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Disclaimer: Nem a história e nem os personagens são de minha autoria. Atenção: a história contém cenas de violência, sexo e tortura. Estejam avisados.

Os personagens pertencem ao tio Kishimoto

Livro: Esposa Cativa - Jessica Trapp

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Esposa Cativa

Classificação +18

Décimo Capítulo

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Sakura despertou mais contente e feliz do que se sentia havia muito tempo. Apreciando a deliciosa sensação dolorida, esticou os braços e as pernas.

Percebeu que, pela primeira vez em semanas, que não estava acorrentada à cama e forçada a ficar ali até que seu amo e senhor voltasse para que pudesse ser alimentada e vestida.

Amo. Senhor. Essas palavras assumiam outro significado após a noite anterior e a troca de confidencias entre ambos.

Sasuke dominara seu corpo de um modo que ela nunca julgara ser possível. Fora meigo. E violento. Sakura corou ao se lembrar do modo liberal como se entregara, e ao mesmo tempo sentiu muita pena do bebê que ele perdera.

Quem sabe poderia lhe dar outro...

Esfregou as têmporas. De onde surgira tal pensamento? Sacudindo a cabeça, dirigiu-se à bacia e jogou água fria no rosto. Aquele homem a estava deixando louca.

Era uma questão de tempo até que ele descobrisse algo que o levasse a concluir que ela era a pintora das "Amantes do Rei", ou até que seu pai aparecesse, ou qualquer outra coisa que provaria que a trégua entre os dois não passara de uma quimera.

Entretanto, não fora assim na noite anterior. Houvera calor, doçura e preocupação um com outro.

Ele ainda ama sua falecida esposa. Disse que não poderia amar de novo porque não tem mais coração. Uma pontada de ciúme a possuiu. Teria Sasuke compartilhado o mesmo tipo de paixão com a outra mulher?

Vestiu-se depressa, ainda admirada por ele ainda não ter aparecido para acorrentá-la como fazia todas as manhãs. Levantou e abaixou os braços uma dezena de vezes, aproveitando a liberdade de movimentos.

Sasuke estava enganado. Não importava o que havia dito, os dois tinham compartilhado algo especial na noite anterior. Ele sentira o mesmo, senão não a teria deixado sem as algemas naquela manhã. Algo mudara no relacionamento deles... algo que ela não sabia definir.

Encaminhou-se para a mesa de trabalho e sentou-se no banquinho. Poder se movimentar à vontade sem as correntes era maravilhoso. Alongou o corpo outra vez só para sentir a sensação.

Será que o marido a deixaria assim?

A necessidade de pintar enquanto podia a dominou. Sakura procurou os pincéis. E viu a chave.

Estava no meio da mesa abarrotada, sobre uma pilha de pergaminhos.

Ela a ergueu sentindo o metal frio entre os dedos. Estar livre era uma coisa. Receber a chave era outra.

Um calor intenso a dominou. Caso o relacionamento prosseguisse do jeito que fora na noite anterior, então seu casamento seria tolerável.

Não. "Tolerável" não era a palavra certa. Seria maravilhoso! Sakura fitou o pátio pela janela.

Lá em baixo, seu marido supervisionava o conserto de um prédio usado para armazenar feno para o inverno. Já gastara muito ouro com as reformas do castelo. Seu próprio ouro. Mostrava mais preocupação com a propriedade que o próprio pai de Sakura.

O sol brilhava em seus cabelos escuros. Haviam crescido mais nas últimas semanas e já não eram tão arrumados como antes. Sasuke estava com um ar um tanto relaxado e isso a fez lembrar o que haviam feito na cama.

Sakura o observou, admirando o modo como suas costas se moviam a cada passo que dava. Dirigia os operários com profunda segurança.

De vez em quando sorria para os homens, que sem dúvida não trabalhavam com medo, mas apenas pelo desejo sincero de servir o amo.

Como ela fizera na noite passada.

Desejara agradá-lo. Estivera tão inebriada de luxúria que teria feito qualquer coisa apenas para atingir o clímax.

