Capítulo IX
Sentou-se ereta contra a cadeira desconfortável, seus olhos fixos no rodapé da parede na sua frente. Sentiu os toques em seus ombros, as palavras doces em seus ouvidos. Suas mãos prendiam o material de seu vestido na altura das pernas com força.
Carter estava em cirurgia a mais de duas horas, Elegante havia levado Helena para o castelo lutando contra os gritos da princesa.
Sentiu alguém sentar do seu lado, mas não ergueu a cabeça.
- Para quem disse que o povo não aprovava a relação de vocês duas… - A voz de Carlos soou aos seus ouvidos. – Eles me pareceram bem comovidos com o que aconteceu.
- Príncipe Carlos. – Sua voz rouca saiu pela garganta seca. – Eu…
- Depois falamos sobre as convenções sociais Rosalinda, agora eu quero saber em que posso ajudar. – Ele abaixou o tom soltando um suspiro. – Qualquer coisa.
A rainha negou com a cabeça, limpou o rosto molhado pelas lágrimas quentes.
- Carter é cabeça dura. - Falou com a voz baixa. - Adora me assustar assim, você vai ver ela vai acordar e vai me dar o sorriso que eu amo.
- Eu percebi que ela é bem determinada. - Carlos ofereceu um sorriso. - Me enfrentou dentro do meu próprio castelo para salvar você.
- Eu sei o que ela te ofereceu...
- Eu me nego a aceitar. - Carlos ergueu as mãos. - Me nego a tirar a rainha que seu povo elegeu da terra dela.
Rosalinda fechou os olhos deixando mais lágrimas saírem, sentiu que ele a envolvia e se deixou levar. O grito que ela soltou foi abafado pelo ombro dele.
- Você mesma disse, a Capitã Carter Mason é cabeça dura. - Ele acariciou os cabelos da rainha.
Helena estava na sala de brinquedos, sentada no tapete colorido evitava tocar em seus blocos de montar. Rosalinda parou na porta soltando um suspiro, Sophia havia lhe convencido a ir explicar para a filha o que estava acontecendo.
Aproximou-se atraindo a atenção de Helena que se levantou correndo para a mãe.
- Mamá. – Se agarrou as pernas de Rosalinda. – Mami está bem?
Rosalinda fechou os olhos antes de pegar a menina no colo e se sentar com ela no banco da janela.
- Mami está com os médicos que estão tratando o machucado dela. – Ergueu o rosto da filha pelo queixo. – Agora por que você está a chamando assim?
- Por que ela faz tudo o que uma mamá faz. – Respondeu encarando os olhos da mãe.
- Usted quiere tener dos mamás? – Perguntou com calma para a menina.
Helena acenou com a cabeça antes de uma lágrima escorrer pelo seu rosto.
- No quiero tener um papá. – Fungou levemente. – Él es malo.
- Ele te machucou? – Rosalinda sentiu seu coração apertar com o que veio em sua cabeça. – Helena ele machucou você?
- Quería mami. – Helena fungou, em seguida limpou o rostinho. – Papai me bateu.
- Como assim? – Rosalinda sentiu o sangue começar a ferver.
- Eu queria a mami. – Olhou para a porta. - ¿Dónde está mami?
- Mami está sendo cuidada eu já disse. – Sussurrou para a filha. – Helena calma.
O Major entrou pelos corredores impondo sua pose e presença. Sophia estava sentada ao lado de Pedro quando ergueu o rosto para o Mason que vinha.
- Major. – Se levantou tentando se manter calma. – Ela está em cirurgia.
Mason olhou para Pedro que bateu continência.
- Onde está Rosie? – Olhou envolta.
- Com Helena, minha neta. – Sophia explicou. – Ela é muito agarrada com a Carter e está bem assustada.
O Major acenou com a cabeça, seus olhos encaravam a porta no final do corredor, correu a mão suada pelos cabelos curtos.
- Sente-se Mason. – Sophia o puxou para se sentar ao seu lado, segurou o braço do homem delicadamente. – Já vamos receber notícias.
Elegante apareceu na porta vendo Rosalinda ninar a pequena princesa que estava aconchegada em seus braços com a cabeça apoiada em seu seio.
- Minha rainha o Major Mason chegou. – Se aproximou falando suavemente. – Ele está no hospital.
Rosalinda concordou sem retirar os olhos do rosto adormecido de Helena, se levantou reprimindo a careta de dor, ajeitou a menina em seus braços e começou a se afastar.
- Peça a Pedro que ele ordene que dois guardas permaneçam na porta do quarto de Helena. – Se encaminhou para a porta. – Homens de confiança e não podem sair da porta do quarto.
