Capítulo 10: a mulher
Claire caminhou de volta para a primeira casa do vilarejo e se agachou para pegar a besta no chão. Retirou a aljava das costas do antigo proprietário e colocou nas suas, apertando a amarra com um pouco de força. Encontrou os olhos preocupados de Leon, observando-a, do lado de fora.
— Para onde ela foi? — questionou, saindo da casa e se aproximando dele.
Ele não respondeu de imediato. Esperou até ela abrir os braços, enfatizando a pergunta.
— Eu vi o mesmo que você, Claire — falou calmo. — Ela virou ali e desapareceu — indicou o caminho com o dedo.
— Pessoas não desaparecem assim, Leon — retrucou grosseiramente. — Vamos procurar por ela.
Claire passou por ele e começou a caminhar até onde haviam ido. Olhou de relance para o corpo de Samuel no chão, o sangue do rapaz ainda vazava lentamente de seu corpo e escorria pelo chão de terra, ela voltou seu olhar para Leon.
— Eu vou olhar naquela casa ali — começou indicando com a mão —, e você dá uma olhada naquela outra.
— Ok.
Seguido de um longo suspiro ele foi até o casebre que Claire havia indicado. Imaginou que todos os zumbis do local já haviam sido mortos por eles, entretanto, ergueu a arma caso encontrasse Olívia.
— Nada? — ele ouviu Claire perguntar.
— Não. E aí?
Ela negou com um aceno.
— Acha que ela não está mais aqui?
— Ela não teve muito tempo para se afastar tanto assim — explicou. — Vamos continuar procurando...
Claire se virou novamente para ir em direção a qualquer outra casa, mas Leon a impediu de prosseguir agarrando-a pelo braço.
— Juntos — ele falou completando a frase.
— Por que? — perguntou surpresa. — Se nos separarmos, seremos mais rápidos.
— Eu não ligo.
— ... Okay — ela concordou estranhando a reação dele.
Não havia muito aonde procurar, o vilarejo onde estavam era menor do que o outro. Poucos minutos se passaram e eles conseguiram entrar na maioria dos casebres para checar se Olívia estava dentro de algum deles.
Ambos entraram num casebre velho, estruturado com tijolos corroídos, e que parecia ter dois andares.
— Eu olho lá em cima — ela comunicou apontando para o teto.
Sem trocar palavras, Leon caminhou para dentro da escura casa e quando ele passou pela porta e desapareceu das vistas de Claire, ela se aproximou da escada e ficou analisando a pintura feita de sangue seco que se espalhava pelos degraus, um sentimento de tristeza a envolveu brevemente.
— Sabe, quando alguém explode o avião de vocês, tudo que querem que vocês façam é morrer! — ela ouviu uma voz dizer por trás dela. — Não é tão difícil assim.
Claire se virou devagar um pouco assustada e começou a erguer os braços vagarosamente quando viu que a mulher apontava um revolver para seu corpo.
— Então foi você? — perguntou apreensiva.
— Claro! — a loira respondeu dando um passo para frente e entrando na casa. — Bom, não exatamente eu. Tive uma ajudinha. Mas vocês insistiram em ficar vivos, não é mesmo?
Aparentemente Leon havia escutado o pequeno diálogo entre as duas. Ele caminhou lentamente escorado na parede, escondendo-se nas sombras.
Claire sorriu.
— Onde está o outr...? — neste exato momento, Leon se inclinou para cima da mulher e retirou a arma da mão dela em uma velocidade extraordinária.
Olívia se assustou e empurrou Leon com força contra a parede, em seguida disparou a correr para fora da casa, seguindo vilarejo adentro.
— Aah, não — Claire gritou começando a segui-la. — Você não vai fugir de novo!
Eles correram atrás dela, ambos em seu encalço. Eles a perseguiram até que ela entrasse inesperadamente em uma pequena casa. A mulher percebeu que tinha cometido um erro. Olívia parou de correr, já que não havia mais caminho para seguir, e ergueu os braços se rendendo.
Eles a encurralaram.
— Temos duas armas apontando para sua cabeça — Leon disse ofegante —, eu sugiro que você não tente fazer nenhuma besteira.
A mulher sorriu seco em resposta.
— Bom, você deve saber o que queremos, não é? — Claire deu alguns passos na direção da loira, ainda mirando nela. — É só você responder nossas perguntas e logo acabamos com isso, ok?
—Olha, florzinha — começou, após um longo suspiro —, eu até responderia, mas estou com muita pressa hoje.
— Nós diga, Olívia — Leon a pressionou. — O que é que você quer com tudo isto?
— Hm... Você sabe o meu nome, mas eu não sei o seu, que tal você me pagar uma bebida e então...
— Responda!
— Eu estou só continuando o trabalho, querido — debochou com um sorriso. — Com a fama que uma tal corporação tem conseguido foi preciso tomar medidas drásticas. Abrir um laboratório num local onde não há praticamente ninguém? Você deve admitir que é incrível! — ria. — Eu só quero fazer pesquisas, desenvolver fármacos, produzir... — ela parou de falar, umedecendo os lábios.
— O que? — ele perguntou. — Produzir o que?!
— Produzir alguns vírus.