Mas não deveria querê-lo dessa maneira. Seu plano era ir para a Itália e ficar livre de uma vez por todas. E, principalmente, não queria filhos.

Dando as costas para a visão do marido no pátio e para as sensações absurdas que ele lhe despertava, misturou as tintas usando restos de ovos do dia anterior. Precisaria ir ao galinheiro buscar mais.

Quando as cores ficaram prontas, ajeitou o pergaminho para começar a pintar. Seus dedos ansiavam por reproduzir os prazeres que vivera na noite anterior, mas não ousava fazer outra miniatura para o Irmão Asuma em plena luz do dia, quando Sasuke poderia interrompê-la a qualquer instante.

Livre da carga de ter de criar algo para vender, relaxou a mente e deixou-se guiar pela imaginação.

Um homem surgiu no pergaminho... forte e com olhar feroz. A cena era apaixonante. A um canto brilhavam os cacos de vidro de um vaso quebrado. Pintara aquilo sem perceber.

Sakura se deteve. Outro vaso quebrado. Que coisa...

Apagando o vaso com um trapo, espalhou a tinta sobre o pergaminho. Por que esse cenário estranho aparecera pela segunda vez em seu trabalho? O vaso só começara a surgir depois que tivera relações sexuais com Sasuke. Seria um alerta contra sua paixão? Um presságio de desastre futuro?

Uma sensação de desconforto a dominou, e ela não conseguia afastar a idéia de que se tratava de algo importante.

Irritada por sua alegria ter desaparecido, Sakura atirou os pincéis em um jarro com óleo de lavanda.

A porta se abriu nesse momento, e Hinata entrou mancando, seguida por Panthos e Duncan. Não havia sinal de St. Paul; talvez estivesse caçando um camundongo.

— Hinata! — O coração de Sakura se encheu de alegria, e ela correu para abraçar a irmã. Fazia semanas que não se encontravam. — Temi que ele nunca mais me deixasse falar com você!

Sorrindo, Hinata correspondeu ao abraço.

— Você está bem?

Sakura respirou fundo, sem saber o que responder. A presença da irmã trazia de volta a culpa por gostar da companhia do marido.

— Sasuke não é odiento, se é isso que quer saber.

— Ele a violentou.

Era muito difícil explicar o relacionamento dos dois. Sakura deu um tapinha amigável no braço da irmã.

— Estou bem, mas senti muita saudade de você. Karin está bem?

— Sasuke arrumou um casamento para ela. E para mim também.

— Casamento?!

— Sim.

Sakura ficou preocupada.

— Sem dúvida vai deixá-las escolher os noivos — disse com confiança.

Pelo que conhecia dele, Sasuke Sasuke era justo.

— Os noivos já foram escolhidos. Nem eu nem Karin pudemos dar nossa opinião a respeito.

— Mas ele...

Sakura se calou. Falaria com o marido. Sem dúvida Hinata não entendera bem.

A recém-chegada fechou a porta do quarto e olhou em volta.

— Está sozinha?

— Sim.

— Sasori mandou notícias. — A voz de Hinata não passava de um murmúrio conspirador. — Está chegando dentro de uns quinze dias com um verdadeiro exército para cercar o castelo.

Uma sensação de desespero tomou conta de Sakura.

— Cercar — repetiu como boba.

— Isso mesmo. Nos três já temos passagens em um navio que parte daqui a duas semanas. Iremos diretamente para a Itália.

Itália. O sonho de Sakura.

Hinata estendeu a mão na direção da mesa.

— Finalmente poderá estudar arte no continente como sempre desejou. Mas, por que essa expressão estranha, irmã? — Lembranças de Sasuke a assolaram, e Sakura perguntou:

— O que acontecerá com meu marido?

Hinata franziu o nariz e abanou as mãos, num gesto de pouco-caso.

— Na carta Sasori disse que é imperativo que embarquemos nesse navio. Sem dúvida haverá uma batalha sangrenta. Sasuke vai acorrentá-la de novo, ou você já conquistou sua confiança?