- Se te mantém mais tranquila eu fico dentro do quarto com ela. – Elegante falou manso.
- Me tranquilizaria muito. – Suspirou caminhando pelo corredor.
Elegante puxou o celular e ligou rapidamente para Pedro solicitando a guarda que a rainha havia ordenado.
Pousou o corpo da menina na cama e rapidamente a cobriu colocando um beijo na testa clara.
- Vá ficar com Carter eu fico aqui com a pequeña. – Elegante sorriu amorosamente para a menina. – Ela vai estar segura agora vá cuidar de Carter.
Afastou-se com o coração apertado por estar deixando a filha, mas Carter precisava de sua presença e naquele momento e Helena estava bem.
Estava dentro do carro seguindo para o hospital, seus olhos passeavam pelo seu povo. Pessoas honestas de bom coração. Seu povo. Sua terra. O que aconteceria se ela abrisse mão de tudo aquilo? Certamente a monarquia acabaria afinal Helena era a única herdeira e não poderia assumir o trono. Imagine uma terra governada por uma menina de 3 anos? Um concelho seria organizado para guiar o governo até que Helena tivesse idade o suficiente para assumir, era isso que seria feito, mas ela não poderia ficar com a filha. Se abrisse mão de Costa Luna abriria mão de Helena e abrir mão da filha era algo que ela nunca pensaria.
O carro diminuiu a velocidade para poder passar pela multidão que se juntava na frente do hospital. Respirou fundo tentando acalmar seus nervos, estalou os dedos das mãos enquanto sentia as pessoas olharem para ela através do vidro do carro.
Carlos lhe esperava no hall do hospital, a expressão séria e rígida lhe alarmou.
- Por que você está me esperando? – Rosalinda pediu se aproximando, o lugar estava silencioso.
- Sua mãe me pediu para vir. – Ele engoliu o pouco de saliva.
- Carter? – Sentiu seu coração acelerar. – O que aconteceu com a Carter?
Carlos a conduziu para dentro do hospital, mas assim que entraram a rainha parou encarando o príncipe da Costa de Sol.
- O que aconteceu? – Sussurrou com os olhos já cheios de lágrimas. – Onde esta a minha Mason.
- Ela teve algumas complicações durante a cirurgia. – Ele mantinha o tom de voz calmo.
- Ela morreu? – A voz rouca da rainha falhou.
Entrou no quarto vendo o corpo pálido e frágil repousado sobre a cama, os olhos castanhos fechados e os lábios brancos entreabertos. Aproximou-se com as mãos tremendo, acariciou os cabelos escuros se curvando para o corpo.
- Oi. – O sussurro fraco que lhe escapou pelos lábios. – Não deveria ser assim, você não tinha que ter enfrentado o Cristian e nem ter voltado.
Uma lágrima escapou pelos seus olhos, a ponta dos seus dedos tocando os fios escuros, a lágrima escorreu pelo rosto maduro até morrerem na linha firme que seus lábios formavam.
Deslizou os dedos pelo rosto.
- Eu te amo Carter Mason. – Murmurou. – Você é o que falta em mim.
Afastou-se com o corpo pesado, ocupou a poltrona no canto do quarto e em algum momento sucumbiu ao sono.
A estrada com o asfalto já gasto se estendia por entre as arvores grandes e numerosas, em alguns dos troncos grossos tinha um pouco do musgo verde, o ar fresco e úmido inflou suas narinas. Algumas folhas secas se juntavam pelo chão, o lago cintilava sobre a luz do sol cercado pela cadeia de colinas com os pastos verdes já se tornando amarelados. Era outono.
Olhou a casa simples como se lembrava, as cadeiras de descanso, o pequeno jardim e a escada de madeira, e lá longe estava o deck. Seus olhos foram atraídos para a figura esguia que estava em pé pintando um barco, aproximou-se quase correndo, parou de chofre na frente da mulher.
- Carter. – Sussurrou com um sorriso.
- Hey Rosie. – Cumprimentou com um sorriso leve, pincelou mais algumas vezes.
Rosalinda olhou em volta, a loja de isca estava lá do mesmo jeito, a placa balançava suavemente pela brisa que corria.
- Quer ajuda com o estoque? – Perguntou com um sorriso divertido.
Ouviu a gargalhada gostosa de Carter, seus olhos se fixaram nos lábios de Carter e um suspiro de alivio escapou pela sua garganta. A Mason enfiou o pincel na lada de tinta, balançou a cabeça enquanto um sorriso ainda enfeitava seus lábios.
