Cap 10:

Era madrugada no instituto e todos há essa hora deveriam estar dormindo. O vento batia com força nas janelas, arranhando-as ferozmente. Graças a esse insistente barulho, que dava arrepios até no mais corajoso do instituto, os passos no corredor não seria escutados tão facilmente. Tinha que chegar lá o mais rápido possível, e o mais importante: Sem ser visto.

Sabia que se fosse visto seria o fim, provavelmente não haveria desculpa plausível pra usar naquela situação e a sua expressão inocente seguido de um "Nossa, o que estou fazendo aqui?!" já não enganava mais nenhum monitor há anos.

Desceu as escadas o mais ruidosamente possível, já mantendo em mente onde devia ir. Entrou no estreito corredor que levava àquele conjunto de salinhas frias e nada convidativas, as quais, se ele pudesse escolher, nunca mais voltaria.

-Haha! Nada por aqui, Wins.-Mello estremeceu. Rapidamente se escondeu atrás de uma mesinha de canto. Com a mão na boca, para não se ouvir o barulho de sua respiração descompassada, Mello seguiu o monitor com os olhos, até ele sumir do outro lado do corredor.

-Merda...Foi por pouco.-murmurou irritado. Por que ele sempre passava por esse tipo de situação? Já não era castigo o bastante não conseguir tirar seus pensamentos de um certo albino de meio metro?

Verificou se era seguro sair de trás da mesinha, que naquele escuro, dava um belo de um esconderijo. Saiu de lá lentamente, seguindo pelo único corredor do instituto com o piso tão frio que lhe causava arrepios. Era tão gelado e nos quartos devia ser bem pior. Como Near estaria se sentindo? Mello sempre teve a impressão de que ele era muito frio, quase como um cadáver, mas ao tocá-lo naquele dia não sentiu seus pequenos e delicados dedos gelados, pelo contrário, eram quentes. Seu corpo inteiro era quente.

Quando deu por si, já estava na porta de seu quarto da enfermaria. Sabia que não tinha ninguém que fazia ronda por lá e que a enfermeira estava dormindo no primeiro quarto do corredor, e o de Near era o ultimo. Poderia ficar lá parado, encarando a porta como se magicamente ela fosse abrir e o poupasse de qualquer esforço que teria que fazer ou no mínimo, o fizesse entender o por que de estar ali. Por que ele tinha que sempre fazer as coisas e pensar depois? E quando se tratava de Near todo o seu lado racional simplesmente desaparecia, e por mais que ele tentasse justificar seus atos com algum argumento lógico, sempre falhava.

Mas estar ali parado na frente da porta do quarto dele não era uma coisa normal, até mesmo para ele. Sabia que teria que fazer alguma coisa a qualquer instante, mas foi tão mais fácil quando acordou de madrugada e resolveu descer as escadas para ir ao quarto de Near. Ele sequer pensou o que ia fazer quando chegasse lá, apenas desceu as escadas e se arriscou para encarar sua porta.

"É apenas uma maldita porta, você também tem uma no seu quarto, Mello! Agora faça algo ou vá embora!" -pensou enquanto soltava um curto suspiro.- "Matt disse que eu estou com medo. MEDO! Eu não sinto medo, muito menos de um albino de meio metro! Poderia quebrá-lo agora mesmo se quisesse... e... Achei".

Seu tão almejado motivo apareceu em sua cabeça como uma lâmpada acesa. Sabia agora o por que estava lá e o que tinha que fazer.

Segurou a maçaneta sentindo a adrenalina aumentar a cada segundo. A girou lentamente, entrando no quarto logo em seguida e fechando a porta atrás de si. Tudo isso sem fazer um barulhinho sequer.

Olhou ao redor: Lá estava ele, seu tão odiado rival. Deitado na cama coberto apenas por um lençol. Sua expressão era calma, serena, como se nada nunca o perturbasse. Ele respirava calmamente não ciente de que havia alguém no seu quarto com intenções nada amigáveis. A luz da lua vinda da janela o iluminava parcialmente, dando a Mello a impressão de que Near estava ainda mais frágil. Chegando mais perto pode ver que ele estava muito abatido, algo que se visto por qualquer outra pessoa passaria despercebido. Mas não Mello, ele conhecia Near muito bem para saber que algo estava errado. Fraquejou em seu plano, começando a achar que não era certo de sua parte fazer mal a um ser inconsciente. Quando Near estava assim tão indefeso Mello não sentia tanta vontade de machucá-lo. O que ele não suportava era a sua indiferença, como se ele não fosse nada para Near. Aquela enorme vontade de machucá-lo que sentiu antes estava passando aos poucos, e Mello já devia saber que isso poderia acontecer. Afinal, tudo o que sentia por ele era imprevisível.