Sakura segurou a chave.

— N... não creio que usarei as algemas de novo.

— Ótimo. Você agiu bem. Não ficou claro na carta se papai está com Sasori.

Ouviram uma batida na porta e se assustaram.

— Milady? — Era Sai.

— Milorde pediu que a acompanhe até o pátio.

Mas Sakura pensava em outras coisas. Um cerco. Uma batalha. Maridos para Hinata e Karin. A vida estava se transformando em uma grande confusão.

Conversar com a irmã a fizera se esquecer da aura maravilhosa que circundava Sasuke Sasuke, e mesmo sem as correntes, sentiu a pressão dos ferros na garganta.

— Sairei logo — disse para Sai.

Mordendo o lábio, enfiou a chave no corpete do vestido. Falaria com o marido sobre o casamento de suas irmãs e tentaria aparar algumas arestas.

— Faremos planos mais tarde — murmurou Hinata, batendo palmas para Panthos e Duncan segui-la.

Sakura ensaiou um discurso mentalmente, tentando definir a melhor maneira de conversar com Sasuke sobre o destino das irmãs, enquanto o via do outro lado do pátio.

Ele enrolara as mangas da túnica, revelando os braços musculosos. Sakura sentiu-se derreter por dentro. Tola que era...

Ele dava ordens aos operários, mostrando a planta do castelo em um pergaminho. O ar estava pesado. A primavera em breve daria lugar ao verão. Criados e operários percorriam a grama. Martelos faziam barulho. Cães latiam.

Os olhos de Sasuke brilharam ao vê-la, fazendo-a sentir uma onda de desejo. Entretanto, seu relacionamento estava fadado à desgraça. Seu irmão iria atacar. Ela partiria para a Itália, seu sonho antigo. Aproximou-se com os sapatos afundando na terra macia.

Sorrindo, Sasuke cingiu sua cintura e a beijou na boca. Isso parecia certo e errado ao mesmo tempo. Mas mesmo sabendo que seu relacionamento estava amaldiçoado, ela o desejava. De novo. Naquele momento.

— Não me agradeceu por tirar as correntes — murmurou ele ao seu ouvido.

Em parte, Sakura desejava agradecer-lhe por acabar com algo que nunca deveria ter acontecido, mas não podia se entregar às emoções.

— Eu... agradeço, Sasuke. Ele voltou a beijá-la.

— De nada. Mas se tentar fugir de novo ou não cumprir com nosso acordo, voltarei a acorrentá-la. Talvez por toda a vida.

O medo a dominou diante daquelas palavras.

— Prometeu que Hinata e Karin escolheriam seus maridos — investiu ela sem preâmbulos, como se as palavras fossem queimar sua língua se não fossem pronunciadas.

Em silêncio, rezou para que Hinata estivesse enganada sobre o que lhe contara.

Sasuke se afastou um pouco, com expressão sombria e misteriosa. O sorriso de garoto desapareceu e ali só ficou o líder frio e duro.

— Não foi possível — respondeu.

A raiva a possuiu por ter acreditado em suas promessas e começado a gostar de seu casamento.

— Não foi esse o nosso trato!

— Sim, mas nosso trato também não incluía a fuga de seu pai, portanto algumas modificações aconteceram.

— Já discutimos isso!

— Paz, Sakura. O rei deseja ver suas irmãs bem-casadas, e assim será.

— Não é justo!

Ele ergueu os ombros, cada vez mais personificando o amo poderoso.

— Sou seu marido, e você me obedecerá.

Ela o fitou com frustração. As mulheres eram sempre objetos nas mãos dos homens. Jamais ficavam livres para viver, viajar, pintar, tomar suas próprias decisões.

Sasuke passou os nós dos dedos em seu rosto, mas ela estremeceu de ódio e impotência.

— Suas irmãs serão bem-tratadas. Não há tempo para que escolham por conta própria seus maridos. Precisa confiar em meu bom-senso.

— Confiar em você? — Sakura desejava esbofeteá-lo.

— Sim, como confiou ontem à noite.

