O resto do dia foi tão ruim quanto todos poderiam imaginar.

Reiner, como sempre, buscava nunca demonstrar suas fraquezas. Tentou agir normalmente o tempo todo. Foi ao refeitório tomar café com todos os outros cadetes; mas, mal tocou na comida. Realizou os treinos da tarde e fez suas tarefas com perfeição, embora, não tenha falado muito e também ficado bem distante de Bertholdt.

Bertholdt apesar de sentir muito a falta da companhia de Reiner, estava magoado demais para simplesmente fingir que estava tudo bem. Percebeu que Reiner o estava evitando, então, apenas se preocupou em também se manter o mais distante possível e se limitar a responder apenas o que lhe era perguntado.

Já passava da hora do almoço e Jean acariciava desolado seu estômago, que roncava sem parar.

— Achei que não tivesse ido almoçar porque estava sem fome!

Jean olhou para o alto encontrando Bertholdt sorrindo o olhando de cima.

— Ah, oi! - Jean voltou os olhos para o chão. Estava sem muita coragem para encarar Bertholdt depois de tudo o que aconteceu. – Você ouviu dai, é?

— Sim, desculpe! Minha audição é muito boa! - Sem nenhuma dificuldade, Bertholdt arrancou uma maça da árvore e a entregou a Jean. – Coma pelo menos uma fruta então!

— Não consigo comer nem o mingau! - da mesma forma que alisava o estômago, passou a fazer o mesmo no rosto ainda inchado, deixando uma carreta de dor escapar – Tem certeza que é uma boa ideia você estar aqui; depois de tudo o que aconteceu?

— Jean… - Bertholdt se abaixou tocando o rosto de Jean arrancando mais uma expressão dolorosa do garoto. – Eu nem sei como dizer isso, mas… me perdoe! - ah, aquela voz doce! Jean não conseguia ignorar aquela voz. – Não se preocupe se você quiser eu vou embora…

— Não! - Jean segurou a manga da blusa de Bertholdt. – Fique por favor! A culpa não foi sua; foi minha! Se eu não tivesse feito aquelas coisas…

Jean ficou vermelho. Acabara de confessar a Bertholdt que realmente tinha feito coisas com ele, ou melhor, pensando nele. Bertholdt também pareceu um pouco sem graça com aquilo. Jean soltou a roupa de Bertholdt e enfiou a cabeça entre os joelhos, em uma desesperada tentativa de se esconder. Bertholdt sentou-se ao lado do garoto e ficou ali, olhando para o nada.

— Você não quer me contar? O que deixou o Reiner tão irritado?

Jean ficou mudo por um bom tempo, sem nem ao menos se mexer. Bertholdt chegou a pensar que o garoto preferiu mesmo o silêncio, quando sentiu a mão de Jean pousar leve em seus cabelos. Jean fez uma pequena carícia, descendo até a nuca.

— Nossa que diferença! - Jean riu nervoso. – O seu cabelo é bem mais macio! - Bertholdt sorriu não acreditando que, um simples e inocente cafuné, fosse o motivo para toda a fúria de Reiner – E também… você não se arrepiou com o meu toque!

— Oe, cala essa boca seu depravado!

Bertholdt e Jean encararam Reiner assustados.

Reiner saiu de trás da árvore em que eles estavam encostados. Provavelmente, já estava ali ha um bom tempo, observando os dois.

Na verdade, Reiner havia seguido Jean, na intenção de se desculpar como havia prometido. Mas, quando viu Bertholdt ir até ali, conversar com Jean, achou melhor esperar. Talvez precisasse trocar aquelas desculpas por outra boa surra.

Bertholdt rapidamente desviou o olhos de Reiner, que o encarava. Jean fez exatamente o contrário, fixou um olhar raivoso sobre o loiro, que não se intimidou.

— Quem te convidou? - Jean não economizou na grosseria.

