Capítulo 10

Como é?

- O seu sangue é mesmo B positivo?- questionou Sawyer, muito surpreso.

- Yeah!- Kate assentiu. – Se ela precisa de sangue eu posso doar sangue pra ela, só me digam o que eu tenho de fazer.

Todos os olhares se voltaram para Jack naquele momento. Sun percebeu de imediato a pressão que estava sendo colocada em cima dele por isso ela resolveu dar o primeiro passo.

- Jack, se vamos fazer uma transfusão vamos precisar de tubos e agulhas. O Jin pode conseguir alguns ouriços do mar agora mesmo.

Ela falou em coreano com Jin que assentiu imediatamente.

- Precisamos daqueles tubos do avião também.- disse Jack. – Não sei se ainda temos algum…

Jack olhou para Ana-Lucia deitada no colchão no meio da sala e sentiu uma vertigem. Ele não queria que as coisas acontecessem como tinham acontecido como Boone.

- Calma Jack.- pediu Kate segurando em seu braço ao ver o quanto ele estava pálido. – Senta, por favor…

- Não eu não posso sentar…- disse ele mas sua visão estava ficando turva e ao invés de enxergar as pessoas ele começou a vê-las como vultos.

- Jack?

Ele ouviu a voz de Kate bem distante. Sua visão agora era como a tela de uma TV fora do ar. De repente ele achou ter ouvido a voz de Sayid, mas Sayid não estava lá. Jack fez um esforço sobrehumano e arregalou os olhos tentando ver claramente. Um pouco de suor frio caiu de sua testa e ele sentiu o cheiro forte de álcool invadindo suas narinas.

- O doutor acordou!- disse Sawyer.

Kate correu ao encontro dele e Jack notou que estava deitado no sofá onde antes Libby estivera deitada. Ela agora estava de pé ao lado de Hugo.

- O que… - ele disse, confuso.

- Você apagou Jack por uns quinze minutos.- Kate falou para ele.

Apesar de confuso ele agora estava vendo claramente.

- Você está bem, Jack?- perguntou Sayid em pé diante dele.

- Sayid quando foi que voltou?

- Eu e o Locke voltamos a pouco e vimos quando você desmaiou.- respondeu ele.

Kate colocou um aparelho de medir a pressão sanguínea no braço direito de Jack e ele espantou-se.

- Kate, aonde conseguiu isso?

- Fomos nós!- disse Locke se aproximando dele também. - Seguimos a pista do prisioneiro até outra estação abandonada Dharma e encontramos uma caixa cheia de itens médicos, além de medicamentos e outros itens importantes.

- Encontraram uma agulha?- perguntou Jack de repente cheio de esperança.

- Agulhas e tubos.- respondeu Sayid. – Não havia sinal do prisioneiro mas acho que retornamos em boa hora.

O aparelho apitou quando terminou de verificar a pressão arterial de Jack.

- A sua pressão ainda está baixa.- disse Kate olhando os números no visor do aparelho.

- Só preciso de um cubo de açúcar.- disse Jack. – Vamos fazer a transfusão.

Agora que eles tinham mais recursos médicos as chances de sobrevivência de Ana-Lucia eram muito maiores. Foi com esse pensamento que Jack iniciou o procedimento que poderia salvar a vida dela. O outro colchão do beliche do quarto foi trazido para a sala e colocado ao lado de Ana-Lucia. Sun e Kate trocaram as roupas ensanguentadas de Ana pelas roupas limpas que Sawyer trouxera.

Jack checou a concussão de Libby e deu a ela um antinflamatório que encontrou no kit médico Dharma. Sun esterilizou os instrumentos que Jack usaria com água fervente e àlcool. Kate deitou-se no colchão e Jack fez uma série de perguntas para ela sobre sua condição de saúde em geral e checou a pressão arterial dela. Se estivessem no hospital Kate teria que fazer uma extensa bateria de testes para poder doar sangue, mas naquela situação eles não tinham recursos e nem tempo pra isso. Teriam que correr o risco e esperar que o corpo de Ana-Lucia não rejeitasse o sangue de Kate.

Jack preparou os tubos e as agulhas. Enquanto Sun esfregava algodão nos braços de Ana e Kate, Jack pediu aos outros que esperassem na sala do computador enquanto o procedimento era realizado. Todos se retiraram exceto Sun e Sawyer.

