N/A: Demorei mais do que esperava, mas finalmente este capítulo saiu. Achei um pouco curto, mas muito necessário. E em breve chegaremos na parte que eu mais quero escrever! Não sei se será a parte que vocês mais querem ler, mas espero que gostem. Aí vai.
Ele é meu!
Capítulo 09 - Aleatória
A trilha de bordas enlamaçadas ligava o portão principal do Central Park até uma pequena praça pouco movimentada. Rachel ia chutando uma pedrinha pelo caminho, mantendo os olhos baixos conforme andava pela trilha.
- A gente pode começar do começo. – Annabeth quebrou o silêncio. – Por que você fugiu do Percy naquele dia?
Rachel ponderou se devia ou não dizer a verdade. Será que Annabeth sabia? Algo dentro dela dizia que sim: Annabeth não só sabia como provavelmente descobrira bem antes que a própria Rachel. Ela podia falar sem medo de arruinar o segredo.
- Percy disse que gosta de você.
Annabeth corou. – Ah.
- Você gosta dele? – A ruiva perguntou, sempre direta. Annabeth corou ainda mais.
- Eu acho. – Sussurrou em resposta. – Desculpe. – Falou, mais alto desta vez.
- Tudo bem. – Rachel surpreendeu a si mesma com a calma em seu tom de voz. – Acho que fiquei tão abalada com o caso di Angelo que não tive tempo de sentir meu coração se partindo.
Annabeth engoliu em seco. Rachel continuou. – Além do mais, eu não tinha chances desde o início. Com ou sem você perto de nós. Percy sempre me viu como uma amiga, e só.
- Rachel...
- Eu sei, eu sei. Eu sou divertida, inteligente, bonita e todos esses adjetivos que as pessoas usam para descrever as que foram rejeitadas. Mas eu não sou você, Annie. Nunca serei.
- E isso é muito bom, acredite. – Annabeth tentou encontrar o olhar da prima, que estava fixo na pedra que ela vinha trazendo pelo caminho. – Além do mais, você não foi rejeitada, Rach. Percy nem sabe sobre seus sentimentos.
- Ainda bem que não. Se ele soubesse, jogaria essa mesma conversinha para cima de mim. Não, - ela balançou a cabeça – prefiro que nós sejamos amigos como sempre e esqueçamos tudo isso. Eu converso com ele assim que conseguir encará-lo sem pensar que...
Annabeth suspirou, sentando-se em um banquinho próximo. Ela fez sinal para a outra sentar ao seu lado e procurou uma forma de mudar de assunto.
- E onde é que o Nico entrou na história? – Perguntou, enquanto Rachel se sentava.
- Esbarrei nele enquanto corria por aí. – A frase soava bastante estúpida, e Rachel se permitiu um risinho. – Ele me viu chorando, então fugi. Acho que ele me seguiu por alguns quarteirões antes que...
- Entendi. – Annabeth a cortou, vendo que Rachel não estava confortável para falar mais sobre o acidente. – E você já tentou falar com ele depois disso tudo?
- Esse é o problema. – Rachel, já sem a pedra, passou a brincar com a ponta dos cabelos, que lhe caíam sobre o ombro. – Eu não consigo falar com ele. Só... não consigo. Eu sei que devia agradecê-lo por... por... – Ela limpou a garganta ruidosamente. – por ter salvo a minha vida e tudo mais, mas eu simplesmente perco a voz quando estou perto dele. Já até cogitei escrever um bilhete ou uma carta, mas nunca sei o que escrever, e acho que seria pouco válido... Estou tão perdida.
- Eu não sei, mas parece que você está com medo da reação dele. – Annabeth opinou por fim. – O que, caso seja esse o problema, não deveria estar. Você ainda não notou o jeito que ele te olha agora?
É claro que ela tinha notado. Os olhos dele eram castanhos acobreados, tão fundos, tão fundos, que ela evitava encará-los por muito tempo por medo de cair lá dentro. O olhar desafiante (e sombrio, diga-se de passagem) que ele sempre sustentava ao redor dela tinha dado lugar a um estranho olhar questionador e confuso. Ele a olhava como se esperasse algo, como se dissesse "E então?".