— Aquilo foi...

Sakura virou o rosto e olhou para o gramado do castelo. A grama estava crestada, com buracos e sujeira, devido à intensa atividade no castelo. Amassada como seu coração.

—... Diferente — concluiu.

— Como assim?

Mesmo sem fitá-lo, ela sentia o olhar quente em seu rosto, como se Sasuke a marcasse para sempre.

— Nós... — Ele a acorrentara na cama e rasgara seu vestido com uma adaga. Ela fora apenas uma tola que se deixara levar pela paixão. — Diabos o carreguem! Aquilo foi apenas sexo! Estou falando sobre a vida das minhas irmãs!

— Esposa cativa... — Sasuke ergueu o rosto de Sakura, obrigando-a a encará-lo. — Se não quero fazer mal a você, por que o faria às irmãs que você tanto ama? O rei insistiu em casamentos rápidos... Não há tempo para noivados longos. Se eu não escolhesse os noivos, o rei o faria. Conheço os homens que se casarão com suas irmãs. São bons.

Parte de Sakura desejava confiar nele.

— Não está certo — insistiu.

— Karin não está em situação de escolher com bom-senso. Será melhor para ela que eu tome conta disso.

— Os homens sempre acham que sabem o que é melhor para as mulheres.

— O noivo escolhido para Hinata é um nobre rural que adora animais — explicou Sasuke.

— Hinata não quer se casar.

— Irá aceitá-lo, do mesmo modo como você me aceitou.

Assim dizendo, Sasuke a segurou pela nuca e aproximou seus lábios de novo, como para provar a veracidade do que dizia.

Sakura tentou resistir, endurecendo o corpo, mas a boca do marido sobre a sua a fez desistir. Ela se derreteu contra o corpo forte, presa em seus encantos e indefesa como na noite anterior.

Como era estúpida e fraca! A culpa a dominou. Como podia ser tão indiferente à própria família?

Quando Sasuke a soltou, Sakura esteve a ponto de revelar sobre o cerco que Sasori pretendia realizar. Quem sabe se contasse, a paz pudesse ser alcançada por meio de diálogo e não de luta.

Mas se Sasuke quebrara a promessa que fizera de deixar que Karin e Hinata escolhessem seus maridos, o que o impediria de quebrar outras em relação a Sasori?

Baixando os olhos para o corpete do vestido que ocultava a chave, ela se lembrou de que estava livre para andar por onde quisesse. Sasuke não era homem de parlamentar com seus inimigos. Caso Sakura lhe contasse sobre o plano, sem dúvida seria acorrentada de novo e suas irmãs também. E, mesmo então, sabia que não resistiria ao chamado sensual de seu corpo.

Talvez pudesse conversar pessoalmente com Sasori e fazê-lo perceber a futilidade de um cerco.

Um operário os interrompeu, puxando Sasuke para um canto a fim de pedir sua opinião sobre os reparos na cisterna.

— Tenho uma surpresa para você — anunciou, quando acabou de conversar com o homem.

— Uma surpresa?

O coração de Sakura deu um pulo. A última "surpresa" que ele lhe fizera envolvera algemas e uma coleira de ferro.

— Por que está tão pálida, esposa cativa? — perguntou ele, oferecendo-lhe o braço.

— Não gosto de surpresas — respondeu Sakura. Sasuke a conduziu pelo pátio para fora dos portões do castelo.

— Dessa você vai gostar — anunciou.

Quando chegaram à cidade, o sol da tarde iluminava a terra em tons brilhantes. A apreensão de Sakura ia se dissipando a cada novo passo na estrada de pedregulhos. Os passos de seu marido eram sempre seguros e constantes, porém havia algo relaxado em sua postura que era um bom sinal.

No íntimo, ela sabia que deveria reconduzir a conversa para os problemas de sua família para que pudesse ter um indício do que deveria fazer. Mas relutava em interromper a paz do marido e, de maneira perturbadora, gostava desse nosso jogo.

