Capítulo dez

-Tudo ficará bem-

1.-

O gosto levemente forte tomou conta das suas papilas gustativas durante um considerável tempo mas, apesar disso, o calor da bebida lhe era reconfortante. Hermione se acomodou na gigantesca poltrona e sorriu docemente para seu amigo meio gigante.

-Pena que os meninos não puderam lhe acompanhar, Hermione. –comentou o homem enquanto afagava a cabeça do seu cachorro.

-É... Mas Harry disse que vem a noite.- tomou um outro longo gole. –Nesse momento eles não seriam uma boa companhia.

-Entendo. Não deve ser fácil para eles essa nova medida dessa tal Dolores. –o tom ressentido era notável quando o professor de cuidados das criaturas mágicas mencionou a nova diretora. –Juro, Mione, que se soubesse onde Alvo está não hesitaria duas vezes em abandonar o castelo. Essas medidas do Ministério não têm nenhum sentido. Será que o ministro realmente sabe o que essa mulher está fazendo?

A grifinória afagou Bichento, seu gato laranja. Enquanto o bichano ronronava com suas carícias, Hermione meditou sobre como Hagrid podia ser ingênuo. Era óbvio que o Ministério da Magia estava consciente de tudo que ocorria entre as paredes do castelo.

-E você nos deixaria Hagrid? –fez um biquinho entristecido.

-Claro que não! –o anuncio repentino e forte fez o cachorro ganir emburrado.

-Mas você disse que acompanharia Dumbledore.

-Bem... Apenas se vocês, crianças, estivessem em segurança. –um tom rosado de vergonha coloriu a parte da face do homem que não estava coberta pela barba escura. –Melhor! Os levaria comigo.

Hermione riu divertida. Estava apenas tentando brincar com o semigigante e abrandar a tensão. Ela sabia da lealdade do homem, podia entender como ele se preocupava com Alvo Dumbledore.

-Você realmente não sabe onde o diretor está, não é Hagrid? –suspirou pensativa. –Harry também está preocupado sobre o paradeiro de Dumbledore. –seguiu depois do aceno desanimado.

-Mas não devemos nos preocupar. Alvo disse que tudo estaria bem e que ele estaria a par de tudo o que acontecesse aqui.

Hermione assentiu com um ligeiro franzir de sobrancelhas. Gostaria de saber o que o diretor queria dizer com isso... Apesar de tudo, sua ausência afetava todo o castelo. A magia de Hogwarts não parecia a mesma.

-Você tem razão. – disse apôs alguns minutos. –Não devemos nos desanimar. –Hermione afundou-se na poltrona pensativa. De repente, as palavras de Severo Snape martelaram na sua cabeça. Que tipo de atuação teria na guerra que se aproximava? Não gostava de imaginar a si mesma obedecendo a todas as ordens de Dumbledore, afinal conhecia-se muito bem. Sabia o quão voluntariosa e teimosa podia chegar a ser. Além disso, era do tipo racional. Não queria ser uma marionete. Seria essa a resposta certa? Mas, apesar disso tudo sabia que faria tudo que estivesse ao seu alcance se isso ajudasse seu amigo.

-Hagrid... O que você acha do professor Snape?

Hermione mordeu o lábio inferior assim que as palavras pularam da sua boca. E, nervosamente, desviou os olhos de Rúbeo Hagrid dando toda a sua atenção para Bichento. Com o canto do olho viu o homem coçar o topo da cabeça pensativo.

-Eu acho Severo um bom homem. Talvez ele não tenha tato, nem paciência mas ele é de extrema confiança. –Hagrid franziu a testa por um curto período e sua voz se tornou mais séria. –Entendo que Harry e ele tenham seus maus entendidos mas vocês precisam entender que Snape tem seus motivos para ser do jeito que é. Algumas vezes, coisas do passado têm a capacidade de marcar uma pessoa para a vida inteira.

Hermione voltou a atenção para seu amigo. As palavras pareciam pesar na cabana e ela se indagou se as coisas do passado que Hagrid havia mencionado referiam-se apenas a Snape.