- E no que isso ajuda? – Pensou alto.
- Como assim? – Annabeth fez uma careta. – Ora bolas, é óbvio que ele não está ressentido. Ele só está esperando você dizer alguma coisa.
- Não que isso me dê alguma ideia do que ele está esperando que eu fale. – Rachel bufou. – O que ele quer? "Sinto muito por você ter sido acertado por um caminhão"?
- Nós duas sabemos que não é bem assim. Ele só é orgulhoso demais para vir falar com você primeiro depois do que aconteceu. Outro dia o ouvi dizer que você só pode estar tentando enlouquecê-lo.
- Eu não estou fazendo nada. – Rachel se defendeu, largando o cabelo e encarando Annabeth.
- Exatamente! Por que não você não vai lá e fala com ele? Basta dizer o que você falou para mim. Diga que está agradecida pelo ato heroico dele; que você queria ter dito isso antes, mas faltaram palavras.
- Não é tão fácil quanto parece. Eu nunca fui muito chegada a ele. Não temos nenhum tipo de intimidade.
- Porque você não quer, Rach. – Annabeth respirou fundo. – Garanto que se você estivesse disposta, ele ficaria feliz em ser seu amigo. Só seja você mesma.
- Meh. – Rachel deixou escapar um grunhido descrente. – Você está muito cor-de-rosa para o meu gosto hoje.
Annabeth corou. Rachel riu; uma risada que não era exatamente feliz, mas quase desdenhosa. – Deixe-me adivinhar. Todo esse romance na sua vida está te amolecendo?
A loira encolheu os ombros, envergonhada. – Talvez. Eu tenho estado... boba.
- Compreensível. – Rachel sorriu. – As pessoas ficam bobas quando estão apaixonadas.
Annabeth não tentou negar, o que surpreendeu Rachel. Ela estremeceu um pouco, e a prima colocou a mão em seu ombro, tentando confortá-la, mas o gesto apenas deixou-a enojada.
- Está tudo bem? – Annabeth perguntou devagar. – Eu estar...
- Tudo bem. – As palavras tropeçaram para fora de Rachel sem muito controle. – Eu estou reagindo bem. Só preciso de mais tempo. De qualquer forma... – Ela reuniu forças para completar a frase. – Eu não quero que ele perceba que isso me afeta, sabe. Eu sei que nós... eu sei que nunca... Nunca daria certo mesmo, Annie. Ele nunca se apaixonaria por mim.
A mão de Annabeth continuava firme em seu ombro quando Rachel continuou. – É tão difícil falar com ele. Eu estou confusa. Eu nem tenho certeza se ainda gosto dele depois de tudo isso, mas o caso é... E se eu não gostar mais dele? Se eu tiver finalmente superado? E aí eu volto a conversar com ele e os sentimentos todos voltam... Não quero arriscar, de verdade.
Pausa. Annabeth respirou fundo.
- Ele se declarou. – Ela confessou, a mão vacilando um pouco. Rachel levantou os olhos.
- E o que você disse?
- Alguma coisa nerd sobre TDAH. – A loira desceu os olhos para o chão. – Depois eu tentei consertar... Disse que precisávamos de tempo, porque eu estava confusa com tudo o que aconteceu e ele podia estar sendo impulsivo demais.
- Ele sempre é.
Os olhos de Annabeth encontraram os de Rachel. – Eu não queria que as coisas acontecessem desse jeito, Rach.
Rachel sorriu; trêmula, mas sincera. – Eu precisava encontrar uma maneira de superar tudo isso. Você sabe há quantos anos eu estou apaixonada por Percy Jackson? O próprio Nico já tinha me dito... – Ela vasculhou a cabeça em busca das palavras exatas. – "Se você não girasse o tempo todo ao redor dele, já teria superado isso", ou algo assim. Não vou conseguir se não desgrudar dele.
- Mas vocês são amigos. Você não pode ignorar ele para sempre.
- Você me faria um favor? – A ruiva perguntou, esperançosa. – Inventa alguma desculpa, qualquer uma, para eu não poder conversar muito com ele. Diz que algo aconteceu lá em casa e eu estou frágil agora. Qualquer coisa. Faça a conversa parecer uma confissão. Dê um jeito de parecer que isso tudo não tem nada a ver com o caso de vocês e que... E que meu problema não tem nada a ver com ele.
