Capítulo 10 - Significados

Há um limite estreito entre a dor e o prazer intenso.

E há pessoas demais que gostavam de viver nesse limite.

Harry ouviu a voz de Draco soar em um gemido mais alto e girou a cabeça para olhá-lo, abandonando o homem que insistia que voltasse a chupá-lo. O loiro estava virado de bruços sobre uma mesa, havia pelo menos dois homens ao seu lado, falando em sussurros urgentes palavras incompreensíveis para eles, mas não era difícil de entender o que queriam. O loiro encontrou o olhar de Harry e deu um pequeno aceno indicando que estava bem, tocando os dois homens enquanto um terceiro puxava seu quadril para então penetrá-lo devagar.

Uma mulher se aproximou, beijando a boca do loiro e indicando que queria que ele beijasse seus seios, se inclinando sobre o corpo dele para que um dos homens se postasse atrás dela, a tomando com a mesma intensidade do homem que investia contra o corpo de Draco. Harry não pode mais olhar, uma mão rude o puxou pelos cabelos, um pênis ereto a sua frente exigindo atenção e as mãos apertando sua cintura não permitiam que parasse de se mover sobre o corpo do homem deitado no chão. A vaga consciência de que havia um homem atrás dele tentando penetrá-lo ao mesmo tempo que o outro enquanto alguém – talvez uma mulher - beijava seu peito.

Dessa vez não era um quarto, era uma sala. Sofás confortáveis, uma grande mesa de jantar, tapetes caros e pelo menos 10 pessoas ali, além dele e de Draco. Ele não sabia dizer se eles se conheciam ou não, mas não se importavam de fazer sexo uns com os outros. Havia bebida, cigarros e preservativos trouxas, mas apenas um ou dois não pareciam ser bruxos. Não havia violência, mas era luxuriante ser tocado por tantas mãos ao mesmo tempo, era desnorteante estar ali há horas, fazendo sexo, vendo pessoas fazendo sexo, e não haver nada além de gestos urgentes e gemidos comunicando que era isso, e somente isso, o que buscavam ali.

Era um novo universo em que havia um desejo latente no ar, não exatamente do seu corpo ou de quem você é, mas do que você pode oferecer, do que você pode provocar no outro, de como você pode reagir ao outro. A mente se perdia na impossibilidade de não reagir, e então havia só o sentir, um sentir latente que beirava o desespero e o desconforto, a dor, mas o resultado era somente um prazer embriagador.

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- Eu vou enlouquecer. - Draco comentou, fechando os olhos, e Harry se ergueu da cama, o beijando como resposta. Sim, era enlouquecedor.

O tempo era enlouquecedor.

A espera era enlouquecedora.

Antes, sair de um quarto para o outro, sem poder dormir direito, sem ter tempo de comer direito, ser arrancado da cama e acordar no meio de uma aparatação, sem saber exatamente aonde estava ou o que estava acontecendo, era uma violência, era agressivo, era parte do que os estava matando. Mas agora aquela espera, no ócio da cela, os levava ao limite da razão.

Eles não tinham noção de tempo. Não havia uma regularidade no fornecimento da alimentação. Eles eram levados para um programa, voltavam, tomavam banho, dormiam até acordar, e então a comida estava lá. Depois de tempo suficiente para começarem a se incomodar com a fome novamente, ela surgia de novo, mas nunca mais de uma vez antes de serem levados novamente.

O sono era confuso também. Agora eles não ficavam tão cansados quanto antes, mas tinham a consciência de que dormiam muito. Em um primeiro momento, um longo sono que repunha as forças depois do que haviam feito, mas então se seguiam sonos rápidos, pontuados por pesadelos ou gritos súbitos ao acordar, quando não a sensação de que acordariam em casa. E tudo isso os desgastava.

E aquela espera, que era grande e inconstante, pela próxima vez que seriam levados para outro programa, tinha somente isso como atividade: comer e dormir, basicamente. Não ter o que fazer e esperar em estado de alerta e tensão os levou, mais de uma vez, a discussões marcadas por agressividade que terminavam em choro e abraços desesperados.

Muito rápido aprenderam que melhor do que brigar era se beijarem. Não havia sexo entre eles, era desgastante demais a consumação do ato quando sabiam que, mais cedo ou mais tarde, precisariam fazer com outras pessoas. Mas havia beijos, carinhos, as bocas e as mãos conhecendo cada vez mais o corpo do outro, havia entrega e cumplicidade que os acalmava. Havia uma paz silenciosa que se perdia entre as bocas enquanto se abraçavam com mais força do que pretendiam, buscando um prazer puro, que só tinham quando estavam sozinhos.