— Queria saber para onde estamos indo — disse rindo, um pouco frustrada com os olhares misteriosos que ele lhe lançava e a total recusa em discutir a surpresa.

— Não. Confie em mim. — Seus ombros estavam relaxados sob a túnica engomada. Era evidente que Sasuke tramava algo, e Sakura foi ficando cada vez mais ansiosa.

Exasperada com a falta de respostas, respirou fundo. Já perguntara seis vezes, e ele sempre respondia com olhares que iam da severidade à traquinagem, porém nunca revelava qual seria seu destino.

Desceram uma estradinha de cascalhos, depois uma via estreita, e a seguir passaram por uma taverna. Parecia que Sasuke tentava deliberadamente confundir seu senso de direção. Que homem frustrante e antipático!

Ele sorriu como se estivesse muito satisfeito consigo mesmo. Os dentes acavalados surgiram junto com as covinhas. Seus olhos pretos brilhavam, e a faziam recordar o oceano... Uma mulher poderia se afogar naquele olhar.

Sakura achou que deveria se beliscar para sair daquele estado de contemplação, pois por causa das brincadeiras que faziam um com o outro, parecia que tinham uma vida em comum. Mas a verdade era que ela partiria em quinze dias. Só havia possibilidade de guerra entre os dois.

— É melhor que a surpresa seja muito boa, diante do tanto que está me fazendo caminhar — resmungou Sakura, entre brincalhona e zangada.

— Você vai gostar. — Ele a conduziu por mais uma via lateral. — Agora pare de querer adivinhar, esposa cativa, ou vou colocar uma mordaça e uma coleira em você, e conduzi-la como um animalzinho. — O tom de voz de Sasuke era amigável e não havia nenhuma ameaça velada em suas palavras.

Sakura riu, sentindo-se livre como uma criança. Perdera complemente o senso de direção e se via forçada a segui-lo.

— Vou estragar meu vestido novo — alertou.

— Melhor, pois assim poderei cortá-lo mais tarde. — Ele a empurrou para continuar prosseguindo pela trilha de cascalho.

Sakura não desejava cair na armadilha e começar a gostar da companhia dele, porém isso já acontecera. O jeito provocador de Sasuke conquistara um lugar em seu coração. Pensou sobre a confiança e a tranqüilidade que se estabeleceram entre eles. Era perigoso, mais do que fora a tensão.

Passaram por uma moita que circundava uma construção e cruzaram uma cerca.

— Você está perdido — acusou Sakura, enquanto passavam por outro beco e por fim atingiam um muro de pedra muito alto.

— Claro que não. Nunca me perco.

— Não?

Sakura riu diante do muro. As pedras eram antigas e entremeadas de musgo. Uma macieira podre coberta de formigas permanecia na base, e ervas daninhas cresciam nos buracos do muro e no chão de pedregulhos.

Sasuke deslizou os dedos pela cavidade entre as pedras, como se procurasse alguma coisa. Sakura admirou a curva de suas nádegas e de seus ombros.

— Tenho um senso de direção inato — vangloriou-se ele. — Sempre tive. Talvez por isso goste tanto de viver no mar, sentindo a brisa marítima no meu rosto.

Sakura o imaginou descalço no tombadilho, com o vento passando pela túnica, rasgada após tantos dias no oceano. Uma imagem muito diferente do homem sempre impecável que conhecia. Como alguém tão apaixonado pelo mar e tão sensual podia ser um nobre preocupado com roupas? Sasuke sempre a surpreendia.

Desconhecia tanta coisa a respeito do marido... Respirando fundo, perguntou:

— Adora estar no mar?

Ele a beijou de leve no rosto.

— Meu irmão me deu um navio. Continuo ansioso para voltar a navegar.

— Oh. — Sakura virou o rosto para o lado, sem saber por que aquela declaração a deixara tão aborrecida.

Sabia que Sasuke era um corsário de navio de guerra e que possuía sua própria embarcação. Entretanto, exceto quando seu olhar era cheio de paixão nos momentos em que faziam amor, ele sempre se mostrava muito calmo e disciplinado. Não parecia um pirata.