Annabeth não gostava de mentiras – mesmo as brancas – mas assentiu, procurando reconfortar a prima. Rachel sorriu abertamente.
- E quanto ao Nico?
- Eu tenho um plano. – O sorriso de Rachel se dobrou com um pouco de maldade, mas ela deixou um riso inocente escapar quando a expressão de Annabeth se tornou assustada. – Calma, não é nada demais. Só preciso da oportunidade certa...
- Se você quer uma oportunidade, - Annabeth começou, um sorriso brincando em seu rosto – Percy disse que Nico está ficando na casa dele esses dias, por causa da perna quebrada. Ele está sozinho em casa agora. Se você estiver disposta a ir até lá conversar com ele...
- Não era bem nisso que eu estava pensando. – Rachel disse simplesmente. – Mas deve servir. Além do mais, - Ela riu. – Faz tempo que não roubo os doces da tia Sally.
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Os doces da tia Sally eram definitivamente a melhor parte de estar na casa de Percy. A cama quentinha, os muitos travesseiros e o videogame eram bons, mas nada se comparava aos doces. Nico tinha certeza de que engordaria vários quilos antes de sequer conseguir tirar o gesso.
Como seu pai estava quase sempre trabalhando, Nico passava a maior parte do tempo sozinho quando ficava em casa. Sua tia, Sally, não gostava nada da ideia de tê-lo andando sozinho de muletas por aí. Ela insistiu que ele dormisse alguns dias na casa dos tios, o que não era tão ruim. Pelo menos, ele tinha bastante mordomia.
Nico mal se mexeu quando ouviu a porta da frente clicar. Esticou o braço para pegar mais um punhado de jujubas e só então percebeu que elas tinham acabado.
- Percy? – Gritou do quarto. – Dá pra trazer mais jujubas?
Ninguém respondeu, mas ele sabia que havia sido ouvido. Após muito trocar de canal, Nico encontrou um filme razoável, mas um tanto quanto entediante. Ele já estava quase dormindo com apenas dez minutos de filme. Por isso, quando a porta do quarto se abriu, ele apenas lançou um olhar rápido em sua direção antes de voltar a encarar a televisão com tédio. Foi só alguns segundos depois que a imagem da pessoa parada na porta realmente se processou em seu cérebro, e Nico voltou a encará-la, desta vez surpreso:
- Dare?! – Ele falou, mais alto do que queria.
Rachel estava ali, parada, com os cabelos bagunçados caindo ao redor do rosto, ainda com a roupa que tinha ido ao colégio e com um saco grande de jujubas nas mãos. Ela própria estava mastigando uma jujuba e demorou um pouco até poder dizer sua resposta.
- Olá, dark boy. – Disse, energética.
Nico observou, congelado, ela caminhar até a cama e despejar o conteúdo do saco de jujubas no pote que estava em cima da cama. Em seguida, Rachel fez algo que o assustou ainda mais: empurrou o cobertor para o lado e sentou-se junto dele, com as pernas cruzadas.
- Jujuba? – A ruiva ofereceu, de repente, com um ar tão natural que Nico não conseguiu pensar em outra coisa se não esticar o braço e pegar algumas.
- Obrigado. – Ele disse automaticamente, sem graça. Rachel desviou a atenção para o televisor.
- Fúria de Titãs? – Ela encheu a boca de jujubas antes de continuar, o som de sua voz saindo abafado. – É um filme legal, mas achei pouco verídico. Quer dizer, que mitologia estranha é essa em que deuses viram cinza tão facilmente?
Nico olhou para a TV, depois para Rachel, de volta para a TV, então de volta para Rachel, completamente confuso. A garota riu – uma risada cheia e retumbante, que preencheu todo o quarto e fez o rosto de Nico ficar subitamente quente.
- Eu sei, eu sei. – Ela fez um gesto displicente. – Eu não sou muito boa com essas coisas. Nada sutil, também. – Rachel apontou o pote cheio de doces. – Mas é que eu não sabia muito bem como eu devia falar com você, e as jujubas pareceram um bom quebra gelo.
