C'est La Vie
O Contrário de Negativo...
By Misako Ishida
Colocou o objeto sobre a mesinha de centro e sentou-se no sofá. Acomodou-se confortavelmente e fechou os olhos. Um filme passou por sua cabeça. Desde o início.
E com início... Ela se referia ao começo de tudo aquilo.
Quando conheceu Taichi e Hikari, seus vizinhos. Quando passava tardes inteiras brincando de bola com Taichi. Quando ajuda o moreno a cuidar de Hikari quando esta adoecia. Quando chegaram à adolescência. Quando ela e Taichi se apaixonaram. Quando se beijaram pela primeira vez. Quando se formaram. Quando ele a pediu em casamento. Quando os três tiveram que cuidar uns dos outros.
E então, Hikari foi para Paris. E então, Taichi a buscara a força. E então, o namorado dela havia morrido num acidente de carro. E então, Sora descobriu que Hikari estava grávida. E então, a menina contou ao irmão. E então, ele a expulsou de casa. E então, Sora a protegeu e cuidou dela. E então, o bebê nasceu. E então, Hikari morreu.
Foi aí que Sora descobriu que ela era a responsável legal por aquele bebê. Foi aí que Taichi a mandou se livrar do bebê. Foi aí que ela não teve força para desafiá-lo. Foi aí que ela teve a súbita sensação de que deveria desistir de tudo. Foi aí que ela desistiu de seu casamento. Foi aí que abandonou aquele lugar que chamava de lar. Foi aí que se viu diante de uma vida inteiramente dependente dela.
E precisava lhe dar comida. E precisava lhe trocar as fraldas. E precisava lhe levar ao médico. E precisava lhe comprar remédios. E precisava lhe comprar roupas. E precisava lhe fazer massagens para aliviar as cólicas. E precisava lhe aconchegar ao peito para acalmá-la de algum barulho alto e repentino. E precisava lhe dar atenção. E precisava lhe dar carinho.
Tudo ao mesmo tempo em que tinha que se alimentar. Tudo ao mesmo tempo em que tinha que estudar. Tudo ao mesmo tempo em que tinha que trabalhar. Tudo ao mesmo tempo em que tinha que conseguir dinheiro de algum lugar. Tudo ao mesmo tempo em que passava noites em claro. Tudo ao mesmo tempo em que precisava tomar banho, preparar as refeições e lavar as roupas (de uma vez só). Tudo ao mesmo tempo em que não aguentava permanecer em pé de tanto cansaço. Tudo ao mesmo tempo em que necessitava desesperadamente de um apoio.
Mas então surgia um riso. Mas então via um rostinho dormindo profundamente. Mas então escutava um balbucio. Mas então tirava uma foto fofa. Mas então ela dormia em seus braços. Mas então ela sorria. Mas então ela começava a mexer as mãozinhas. Mas então ela ia crescendo. Mas então ela ia ocupando cada fibra de seu coração.
Sora jamais havia se iludido com o dom da maternidade. Sabia que aquele ideal propagado de que mães eram seres felizes 24 horas por dia pela existência de seus filhos não poderia ser verdade.
E ali estava a prova de sua teoria. Havia momentos em que queria desistir de muito mais do que só o seu casamento ou seu almoço ou seu banho ou seu sono ou seu trabalho. Queria desistir de tudo. Pensara inúmeras vezes em fazer as malas.
Mas iria para onde?
Com certeza, para algum lugar que pudesse levar Natsuko consigo. E ali estava. Entendia que o verdadeiro dom da maternidade não era suportar as adversidades. Mas sim esperar pelos bons momentos. E eles chegavam. Talvez não quando esperava e nem como imaginava. Mas todos eles chegaram.
Parecia loucura, mas parecia que sua vida era composta por divisões temporais bem determinadas. E todas eram bem definidas em termos de vivências e superações.
A primeira vida. De seu nascimento até o falecimento de seus pais quando terminara a escola.
