Um grupo de criados semitransparentes, trazendo bandejas carregadas de comida e seguido por Naruto e Hinata, entrou na sala.
Sakura deu um suspiro de alívio, agradecida pela distração.
- Oh, Sakura, espere até ver o que foi preparado para você! – Hinata falou, incapaz de conter o próprio entusiasmo. – Eu nunca vi tantas delícias!
Sakura olhou as travessas, não poderia estar mais de acordo com a menina.
- O cheiro já é fantástico – comentou e observou com expectativa enquanto travessas repletas de cor, aromas e texturas eram dispostas diante dela. Havia grupos de iguarias brancas que, percebeu, consistiam de vários tipos diferentes de pétalas, as quais tinha sido açucaradas, cristalizadas e congeladas em uma flor perfeita. Azeitonas, da verde até a preta, apinhavam-se ao lado de grossos pedaços de queijo, tão apetitosos como as baguetes de pão quente que repousavam a seu lado.
Mas foram as frutas sozinhas numa bandeja que capturaram definitivamente o olhar de Sakura. Sua casca rosa-escuro fora aberta, e seus grânulos vermelhos se derramavam, implorando para serem consumidos.
- Romã! – ela balbuciou, lábios entorpecidos.
- Não gosta de romã, Sakura? – Sasuke franziu o cenho. – Posso mandar retirá-la.
Sakura ergueu a cabeça, vendo toda a equipe de criados olhando para ela, os rostos pálidos cheios de preocupação.
Não seja paranoica, disse a si mesma, é apenas uma coincidência boba.
- Eu adoro romã! Está tudo perfeito! – Num impulso, apanhou várias gotas da fruta vermelha e as colocou na boca. O sabor que se espalhou por sua língua a fez suspirar de prazer. – Está maravilhosa! – murmurou em meio ao sumo doce.
Os criados soltaram um suspiro coletivo de felicidade.
- Tudo parece estar ao meu gosto, também – Sasuke falou com uma ponta de ironia. Sakura parecia ter lançados sobre os seus servos o mesmo feitiço que usara nos cavalos. –Podem deixar os pratos. Se precisarmos de algo, eu os chamarei.
Os criados correram de volta para a cozinha.
- Vocês dois não vão se juntar a nós? – Sakura perguntou, olhando para Naruto e Hinata.
Afinal, os mortos comiam? Não fazia ideia, porém lhe pareceu rude não perguntar.
- Não, senhora – Naruto respondeu.
- Naruto e eu temos muito que conversar – acrescentou Hinata, ansiosa. – Estamos preparando o material de desenho.
Sakura sorriu para a garota, feliz ao ver que ela parecia à vontade.
- Vão em frente. Eu os vejo amanha – disse em meio a mais um bocadinho de sementes de romã.
- Não se esqueça de chamar por mim quando estiver com sono, assim posso ajudá-la a se preparar para dormir. – Uma ponta de ansiedade ressurgiu na voz de Hinata.
- Ah, claro... – Sakura aquiesceu depressa, não querendo desapontar a menina.
Satisfeita com a confiança de sua senhora, a moça sorriu, feliz, enquanto fazia uma reverência para Sakura e Sasuke, e seguia Naruto para fora da sala.
- Ela vai ficar mais segura com o tempo – ele a tranquilizou.
- Espero que sim... ou vai me desgastar um bocado. – Sakura suspirou.
- Os mortos exigem bastante cuidado.
Ela concordou com um gesto de cabeça.
- Eu não fazia ideia disso até agora. Assim como não fazia sobre as joias.
Sasuke sorriu, charmoso e descontraído de novo.
- Por isso mesmo também tem a comida do Submundo bem diante de você. Sirva-se, Sakura, para que o espírito de Hinata não tema que sua senhora definhe aqui embaixo, sob o mundo dos mortais.
- Há! – Sakura começou a encher o prato. – Como se isso pudesse acontecer... Não rodeada por tudo isso! – Fez um gesto amplo com a longa colher de prata.