Foi a vez de Nico rir. – Rachel Dare, você é a pessoa mais aleatória que eu já conheci na minha vida.
Rachel sorriu. - E eu te devo a minha. – Ela respirou fundo, e o quarto permaneceu em silêncio por alguns segundos. – Muito obrigada.
- Não tem de quê. – Nico respondeu como se a situação fosse corriqueira.
- Não faça pouco caso da coisa. – Rachel falou em um tom sério, mas com a boca ainda cheia de jujubas. – Eu não teria feito o mesmo por alguém como eu. Sinceramente.
Outro silêncio. – Eu não te odeio, Dare. – Pausa. – Nunca te odiei, e provavelmente nunca serei capaz de te odiar de verdade.
Ela tombou a cabeça para o lado, confusa. – Como não?
- Eu sei lá. – Nico coçou a cabeça, buscando as palavras. – Você sempre foi chata e implicante, mas eu também nunca fui muito sociável. Eu ficava com raiva de você, mas você nunca fez nada de tão ruim para que eu te odiasse.
- Com licença. – Rachel limpou a garganta ruidosamente e passou a mão na perna engessada de Nico. Ele corou com o movimento, mesmo não tendo sentido nada.
- Isso... – O garoto enrubesceu ainda mais antes de se explicar, e Rachel se admirou com o tom de jambo que as bochechas dele podiam atingir. – Isso não foi nada, é sério. Eu teria feito o mesmo por qualquer um.
Rachel levantou a sobrancelha, e Nico percebeu o quanto o que ele havia dito tinha soado... estúpido. – Certo. Talvez não por qualquer um. – Ele passou a mão pelos cabelos. – De qualquer forma, quanto eu te vi parada no meio da rua, nem pensei direito no que estava fazendo, exceto no fato de que você talvez morresse ali.
Mais alguns segundos de silêncio. Nico evitou o olhar de Rachel por um tempo, até finalmente ter coragem de encará-la. Ela estava sorrindo; radiante, como sempre.
- Foi o que eu pensei. – Ele fez uma careta, e ela se explicou. – O que você fez faz parte de você. É parte do seu instinto, salvar alguém.
Não era uma verdade absoluta, e Nico sabia disso. Ele não tinha certeza de que faria a mesma coisa caso tudo acontecesse com um estranho e não com Rachel. Mesmo assim, ele fez um sinal de descaso com as mãos, e murmurou:
- O fato é que não estou nem um pouco arrependido, então você não precisa se culpar pelo que aconteceu. Eu teria feito a mesma coisa ainda que tivesse tempo para pensar no que estava fazendo.
- Posso te fazer uma pergunta? – Rachel falou, pegando algumas jujubas. Ele assentiu. – Quando você me seguiu naquele dia, você já imaginava que eu fosse fazer alguma idiotice, do tipo correr na direção de um caminhão no meio da chuva?
Nico riu um pouco antes de responder. – Sinceramente? Eu estava pensando que você podia escorregar ou algo assim. Nada tão – ele girou os punhos, em um típico gesto italiano – drammatico.
Rachel riu de leve; ela já tinha até esquecido que ele tinha descendência italiana. Por um momento, milhares de perguntas curiosas surgiram na sua cabeça, como o quanto de italiano ele entendia ou mais sobre a família dele. As perguntas eram um pouco intrusivas, e eles tinham apenas feito as pazes, então Rachel resolveu deixar tudo isso para depois.
- Obrigada mesmo. – As palavras saíram agora com uma facilidade mágica. – Eu até te abraçaria se não tivesse medo de quebrar alguma costela sua.
- Meu peito está ótimo. – E para reforçar sua afirmação, Nico deu uns tapinhas no próprio peito. Ele tossiu logo em seguida, e tossiu mais uma vez, desenvolvendo um ataque de tosse.
- Nico, Nico! – Rachel virou-se na cama, prendendo-o entre as penas, e segurou os braços dele acima da cabeça. Por mais que ele quisesse protestar, a tosse era forte demais. Nico só podia virar o rosto para evitar tossir em Rachel, apesar dela não parecer tão preocupada com isso.