- Por mais que eu adore ter você aqui, preciso saber por que você veio. – Carter cruzou os braços sobre o peito. – Você não deveria estar aqui Rosie.
- Como? – A rainha franziu o rosto.
Carter abriu os braços soltando um suspiro, encolheu os ombros de leve com um sorrisinho triste.
- Esse é o meu lugar. – Mordeu o lábio de leve. – Onde vou descansar para sempre.
- Descansar? – Rosie sentiu o gosto amargo na boca e o estomago se revirar de leve. – Carter…
- Rosie, baby. – A agente segurou o rosto de Rosalinda, assoprou as palavras. – Eu vou morrer.
Puxou seu rosto para longe, deu dois passos para trás seus olhos se encheram de lágrimas. Seu peito se preencheu com aquela pressão tão densa, quase não conseguia respirar. Deu as costas para Carter e desatou a correr para o deck. Sua pele ardia como se estivesse em brasa seus olhos pinicavam enquanto a lágrima quente descia pela bochecha. Apoiou o corpo contra a pilastra de madeira, sentiu a presença de Carter encostando-se na outra pilastra.
Engoliu as lágrimas limpando o rosto furiosamente.
- Na ultima vez que estivemos nessa posição você me pediu para ficar. – Rosalinda murmurou.
Carter se aproximou a tomando pelo rosto de novo, limpou as lágrimas que insistiam em cair dos olhos castanhos.
- E eu me lembro que você disse que queria ser como o seu pai, queria fazer a diferença. – Sussurrou suavemente para a Montoya.
Rosie segurou os pulsos de Carter aproximando seus lábios dos da Mason.
- Eu te amo Carter. – Sentiu a lágrima escorrer pelo canto dos olhos. – Preciso de você comigo.
- Eu sempre vou estar minha rainha. – Tirou os cabelos do rosto de Rosie. – Vou sempre estar com você.
- Não Carter eu preciso de você, do seu corpo, do seu amor, da sua respiração. – Fechou os olhos.
- Não posso você perde tudo ficando comigo. – Encostou sua testa na dela soltando um suspiro sofrido.
- Eu ganho tudo Carter Mason. – Se prendeu mais forte a ela. – Tudo, entende isso.
- Já tomei minha decisão Rosie. – A beijou na testa, sentiu o choro da rainha e o seu coração apertou.
Soltou os pulsos da Mason se agarrando a roupa, os soluços saiam pelos seus lábios. Carter deixou seus braços caírem do abraço que dava em Rosie, seus olhos se fecharam automaticamente.
- Foi quando você estava coberta de iogurte. – Murmurou. – Eu olhei para você e vi o quanto você estava machucada e frágil, mas no momento seguinte você surgiu forte e decidida. Foi o momento em que me apaixonei por você.
Rosie levantou o rosto encarando Carter nos olhos.
- Você está frágil e machucada, mas vai surgir ainda mais forte. – Limpou as lágrimas quentes. – Eu sei disso, foi por essa Rosie Gonzalez que eu me apaixonei.
- Pare de tentar fazer o que você acha que é certo. – Empurrou Carter de leve. – Eu tentei fazer isso e olha no que deu? Ficamos separadas.
- Helena aconteceu. – Carter respondeu.
- O que eu digo para ela? – Empurrou Carter pelos ombros de novo. – O que eu digo para a nossa filha? Ela quer você como mãe dela, ela me disse isso.
- Explique a verdade que ela pode aguentar.
- E qual é a verdade Carter? Que o pai que ela não quer mais ver tirou uma pessoa que ela ama da vida dela? Que a pessoa que da segurança a ela não vai mais voltar? Me diz Carter qual verdade eu conto para a nossa filha de 3 anos?
- Conte que eu morri a protegendo, defendendo o reino que um dia ela vai governar. – Carter se aproximou. – Quando crescer ela vai entender o que é amar tanto alguém ao ponto de se entregar completamente.
- Você não precisa morrer para que ela entenda isso. – Acariciou o rosto de Carter. – É uma história engraçada a nossa, mas esqueceram de colocar as piadas.
- Como assim minha rainha? – Fechou os olhos inclinando o rosto para o carinho.
- No início eu quebrei nós duas, achando que era o certo, mas então você voltou e nos concertou e eu tive que nos quebrar de novo e mesmo assim você voltou para nos concertar.
Carter apertou os olhos entendendo o que ela falava.
- E agora eu estou nos quebrando. – Sentiu o toque gentil dos lábios de Rosalinda nos seus.
- E eu não posso nos concertar. – Murmurou contra os lábios de Carter. – Você não deixa.