A segunda vida. Do dia de seu casamento ao dia em que Taichi pegou o avião para a França.
A terceira vida. Quando Hikari voltou até o momento em que partiu novamente.
A quarta vida (e a mais rápida). Quando seu marido lhe deu as costas e ela foi embora.
A quinta vida. Ao pegar Natsuko em seus braços pela primeira vez até que Yamato aparecesse.
Foi ali que parou de contar. E de dividir. E de pensar no tempo como algo fracionado. Em determinado momento, passava a contar os dias para vê-lo. Perdia a conta das horas que passavam juntos. E ficava aliviada quando seus olhares se encontravam por um minuto sequer.
Não dava para ela comparar aquilo que vivia ao lado de Nana e Yamato com a(s) vida(s) que tinha antes. Seus medos e frustrações e anseios e receios eram todos compensados com conversas, sorrisos, passeios, fotografias, abraços e beijos.
Sabia que por mais que no fundo de sua mente existisse uma minúscula fagulha que a impelia a desistir de tudo, seu amor era maior e mais forte. Nada mais lhe assustaria. Nada mais lhe faria arrumar as malas novamente.
Bom, talvez sim... Mas seria uma mala diferente. Menor. Mais bonita. Mais colorida.
Com um alívio reconfortante, sabia que já havia passado por momentos mais difíceis. E piores. E que não se repetiriam.
E sabia que não estaria mais sozinha. E que teria apoio. E que teria alguém ao seu lado. E que teria com quem dividir as noites sem dormir. E que teria com quem dividir as trocas de fralda. E que teria com quem dividir as tarefas de casa. E que teria com quem dividir as despesas. E que teria com quem multiplicar aquelas alegrias. E que teria com quem multiplicar aqueles momentos inusitados. E que teria com quem formar uma família. E que teria com quem compartilhar aquele amor. E que teria com quem receber aquele sorriso.
A presença de Yamato se fez notar antes mesmo que ela pudesse abrir os olhos. Ele estava ansioso, meio desesperado e prestes a ter um colapso. – E então?
Sora ampliou seu sorriso e suspirou profundamente. – Deu positivo. – contou rindo de felicidade.
Yamato, paralisado no meio do cômodo, piscou e então absorveu aquelas palavras.
Deu.
Positivo.
Ele levou as mãos ao cabelo incrédulo e começou a rir descontrolado. – Deu positivo! – repetiu exaltado de felicidade. Pulou a mesinha de centro e puxou Sora para si rodopiando-a pelo ar. Deu uma volta completa e então a colocou no chão, beijando-a profundamente. – Eu te amo tanto. – murmurou emocionado. – Obrigado.
Ele lhe abraçou forte, como se sua vida dependesse disso, e ela retribuiu, como se a dela também dependesse daquilo.
Depois de tantos desafios. De tantas dificuldades e adversidades. Já não era mais capaz de pensar em suas perdas, mas sim em tudo o que ganhava a cada dia. E só essa perspectiva, essa visão, esse modo de ver as coisas lhe trazia paz e conforto.
A partir dali saberia, de fato, como começar uma nova vida. Literalmente.
Seus pensamentos se rechearam com as lembranças de Nana mais uma vez. Desde o primeiro olhar até aquele momento. Sentiria todas aquelas emoções novamente. E isso lhe agradava bastante.
Mas, dentre toda essa felicidade. Dentre toda essa emoção. Dentre toda alegria que ela e Yamato estavam sentindo, subitamente, não perceberam o quanto isso afetaria Nana. E ficou claro que a afetou.
Durante o jantar, a menina claramente deu-se conta eu havia algo diferente em seus pais. Estava estampado no rosto brilhante e no olhar iluminado. – O que aconteceu que vocês estão tão radiantes assim? – perguntou confusa.
Nem quando seus pais tinham se casado, não notara uma expressão tão exuberante.
