Saint Seiya pertence à Masami Kurumada. Todos os direitos reservados.
Boa leitura!
Camus achou estranho Milo ainda não ter aparecido para mandar notícias. Talvez tivesse se empolgado na conversa com sua mãe e passado a noite lá. Resolveu esperar por mais um dia para dar tempo do colega conseguir digerir os acontecimentos.
"Dália" – chamou encarando a bela moça de cabelos negros que tentava, a todo custo, não ser notada por ele. Afinal, foi o próprio cavaleiro que fizera questão disso.
"Sim? Estou fazendo muito barulho com a vassoura?".
"Não. Apenas me faça um favor, pergunte para outra serva que freqüenta a casa de Milo se ele está em casa".
"Se quiser, eu mesma posso verificar" – disse prestativa limpando as mãos em um avental.
"Faça como quiser" – retribuiu voltando a ler seu livro enquanto a jovem ia executar sua tarefa.
Algum tempo depois ela voltou com a informação de que o cavaleiro voltara para sua casa ontem de noite e que desde então não saiu mais. Essa informação incomodou Camus, pois estava esperando o "amigo" trazer informações e agora se fazia de morto? Isso não estava certo. Foi até a casa de escorpião decidido e determinado a ter alguma informação.
"MILO! MILO" – disse entrando gritando pela casa de escorpião, já atravessando a tapeçaria e passando por um corredor largo – "ONDE VOCÊ ESTÁ?".
Milo saiu do quarto carregando uma garrafa de vinho vazia e usando uma cueca samba canção listrada azul e uma regata branca de algodão meio suja com uma coisa amarelada que Camus não teve coragem de perguntar o que era. Além disso, seu cabelo estava todo embaraçado e a barba sem fazer – fato raríssimo.
"Eca! Milo, você está um nojo".
Ele respondeu com um sonoro arroto que ecoou pela mansão de escorpião.
"Zeus, eu sei que eu não precisava passar por isso" – disse Camus revirando os olhos – "Pois bem, vá tomar um banho naquela sua mega banheira enquanto eu chamo uma das servas para encher pra você".
"Não quero" – respondeu simples saindo arrastando-se até o divã de seu salão de hospedes.
"Tudo bem. Agora, pode me dizer, porque você está assim? Não encontrou sua mãe?".
"Não".
"O QUE? AQUELE VELHO DEU O ENDEREÇO ERRADO PRA GENTE?" – retrucou sentando-se em uma poltrona pensando – "Não seria possível, como ele poderia saber daquela história do colégio militar? Seria...".
Camus não conseguiu prosseguir, pois Milo saiu correndo para o banheiro com a mão na boca com uma expressão de quem ia vomitar. A julgar pelos sonoros ruídos que vieram depois foi o que aconteceu, cinco minutos depois saiu do banheiro e foi até a sua cozinha tomar uma mistura de água e salmoura.
"Então, nós erramos o endereço? Não era aquela casa? Aquela rua?".
"Não" – respondeu com a voz fraca e com a mão na cabeça – "Nós acertamos. Aquela é a casa dela".
"Ótimo, então você a encontrou?" – perguntou novamente quando ele se sentou na cadeira da cozinha e o imitou.
Milo não respondeu, Camus exalou todo o ar pelo nariz e tornou a perguntar como se falasse com um moleque retardado.
"Milo, você encontrou a sua mãe Agathé?".
"MILOZINHO, VOCÊ ESTÁ BEM?".
Uma moça loira entrou correndo pela cozinha, deixando uma trouxa de roupas cair no chão e se posicionando ao lado do cavaleiro de escorpião.
"Oh, pobrezinho. Parece tão caído". – disse colocando a cabeça pendente dele contra seu colo – devo dizer seus peitos imensos – e apalpando sua testa – "Tomou outro porre não foi? Não se preocupe, eu vou pegar uma bolsa de água fria pra você".
"Obrigado... hum...".
"Pérola. Meu nome é Pérola".
"Isso" – retrucou dando um beijo nas costas das mãos da serva que a deixou ruborizada.
"Mocinha, sei que suas intenções foram boas, mas não entre assim no recinto mais" – disse Camus fuzilando-a com o olhar – "Volte daqui a meia hora".
"Sim, senhor" – e saiu apressada.