— Eu só vim porque prometi ao Bertholdt que ia te pedir desculpas por te massacrar daquele jeito!

— E então?

— Então o quê?

— Peça ué!

— Não quero mais! - Reiner cruzou os braços irritado com a atitude de Jean. – E pare de falar sobre a nossa intimidade com os outros!

— "Nossa" o quê? - o rosto de Jean se contorceu em uma careta assustadora. – Ficou louco? Se eu soubesse que era você ali, não teria nem te acordado para o café, quem dirá fazer carinho no seu cabelo! Aliás, o seu cabelo é uma droga; o do Bertholdt é lisinho olha só!

Jean mais uma vez acariciou os fios da nuca de Bertholdt. Reiner quase arrancou a árvore, em que estava encostado, do chão, de tanto nervoso. Jean afastou a mão de Bertholdt assim que viu os lábios de Reiner crisparem de raiva.

Reiner levou a mão até os cabelos de Bertholdt, mas, parou no meio do caminho, desistindo do toque. Bertholdt ficou apenas olhando com tristeza a mão se afastar.

— Eu conheço a textura de cada parte do corpo do Bertholdt! - agora foi a vez de Bertholdt se enfiar entre os joelhos.

— Né! Eu só a do cabelo mesmo; até agora!

— E se depender de mim, vai ser o máximo pra você!

— Que bom saber disso, Reiner! - Ymir também saiu detrás da árvore surpreendendo a todos ali. – Pois tá super certo, só vai depender mesmo de você!

— Ei, tem mais alguém escondido ai, para se intrometer? - Jean se levantou e deu uma espiada no lugar.

— Não, mas, falando em se intrometer… - Ymir passou o braço em volta dos ombros de Jean. – … já tá na nossa hora, né fofo? - Ymir saiu levando Jean obviamente contra sua vontade, deixando Reiner e Bertholdt a sós.

— Bem, no final você não se desculpou não é?

— Não mesmo! Quer saber, não vou me desculpar nem morto! Esse cara de cavalo não merece as minhas desculpas; mas você sim! - Reiner não olhou para Bertholdt quando disse aquilo, apenas ficou observando com satisfação, Ymir arrastar Jean para longe. – Des… desculpe por dizer que você estava se oferecendo pro Jean! Eu fiquei nervoso sei que você não faria algo assim.

— Só isso? - Bertholdt parecia desapontado.

— E por que mais eu preciso pedir desculpas pra você, Bertholdt?

— Por me machucar e falar na minha cara que preferia a Christa?

— Qual é o seu problema, Bertholdt? - Reiner parecia chocado com o estado ofendido do amigo. – Você sabe que eu sempre quis a Christa pra mim!

— Então, por quê? - Bertholdt sentia tanta vontade de voltar a chorar naquele momento, que nem conseguia terminar a pergunta adequadamente. Mas, Reiner entendeu – ou nem tanto – a dúvida do amigo.

— Porque eu pensei que você também queria, que estava com vontade! Não foi você que me perguntou aquele dia, se eu não tinha curiosidade em saber como era… estar com outro cara?

— Sim mas, eu não me referia a sexo! Eu estava falando de… - Bertholdt desistiu. Reiner só ia ficar mais irritado ainda, se insistisse naquilo.

— Esqueça tudo isso, Bertholdt; pense na Annie! Quando ela ficar bem de novo, você também terá uma chance de ser feliz!

— Mas eu nunca… - mais uma vez, a frase morreu. – Sim, você tem razão… eu vou esquecer!

— Vem, vamos comer alguma coisa e ir dormir! Vai fazer frio hoje à noite e eu adoro as noites frias, você sabe! - Reiner ameaçou passar o braço pelos ombros de Bertholdt, que desviou do contato.

— O que foi, Bertholdt? - Reiner perguntou preocupado, vendo Bertholdt andar um pouco mais afastado que o normal.

— Só seguindo o seu conselho… esquecendo!