Olá, Pessoas.

Não vou me demorar nesse prelúdio, apenas o suficiente para dedicar este capítulo a minha querida irmãzinha Mimica-Chan, que neste dia está completando 15 anos. Desejo a uma das minhas maiores incentivadoras muitos anos de vida e que ela continue esportista, inteligente, fofinha e baixinha. Te amo, Minhoquinha! ( :3 )

Bem... chega de tietagem. Vamos ao capítulo 10.

Disclaimer: Declaro que Sakura Card Captors e seus personagens não me pertencem e sim ao CLAMP; e que a fic, apesar de ter sido classificada como K , contém cenas de violência.


Cap 10 - Em busca da liberdade

Escrito por: Cherry_hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

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Ela vai embora…

Essa simples frase teve um efeito tão devastador em Shaoran que o congelou. Os segundos, os minutos se passaram sem que uma palavra fosse dita. Tomoyo não tinha coragem de falar alguma coisa. Como se contagiada por ele, ficou imóvel, mal atrevendo-se a respirar, mortificada e com muita pena do rapaz. Ela tinha plena certeza que ele tinha raiva e estava muito magoado com Sakura, mas ainda assim, ele a amava…

E deveria ser muito doloroso ouvir que ela iria embora.

- Então… - ele finalmente falou, com a voz surpreendentemente estável. - Ela finalmente vai embora?

- Bem… sim… - ela falou, surpresa pela frieza com que ele estava lidando com a notícia. - …já que ela conseguiu alcançar seus objetivos. O acordo… com minha mãe era ficar sobre a proteção de nossa família até conseguir o anel. E agora que ela conseguiu… não há mais necessidade de ficar conosco. Estes são os últimos dias de Sakura na nossa casa… mamãe queria que ela saísse imediatamente, mas ela precisa de algum tempo para se preparar para a viagem. Então mamãe já se sente satisfeita que ela deixe de comparecer aos eventos sociais até o dia de sua partida.

Ele assentiu, brevemente. Ela não sabia dizer com certeza se ele havia ouvido tudo que ela falara, visto que sua expressão, apesar de neutra, estava congelada em seu rosto. Repentinamente, ela sentiu que devia ir embora. Que estava sendo uma intrusa naquele momento. Levantou-se da cadeira, um pouco confusa e disse, hesitante:

- Shaoran… eu preciso ir… - ela se aproximou dele e colocou a mão delicada no ombro do rapaz, que finalmente pareceu capaz de fazer movimentos faciais e olhou para a moça. - Por favor… não fique pensando muito sobre o assunto. Ainda mais agora que acabou e ela vai embora. Sei que é difícil, mas tente, por mim. - após uma curta pausa, ela completou, tentando se mostrar animada. - Amanhã haverá o baile de lady Heaventown. Você irá também?

- Eu estava pensando em não ir… - ele respondeu, quase arrancando à força as palavras de seu íntimo. - Mas compreendo que devo comparecer, visto que dificilmente Fuutie irá e ela já havia confirmado presença. Devo, então, ir em seu lugar.

- Sei que não gosta de bailes, mas penso que servirá ao menos de distração para você… e eu estarei lá, de qualquer maneira… então… até logo.

Ele recobrou parte de sua civilidade naquele momento, e pegou a mão da moça e beijando-a suavemente:

- Eu lhe acompanharei até a porta.

- Não é necessário. - ela sorriu docemente. - Já vim tantas vezes aqui que quase me sinto de casa.

- Ao menos deixe-me chamar alguém para acompanhá-la.

Ele tocou a campainha e logo Wei aparecia, com eficiência.

- Wei, por favor, acompanhe lady Taylor até a porta.

Ele sorriu com doçura para a moça, que retribuiu a gentileza e o acompanhou pela porta. Shaoran ficou só e sentiu os segundos passarem. Então, ele se dirigiu até a sua cadeira e lá se sentou. Sua expressão era vazia, assim como se sentia dentro de seu íntimo. Vazio.

O choque que tomara ao escutar que ela finalmente iria embora fora enorme e ele não conseguia descrevê-lo. A sensação era de perda, de desamparo, como se tivessem dito não que ela partiria, mas sim, que ela havia morrido. Ele nunca sofreu nenhum dano físico grave, porém ele tinha certeza que aquela sensação gelada e dolorosa. - muito dolorosa. - que invadiu seu peito podia ser comparada a uma espada trespassando seu coração, jorrando o sangue e o calor de seu corpo e deixando-o frio e o vazio.

Ele fechou os olhos profundamente. Seu controle estava por um fio. A dor da descoberta da perda era terrível, lancinante, contudo precisava manter-se são. Em seu íntimo, sentimentos tão diversos brigavam entre si para ser o mais influente naquele momento: a decepção e a lamentação pela ida dela; a raiva que sentia, pois, ao seu ver, ela fugia e deixava para trás o seu ser em frangalhos; o alívio pelo motivo de todas as dores de sua família estar partindo; o amor que sentia por ela, que queria perdoar e humilhar-se diante dela e pedir que ela ficasse. Um tremor passou por ele naquele instante e ele percebeu que enlouqueceria se deixasse seus sentimentos o dominarem. Com muita dificuldade, ele foi acalmando o seu ser e o primeiro sentimento que lutou para sufocar foi o do amor doentio que nutria por ela, pois, a seu ver, era o mais destrutivo. E lentamente, a sua razão foi ganhando a batalha. Não havia nada que pudesse fazer e era o melhor que poderia acontecer: ela iria embora e, com o tempo, ela deixaria de povoar seus pensamentos e seu coração. Logo, ela seria apenas uma lembrança antiga e incômoda de seu passado.

Pensando assim, ele se sentia um pouco mais animado com o seu futuro e levantou-se, otimista. Porém, nem havia dado dois passos, um peso terrível pareceu afundar sobre seus ombros, impossibilitando-o de se mexer e lhe causando um ligeiro pânico. O medo e a angústia se infiltravam nele, tentando ultrapassar a barreira de sua sanidade, querendo invadir sua alma. Mas ele lutou, lutou com muita bravura, porque se não fizesse, seria destruído e tudo o que sua família não precisava era que ele, o chefe da família, se desestabilizasse também. Além disso, ele ponderou, era bem melhor que ela fosse embora mesmo, pois ela era a culpada por tudo o que sua família sofria e seria bem menos penoso seguir em frente sem correr o risco de vê-la por Londres. Pensando assim, ele conseguiu afastar ainda mais os sentimentos corrosivos que o ameaçavam. Tentou se acalmar, respirando calma e lentamente, muito quieto e de olhos fechados, quase como se entrasse em um transe.

Muito tempo depois, quando voltou a abrir os olhos, sentia-se bem melhor. Não nos melhores humores, contudo o suficiente para afastar os sentimentos que a ideia da partida dela lhe causavam. Finalmente, sentia certa paz de espírito. Mas sentia-se exausto, como se a batalha tivesse sido física também.

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Após sair de Lisbury's House, Tomoyo subiu em sua carruagem. Estava prestes a dizer a lacaio que desejava ir para casa, quando mudou de ideia: Sakura estaria ocupada com os preparativos de sua viagem e a última coisa que queria era passar algum tempo de qualidade com sua mãe, que com certeza teria apenas fofocas para contar ou planejaria seu futuro casamento com algum nobre rico da cidade. Por fim, decidiu-se a ir até uma pequena capela que ficava perto de sua casa, onde costumava ir para rezar ou simplesmente para fugir da pressão familiar. No trajeto, distraiu-se olhando o movimento das ruas. Felizmente era bem perto e logo ela saltava bem em frente a uma construção pequena, mas belamente decorada. Ela dispensou o veículo e adentrou na capela. Era um lugar que a moça sempre gostara de ir, pois ali havia uma atmosfera de paz que nunca conseguia achar em outro lugar. Sentou-se no segundo banco e durante um longo tempo ficou imóvel, olhando sem ver a cruz no altar. O que tentara se evadir na carruagem agora invadia sua alma: aquela extrema angústia, aquela terrível sensação de estar em um beco sem saída. Seu coração oprimido batia vazio, ecoando dentro no peito. E uma única pergunta ela se fazia sem cessar: o que faria agora?

Era verdade que amava o marquês de Cloversfield. Mas este era uma amor fadado ao fracasso. Sempre fora uma pessoa bastante sensata e racional, portanto tinha ideia que o que sentia não tinha importância alguma nos planos de sua mãe, que já sonhava com duques e príncipes. Para a duquesa, ela era apenas um peão no jogo a ser movida pelo tabuleiro da nobreza para torná-la rainha… e o marquês… Inevitavelmente, lembrou-se da figura alta, aristocrática, séria e bonita… e não pôde impedir que as borboletas no estômago batessem as asas incessantemente por algum tempo. O marquês, mesmo se sentisse algo, como Shaoran e Sakura pensavam, ele nada faria, orgulhoso como era. Se ele fosse rico… ah! As coisas seriam bem diferentes!

- Mas… ele não é. - ela falou para si mesma, tentando controlar a tristeza. - E… ele não me quer. Não sou boa o suficiente pra que ele me queira.

- Isto é uma pena.

Ela deu um grito que ecoou pelo pequeno espaço, parecendo bem mais alto do que realmente fora. Havia uma sombra que se projetava da porta da capela, alta e esguia. Apenas pela silhueta ela saberia quem era, mesmo que não tivesse reconhecido a voz profunda, mas não teve coragem de se virar. Na verdade, mal conseguia respirar. Manteve com o olhar fixo na cruz, tentando manter a serenidade, tentando controlar o tremor que agora fazia suas mãos chacoalharem levemente, o rubor que esquentava suas faces.

Ela ouviu os passos se aproximarem sem pressa e depois o leve farfalhar da roupa roçando levemente entre os bancos da igreja, um ligeiro suspiro e a sensação do banco de madeira em que estava sentada afundar levemente com o peso dele. E silêncio. Desta vez, um silêncio carregado de tensão, nervosismo. Apenas o que ela ouvia era o bater acelerado do coração em seu peito, que subitamente vivia, mesmo que temporariamente. Só de saber que ele estava ali, mesmo que só por aquele momento, enchia todo o seu ser de uma inexplicável felicidade…

- O… o que você está… fazendo aqui?. - ela conseguiu perguntar, com alguma dificuldade, ainda olhando para a cruz lá no altar.

