POV Tetsuya Kotake
Ela continuava a olhar para o telemóvel assustada.
- Então?
- Onde é que arranjaste isso?
Era a primeira vez que ouvia esta voz vinda dela. Não era a normal sem conotação especial que utilizava no dia-a-dia, nem era a que tinha ouvido ontem forte e divertida. Era, simplesmente frágil.
- Eu estava lá.
Vi os olhos dela abrirem espantados e, depois escurecerem brevemente.
- Onde?
Analisei-a. A voz tinha ganho um outro tom, um que me fazia querer encolher a um canto.
- O…"coisa" tinha-me atirado para detrás de uns arbustos.
Ela olhou para mim com um pequeno brilho de preocupação.
- Estás bem? – acenei que sim embora, tenha feito uma careta com o movimento. Ela suspirou e deu um meio sorriso – Suponho que com "coisa" te referes ao Demónio Agony.
Demónio? O quê?
Antes de puder abrir a boca o professor de matemática entrou na sala e mandou-me sentar. A Doremi apenas me mandou um pequeno olhar como de dissesse "espera".
Sentei-me. Eu ainda queria a minha explicação.
POV Doremi Harukase
Como é que ele estava lá? Como pude ser tão descuidada?
Olhei para a cabeça dele. Três pontos pequenos formavam uma linha no topo do crânio, o provável sitio atingindo. Abanei a cabeça. Humanos não eram suposto entrarem nesta guerra. Como é que não impedi isto?
Ele olhou-me de esguelha. Os olhos dele quase que gritavam "respostas!" quando me olhavam. Eu teria de dizer alguma coisa… Porque é que a Rainha não lhe tinha apago a memória? É algum tipo de vingança pelo "presente" que lhe deixei?
FLAHSBACK
Apareci na sala do trono combatendo as protecções ridículas que tinham contra aparecimento de estranhos. E por ridículas, quero dizer que qualquer bruxo inteligente consegue ultrapassa-las. Felizmente a sala estava vazia ou, não teria metade da piada.
Levitei o corpo do demónio deixando-o cair no meio da escadaria do trono. Que ele a suja-se de sangue.
Sorri. Estalei os dedos fazendo aparecer um laço vermelho, enorme, de seda vermelha na cabeça do demónio.
Subi o resto dos degraus e sentei-me no trono. Queria que ela fosse a primeira a ver a mensagem. Estiquei o dedo começando a escrever no ar:
"Um presente vossa majestade, Rainha de mundo das Bruxas. O mundo não é tão cor-de-rosa quanto pensa."
Enquanto escrevia na parede oposta ao trono apareciam letras gigantes formandas de fogo incandescente que descreviam as palavras que gesticulava.
"Agora só gostava de ser mosca para puder ver a cara dela!" pensei enquanto desaparecia em pleno ar.
Bem, vingança ou não, teria de lhe dizer alguma coisa.
Ia a virar a cabeça para a janela quando um papelinho acerca na minha mão. O Kotake olha para mim. Abri o papel:
Sabes que podes confiar em mim, certo?
Engoli em seco, tentado manter a cara inexpressiva. Quando é que foi a ultima vez que fiz isso? Quando foi a ultima vez que confie em alguém?
POV Testuya Kotake
O tempo sempre passou assim tão devagar? Isto é agonizante! Mas, o pior nem eram as aulas. Eram os "Oh, coitadinho!" e o "És tão corajoso!" das raparigas que me perseguem! O professor de matemática tinha me chamado "O pequeno herói da pátria que salvava raparigas em perigo". Como se! Se eles ao menos soubessem quem tinha realmente salvo o dia!
Olhei para o relógio. Ainda faltava um quarto de hora para o intervalo. Raios!
Arrisquei um olhar trás. A Doremi estava aparentemente bem se, ninguém olhasse para as suas mãos. Estava sentada como normalmente, hirta e muito direita. A cara inexpressiva como sempre mas, as mãos… Estavam fechadas em punhos muito apertadas. Tão apertadas que os nós dos dedos estavam brancos e as veias principais ressaltavam. Ela estava nervosa.
TRIMM!
Levantei-me rapidamente ao som do toque, voltando rapidamente a cair na cadeira. Nota mental: Movimentos bruscos e concussões não resultam juntos.
Uma mão cálida pousou no meu ombro, apertando-o levemente:
- Tens a certeza que estás bem?
Virei a cara na direcção da ruiva murmurando um "sim". Reparei que algumas pessoas olhavam para ela espantados. Ela geralmente não falava com ninguém.
Levantei-me olhando para ela. Ela por sua vez suspirou antes de começar a andar. Segui-a percebendo o "é a única chance" no abanar dos seus ombros.
Descemos as escadas abrindo caminho para o pátio. De lá começamos a andar afastando-nos de qualquer sinal de população.
- Onde estamos a ir? – perguntei
- Longe.
Grande resposta. Continuamos a andar até chegarmos a um muro. Ela parou e olhou para mim com os olhos a brilharem:
- Segue-me.
Pisquei os olhos quando a vi erguer os braços agarrando a beira do muro e passando rapidamente para o outro lado. Agarrei também o muro erguendo-me e com um movimento de pernas passei para o outro lado onde, cai espectacularmente de cu no chão quando uma tontura passou por mim.
Ela riu ajoelhando-se ao meu lado examinando-me a cabeça.
- Não tem piada… - murmurei parecendo o meu primo de 3 anos. Ela riu novamente dando-me a mão e ajudando-me a levantar.
Suspirei quando ergui os olhos. Parecia que tinha acabado de cair no meio de uma floresta.
O sol passava entre as frestas das copas criando padrões na cobertura verde do chão. Folhas de diversos tons de cobre formavam montes em volta dos tronos grandes e largos. Pássaros voavam de ramo em ramo piando levemente. O vento mínimo que passava por entre a condensação de ramos fazia dançar as folhas e a relva rasteira. Ali a floresta respirava. Vivia.
Ela continuou a andar arrastando-me com ela. Por fim parou, largando-me a mão e afastando-se. Olhei em volta fascinado. Estávamos no meio de uma pequena clareira. Uma família de coelhos fugiu quando nós chegamos e pássaros piavam como para avisar os outros animais da nossa presença. Um tronco caindo cheio de musgo mostrava a sua função de banco mas, o mais impressionante era o baloiço.
A árvore de folhas completamente douradas dançava levemente com o vento que era ali mais forte. No tronco mais baixo pendia um baloiço de duas pessoas. O musgo junto com uma trepadeira florida, cobria as correntes de suspensão. Nos recortes ornamentais das costas do baloiço a mesma trepadeira preenchia as falhas. O assento estava incrivelmente limpo, embora isso não lhe tira-se o ar de que, aquilo pertencia ali. Pertencia aquele lugar, fazendo parte dele.
Virei-me:
- Isto é espectacular…
Fechei a boca. A ruiva estava no centro na clareira onde o sol batia mais fortemente. Parecia tão pequena. Tão frágil.
Estava abraçada a si mesma com a cara virada para cima, com aquela pele de alabastro a brilhar ao sol. A boca formava um sorriso mínimo quase triste. Os olhos estavam fechados. O seu cabelo parecia fogo, com o sol a derramar-se sobre ele daquela maneira, fazendo realçar todos os tons até então secretos. Os cobres, os vermelhos, o ouro, o branco da pele e o rosa dos lábios. Ela era em si própria uma jóia. E aquela fragilidade e tristeza faziam-na parecer uma deusa.
Ela abaixou por fim o rosto abrindo os olhos. Depois virou-se para mim caminhando lentamente.
- O que queres saber?
1º Parte!
