Disclaimer: Saint Seiya não me pertence. Pode não parecer, mas é verdade. Nhé.


SIDEWAYS


Sideways serão fics ambientadas no universo de Sui Generis, auto-conclusivas ou não. Mas não se preocupem, eu tentarei deixar claro para vocês quando for cada caso. E nenhum dos meus outros projetos de StS serão afetados, eu prometo.

Assim como Sui Generis, elas não serão fics yaoi. A princípio, quero dizer.

E o título da fic não tem nada ver com o filme homônimo (Sideways entre umas e outras), que é bem interessante. Quem já viu sabe, quem não viu está convidado a ver!


Esse capítulo está atrasadíssimo, mas é do aniversariante de Câncer, Máscara da Morte, um dos personagens de Saint Seiya mais injustiçados pelo roteiro original de toda a série.

Máscara, parabéns atrasadíssimo, e o presentinho aqui é uma besteira, mas é de coração.

A música que empresta o título da fic é Gansta's Paradise, do Coolio, sugestão da grande Deneb Rhode para traduzir o italiano guardião do Yomotsu em palavras e rap. A ele, e ao seu senso de justiça totalmente peculiar. A fic não é exatamente baseada na música, mas ela me ajudou a mergulhar na ética única desse personagem, que tem a capacidade de lidar com a Morte e o Outro Mundo, com o poder de acessar o Yomotsu Hirasaka.

Enfim, enfim. On with the show!


X


O Paraíso dos Bandidos


Máscara da Morte abriu os olhos, sentindo a cabeça pesar e doer à simples menção da claridade da luz do dia.

Não lembrava muito como tinha chegado até ali, mas com certeza alguém se lembraria por ele. Lembrava de ter saído, lembrava da farra, lembrava da bebida e lembrava vagamente das mulheres, até que virou de lado e viu a garota em sua cama. Franziu a testa, porque ela parecia bem mais bonita em suas memórias alcoolizadas do que agora, mas não ia se ligar em pequenos detalhes naquele momento.

Tinha uma outra também, ele lembrava, mas ela não estava mais ali; deve ter acordado antes dele e ido embora. Também não era muito bonita, na realidade ela era menos bonita do que a primeira; mas era um menáge com duas mulheres, e não existia isso de Máscara da Morte recusar um menáge.

Afrodite recusaria, claro, porque as moças eram o que ele chamaria de feias. Coisa de florzinha, claro, mas mais Afrodite de Peixes, impossível.

Acordou a moça, se despediu com um mentiroso 'te ligo depois' e se mandou para casa, se ressentindo de um banho e um café forte. "Sem condições de treinar hoje", ele pensou, enquanto se pôs a maquinar na sua cabeça uma de várias maneiras de mandar Milo de Escorpião ir catar coquinhos caso ele fosse até seu templo insistir em puni-lo por não ter ido ao treino. "Como se nós tivéssemos muito o que fazer além das missões chinfrins da CIA e da S.H.I.E.L.D." Pensou ele de novo, já chegando em casa.

Já podia ouvir a voz reprovadora de Afrodite reclamando da sua promíscua falta de senso de estética, ou mesmo Shura torcendo o nariz para o fato dele chegar da farra já com o sol alto no céu depois de uma farra que lhe consumiu mais orgasmos e mais neurônios mortos do que o aceitável para um cavaleiro de ouro, mas era bem fato que ele tinha desenvolvido uma tolerância fenomenal às opiniões alheias à sua pessoa, negativas ou positivas.

Tudo bem que isso se devia ao fato de seus outros hobbies: moldar suas famigeradas máscaras de cera no rosto de suas vítimas e, bem, fazer as ditas vítimas; em primeiro lugar.

Na época do 'mandato' de 'Ares' no Santuário, ele até tinha mais espaço para essas atividades paralelas, mas ainda naquele tempo todos adoravam lhe apontar o dedo para dizer 'olhe, isso não está certo', ou 'não precisa matar tanta gente'.

Todos eufemismos dignos de Shion para lhe dizerem o óbvio: "Você é um assassino".

Grande m****, ele pensava, porque ali, assassinos eram todos. A diferença é que ele sabia o que ele era, e não se fingia de herói para diminuir o peso de seus atos.

Eles mataram, de titãs e espectros, em nome de Atena. Todos eles, até o Mu e o Shaka. Shaka, que se recusava a comer qualquer coisa de origem animal e teve uma fase onde só queria comer frutas caídas do pé, matava sem pestanejar em nome de Atena. Não matava? Eram eles menos assassinos por que seus alvos eram inimigos?

Milo e Afrodite promoveram um massacre na Ilha de Andrômeda. Eram eles menos assassinos apenas porque cumpriam ordens superiores?

Os olhos ocos das máscaras pareciam olhar para ele. Ele olhou para elas, que continuavam em sua parede, apesar dos protestos de tantos.

Lembrou de como Camus torceu a boca em reprovação, de como Aiolia disse que ele ainda era um psicopata por ter aquelas coisas em seu templo, de como Milo queria levá-lo a corregedoria para obrigar-lhe a tirá-las dali.

Eles não entendiam que aquelas máscaras não eram seus troféus de morte: Eram a representação das almas do Yomotsu, a fonte de seu poder. Eles não entendiam porque seu mestre o ensinou a moldar a máscara mortuária de cera no rosto das pessoas que morriam por suas mãos. "Você é o guardião de suas almas", ele dizia, "e você deve guiá-las pelo Umbral dos Mortos(1)". A cera quente no rosto do morto o educou a perder o nojo dos mortos, o medo da morte; até criar um fascínio por ela. "Todos morrem, tudo morre, e chega até você", lhe dizia o mestre, enquanto invocava as mesmas almas que o cercavam desde que tinha memória.