Parou perto da porta, observando cada detalhe de Near. Lembrou que quando era pequeno e o viu pela primeira vez achou que fosse um anjo. Talvez fosse pelo cabelo, ou por sua expressão de tranqüilidade. Mas no fundo, desde o primeiro momento que o viu, Mello colocou Near em um pedestal, como se ele não fosse humano, estivesse sempre acima dele e de todos. Assim ele passou a odiá-lo cada vez mais, odiava-o por que sabia que nunca poderia se aproximar dele, nunca seria bom o bastante. Seu ódio era como uma barreira que sempre o protegia de se machucar. E tinha funcionado, até agora. Até o momento que viu que não poderia mais fazer mal para o Near, apenas para ele não sofrer. Era muito egoísmo de sua parte odiá-lo daquele jeito. Mas para alguém que tinha traçado suas metas tão claramente e sabia de tudo, ele estava confuso demais. Queria ser o melhor para poder ser reconhecido pela pessoa mais importante para ele. Mas ele queria mesmo ser reconhecido só pelo L? Desde quando sua aprovação já não lhe parecia o bastante? No fundo, ele queria que Near o reconhecesse. Isso era o mais importante para ele.

-Mas isso nunca vai acontecer, não é Near? Você nunca vai me ver.-O travesseiro na sua mão estava a menos de dois centímetros do rosto de Near. Mello não conseguia raciocinar direito, apenas queria acabar logo com isso. Queria que a dor parasse. E não pararia se nunca mais tivesse que ver Near? Acabaria toda a sua confusão.

Suas mãos tremiam freneticamente e Mello soava frio. Tinha que fazer aquilo, mas por que não conseguia? Por que era tão difícil se livrar dele?

Largou o travesseiro no chão e parou por alguns segundos. O único som que se ouvia no quarto era o do coração de Mello. Eram batidas irregulares e muito aceleradas. Respirou fundo umas três ou quatros vezes, tentando, inutilmente, se aquietar.

Olhou para Near: Ele estava inabalável, nem acordara. Talvez o seu coração batendo não estivesse fazendo tanto barulho quanto parecia. Ele poderia sair dali e fingir que nada tinha acontecido. Mas Mello sabia que por mais que tentasse nunca conseguiria esquecer. Tudo o que Near fazia ficava na sua mente, martelando e martelando. Tudo nele o irritava. Mas Near nunca sequer demonstrava perder um segundo de sua vida pensando em Mello. Para Near, Mello era simplesmente o garoto temperamental que o amolava de tempos em tempos.

Precisava tomar uma atitude, precisava fazer algo. Qualquer coisa que pudesse apagar o pirralho de sua vida. Ironicamente, Mello passou a mão no rosto de Near, tirando uma mecha de cabelo de seus olhos. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha, não sabia direito o que o causou. Mas tinha certeza de não era de frio. Near estava quente, seu corpo emanava uma espécie de calor que Mello podia sentir apenas de se aproximar. Chegou mais perto, queria sentir mais aquele calor que, de certa forma, era aconchegante para ele. Não sentia mais raiva, apenas queria ficar lá, perto dele, sem instituto, sem Kira ou L, sem nada. Apenas os dois.

Queria se aproximar queria tocá-lo, mas sabia que ele poderia acordar a qualquer momento e Mello não teria como explicar o que estava fazendo lá e muito menos o que estava fazendo lá o agarrando enquanto ele dormia. Na verdade, soava extremamente doentio entrar no quarto de alguém durante a noite, tentar matá-lo e depois ficar tendo pensamentos estranhos com essa pessoa.

-Arrh...-Fechou os olhos com irritação. Sabia que estava corando só de lembrar que tipo de pensamentos lhe ocorreram minutos atrás. Devia ser muito problemático para querer esse tipo de coisa. Mas olhando Near assim tão indefeso devia confessar que era algo tentador.

-Nhhh...-Near soltou uns gemidos bem baixinhos, que fez Mello dar um pulo de susto.

Parado do lado de sua cama, estava Mello com a mão no peito tentando controlar sua respiração. Gotas de suor escorrendo por sua testa enquanto ele apertava o peito com toda a força.

"Maldito, MALDITO Near! Ele deve estar tentando me matar do coração! E essas porcarias de gemidos não vão me ajudar a esquecer esses pensamentos, seu idiota! Idiota!" -pensou Mello enquanto se agachava do lado da cama.- "Talvez se eu só... NÃO! Não seja idiota de estragar tudo agora! Você ainda pode sair daqui com a sua dignidade e saúde mental intactas... Esse maldito pirralho está me deixando louco!".

Mello já tinha perdido a noção do tempo encarando Near dormindo para tentar se acalmar. Não estava dando certo, e então, Mello fez algo que superava todas as ações impensadas de sua vida toda. Segurou a mão de Near. Foi tão rápido que ele nem se tocou que estava apertando a sua pequena mãozinha forte demais, e foi afrouxando cada vez mais, até segurá-la delicadamente. Sentiu com os dedos o aspecto de sua mão, era macia e tão pequena, tão delicada. Parecia que se Mello fizesse força, iria se quebrar em mil pedaços. E era quente, tão quente que Mello sentia que aquele calor estava esquentando seu corpo todo. Era uma sensação maravilhosa.