- Estava indo para a casa do Shaoran. - a voz dele soou, bem mais perto do que ela imaginava. - Quando vi milady entrando nesta capela. E pensei em lhe perguntar como está o ferimento no braço.

Ela desviou, rápida, o olhar para o braço ferido, agora apenas enfaixado em um curativo leve. Notou que as mãos ainda tremiam e as fechou bem, quase furando a carne com as próprias unhas.

- Estou bem. Está… cicatrizando bem.

E o silêncio reinou outra vez, fazendo-a sentir-se incrivelmente incomodada. Ela tinha aquela inexplicável urgência de falar com ele, qualquer coisa que fosse, mas não conseguia, pois também sentia medo de falar bobagens e o aborrecer. E, ao mesmo tempo em que desejava trancá-lo na igreja e ali ficarem juntos para sempre, não queria que ele percebesse a sua tensão e desejava que ele fosse embora logo. E a última sensação venceu.

- Acho que milorde… não deve se reter aqui.

- Minha presença a incomoda?

- Não!. - ela respondeu depressa, num tom agudo. Recuperando-se acrescentou. - Imagino… apenas que milorde deva ser muito ocupado. E… não deve ser retido por bobagens.

Ele não respondeu, mas também não se levantou. Ela podia sentir o olhar dele em seu rosto, mas seus olhos ainda estavam fixos no altar.

- Eu… er… eu acabei de voltar da casa do Shaoran.

- Entendo… creio que, em sua atual posição, ele deva requerer sua presença com bastante frequência.

Havia alguma coisa estranha na sua voz. E lhe parecia vagamente como rancor, mágoa… ou estaria imaginando tudo aquilo? E ela o fitou. O olhar sereno dele estava pousado em seu rosto, imbatível, frio como metal no inverno. Ainda assim, teve o poder de tornar ainda mais quente as suas bochechas.

- O que quer dizer com isso?. - ela disfarçou o embaraço.

- Estou falando da corte. Está bem claro que logo um pedido de casamento será feito.

- Ah! Bem… - ela falou, constrangida. - Para falar a verdade, fui a casa dele por outros motivos. Nós… hã… não estamos noivos… e nunca ficaremos.

O rosto dele continuou impassível enquanto ela dizia aquilo e ela sentiu uma inexplicável decepção…

…porque queria que ele esboçasse qualquer reação, qualquer sinal de estar feliz por aquela

pequena explicação.

- Eu… eu gosto muito dele, somos bons amigos… então… quando houve o incidente do noivado da Sakura, eu quis ajudá-lo de alguma forma… se ele fingisse que estava interessado em mim seria mais fácil para ele enganar a nobreza… bem… você se lembra da situação.

- Lembro sim… - havia um tom de esgar na voz dele. - lembro-me bem que milady foi a minha casa pedir ajuda para trazê-lo do mundo dos mortos… O que não consigo entender é porque se sacrifica tanto por ele, então.

- Acho que estamos repetindo esta conversa. - ela retrucou, nervosa. - Já falei pra você que ele é apenas meu amigo.

- Sei bem disso. - ele respondeu, com a voz muito fria de repente. - Mas não estou convencido.

- Não sei por que o assunto lhe interessa tanto!

- Simplesmente não gosto quando as pessoas mentem pra mim!

- Não estou mentindo para milorde!

- Será que não? Talvez esteja até mentindo pra si mesma!. - ele argumentou, cortante, direto. - Talvez goste tanto dele que mente pra si mesma, fingindo que sentir algo inferior ao que realmente sente!

- Como ousa dizer isto de mim?. - ela perguntou, chocada e aborrecida.

- Milady é muito jovem, não sabe nada do mundo. Como pode saber o que realmente sente?

- Não é assim! Eu sei o que eu sinto por ele. E sei que não é amor!

- Como pode ter tanta certeza? Por acaso já amou outro homem para saber a diferença?

- Sim! Já! Eu amo…

Calou-se bem a tempo. Mordeu os lábios, para impedir que falasse qualquer outra coisa. Seria desastroso se ele soubesse o que ela sentia. Ele se afastaria dela, com certeza. Respirou fundo, procurando controlar-se.

- E o que importa? O que eu sinto não importa.

Ele permaneceu calado.

- Mamãe… mamãe quer me ver casada com um nobre importante e não liga para o que eu sinto. Desde que seja um título acima de um marquês… - ela o olhou de relance. - … e que ele seja rico.

- Você liga para essas coisas?. - ele perguntou, algum tempo depois. - Títulos? Status? Dinheiro?

- Não! Eu não quero nada disso! Eu… eu só quero o amor dele!. - e sua voz ecoou novamente pela igreja. - Eu preferia ser… eu preferia ser pobre!

- Você fala isso agora porque nunca passou as penúrias da pobreza. - ele rebatou, ríspido, irritado. - Não sabe o que é viver a incerteza de não saber como vai pagar seus empregados fiéis ou mesmo o que vai comer no dia seguinte. De ver suas terras improdutivas por não ter como comprar sementes e cuidar delas! De ver sua casa se destruir aos poucos!

Ela sabia exatamente o que responder, qual seria a solução para os problemas dele, mas ele se zangaria profundamente se ela sugerisse que ele se casasse com uma moça rica. Ela se levantou, respirou fundo e fechou os olhos, para impedir que as lágrimas de amargura brotassem de seus olhos.

- Esqueça! Não importa! Isso não muda nada!

- Por que fica dizendo que não importa? Acredita que seus sentimentos sejam tão insignificantes assim?

- São insignificantes se são em vão.

- Ele por acaso já disse que não compartilha dos mesmo sentimentos?

- Não… eu não sei o que ele sente!

- Então não tem como saber se o que você sente é importante ou não!

- Eu… bem… eu… não sei o que ele sente. - ela recomeçou, confusa. - Eu acho que ele não sente nada por mim… aliás, você me ouviu resmungar antes de entrar na capela.

- Falei aquilo porque acho que milady não se dá o devido valor.

Ela o olhou e seu rosto continuava sério, imbatível. Por que ele não demonstrava qualquer sentimento que corroborasse com o que ele falava? Ou melhor, por que ela não enxergava a emoção nos olhos que tanto desejava ver?

- Não tem como saber. Ele é uma pessoa séria, inteligente… decidida… acho que não há espaço para mim na vida dele. - as lágrimas inundaram seus olhos e escorreram por sua face e ela nem se importou por estar chorando na frente dele. - Embora… embora Shaoran e Sakura digam… ou pensem… que ele retribua meus sentimentos.

No silêncio que se seguiu, ela aproveitou para voltar a se controlar e secar as lágrimas com as costas da mão, de maneira deselegante. De que adiantavam as lágrimas, afinal?

- Eles estão certos.

A Tomoyo pareceu que seu coração havia escutado, antes que todo o resto do corpo, àquela simples frase cheia de significado e ele batia tanto, tão alto, que fazia com o que cérebro não conseguisse processá-la.

- O que você disse?

Ele se levantou e se aproximou dela. Seu rosto continuava sério, mas lentamente se desanuviou e se tornou sereno, terno…

- Eu disse que eles estão certos.

…e de repente sua voz também mudou, como se estivesse preenchida de algo indefinível, mas incrivelmente maravilhoso.

- … Eu te amo, Tomoyo.

Ela soltou um suspiro, preso no fundo de sua alma. Ela não sabia como explicar o que sentira naquele instante e desejou que o tempo parasse, que tudo congelasse e que pudesse infinitamente viver aquele momento maravilhoso, mágico em que ele dissera as três palavrinhas mais belas do mundo. Sua vista embaçou e ela não conseguia ver a expressão do rosto dele através das lágrimas. Mais tarde ela não saberia dizer quem fez o primeiro o movimento, mas quando deu por si, estava envolvida em um forte abraço, protegida e segura nos braços dele, molhando o casaco azul escuro com seu choro compulsivo. Fazia tempos que não se descontrolava daquele jeito e tinha plena consciência de que parecia uma criancinha com aquela atitude. Não havia importância. Queria apenas guardar aquele momento para sempre, a sensação dos braços dele ao seu redor, do cheiro agradável que ele emanava, da pulsação acelerada do coração dele em seu ouvido.

Ele se afastou um pouco, apenas o suficiente para segurar seu rosto com ambas as mãos. E, olhando em seus olhos, ela finalmente enxergou o que tanto desejava ver: ele parecia roubar-lhe o fôlego, o coração e a alma através daquele olhar.

E a beijou.

De olhos fechados, ela sentia a suave pressão dos lábios dele nos seus. Nunca havia sido e beijada e quando imaginara como seria a sensação, ela nunca poderia adivinhar que era daquele jeito. Nunca conseguiria descrever a emoção e o pulsar quente em seu coração que aquele toque lhe causava, exigindo mais e mais dela a cada instante, fazendo despertar um lado seu que não conhecia. E nem queria descrever a sensação. só queria sentir…

Depois do que lhe pareceram anos, eles se separaram. Ela abriu os olhos e outra vez viu nos olhos azuis profundos o amor, claro e transparente, como deveria estar faiscando nos olhos dela também.

Uma das mãos dele alisou a pele suave e macia de seu rosto e ela segurou-lhe a mão ali. Como se não quisesse que o momento passasse, como se não quisesse que ele fosse embora. Porque ela já sabia o que viria logo em seguida.

- Sim, eu amo você. - ele começou. - Amo você mais do que qualquer coisa. E saber que você me ama também é como saber que tenho o mais precioso tesouro no mundo. Nunca mais repita que seu sentimento é em vão, porque isto… - ele pousou a mão dele em seu peito levemente, sentindo através do vestido o palpitar acelerado do coração da moça. - … é a coisa mais preciosa que eu tenho. Você é o meu tesouro, Tomoyo.

- Mas… não sou suficientemente boa para você. Não… para ser sua esposa.

Não era uma pergunta. O semblante do marquês se tornou profundamente triste.

