Planos

Hermione acordou relutante, mexendo-se um pouco no colchão desconfortável. Algo em seu subconsciente lhe dizia que ela não estava dormindo em sua cama. Abriu os olhos lentamente, e definitivamente o que viu lhe confirmou o pensamento anterior. O quarto em que dormira estava escuro, as cortinas negras impediam a claridade de penetrar mais a fundo no cômodo.

Algumas imagens de sua noite anterior lhe assaltaram a mente e ela fechou os olhos novamente, trancando o maxilar. Seu rosto esquentou-se e ela reabriu os olhos, olhando para um relógio bruxo que estava ao lado da cama. Duas horas da tarde.

Não acreditou quando tomou consciência do tanto que dormira. Nunca havia acontecido isso com ela, e ela pensou em algumas possibilidades que levaram ao fato, cada uma mais improvável que a outra.

Pela primeira vez ela tomou conta da respiração ao seu lado e estacou. Hermione temia virar-se e se deparar com o homem a fitando com aquela diversão nos olhos azuis, sustentando aquele sorriso malicioso. Não queria aquilo, sabia que algum dia teria que enfrentar o que havia feito, mas preferia fazê-lo sozinha a começar a colher as consequências diretamente com ele.

Com relutância, ela virou-se vagarosamente, e o que viu lhe deixou aliviada. Ele estava dormindo.

O homem a quem ela se entregara na noite anterior estava entregue a um sono profundo. O peito delineado subia e descia tranquilamente. O braço direito estava atrás da cabeça, e ela percebeu que ele não possuía a Marca Negra. Mesmo que soubesse que alguns snatchers trabalhavam apenas por dinheiro e não eram Comensais da Morte, depois de Greyback ter se juntado a eles, ela não se arriscaria a pensar daquela forma.

Os cabelos pareciam mais bagunçados. Por mais que ela tentasse procurar algo que a repugnasse, ela continuava a achá-lo atraente. Ele possuía algumas cicatrizes no peito também. O nariz era reto e o rosto parecia sereno, como se o dono não fosse capaz de fazer mal a ninguém. Hermione riu baixinho em descrença.

Continuou a observar o homem ao seu lado, entregue aos pensamentos que estavam inundando sua mente sem pedir passagem. O lençol puído tampava a parte inferior da cintura, e ela agradeceu a Merlin por isso. A última coisa que precisava era ver o snatcher completamente nu.

Ela continuou a fitá-lo e se perguntou mentalmente o porquê de sentir tanta atração por ele, mas por mais que essa pergunta planasse em sua mente por tanto tempo, ela nunca conseguira chegar a uma resposta satisfatória.

Decidiu que o melhor que poderia fazer seria sair daquele lugar antes que o snatcher resolvesse acordar. Seus olhos castanhos percorreram todo o quarto e ela não conseguiu achar suas roupas. O rosto se esquentou ao se lembrar onde as peças do vestuário estavam.

Levantou-se completamente nua da cama, passando os olhos rapidamente pelo homem. Com passos largos e silenciosos, foi em direção à sala e achou suas roupas, colocando-as rapidamente no corpo. Percebeu que a chave dourada estava ao lado do sofá, em cima de uma mesa. Fechou os olhos e respirou fundo. Não sabia se ele havia colocado o objeto ali, mas agradecia mentalmente sua sorte.

Ela voltou ao quarto para se certificar de que ele ainda estava dormindo. Nunca mais o veria, ia sumir da vida daquele snatcher para sempre. Nem que tivesse que pedir transferência do emprego e ir morar em outro continente. Pensar em sua fraqueza fez com que imagens da noite anterior invadissem sua mente e ela sentiu seu rosto se esquentar.

O prazer que ela havia sentido, a necessidade que seu corpo sentia do corpo dele, cada toque quente que a fizera se arrepiar. A busca incansável pelo prazer completo, o prazer que esgota, chegando ao fim.

Hermione não queria sentir nada daquele nível por ele, e se afastar definitivamente era a decisão mais sensata que ela iria tomar. Acabou. Ele conseguiu o que queria, ela saciou sua curiosidade.

Virou-se rapidamente e saiu do quarto em passos largos, caminhando até a chave e abrindo a porta. Uma sensação de liberdade percorreu seu corpo, mas algo estava deixando-a inquieta. Ela ignorou tal sensação inquietante, fechando a porta e indo embora daquele lugar.

Ao escutar o barulho da porta se fechando, Scabior sorriu e abriu os olhos. Estava acordado desde que a garota tinha acordado, e apenas fingiu estar dormindo para observar a reação que ela iria ter ao finalmente se dar conta do que tinha feito.

Ele percebeu como ela o olhou no momento em que acordou. Os olhos castanhos correram por cada pedaço do corpo dele, e ele não entendeu muito o motivo daquilo, não sabia se ela estava planejando algo ou se estava apenas saciando a curiosidade.

Incrivelmente, ela conseguia ficar linda mesmo depois de acordar. Os cabelos ficavam mais selvagens e seu rosto parecia mais atraente com isso.

Scabior percebeu que ela havia corado em alguns momentos e sorriu novamente, levantando-se da cama a fim de tomar um banho. O cheiro dela estava por todo o seu corpo, e mesmo que ele estivesse adorando tal situação, sabia que no momento em que entrasse debaixo d'água, isso iria sair. Deu de ombros, abrindo a torneira do chuveiro.

A água quente correu por todo o corpo do snatcher e ele fechou os olhos, seus pensamentos vagando em torno dos seus planos e de como a noite anterior fora tão boa e produtiva.