E era o único consolo daquele lugar que tinha de tudo para que se perdessem.

Mas eles estavam juntos e, quando até o tempo se tornou algo inóspito, era tudo o que lhes restava.

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Os cabelos negros longos se espalhavam pelo colo de Draco em contraste com a palidez de seus dedos, que os penteavam, devagar. Ele olhava a face calma de Harry enquanto ele dormia e isso era quase tranquilizante. Ele sorriu, devagar, e beijou sua testa, vendo os olhos verdes piscarem, confusos por um momento, e então encontrarem os seus em um silêncio bom e conhecido.

Um homem aparatou no meio do quarto e não precisou fazer nada para que os dois se levantassem e fossem até ele. Ele já era esperado. Aparatou com os dois em um quarto e sumiu.

Os dois homens olharam o cômodo vazio, ocupado somente pela cama grande de casal e uma poltrona confortável. Harry esfregou os olhos, ainda sonolento, e sentou sobre a cama. Draco sentou-se ao seu lado e o beijou, o encarando preocupado, ao que o moreno respondeu com um aceno de cabeça indicando que estava bem.

Eles não precisavam mais de palavras no silêncio perturbador daquele lugar.

A porta se abriu, deixando entrar um homem sério com um cigarro na mão, e em seguida se fechou, a magia latente lacrando o quarto como sempre. O homem somente os observou por um momento, e então Draco se levantou, indo até ele, mas mal havia vencido a metade da distância que os separavam, o homem fez um gesto apontando a cama.

Draco olhou Harry incerto e recuou, voltando a sentar-se ao lado do moreno. O homem se dirigiu à poltrona, colocando-a de frente para a cama com um gesto de varinha, e se sentou, tragando o cigarro. Foi a vez de Harry se erguer, indo até ele, mas o homem repetiu o mesmo gesto, apontando a cama, e o moreno recuou.

O homem só os olhava.

- O que ele quer que a gente faça? - Draco perguntou, baixinho, confuso, e Harry negou com um gesto de cabeça, sem saber o que responder.

- Só vocês. - a voz rouca e baixa falou em um inglês de sotaque carregado, mal articulado – Façam.

Os dois se entreolharam mais uma vez e voltaram a olhar para o homem de relance. Era a primeira vez que isso acontecia, e aquilo era muito estranho. Eles estavam acostumados a estarem com outras pessoas e se tocarem, mas assim, só os dois, era algo que faziam para eles, que tinha significado. Fazer aquilo porque outra pessoa queria soava errado.

- Façam. - o homem repetiu, impaciente, abrindo a própria calça e começando a se tocar, olhando para os dois.

Harry tocou o rosto de Draco, puxando-o para perto, mas o loiro se afastou.

- Harry, não! - ele parecia enojado com a ideia e o encarava surpreso.

- Você prefere que ele nos obrigue? - o moreno perguntou, sério – Porque eu estou vendo ele se levantar daqui a pouco e dar um tapa em cada um de nós se não começarmos logo. - ele suspirou – Olha, eu não estou confortável com isso também, só vamos sair logo daqui, está bem? Ao menos você pode ter certeza de que eu não vou te machucar.

Draco o olhava resistente, mas fez um aceno positivo com a cabeça e se aproximou, beijando o moreno meio sem jeito. Harry o segurou pela nuca, aprofundando o beijo, tentando lhe transmitir segurança. Quando o loiro correspondeu na mesma intensidade, sua mão correu pelo seu rosto e pescoço, começando a abrir as vestes sem deixar de beijá-lo.

Se afastou levemente, despindo seus ombros. Draco se ajoelhou sobre a cama e Harry se levantou, tirando suas vestes de vez. Devagar, de costas para o homem sentado na poltrona, o moreno se despiu também, deixando o tecido correr pelo seu corpo antes de cair ao chão.

Draco o olhava fixamente, seus olhos tentando ignorar o homem que os encarava insistentemente, e Harry ficou de joelhos sobre a cama, engatinhando até ele, o abraçando e os dois estavam se beijando novamente, com o mesmo carinho e o mesmo envolvimento que tinham quando estavam sozinhos, e isso era... familiar. No toque, no cheiro, nos sons baixinhos que indicavam o que cada um queria que o outro fizesse.