-Hum... Eu sei que o professor ingressou às fileiras de Voldemort quando era muito jovem. A imaturidade o ajudou a seguir esse destino. Mas o que o impulsionou de verdade, Hagrid? Snape não parece ligar para essas coisas de pureza do sangue, muito menos, é do tipo que é influenciado por amigos. Então o que aconteceu para que ele tomasse a marca de seguidor?

Hagrid mastigou alguns biscoitos de aveia, antes de olhá-la hesitante.

-São coisas que só dizem respeito a ele Hermione. Alvo me disse algumas coisas, entretanto, não tenho o direito de compartilhá-las. Mas posso dizer que isso serviu para eu mudar alguns conceitos que eu tinha sobre Severo.

Hermione assentiu rapidamente e mudou de assunto. Algumas horas depois saiu da cabana com Bichento nos braços. O gato estava agitado e pulou direto para a floresta proibida.

-Bichento!

Hermione olhou apreensiva para o céu. Logo, logo estaria escurecendo e não queria o gato na floresta quando anoitecesse. Ele era bem esperto para um gato comum mas Hagrid havia lhe dito que os animais da Floresta estavam muito inquietos com a saída de Dumbledore de Hogwarts. Com um suspiro entrou entre as árvores chamando por Bichento.

2.-

Com um resmungo Hermione chutou uma pequena pedra. Não havia passado nem uma hora que procurava Bichento, porém já se sentia faminta e se não corresse para o castelo, logo ficaria sem o jantar. Olhou para a frente, onde a vegetação era mais densa e escura e enxugou o suor da têmpora. Não iria adentrar, ainda mais, na sombria Floresta, concluiu. Se o fizesse poderia se perder.

Hermione já havia tomado à decisão de voltar para o castelo, quando sua boca foi esmagada por uma mão e seu corpo foi aprisionado contra o de um homem.

-Fique quieta Granger.

O pânico se acumulou na grifinória. A voz masculina tinha saído numa advertência sussurrada a impedindo de reconhecer o seu dono. Um pequeno gemido rompeu da sua garganta.

-Shhhh. –o pedido de silêncio do outro reverberou claro.

Tentando ignorar o medo atroz, Hermione começou a lutar contra aquele homem. Apesar disso, sua força era insignificante e todos seus movimentos apenas serviram para que o seu agressor a apertasse ainda mais contra si.

De repente, o som surdo de cascos a deixaram rígida.

-Droga, Granger. - resmungou o desconhecido. –Era justamente isso que eu queria evitar.

Hermione rolou os olhos a procura de criatura que se aproximava e desejou em silêncio que fosse algum ser inofensivo.

-Pegue a sua varinha. – Hermione sentiu um arrepio na nuca quando os lábios do homem tocaram seu lóbulo esquerdo. Aquela sensação foi tão intensa que ela precisou de segundos para perceber que estava livre. Quando o fez, se afastou e encarou o rapaz que estivera lhe aprisionando.

O perfil de Blaise Zambine a deixou confusa. Nunca tivera nenhum relacionamento com o sonserino e, surpreendentemente, em menos de uma semana havia trocado mais palavras com ele do que nos últimos quatro anos.

-Pegue sua varinha. –ordenou o moreno rispidamente. Hermione se afastou alguns passos dele e pousou a mão no bolso onde sempre acomodava sua varinha. Ela mordeu o lábio inferior e reprimiu suas queixas, não gostou do tom autoritário do companheiro mas não podia negar que o que ele dizia tinha sentido. Na verdade, aquilo a fez se sentir estúpida. Estivera zanzando pela Floresta sem a varinha em punhos.

A castanha continuaria com sua discursão mental, entretanto as folhas a sua frente se mexeram e por elas apareceu um imponente centauro. Ele era imenso e seus traços rústicos e lineares serviam para amedrontar àqueles que não se impressionavam com o seu tamanho. Apesar disso, com o canto dos olhos Hermione notou a tranquilidade de Zambine. O sonserino brincava com sua varinha, sereno como se estivesse no meio de uma aula de história da magia.

O centauro aproximou-se mais dois passos. O olhar afiado posto em Zambine.

Hermione apertou a mão no tecido pesado do uniforme, sentindo através dele o reconfortante formato da sua varinha mágica. Poderia pegá-la, contudo, tinha a sensação que ameaçar um ser mágico tão imponente quanto um centauro, não era uma boa ideia, além disso, sabia que os invasores eram ela e o moreno.