A vida no mar não era compatível com uma personalidade tão controlada. As ondas batiam no casco e os navios oscilavam; o oceano não podia ser passado a ferro com a meticulosidade das criadas que engomavam suas túnicas, refletiu Sakura.

Entretanto, será que ele era mais solto no meio do oceano? Será que sorriria mais... Exibiria sua gargalhada de pirata?

— Por que gosta de viajar? — perguntou curiosa para saber mais a respeito do homem com quem se casara.

Ele a ajudou a pular o muro, e os dois se viram em um jardim.

— Porque me sinto vivo e apenas aproveito o instante, procurando aventuras e explorando o mundo.

O coração de Sakura deu um salto diante dessa explicação. Não eram tão diferentes um do outro como julgara de início.

— E também por esse motivo que eu pinto — admitiu, olhando em volta para a variedade de plantas e moitas. — Onde estamos?

Peônias, lírios e prímulas enfeitavam os canteiros luxuriantes. Suas cores brilhantes a fizeram lembrar de sua paleta. Alecrim crescia em moitas espinhosas, as flores azul-claras tão delicadas como um véu. As árvores ocultavam o céu, e Sakura não fazia idéia se estava ou não perto da cidade.

— A uma curta caminhada para a cidade — avisou Sasuke, como se lesse seus pensamentos. Segurou-lhe a mão e conduziu-a por uma estradinha. — Disse que sabia onde estava.

— Sim, disse — retrucou Sakura, sem saber se ele dizia ou não a verdade. Ele parecia caminhar com confiança.

Andaram por mais alguns minutos, e Sakura se deixou envolver pelo trinado dos pássaros e o zumbido das abelhas. O cheiro forte da terra e das folhas envolvia o ar. Parecia que a natureza estava mais viva ali. Flores, plantas e árvores davam a impressão de ser muito bem-cuidadas, como os pincéis que ela usava. A grama fora cortada, formando um belo tapete verde, e cada arbusto fora podado.

Ela ignorava que existisse tal lugar por ali. Deteve-se para admirar uma dedaleira.

— Maravilhoso. A surpresa era este jardim? — Sasuke apertou sua mão e beijou-a no rosto.

— Não, mas quase. Em breve verá.

A curiosidade a dominava, e ela seguiu o marido, feliz por permitir que ele a guiasse aonde quer que estivessem indo. Da mesma maneira como se sentira, presa nas colunas da cama com as pernas abertas.

— Fale-me de suas viagens — pediu. — No navio e no oceano.

Ele sorriu, com o olhar perdido ao longe.

— O vento pica a sua pele, misturado ao sal, O navio balança, acalmando e embalando seu sono à noite.

— Parece um mundo de fadas — comentou Sakura, encantada. Apesar de seu grande sonho de ir para a Itália, nunca viajara para além de Londres. — Eu gostaria de ir à Itália — disse com voz sonhadora, para logo se controlar. Ele não devia tomar conhecimento desse seu projeto.

— Ah, Itália — disse Sasuke. — Um país com odores inebriantes... alho, cebolas, cebolinhas e outras especiarias. É um lugar especial, com gente simpática e barulhenta e centenas de artistas. — Colheu uma flor e entregou-a a Sakura; depois circundou uma sebe baixa e fitou a lateral de uma construção. — Chegamos.

A catedral. Ou, pelo menos, o setor administrativo dela.

— Estamos no santuário. — Surpresa, Sakura fitou as torres.

Jamais teria adivinhado que estavam em terreno sagrado, porém agora tudo fazia sentido... o lindo gramado, o jardim sereno. Haviam percorrido um caminho diferente, e ela estivera tão absorta na companhia de Sasuke que perdera o senso de direção.

— O que fazemos aqui? — quis saber.

— Shh... — Ele fez um sinal para que ficasse quieta, abriu uma porta lateral e a fez entrar.

O enorme salão de refeições surgiu em toda a sua magnitude. Estava silencioso e deserto. As mesas de armar se alinhavam de encontro às paredes, no aguardo da próxima refeição.