Quando Scabior pensou em seduzi-la e levá-la para a cama, não imaginou que seria tão fácil e tranquilo. Parecia que a garota estava com uma sede enorme por uma noite de sexo, e deixou seus instintos comandarem seu corpo. Ele achou estranho aquilo, poderia jurar pela sua varinha que ela era uma pessoa centrada e equilibrada.

Sorriu novamente, fechando os olhos e inclinando seu rosto para cima. A água bateu ali, relaxando-o. Incrível como qualquer mulher poderia se entregar, bastava conduzi-la para isso. Claro que ele precisou usar uma leve manipulação com a bruxa que acabara de sair do seu quarto.

Fechou a torneira do chuveiro, saindo do box e pegando a toalha. Agora que conseguiu o que queria, poderia chantagear a garota de forma direta. Claro que tinha apreciado muito a noite anterior, mas ele precisava usá-la para chegar aos seus objetivos.

Amarrou a toalha na cintura e foi em direção ao quarto. Um barulho de algo na janela chamou a sua atenção e ele caminhou até lá, retirando a cortina o suficiente para ver uma coruja marrom com um rolinho de jornal nas duas patas.

Ele abriu o vidro e deixou que a coruja fizesse sua entrega. Logo depois, depositou alguns sicles na bolsa e o animal levantou vôo. Ele tornou a fechar a janela e pegou o Profeta Diário, correndo os olhos sem interesse pelos pergaminhos cheios de notícias.

Desde que soubera que o Ministério tinha decidido mexer e alterar algumas leis, Scabior assinava o jornal bruxo. Queria saber cada passo dado pelo Ministro, como as alterações poderiam afetá-lo, e mesmo que achasse estranho como o Profeta conseguia descobrir certos acontecimentos, isso não o incomodava no momento. Ele precisava exatamente que o jornal fosse inconveniente.

Seus olhos correram pelas páginas e ele passou por uma que não possuía nada de interessante. Uma coluna lhe chamou a atenção, no entanto, pelo simples motivo de seus olhos terem capturado as palavras "Departamento de Cooperação Internacional em Magia". O Departamento dentro do Ministério que ela trabalhava. O Departamento que impedia Scabior de ganhar galeões toda vez que impedia seu trabalho.

Ele bufou. A coluna era de Rita Skeeter, e Scabior quase desistiu de ler, mas o nome dela estava por todo o texto, e ele achou que seria produtivo tomar conhecimento do assunto. Seus olhos azuis começaram a ler a reportagem.

Departamento de Cooperação Internacional em Magia em crise?

Mais uma vez o Departamento responsável pelas fiscalizações internacionais das leis da Magia deixou claro que está tendo dificuldades quando se trata de cumprir seu dever. Fontes de dentro do próprio setor confirmam que Archie Lewis, chefe do Departamento, está a cada dia com menos saídas quando o assunto tratado é o contrabando de cargas proibidas dentro da Inglaterra. Sangue de unicórnio? Tapetes Voadores? Quem quer que precise destes artigos, poderá encontrá-los facilmente em lojas da Travessa do Tranco e com bruxos que eram para estar em Azkaban, mas por algum motivo ainda não estão.

A assistente preferida de Archie, Hermione Granger, mesmo dedicada ao seu trabalho e ao impedimento do contrabando, parece não estar dando conta do trabalho. Nossas fontes corroboram os rumores de que a garota prodígio foi incitada a procurar um ajudante. Finalmente parece que a melhor amiga de Harry Potter está dando os primeiros sinais de que ainda é uma humana que acredita e tenta tolamente combater o mau. Combater o mau sempre.

Sonhos adolescentes, ideia fixa ou simples desejo de se destacar?

Pergunta difícil, opiniões divergentes...

Scabior não continuou lendo o artigo. Tudo o que precisava saber estava nos primeiros parágrafos. Não imaginava como Rita Skeeter conseguia informações de dentro do Ministério, mas sabia que a repórter era astuta o suficiente para tomar alguma Poção Polissuco e se infiltrar na Travessa do Tranco para descobrir o real estado das leis. Ele bufou, jogando o jornal na cama de forma desleixada. Suas mãos foram em direção à toalha e ele a desamarrou, jogando-a em cima do jornal.

O cheiro de baunilha da garota estava por cada centímetro do cômodo, e ele permanecer nu apenas inalando o aroma não era uma ideia brilhante, ele sabia que se ficasse fazendo aquilo por muito tempo, rapidamente estaria com desejo de se enfiar por entre as pernas dela novamente.

Sorriu, caminhando para uma cadeira próxima e pegando algumas roupas. Começou a se vestir e pensou seriamente que sua sorte estava mudando. Hermione Granger procurando um ajudante para trabalhar no Departamento poderia ser a oportunidade perfeita para ele colocar seus planos em ação.

Ele sabia que ela não iria dar o emprego a ele tão facilmente. E mesmo que agora ele tivesse um trunfo na mão, apenas uma noite de sexo com ela não seria uma entrada para o Ministério da Magia. Pelo contrário, Scabior sabia que teria que tomar cuidado com a manipulação que iria exercer nela. Deixá-la furiosa só aumentaria os riscos dela se empenhar para mandá-lo a Azkaban. Afinal, ela sabia que era ele que estava por trás do contrabando.

Ele se espreguiçou, coçando o queixo e olhando para a cama de lençóis emaranhados. Decidiu juntar a obrigação com o prazer. Teria que levar a garota prodígio para a cama mais vezes. Ele precisava de uma vantagem nas ameaças.

Se ela estivesse encurralada, ele conseguiria o emprego facilmente. Mas ele sabia que apenas com a noite de ontem, havia garantido algumas passagens de cargas proibidas.

Sorriu, caminhando para a sala e pegando o casaco de couro que estava jogado no chão. Decidiu ir para algum bar, precisava beber algo. Bem forte.