- O que fazem aqui? Vocês não são bem vindos nessa Floresta, bruxos.

Apesar da advertência e da voz brusca, a grifinória notou que o centauro não queria ameaçá-los. Talvez esperasse apenas que eles saíssem do território dele.

-Vocês devem voltar para o castelo... Imediatamente.

Hermione assentiu vagarosamente e se aproximou do sonserino que mantinha o semblante calmo. A garota não o conhecia bem, mas pela sua experiência com sonserinos, ou seja, Draco Malfoy, temia que o garoto se recusasse a receber ordens do centauro. Contudo, seu temor era infundado, Zambine apenas deu de ombros.

-Vamos Granger.

Hermione ignorou o usual tom autoritário, mas eles nem tiveram a oportunidade de darem nenhum passo. O silêncio da Floresta foi novamente rompido por um novo centauro. Este, entretanto, não tinha a aparência tão pacífica quanto o anterior. Os olhos dele relampejaram de ódio quando avistou os alunos de Hogwarts.

-O que significa isso?

Hermione olhou nervosamente para o novo integrante da clareira.

-Nós já estávamos indo. Desculpem-nos por invadir seu território. - a castanha colocou um cacho rebelde atrás da orelha e silenciosamente amaldiçoou seu gato alaranjado.

-Mesmo? –o tom do novo centauro foi cortante.

-Laios... Deixe-os. Não vão voltar a bisbilhotar por nossa Floresta.

Hermione olhou agradecida para o centauro mais racional. Apesar da sua voz mais brusca e da sua aparência mais rígida ele os estava ajudando, mesmo que essa não fosse sua real intenção.

-Como pode ter certeza Firenze?- resmungou o que se chamava Laios. Ele tinha a pele mais clara e os cabelos de um tom platinado. – Eles voltarão. São bruxos, se acham os melhores e donos de tudo que possui magia, ou não.

Hermione franziu o nariz. Não se achava superior a nenhum ser mágico. Na verdade, combatia justamente isso: o preconceito para com as criaturas mágicas. Ela abriu a boca, preste a replicar que nem todos os magos eram do jeito que o tal Laios afirmava, porém Zambine a segurou pelo cotovelo e fez um pequeno aceno negativo.

-Deixe-os. São apenas filhotes. –Hermione notou o franzir de testa de Zambine no fim dessa sentença. –Não está certo ameaçar seres inofensivos.

-Filhotes? –desdenhou Laios. –Aquele não me parece um filhote. Aponta-nos com sua varinha.

-Não vamos feri-los. –pontuou Firenze olhando para o céu. –Fizemos um acordo com Dumbledore. Nada de machucar filhotes de bruxos. Além disso, você leu as estrelas Laios... Tempos difíceis aproximam-se, muito sangue mágico será derramado. Nossas mãos não devem se sujar em tal ato.

-Que seja. –Laios concordou, entretanto Hermione sabia que ele não estava feliz em deixa-los em paz. –Mas não voltem mais aqui. Tenham certeza que não serão tratados com tanta consideração pelos meus outros irmãos se voltam a irromper em nossos domínios.

A sentença reverberou clara por uns segundos e então os centauros desapareceram na densa Floresta como se não tivessem passado de simples miragem. Hermione e Zambine trocaram um breve olhar e silenciosamente começaram a caminhar. Quando saíram na borda da Floresta, Hermione soltou o ar que ,sem notar, havia prendido. Ironicamente, a primeira coisa que notou fora das densas folhagens foi seu gordo gato laranja.

Ele estava esparramado dando longas lambidas nas suas patinhas dianteiras.

-Não acredito, Bichento! –soltou num misto de alívio e irritação. –Estava tão preocupada com você e esse tempo todo você estava aqui?- a castanha acariciou a pelagem do gato.

-Céus, Granger. –Zambine tinha um ar descrente. –Quase fomos mortos e o motivo era um velho gato obeso?

Hermione franziu o nariz e pôs as mãos na cintura. O encontro com os centauros foi tenso e ela admitia a si mesma que estivera amedrontada, porém nada se comparou as ondas de terror que havia sido vítima quando Zambine a apertou contra si.

