Hello, I love you

Hello,I love you.
Won't you tell me your name?
Hello,I love you.
Let me jump in your game.

She's walkin' down the street,
Blind to every eye she meets.
Do you think you'll be the guy
To make the queen of the angels sigh?

Olá, Eu te amo.

Você não vai me falar seu nome?

Olá, Eu te amo.

Me deixa entrar no seu jogo.

Ela está descendo a rua,

Cega a cada olhar que ela encontra.

Você acha que você vai ser o cara

Que vai fazer a rainha dos anjos suspirar?

The Doors – Hello, I loveyou

Algo estava acontecendo, mas Eddie não fazia idéia do que era. Em algum momento nas últimas semanas, algo havia mudado entre Adrian e Faith. Mas o quê? Ainda podia ver o sofrimento nos olhos de Adrian a qualquer menção de Rose, então ele ainda não havia superado. Apesar disso, era inegável que alguma coisa estava acontecendo ali.
Os dias haviam se transformado em semanas e em meses. Ele já havia perdido a conta de quanto tempo estava ali e o seu quarto, na ala dos guardiões, se tornou mais a sua casa do que qualquer outro lugar. Gostava dali. Gostava da atmosfera, das pessoas, gostava de ouvir Faith falando sobre estratégias que nunca havia ouvido antes. E já conhecia praticamente toda a Irlanda, nas suas andanças em busca de uma residência oficial. Para Adrian era diversão, mas para ele e Faith era basicamente trabalho. Qual a melhor cidade? Qual a melhor casa? O melhor carro?
— Nós vamos passar alguns dias na academia Saint Patrick. Levem umas roupas de frio, porque ela fica no norte. Nós vamos procurar casas de Moville a Moneydarragh. Aposto que vamos achar algo legal em Coolboy. Levem o passaporte também, porque vamos passar pelo UK no caminho.
Se ela tivesse falado em grego ele teria entendido melhor.
— Eddie, vá ali na capela e chame um padre. Ela está falando em línguas! — Adrian disse, mordendo um pedaço de torrada, sem tirar os olhos do jornal.
Era um hábito bizarro, aquele que o moroi havia adquirido. Provavelmente era uma forma de não se separar completamente de casa, de ainda se lembrar que havia algo lá. De qualquer forma, as discussões que se seguiam ao café sempre eram construtivas e o fazia ver Faith com outros olhos, todas às vezes.
— Ah, americanos. — Faith revirou os olhos. — Vamos para a escola onde eu estudei e ela é no norte, então faz frio. E para cortar caminho, passaremos pela Irlanda do Norte, que é parte do Reino Unido. Assim, vocês precisam levar passaportes. Eu também.