- Será que eu posso ficar, doutor?- pediu Sawyer. – Prometo que não vou interferir em nada. Eu só quero ajudar.

O médico trocou um olhar com Kate, ainda confuso com o interesse de Sawyer em querer ajudar.

- Deixa ele ficar, Jack.- falou Kate. – Se a gente precisar de um pouco de sarcasmo para continuar o Sawyer pode ser muito útil.

Sawyer deu um pequeno sorriso de agradecimento a Kate. Jack então continuou com o procedimento. Ele primeiro colocou a agulha no braço de Ana-Lucia, em seguida ele passou para o braço de Kate, estimulando a produção sanguínea dela, incentivando-a a abrir e fechar a mão. Quando ele finalmente inseriu a agulha na veia dela, Kate sentiu um leve ardor e mordeu os lábios.

- Está tudo bem, sardenta?- indagou Sawyer baixinho.

- Tudo bem.- ela respondeu. – Só ardeu um pouquinho.

Jack e Sun arrumaram os tubos de forma que o sangue pudesse passar sem problemas. Ana-Lucia emitiu um pequeno gemido de dor quando começou a receber o fluído vital em suas veias. Sawyer se aproximou dela e segurou sua mão. Ana-Lucia segurou a mão dele de volta instintivamente. Jack segurou a mão de Kate e sussurrou para ela:

- Me avise se sentir tontura ou naúseas.

Kate assentiu silenciosamente.

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Enquanto a transfusão ocorria na sala ao lado, Sayid, Locke, Michael, Jin e Hurley conversavam na sala do computador. Libby voltara a dormir no sofá depois de tomar àgua e comer um pouco.

- Então a estação estava mesmo abandonada?- indagou Hurley.

- Parecia.- confirmou Sayid. – Nenhum do sinal dos Outros por lá.

- Como era essa estação?- perguntou Michael.

- Primeiramente nos pareceu que era apenas uma cabana.- explicou Locke. – Tinha um curral com uma vaca, dois cavalos, algumas galinhas.

- E quando nós entramos na cabana também não havia nada de especial, parecia uma casa que você encontraria num sítio.- contou Sayid.

- Mas então encontramos um alçapão de madeira embaixo de um tapete de pele de urso na sala.- continuou Locke. - Dentro desse alçapão havia uma escada.

- Nós descemos.- disse Sayid. – E encontramos uma sala repleta de televisores e computadores antigos.

- Mas tudo estava limpo. Não havia poeira suficiente demonstrando que a casa pudesse estar abandonada. – falou Locke. – Foi nessa sala que encontramos os instrumentos médicos. Resolvemos voltar porque achamos que o Jack poderia fazer uso deles para ajudar a Ana-Lucia e a Libby.

- Isso é muito estranho.- disse Michael. – Eu acho que esta estação està longe de estar abandonada.

Jin falou várias palavras em coreano.

- Verdade, Jin.- disse Michael. – Ele parecia ser o único a entender além de Sun o que Jin dizia.

- Nós também achamos.- concordou Sayid.

- Eu imagino que alguém deva ará para cuidar dos animais.- disse Hurley.

- Mas por que não estavam lá?- retrucou Michael.

- A trilha do prisioneiro terminava lá.- disse Locke. – E eu acho que não encontramos os suplimentos médicos por acaso.

- Vocês acham que foi um descuido deles não ter ninguém no lugar quando vocês chegaram?- perguntou Michael.

- Não.- respondeu Sayid. – Eu acho que alguém dos Outros sabia que precisávamos de suplimentos médicos e tentou nos ajudar.

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A transfusão de sangue durou cerca de duas horas e meia e entrou pela noite. Hurley preparou lanches para todos e Jack manteve Kate alimentada durante o procedimento para não comprometer as forças dela. Ana-Lucia permaneceu adormecida a maior parte do tempo, tossia vez ou outra mas não havia sinais aparentes de hemorragia interna em seu corpo. Sua pressão arterial também estava dentro da normalidade.

Quando tudo acabou Jack retirou as agulhas dos braços das duas mulheres, se livrou dos tubos e esterilizou o ambiente com a ajuda de Sun. Ela também fez curativos no local aonde as agulhas estiveram inseridas.

- Como se sente?- Jack perguntou a Kate. Ela continuava deitava no colchão.

- Eu tô bem. Só meu braço que está um pouco dolorido.