Aos poucos, a tosse foi passando, e Nico voltou a respirar. – Desculpe. – Ele soltou, aliviado.
- Bom, - Rachel fez uma careta, depois sorriu. – achei que dessa vez você fosse morrer mesmo.
- Você vai ter que tentar de novo, Dare. – Nico sorriu de volta, de uma forma que Rachel só poderia descrever como sedutora. Ela sentiu o rosto ficar um pouco mais quente e sacudiu a cabeça.
- O que está acontecendo aqui?! – A terceira voz no quarto assustou Rachel. Ela deu um pulo nervoso para trás involuntariamente, acertando as pernas de Nico.
- Ai! – Ele reclamou, enquanto ela levantava da cama desajeitada. – Eu não estava falando sério!
Percy se aproximou da cama, e Rachel se encolheu enquanto ajustava suas roupas. – Então, - Ele disse. – o que exatamente foi isso que eu vi?
- Hã... – Nico se sentou mais ereto na cama. – Nada, eu diria?
- Eu já estava saindo, mesmo. – Rachel disse depressa, pegando algumas jujubas do pote disfarçadamente. Ela olhou para Percy de relance. – Annabeth veio com você?
Ele não parecia satisfeito com a situação ainda, mas respondeu a pergunta dela. – Não. Ela disse que tinha muitas tarefas para fazer em casa.
- Entendo. – A ruiva respondeu em tom baixo. – Acho que deveria ir para casa ajudá-la, então. – E após dizer isso, Rachel marchou até a porta, sem olhar para trás. Ela soltou uma respiração pesada antes de dizer. – Tchau, Percy. Tchau, Nico.
E foi embora.
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Apesar de sentir o olhar de Percy sobre ele, Nico tentou ganhar tempo. Ele arrumou os cobertores sobre suas pernas e os travesseiros em que estava apoiado; até recolheu algumas jujubas rebeldes que haviam pulado do pote com toda aquela movimentação repentina.
- Então. – Percy sentou na cama ao lado de Nico. – Parece que você e Rachel finalmente tiveram uma conversa. - Nico balançou a cabeça, concordando. - Uma conversa e tanto, a julgar pelo jeito que vocês estavam quando cheguei.
O mais novo corou furiosamente. – Ela estava tentando me fazer parar de tossir.
- Sentando no seu colo?
- Ela estava segurando meus braços! – Nico estremeceu. – Pelos deuses, Percy!
Percy riu, um riso um pouco nervoso. – Estou feliz que vocês tenham conseguido se entender, de verdade. Espero que vocês parem de brigar também.
- Também espero. – Nico concordou. – Não sei se "fizemos as pazes", mas...
- Ela tirou as coisas a limpo com você. – Percy concluiu. – Entendo. Ela tem estado... estranha, ultimamente. Me pergunto se tem algo de errado com ela. Com os pais, talvez?
Nico encarou Percy por alguns segundos. Obtuso, ele lembrou. Annabeth tinha dito uma vez que Percy era obtuso, durante um almoço qualquer. Ele não pôde deixar de concordar. Era mais do que óbvio que Percy não tinha a menor noção do que se passava dentro de Rachel – do que ela sentia por ele e como a sua nova relação com Annabeth a havia afetado. Talvez fosse melhor assim. Talvez o melhor fosse que Percy não soubesse de nada, para nunca se sentir culpado por tudo.
- Acho que sim. Deve ser algum problema pessoal... – Nico respondeu finalmente. – Você sabe que ela sempre teve problemas na família.
Percy assentiu, mais tranquilo agora. Ele mudou de expressão. – Acho que tem algo de errado com Grover, também. Eu sem querer ouvi uma ligação estranha dele no vestiário e, depois desse dia, ele tem estado bem deprimido. Não sei se devo me intrometer ou não...
- Acho que você deve dar um tempo a ele. – Nico comentou. – À Rachel, também. Algumas pessoas preferem não envolver os amigos nessas coisas enquanto tudo não está resolvido.
- Tem razão. – Percy sorriu. – Não sei se sou esse tipo de cara. Para falar a verdade... – Ele abaixou o tom de voz, como se tivesse alguém perto deles que pudesse ouvir a conversa. – Estou pra te contar uma coisa já faz quase uma semana.