"Puf. Se eu fosse ela, arrancava a minha mão depois do tanto de porcaria que você vomitou" – disse Camus debochado – "Vamos. CONTE LOGO O QUE ACONTECEU".
"NÃO ACONTECEU NADA" – urrou Milo erguendo-se como um urso raivoso – "EU NÃO A VI. QUEM ATENDEU FOI O NOVO MARIDO DELA" – e saiu andando de novo para sua sala.
Camus, confuso, foi atrás.
"Marido? Ela se casou?".
"Sim" – respondeu desgostoso – "Casou. Casou de novo. Casou para ter outros filhos e recomeçar uma vida nova. Pois, seja muito feliz".
"Você não está com ciúmes, está?".
"EU NÃO ESTOU COM CIÚMES. ESTOU ODIANDO. AMALDIÇOANDO AQUELE MALDITO SEDUTOR QUE SE APROVEITOU DE UMA VIÚVA SOLITÁRIA".
E, pela primeira vez, Camus riu gostosamente da cara do outro, mostrando uma fileira de dentes perfeitos e perolados que sempre estiveram escondidos atrás dos lábios finos e sempre crispados. Milo acharia um milagre da natureza se a piada não fosse ELE.
"Milo, isso é ridículo. Você não pode deixar de ir visitar a sua mãe, porque ela tentou recomeçar a vida".
"Ela não tinha esse direito. Eu não o aprovei".
"Moleque, você não aprova nada. Ela é adulta e resolve as coisas".
"Acontece que eu prometi pro meu pai protegê-la então... então...".
"Então, o negligente é você. Já que resolveu proteger outra mulher e largar a sua mãe".
"Cale a boca. Você NEM TEM MÃE".
Camus emudeceu instantaneamente. Nunca mais vira a mãe desde os quatro anos de idade, mas achou que tinha superado esse detalhe.
"E não vou achar o meu pai se você continuar com essa birra idiota".
"Se depender de mim que assim seja. Ficamos órfãos, eu e você".
"Não mesmo".
"Quer apostar? Ai..." – desafiou Milo colocando a mão sobre a cabeça – "EU NÃO VOLTO MAIS NAQUELA CIDADE".
"Tudo bem" – disse Camus calmo – "Como você quiser" – e se preparou para ir embora sem nem olhar para trás.
Milo desconfiou da facilidade com que ele disse aquilo e perguntou:
"O QUE?".
"Eu mesmo vou perguntar pra sua mãe se ela tem notícias do meu pai, com licença".
"NÃO VOU PERMITIR" – disse Milo irritado – "SEU TRAIDOR EGOISTA".
"EU SOU EGOÍSTA? OLHE SÓ PRA VOCÊ, SE MORDENDO TODO COM CIUMINHO DA MAMÃE! VOCÊ É QUE O EGOÍSTA DESSA HISTÓRIA! QUER TODO MUNDO PERTO DE VOCÊ, SEM VIDA PRÓPRIA. RACIOCINE QUANTO AQUELA MULHER NÃO SOFREU POR SUA CAUSA".
"CALA A BOCA! AGORA!".
"Eu vou sim, porque NUNCA mais quero olhar nessa sua cara idiota" – sibilou indo embora. Milo lançou um golpe que raspou em sua orelha e acertou a pilastra ao lado fazendo um buraco que a atravessou.
"Chame alguém pra rebocar isso" – disse Camus indo sem olhar para trás.
Estava indo se encontrar com Agathé sem ter muita certeza se tinha o direito disso. Talvez devesse respeitar mais a mágoa de Milo apesar da discussão que teve com ele na manhã passada. Se esperasse o escorpiano se acalmar talvez ele reconsiderasse e poderiam voltar aquela pacata cidade juntos.
Contudo, depois daquela briga, sabia que o orgulhoso cavaleiro não voltaria atrás em sua palavra. Para variar romperam a amizade totalmente e agora ele teria que dizer a uma jovem mãe que seu filho barbado se recusava a vê-la por ciúme idiota.
Quando faltava pouco mais de duas ruas para chegar viu um homem há uns 200 metros de distância tentando tirar o pneu de seu carro de dentro de um buraco de asfalto. Ele procurava pedras na estrada ou pedaços de madeira para fazer uma alavanca, sem sucesso.
"Precisa de ajuda?" – perguntou polidamente.