- Ao contrário: você é perfeita demais. Tão preciosa, tão pura… que eu não posso lhe dar tudo o que você merece.

- Mas eu não quero nada! NADA!. - ela falou, entrando em desespero. - Eu só quero estar com você.

- Você fala isto agora, mas não tem ideia da vida miserável que eu levo. Quando herdei o marquesado, herdei dívidas e humilhações que tento limpar com o pouco que eu tenho. Não quero você lutando essa causa quase impossível comigo, quando você merece apenas o melhor…

- Por favor, pare de dizer isso!. - ela o interrompeu, a voz trêmula. - Pare de dizer que eu mereço ser rica! Eu conheço a riqueza, eu nasci em berço de ouro, mas nunca fui feliz! Você acabou de me proporcionar agora mais alegria e felicidade do que já tive em toda minha vida! Eu quero estar ao seu lado, quero ajudá-lo e reerguer suas propriedades, porque eu sei que você é capaz! Por favor… por favor…

Ele lhe lançou um olhar profundo e cheio de dor, mas quando voltou a falar, sua voz estava calma e fria.

- Suponhamos que eu vá agora a sua casa pedir ao duque sua mão? Ele vai me aceitar? Você acha que sua mãe vai querer um marquês falido como genro?

- Minha mãe passou a minha vida inteira me jogando de um lado para o outro, o mais longe dela possível e agora quer me usar como escada social!. - ela falou, cheia de rancor. - Acha mesmo que me importo com a opinião dela? Para o que ela quer? A decisão é minha e o que eu quero é ficar com você!

- Mas e a sociedade? - ele rebateu, duro. - Se nós nos casarmos, as más línguas sempre haverão de falar que me casei com você por dinheiro. Eu não sou um caça-dotes, Tomoyo!

- Nós sempre voltamos para o dinheiro! É esse o grande problema, não é? Você não consegue aceitar que sou mais rica que você? É isso?

- Não! O que não quero é que falem de nós!

- Então que seja! Se esse é o problema, eu abro mão de minha riqueza, minha família, minha herança! O que você diz disso?

- Eu não posso pedir para que você faça isso!

- Não peça! Não precisa! Mas… por favor… não me deixe…

Ele colocou os dedos em seus lábios para calá-la. A expressão de dor era tão profunda que, mesmo se ela não estivesse sentindo o mesmo dentro dela, ela seria contagiada e sofreria. Ela sabia que era inútil argumentar. Ele a amava. Ele a queria como esposa. Mas, enquanto não pudesse, enquanto não tivesse condições para isso, ele não a pediria em casamento. Eriol estava batalhando para ter condições para tal, mas isso demandaria tempo. E, por mais que ela dissesse que esperaria, ambos sabiam que, até lá, a duquesa já a teria arrastado para um casamento de interesse com algum duque ou algum príncipe. E seria o fim…

Tomoyo adoraria argumentar, utilizar qualquer artifício para convencê-lo. Contudo, sabia que estender aquela discussão só causaria dor a ambos. Ela se conteve e, a muito custo, engoliu o choro, escondeu a tristeza, sufocou a dor. Teria tempo mais tarde para chorar. Esboçou um sorriso trêmulo.

- Eu queria tanto poder convencê-lo, mas eu não consigo. Eu te amo, Eriol.

- Eu também te amo. - ele sussurrou de volta, encostando sua testa na dela.

De olhos fechados, ficaram assim por vários minutos. Então ele a largou, com muita dificuldade. Quando se separaram, ela sentiu que ele levava um grande naco do seu coração com ele.

- É melhor você ir. - ele falou, controlando a voz para soar calma e confiante. - Ficarei aqui mais alguns minutos…

Ela assentiu com a cabeça e se afastou, utilizando toda a sua força de vontade para não ceder ao impulso de se humilhar e implorar para que ele fosse seu marido. A cada passo que dava, o vazio em seu peito aumentava e mal controlava as lágrimas. Antes de sair, ela se virou e o viu parado no mesmo lugar, olhando-a com aquele olhar aflito. Sem perceber ela deu dois passos na sua direção.

- Não venha. - ele ordenou. - Não torne isto mais difícil do que já é.

Ela recuou, e o vazio aumentou. Mas ela sorriu tristemente e perguntou:

- Ao menos verei você… no baile de amanhã a noite?

- Não creio que seja uma boa ideia. - respondeu ele, automaticamente.

- Por favor… ao menos isso… - a voz dela se quebrou. Se falasse algo mais, seu controle desmoronaria.

Finalmente, ele assentiu. Com um último olhar ela, saiu da capela. Quando a porta se fechou, ele se deixou cair no banco e, durante muito tempo, como Tomoyo fizera antes dele, ele ficou olhando para cruz lá no altar, sem realmente vê-la.

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…havia apenas o som do vento. Vento que soprava mais forte que uma brisa, mas mais leve que uma ventania.

"…Siuil… siuil…".

Soprava no escuro, no vazio. Não havia nada, nem mesmo ele estava ali. Só a sua consciência… e o vento.

"…Siuil… siuil…".

Havia algo mais que o vento. Era uma voz. Uma voz que cantava, suave, doce… baixa…

"… siuil… siuil… a run…".

…uma canção que ele não conhecia.

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Shaoran acordou desnorteado. Pela claridade quase inexistente vinda da fresta da cortina, ele diria que deveria ser cinco da manhã. Ele deu um muxoxo e se ajeitou na cama. Acordara impressionado pelo sonho. Não havia nada nele, só aquela voz, mas havia sido tão real que esperou que realmente alguém estivesse ali no quarto cantando, quando despertou. Mas, é claro, não havia ninguém. Voltou a fechar os olhos, mas demorou apenas alguns segundos para perceber que o sono fora perdido. Ele se sentou na cama, ajeitando os travesseiros para que ficasse confortável. Logo, os pensamentos de todos os eventos dos últimos dias reivindicaram sua atenção e ele se deixou levar, sem muita escolha. Por mais que pensasse em soluções, por mais que tentasse achar qualquer ideia com a qual pudesse se agarrar e conseguir se salvar, nada vinha em sua cabeça. O ciclo vicioso e venenoso recomeçara outra vez. Resignado, ele se deixou levar.

Seu olhar pousou na caixa que guardava o pente, que agora não saía de seu criado mudo. Num gesto automático, ele a pegou e tirou a esmeralda faiscante lá de dentro. De tanto olhá-la, ele já a conhecia bem, como se ela fosse uma velha amiga. Aquela esmeralda possuía uma pequena rachadura em sua superfície, quase imperceptível, mas que feria a perfeição da jóia. Mas, ainda assim, o conde a mirava fascinado, vendo através dela mais do que realmente via. Pensava no dia que começava, o primeiro de muitos que viriam, cheios de incertezas. Normalmente, ele pensava, a vida é vivida sempre com o objetivo de viver um dia melhor que de ontem e pior do que o de amanhã, construindo sonhos e traçando os caminhos para torná-los realidade. Vivendo o presente para construir o futuro.

No caso dele, essa meta não tinha propósito. Saber que tudo pelo que ele lutara e lutaria, todos os seus planos, suas ambições… fatalmente seriam em vão, pois o seu destino (assim como do resto da sua descendência) seria o da tristeza.

- Seria melhor… seria melhor se realmente eu não tivesse sabido de nada. - ele murmurou, distraidamente.

Mas, por causa de sua curiosidade, sabia da verdade e a única coisa que podia fazer era aceitar… mas como se conformaria?

Ficou muito tempo sentado ali, olhando a esmeralda. Nem sentiu o tempo passar e se assustou quando a porta foi aberta para dar passagem ao criado que sempre lhe despertava pela manhã.

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E o dia passou. Nem devagar, nem rápido demais. Apenas passou. Os segundos, os minutos, as horas… num dia nem chuvoso, nem ensolarado, nem agitado, nem entediante… apenas um dia… o primeiro de muitos iguais.

Shiefa e Fuutie continuavam na mesma situação. Fuutie já estava começando a emagrecer e havia olheiras fundas embaixo de seus olhos sem vida. Ela comia um quinto do normal. Shiefa parecia composta, mas não conversava e mantinha o olhar vazio. Ambas passavam a maior parte do tempo sozinhas. Na verdade, ele também passou a maior parte do dia morgando na biblioteca, vendo literalmente o tempo passar, olhando o pêndulo do relógio ir pra lá e pra cá.

A coisa mais excitante que acontecera foi a visita do doutor Babington para dar uma olhada em Fuutie. Ele conversou algum tempo com a moça e depois solicitou alguns minutos para falar com o conde. Assim que adentrou na biblioteca, fez-lhe uma respeitosa mesura e foi direto ao assunto:

- Milorde, lady Lisbury continua enferma. Essas condições, em que o mal vem do coração e não do corpo físico, causam estragos terríveis. Há médicos que não acreditam que a força de pensamentos ruins possam ferir o corpo, mas eu acredito nisso. Do mesmo jeito que acredito que sua irmã deve recuperar seu ânimo antes que seja tarde.

- Eu sei disso. Eu fico feliz que você seja da opinião de que, quando a mente enfraquece, enfraquece o corpo também. Mas… - Shaoran suspirou. - A situação é muito delicada. Trata-se de um amor intenso e não correspondido.

- Se me permite a ousadia, milorde, creio que todos os membros da família são suscetíveis a questões do coração.

Não havia qualquer sinal de cinismo ou maldade naquela observação, que obviamente fazia referência ao próprio conde. Por isso Shaoran não se sentiu aborrecido com a impertinência do médico. Suspirando, ele disse:

- Você tem razão. Infelizmente, temos este pequeno problema, como uma maldição sobre nós. - E era isso mesmo!

- Bem… milorde se recuperou, então tenho esperanças para o caso de sua irmã mais nova.

- E com a mais velha também. - comentou o conde, de passagem, mas o os olhos verdes do jovem médico logo se anuviaram de preocupação.

- Lady Barker não está se sentindo bem?

- Acho que não. Desde ontem, ela parece aérea e distante…

As faces do médico tornaram-se levemente rubras, mas o conde apreciou o controle que ele manteve de si.