Claire segurou a arma com mais força enquanto acomodava seu dedo no gatilho. Respirou fundo.
— Por que? — ela perguntou.
— Por quê? Você deve imaginar o por quê, lindinha — virou seu olhar para Leon e o encarou maliciosamente. — Eu gosto de mordidas.
Claire avançou de imediato para cima da loira e a socou no rosto com força, fazendo Olívia tombar e apoiar-se no chão com uma das mãos.
— Eu não estou brincando, sua desgraçada — Claire gritou. — O próximo vai arrancar muito mais do que sangue dessa sua cara.
— Filha da pu...
— Responda!
— Poucos meses atrás — começou a falar, cuspindo sangue no chão —, amostras do t-Verônica chegaram nas mãos de um tal de Javier Hidalgo, não é? Bom, digamos que agora é a minha vez de tentar.
— O que você sabe sobre Javier? Sua vez de tentar o que? — Leon perguntou surpreso.
Ela gargalhou se levantando.
— Eu sei o suficiente — respondeu encarando-o. — E vou tentar muita coisa.
Ele abaixou a arma, perdendo-se nas lembranças da missão que fizera meses atrás. Memórias rondaram sua mente, vagarosamente ligando as informações.
— Estou achando que são vocês quem não sabem de nada — Olívia zombou enquanto arrumava o cabelo, tirando-os da frente dos olhos. — Quem vocês acham que eu sou?
— Uma vadia aidética do caralho — Claire respondeu com um sorriso de satisfação.
Olívia a encarou impaciente.
— Como você está fazendo isso, Olívia?
— O que? Por que? Como? Nossa, vocês fazem perguntas demais, não acham?
Com rapidez, Claire deu um largo passo para frente e, com mais um soco, acertou a maçã do rosto da mulher com muita força. Sentindo um pouco de dor, ela coçou o dorso da mão que usou para atacá-la.
— Você é doida?! — Olívia berrou, depois de se recuperar e cuspir mais sangue no chão, deixando os dentes levemente coloridos de vermelho.
— Talvez eu seja.
— Como você está fazendo?! — ele gritou.
— Aah, vocês devem saber; eu coloco o t-Verônica no corpo de alguém e então, como o tal do sono criogênico é muito chato, nós fazemos...
— Transplante de órgãos — ele completou.
— Exatamente! — exclamou feliz. — Está vendo, queridinha, ele sabe conversar.
A lembrança caiu sobre ele, tão viva como um sonho. Olívia o analisou curiosa.
— ... Então foi você? — indagou surpresa. — Você foi um dos caras que salvou aquela garota, não foi?
Ele a encarou nervoso. Claire um pouco perdida na conversa. Olívia gargalhou.
— Qual o nome dela mesmo? — ela perguntou contente. — Amanda? Mariana?
— Manuela — respondeu chateado.
Claire perdeu a atenção enquanto fitava Leon e finalmente começava a entender o que estava acontecendo. Ela havia lido o relatório de Leon sobre a operação algumas semanas atrás, mas muitas informações não foram datadas no documento.
Olívia vagarosamente levou sua mão até as costas sem que nenhum dos dois percebessem.
— Mas que mundo pequeno, não é mesmo?
Em seguida ambos colocaram as mãos sobre os olhos, na esperança de afastar a incomodante luz que os cegaram momentaneamente. Segundos se passaram até que puderam piscar e ver que Olívia já não estava mais ali.
— Filha da puta! — ela praguejou após olhar para os lados e não encontrá-la.
— Odeio granadas de luz — Leon reclamou coçando os olhos.
Ela subiu as escadas correndo e não encontrou nada no pequeno andar de cima. Voltou apressada ao reencontro de Leon que havia olhado no andar de baixo.
— Para onde ela foi? — Claire perguntou atônita.
— Não tem como ela estar muito longe, vamos volt...
Um som estranho no piso interrompeu o que ele iria propor. Enquanto se dirigia para fora da casa, Leon havia pisado em alguma madeira cujo barulho parecia ser oco.
Pisou com o outro pé no mesmo lugar e ambos escutaram novamente. Ele se agachou e apertou os olhos para ver melhor na escuridão da casa. Tateou o chão devagar e sentiu uma estreita fresta no piso de madeira. Enfiou os dedos pelo pequeno buraco e puxou a tampa para cima, revelando um pequeno caminho para baixo.
— Praticamente um truque de mágica — ele brincou enquanto avistava as poucas escadas que desciam pelo alçapão.
Eles pularam no pequeno buraco e observaram um estreito caminho que parecia se estender por poucos metros até que os levasse a uma porta de aço. Vagarosamente começaram a andar, temendo que Olívia os pegasse desprevenidos.
— Quem é... — tímida, ela começou a perguntar enquanto caminhavam lentamente até a porta. — Quem é Manuela?
Ainda olhando para o chão, com medo de pisar em falso, ele perguntou:
— Por que quer saber?
— Só curiosidade — respondeu engolindo em seco.
— Uma garota.
— Só... Só uma garota?
Ele olhou para ela e exibiu um largo sorriso.
— É, só uma garota.
— Okay... — falou enquanto desviava o olhar para o chão.