— Huuunm... seduzir menores de idade. — Adrian deu um sorriso. — Treinar meu charme. O que acha, Eddie?
— Eu acho que isso é ilegal.
— Aqui é a Europa. Se você achar uma garota de 15 anos bonitinha, não acontece nada com você. — Adrian tomou um gole de café, o sorriso ainda brincando nos seus lábios.
— Ah, por favor. A idade de consentimento aqui é 17 anos. Seja pego com uma menina de 15 anos em contatos carnais e será deportado.
— 17 anos, é? Eu queria saber com quantos anos a senhorita teve contatos carnais com alguém...
— Ele também era menor de idade, qual o problema? Diferentemente de você, Adrian. A mulher que tirou a sua virgindade poderia ser presa, sabia? — ela deu de ombros e fez Adrian engasgar com um pedaço de torrada.
— Como você sabe que-
— Se você aparecesse na minha frente com 15 anos, eu tomava as honras.
Eddie riu da cara de Adrian. Era disso que ele estava falando. Aquilo era sinônimo de intimidade entre todos eles, mas ele não via Faith se oferecendo para tirar a sua virgindade.
— E você, Eddie? Alguém seria preso? — ela perguntou, descontraída.
Eddie ficou tenso em sua cadeira. Não achou que aquele assunto iria chegar até ele e ele não queria responder, porque sabia que seria zoado.
— Hunm... não. — ele optou pela resposta segura. Não era mentira, era?
— Não? Hunm... Eddie ficou quieto de repente. Por que será? — Adrian diz, cutucando Faith com o cotovelo. — Olha lá. Pensativo. Reflexivo.
— Estaria ele lembrando dos seus momentos quentes com a garota não identificada número um? — a loira levantou uma sobrancelha.
Eddie se divertia na maior parte das vezes que os dois se juntavam para tirar uma com a cara dele. Era engraçado, como se estivesse participando de um programa de comédia na televisão e Faith e Adrian fossem os apresentadores. Eles eram uma boa dupla. Mas aquele assunto não era legal para ele.
— Não é isso. — ele passou nutella numa torrada e deu uma mordida.
Do outro lado da mesa, Adrian e Faith o observavam calados.
— O que foi?
Houve uma troca de olhar e Adrian se aproximou dele, com cuidado.
— Eddie... você é... — ele teve cuidado de sussurrar a próxima palavra — virgem?
Ele foi sugado por suas memórias para um dia alguns anos antes, quando tudo ainda era bom. Quando tudo ainda era calmo e ele se divertia ao lado de Mason, seu melhor amigo. Era uma noite chuvosa e tinha esticado de uma festa com uma moroi que estava lhe dando mole fazia algum tempo. Pensou que finalmente iria conseguir alguma coisa com ela além de alguns beijos. Talvez até a deixasse mordê-lo, porque diziam que era bom.
E aí... aí...
— Isso é uma pergunta pessoal. — o loiro cruzou os braços.
— Ó céus, ele é virgem! — Faith levou as mãos à boca, parecendo uma fadinha assustada.
— Isso é normal. É normal ter 18 anos e ser virgem. Você ainda é muito novo para essas coisas, também. — Adrian deu dois tapinhas nas costas dele. — Se precisar de camisinha, Faith nos comprou um bocado. Pegue emprestado.
Nos comprou? — Eddie levantou uma sobrancelha e Faith ficou escarlate. Era bom devolver a vergonha na mesma moeda.
— Nós. Eu e minhas mulheres. Não eu e ela. — Adrian tagarelou, parecendo ligeiramente constrangido. — Você acha que se eu e Faith tivéssemos feito alguma coisa ela ainda estaria te arrastando para cima e para baixo por aí, olhando telhados e porões de casas?
— Ah, por favor. Vão ser machistas assim na casa das suas respeitosas avós. — ela se levantou, irritada. — Arrumem suas malas. Saímos de noite.
Adrian esperou ela sair com um sorriso no rosto, balançando a cabeça.
— Você gosta dela. — Eddie disse, antes que o assunto virgindade pudesse volta.
— Gosto. Como se ela fosse amiga desde sempre, na verdade. — ele deu de ombros. — Mas vamos conversar. Desde que chegou aqui, eu não vi você se divertir nenhuma vez. Estar numa escola vai ser bom para você. Sem preocupações... Várias garotas perto da sua idade.
— Você quer que eu perca a minha hipotética virgindade aqui na Irlanda.
— Existe forma mais épica de se fazer isso? — ele levantou uma sobrancelha. — Hipotética?
Ele iria contar. E sabia que Faith iria saber no instante em que Adrian saísse dali.
— É, porque... bem... eu fiz quase tudo. — ele sentia que estava vermelho. — Só que... não tinha... preservativo. E ela era moroi e-
— Eu sei como é difícil não andar prevenido. — Adrian se perdeu por alguns instantes e Eddie teve quase certeza que aquilo lhe trazia lembranças de Rose.
— Hunm...
— Mas se prepare. Eu não vou deixar você sair daqui nessa condição. Nenhum guardião meu é virgem. — ele se levantou e deixou Eddie rindo.
Era engraçado a importância que as pessoas davam para aquilo. Como se aquilo o tornasse melhor ou pior. Qual era a diferença? Claro que, pessoalmente, a diferença era enorme... mas no que aquilo condizia com qualquer um dos dois? Mason havia feito exatamente a mesma coisa, quando soube. Dito quase as mesmas palavras. Lembrar daquilo o fazia sorrir, de forma nostálgica.
De qualquer forma, Eddie decidiu que tinha que fazer algo quanto à Faith e Adrian. Não agüentava mais vê-los andando por aí, se devorando com os olhos. Será que não percebiam aquilo? Não era possível, só se fossem burros.
Ficou impressionada porque Faith o deixou dirigir. Era talvez a terceira ou quarta vez que pegava num carro errado e ainda era muito bizarro ter que trocar tudo. Imaginava como seria para Faith oscilar entre os dois lados. E se fossem dirigindo para a França, por exemplo, com um carro daqueles? Teriam que dirigir na direita com o volante na esquerda? Não era de se espantar que os europeus fossem mais inteligentes.
Depois de uma hora e meia de viagem, pararam numa cidadezinha para abastecer e trocaram de lugar. Meia hora antes haviam passado num posto da alfândega e entrado no território que teoricamente era do Reino Unido, mas não havia diferença alguma nem em paisagem, nem em linguagem e costumes. Devia ser bizarro ser um país cortado ao meio por outro que é praticamente igual ao seu, ignorando a questão religiosa.