- Acho que você deveria vê-la. - disparou Shaoran, seriamente. - Não quero que ela fique doente também. Já basta Fuutie.

- Sim, milorde. - ele voltou a fazer uma mesura e se afastou, dando a conversa por encerrada. Shaoran, porém, levantou-se e falou antes que ele alcançasse a porta.

- Fique sabendo, doutor Babington, que eu quero o bem das irmãs, mais do que tudo. Amo-as e as quero felizes. Portanto, aprovo qualquer coisa que você faça e que possa fazê-las felizes. Qualquer coisa.

O rapaz olhou-o como se soubesse que havia qualquer coisa mais importante implícita naquelas palavras, mas Shaoran não saberia dizer se ele realmente entendera o que ele quisera dizer. Ele apenas assentiu e saiu do aposento.

O conde voltou a se sentar, sentindo-se vazio. Sabia que Shiefa estava sendo cabeça dura e que a maldição tinha uma grande parte nisso, mas não significava que não faria qualquer coisa que aliviasse aquele terrível peso da sua família. Talvez o doutor Babington fosse mais eficiente em convencê-la. Ou não.

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A última coisa que o conde desejava era sair de casa, mas já havia confirmado presença. Ainda bem que aquele era um dos últimos bailes da temporada. Mais uma vez, Fuutie deixara de ir a um baile ao qual confirmara presença. Ao menos a desculpa de que ela estava doente não seria seguida de nenhum tipo de estranheza.

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Shaoran caminhava com um ar distante, procurando os pontos do salão menos cheios de pessoas, enquanto bebericava uma taça. Notou alguns olhares em sua direção e perguntou-se se alguém ainda tinha algo para falar de sua vida e fechou o semblante. Embora talvez fosse apenas curiosidade com relação a lady Taylor. Tinha absoluta certeza que já estavam pensando que o casamento entre eles logo seria anunciado e agora lá estava ele, sozinho pelo salão. Pensando em Tomoyo, procurou-a pelo salão e logo a localizou na pista de dança… com o duque de Ormrod.

O conde sentiu a raiva borbulhar em seu íntimo. Como ele tinha o atrevimento de mostrar aquela cara de porco em público depois de todo o escândalo envolvendo lady Avalon? Ele falava, sorrindo com arrogância, enquanto lady Taylor ouvia com educação. Embora (talvez porque já a conhecia bem) sentisse um ar levemente contrariado em seu rosto e achasse as faces mais pálidas que o normal. Ele os acompanhou com o olhar enquanto executavam a dança e, quando esta terminou, ele percebeu que o duque tinha a intenção de dançar mais uma vez. Sem hesitar, ele atravessou o salão em passos rápidos e, antes que Ormrod pudesse fazer alguma coisa, fez uma mesura a Tomoyo e perguntou, polido:

- Boa noite, lady Taylor. Alteza. - inclinou displicentemente a cabeça em direção ao duque, que também fechou a cara. - Pode me conceder a honra da próxima dança?

- Claro. - respondeu a moça, prontamente. - Tenho certeza que sua Alteza não se importará, não é mesmo?

- Somente se milady aceitar dançar comigo as próximas duas danças depois desta. - ele respondeu, num tom que pretendia ser galante, mas que, infelizmente, por causa da bebida que lhe subia a cabeça, era quase cômico.

- Seria uma honra, Alteza.

Dando um último olhar cortante a Shaoran, ele saiu da área de dança, em direção ao um garçom que servia conhaque.

- Porco! Estúpido duque pedante!. - Shaoran desabafou, baixinho. - O que você faz dançando com ele?

- Ele me pediu algumas danças… e mamãe… pareceu satisfeita ao aceitar em meu lugar!

Ele procurou rápida e discretamente a duquesa e não teve dificuldade em enxergar os cabelos avermelhados nos quais cintilava uma coroa de esmeraldas. Os olhos azuis, tão parecidos com os da filha fisicamente, mas completamente diferentes em essência, estavam voltados para eles, com um ar de completa desaprovação. Para provocar, ele apertou um pouco mais a moça contra si. E continuou a dançar…

- Não deixe que sua mãe controle você! É a sua vida e não a dela.

- E o que adianta, Shaoran? O que eu posso fazer?

- Lute! Pelo que você quer! Lute.

Ela o olhou nos olhos e o coração dele se condoeu pela enorme tristeza que havia ali.

- Shaoran, quando uma flor, delicada e desprotegida, vê a tempestade chegar, ela não pode fazer nada ao não ser rezar para que tudo passe sem que ela saia muito machucada. É deste jeito que eu me sinto no momento. Uma flor frágil, fraca, que se curva a vontade do vento!

- Tomoyo…

- E é duas vezes pior. - ela o cortou, alteando levemente a voz. - quando eu tenho que fazer tudo sozinha!

- O que quer dizer?

Ela lançou um olhar cheio de dor para um ponto atrás dele. Com um passo elegante, ele rodopiou e viu para quem ela olhava. Não se surpreendeu muito ao ver o Marquês um pouco afastado de todos, observando a movimentação dos casais que dançavam. Seu olhar pulava propositalmente o exato ponto onde ele e Tomoyo dançavam. Ele baixou seu olhar para a moça e a surpreendeu enxugando uma lágrima discretamente.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sim… mas eu… não gostaria de falar sobre isso. Já é doloroso o bastante.

- E então… - ele replicou, frio. - Será assim? Sua mãe a obrigará a casar com o duque de Ormrod e você aceitará de cabeça baixa?

Ela encolheu os ombros e não disse nada. Ele crispou os lábios.

- Case comigo, então. - ele pediu, sem pensar duas vezes.

Ela arregalou os olhos, completamente surpreendida.

- Eu prefiro que você se case comigo, porque, mesmo que nós não nos amemos do jeito certo, eu posso lhe fazer mais feliz do que jamais será com o duque.

- Mas… como você disse, não nos amamos… eventualmente, o casamento mudará a nossa relação… e poderá ser para pior!

- Será?. - foi a vez dele de encolher os ombros. - Nós não sabemos o que o futuro nos reserva. Podemos nos surpreender. Pode ser que, um dia… - ele soltou a frase no ar, mas sem perceber, seu semblante transpareceu um ar de dúvida. E Tomoyo soltou uma risadinha divertida, a primeira depois dos acontecimentos na capela..

- Nem você mesmo acredita no que diz!. - seus olhos voltaram a se anuviar. - E mesmo que eu aceitasse, mamãe…

- Sua mãe nem iria saber!. - ele a cortou, ríspido. - Nós poderíamos fugir, casar escondidos… a duquesa só saberia quando fosse tarde demais para tomar qualquer providência!

Tomoyo ficou calada por alguns instantes, mas não parecia estar considerando a ideia. Era apenas como se estivesse controlando alguma coisa que tentava aflorar em seu rosto, mas ele não sabia exatamente o que era. Por fim, ela sorriu (tão belamente que ele se perguntou, pela milésima vez, POR QUE ele não conseguia vê-la como uma mulher desejável) e disse:

- Shaoran, eu jamais, jamais, esquecerei o que você quer fazer por mim! Isto é uma prova enorme de que você me tem em alta conta, assim como eu o adoro, como um querido irmão. Mas, justamente por gostar tanto de você, não posso lhe roubar a oportunidade de ser feliz. A qualquer momento, você poderá conhecer uma mulher maravilhosa, que realmente o mereça e que lhe trará felicidade. - ela hesitou por um momento e Shaoran se perguntou se lhe passava pela cabeça o mesmo que se passava pela dele: o impasse da maldição. - Eu não posso permitir que você perca essa chance, mesmo que ela seja remota, porque você quer me salvar de uma situação que só eu posso evitar…

- Tomoyo…

- Por favor, não insista!. - ela rebateu, com firmeza. - Esta é a minha decisão.

Ele suspirou.

- Pelo visto, esta é uma coisa que vocês dois têm em comum: a teimosia! Vão se dar muito bem… ou se matarão um dia!. - ele resmungou.

Ela enrubesceu levemente, mas o sorriso que ela deu voltara a exibir aquela tristeza com a qual ele já estava se acostumando.

- Isto não vai acontecer. Eu desisti!

A pequena orquestra tocou os últimos acordes da música e os pares concluíram a dança. Os aplausos ecoaram pelo salão e os casais começaram a se dispersar. Shaoran, porém, quebrou todo o protocolo quando segurou a moça pelos ombros e disse:

- Tomoyo, não desista! Você merece ser feliz, merece se casar com o homem que ama! E ele também merece se casar com você, pois eu tenho certeza agora, mais do que nunca, que você é mulher certa para ele. Lute, minha querida! Lute!

E depositou um beijo carinhoso na testa dela. Ele escutou com clareza as pessoas ao redor exclamarem de surpresa e viu vários grupinhos se formando, os olhares maliciosos em sua direção, falando com rapidez sobra a sua atitude. Mas ele não se importava! Mais do que nunca, ele pouco se lixava para aquela sociedade mesquinha, que não aceitava que o coração viesse antes que a linhagem e o ouro. Aquela era sua irmã de coração e esperava que suas palavras e atitudes lhe dessem a coragem necessária para lutar…

…mas, se alguém lhe perguntasse mais tarde, ele responderia que também esperava arrancar qualquer reação de um certo marquês que deveria ter visto a cena.

Quando deixou Tomoyo novamente refém do duque, ele caminhou um pouco pelo salão, evitando propositalmente qualquer pessoa que quisesse lhe falar. Depois de algum tempo, ele avistou Eriol parado no mesmo lugar, sozinho e com o semblante indecifrável. Ele se postou ao lado dele, mas não falou sequer uma palavra. O conde podia sentir a tensão crescer, tornando-se quase uma terceira pessoa entre eles, incitando-os silenciosamente para um embate, que poderia ser apenas uma troca gentil de palavras ou uma luta corporal até a morte. Foi Shaoran quem quebrou o silêncio.

- Você não vai tirá-la para dançar?

Ele não respondeu. Ou esboçou qualquer reação que indicasse que o conde lhe dirigira a palavra. Shaoran, já com os nervos a flor da pele, se irritou de verdade.