-Ele não é apenas um velho gato obeso... E você estava pensando no quê quando me agarrou daquele jeito? – a voz feminina tomou um tom feroz.

-Eu não estou mais feliz do que você por tê-la "agarrado". –revirou os olhos. – Apenas abateu-se sobre mim uma rara onda de amabilidade e tentei ajudar uma companheira bruxa de uma morte certa por esses seres selvagens que proliferam nessa floresta maldita.

Hermione franziu o nariz pelo sorriso divertido do moreno. Amabilidade? Ajudar uma companheira bruxa? A garota tentou decidir se havia troça na voz descontraída do sonserino.

-Já consigo imaginar todos os seus pensamentos, pequena grifinória. Não consegue acreditar que um sonserino possa agir amigavelmente sem haver nenhum motivo escuso por trás...

-Deveria estar surpresa por poder adivinhar meus pensamentos? Qualquer estudante de Hogwarts ,em meu lugar, duvidaria dos bons sentimentos de um sonserino. –murmurou contrariada enquanto afastava-se com o gato nos braços.

-E onde fica a tolerância entre as casas tão defendida por Dumbledore? –comentou com um sorriso zombeteiro enquanto a seguia.

Hermione bufou. O rapaz riu levemente a acompanhando.

-E agora o quê? Pretende me acompanhar dentro do castelo também? –murmurou enquanto lançava um olhar questionador ao rapaz. –Uma nova onda de "amabilidade"?

-Não, embora você bem que gostaria, heim? –Levantou ambas as sobrancelhas com galanteio. –Como estamos indo para o mesmo local não vejo motivo de manter distância. Afinal, não é como se você tivesse lepra ou algo assim, não?

A castanha deu de ombros resignada.

-Não. Sofro apenas de algo chamado falta de ascendência mágica na minha família e achava que isso era o bastante para impedir qualquer tipo de contato com vocês ,sonserinos. –comentou irônica. Quando ultrapassaram as pesadas portas do castelo ela soltou Bichento dando-lhe um pequeno afago.

Zambine riu do comentário e a olhou pensativo.

-Sentido de humor,heim? –murmurou para si mesmo. –Quem imaginaria?

Hermione revirou os olhos e o encarou com os braços cruzados.

-O que afinal de contas você quer, Zambine? Não somos amigos e nunca trocamos mais do que umas dúzias de palavras. De repente, você me ajuda e quer que eu acredite que isso tudo apenas aconteceu por acaso?

-Aconteceu por acaso Granger. –o tom de voz agora era sério e levemente irritado. –Nem tudo que acontece com você tem que ser parte de uma trama fantástica. Desculpa se acabei estragando o enredo de mistérios que é a sua vida.

Hermione mordeu o lábio inferior quando ele lhe deu as costas e se afastou com aquele andar meio elegante que parecia fazer parte de qualquer um que pertencia a sonserina.

3.-

No dia seguinte, Hermione convenceu a si mesma que, provavelmente, mesmo contra a sua vontade, devia estar sendo paranoica. Nem tudo que lhe acontecia fazia parte de um enredo mirabolante de mistérios. Até mesmo Harry, com sua vida complicada de garoto-que-sobreviveu tinha momentos de adolescente comum como seu romance com Cho Chang. As coisas não pareciam andar bem entre ele e a corvinal o que ratificava a normalidade da sua vida amorosa.

E se Harry podia ter momentos normais na sua vida, então porque não ela?

Uma calma a preencheu pelo resto do dia apesar de uma pequena voz ,no fundo da sua mente, lhe ficar repetindo que seu amigo não havia beijado o mestre de poções nem havia recebido uma visita do seu eu do futuro.

Assim, quando foi pra biblioteca depois do almoço pra colocar as tarefas em dia, prometeu a si mesma que teria um dia completamente normal, sem nada fora do comum. É claro que algumas horas depois toda sua resolução foi por água a baixo. Pouco antes de se decidir a ir embora teve a mesa de estudo invadida por Zambine.

-Olá, pequena aventureira. -o tom bromista parecia algo próprio do sonserino.

Hermione franziu os lábios e cruzou os braços.

-Você quer o quê?

Apesar do seu modo brusco, o rapaz sorriu de lado.