O casal se entreolhou e sorriu para a menina, que ficou preocupada e receosa com toda aquela alegria. – Vocês estão começando a me assustar. Sério. Por acaso, ganharam na loteria? – respondeu perspicaz.
- Não. Não ganhamos na loteria. – informou Sora.
- É muito... Diferente disso. – continuou Yamato.
Nana olhava de um para outro, sem entender nada. Até que uma ideia passou a cruzar sua mente, dilacerar suas esperanças e apertar seu coração. Não seria ingênua o bastante para pensar que os pais não iriam querer isso. E um medo foi lhe assolando aos poucos.
- Nana... – começou Sora. – Nos temos algo para te contar.
- Sim. – assentiu e baixou o olhar para o seu prato.
Engoliu em seco e percebeu que não sentia mais fome. Nem estava mais com vontade de devorar sua comida favorita, que coincidentemente havia sido preparada tão caprichosamente naquela noite.
- Eu estou grávida. – contou a ruiva sorridente.
- Ah! – exclamou surpresa e permaneceu com o olhar baixo e a boca levemente aberta. Ela havia sido tomada de uma vez pelo medo. E agora era um medo real, apavorante e verdadeiro. Era distinto quando pensava nisso esporadicamente, imaginando o que aconteceria caso aquilo se tornasse real.
Como sempre, imaginar algo nunca era tão terrível quanto viver esse algo. Ela permaneceu em absoluto silêncio, deixando os pais confusos e preocupados. Fora o loiro quem tomou a frente.
- Você vai ter um irmão ou uma irmã. – disse Yamato. – Você não está feliz?
Ela engoliu em seco e deu um tímido sorriso forçado. – Hum. – inclinou a cabeça e, um por um milésimo de segundo, expressão de desagrado tomou conta de sua face. – Omedeto, okaasan, otoosan. – disse rigidamente com uma postura tensa.
Dessa vez, foram Yamato e Sora que ficaram sem reação alguma e boquiabertos. Não esperavam por isso. Nem poderiam prever uma resposta assim. Quando começara a planejar sobre a possibilidade de terem um filho não haviam pensado em conversar com a filha a respeito. Não pensaram em ouvir como ela se sentiria ou como a vinda de uma criança poderia afetá-la.
Era certo que não haviam escondido a verdade dela. A verdade sobre seus pais biológicos. A verdade sobre sua família. Era certo também que ela já tinha 10 anos e era capaz de entender e perceber muita coisa ao seu redor. E Nana era tão independente e tão autossuficiente que quase não dependia dos pais para realizar suas tarefas. Também não era uma criança bagunceira e encrenqueira. Era boa aluna, uma das primeiras de sua classe. Quase não pedia ajuda, pois preferia tentar por si mesma.
Mas, no fundo, ela era uma criança carente e que precisava provar seu valor a todo custo. Para Nana, ela precisava sempre ser a melhor e dar orgulho para seus pais. Para todos os pais. Queria mostrar aos pais em vida que eles haviam feito a escolha certa ao cuidar dela e, por isso, necessitava retribuir cada mínimo cuidado, amor, dedicação e atenção que recebera. Para os pais que lhe deram a vida, tinha que fazer valer sua existência. Tinha que lutar para ser alguém digno.
Para Nana, ela não poderia ser jamais um incômodo. Não poderia jamais ser menos do que a melhor. Deveria sempre estar à frente. Deveria sempre ser mais. Deveria ser a recompensa por todo aquele sacrifício.
Era uma pressão gigantesca para uma criança. Mas, era assim que se sentia. Era assim que pensava.
- O que houve, meu amor? – perguntou Sora.
- Huunhum, nada. – murmurou a castanha.
- Como nada? Você não costuma ficar calada desse jeito. – apontou Yamato suavemente.
- É só que... – interrompeu sua explicação abruptamente e não continuou.