Em algum momento depois que largou o volante, dormiu. E quando acordou, estavam atravessando o campo mais verde que já havia visto na sua vida. Ao longe, conseguia avistar uma mancha azul-escura que deduziu ser água.
— Bom dia, Bela Adormecida. — Adrian disse, observando-o pelo retrovisor.
— Nós vamos para o litoral? — ele perguntou, sonolento.
— Não, é o Loch Foyle. E é perto do litoral, é de lá que saem navios para a Escócia.
— As coisas aqui são tão... verdes. Como se tivessem colocado uma televisão com as cores saturadas. — coçou os olhos e bocejou. — Nós estamos próximos?
— Vinte minutos, no máximo. Quer comer? Nós compramos comida para você lá atrás. Addy, onde está?
— Aqui. Tem dois, Faith achou que você iria acordar faminto.
Adrian passou os dois sanduíches e uma coca cola para o dhampir. O pensamento de que pareciam um casal não escapou da mente de Eddie e ele deu um sorriso furtivo, enquanto mordia o seu sanduíche e observava a paisagem.
O silêncio que se seguiu foi inspirado pela paisagem, que era arrebatadora. Não havia palavras para descrever a beleza daquele lugar e Eddie sabia que Adrian estava tão embasbacado quanto ele. Para Faith, aquilo provavelmente era normal, considerando que ela estudava na escola que era seu destino. Entraram numa estrada de terra paralela à via principal e foram engolidos por árvores, seguindo nesse caminho por mais uns 10 minutos antes de chegarem.
Eddie sabia que as escolas de vampiros dos Estados Unidos tentavam copiar os modelos europeus, mas sempre imaginou que era uma cópia mais acurada. A Academia Saint Patrick se estendia por vários prédios feitos de pedra, não muito altos, com uma fortificação ao redor. Um pedaço do terreno da Academia era uma parte do lago e todos os edifícios o rodeavam. No centro, havia uma igreja alta, construída em estilo gótico, visivelmente mais nova do que o resto da edificação.
— Esse lugar parece um mosteiro. — Adrian franziu a testa.
— Esse lugar já foi um mosteiro. — Faith disse, com um sorriso. — Parece que alguém presta atenção nas minhas explicações, hein? Enfim, a igreja ali foi construída depois que os moroi começaram a usá-la como fortaleza, por volta do século XV. É um estilo gótico tardio, como o visto no King's College, em Cambridge. Mas esse mosteiro data do século IV, sendo teoricamente fundado por São Patrício.
Faith havia entrado no modo guia turística. Espantava a Eddie como ela conseguia guardar todas aquelas informações. Da escola ainda dava para entender, mas em toda cidade que paravam ela sabia uma anedota sobre ela, a data das construções; sabia identificar os estilos arquitetônicos e as invasões que os locais já tinham sofrido. Era como uma enciclopédia ambulante.
Ainda comentando sobre a distribuição dos prédios e dos alunos lá dentro, ela contornou uma praça e estacionou atrás do prédio mais baixo. Eddie pode ver um grupo de alunos no lago, treinando com caiaques. Pela estrutura corporal deles, eram todos dhampir.
— Que aula é aquela ali? — Ele perguntou, curioso.
— Ah, remo. Nós podemos escolher quatro atividades físicas diversas durante o ano, além dos treinamentos normais. No verão, enquanto o lago não está congelado, sempre são atividades aquáticas. Eu fazia natação. — Faith enfiou as mãos nos bolsos, com um meio sorriso.
— Você, natação? Você, de biquíni? — a voz de Adrian era cheia de humor. — Como os garotos conseguiam nadar?
— Bem, aquela água é bem gelada. — ela deu de ombros. — Na Saint Vlad vocês não tinham isso, Eddie?
— Não. Só o treinamento que acho que é normal. Luta corporal, basicamente.
— Nenhuma arma?
— Arma? — ele franziu a testa.
— Ah, criança. — ela balançou a cabeça. — Eu já disse para os chefões que esse currículo deveria ser unificado. Vocês, nos Estados Unidos, sofrem porque são molengas. Quero só ver se tivessem que correr quilômetros na neve todos os dias do inverno como ficariam.
— Dimitri fazia Rose fazer isso. — Eddie deixou escapar e se arrependeu ao ver a expressão de Adrian.
— Porque ele é russo. Russos são confiáveis. Vamos, me sigam.
Ela fez um sinal e os fez segui-la por um caminho pavimentado com pedras pequenas e irregulares até um dos prédios, que parecia mais um galpão. Faith olhou no relógio uma vez e abriu nos guiou pela porta, por dentro dos corredores escuros até um cômodo que parecia um galpão.
Lembrava a Eddie a sala de treinos da Saint Vladimir, com colchonetes no centro do cômodo e alguns bonecos de treinamento. Mas a semelhança parava por aí, porque cada centímetro das paredes estava coberta de armas. Espadas, machados, lanças, arcos, maças... e até algumas com uma aparência terrível que pareciam machucar muito.
E a sala não estava vazia. Em um dos cantos, estava um amontoado de jovens dhampirs que haviam parado o que estavam fazendo para observá-los. Faith lambeu os lábios e se aproximou deles.
— Onde está o Guardião Blake?
— Você é a Guardiã Brennan? Irmã da Hope? — um rapaz se aproximou deles, com um sorriso no rosto. — Eu sou Thomas Lee, muito prazer.
— Você é o famoso Tom? — Faith se abriu em um sorriso e Eddie pode ver Adrian ficar tenso ao seu lado. — O menino prodígio.
— Não é para tanto. — o rapaz ficou ligeiramente constrangido. — Guardião Blake foi levar um dos garotos para a enfermaria, com a sua irmã. Eles já devem voltar. Esse aí atrás de você é... Guardião Castile?
— Muito prazer. — Eddie disse, acenando com a cabeça.
— Guardião Castile? — uma voz feminina saiu do grupo de garotos e Eddie ficou vermelho quando viu todas as cabeças se virarem para encara-lo.
— Guardião Castile, como aquele que salvou a vida da Rainha Vasilissa? — outro garoto falou, animado.
— Era meu dever protege-la e-
E em instantes a turma o rodeava, fazendo perguntas e falando entusiasmadamente. Quando era que ele tinha virado uma celebridade? Aqueles dhampirs pareciam ter uns 16 anos, então não eram muito mais novos que ele. Mesmo assim, o tratavam com uma reverência, como se Eddie fosse algum tipo de herói ou algo assim. Provavelmente era aquilo que ele havia se tornado, depois de vários boatos infundados. Ele repetiu duzentas vezes que aquele era só o dever dele e que qualquer um teria feito o mesmo, só para receber mais elogios. Onde estava Faith e Adrian para tirá-lo daquele apuro?