-Preciso da sua ajuda.- anunciou claramente como se sempre tivessem sido amigos.

A castanha bufou exasperada. O que havia de errado na sua vida? Normalidade nunca fez parte dela desde que descobriu que era bruxa mas aquilo era o cúmulo.

-Zambine... Deixe-me em paz. - murmurou mortífera. -Não vou te ajudar. -anunciou arrumando sua pilha de livros pra ir embora, mas, como imaginou o garoto começou a caminhar despreocupadamente ao seu lado.

-Posso carregar os livros se você quiser. -ofereceu fazendo menção de tomar seus livros.

-NÃO! -explodiu chamando a atenção de alguns poucos alunos no corredor. A maioria estaria na sua sala comunal ou se preparando pro jantar.

Zambine deu de ombros.

-Só fui um cavalheiro,mas é óbvio que você não conhece nada disso com os amigos que têm.

Hermione o olhou descrente e depois de perceber a serenidade no rosto vaidoso, suspirou derrotada. Zambine nunca a deixaria em paz até que concordasse com o que seja que ele tramava.

-Tudo bem, dependendo do que for, ajudo.

-Ótimo! -ele deu um sorriso confiante. -Precisava de tanto jogo duro Granger? -comentou levantando e abaixando a sobrancelha sugestivamente.

-Eu posso mudar de ideia. -ameaçou irritada com o ligeiro rubor que tomou conta do rosto.

Zambine a conduziu para uma sala de aula vazia lá perto e esperou ela jogar os livros numa cadeira. O rosto dele tinha adquirido uma incomum seriedade quando tirou do sobretudo uma flor de pétalas negras.

-Preciso que você faça um feitiço de conservação nela. Eu tentaria, mas não sou muito bom no feitiço e essa flor possui alguns detalhes singulares... Já custou muito trabalho encontrá-la lá na floresta. -murmurou no final.

Hermione o encarou descrente. Ele quase se fere na Floresta por uma flor? E depois ainda teve a audácia de fazer pouco caso dos motivos que a levaram a adentrar a mata.

-Certo. -concordou atônita. -Que flor é essa? Pra quê você quer conservá-la?

Foi impossível impedir aquela pergunta pois estava muito curiosa. Ela achou que ele iria fazer alguma brincadeira ou contestar com tudo, menos a verdade, porém ele pareceu bem sincero quando disse:

-É para minha mãe. Não sei o nome científico dela, porém seu pólen tem alguns poderes mágicos mas nada muito fantástico. Ela é bem difícil de achar mas meus pais a encontraram na sua época de estudantes. -desviou os olhos para janela ao longe. -Tem um significado maior pra eles. Enfim, queria mandar pra minha mãe , pequena curiosa. -terminou com o tom debochado de costume.

Hermione pegou a flor. Ficou irritada com como foi chamada, mas fez o feitiço. Não era difícil, não entendia por que ele a procurou para ajudá-lo quando poderia ter pedido a qualquer professor.

Zambine sorriu agradecido e Hermione se surpreendeu com a simplicidade do gesto.

-Vou ser eternamente grato. -anunciou fazendo uma profunda reverência zombeteira.

Então, a partir daí ela e sonserino iniciaram uma estranha amizade. Nada comparado com a ligação que ela tinha com Harry e Rony, é lógico. Mas, de vez em quando, eles se encontravam na biblioteca ou nos terrenos dos castelos quando ninguém estava por perto ou prestando atenção. O humor negro e os comentários sarcásticos ,contudo, divertidos se complementavam com a sua teimosia e seriedade.

4.-

-O que está esperando? Mais castigos?- Snape resmungou impaciente encarando o grifinório de forma calculadora.

-Não! Professor Snape! –Neville levantou-se da mesa e afastou-se dos caldeirões recentemente limpos como se acabasse de receber um choque. –Quer dizer, sim! Professor!. –o rapaz de rosto redondo gaguejou e evitou o olhar ameaçador do homem. –Hum... Com licença, professor Snape. – e saiu derrubando uma cadeira.

Snape apertou a ponte do nariz e ladeou os lábios num sorriso irônico. A tarde havia sido uma perda de tempo infinita ao ter de suportar o assustado Longbotton, contudo, serviu para que por algumas horas tirasse uma certa grifinoriana da sua mente.