- Seja o que for... Você pode nos falar. Qualquer coisa. – encorajou a mãe.
Nana mordeu o canto da boca e respirou fundo, buscando forças. Ergueu a cabeça e encarou os pais num ato de coragem infligida. – É só que... Vocês terão um filho e... Tudo vai mudar. Tudo vai ser diferente.
Foi então que repararam quão errôneos foram naquela situação. Estavam pisando num terreno instável e não tiveram cuidado algum. – É claro que tudo vai mudar e ser diferente, querida. Mas, já estamos bem acostumados com mudanças repentinas, não é mesmo? – tentou Yamato sutilmente.
Nana negou com a cabeça e manteve o olhar firme no pai. – Você sabe que não foi isso que eu quis dizer, papai. Esse bebê vai ser de vocês. É obvio que irão amá-lo mais e que eu ficarei de escanteio. Vocês não vão mais... Precisar de mim. Afinal... Eu não sou filha de vocês. – confessou, terminando seu discurso em lágrimas.
Yamato fechou os olhos com força, segurando-se para não cair em prantos. Sora não pode impedir que lágrimas teimosas escorressem por sua face. Cuidadosamente, a ruiva levantou-se e colocou-se ao lado da menina. De todos os choros de Nana, nunca nenhum deles foi tão ferido e tão triste quanto aquele.
- Nana. Olha para mim. – ela pediu gentilmente. A menina lhe dirigiu o olhar com dificuldade. – Nos te amamos. Te amamos por você ser quem você é. Você é importante para nos. E sempre vai estar em nossas vidas e em nossos corações. Isso jamais vai mudar. Todo o resto sim mudará. Nossa forma de viver, nossa rotina, nossas obrigações, nossos afazeres, nossas escolhas. Vai tudo mudar. Não porque deixaremos você de escanteio. Não porque não vamos mais precisar de você nas nossas vidas. Não porque vamos amar mais esse bebê.
Sora limpou as lágrimas do rosto da filha e prosseguiu. – A todo instante pessoas podem entrar e sair de nossas vidas. E sempre tem lugar, sempre tem espaço. Você tem o seu lugar nessa família e ninguém poderá tirar isso de você. Além do mais, não dá para amar mais ou menos esta ou aquela pessoa. Você já parou para pensar na quantidade de pessoas que amamos? Cada uma de um jeito diferente, cada uma de uma maneira especial? Não dá para amar as pessoas da mesma forma. Tem horas que achamos que amamos mais alguém porque parece que somos mais felizes com ela do que com outras pessoas, mas o amor não funciona assim. Entende? Você só ama. – ela fez uma pequena pausa para respirar fundo e prosseguiu. – Independente de qualquer laço sanguíneo, independente de qualquer pedaço de papel, independente de quem gerou quem... Você é Ishida Natsuko e sempre será Ishida Natsuko. Filha de Ishida Yamato e Takenouchi Sora. Irmã mais velha de um bebê ainda sem nome. E ninguém no mundo poderá dizer que você não é amada. E nem mesmo você poderá ficar de escanteio. Porque enquanto tudo à sua volta mudar, nós dois permaneceremos aqui. Contigo. Para ti. Você está me entendendo?
Nana assentiu com a cabeça e mais lágrimas vieram à tona. Yamato também se juntou a elas e puxou a filha para seus braços. – Tudo bem você estar assustada e ter medo do que vai acontecer, Nana. Nos dois também estamos. E isso é perfeitamente normal. O que eu posso te garantir é que daremos um jeito. Mas só se você for sincera conosco. Assim como foi agora a pouco. Sim?
Ela concordou com um som abafado e abraçou o pai com força. Mesmo receosa, quis se agarrar àquele fio de esperança de que tudo poderia ainda ser bom em sua vida. Porque sabia que o contrário de negativo era ver sempre as partes positivas de tudo ao seu redor.
- Eu amo vocês. – sussurrou para os pais.
Continua...