Nico se segurou para não rir. Havia um exagero no tom de voz de Percy, como se a próxima frase que ele diria fosse um segredo obscuro que devia ser guardado a sete chaves. Ele até se inclinou para frente antes de dizer.
- Eu contei à Annabeth que estou apaixonado por ela.
Não era uma grande surpresa. Nico já tinha percebido. E ele sabia muito bem que o choro de Rachel no dia do acidente tinha a ver com Percy. Agora que Percy havia se aberto com ele, ele podia imaginar qual fora a conversa de Rachel com Percy antes de ela fugir correndo e se encontrar com Nico. Rachel era como uma melhor amiga para Percy. Ele deve ter se aberto com ela, também. E foi isso que a magoou.
Compreensão invadiu o corpo de Nico em segundos. Era por isso que ela estava chorando tanto. E por isso que ela não queria chegar perto de Percy – ou de Nico – por todo aquele tempo. E pelo visto ela escolheria se manter afastada e sofrer em silêncio até o sentimento ir embora. Isso se ele sequer fosse embora algum dia.
Ele percebeu que não havia dito nada, e sacudiu a cabeça. – Hã, é. Eu já esperava que isso fosse acontecer.
Percy demonstrou surpresa. – Sério? Você realmente esperava?
Dessa vez, Nico não segurou o riso. – Você não esconde muito bem.
– Duvido que você já imaginasse então o que vou dizer agora. – Percy grunhiu. – Ela me deu um fora.
- Um fora? – A voz de Nico se sobressaiu. – Como assim?
- Ela disse que eu estava confuso e sendo impulsivo. E ainda culpou o TDAH por isso.
- Estranho. – Nico falou em voz alta, mas falava mais consigo que com Percy. – Eu jurava que ela gostava de você.
- Eu também tinha minhas esperanças, mas ao que parece elas não estavam corretas.
Rachel não estaria tão mal assim se não tivesse certeza de que Annabeth correspondia os sentimentos de Percy. Talvez a própria Annabeth tenha dito "não" a Percy apenas para não magoar Rachel. Nesse caso, Nico não sabia o que dizer a Percy: se o incentivava a continuar com esperanças, ou se lhe dizia para desistir. Mas era quase certeza que Rachel não impediria Annabeth de ser feliz – mesmo que aquilo significasse sua tristeza. Ela incentivaria Annabeth. Nico devia incentivar Percy.
- Pois eu acho que estavam. – Nico disse por fim. – Acho que Annabeth só está um pouco confusa por causa de toda essa movimentação de agora... talvez os problemas em casa com os pais da Rachel. – Inventou desculpas. – Acho que ela só precisa de tempo. Você devia insistir. Por que não a chama para sair?
Percy levantou os olhos desconfiado para Nico. – Você acha mesmo?
- Acho. Tenta chamá-la para sair semana que vem, que tal? – O rapaz sugeriu. – Só não desista. – Acrescentou com um tom de certeza que fez Percy concordar com a cabeça.
- Certo. Vou tentar isso. E você... – Ele apontou para Nico. – Que tal fazer amizade com Rachel? Acho que uma amizade nova pode melhorar o humor dela.
- Talvez. – Nico não acreditava muito que o humor dela fosse melhorar apenas com a amizade dele, mas assentiu. – Vou tentar também.
E assim, uma promessa se fechou entre eles. No fundo, Nico havia concordado por um só motivo: ele queria, e talvez fosse capaz de, ajudar Rachel a superar tudo isso. Mais do que nunca, ela precisaria dele assim que Percy e Annabeth começassem a sair juntos. Nico conhecia Rachel bem, apesar deles nunca terem gostado muito um do outro. Ele sabia como ela era. Ciumenta até a raiz de cada um dos seus fios vermelhos. Ver Percy namorando outra garota seria um martírio.
Principalmente se essa garota era a prima dela.
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Quis postar hoje, antes do ano novo, então não li tantas vezes assim antes de postar, e podem ter me passado erros bobos. Sinto muito se isso tiver acontecido.
Feliz ano novo!