Foi uma garota de cabelo vermelho que o salvou. Ela assobiou alto e todos se viraram para olhá-la.
— Vocês não tinham um exercício para fazer? O que aconteceu?
— Brennan, é o Guardião Castile. — uma das garotas se aproximou e a arrastou até o grupo. — Aquele que salvou a Rainha.
— E? — ela disse, em tom de desdém. — Vocês não querem que Blake chegue aqui e pegue todos vocês de papo para o ar, querem?
Isso foi o suficiente para dispersar os alunos. Mesmo assim, eles cochichavam e Eddie sabia que era sobre ele.
— Obrigado. — ele disse, procurando os seus companheiros com os olhos.
— Eles seguiram pelo corredor e encontraram Blake lá atrás. — ela apontou para um arco do outro lado da sala — Enquanto você dava um ataque de estrelinha.
Ele a observou em silêncio. Era com certeza a irmã de Faith, porque as duas tinham traços muito parecidos. Mas a garota na sua frente era alta, no mínimo 1,70, com um ar um pouco mais intimidante do que o da irmã. E era muito mais bonita, embora as duas se parecessem. Provavelmente era a combinação do cabelo loiro-avermelhado e dos olhos azuis.
— Eu fui atacado. — ele diz, dando de ombros. — Eu estava aqui e, de repente, 20 pessoas me rodearam fazendo perguntas.
— É mesmo? — ela deu um sorriso levemente sarcástico. — Venha comigo se não quiser ser atacado novamente.
E ele a seguiu, tendo que voltar a andar no seu ritmo normal. Os meses acompanhando Faith, que era bem menor do que ele, o haviam acostumado a dar passos mais lentos, menores, para que a outra guardiã o acompanhasse.
Subiram num corredor escuro até saírem em outro arco, que dava para um jardim. Em um dos bancos, Adrian, Faith e outro homem estavam sentados, com o garoto que havia se apresentado antes parado na frente dos dois.
— Conseguiu tirar Castile das garras famintas daqueles garotos, Hope? — o homem desconhecido disse, sua voz com um sotaque muito mais pesado do que o das garotas. — Essa é minha garota. Tão boa quanto você, Faith.
Eddie pode perceber o constrangimento nas duas irmãs e Adrian riu.
— Por favor, Will. Menos. — Faith o segurou pelo braço. — Eddie, esse é William Blake, o meu mentor. Sim, o nome dele é igual ao do poeta.
— Você é o pivete que salvou a vida da rainha? — William se levantou e o segurou pelo ombro. — Eu quero te ensinar duas ou três coisas antes que saiam daqui. Você tem potencial inexplorado.
O homem era mais ou menos da altura de Eddie e tinha o cabelo castanho espalhado por todos os lados. Seus ombros eram largos e seu corpo musculoso, mas de uma forma delgada. Os olhos eram cor de mel e sua barba cobria suas bochechas altas e o rosto delgado.
— Will, pelo amor de deus. Pare de agir como um velho obsessivo. — Faith revirou os olhos. — Você já me intimou a dar aula para seus alunos, agora está intimando Eddie a treinar. Como fica o meu moroi?
— Tem umas crianças aqui que são usuárias de espírito. — foi a irmã de Faith que disse, com um sorriso gentil dirigido a Adrian. — Você poderia ajudá-las. Minha amiga Sarah é uma delas e, embora agora saibamos o que é, ninguém sabe direito como treiná-la.
Eddie viu Adrian lançar um olhar para Faith e percebe algum tipo de conversa não-verbal entre eles. Os dois haviam se tornado craques em fazer aquilo.
— Acho interessante, pequena Hope. — Adrian diz, finalmente. — Mas eu quero assistir às aulas que sua irmã der. Nós vamos ter que organizar esse horário.
— Você quer assistir minhas aulas? — Faith colocou a mão na cintura.
— Sim. Não participar, mas assistir. Eu nunca vi você em ação, little elf. A curiosidade é maior.
— Eu também gostaria de ver. — Eddie disse e todos olharam para ele. — Ela é tão boa em planos de proteção e como guarda-costas que eu me pergunto como ela seria em batalha.
— Eu posso mostrar. — Blake diz, colocando as mãos na cintura satisfeito. — Quando quiserem ter um bom entretenimento, envolvendo vídeos constrangedores da Faith adolescente, é só me chamar.
Faith revirou os olhos e Hope a empurrou levemente, sentando em seu colo.
— São vídeos super legais. Não sei porque você faz essa cara.
— Não são, são constrangedores. Eu era uma adolescente meio idiota.
— Você era um amor. — foi Tom que disse e o olhar que recebeu de Adrian o fez corar levemente. — Eu vivo dizendo para Hope que ela deveria ser mais com você.
— Eu já disse para ele que ele só está comigo para poder chegar perto de você e me trocar. — Hope disse, em tom de brincadeira, mas Eddie percebeu o garoto virar de costas. — Está vendo? Ele sabe que é verdade.
— Faith, arrasando corações desde 1874, hein? — Adrian disse. — É sua magia de elfa.
— 1874! Você está me chamando de velha?
Adrian abriu mais o sorriso.
— Ah, que desrespeito! — ela o empurrou com o corpo para o lado, Hope ainda no seu colo. — Como se você não fosse idoso também.
— Eu sou como o vinho, quanto mais velho, melhor. — ele passou um dedo na lapela e a empurrou de volta no banco.
Eddie parou de prestar atenção em algum momento por aí, enquanto os três se divertiam e se provocavam no banco. Tom havia saído disfarçadamente e William Blake se aproximou dele.
— Parece que Lorde Ivashkov tem o mesmo pique que essas duas aí. Se deixarmos, eles ficam até amanhã.
— Você devia ver quando eles decidem se juntar para me tirar do sério.
— Eu imagino. Quando ela estava aqui, era o inferno. Você nunca sabia o que ela ia aprontar. E ela foi uma das minhas primeiras alunas, então eu não sabia exatamente como agir. — ele cruzou os braços. — Bem, vocês vão procurar casas?
— Sim. Nós já fomos em dezenas de cidades e ela não se satisfez.
— É porque ela já sabe qual casa ela quer.
— O quê? — Eddie olhou para onde Faith estava sentada com Hope no colo. As duas e Adrian riam.
— Ela já sabe qual é a casa que quer, por isso que não acharam nada que a satisfez. Faith provavelmente tinha a esperança de achar algo melhor ou igual em outro lugar, mas se vocês estão aqui, eu tenho certeza que é por isso.