Devagar, Harry conduziu Draco para que deitasse na cama, se deitando sobre ele sem deixar de beijá-lo. E seus lábios desceram pelos seus ombros, tocando seu peito nos pontos que ele sabia que seriam mais sensíveis, fazendo-o gemer e se contorcer sob seu corpo, até chegar ao quadril. Harry beijou seu pênis, vendo os olhos cinzas o encarando em expectativa, e então inclinou um pouco seu quadril, beijando mais abaixo. As mãos de Draco se agarraram com firmeza aos lençóis, um gemido mais alto escapando de seus lábios frente ao que Harry fazia, o preparando devagar.

Antes que se sentisse pronto para isso, o moreno o soltou, voltando a se deitar sobre seu corpo, o encarando sério. Draco fechou os olhos, virando o rosto para o lado oposto ao da poltrona, e fez um aceno afirmativo para Harry. Mas quando o moreno começou a penetrá-lo, suas mãos o abraçaram com força, sua respiração agitada evidenciando desconforto, e então os dedos de Harry no carinho entre seus cabelos e a voz calma em seu ouvido.

- Sou eu, Draco. Está tudo bem.

E o loiro se voltou, beijando-o, seu grito perdido entre as bocas quando Harry o tomou por completo, seguido por gemidos de ambos enquanto o movimento tomava ritmo, seus corpos totalmente unidos, buscando um ao outro com desejo real de fazerem aquilo, juntos, e o que realmente significava. E quando as mãos de Draco se fecharam às suas costas, os olhos perdidos no verde, Harry investiu mais rápido, sentindo seu próprio corpo estremecer, e o loiro o abraçou mais forte, voltando a beijá-lo e se deixando levar em um prazer que era só deles.

Harry deixou o corpo cansado cair sobre o de Draco, que somente tentava regularizar a própria respiração. Seus olhos se abriram, devagar, e encontraram os de Harry o observando atento, sério. Seus dedos contornaram seus traços lentamente e Draco os beijou, beijando em seguida os lábios de Harry de forma leve, mostrando que estava bem. Os dois ficaram trocando carinhos, sem querer saber se havia mais alguém ali ou o que aconteceria depois. O que tinham feito havia mudado alguma coisa entre eles, e isso era mais importante do que tudo.

Quando o barulho de aparatação soou perto demais, Draco fechou os olhos com força e indicou que queria se levantar, forçando Harry a fazer o mesmo. Os olhos verdes se ergueram primeiro, percebendo que o quarto estava vazio, somente o guarda os esperando. Eles não haviam percebido em que momento o cliente saíra, e isso não importava mais.

O homem os deixou na cela e desaparatou. Draco se virou, indo devagar para o chuveiro, mas Harry o pegou pelo braço, o olhando preocupado.

- Eu estou bem. - o loiro afirmou à pergunta muda.

Harry confirmou com a cabeça, incerto, e afastou os cabelos loiros de seu rosto, mas não o soltou. Havia uma tensão que não era exatamente preocupação em seus traços, e Draco sorriu, porque ele estava sentindo exatamente a mesma coisa: a necessidade quase vital de não se afastar nem um centímetro de Harry.

Em um impulso, o loiro uniu novamente os lábios dos dois, e Harry segurou seu rosto como se sua vida dependesse de que eles não se separassem, de que aquele beijo durasse para sempre, e Draco o abraçou com a mesma força, como se aquele simples contato fosse tudo o que ele tinha.

Era tudo o que ele tinha. E isso era muito.

Cambaleando, os dois foram em direção à cama, sem deixar de se beijar, caindo sobre ela de forma confusa. Era bem menor do que a cama em que haviam estado há pouco, mas isso somente os obrigava a ficar ainda mais unidos, e era exatamente o que desejavam, como se tornar um ente só.

E não havia mais temor ou receio ou vergonha. Não havia nem desespero nem necessidade. Não era mais uma questão de estratégia ou de sobrevivência.

Agora eles tinham algo. E era maior do que tudo.

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NA: Nhoooo, esses dois são tão fofos! *a besta lufando com a própria fic*

E notícia boa, queridos: agora parece que a vida vai entrar em ordem outra vez e eu pretendo colocar todas as reviews em dia essa semana. Não me abandonem [] Eu preciso saber o que vocês estão achando da fic!

Vocês são lindos, diga-se de passagem XD

Beijos e até semana que vem o/