- Agrada-me que aprecie a beleza do Submundo – confessou Sasuke, servindo-se das azeitonas.
- Quem não apreciaria? – ela falou entre mordidas, e se arrependeu imediatamente quando viu a expressão dele começar a mudar outra vez. Foi como se Sasuke tivesse colocado uma máscara sobre o rosto, de modo a esconder suas emoções.
Continuou olhando para ele vez ou outra, na esperança de que ele descartasse a máscara e se tornasse acessível uma vez mais.
Nos minutos que se seguiram, comeram em silêncio, até que Sakura percebeu que a tensão nos ombros largos parecia ter melhorado, e suas feições, abrandado.
Tomou um gole de vinho, pensativa. Sim, Sasuke parecia infinitamente mais à vontade com a barriga lábios se curvaram num breve sorriso. Ele podia ser um deus, mas ainda era do sexo masculino.
- Você se importaria se eu lhe fizesse algumas perguntas sobre os mortos? – perguntou com cuidado.
Os olhos escuros se deslocaram do prato para ela, e de volta para o prato.
Então Sasuke mastigou e engoliu.
- Não – respondeu por fim.
Sakura apressou-se em falar:
- Não sei coisas básicas sobre o assunto, e não quero dizer nada que possa envergonhar Hinata, ou aborrecê-la de novo, como quando mencionei que ela deveria beber daquele rio, o...
- Lete - ajudou Sasuke.
- Isso mesmo, Lete. Viu? Era exatamente isso o que eu queria dizer. Não sei o suficiente sobre o Submundo.
- Faça quantas perguntas desejar.
- Ótimo... Em primeiro lugar, a deliciosa comida que estamos comendo. Ela me fez pensar: os mortos também se alimentam?
- Não. Eles não sentem sede e fome como os vivos, porém suas almas conservam a essência de sua vida mortal, de modo que eles levam para a eternidade suas necessidades e desejos. Você já percebeu isso acontecendo com a sua Hinata. Ela ainda carrega seus medos e inseguranças do Mundo dos Vivos, embora as coisas que a perturbaram não possam atingi-la aqui – respondeu Sasuke, tentando esconder sua surpresa com a , com certeza, não era o que ele esperava.
Ao contrário dos outros imortais que tinha conhecido, parecia genuinamente interessada em seu reino e nos espíritos dos mortos.
- Faz sentido. – Ela franziu a testa enquanto mordiscava uma pétala branca e açucarada. – É evidente que as lembranças de sua antiga vida estão perturbando Hinata. Eu... gostaria de poder fazer algo por ela.
- Já está fazendo, Sakura. O espírito de Hinata precisa de segurança; precisa saber que pertence a algum lugar. Ela teria, eventualmente, encontrado essas coisas em Elísia, mas você as trouxe até ela, dando-lhe um lugar a seu lado. Hinata agora se sente confortável, útil, e muito menos obcecada pelas chances que perdeu ou pelo que poderia ter sido.
Sasuke sorriu incentivando à jovem deusa. Sakura já havia feito muito pelo espírito da pequena. Muitos imortais achariam que a aflição de Hinata não lhes dizia respeito. Ela não estava mais entre os vivos e, portanto, não poderia adorá-los. Assim, seu espírito não mais os interessava.
Mas as atitudes de Sakura até o momento lhe diziam que ela não aderia àquela postura arrogante.
Sasuke notou que ela ponderava as palavras dele enquanto tomava um gole de vinho. Aquela deusa era um mistério. Tinha a beleza de uma imortal, mas parecia tão diferente...
- Isso me fez sentir melhor. – Sakura suspirou, dizendo a si mesma que se referia a Hinata, e não ao calor do sorriso de Sasuke. Estava ficando fascinada pelo Mundo dos Mortos, e não apenas por seu deus. – Eles dormem, também?
Os olhos de Sasuke se enrugaram nos cantos, numa reação divertida às perguntas inusitadas. Ele nunca havia tido uma conversa como aquela antes.
