Yamamoto já não possuía a mesma ânsia e desejo de tentar uma reaproximação.
Aquele tipo de atitude era totalmente covarde, mas o Guardião da Chuva não podia deixar de sentir-se usado e enganado. A pessoa que ele tanto amou e tratou como um tesouro por anos simplesmente aceitava qualquer oportunidade e pessoa para ocupar seu lado vazio na cama.
A conversa entre os dois Guardiões dos Vongola não aconteceu por mero acaso.
O retorno do braço direito do Décimo chegou aos ouvidos do moreno, mas ele permaneceu algum tempo afastado do escritório, evitando o encontro o máximo possível. Os dias serviram para acalmá-lo, mas havia uma parte em Yamamoto que não gostaria de reencontrar Gokudera novamente. Essa mesma parte - orgulhosa e intolerante - gritava em seus ouvidos que ele deveria simplesmente seguir em frente e ignorar a existência de seu ex-amante. As coisas entre eles haviam terminado meses atrás, então ter ou não aquela conversa tornava-se totalmente opcional.
Não é preciso dizer que o lado vencedor foi a pacifica e responsável parte da personalidade do Guardião da Chuva. Tsuna estava abarrotado com o trabalho, e o moreno sabia bem que o homem de cabelos prateados estava fazendo hora extra nos últimos dias. A oportunidade para colocar um ponto final em toda aquela história chegou em um começo de noite, quando Reborn bateu na porta de seu escritório e avisou que estaria indo embora com o Décimo.
Yamamoto soube naquele instante que a partir daquela noite, independente do resultado da conversa, ambos não seriam mais os mesmos.
A conversa não aconteceu como o Guardião da Chuva esperava, e a parte mais dolorosa foi ouvir dos lábios de Gokudera que ambos não tinham mais nenhuma ligação e que deveriam seguir em frente sem se importar com o que o outro fazia. Por vários momentos o moreno se viu rebatendo as acusações e respostas ríspidas, mas seu orgulho havia sido ferido de tal forma, que seus próprios argumentos acabaram se tornando insustentáveis e fracos. As palavras que ele havia ensaiado e o pedido de desculpas que nunca foi dito... Todas as verdades ficaram dentro de seu peito, e ao invés de abrir seu coração e procurar uma maneira de resolver o assunto da melhor maneira, Yamamoto viu-se com a única saída que parecia óbvia e viável: era hora de desistir.
O homem a sua frente parecia decidido e confiante o suficiente para afirmar que a relação entre eles seria basicamente profissional, então o que ele poderia fazer?
Retornando ao seu escritório, o moreno recusou-se a ir para casa naquele estado. Seu sangue fervia e por alguns segundos a única coisa que pareceu aliviar um pouco sua frustração foi revirar metade de seu escritório, deixando seu trabalho voar e cair ao chão. O moreno jogou-se no sofá e não soube dizer quando sua consciência esvaiu-se e o sono foi mais forte do que sua raiva. As noites mal-dormidas o pegaram desprevenido, e mesmo não obtendo uma resposta positiva, seu corpo sentia-se menos rígido.
Aquela foi a primeira noite que Yamamoto sentiu realmente o fim de seu relacionamento. Seu primeiro amor havia se transformado na maior decepção que ele já teve até aquele momento, e ao acordar na manhã seguinte, com o corpo dolorido por causa do pequeno espaço e da péssima posição, o Guardião da Chuva se sentia outra pessoa.
Sua mente estava clara. Seus sentidos voltaram a funcionar novamente e enquanto deixava o escritório e seguia bocejando pelo corredor, o moreno lançou um último olhar na direção da porta do escritório do Jyuudaime. Ele estava finalmente livre.
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Yamamoto viu seus dias se transformarem em uma versão adulta do tempo de Colégio. A conversa entre eles pareceu criar uma estranha e confusa trégua, e assim como prometera, o moreno não voltou a falar ou mencionar o que tinha acontecido. As conversas entre ele e Gokudera eram raras e geralmente aconteciam na frente de Tsuna, sempre relacionadas somente ao trabalho. As piadas, as ironias, as respostas ríspidas... Os dois agiam exatamente como no Ensino Médio.
Toda aquela nostalgia afetou o Guardião da Chuva. Sua magoa com o tempo transformou-se em saudade, e não foram raros os momentos em que ele se pegou sentado em seu quarto, relembrando momentos, revendo fotografias e sorrindo para um tempo que havia sido tão especial e querido.
Gokudera continuava ocupando um lugar especial em seu coração, independente do rumo que a relação havia tomado. Os passeios, as conversas bobas, as noites passadas juntos... A vida do moreno não poderia ser contada sem que o homem de cabelos prateados não fosse mencionado.
E foi em um desses momentos de saudades que um pensamento cruzou a mente de Yamamoto e o fez juntar as sobrancelhas. Era apenas uma possibilidade, porém... Ele passou meses juntando coragem para de declarar ao braço direito do Décimo. Meses aprendendo a conviver e entender como a mente do Guardião da Tempestade funcionava, mas não precisou gastar um dia se quer para ter certeza de que era amado. Gokudera sempre o amou à sua maneira, e talvez aquela fosse a chave para todo aquele enigma.
E se o moreno tentasse novamente? E se ele buscasse se aproximar, aos poucos e de maneira quase invisível? Ele seria amado novamente? Haveria alguma chance do Guardião da Tempestade ainda sentir um pouco de todo aquele sentimento?
A ideia permaneceu fixa na cabeça do Guardião da Chuva e ele precisou apenas de um estímulo para dar o primeiro passo. Havia um enorme circulo em uma determinada data no calendário de setembro e ao se dar conta de que poderia utilizar aquele dia como um começo, Yamamoto esqueceu-se totalmente da raiva e rancor que ainda sentia. Aqueles sentimentos não iriam desaparecer. Se os dois tivessem algum tipo de novo envolvimento futuro, uma nova conversa aconteceria e dessa vez ele não deixaria que seu orgulho falasse por seu coração.
A missão, o encontro casual com o Guardião da Tempestade no centro comercial, e nem mesmo a presença feminina ao lado do braço direito do Décimo fizeram com que a resolução do moreno diminuísse.
Ele passou a tarde encarando o telefone naquele sábado, esperando o melhor momento para fazer aquela simples ligação. E somente ao perceber que estava sem tempo, foi que Yamamoto respirou fundo e decidiu dar o primeiro passo. O toque de espera não durou muito. A pessoa no outro lado atendeu de forma sonolenta, e como um adolescente que está telefonando pela primeira vez para a garota que sempre foi apaixonado, o Guardião da Chuva prosseguiu com a decisão que mudaria todo o rumo de sua história:
- Gokudera?
Continua...