— Ela me fez andar de carro por toda a Irlanda por semanas sabendo qual casa quer?
— Ela não faz por mal. A casa em questão trás más lembranças para ela.
— Más lembranças?
— Ela não contou?
— Contou o quê?
Blake suspirou e balançou a cabeça, passando uma mão pelos cabelos.
— O que eu faço com essa menina? — ele pegou Eddie pelo ombro novamente. — Eu não posso contar. Mas se ela ficar esquisita, me chame.
— Tudo bem.
— Vou mandar que levem suas coisas para seus aposentos. Faça-os saírem daqui e irem dormir. Vocês estão em horário humano e já é meio tarde.
O homem foi embora e Eddie ficou confuso. Faith tinha um segredo? Não parecia. Para ele, pessoas com segredo eram graves e incapazes de rir, consumidas pelo peso do que guardavam. Não era o caso.
No banco, Hope se levantara e estava contando alguma história entusiasmada, prendendo a atenção dos outros dois. Faith era tão bonita como a irmã? Ele não sabia dizer. Enquanto a ruiva falava, a única coisa que ele conseguia ver eram seus lábios vermelhos se movimentando. Ela passou uma mão pelo rabo de cavalo e olhou para ele, paralisando-o. Havia percebido que ele a estava encarando?
— Castile, pare de ser anti-social e entre na conversa também. — ela disse, com um sorriso.
Quem era ele para dizer o contrário?

