Notas de Autora: Oh uau... Nem acredito que já passou mais de um ano desde que actualizei esta fic... a sério que pensava que tinha sido menos tempo... Peço desde já desculpa aos leitores habituais que tiveram de esperar imenso tempo e, àqueles que adquiri durante este ano, um obrigada, se esperaram até agora.

Outro motivo para ficar de boca bamba: Já faz mais de 5 anos desde que comecei esta fic... será que notam diferença na escrita de capítulo para capítulo? Sabem dizer se tal aconteceu? Se melhorei? Quem sabe...

Bem, tentei compensar a demora fazendo este capítulo um pouco mais longo do que o habitual, ainda que um pouco desprovido de conteúdo romântico... mas não temam, estará para vir! Até lá, espero que gostem e deixem uma review, ok? :p

Pandora


Uma Nova Vida, Um Novo Princípio

Capítulo 10 - Abre os Olhos, Granger

«I know that you are trying hard not to show it
But the coward is an asshole he's shameless»

(Sei que tentas a todo o custo não o demonstrar

Mas o cobarde é um idiota, um sem-vergonha)

Tinha muito mais coisas para lhe dizer, mas todas elas lhe ficaram presas na garganta quando uma náusea acompanhada de uma forte tontura a desequilibraram de tal maneira que cambaleou para a frente.

Draco correu a ampará-la antes que ela caísse no chão.

"Granger, estás bem?"

Hermione sorriu. "Ora, ora, Malfoy. Estás realmente a ficar mole... já é a segunda vez hoje que me perguntas se estou bem..."

E desmaiou nos braços do louro.


Hermione demorou o seu tempo a abrir os olhos. Sentia-os pesados e moles. Não sabia bem onde estava e não se conseguia recordar da sua última memória. Sabia que estava numa cama pois estava confortável e sentia o peso de lençóis da sua pele. Mas seria a sua cama?

Viu um vulto vermelho pelo canto do olho. "Ron...?" A sua voz saiu rouca e abafada, mas a voz que lhe respondeu de seguida era alegre e quente. Mas não era a do seu marido.

"Não. Ainda não mudei de sexo, Hermione."

A morena deu por si a sorrir enquanto a sua vista se focava em quem se encontrava ao seu lado. "Ginny?" E depois a sua última memória voltou e lembrou-se de cair redonda nos braços do Malfoy. "Onde estou?"

"São Mungo. O Malfoy trouxe-te. Assustaste-o. Não sei bem porquê..."

Hermione sentou-se. Já não estava zonza, nem sequer maldisposta. Sorriu, aliviada. Devia ter sido só uma simples quebra de tensão. Nada que uma boa poção e uns minutos de descanso não resolvessem, pelos vistos.

"E onde está ele?" Perguntou na mais pura das inocências.

"O Malfoy?" Ginny viu Hermione anuir e continuou. "Foi embora. Falou com o Medibruxo sobre o que te tinha acontecido, ficou um bocado e depois recebeu uma coruja e saiu a correr. Parecia realmente preocupado..."

Hermione mordeu o lábio inferior. "Ah, sim? Hmm..." Quem poderia ter mandado a coruja ao Malfoy? Seria mais uma remessa de Flechas de Fogo ilegais ou algo que o valha?

Ginny olhou-a com curiosidade. "O que foi esse 'hmm'? O que se passa na tua cabecinha, Hermione?"

Hermione suspirou pesadamente. "Oh, nada. Estou só cansada do trabalho..." Sorriu.

"Por falar em trabalho, como é que está a ser trabalhar para o infame Slytherin?" Sentou-se à beira da cama de Hermione.

"Oh, nem imaginas! Não leste o Profeta?" Perguntou sarcasticamente. Ginny olhou-a curiosamente.

"Não, nem por isso. O que se passou?" Hermione suspirou e contou à sua cunhada uma história curta dos acontecimentos do dia passado. Não lhe contou ainda do orfanato, de todas as contas seladas pelo Malfoy ou da vassoura ilegal. Não, isso teria de esperar até Hermione chegar a conclusões mais concretas.