De repente, viu-se surpreso ao perceber o quanto estava gostando de trocar ideias com a jovem deusa a respeito de seu reino.
- Eles não dormem como nós, ou como fazem os mortais, mas também precisam de repouso.
- Os seus servos são como Hinata? Quero dizer, eles optaram por ficar aqui com você em vez de ir para Elísia?
- Alguns. Mas não por devoção a mim, como acontece com a sua Hinata. E sim porque eles encontram conforto ao se apegar a vestígios de sua vida mortal. Outros estão nessa função como penitência por suas ações.
Sasuke serviu-se do fruto do Submundo, enquanto aguardava a pergunta seguinte. Quase podia ver o cérebro de Sakura borbulhando. Ela parara de comer e agora rodava no dedo um fio dos cabelos longos. Um gesto que ele considerou estranhamente cativante.
- Naruto deve ser um dos mortos que permanece aqui porque ama você.
Desta vez, Sasuke não pôde deixar de rir em voz alta.
- Naruto não é um dos mortos, Sakura. Ele é um daimon. Mas, sim, ele optou por se manter sempre a meu lado.
Sakura não soube dizer o que mais a surpreendeu: saber que Naruto era um diabo ou perceber o efeito do riso de Sasuke sobre ela.
Reagiu, em primeiro lugar, ao menos importante deles:
- Naruto é um demônio?! – indagou com voz esganiçada.
Na segunda explosão de risos de Sasuke, a porta dos criados se abriu e vários rostos assustados espiaram a sala de jantar. Em seguida, recuaram rapidamente, mas não antes de Sakura registrar suas expressões chocadas.
- Eu disse que ele é um daimon, não um demônio. – Sasuke balançou a cabeça.
- Ah, sim... claro – Sakura gaguejou enquanto sua mente gritava:
Que diabo é um daimon?!
Por sorte, sua voz interior forneceu uma resposta:
Um daimon é uma divindade menor do que os deuses do Olimpo. Eles são guardiões, semideuses e imortais.
- Jovem Sakura, como deve estar chocada por não ter reconhecido Naruto como um daimon! – Sasuke concluiu, ainda rindo.
O maldito estava rindo dela e fitando-a com a mesma expressão condescendente e paternal que usara com Hinata. E ainda a chamara de "jovem Sakura"! Como se ela fosse uma garotinha ingênua! Ele não fazia ideia de que estava lidando com uma mulher adulta. E uma adulta que, definitivamente, não gostava de ser alvo de piadas do sexo masculino.
Sua irritação fez Sakura se esquecer de que Sasuke era o deus do Submundo e que ela era visita em seu reino. Naquele momento, ele era apenas mais um homem que a tinha aborrecido.
Sem parar para pensar nas consequências, estreitou os olhos e modulou a voz suave de Perséfone segundo a sua própria.
- Acho que, de certa forma, estou mesmo chocada. Até porque me ensinaram que um hóspede não deveria ser motivo de chacota.
Sasuke ficou sério no mesmo instante, reconhecendo em seus olhos a ira de uma deusa.
Era um idiota. Havia se permitido relaxar a seu lado e tinha tropeçado na armadilha de suas próprias fantasias. Sakura pertencia ao Olimpo, ele nunca deveria se esquecer disso.
Baixou a cabeça, aceitando a reprimenda.
- Eu lhe peço perdão, senhora... Mas creio que não há desculpa para a minha atitude rude.
Sem dizer mais nada, levantou-se, fez uma mesura e marchou para fora da sala.
Sakura o fitou por um momento, depois se pôs a praguejar num italiano mais do que fluente.
- Naruto! – A voz de Sasuke ecoou pela vasta câmara.
- Sasuke? – O daimon se materializou dois segundos após seu nome ser pronunciado.
- Vá ficar com Sakura. Quando ela terminar a refeição, mostre-lhe o caminho de volta para seus aposentos. E certifique-se de que tenha tudo o que deseja. – Sasuke continuou andando no mesmo ritmo, enquanto falava. – Eu a insultei.