- Eu a pedi em casamento… agora a pouco.

Nenhuma alteração, nada da parte dele.

- Tomoyo é uma moça muito especial, que passou por muita coisa na vida. Acho que nunca experimentou a verdadeira felicidade. E eu quero que ela seja feliz.

- Suponho, então… - ele falou, com a voz distante e calma. - a julgar pelo sorriso que ela lhe deu ainda agora, que ela o tenha aceitado. E o beijo tenha sido para selar o acordo entre vocês.

- Você poderia ser um romancista, embora necessitasse de um pouco mais de emoção em suas historinhas. - retrucou o conde, tão frio como ele. - O que eu lhe propus foi uma fuga… mas ela, como a moça corajosa que é, recusou-se e vai enfrentar sua sina.

Nenhuma palavra.

- Ou talvez… - ele falou, incapaz de impedir a provocação na voz. - Ela tenha apenas desistido… porque ela percebeu que o amor é completamente em vão se não há coragem para sustentá-lo.

Eriol se virou para ele tão rápido que Shaoran nem percebeu. O olhar do amigo estava escuro de tanto ódio. Nunca o vira assim. Era como o mar revolto na tempestade furiosa e ele se sentiu uma mera canoa perdida na agitação e na fúria. Contudo, rápido como veio, ele se controlou, fechando os olhos, cerrando os punhos que tremiam levemente. Ele voltou outra vez seu corpo na direção dos dançarinos. Shaoran viu quando o olhar dele se cruzou com o dela. E sentiu-se um intruso, como se estivesse assistindo algo muito belo, mas que, ao mesmo tempo, era particular… e triste. Extremamente triste. O marquês não falou nada. Shaoran sabia que se controlava a muito custo e, percebendo agora o quanto ele a amava, sua raiva deu lugar a compaixão. Levemente, ele deu um tapinha no ombro do amigo e lhe disse:

- Se o que você sente é maior do que qualquer outro sentimento que você possa ter, por que então deixa o orgulho dominá-lo? - ele fez um pausa e pressionou o ombro dele, com força - Muito cuidado porque você está prestes a perdê-la.

E se retirou. Não havia mais nada o que dizer.

'

Depois de dançar algumas vezes com mocinhas ansiosas e rodar muitas vezes pelo salão de baile, a paciência do rapaz chegou ao limite e ele decidiu dar a noite por encerrada. Procurou Eriol pelo salão, mas não o viu. Talvez tivesse ido embora. E talvez tivesse sido melhor assim, pois não tinha certeza se poderia se conter em ver o amigo sofrendo em vão.

Despediu-se da anfitriã, que pareceu decepcionada que ele estivesse indo sem antes dançar com a filha dela, uma moça bonita, mas muito sem sal. Depois de desejar muitas desculpas pela desfeita e insistir que precisava ir, ele finalmente alcançou a porta.

- Milorde.

Ele se virou. Em sua direção, vinha uma moça alta e elegante. Ele nunca a tinha visto antes e não sabia como, pois a moça estava usando um vestido negro, muitíssimo luxuoso e belo, embora fosse muito jovem para ser uma viúva. A garota parou a sua frente e fez uma mesura graciosa. Seus olhos, muito vivos e brilhantes, acompanhavam o sorriso que ela exibia ao dizer:

- Uma amiga pediu-me para entregar-lhe isso. Por sorte eu o alcancei antes que saísse.

E lhe entregou um bilhete, que estava salpicado com pedrinhas negras que faiscavam à menor luz (que ele reparara também enfeitar as luvas que ela usava). Curioso, ele abriu o papel. Reconheceu imediatamente a caligrafia de Tomoyo, cujas palavras diziam assim:

"Hoje você fez tanto por mim que preciso retribuir sua bondade. A Sakura está partindo esta noite. Você poderá encontrá-la à uma e meia, nas imediações do Hyde Park. Não se atrase e, ao confrontá-la, pergunte pela Madoushi-sama. Esta é a chave para a sua felicidade. Não a desperdice!

Sua, Tomoyo M. Taylor".

Ele ficou confuso.

- Mas quando foi que ela…?

Foi quando percebeu que a mocinha já havia ido. Procurou-a por perto, mas parecia que ela havia evaporado. Havia um aglomerado de pessoas que tentavam passar ao mesmo tempo pela porta e que o empurravam a todo custo. Ele ainda enxergou lá longe, no salão de bailes, a cabeleira negra de Tomoyo rodopiando nos braços do duque de Ormrod e, quando finalmente conseguiu se mexer, já estava fora da casa. Olhou novamente para o bilhete, com a testa franzida. Madoushi-sama? O que seria isso? Um título? Um nome? Ou mesmo uma pessoa?

- Milorde?

Bem atrás dele, o lacaio segurava a porta da carruagem aberta, esperando que ele entrasse. Ainda distraído, ele mandou que fossem direto para casa. Quando a carruagem partiu, ele voltou a pegar o bilhete, e a luz da lanterna, o leu mais uma vez.

- Madoushi-sama… a uma e meia… no Hyde Park… por que Tomoyo me mandaria isto? - perguntou-se - Aliás… no que confrontá-la pela última vez me ajudaria? Ela já vai tarde!

E jogou o papel pela janela, aborrecido. Prosseguiu muito quieto, sentado no canto da carruagem… até pegar o relógio de bolso e ver que horas eram. Faltavam cinco minutos para meia noite. O Hyde Park não era muito longe dali… Não! No que ele estava pensando? Seria ele tão masoquista assim, tendo que resistir aquele impulso poderoso de vê-la uma última vez? Precisava ser forte. Tudo o que faria seria machucar seu coração mais ainda.

A carruagem parou em frente a sua casa e ele apeou. Resoluto, passou pelo mordomo e pelos lacaios noturnos. Ao chegar ao seu quarto, dispensou o criado pessoal e trancou-se, mas não se mexeu, num primeiro momento. Ainda resistia ao impulso de sair correndo atrás da moça. Enfim, conseguiu se conter e controlar suas vontades, pensando com racionalidade. Não valia a pena. Seria apenas muito doloroso. Portanto, ele se despiu, deitou-se na cama e esperou o sono chegar. Ao contrário do que ele esperava (ficar acordado se revirando na cama), ele logo sentiu os olhos pesarem…

'

"…Siuil… siuil…".

Era o vento. Apenas o vento soprando lá fora. No nada…

"…Siuil… siuil…".

… mas outra vez? De novo o mesmo sonho?

"…Siuil… siuil…".

…ou tudo o que viera fora um sonho? Entre este vento e o outro? O baile, Tomoyo, Eriol, a moça de negro…

"…Siuil… siuil…".

Sakura…

"… siuil… siuil… a run…".

E na escuridão, surgiu a face dela, bela perfeita… e a voz cantava suave, vinda do nada…

"… siuil… siuil… a run…".

Os olhos verdes, tão frios, agora estavam tristonhos… a emoção não era intensa, mas algo nele o tocou, deixou-o chocado… ele não sabia o que era…

"… siuil… siuil… a run…".

"SHAORAN!".

'

Era como emergir de um lago profundo, frio, escuro e distante para a realidade; alucinante, frenético. Foi assim o seu despertar. Ele sentou na cama, em um jato só, a respiração ofegante, igual a de um corredor, os olhos esbugalhados. Olhou para os lados, mesmo sabendo que não havia ninguém. Mas alguém lhe chamara.

Ele procurou respirar fundo, tentando se acalmar, esperando o coração voltar ao normal. Seu olhar recaiu sobre o criado-mudo, onde deixara o relógio de bolso. Era uma e dez da manhã. Apenas cochilara… quando parecia que dormira durante meses.

O relógio parecia lhe atrair o olhar como se fosse um cadáver em um velório. Agora já eram uma e doze. A Sakura de seu sonho voltou-lhe nitidamente na lembrança. A expressão dela era tão inusual… uma expressão que ele nunca vira em seu rosto. Lembrou-se do bilhete de Tomoyo… se corresse, talvez ainda pudesse alcançá-la. "Não!", gritava o seu lado racional. Será muito difícil deixá-la ir. Deite-se. Durma. Esqueça!

Ele voltou a encostar a cabeça ao travesseiro, mas seus olhos não se fecharam. Havia algo diferente. Não era só aquilo que ele nomeara de "sentimento masoquista". Era uma espécie de… angústia, que crescia a cada segundo que passava. Algo que não o deixava sossegado. Mais uma vez, seu olhar foi para o relógio. Já era uma e dezesseis. E o rosto tristonho dela mais uma vez lhe apareceu.

Num impulso, ele se levantou. Rápido, apenas calçou os sapatos, vestiu uma calça e um sobretudo. Pegou sua pistola e saiu do quarto. A casa estava no mais absoluto silêncio. Pé ante pé, ele foi até o fim do corredor e desceu por uma escada secundária, que dava para o corredor perto da biblioteca. Protegido pelas sombras, ele passou pelo lacaio sonolento que vigiava a casa e chegou até a porta do salão de bailes, destrancando-a. Passou por toda a extensão do aposento, até chegar à parede que dava para os fundos da casa. Uma das imensas janelas estava com a tranca quebrada e o serralheiro, quando era chamado, nunca atendia. Naquela noite, ele agradeceu ardentemente àquela pequena conspiração divina. Com cuidado, empurrou o janelão e o ar frio da noite balançou as cortinas levemente. Shaoran saiu, fechou com cuidado e espreitou-se pelo jardim. Sem dificuldade, chegou ao muro, pulando-o, como já fizera antes. E ganhou a rua.

O Hyde Park ficava não era muito longe, mas era longe o suficiente para que ele tivesse que se apressar. Protegido pela escuridão, ele correu por alguns quarteirões. Havia pouquíssimo movimento na rua e, quando via alguém se aproximar, puxava a gola do sobretudo para que não fosse reconhecido. Finalmente, chegou às grades que delimitavam o lugar e as ultrapassou sem dificuldade. Adentrou pelo coração do parque, pelas árvores, até chegar a altura do lago Serpentine. Ele tentou enxergar qualquer coisa, mas era impossível. A lua estava encoberta pelas pesadas nuvens, que faziam cair uma chuvinha fina e gelada. E ele caiu em si, sentindo-se um idiota. O que ele estava fazendo? Cedendo a uma sensação, a um impulso louco, saiu de casa como um ladrão, apenas de calça e sobretudo, andando pelas ruas perigosas de Londres e acabando na imensidão do parque. Nunca a encontraria. E era melhor que não a encontrasse! Agira como tolo até aquele momento e agora era hora de recobrar a razão de uma vez por todas!