"Oh, uau! Quem diria! Na primeira semana de trabalho já deste uma conferência de impressa!" Ginny parecia impressionada. "Acho que o loirinho te deve um aumento!" Sorriu.

Hermione sorriu de volta. Depois lembrou-se: "Espera lá, o que estas aqui a fazer? Porque é que os Medibruxos te chamaram a ti e não ao Ron?"

A ruiva sorriu abertamente e enrubesceu. "Oh bem... eu estava por aqui e vi-te entrar nos braços do Malfoy. É óbvio que vim logo a correr ver o que se passava." Olhou para as mãos. "Disse aos Medibruxos que era a tua cunhada e, como já estava eu contigo, eles não viram necessidade de chamar o Ron."

Hermione arqueou as sobrancelhas e cerrou os lábios. "Fugiste à pergunta..."

Ginny tossiu levemente. "Oh, consulta de rotina! Sabes como é..."

Hermione não disse uma única palavra mas forçou o seu olhar penetrante no olhar fugidio da ruiva. Ela corou. Hermione sorriu.

"E porque é que eu tenho a sincera impressão que me estás a aldrabar?"

A ruiva sorriu embaraçadamente. "Oh... que importa, acho que não faz mal se te contar..." Levou o dedo indicador à boca e franziu o nariz. "Mas tens de me prometer manter segredo, Hermione! É importante!"

Hermione colocou a mão direita no ar, fechou os olhos e fez um ar solene. "Prometo solenemente não abrir o bico sobre qualquer segredo obscuro que a minha cunhada me está prestes a contar." Esperou uns segundos e abriu os olhos. "Serve?"

Ginny deu uma gargalhada. "Acho que sim..." Depois mordeu o lábio inferior em antecipação e os seus olhos brilharam. "É que eu só ia contar isto no próximo fim-de-semana nos anos do Percy... Quando a família estivesse toda reunida, sabes como é a minha mãe! Grandes jantares e-..."

Hermione suspirou de impaciência e cortou-lhe a palavra. "Aff, sim! Desembucha logo, mulher!"

"Bem... eu..." Ginny aproximou-se da morena que tomou as mãos da sua cunhada nas suas. "Eu vim cá porque suspeitei de uma coisa e queria confirmar... e bem... eu..."

"A senhora está grávida."

Ginny olhou furiosa para o Medibruxo que tinha aparecido do nada e soltou um grunhido de irritação. Hermione olhava incrédula para Ginny e para o Medibruxo que, por sua vez, olhava na sua direcção.

"Oh, francamente! Estragou-me a surpresa! Eu é que ia contar, doutor!"

O Medibruxo olhou para Ginny confuso. "O quê? Mas eu não estraguei nada... eu só vim contar as boas novas à senhora Weasley."

Ginny revirou os olhos. "Sim, mas já me tinha confirmado a notícia mesmo há pouco, doutor. Não se lembra?"

O Medibruxo olhou para a ficha que tinha na mão e depois para as duas mulheres confusas que o encaravam. "Ah, já percebi qual é o problema! As boas novas são para a outra Senhora Weasley, não para a Senhora Weasley Potter..." E sorriu abertamente olhando para Hermione.

As duas mulheres olharam uma para a outra com olhos esbugalhados. Ginny nem percebendo que se esquecera que o seu último nome era agora Potter e não Weasley. "Oh meu Merlin! Estás grávida!" As suas vozes ecoaram ao mesmo tempo na ala hospitalar quase vazia.

"Estou o quê?" A voz esganiçada de Hermione fez-se ouvir por cima dos gritos histéricos da ruiva.

Ginny sorria que nem uma menininha enquanto pulava infantilmente ao lado da cama de Hermione. A morena permanecia estupefacta a olhar o Medibruxo, a sua boca ligeiramente aberta de espanto e os seus olhos esbugalhados de surpresa.


"Estou aqui, qual é a emergência?"

Draco sentou-se ao lado de Nott num banco de jardim desgastado num qualquer parque Muggle no meio da cidade Londrina.

"Demoraste o teu belo tempo, Malfoy. Já estaria a cantar com os anjinhos se fosse um caso de vida ou morte."