Naruto permaneceu em silêncio, contudo, levantou uma sobrancelha.
- E depois a deixei lá – completou o deus. – Sakura ainda não tinha acabado de comer. – Sasuke passou a mão pelo cabelo, fazendo com que algumas mechas mais curtas se soltassem, e olhou para o leal amigo. – Sabe que eu nunca fui capaz de fazer isso.
- Isso o quê? – Naruto perguntou.
- Isso! Isso! Aderira esse ritual insano de fingimentos e provocações de que elas necessitam para manter o interesse.
- Talvez queira dizer esse ritual de conversar com uma deusa?
- É exatamente o que quero dizer! – Sasuke explodiu
Perplexo diante do comportamento do deus, Naruto manteve a voz calma e curiosa.
- E Sakura exigiu muito desse "fingimento e provocações" antes que você a insultasse?
Sasuke parou e esfregou a testa, considerando a pergunta.
- Não – respondeu com sinceridade.
- Estava conversando com ela?
- Sim! – ele admitiu.
Então a realidade se descortinou diante dele. Estava se divertindo. Sakura havia demonstrado interesse por seu reino, e fora tão fácil falar com ela! Ela era tão diferente de Afrodite, Atena ou...
Seus lábios se curvaram em um sorriso de escárnio, quando pensou nas outras jovens deusas que tinha conhecido. Eram beldades mimadas e manipuladoras que raramente se importavam com algo, além de suas próprias necessidades e desejos.
Ao escutar a voz de Sakura endurecer diante daquilo que ela tomara como um insulto, ele logo se lembrara das outras lindas imortais, e sua reação fora instantânea. Simplesmente abstivera de sua presença.
- Teve a intenção de insultá-la, teme? – Naruto quis saber.
- Claro que não, dobe! – Sasuke começou a andar outra vez, irritado pela forma que o daimon lhe chamou. Certos hábitos não mudam. – Apenas achei divertido o que ela disse. – Lançou a Naruto um olhar sombrio. – Sakura confundiu você com um dos mortos.
Os lábios de Naruto tremeram quando ele tentou não sorrir.
- Eu ri da observação e então falei com ela como se fosse uma criança. – Sasuke deu de ombros. – Foi isso o que a insultou. Ela reagiu como qualquer deusa teria reagido.
- Se aconteceu assim, a sala de jantar foi destruída e Sakura foi embora do Submundo? – observou Naruto, atento.
- Não, ela... Não. Sakura continua aqui e não destruiu nada. – Sasuke parou de andar e buscou o olhar do daimon, intrigado.
- Então ela não reagiu como qualquer outra deusa – concluiu Naruto. – Qual foi exatamente sua reação?
- Disse que um hóspede não deveria ser motivo de chacota.
- E o que respondeu?
- Eu me desculpei e saí.
- Posso sugerir que, da próxima vez, você peça desculpas e fique, teme?
- Da próxima vez? – Sasuke sentiu o peito arder de um modo familiar. Sabia que a sensação logo se espalharia para o fundo de sua garganta, e ele passaria outra noite sem dormir, cheio de raiva e ressentimento.
Era o que Hermes afirmou estar errado com ele.
- Da próxima vez – Naruto confirmou.
- Ela é diferente. – A voz de Sasuke se aprofundou, falando com uma intensidade controlada.
- Verdade.
- Ela não evita os espíritos. Ela... – Sasuke se interrompeu, lembrando-se do rubor da deusa, da curiosidade em sua voz e do calor em seus olhos. Apertou a mandíbula. – Eu deveria ficar longe de Sakura pelo resto de sua visita.
- Teme... – Naruto descansou a mão em seu ombro. -... Por que não se permite desfrutar a presença dela?
- Para quê, dobe? – Sasuke afastou a mão do daimon, irritado. – Para que eu possa aproveitar a vida e, quando ela for embora ou perder o interesse, o que é provável, eu fique de mão vazias? Não é o bastante, Naruto. Nunca foi.