Sakura entrou e ficou boquiaberta.

Havia duas de suas pinturas na parede... as maiores de sua coleção. Uma retratava a Virgem Maria segurando o Menino Jesus, e a outra era de São Pedro seguindo Jesus sobre as águas com os demais discípulos observando do barco.

Atônita, ela ficou olhando, emudecida e com a respiração suspensa. Ver suas obras ali era como se as visse pela primeira vez. Como se pertencessem a um artista estranho e não fossem frutos de suas próprias mãos.

Tantas vezes pedira por seus quadros, mas o bispo Danzou sempre se negara.

— Como foi que isso aconteceu? — perguntou por fim, quando conseguiu respirar outra vez.

Sasuke sorriu, passando um dedo pelo seu ombro.

— Está contente?

Sakura clareou a garganta. Contente? Mal podia acreditar nos próprios olhos! Sentia-se como se tivesse passado por um portal mágico e seu sonho se tornasse realidade.

— Estou maravilhada.

Ele deslizou o dedo do ombro para o pulso de Sakura da mesma maneira lenta. Depois levou sua mão aos lábios.

— Milady, não há motivo para que não seja pintora e esposa ao mesmo tempo. E uma artista fabulosa e merece ter suas obras expostas em um lugar como este. Creio que, com o tempo, suas obras passarão do refeitório para a própria catedral.

Ela atirou os braços ao redor de seu pescoço e o beijou com ânsia, sem pudor, esquecida de que estavam na igreja e que suas famílias entrariam em guerra uma contra a outra em breve. Nunca em sua vida alguém homenageara sua arte daquela maneira. O coração de Sakura exultava.

Rindo, Sasuke a abraçou, correspondendo ao beijo.

— O convento não é para você, lady Sakura — comentou. Por um instante, foi como se apenas os dois existissem no mundo, e ela se abandonou ao encanto. Sentia-se zonza, e desejava dançar e rodopiar como uma criança travessa.

Sasuke a curvou tanto no abraço que Sakura temeu perder o equilíbrio e cair. Seus lábios se encontraram com desespero, braços e pernas entrelaçados como amantes despudorados.

Entretanto, aquilo não poderia durar... Muita coisa estava para acontecer. Sakura precisava contar sobre seu irmão e seus planos. Necessitava fazer com que Sasuke e Sasori chegassem a um acordo.

Passos soaram às suas costas, e os dois se separaram depressa.

Sakura corou até a raiz dos cabelos ao ver o bispo Danzou se aproximar, o rosto mais fino que de costume. Um rosário de contas pendia de seus dedos.

Pigarreando, ele lançou um olhar de desaprovação para o casal. O aroma de incenso o cercava como uma nuvem.

Sakura ergueu o queixo, no íntimo desejando se encolher e se esconder em uma das muitas alcovas no corredor.

Sasuke sorriu para o bispo, sem dúvida muito à vontade e sem se intimidar.

— Bom dia, reverendo. Espero que as reformas na catedral estejam prosseguindo bem.

— Nós... — Danzou fez uma careta, passando os dedos pela roupa — ...lhe agradecemos pelo generoso donativo.

Ah... Então era isso. Sasuke o "adoçara" para que expusesse as pinturas de Sakura.

— E como os homens e mulheres da congregação receberam as pinturas de minha esposa?

O rosto do bispo pareceu ficar ainda mais longo.

— Lorde Yamato fez uma oferta pela primeira — resmungou de má vontade. — O ouro será útil caso milorde decida vender.

O coração de Sakura se encheu de orgulho. Desejava gritar e externar sua alegria. Sabia que outros mais gostariam de seu trabalho, caso tivesse oportunidade de exibi-lo.

— Nenhum problema pelo fato de terem sido pintadas por uma mulher? — insistiu Sasuke.

Sakura o fitou, espantada com sua audácia. As orelhas de Danzou já estavam vermelhas e brilhantes, e parecia não valer a pena continuar a espicaçá-lo... porém ela estava gostando de vê-lo tão constrangido e queria prolongar sua tortura.