Os últimos dias haviam sido bem difíceis para o mestre de poções. Não bastasse ter de aturar a incessante carga de trabalho como professor e com isso os incontáveis alunos queixosos; como também fora convocado diariamente à presença de Voldemort. Pelo menos, nessas recentes reuniões, o Lord não tivera nenhum motivo para o torturar já que estivera trabalhando com afinco na sua atuação de leal seguidor. Contudo, não fora o ritmo puxado com os comensais e com o planejamento de aulas o que o estivera incomodando, depois de anos de prática já era versado nesses dois assuntos, mas sim, a aproximação de Hermione com Blaise Zambine.

Snape passou os longos dedos entre as mechas de seu escuro cabelo de forma pensativa. Não entendia como aquela amizade podia ter surgido. Conhecia o jovem Zambine o bastante para saber que ele não tinha laços estreitos com a pureza de sangue, como outros sonserinos, mas ele também não era do tipo que quebrava regras do protocolo da casa sonserina. Na verdade, o rapaz costumava ser bom em passar despercebido, o que era bem inteligente ao se tratar de conviver com serpentes. Então de onde viera o seu interesse em travar uma amizade com uma sangue-ruim e virar alvo da sua sala comunal?

Por outro lado, havia o mistério do que havia feito com que a sensata Hermione Granger travasse uma ligação com o sonserino. Em que momento eles deixaram de ser simples companheiros em algumas aulas?

Snape fechou os punhos com frustração.

Aquilo o fazia lembrar-se, à contragosto, da sua própria juventude. Encontrara Granger e Zambine por mera questão de coincidência. Fora a biblioteca a procura de um antigo ensaio de poções indianas, normalmente mandava um elfo para esses encargos, porém sentira a necessidade de dar uns curtos passos. O fato de que talvez pudesse encontrar certa jovem de grandes olhos dourados também contou como um fator para ir pessoalmente atrás do livro, pois apesar de não querer, não podia negar para si mesmo que constantemente lembrava-se do beijo que compartilharam. Então, enquanto fingia, pateticamente, que o doce e inexperiente beijo não lhe afetara em nada, aproveitava cada instante que podia para ter um vislumbre secreto da castanha. Assim, ao entrar na biblioteca percorreu atentamente as dezenas de prateleiras, embora soubesse com exatidão onde o livro que procurava se encontrava. Estava apenas tentando encontrar Hermione Granger.

A encontrou numa mesinha dupla, relativamente afastada da área que comumente a maioria das pessoas que frequentavam a biblioteca escolar escolhiam para fazer tarefas escolares. O local, em si, não o surpreendeu. Era mais discreto e a provável escolha de qualquer um que não quisesse ruído enquanto estudava. Mas ao ver que a garota estava acompanhada franziu a testa, principalmente quando notou o símbolo da sonserina na veste do seu acompanhante. Blaise Zambine estava sentado displicentemente e falava alguma coisa com um meio sorriso nos lábios. Hermione, no entanto, tinha a atenção em um pergaminho no centro da mesa e parecia pouco disposta a prestar atenção a qualquer coisa que o companheiro de ano falava, mas assim que o garoto fechou os lábios a grifinória riu deixando claro que apesar da postura, ela estivera atenta ao rapaz.

Por um momento, Snape lutou contra o impulso de sair de entre as prateleiras e romper aquela conversa. A estranha familiaridade com que se tratavam o exasperava. Contudo, se conteve e depois de alguns segundos deu meia volta sem os livros de poções nas mãos.

O incidente o deixou mal-humorado o resto do dia. Então, à noite, quando estava andando pelos corredores e os encontrou caminhando lado a lado, não se conteve. Principalmente quando ,ao se encaminharem para caminhos diferentes, Blaise enrolou os dedos de forma brincalhona nos cachos castanhos e bateu levemente no pequeno nariz da grifinória como forma de despedida.

Snape aproximou-se da garota que acabava de resmungar algo para si mesma. Ela fez um pequeno gesto de cumprimento educado, apesar da ligeira palidez que tomou conta do seu semblante.

-Senhorita Granger. -a chamou gelidamente.