xxx

Era oficial: todos ali eram doidos. Sequer chegara ao final da primeira noite ali e já tinha decidido aquilo. E a loucura era contagiosa, porque desde que Hope havia aparecido, não parava de pensar na garota. Era aquilo que chamavam de amor à primeira vista?
Fazia tempo que nenhum ser do sexo feminino chamava sua atenção daquela forma. Talvez porque depois da morte de Mason ele havia se dedicado a se tornar o melhor guardião possível e não dado atenção à essas coisas, ou talvez porque no momento ele estivesse de guarda baixa. Mas havia algo na forma animada com que Hope falava, algo na forma como ela se movia que o atraía. E não era pouco.
Como era que em algumas horas aquilo acontecia? Não fazia sentido. Por que quando a ficha caiu de que Thomas era namorado dela ele havia sentido ciúmes? O garoto tinha uma queda épica por Faith, era óbvio. Quando ele olhava a irmã mais velha, seu rosto se iluminava. E quando estava perto de Hope, os dois pareciam mais irmãos do que namorados.
Não, aquilo não estava certo. Nada daquilo estava certo.
Alguém bateu na porta e Eddie se levantou da cama, não se dando ao trabalho de vestir a camiseta ou calçar os sapatos.
— Eddie? — a voz de Faith soou do outro lado da porta.
Ele a destrancou e deixou a dhampir entrar. Ela se sentou na beirada da cama dele e levantou uma sobrancelha.
— Praticando o semi-nudismo desportivo?
— Desculpa. — ele vestiu a camiseta. — O que foi?
Faith passou o dedo pelo cabelo, que estava solto e olhou para o lado. Parecia ponderar o que falar. O que havia levado ela ali naquela hora da noite?
A imaginação de Eddie voou longe e imaginou que ela iria dizer que o queria, naquele instante. Que vê-lo sem camisa era o suficiente para despertar o desejo nela. E ele diria que não, ele não podia tê-la porque queria a irmã e isso seria errado. E ela iria chorar em seus braços, suas lágrimas molhando o seu peito.
Bom, Adrian estava certo quando havia dito que ele não podia continuar daquela forma por muito tempo.
— Amanhã nós vamos para a cidade procurar uma casa. Vamos sair meio dia. Se não quiser ir, pode ficar. Vou dispensar Adrian também.
— Aconteceu alguma coisa?
Faith balançou a cabeça, com um meio sorriso.
— Não agora. — ela passou um dedo no tecido da sua calça, pensativa. — Eu estudei aqui.
— Eu sei.
— Então, eu... — ela pausou um pouco. — Tenho umas pendências para resolver. E eu gostaria de aproveitar que estou aqui para isso.
— Você quer que eu distraia Adrian, é isso?
— Onde você aprendeu a ler pensamentos, Guardião Castile? Isso é uma característica importantíssima num guardião.
— Aprendi com os melhores. — Eddie deu um sorriso.
— Espero que eu seja um deles. — ela se levantou. — Por favor, arrume alguma atividade bem legal para Adrian amanhã. Nem que seja encher a cara e seduzir menores. Pergunte para Hope se terá alguma festa hoje à noite, ela deve saber.

A menção de Hope fez o estômago dele se revirar.
— Sua irmã? Onde eu a acharia?
— O quarto dela é no andar de baixo. Mas a conhecendo, quando voltar do treino ela provavelmente vai se sentar alguns minutos naquele terraço aqui em cima. Ela gosta das flores.
Eddie suprimiu um sorriso. A irmã dela havia dado a informação que ele precisava e a perspectiva de passar mais tempo próximo à ela era ótima.
— Ei, tire esse sorrisinho do rosto. Hope te comeria vivo, se você se aproximasse dela. E não faça essa cara de quem quer ser comido vivo! Ah, pelo amor de Deus!
— Você sabe que aquele namorado dela quer você e não ela. — Eddie deu de ombros e de repente Faith ficou séria.
— Isso é bobagem, Eddie. — ela balançou a cabeça. — Deus sabe que não preciso de mais confusão na minha vida.