"Han? Ah, obrigado" – respondeu o homem ainda de costas vislumbrando rapidamente o jovem rapaz – "Mas, acho que não pode me ajudar, meu jovem" – respondeu arfando e enxugando a testa com um lenço – "Ia precisar de uns três de você para tirar esse carro daqui".
"Porque não me deixa tentar?".
"Não adianta".
"Pois aposto que consigo sozinho".
"Oh. Jovem pretensioso" – riu bondosamente – "Ai, certo? O que custa tentar? Ia dar mais trabalho ir até a minha casa e ligar pro seguro".
Camus se posicionou para segurar o carro pelo pára-choque e erguê-lo.
"Certo, dê ré devagar".
Com uma arrancada brusca o carro saiu da cratera e ganhou novamente o asfalto deixando o homem abismado, ao ponto dele sair do carro novamente e dar outra olhada na lataria de seu carro.
"NOSSA! VOCÊ É FORTE!".
"Obrigado" – disse olhando pro chão fitando as pernas do homem, percebendo pela primeira vez que mancava um pouco. Ergueu o rosto e levou um susto muito grande, sentindo um nó na garganta.
"Não tenho nem palavras para agradecer" – disse o homem – "Hei? Que foi, rapaz? Você se machucou?".
Por um instante o homem parou também atônito encarando firmemente o rapaz: seu rosto com queixo fino, olhos amendoados e pele branca – agora com bem menos sardas- cabelos ruivos e longos demais e aquelas sobrancelhas que apenas o seu filho tinha.
Ele deixou a boca tremer e os olhos transbordarem, não acreditando que pudesse ser possível que aquele lindo rapaz, forte e vistoso pudesse ser o seu antigo e pequenino Camus.
"Camus?" – balbuciou.
O homem não respondeu, sentindo uma contradição imensa de sentimentos. Queria se atirar e dar um abraço apertado no pai como fazia antigamente, quando criança, antes de ganhar a vergonha. Com os anos e seu treinamento nunca mais se considerou apto para abraçar uma pessoa querida e dizer o quanto gostava dela. Apenas encarava o pai, com a postura rija e os braços colados ao corpo, sentindo um alivio e uma vergonha por permitir-se chorar sem escândalos.
Louis – que era do mesmo tamanho do outro – encarou com um sorriso trêmulo o filho homem que a vida tinha trazido de volta. E como dois homens fortes se abraçaram com socos nas costas e no peito, encharcando o rosto de lágrimas e deixando os narizes vermelhos.
"Sou o Cavaleiro de Aquário, pai".
"Camus, depois que você se foi, é que eu descobri que eu preferia ter visto você crescer a semear os meus sonhos frustrados. Me perdoe".
"Pai" – disse ainda trêmulo – "Pai. É bom ver que está vivo e bem".
"Como você cresceu! Está um homem forte e bonito".
"Puxei o meu pai".
"Hahaha, que é isso. Você é todo a sua mãe" – sorriu – "Talvez mais barbado e musculoso".
Ficaram naquele abraço meio desajeitado, quando de repente bateu uma insegurança por parte dos dois. Como se o assunto tivesse muito superficial.
"Como foi o treinamento? Onde foi parar?".
"Sibéria".
"Huf. Ainda bem que coloquei muitos pulôveres na sua mochila. Ainda sou economista, mas tenho certeza que suas histórias são mais interessantes que as minhas e... ah, vamos sair daqui, vamos lá pra casa. Que horas são? Umas 14horas? Ah, eu tinha que ir ao banco e voltar ao trabalho, mas... esqueça isso!".
"E o seu trabalho?".
"Ah! Ligo dizendo que estou gripado. MEU FILHO ESTÁ AQUI!".
Os dois homens entraram no carro e seguiram para a mesma casa amarela que morava Agathé. Como um raio a verdade caiu sobre a cabeça de Camus e por mais absurdo que parecesse, preferiu esperar para entrar na casa e conversar com calma com o pai a respeito disso.
"Você quer comer ou beber alguma coisa?".
"Não" – disse simples – "Não tem mais ninguém na casa?".
"Nesse momento não" – disse o homem simples – "Eu também queria te contar uma coisa".
"Não precisa. Você e Agathé, a mãe de Milo, se casaram. Não é mesmo?".
N/A: Obrigada pelo apoio daqueles que continuam acompanhando a história de Camus e Milo. Contando os dias para o Natal.
Até a próxima.
Luna.