O beijo pode ter sido o mais doce e o mais sincero que já haviam trocado, Rosie o segurou pelo rosto enquanto Carter lhe abraçava com firmeza. Era lento e sincero, era o ultimo e como se ao tomarem consciência disso o mundo também tomou.
- Você não terminou a história. – O ultimo sussurro que conseguiu dizer antes de Carter desaparecer.
Sentiu os braços fortes de Pedro lhe puxando para fora do quarto enquanto os médicos tentavam ressuscitar Carter depois da segunda parada cardíaca. As pessoas corriam para o quarto enquanto Pedro lhe puxava pelo corredor, se debateu um pouco fazendo Pedro lhe suspender com os braços.
- Calma. – Ele murmurou em seu ouvido. – Calma Majestade, calma.
- Não. – Murmurou sentindo a garganta apertar. – Não me deixa Carter, não me deixa.
- Ela não vai. – Pedro tentou acalma-la.
- Ela vai. – Tentou se soltar dele, mas ele a prendia. – Ela me disse que ia, ela não pode me deixar.
Sophia se adiantou para a filha, lhe sussurrou algo no ouvido e a mulher imediatamente parou de se debater, encarou a mãe com os olhos cheios de lágrimas. A rainha-mãe deu um olhar para Pedro que soltou a rainha, Rosalinda se aconchegou nos braços da mãe ainda chorando.
- Não posso perdê-la. – Sussurrou para a mãe.
- Shh… - Sophia alisou os seus cabelos escuros. – Confie nela.
Um dos médicos saiu da sala encontrando o grupo no corredor, Major Mason era o único que não se encontrava, ele estava na capela.
- Majestade. – Ele chamou Rosalinda.
Sophia entrou na capela, Mason estava sentado no banco de madeira os dedos entrelaçados na frente dos lábios.
- Eu me lembro quando perdi a mãe dela. – Olhou para Sophia que se sentou alisando o braço dele. – Foi no parto da Carter, eu tinha uma menina recém-nascida nos meus braços e a minha esposa em um caixão.
- Você a criou muito bem. – Sophia assoprou para ele. – Carter é uma mulher incrível.
- O que eu faço se eu perdê-la? – Olhou para a rainha-mãe. – Eu sei que essa sempre foi uma opção principalmente no nosso trabalho, mas dessa vez eu posso realmente perde-la. Estou aqui pedindo a ela que cuide de Carter que não deixe que eu perca a nossa menina também.
Sophia acariciou os cabelos do homem.
- Carter está estável. – Sussurrou. – Os médicos conseguiram estabiliza-la, ela teve outra parada cardíaca, mas ela voltou. Ela vai ficar bem, basta ter fé.
Mason suspirou sentindo a lágrima escorrer pelo rosto.
- Obrigada querida, obrigada por ter cuidado da nossa menina. – Sorriu entre lágrimas.
2 meses depois – Costa Luna
Rosalinda estava analisando os planos para a festa de aniversário de Helena quando sentiu os dois braços lhe puxando pela cintura.
- Você deveria estar na cama Carter. – A repreendeu passando os dedos pelos braços da Mason.
- Você deveria estar comigo. – Respondeu mordendo o ombro da rainha.
- Eu não acabei de sair do hospital. – A olhou por cima do ombro com um pequeno sorriso. – Eu já estou indo para a cama amor.
- Posso te acompanhar? – A beijou na bochecha.
- Você não vai desistir não é? – Soltou uma risada baixa. – Colocou Helena na cama?
- Sim, ela não parou de falar do abuelo que vai chegar para o aniversário dela. – Beijou atrás da orelha de Rosie. – Ela amou o meu pai e o meu pai se apaixonou por ela.
- Amor… - Respirou fundo. – Conseguiu terminar a história?
- Acho que não vou termina-la. – Encolheu os ombros escorregando seus lábios pelo pescoço dando pequenos beijinhos.
- Por quê?
- Não quero termina-la, na verdade acho que nem saberia termina-la. – Mordeu de leve a orelha de Rosie. – Essa é a graça continuar com a história a evoluindo e ensinando coisas para a nossa filha.
- Achei que a graça fosse o final feliz.
- Finais felizes são tão entediantes. – Rolou os olhos para o teto.
Rosie soltou uma risada, esfregou seu nariz suavemente no pescoço de Carter.
Qual a sensação ao terminar um quebra cabeça? Aquele que você levou horas talvez até dias montando… que você recebeu ajuda e em certos momentos até desistiu, mas a sua vontade de ver a imagem final foi mais forte e então você voltou e continuou. Você vai querer montar outro.
Fim