Se tivesse recebido permissão para expor suas pinturas antes, possivelmente teria sido aceita em um convento por causa de seu talento em vez de precisar se casar.

— Permite que venda, lorde Sasuke? Dividiremos os lucros. — Danzou apertou as contas do rosário.

Devia ter sido difícil para ele fazer essa pergunta, e Sakura quase riu de satisfação.

— Não — disse sem poder se conter. — Não quero... — Sasuke apertou seu braço, interrompendo-a.

— Sim, sem pudermos chegar a um acordo sobre o preço — disse para o bispo. — Voltarei amanhã para discutir o assunto.

Sakura quis se esquivar do aperto do marido. Não queria vender nada para o bispo Danzou, não depois de anos brigando com ele.

Além disso, estava irritada pelo fato de não ter voz ativa sobre seus próprios negócios, e tudo depender da vontade do marido. Quem era a artista, afinal? Ela ou ele? Como o mundo era injusto com as mulheres!

Abriu a boca de novo para falar, a fim de exigir que tirassem seus quadros das paredes, mas Sasuke a interrompeu outra vez.

— Precisamos ir embora. Voltarei depois. — Lançou-lhe um olhar de advertência, virou-se com brusquidão e a empurrou para a saída. — Não diga nada — sussurrou.

Sakura estava muito aborrecida, mas mordeu a língua, engolindo o discurso que pretendera fazer. Tratou de acompanhar as passadas rápidas do marido enquanto deixavam o prédio, abandonando o bispo de boca aberta diante de sua partida intempestiva.

Assim que se afastaram o suficiente para não serem ouvidos, Sasuke a puxou para si, fazendo-a ficar na ponta dos pés. Ela franziu a testa ao ver que o marido também estava zangado.

— Não vai me desonrar discutindo comigo na frente daquele homem, Sakura.

— Como ousa concordar em vender minhas pinturas sem meu consentimento? — replicou ela com fúria.

— Tenho esse direito como seu marido.

— E como a artista, é meu direito decidir se quero ou não vender minhas obras. E não gosto do bispo!

De repente Sasuke relaxou os ombros. Ergueu a mão e recolocou debaixo da touca uma mecha dos cabelos da esposa.

— Paz, Sakura. Também não gosto dele, mas existem questões mais importantes do que o bispo, caso você fique famosa com sua arte. Vender algumas pinturas para a igreja irá ajudar. Lorde Yamato dá muitas festas grandiosas para exibir suas propriedades. Seu trabalho é de excelente qualidade e provavelmente poderá ficar conhecida não apenas por ter suas pinturas expostas na casa dele, mas em todo o continente, caso Yamato lhe faça novas encomendas. Estamos em uma fervilhante cidade mercantil, e muitos estrangeiros visitam a catedral.

Emoções conflitantes a dominavam enquanto começava a perceber o objetivo de Sasuke e o que isso significava para ela. Andara pensando apenas em um mercado pequeno, e na vitória de ter sua obra exposta na igreja. Porém o marido pensava no mundo e tinha uma visão muito mais ampla.

— Sou um mercador e comercializo mercadorias há anos, Sakura. Pode confiar em minha opinião sobre o assunto.

Nunca ninguém a apoiara em sua arte. A confiança que Sasuke depositava nela a atingiu como um soco no estômago.

— Meu irmão está chegando — revelou de repente, desejando morder a língua em seguida.

Como podia entregar sua família com tanta facilidade? O remorso a dominou.

— Seu irmão?

Não havia mais como se calar, e Sakura respondeu:

— Sim. Está trazendo homens para atacar e cercar o castelo daqui a quinze dias.

Sasuke se afastou, e Sakura tentou se aproximar de novo.

— Você planejou tudo isso — acusou ele.

— De jeito nenhum! Acabei de saber...

Mas foram interrompidos por um menino que se aproximava correndo.

— Lorde Sasuke! O castelo está em chamas! Venha depressa!

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Espero que tenham gostado!

Kissus