Virou-se para voltar no mesmo instante que escutava uma movimentação de folhas suspeita. Contudo, antes mesmo que pudesse sacar sua pistola, sentiu um impacto forte na cabeça que o fez cair no chão. Ficou atordoado por vários instantes, completamente desorientado. Percebeu que havia alguém ali, em pé, segurando um galho. Era um belo momento para ser assaltado, foi a primeira coisa que pensou.

- Você!

Ele reconheceu aquela voz, mesmo que estivesse abafada. Ele a reconheceria em qualquer situação. Seu coração disparou no mesmo ritmo que sua cabeça latejava com a pancada. Com esforço conseguiu se sentar e olhar para cima. Havia uma figura pequena e esguia, utilizando um estranho traje preto. Seu rosto estava parcialmente coberto com um tecido preto, mas os olhos verdes estavam desimpedidos e olhando-o fixamente… furiosos!

- O que você está fazendo aqui?

Ele tentou se levantar uma vez, mas estava muito tonto e voltou a cair. Sakura não riu, tampouco o ajudou. Ela largou o galho, com certa violência, sem desgrudar seus olhos dele. Após alguns segundos, conseguiu se levantar, cambaleante. A dor no recente machucado estava bastante incômoda, mas ele só tinha olhos para a moça em sua frente. Ela descobriu o rosto e retirou o pano que também envolvia sua cabeça, descobrindo os cabelos lisos e compridos amarrados em um rabo de cavalo bem apertado. Estava estranhíssima naqueles trajes, porém ela ficava ainda mais bela neles. Nem a expressão azeda em seu rosto diminuía a beleza dela.

- O que você está fazendo aqui? - ela repetiu, feroz.

- Eu vim… eu… - ele começou, tonto e também meio encabulado - Bem, eu… er… por que você me bateu?

- Eu pensei que você fosse um ladrão. Não desvie o assunto, por que você está aqui? - ela rebateu, seca.

- Eu… recebi um recado de Tomoyo… avisando-me que você estaria aqui…

Ela ergueu uma das sobrancelhas, entre desconfiada e surpresa.

- Tomoyo… lhe escreveu um bilhete?

- Sim… dizendo que eu a encontraria aqui… nesse horário.

- Você está mentindo! Tomoyo sabia que eu iria hoje, mas não o momento… e nem que eu passaria por aqui! Confesse: você me seguiu até aqui!

- Não! Eu não segui!

- Então onde está esse bilhete da Tomoyo? Deixe-me vê-lo.

- Não está comigo.

Ela sorriu com cinismo.

- Convenientemente não está com você. Milorde, nunca pensei que fosse capaz de tanto… quantas vezes vou ter que lhe dizer que…

- Cale a boca e me escute! - cortou o rapaz, com raiva - Já sei o que vai me dizer e não vim aqui por esse motivo! Muito menos segui você! Estou falando a verdade. Tomoyo escreveu-me o bilhete, dizendo que lhe encontraria aqui, neste horário! E falou também que eu deveria lhe perguntar sobre… como era o nome mesmo…? Ah sim! Madoushi-sama.

Sakura imediatamente ficou alerta e empalideceu a olhos vistos. Seus olhos se arregalaram, revelando toda a surpresa que sentia.

- Ela lhe falou… da Madoushi? - perguntou, quase em um sussurro.

- Sim… o que é Madoushi?

- Não é o que… é quem! - ela respondeu, distraidamente - Eu não consigo acreditar que Tomoyo lhe falou dela. Ela me prometeu!

- Quem é ela?

Ela lhe lançou um olhar atravessado.

- Não lhe interessa! Este assunto diz respeito somente a mim. Não entendo como Tomoyo pôde me trair deste jeito.

- Talvez ela não queira que eu me sinta traído! Escute… para falar a verdade, eu nem devia estar aqui. Quando vi o bilhete pensei duas, três, milhões de vezes… e resolvi que não valia a pena… mas então - parou um momento, lembrando-se da voz que o chamara - tive esse sonho estranho… com você e resolvi vir…

- Espere! - ela o cortou, resoluta. Sua expressão era de alguém que começava a compreender alguma coisa - Foi Tomoyo quem lhe entregou o bilhete?

- Não. Foi uma moça… vestida toda de preto… de cabelos negros...

Ela foi ficando mais pálida, mas manteve a expressão concentrada que exibia.

- E você disse… que teve este sonho comigo… não?

- Isso mesmo…

- Isso é coisa dela…

- De quem?

- Da Madoushi! - ela exclamou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo - Só ela faria isso! Só ela tem poder para isso! Mas eu me pergunto porque ela quer envolvê-lo… talvez isto seja ideia dela para me aborrecer. É algo que ela faria…

Enquanto Sakura conjecturava sobre a presença do conde ali ser ou não obra da tal Madoushi, Shaoran também pensava. Quem quer que fosse Madoushi, era alguém poderoso, alguém que ela temia e, ao mesmo tempo, odiava. Com um arrepio na espinha, ele arregalou os olhos, finalmente entendendo que essa pessoa devia ser quem impôs à Sakura a tarefa de coletar os anéis. Era a melhor explicação.

- Foi ela quem a tornou imortal.

Ela o olhou, inexpressiva. Não fora uma pergunta. E não precisava de uma resposta.

- Foi ela quem lhe deu a missão de roubar os anéis… os corações. Não foi?

Ela continuou calada. Nervoso, ele começou a andar de um lado para o outro.

- …Poderosa o suficiente para lhe conceder os poderes de cura, a beleza estonteante… o poder de fazer homens tolos como eu se apaixonarem perdidamente por você e…

- O fato você ter se apaixonado por mim não faz de você um tolo! - ela o cortou, impaciente - O que o faz tolo é o fato de saber que tudo não passa de uma maldição e continuar insistindo em me ver… em me amar!

Ele abriu a boca para defender-se, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, sua mente processou o que ela dissera… "…o fato de saber que tudo não passa uma maldição…".

A maldição!

- Ela é a responsável pela maldição.

- Sim… - Sakura respondeu, cautelosa.

- Ela também é culpada por todo o sofrimento que eu e minha família passamos…

- …

- Você me falou que não há uma maneira de quebrar a maldição… mas isso talvez signifique que você não saiba como, mas que exista! E ela saiba!

- E daí? - ela perguntou, mas sua expressão já antevinha as próximas palavras dele.

- Eu vou com você!

Ela soltou uma gargalhada horrível, completamente destituída de humor.

- Mas nem pensar! Essa jornada eu farei sozinha.

- Então eu a seguirei!

- Não irá conseguir. Apesar da minha aparência, 500 anos de vida me ensinaram bem a ser invisível quando quero. Você me terá perdido de vista em apenas meia hora.

- Escute, lady Avalon… - ele começou, debochado e irritado - Eu irei juntamente com a senhorita, pois se houver uma maneira de quebrar essa maldição…

- Não há! - ela cortou, irritando-se também, alteando a voz - Acha mesmo que você é a primeira pessoa a me perguntar isso?

- Mas tenho certeza que sou o primeiro homem a ousar ir atrás da causadora dessa confusão toda! Eu irei e você não me impedirá.

- Bem, boa sorte com isso! - ela deu um sorrisinho cínico - Você não tem ideia de onde ela vive, então pode passar a vida toda procurando por ela… e você nunca a encontrará.

A paciência do rapaz chegou ao seu limite. Ele puxou a pistola de dentro do sobretudo e apontou diretamente para cabeça dela.

- Eu vou com você!

Ela lhe lançou um olhar indiferente e nada falou. Aquela reação teve o incrível poder de irritá-lo ainda mais.

- Você acha que eu não sou capaz de lhe matar?

- Claro que é. Mas você não vai. É cavalheiro demais para isso… e me ama também!

Ele ficou lívido, estupefato por aquela reação fria, racional. Sem falar no fato de que ela estava utilizando o que ele sentia por ela como escudo. Sem pensar, ele mudou a mira e disparou a arma na direção do braço dela. O tiro ecoou pela escuridão do parque e ela se encolheu, levando a mão boa ao machucado, que começava a sangrar. Não tardou muito e os olhos dela brilharam na escuridão no parque e ele sabia que o ferimento que causara - um tiro de raspão - estava curado. Ele voltou a engatilhar a arma e voltou a mirar-lhe a cabeça, a expressão do rosto séria, zangada, fria…

- O próximo não será de raspão, eu lhe asseguro.

O rosto dela mesclava surpresa, raiva e desafio. Ela se aprumou e colocou as mão para o alto.

- Se quer me matar, faça isso logo! Mas esqueça, porque eu não vou levá-lo até ela!

- Você prefere morrer a me levar até ela? Como pode ser tão egoísta? - o tom de voz dele não escondia a perplexidade que sentia.

- Não é egoísmo! Acredite ou não estou tentando protegê-lo!

- Pois eu estou CANSADO de você tentar me proteger! Toda vez que isso acontece, eu me machuco! Deixe-me fazer, ao menos uma vez, aquilo que eu acho certo para mim!

- Poupe-me desse discurso, sim? Eu tentei, sim, protegê-lo, mas você quis saber a verdade a todo custo e agora que sabe da verdade, tenho certeza que se arrepende! - ela disparou para ele, alteando a voz, deixando a raiva fluir - Agora que você sabe da maldição, sabe que a infelicidade será sua companheira e de sua família pelo resto da vida, você sofrerá o dobro. Pois você sabe porque está assim… e SABE que não pode fazer nada!

- CALE A BOCA! A culpa é toda sua! Se estou assim, é porque você cruzou meu caminho, aliás, o caminho do meu avô anos atrás! É tudo culpa sua!