Lá estava, mais uma vez, o que o distinguia do restante dos imortais, Sasuke pensou enquanto retomava suas passadas firmes. Ao contrário de outros deuses e deusas, ele ansiava por algo que havia testemunhado diversas vezes, em meio às almas dos mortais, mas que nunca vislumbrara, nem uma única vez, entre os imortais.
- Sasuke – recomeçou Naruto suavemente -, não é melhor experimentar um pouco de felicidade do que nenhuma?
- Não sou como eles. Não considero o amor um brinquedo.
Naruto fitou os olhos sombrios do deus, viu ali a solidão que Sasuke nutria por incontáveis eras... e sentiu o espírito se condoer pelo amigo.
O daimon pensou em Sakura. Havia algo único na jovem deusa; algo além de sua elogiável beleza e capacidade de espalhar luz pela escuridão. Sasuke não deveria evitá-la. Se o fizesse, receou Naruto, o deus do Submundo extinguiria qualquer possibilidade de eliminar a solidão de sua existência.
Mas como poderia persuadir Sasuke a desistir daquela reação instintiva de evitá-la, até que sua visita fosse concluída? Ele não estava habituado a receber visitantes. Sua existência era planejada, ordenada, definida, e não condizia com a dos outros imortais.
E a deusa da Primavera era, definitivamente, uma perturbação para Sasuke. Era bela, entusiasmada e intrigante.
Ah, se Sasuke se sentisse tão à vontade com Sakura como se sentia com os inúmeros mortos em seu reino!
Os olhos do daimon se arregalaram com uma ideia foi criando raízes e cresceu.
- Acho que tenho a solução, teme!
Sasuke fez um gesto impaciente para que ele continuasse.
- Imagine que Sakura é um dos incontáveis mortos do reino.
- Dobe, isso é ridículo!
- Por quê? – Ele abriu os braços, frustrado. – Está em guerra consigo, Sasuke! Diz que deve se afastar dela, mas, quando fala deSakura, vejo em seus olhos uma fagulha que esteve ausente durante uma eternidade! E se as Parcas, que têm o poder de controlar e decidir tudo, resolveram ser gentis e colocaram em seu caminho uma imortal? Como poderá saber, se permanecer fechado para a vida? Dê uma chance a Sakura.
Antes que Sasuke replicasse, Naruto inclinou a cabeça, como se tivesse ouvindo algo.
- Ela chamou meu nome.
- Então vá! – ordenou o deus.
Mas, no momento em que Naruto desapareceu, Sasuke gritou seu nome outra vez.
- Sasuke? – perguntou, materializando-se outra vez.
- Convide a deusa da Primavera para se juntar a mim amanhã, no Salão Nobre. Diga-lhe, que se ela ainda tiver interesse em conhecer o Submundo, escutar as petições dos mortos é uma excelente fonte de informações. – Sasuke proferiu as palavras rapidamente, como se quisesse exprimi-las antes de mudar de ideia.
Naruto sorriu, enigmático.
- Sim, Sasuke.
- Amanhã, então, Sakura...
Naruto fazia uma reverência e se preparava para deixar o quarto de Sakura, quando Hinata entrou correndo pela porta aberta e trombou com seu traseiro.
- Uff! – Ele cambaleou para a frente, tropeçou em seu próprios pés e caiu de cara no chão.
Sakura e Hinata olharam uma para a outra, boquiabertas; em seguida Sakura riu.
Não pôde evitar. Naruto sempre parecia tão digno, e agora lá estava ele, esparramado no chão.
Primeiro, soltou um riso sufocado que escapou de seus lábios.
Depois, outro escapou dos de Hinata: baixinho, fluido... e delicioso. Aquilo era, definitivamente, uma risadinha.
E esta lançou por terra os últimos vestígios de controle de Sakura.
Naruto se pôs de pé, lutando para recuperar o orgulho ferido, porém o som musical do riso das mulheres acabou por eliminar qualquer tipo de irritação, e ele se juntou a elas.