A morte era o natural da vida, e a vida é feita de morte.

Sua grande crueldade não foi matar, nem moldar os rostos em cera e pendurar na parede. Tudo isso seu mestre aprovaria. O que ele não aprovaria foi sua decisão de mantê-los presos no Umbral, para que parassem de cercá-lo e de se fazerem sentir em cada momento de sua vida. Funcionou, mas isso também minou suas forças.

Eles agora estavam livres, eles cruzaram o Umbral com sua primeira morte.

Tocou com os dedos uma das máscaras, um rosto de mulher jovem que moldou ainda na Sicilia, e que pertencia a uma moça doente que pedia para morrer, e que ele ajudou a partir sem dor. "Nem tudo na morte é dor e medo", dizia seu mestre, e o toque da cera em seus dedos virou, por um instante, o rosto daquela jovem.

Os olhos dela se abriram em sua mente, e ouviu a voz dela, clara, em sua alma.

- Você... Estava na gandaia de novo? - Disse a menina, com um certo tom de reprovação.

- Ah, vá encher o saco de outro, cazzo. - Ele tirou os dedos da máscara, mas a menina parecia estar bem ali, ao lado dele. - O que eu faço, ou deixo de fazer, não é da conta de vocês.

- Não? - Disse outra voz, a de um homem mais velho. - Porque olha, desse jeito você vai acabar aqui conosco mais cedo do que imagina, por causa de alguma doença do mundo.

- Hoje em dia existe uma coisa chamada camisinha, sabia? - O italiano retorquiu, já quase arrependido de tê-los invocado.

- E você usou essa bruxaria, por acaso?

- Claro. Eu tenho muito cuidado com meus espermatozoides, sabia? - Até ele mesmo riu da própria mentira. - Ou, pelo menos, tento.

- Não faça assim, Domenico, que você magoa os sentimentos da menina. - Outra voz se fez ouvir, e a voz feminina bufou de raiva. - Sabia que, antes dela ficar doente, ela paquerava com você?

- Isso é mentira! - A voz da garota ressoou, clara em sua mente. - É tudo invenção desse bando de desocupados.

- Desocupados mesmo, porque ao invés de irem fazer o que quer que seja que vocês tem pra fazer aí do Outro Lado, vocês ficam aqui, torrando minha paciência e falando na minha cabeça vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Vocês não cansam não?

- Morremos de tanto cansaço, com o perdão da piada pronta. - Riu a voz mais velha, e outros sussurros risonhos se fizeram ouvir. - E por isso estamos aqui...

Máscara da Morte revirou os olhos, meio risonho. "O cavaleiro que fala com gente morta, ridículo isso." Pensou enquanto se imaginava numa dessas tendas como médium, falando com os mortos através de uma bola de cristal.

- Mas, voltando ao assunto, você é um cavaleiro de Atena, pelos Deuses. - Outra voz, mais grave e ligeiramente familiar. - Não foi treinado pra conquistar uma armadura de Ouro, morrer e voltar do mundo dos mortos e finalmente encontrar o caminho do Bem para ficar agora se refestelando na cama de mulheres de vida fácil. Isso no meu tempo nem era permitido, sabia?

- Graças aos Deuses, os tempos mudaram, velhote.

- Você devia achar uma moça para sossegar, Domenico. - A voz da menina se fez ouvir de novo, um tanto sentida. - Achar alguém que te trate bem.

- Hm. - Máscara da Morte deu um riso seco, mas sua boca se torceu um tanto. - Isso não é pra mim. Mas vamos parar de conversa, que eu quero dormir, capisce? Agora vão. Vão, que eu quero dormir.

Os cochichos e sussurros foram diminuindo aos poucos, e as máscaras agora eram só máscaras na sua parede.

"Isso não", ele pensou, "não seriam nunca."

Eram as almas de quem ele era agora o guardião.

OOO


1 - Yomotsu Hirasaka: é o poço por onde as almas entram no país dos Mortos, conforme o mangá. Pra não ficar escrevendo Yomotsu, eu usarei a expressão Umbral dos Mortos.


Gente, como eu disse, é uma besteirinha de nada, mas é um pouquinho da minha visão muito pessoal do Máscara da Morte. Eu pincelei muito disso em Skandalón, mas eu realmente vejo o Máscara da Morte dessa maneira: uma maneira de lidar com a vida e a morte totalmente peculiar, graças ao seu poder sobre a fronteira do Mundo dos Mortos. Enfim, o lance dele se 'comunicar' com gente morta é da minha cabeça, ou seja, headcanon, mas enfim... Espero que gostem, anyway.

E vamos aos agradecimentos das reviews! Meu muito obrigada vai para RenataThais, Jules Heartilly, Narcisa Le Fay, RavenclawWitch, Suellen-san e Needy! Obrigada mesmo, gente, de coração! Adorei as reviews de todas, e deixei algumas sem responder, sorry, mas é que tá corrido mesmo, gente!

Mas me procurem no Facebook, viu? Eu sou amigável, gente! :3


Mas vamos responder quem não tem conta no FFnet:

- Needy: Amei suas DUAS reviews! Amei mesmo! Inclusive de você ter gostado de ver 'One' como música dos gêmeos. Enfim, muito obrigada!

E como sempre, turma...

...Stay tuned!


16/07/2012