- Mas se tivesse seguido meu conselho e não tivesse sabido da verdade, você não estaria atormentado do jeito que está… e viveria sua vidinha miserável infeliz, mas na ignorância!

- CALE A BOCA! - Ele berrou, furioso, engatilhando a pistola que tremia levemente na sua mão. Sentia o ódio consumi-lo tanto pelo fato dela dizer aquilo naquele tom provocativo, tanto pelo fato de saber que ela estava certa.

- Vamos, Shaoran Lisbury! Atire! É só puxar o gatilho e eu morro! E todos os seus problemas desaparecerão!

O indicador sacudiu no gatilho. Ela fechou os olhos, o rosto calmo, resignado. Todo o seu corpo, a raiva, o coração, tudo mandava que ele atirasse. O momento foi se estendendo no silêncio, como um elástico, a tensão se acumulando em cada fibra do seu ser…

Mas o momento passou. Que sentido havia em matá-la? Por mais que ela tivesse feito o que fez, por mais cruel que fosse, não havia sentido. Não seria uma vingança, não seria justiça… e ele não era um assassino.

Ele abaixou a arma, sentindo-se derrotado, fraco. Ela abriu os olhos e, quando ela o fitou, pareceu-lhe que havia nos orbes verdes um indício de decepção. Deveria ser sua imaginação lhe pregando peças.

- Eu não posso matá-la. Não há sentido.

Ela respirou fundo.

- Então eu me vou.

Institivamente, ele voltou a apontar a arma para ela.

- Eu vou com você!

- Vamos começar de novo esta ladainha? - ela começou, irritada, mas parou, parecendo maquinar algo. Em um tom diferente, recomeçou - Vamos fazer diferente dessa vez! Vou apelar para o seu bom senso.

- Eu já me decidi. Irei com você. - ele mesmo já estava cansado de repetir aquela frase.

- Vamos supor que você vá comigo. O que irá acontecer a suas irmãs?

- Elas ficarão bem. Já são bem crescidas.

- Ficarão mesmo, Shaoran? Você tem certeza?

- Você está jogando sujo! Não importa o que você diga, eu faço isso para o bem delas!

- Mesmo que elas nunca venham a saber o porquê? - ela semicerrou os olhos, de maneira calculista.

- Garota, coloque as cartas na mesa! Fale claramente! - ele cortou, rispidamente.

- Pense comigo: você pode enfrentar uma viagem de muitos dias comigo até chegar aonde Madoushi me espera. Você perguntará a ela se existe alguma maneira de quebrar a maldição… e ela vai responder que não.

- Não tem como você saber! - ele retrucou, rude.

- Eu SEI que ela vai lhe dizer isso! E quando ela lhe dizer isso e destruir todas as suas esperanças, você voltará derrotado para casa. E o que explicará para suas irmãs? O que você andou fazendo todo o tempo que estivera fora? Enquanto elas sofriam de preocupação, choravam por você? Vai dizer a verdade? Você vai?

Ele ficou calado. Ele tentava, furiosa e desesperadamente, encontrar uma resposta plausível e que pudesse desarmá-la, mas sua mente estava em branco. E ela continuava, impiedosa:

- Será tudo em vão. Ninguém lhe compreenderá e você apenas terá abandonado a sua família quando ela mais precisou de você.

- Você não sabe nada sobre minhas irmãs. NADA!

- Eu admito que não as conheço muito bem, mas quinhentos anos de vivência me ensinaram a observar muito. Eu sei que Sharisse tinha certos sentimentos pelo Marquês de Cloversfield. E, sendo mulher, ela deve ter percebido que o alvo de seus afetos estava arrastando asas para outra mulher. - ele nada falou, lívido e ela prosseguia - Percebi também que ela faltou os últimos bailes dos quais participei. Ela deve estar sofrendo muito…

- Fuutie é forte! Ela vai superar isso! - ele falava, tentando parecer totalmente convicto do que dizia.

- Já é ruim o suficiente desconfiar… imagine quando suas suspeitas se concretizarem.

- Do que você está falando?

- Por mais que o marquês teime, Tomoyo vai conseguir dobrá-lo. Afinal, ele a ama. A única solução provavelmente será a fuga. Será um escândalo e toda Londres irá comentar. Não terá como sua irmã não saber… e então? Bem, o irmão dela estará sumido quando ela mais precisar de apoio e carinho e seu coração vai se partir em mil pedacinhos. Poderá ser irreversível!

O coração do jovem conde se oprimia a cada palavra dela. Sabia que ela tinha razão, que suas irmãs morreriam de preocupação com ele. Shaoran olhou-a nos olhos e viu a expressão resoluta e impassível dela. Ela o induzia a acreditar em suas palavras, quase lhe hipnotizando…

Mas havia algo nele. Uma fagulha de esperança. Uma centelha que lhe dizia que não devia ser daquele jeito. Que, por mais que as chances fossem mínimas, havia essa chance… era melhor que viver o resto da vida conformado com inferno que seria.

Sua expressão deve ter mostrado o que se passava em sua mente, pois a moça bufou e falou, esganiçada:

- Não pode ainda estar pensando em me seguir! Não ouviu o que eu acabei de falar?

- Ouvi sim! Mas não posso me conformar! Não vou aceitar!

- Shaoran, escute a voz da razão! Fuutie, e suas outras irmãs, sua mãe… elas vão precisar de você!

- É por isso mesmo que eu tenho que fazer isto! Sou responsável pela felicidade delas! E, enquanto houver esperança, eu não poderei desistir!

- Mas que esperanças existem? - ela perguntou, num tom estridente e impaciente - Não existem!

- Não tem como você saber disso! Você não sabe se a Madoushi pode ou não quebrar a maldição! Eu preciso tentar isso. Por elas!

- Mesmo que ela saiba, mesmo que você tente, acha mesmo que uma mulher poderosa como ela vai ouvir e atender um reles conde como você?

- Então eu a obrigarei. A matarei se for preciso.

Outra vez Sakura deu aquela sonora gargalhada desagradável. Desdenhosa, ela falou:

- Você escutou o que acabou de dizer? Que vai matar a mesma mulher que me deu a imortalidade, que é mais poderosa que qualquer ser mágico deste mundo… você só pode estar ficando louco!

- Que seja! Pense o que quiser, mas não vou desistir dos meus intentos. Se eu morrer, será porque tentei fazer o melhor para a família que eu tanto amo!

- Quer saber? Você é louco mesmo! E eu não vou ser responsável por isso! Não quero ter a sua ruína, mais do que já tenho, em minhas costas! Boa sorte para você!

A arma voltou a ser apontada e engatilhada na direção dela.

- Ah, vou com você sim.

- Bom… você já sabe como funciona! - ela retrucou, sarcástica - Ou você me mata de uma vez ou então vai gastar as suas balas me ferindo. Mas não vou a lugar nenhum com você!

Shaoran já ia contra argumentar, quando seu olhar pousou no cinto que ela levava em sua cintura. Ali, amarrado firmemente, estava um saquinho preto que parecia cheio de objetos cilíndricos… Ela acompanhou o olhar dele e imediatamente protegeu o pequeno fardo com mão, tornando-se tão agressiva como uma tigresa.

- Eu irei matá-lo se tentar! E, ao contrário de mim, não tem volta do mundo dos mortos!

Ele deu um passo na direção dela, e ela recuou dois, assumindo uma estranha posição defensiva.

- Não se atreva! Vivendo cinco séculos aprendi a me defender muito bem. Artes marciais chinesas, japonesas, tailandesas, além do boxe e esgrima londrino. Fique longe de mim se quiser viver!

Então ele não pensou duas vezes. Rápido como um raio, ele atirou contra a perna esquerda dela. Houve um estalo, um grito de dor e surpresa e imediatamente a moça caiu no chão, segurando o membro ferido. Habilmente, ele foi até ela e arrancou o saquinho do cinto dela. Ela voltou o rosto pálido, para ele, chorando de raiva e dor, quase rosnando:

- Seu covarde! COVARDE! LÂNCHE! BRUTE! SCIOCCO! MANUKE!

- Fique calma…

- … BAKA! TAKO! DÚR! HÚNDÂN! - ela continuava a berrar plenamente.

- Ei…

- KUSOKURAE! JENJANG! STUPIDO! FILHO DA P…

- SAKURA, CALE A BOCA! - ele mandou num tom tão autoritário e incisivo que, de fato, ela se calou, embora ainda o olhasse com uma raiva homicida - Milady, modere seu linguajar. Embora não sendo uma lady de sangue, não é preciso que se chegue a um nível tão baixo.

- Eu… odeio… você! - ela grunhiu, os dentes cerrados para não extravasar outra vez.

- Que seja! O que está em jogo não é o que você sente, ou que eu sinto, mas algo infinitamente mais importante - ele volveu, duro. Ele colocou o saquinho de anéis no bolso interno do sobretudo, sendo atentamente observado por ela. - Eu vou ter que passar em casa para me trocar e pegar alguns pertences. A senhorita me espera nesse mesmo lugar…

- … como se eu pudesse ir a qualquer lugar sem os anéis! - ela comentou, cuspindo as palavras.

- E eu lhe aconselho e tirar a bala de dentro da sua perna enquanto eu vou a casa.

- Vá logo! E trate de não demorar!

Shaoran pensou em responder, mas achou melhor calar-se. Guardando a pistola, ele se virou e refez o caminho até a entrada do parque. Quando estava a menos de dez metros das grades, a calor do momento baixou e ele se sentiu subitamente enjoado. Acabou regurgitando em uma moita próxima tudo o que havia ingerido nas últimas horas. Voltando a se aprumar, ele finalmente pensou com calma em tudo o que havia acontecido.

Pelos céus, o que O havia levado a dar dois tiros na mulher que ele amava? Por mais que o comportamento da moça a pouco tenha sido repreensível, nada justificava suas atitudes. Ele era um cavalheiro, um homem nobre não somente de sangue, mas também de espírito. Como pudera recorrer à força e à rudeza? Mas, no fim, tudo era por uma causa maior. Não era por ele e nem por seus sentimentos. Era por sua família. Pensando assim, lutou contra o mal-estar e contra qualquer pensamento que o fizesse desistir de seus intentos.