— Eu compreendo. Eu também não.
— Então fique longe de Hope. Você já deveria ter aprendido que uma Brennan é sinônimo de confusão. — ela se levantou e bagunçou o cabelo de Eddie carinhosamente. — Não quero você chorando pelos cantos, já basta o Adrian.
— Mas ele melhorou bastante.
— Mas ele não está bom. Ele está na fase que chamamos de indiferença. Você pode até dizer o nome de Rose na frente dele e ele não vai se importar, mas por dentro ele está se rasgando de raiva. É o que acontece.
— Diz a guru do amor.
— Eu queria que eu não soubesse como é. Mas faz parte de estar vivo. — ela suspirou. — Devaneios à meia noite por Faith. Você deve estar cansado. Deixa eu ir pro meu quarto.
— Boa noite, Faith. E boa sorte amanhã.
— Obrigada. E você, juízo. Olhe por onde anda, enquanto estiver aqui. Não deixe seu status de celebridade subir à cabeça. Nenhuma das duas cabeças.
Eddie riu com o comentário e deitou na cama, olhando para o teto. Faith havia se tornado como uma irmã mais velha para ele, sempre cuidando dele mesmo que indiretamente. E agora a coisa que ele mais queria era a irmã dela. Indiretamente, aquilo não podia ser considerado incesto?

Céus, ele estava ficando louco.

Xxx

Hope fingia ser brincadeira, mas era realmente irritante a fixação que Thomas tinha pela sua irmã. Desde que viram o primeiro vídeo dela, em sala de aula. Desde que ele se aproximara só para perguntar coisas da vida de Faith. Ela gostava dele, mas suspeitava que ele só a considerava um genérico da irmã mais velha.
E agora, com Faith ali, não havia outro assunto entre os dois. Aquilo era chato. Nem em casa tinha que lidar com aquilo. E quando não era Faith, era Bliss. Edmund não havia ficado com ela na esperança que ela fosse como a irmã do meio? No fundo, irritava ser a irmã mais nova e ter que corresponder às expectativas alheias.
Esperava que quando saísse da escola as coisas melhorassem. Que as pessoas parassem de vê-la como mini-Faith ou mini-Bliss. Enquanto isso, ela desfilava por aí com uma couraça de indiferença e sarcasmo.
Passou o dedo por uma das pétalas de um jasmim do jardim, absorvendo o perfume da flor. Era calmante estar ali. Quando estava em casa, passava metade do seu tempo enfiada nos jardins, trabalhando neles. Sempre sentia falta das plantas quando estava na escola.
Ela sentiu a presença de uma segunda pessoa antes de ouvir os passos e se virou, se deparando com o loiro que havia conhecido mais cedo.
— Com insônia, Castile?
— Na verdade, eu já dormi e já acordei. — ele deu um sorriso e se aproximou.
Hope não conseguiu não sorrir de volta. Eddie era uma coisa alta e loira, com olhos cor de mel e um sorriso meio zumbificante. Ela apostava que era o tipo de garoto que conseguia tudo o que queria só com uma palavra e um sorriso, um que nunca havia ouvido um não na vida.
— Esqueci que vocês estão no horário trocado. O que te trás aqui?
— Sua irmã me mandou. — ele parou ao lado dela e olhou para as flores, ficando em silêncio por alguns instantes.
— Castile? Faith te mandou... por que?
— Ah, ela quer arrumar uma distração para Adrian enquanto ela está fora.
Hope teve que rir.
— Ele não pode arrumar uma distração sozinho?
— Não se você não o quiser bêbado por aí.
— Oh.
— Não, não faça essa cara. Você disse que tem uma amiga cujo elemento é espírito, não é? Então. Tem uns efeitos colaterais. Eles ficam meio... esquisitos. E bebida e cigarro normalmente nublam os efeitos.
— Sarah é completamente normal. Só um pouco paranóica, mas isso é saudável. — ela disse na defensiva.
A verdade era que Sarah era doida de pedra.
— Não estou dizendo da sua amiga... cada um usa uma válvula de escape diferente.
Ela balançou a cabeça, com um sorriso.
— Você relaxa em algum instante, Guardião Castile?
— Brennan, quando você vira um guardião, relaxar é a diferença entre a vida e a morte. — ele disse num tom pomposo, com seu sotaque engraçado.
— Ah, é? — ela se virou para ele, se aproximando. Ele deu um passo para trás, sendo impedido de andar mais por um banco. — Eu aposto que isso tudo é só pose para pagar de fodão.
— Você acha? — ele deu um passo para frente. Ela não se moveu.
— Eu tenho certeza. Você salvou a rainha. Você é famoso.
— Eu nunca pedi para ser famoso fazendo o meu trabalho. — a mão dele tirou uma mecha de cabelo do rosto dela.
Ela lambeu os lábios e deixou o cabelo cair um pouco no seu rosto. A mão de Eddie se atreveu a tocar na sua bochecha e levantar o seu rosto, fazendo-a arrepiar e fechar os olhos. Os dedos dele delinearam os seus lábios e ele se aproximou, com a boca entreaberta.
Hope sabia exatamente o que estava fazendo, era claro. Ela podia não ser Bliss, mas tinha aquela centelha de provocação que corria no sangue da irmã. A ruiva deixou que Eddie se aproximasse o suficiente para que as duas respirações se misturassem, mas não o bastante para que se beijassem antes de o empurrar para trás.
Aparentemente Eddie havia relaxado, porque deu dois passos antes de tropeçar no banco e cair de bunda no chão, do outro lado.
— Você achou que ia ser fácil assim? — ela riu e balançou o cabelo. — Se você quiser alguma coisa comigo, vai ter que conseguir me alcançar.