Como desejava que Sasuke estivesse ali! Ele precisava tanto de um pouco de alegria na vida.
Ainda rindo, ele olhou para o mármore liso sob seus pés.
- Parece que tropecei em alguma coisa.
- E o nome da coisa é Hinata. – Sakura falou com uma gargalhada.
A menina tentou, sem sucesso, reprimir as risadas com a mão.
- Então vou ter que prestar bastante atenção nessa coisa. – Os olhos de Naruto se iluminaram, cheios de bom humor, e Sakura concluiu enquanto assistia ao rosto pálido de Hinata corar, algo mais.
Olhou o daimon, pensativa, após este se curvar e sair, desta vez, com sucesso da sala.
- Oh, Sakura, eu tive um dia! – Hinata correu para um dos guarda-roupas, cantarolando uma musica animada, e puxou as gavetas até encontrar as camisolas de sua deusa. – Naruto me arrumou carvões e um pergaminho maravilhoso, e já comecei a traçar um esboço do palácio.
- Que bom, Hinata! – respondeu Sakura.
Ainda ponderando sobre o calor que tinha visto nos olhos do daimon, ela assentiu sem prestar muita atenção ao que a menina dizia, e permitiu que esta a ajudasse a se livrar do manto. Estendeu os braços, e Hinata colocou-lhe a camisola longa por sobre a cabeça.
Passou as mãos por toda a extensão do tecido. Era um cetim branco, primorosamente bordado com botões de narcisos. Tão macio que parecia água em sua pele.
- Sente-se aqui na penteadeira enquanto escovo os seus cabelos. Parece cansada... – comentou a moça, estudando sua senhora e notando as manchas escuras sob os olhos cor de violeta.
Sakura se acomodou na cadeira acolchoada, dando um suspiro de prazer quando Hinata começou a lhe escovar os longos fios com firmeza. Não tinha percebido o quanto ficara cansada.
Enquanto trabalhava, a menina falou alegremente sobre o processo de mapeamento do palácio, a voz jovem quase tão suave como o toque de suas mãos.
Sakura sentiu os ombros mais relaxados, e sua mente começou a divagar.
Depois que Sasuke abandonara a sala de jantar, ela havia terminado de comer e esvaziara o restante da garrafa de vinho.
Não. A verdade era que primeiro tinha amaldiçoado os homens em geral, depois decidiu que nunca mais outro sujeito malcriado arruinaria um jantar maravilhoso como aquele.
Quando concluíra a refeição por fim, dando cabo da excelente bebida, dissera o nome de Naruto em voz alta e, em um piscar de olhos, ele havia aparecido, pronto para acompanhá-la de volta ao quarto. Durante sua caminhada, Naruto fizera vagas referências à falta de visitantes no Submundo e comentara como ele tinha pouco experiência em entreter os convidados. Pedira, inclusive, que ela não o julgasse, ou àquele reino, tão duramente ou com precipitação.
Sakura entendeu a mensagem em alto e bom som. "Ele" era Sasuke, e não Naruto. O daimon decerto pedira desculpas pelo comportamento de seu deus.
Após ter dado conta sozinha do vinho e de ter seu temperamento um tanto alterado, sua vontade fora pedir a Naruto que transmitisse uma mensagem especial (e em Italiano) para Sasuke.
Porém, felizmente, um resquício de bom-senso a fez manter a boca fechada. Sasuke era um deus, e ela se encontrava hospedada em seu reino. Não fora inteligente de sua parte antagonizar com ele. Agora que estava longe de sua presença e tinha tempo para pensar sobre a noite, lamentava sua birra. Sasuke não era um adulto de sua idade que lhe convidara para jantar... Era um imortal poderoso, um ser sobre o qual ela sabia muito pouco.
E, exatamente, por que ela havia ficado tão aborrecida com ele? Ele tinha sido malcriado e imprevisível no jantar, sem dúvida, mas também fora interessante e sexy.
A explicação de Naruto sobre a falta de modos de seu deus fazia sentido. Sasuke não estava acostumado a receber visitas. Era evidente que suas habilidades sociais andavam um pouco enferrujadas.