- Muito bem.- disse Jack. – Agora eu preciso que você descanse e beba bastante água.

- Sim, doutor.- disse Kate concordando com um sorriso provocador nos lábios exibindo a covinha que tinha no lado direito de seu rosto.

- Eu tô falando sério.- insistiu ele.

Kate deu uma risadinha.

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O dia jà estava quase amanhecendo e todos dormiam espalhados pela escotilha, apenas Jack e Sawyer estavam acordados. Jack não queria dormir até ter certeza de que a ferida de Ana-Lucia não infeccionaria causando febre. Ele também ainda tinha preocupações sobre a possibilidade do corpo de Ana rejeitar o sangue de Kate. No kit médico que Locke e Sayid tinham trazido da outra estação havia antibióticos e anticoagulantes que ele pôde administrar para ela. Era muita coincidência que tudo o que ele precisava para salvá -la estivesse naquele kit.

Ele estava na cozinha quando Sawyer o procurou. O texano foi direto ao assunto, sem preâmbulos.

- E então doutor, qual é o diagnóstico? Ela vai sobreviver?

- Se as coisas continuarem do jeito que estão indo, sim ela vai sobreviver.- Jack respondeu com sinceridade. – A transfusão e os remédios que conseguimos foram essenciais para salvar a vida dela.

Sawyer ficou um minuto em silêncio como se estivesse elaborando suas próximas palavras antes de dizer: - A gente transou.

- Como é?- retrucou Jack, surpreso com a confissão de Sawyer.

- Eu e a Ana-Lucia, nós transamos.- Sawyer reiterou. – Algumas vezes…ah…na verdade muitas vezes.

- Sawyer, por que está me contando isso?

- Porque você é o mais próximo de um amigo que eu tenho nessa ilha e porque…descobri que ela é a mulher da minha vida.

- Pensei que amasse a Kate.- Jack o provocou lembrando do tempo em que Sawyer estava entre a vida e a morte, e durante um de seus devaneios provocados por uma febre intensa ele afirmou amar Kate.

- A Kate é minha amiga.- Sawyer limitou-se a dizer. – Eu amo a Ana-Lucia. Mas eu sei que você ama a sardenta.

Jack riu levemente.

- Virou psicólogo?- ele brincou.

- Shiiiii… - fez Sawyer. – Não conta pra ninguém doutor, ou minha reputação de vilão estará arruinada.

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Ana-Lucia ouvia barulhos de tiros vindos de todas as direções e ela não sabia para onde correr ou se esconder. Em meio ao barulho dos tiros ela ouvia vozes incluindo a dela mesma:

"Deixa só eu mostrar a minha identidade…eu sou estudante".

"Me mata, eu mereço!"

"Por que você fez isso?"

"Você a matou, matou a Shannon!"

"Eu estava gràvida!"

- Ahhhhhhhh!- ela gritou abrindo os olhos de repente.

- Doutor! Doutor! Ela acordou!- chamou Sawyer ao se dar conta que Ana-Lucia tinha finalmente acordado.

O dia inteiro tinha passado e naquele momento somente ele e Jack estavam na escotilha. Ana-Lucia sentiu muita dor debaixo das costelas, mas não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Sua última lembrança era estar andando pelo acampamento do grupo novo procurando por materiais para construir sua própria barraca.

- Ei, amor eu estou aqui.- disse Sawyer carinhoso tocando o ombro dela.

- O quê?- ela indagou.

- Ana, eu estou aqui. O seu cowboy. O doutor já tá vindo.

Ela empurrou o braço dele enquanto tentava se afastar. Ela obviamente não estava entendendo nada.

- Por que está me tocando, caipira?- ela gritou. – Ficou louco? O que é que tá acontecendo?

Jack apareceu nesse exato momento.

- Ana!- ele chamou.

- Você? Jack…o que…

- Ana-Lucia você levou um tiro ontem de manhã. – Jack tentou fazê-la se lembrar.

- Um tiro?- ela retorquiu, confusa. – Mas como…? Onde é que eu tô?

- Ana, qual é a última coisa de que se lembra?

- Eu matei aquela garota…mas você disse que eu podia ficar no acampamento…

Sawyer saiu de perto deles e foi pra cozinha.

- Mas que droga!- ele bradou jogando algumas panelas que estavam secando na pia no chão. – Ela não se lembra…- ele murmurou. – Ela não se lembra que estávamos juntos…

Continua…