Hermione engoliu em seco. Desde o beijo com Snape e a estranha conversa que tiveram em Hogsmead que conseguira evitar habilidosamente qualquer situação como aquela, ou seja, qualquer coisa que a obrigasse a encarar o mestre de poções sozinha. Sabia que era uma atitude bem covarde, porém, não entendia ainda muito bem como devia se comportar com ele depois daquilo.

-Algum problema professor Snape? - tentou se fazer de tola. Como era assim que ele a via não achava que seria um verdadeiro desastre assumi o papel.

As sobrancelhas escuras franziram-se demonstrando sua contrariedade.

-Desde quando a senhorita e o senhor Zambine travam alguma amizade? -questionou.

Snape odiou a raiva sem sentido ao pronunciar o nome do aluno. Tentou se convencer que a sua "preocupação" não tinha nenhum caráter pessoal, entretanto, a imagem dos dois jovens juntos lhe causava náuseas. Ele olhou atentamente as feições da garota e percebeu a surpresa dela se transformar, aos poucos, em indignação.

-Desculpe-me, professor... -Hermione fez questão de marcar o final. -Mas não entendo porque motivo eu teria de lhe responder a isso. -a garota respirou fundo cuidando para falar o mais educadamente que podia.

-Cuidado com a insolência, Granger. Ainda possuo autoridade suficiente para lhe pôr de castigo. -Snape a encarou neutro. Ele sabia que, provavelmente, estava fazendo um papel bem ridículo e que Hermione tinha razão em se negar a responder a sua pergunta, porém não admitiria isso.

-Sim, tem sim. -afirmou lentamente com os olhos dourados faiscando. -Tem autoridade o bastante pra isso, mas não o tem para se meter na minha vida pessoal.- acusou.

Assim, que acabou de falar, Hermione prendeu a respiração mal acreditando na forma como tinha repreendido a Severo Snape.

-Você não é tão inteligente, não é Granger?

O questionamento pensativo do homem a deixou vermelha. Duvidarem da sua inteligência a feria profundamente, pois, durante um bom tempo, achou que era a única coisa boa que tinha.

-A alertei sobre Você-sabe-quem e os perigos iminentes do futuro e a primeira coisa que você faz é arrumar um relacionamento com um sonserino.

-Sei dos perigos, Snape, mas até do que imagina. -murmurou com a voz trêmula. -Mas não ficarei neurótica vendo inimigos onde não existem. Blaise é um bom companheiro de estudos e o fato dele pertencer a sonserina não o torna uma má pessoa. -anunciou com sinceridade. -Não está certo conceber idéias pré-formadas dos outros... O senhor deveria saber mais disso do que eu.

Um repentino silêncio tomou conta dos dois. Hermione se sentia bastante fraca agora que havia explodido com Severo Snape. Não gostava de falar do futuro pois isso a lembrava das pontadas na cabeça e daquelas cenas assustadores que tinha com Voldemort. Por um bom tempo encarou os profundos olhos escuros do mestre de poções esperando um castigo pelo seu comportamento e linguagem desrespeitosa, mas ele continuava a olhá-la silenciosamente como se estivesse lendo a sua mente. Espera, um momento! Lendo sua mente! Hermione piscou os olhou e cortou o contato visual incrédula.

-Você entrou na minha mente! -a acusação saiu fraca dos seus lábios.

-Você deveria ter entrado em contato com Dumbledore, sobre os pesadelos. -afirmou sério. Snape fechou os punhos. Havia visto uma cena perturbadora da garota cortando o ventre... Haviam sido poucos segundos e só pegou aquela cena. Quantas mais a jovem vivia tendo? Snape se perguntou se ela tinha idéia de que aquilo, algum dia no futuro, aconteceu.

-Pra quê? Por quê? Ele não diria nada que poderia me ajudar!-Hermione mordeu o lábio inferior, podia sentir os olhos enchendo-se de lágrimas e a última coisa que queria era parecer uma garotinha fraca e assustada. -Não me faria esquecer, não tem como eu esquecer...

Hermione podia sentir que estava perdendo o controle e quando sentiu as mãos do mestre de poções lhe atraindo para um abraço, não conseguiu impedir suas lágrimas.

-Calma, Granger. -Snape tentou a reconfortar e apertou mais contra si. -Tudo ficará bem, Hermione. Eu prometo.