-Nhh...Mello?-Mello largou a mão de Near tão rápido quanto se levantou e foi parar na porta. Graças a Deus, ele concluiu, Near não podia ver o seu rosto. Ele estava completamente corado, quase roxo, pelo menos, era assim que se sentia. Tampou a boca para conter a respiração. Nunca que iria demonstrar para Near que estava agitado. Queria gritar bem alto, não era possível tamanha ironia. Ele podia ter ido embora, mas resolveu ficar. E pra quê? Para ser flagrado e não ter sequer uma explicação razoável em sua mente para justificar tal ato. Tinha entregado de bandeja para Near! Agora sempre que o olhasse, fosse qualquer expressão em seu rosto, o que quer que esteja fazendo, ele iria se lembrar da humilhação desse momento! Near não precisava fazer nada, e sabia disso, o maldito pirralho sempre sabia o que Mello pensava.

-Mello...?-falou com a voz sonolenta. Parecia querer confirmar o obvio. Estava esfregando na cara de Mello o que ele tinha acabado de fazer.

Mello engoliu seco. O que fazer? Fugir seria a primeira opção que passou na sua cabeça, mas não era nada conveniente. Teria que encarar Near mais cedo ou mais tarde e sabia que nunca mais poderia sequer se olhar no espelho depois de fugir. Seria como perder! E ele se recusava a perder para ele nessa situação constrangedora. Tinha que dar a volta por cima e rápido. Poderia falar que estava tentando entregar algo, mas ficaria obvio que era mentira. Ninguém faz entregas as quatro da manhã. Deveria contar a verdade? Talvez fosse a solução menos humilhante..."Near eu estou aqui por que eu não consigo tirar você da minha cabeça e quando vi estava parado na porta da enfermaria esperando a minha mente bolar alguma desculpa idiota para eu ter coragem de entrar ficar te observando dormir e sair sem você nunca saber que eu estive aqui. Ah, claro, essa parte não saiu conforme o plano inicial".Sim, definitivamente menos humilhante. Não existia saída para esse problema, nem mesmo Near acharia algo nessa situação. Mello pensou durante mais alguns segundos, sua mente estava a mil, mas nada prestava. E foi ai que teve uma idéia: Não faria nada, ficaria mudo na porta do quarto dele. Era a menos pior de todas e implicava em uma iniciativa da parte de Near que Mello estava louco para ver.

-Estou escutando a sua respiração, saia do escuro Mello.-pediu Near paciente, se sentando na sua cama, olhando (Mello não sabia como era possível) diretamente para Mello.

-Já entendi. Você não vai colaborar, não é mesmo?-esperou uma resposta, mas nada.-Então vou voltar a dormir.-Mello soltou uma espécie de rosnado de indignação, mas continuou parado na porta.

-Se quiser ir embora, não vou te impedir.-falou virado de costas para Mello, puxando os cobertores para voltar a dormir.

-Near!-chamou Mello, ríspido. Essa história de sentar e fazer nada não tinha nada haver com Mello, e Near sabia que ele não ia agüentar por muito tempo. Near sempre soube como provocar seu rival, mas nunca foi muito prudente na hora de parar de provocar.

--------//----------------//-----------

Olá a todos.

Primeiramente vou me desculpar pela demora. Foram mais de dois meses sem postar, né? Acho que vocês gostariam de me perguntar o que acontecer...Bem a resposta é: TUDO! XD

Primeiro foram as provas e eu não tinha tempo nem pra respirar, depois fomos viajar e começou aquele período de festas e eu tinha que ajudar com os preparativos e conclusão: Não entrei no pc durante dezembro todo.

E também já estava começando a sentir aquela falta de inspiração...Até que um dia (milagrosamente?) eu fiquei com insônia. Acordei as 4:00 da manhã sem sono algum e então resolvi escrever um pouco e saiu essa capitulo!

Pessoalmente, foi um dos que eu mais gostei. Talvez por que eu deixei o Mello bem paranóico e isso me diverte tanto...XD

Ficou meio trágico também, mas foi para mostrar a confusão de Mello diante dessa nova situação.

Para os mais sensíveis a condição de Near não está nada melhor. Eu sei que no manga nunca ninguém mencionou que sua saúde era frágil, mas essa foi sempre a minha visão pessoal dele e vou me prender a isso nessa fic.

Ryuuzaki vai aparecer em breve, hoho o-o'

Enfim, espero que gostem! Reviews são muito bem vindas! o/

E obrigada ao pessoal que acompanha, eu sei que não é fácil com uma fic com tantos capítulos.

Elle.