Xxx

Eddie estava irritado como nunca. Como era que ele havia se deixado levar, havia abaixado a guarda quando não podia? E o pior é que se ele fechasse os olhos, podia reviver as sensações de quase beija-la.
A vida dele era vivida no quase. Sempre.
E para piorar a situação, ele sequer sabia o que fazer com Adrian. O moroi estava soltando comentários irônicos a toda hora, para qualquer motivo. Não havia gostado de ter sido deixado para trás e insistia o tempo todo que Eddie sabia para onde Faith havia ido e estava escondendo as informações dele.
Ele gostava de Adrian, mas naquela manhã a coisa que ele mais queria era berrar para que calasse a boca um segundo e fosse fazer algo melhor da vida do que rastejar pelos cantos por causa de uma mulher. O que era patético, uma vez que a irritação de Eddie era causada por uma mulher.
Cada vislumbre de vermelho que via o fazia lembrar da forma como o cabelo de Hope se movimentara enquanto ela corria para fora do jardim no início do dia. Como ela o tinha enganado direitinho! Ele tinha certeza absoluta que eles iriam se beijar e no segundo exato ela havia fugido. Deslizado por entre seus dedos como água.
— Eddie, o que você tem hoje? — Adrian disse, irritado. — Você normalmente come três vezes mais do que eu e Faith juntos e está aí, brincando com a comida no prato.
— Hunm? — o dhampir olhou para o prato e se levantou. — Não estou com fome.
— Oh, não. Não você, Eddie. Você é o menos patético dos três, não entre por esse caminho.
— Do que você está falando?
— Eu não acredito. Quem é?
— Adrian, pare de agir como um louco. — ele caminhou até a janela.
— É a irmã da Faith?
Eddie bateu a mão na parede irritado e voltou para se sentar ao lado de Adrian.
— Eu a encontrei hoje de manhã.
— E...

— Eu quase a beijei. Aí ela me empurrou e foi embora.
Adrian riu. A informação pareceu mudar o humor dele, pelo menos temporariamente.
— Parece alguém que eu conheço.
— Faith?
— Não. — ele balançou a cabeça e deu um sorriso meio melancólico. — Rose. Faith é do tipo que não recusa um beijo.
— Você já a beijou? — Eddie levantou uma sobrancelha.
Adrian o respondeu com um sorriso misterioso.
— Hope é um alvo perfeito. Aposto que Faith não teria nada contra você e ela. Invista.
— Você está me mandando investir em uma mulher que lembra a mulher que te deu um fora?
— Talvez.
— Isso é doente, cara.
— Não, pense pelo lado inteligente. Você é dhampir. Ela vai acabar escolhendo você à um moroi qualquer. — o tom dele era amargo.
— Adrian, não é assim.
— É assim sim. Quando sair, me traga qualquer coisa alcoólica. Eu não vou a lugar nenhum até que Faith volte.
Quando o moroi ficava assim, Eddie sabia que não tinha o que fazer além de torcer para que ele não passasse mal ou tivesse outra crise de loucura. A vantagem era que daria tempo para Eddie fazer algo quanto à Hope.

Seja lá o que aquele algo fosse.