Refez o caminho de casa com espantosa agilidade. Esgueirou-se pelo mesmo caminho até seu quarto, onde trocou de roupa. Pegou uma pequena mala no roupeiro e ali colocou objetos que julgava indispensáveis, além de uma muda de roupa e um casaco grosso. Depois, dirigiu-se até a sua antessala, onde havia em uma escrivaninha um maço de papeis timbrados. Sentou-se, preparou a pena para escrever… mas o que diria? O que poderia escrever para as suas irmãs? Neste momento, o rosto de Fuutie flutuou à sua frente. Pensou no que Sakura havia dito e vacilou na sua decisão de ir com ela…

- Não! - ele falou, alto, para si mesmo - Eu preciso tentar por ela! Eu irei!

Rabiscou qualquer desculpa no bilhete, mas enfatizou que as amava muito e que voltaria assim que pudesse. Ele tinha certeza que aquelas poucas palavras as deixariam muito preocupadas, mas dizer a verdade era impossível e ele não desejava mentir. Endereçou a pequena missiva a Shiefa e depois, abriu uma gaveta que mantinha trancada a chave. Tirou de lá todo o dinheiro guardado. Antes, no quarto, já havia tirado de uma pequena caixa todas as poucas jóias que usava. Dali foi para o corredor. Furtivamente, chegou até a biblioteca, onde deixou o bilhete em cima da escrivaninha. Depois, foi até a sala de armas, onde pegou a pistola que fazia par com a sua e toda a munição que conseguiu encontrar. Não que ele pretendesse armar Sakura, mas nunca era demais estar preparado para qualquer eventualidade.

Pela última vez, não sabendo até quando, ele saiu de casa. Olhou a bela construção, como se nunca tivesse reparado nela antes. Sentiria saudade dela. De sua família. Outra vez, seu coração balançou, desfavorável a sua decisão. Desta vez, ele ignorou aquele impulso e deu as costas para a residência. Seguiu pelo pátio até os estábulos. Havia um lacaio dormindo a sono solto. Se tivesse bastante cuidado, não o acordaria. Selou dois dos seus mais resistentes cavalos, que sabia que não chamaria tanta atenção. E na calada da noite, ele fugiu.

Demorou um pouco para chegar ao Hyde Park, pois utilizara um caminho mais longo, porém deserto. Ao chegar no local combinado, a princípio não vira a moça. Depois de uns segundos de irritação, por pensar que ela havia fugido, localizou-a sentada em um tronco, mais adiante. O olhar homicida não parecia ter diminuído em nada. Ele se aproximou.

- Trouxe cavalos. - ele falou, um tanto desnecessariamente.

- Parece até que você adivinhou.

- Bom… realmente pareceu uma boa ideia, pois assim chegaremos mais rápido ao destino, seja lá qual for…

- Não é isso! - ela cortou, rispidamente. E ficou em pé. Ele logo percebeu que havia algo de errado com ela. A perna esquerda dela estava levemente flexionada. Quando andou, ela mancou horrivelmente - A bala está alojada bem embaixo do meu joelho. Eu não consegui tirá-la, pois, acredite ou não, eu sinto muita dor.

- Eu… sinto muito. Não era essa minha intenção. Pensei… - sua voz morreu. O arrependimento começava a apertá-lo como uma mão invisível gigante.

- Da próxima vez que resolver atirar em mim, mire em um membro que vai me fazer menos falta, certo?

- Se tivesse concordado logo, isto não teria acontecido. - ele falou, aborrecido - Se me escutar, não haverá próxima vez.

- Deste jeito, haverá sim!

Ela pegou uma espécie de bolsa preta com duas alças laterais, que parecia recheada de coisas, foi mancando até um dos cavalos e tentou montar, mas fez caretas ao tentar apoiar a perna esquerda no estribo. Shaoran deu um passo para ajudá-la.

- Fique bem aí! Eu não quero a sua ajuda!

Ela deu a volta no cavalo e tentou montar pelo lado direito. Depois de algumas tentativas, ela conseguiu. Só naquele momento, ele percebeu que havia trazido duas selas de montaria masculinas. Até pensou em se desculpar com a moça, mas do jeito que ela estava irritada com ele, era melhor ficar calado. Além disso, ela parecia bem a vontade montando à masculina. Com certeza não era a primeira vez. Ele montou também.

- Então… vamos logo?

- Shaoran… você tem certeza? - ela perguntou, fazendo uma última tentativa de dissuadi-lo - Pense mais um pouco!

- Não insista nisso. Você pode ser teimosa, mas vai descobrir que eu sou mais! - ele contra-argumentou, com dureza - Ainda mais agora, que me sinto responsável por você, já que lhe incapacitei.

- Não seja por isso! Empreste-me o cavalo. Não precisa se sentir culpado de nada! Sou muito bem capaz de me cuidar sozinha.

- Disso eu não tenho dúvidas - mas a voz dele transbordava sarcasmo - É melhor não discutirmos mais! Estamos apenas perdendo tempo.

- Então ao menos me devolva os meus anéis.

- Não confia que eu possa guardá-los?

- Eu me sinto mais confortável ficando com eles!

- Claro… para na primeira oportunidade, você fugir de mim! Acho que não!

- É sério! Eu realmente me sentiria muito melhor guardando-os! - ela ignorou a acusação. Apesar da irritação aparente, ela realmente transparecia certa angústia. - Por favor.

Ele se condoeu, mas tinha absoluta certeza de que ela fugiria dele na primeira oportunidade. Então teve uma ideia. Ele retirou o saco preto de dentro do bolso interno do casaco, abriu-o e, a esmo, escolheu um anel dentre os cem. Era um simples, dourado de aro fino. Devolveu o saco a Sakura que, surpresa, o viu colocar a anel firmemente em seu mindinho.

- Pronto! Desta maneira posso garantir que você não vai fugir de mim e, ao mesmo tempo, devolver o que lhe pertence.

E lá estava o olhar homicida mais uma vez. Fumegando tanto de raiva, ela parecia incapaz de articular palavras inteiras. Por fim, ela esporeou o cavalo e lhe deu as costas. Sorrindo com cinismo, Shaoran pensou que aquela seria uma longa e tortuosa viagem. E também guiou o cavalo, seguindo-a de perto, rumo ao desconhecido.


E aí? o que acharam?

Bom, eu não sei se vocês repararam, mas esse capítulo foi postado em tempo recorde. Menos de dois meses. u.ú

Estou tão orgulhosa de mim mesma! Eu peguei o embalo da fic de vez e estou bastante empolgada em continuá-la. Tanto que eu acho que vou fazer uma "promoção": eu notei que a quantidade de reviews caiu drasticamente e isso me deixa muito triste, apesar de ter adorado cada uma que recebi. Para encorajar vocês, estou disposta a fazer um acordo. O próximo capítulo vai ao ar dia 31 de outubro... maaaas, eu posso adiantar essa data se conseguirmos atingir a meta de 15 reviews. Tá bem fácil, né? hehehe. Não vale reviews repetidas da mesma pessoa (mas quem quiser externar suas críticas, opinões e elogios mais de uma vez, sinta-se a vontade). E eu posso garantir que vou postar assim que atingirmos a meta porque o capítulo já está pronto. Estou dando esse respiro de para manter uma certa periodicidade... que vocês podem quebrar se atingirem a meta. O objetivo é encorajar quem não escreve reviews a deixar suas opiniões, para que eu possa ler ou, quem sabe, fazer novos leitores. Estamos combinados? Um desafio que estou lançando pra vocês.

Bom, falando em reviews... o que acharam deste capítulo? Uma grande viagem? Muito bom? Romântico? Eu sei que eu adorei a cena do Eriol e da Tomoyo! E o final também... tudo bem que sou eu que escrevo, mas a Sakura tava muito enjoada pro meu gosto. :P E o que vocês acharam? É por isso que estou fazendo a chantagem promoção... 8)

Quase finalizando, fiquemos agora com a volta da nossa querida revisora (depois de um longo período no cativeiro, não se esqueçam)...

Yoruki's corner

Olá, Cherry-sama! Minha heroína particular! (faz reverência)... Ainda não a agradeci o suficiente por ter me resgatado... Aliás, acho que este novo sistema que desenvolvemos vai funcionar muito bem, não concorda? Acho que bati algum recorde de revisão... hehehe... Revisão a jato! O trauma do cárcere teve um efeito positivo, afinal... XDDD

Bem, a respeito do capítulo, preciso dizer: "Estou cada vez mais pasma com esta história!"... Sei que é o que mais elogio, mas a forma como os seus personagens se desenvolvem e, com isso, vão levando a história é simplesmente fantástica! Fico aqui me perguntando como essa confusão toda se resolverá... (olha desconfiada para a janela do escritório que não se lembra de ter aberto)... uhm... o que eu dizia, mesmo?...

Ah, acho que também vale a pena comentar que minha cena preferida foi, sem dúvida, o encontro de Eriol e Tomoyo na capela. Juro para você que meu estômago se contrai toda vez que leio aquele trecho. E nem me refiro ao "Eu te amo, Tomoyo!"... As borboletas começam a bater as asas quando o Eriol fala: "Eles estão certos...". Ahh! Meu otou-san tem realmente o jeito com as palavras... Vou me abster de comentar a respeito da conversa entre Shaoran e Sakura porque... bem... você sabe o porquê! Sakura me deixou furiosa e acho que o Shaoran foi até bonzinho demais com ela! Pronto, falei...

Estou ansiosa pelo próximo capítulo!

Abraços,

Yoru.

Agora, nossas notinhas culturais:

Lago serpentine: É um lago que existe bem no meio do Hyde Park.

E, por último, mas nem muito menos importante, quero agradecer a Adriele, Vanessa Li, Sango Lee, Musette Fujiwara, Mimica-Chan (¬¬), Suppie-Ko e Yami Umi pelas reviews do capítulo anterior. E muito obrigada também a você que leu, mas não escreveu reviews. :)

Enfim... é isso. Até o capítulo 11...

Sem mais,

Cherry_hi