E, de qualquer modo, como um imortal, o quanto educado ele precisava ser?Pensou na forma imperiosa de Tsunade e na grosseria de Shizune. Na realidade, o temperamento de Sasuke combinava bem com o daquelas duas.
Hinata terminou de lhe escovar os cabelos. Contudo, obviamente percebeu sua tensão porque começou a lhe massagear os ombros com as mãos frias e macias.
Sakura suspirou e fechou os olhos, deixando que o toque da moça lhe acalmasse os nervos e clareasse as ideias. Não tivera nenhuma razão plausível para atacar Sasuke. Não fora nem mesmo o alvo de sua piada. Ele apenas a tratara como a jovem e ingênua deusa que ela fingia ser, e sua ridícula explosão pouco fizera para lhe provar o contrário. Se queria que ele a tratasse como uma mulher adulta, deveria tentar agir como uma.
Merda! Encontrava-se ali havia menos de um dia e já estava fazendo tudo errado. Tinha perdido a cabeça? Afinal, estava no Submundo para cumprir uma missão.
Ao menos tivera o bom-senso suficiente para dizer "sim" quando Naruto lhe transmitira o convite de Sasuke para que ela ouvisse as petições dos mortos com ele na manhã seguinte. Agora precisava colocar a cabeça no lugar e pensar naquilo como uma parte do trabalho que Tsunade lhe atribuíra. Precisava ficar visível para os mortos, de maneira que sua presença lhes trouxessem conforto.
Seu "sim" nada tinha a ver com o fato de desejar passar mais tempo com Sasuke porque o deus sombrio a intrigava. Isso era ridículo, uma bobagem. Uma verdadeira estupidez.
Ainda que fosse verdade.
Não podia negar. Enquanto Hinata acalmava seus nervos em frangalhos, podia até mesmo admitir para si mesma: Sasuke a fascinava, assim como tudo o mais no Submundo. Sentia-se atraída por ele, provavelmente porque fora deslocada para aquele mundo incrível, e tudo ali era novo e único. Como poderia não se sentir fascinada pela magia que a cercava?
Porque tal magia incluía o deus responsável por ela. Era uma reação perfeitamente normal sentir-se compelida a descobrir mais sobre ele.
Ao menos foi o que ela disse a si mesma.
- Sakura, está quase dormindo – observou Hinata, e puxou-a pelo braço até a cama de dossel. – Deite-se. Vou cantar para você, como minha mãe costumava fazer para mim.
Cansada demais para protestar, Sakura permitiu que o espírito da moça a acomodasse na cama enorme.
Hinata aninhou-se junto a ela. Ainda acariciando seus cabelos, começou a entoar uma canção de ninar suave, sobre uma criança que viajava no vento, para uma terra de sonho repleta de cores.
- Hinata – ela sussurrou, sonolenta.
- Sim?
- Obrigada por cuidar de mim.
- Por nada, Sakura – a moça respondeu sorrindo.
E o sono envolveu Sakura, fazendo-a sonhar que viajara no vento enquanto perseguia a sombra de Batman.
Ih Sasuke-kun, parece que você fez besteira! hahahahaha
Só que isso não impede da Sakura refletir sobre o nosso querido Batman! O que será que vai rolar nessa reunião com os mortos? *-*
E a Hinata com o Naruto? Hm... parece que nesse mato tem cachorro! hahahahaaha
Andressa Martins: Espero que goste desse capítulo também! O clima entre eles tá ficando cada vez maior e isso inclui o interesse mútuo! A Sakura não resiste a um belo Batman, deus do Submundo. hahahaha
Elektra Black: Seja bem vinda! Fico feliz que esteja gostando e espero que aprecie esse capítulo! n.n
Susan: Espero que goste! n.n
Bem amores, é isso por hoje! Logo entrarei de férias e devo começar a postar com mais frequência!
Até o próximo capítulo.
Beijos,
Uchiha Lily.