Draco sorriu de lado e inclinou as sobrancelhas. "Vida ou morte? Certo, se fosse esse o caso era realmente com uma coruja que me irias chamar..." Viu Nott sorrir pelo canto do olho. Um sorriso tão baço como o seu, de lado e sem qualquer emoção real. Fitou um Muggle que corria pelo jardim a uma velocidade casual. Suspirou. "Estava ocupado, Nott. Um caso particular..." Coçou o nariz. "Ou melhor, profissional... bem, quer dizer, oh, que importa!" Cruzou os braços e suspirou novamente.

Nott gargalhou e olhou Draco de esguelha. "Sim, sim. Também nunca consigo distinguir muito bem o que é pessoal ou profissional quando se trata de um rabo de saias!" Gargalhou novamente com desplante.

Draco olhou-o e ergueu as sobrancelhas. Nott continuou como se nada fosse. "Principalmente porque todas as minhas relações pessoais são com profissionais!" Desta vez até se inclinou no banco e gargalhou com mais vontade. "Percebeste?" Continuou a sorrir divertido com a sua própria piada.

Draco suspirou pesadamente. "Nott, eu não vim aqui para falar de como tu tens de pagar por prazer, isso é degradante. Eu vim aqui por outro motivo..." A sua voz baixou de volume. "Tu sabes..."

Nott voltou tão rapidamente ao seu semblante sério que ninguém diria que no segundo anterior estava a gargalhar infantilmente. "Ah, sim, isso. Bem, chegou a encomenda. Foi difícil conseguir passar pela alfândega desta vez, Malfoy. Está cada vez mais complicado encobrir estas encomendas..." Olhou para Draco bem nos olhos. "Mas sabes, talvez esta poção seja a solução que procuras..."

Draco encarou o seu amigo esperançado. "De verdade?" Levou as mãos à cabeça enquanto fitava o chão e soltou um suspiro angustiante.

Nott continuou. "Sim, é uma nova poção. Veio dos confins do mundo. Algures no meio da América Latina onde as raízes da magia são mais selvagens, mais naturais. Penso que poderá realmente ser a solução Malfoy..."

"Será esta a poção que finalmente a trará de volta?" Draco voltou a fitar os olhos de Nott, um brilho no seu olhar que há muito não aparecia. Nott encarou-o seriamente sem demonstrar qualquer emoção.

"Se isso não o fizer não sei o que mais o fará."


"Pelas barbas de Merlin, Hermione!" Ginny continuava a pular de alegria enquanto Hermione permanecia no seu transe hipnótico. "Estás grávida!" Mais pulinhos. "Eu estou grávida!" Mais gritinhos histéricos. "Estamos as duas grávidas!"

"O... o doutor tem... é mesmo verdade?" A voz da morena soou-lhe estranha, distante. Um bebé... uma nova vida. Um novo ser. Uma coisinha pequenina e adorável que ia sair de dentro dela e que ela ia amar e mimar mais do que tudo no mundo.

Passou a mão na barriga. Não sentiu nada, mas sorriu de qualquer maneira. Sabia o que estava lá.

"Sim senhora Weasley. Não tem de se preocupar com os desmaios e enjoos. É perfeitamente natural. E frequente. Está grávida de três semanas. Parabéns." E virou as costas deixando Hermione sozinha com Ginny que dançava sozinha e cantarolava algo incompreensível.

"Um bebé..." Repetiu, não acreditando ainda.

Ginny sentou-se finalmente à beira da cama da morena e tomou as mãos trémulas nas suas. "Oh, meu Merlin! Hermione estamos as duas grávidas! Sabes o que isso significa?"

Hermione sorriu levemente e encarou a amiga. "Sarilhos para o Harry e para o Ron?" Ginny sorriu com a sua amiga.

"Definitivamente! Mas não só! Podemos fazer tudo juntas! E os nossos filhos vão praticamente crescer juntos! Oh, eles vão para Hogwarts juntos, Hermione! Isto vai ser fantástico!"

A morena não pôde deixar de se juntar à sua amiga e sorriu. Ginny parou de repente e encarou-a de boca aberta. "Oh, Hermione! Mas não podes contar nada a ninguém!"

Hermione franziu as sobrancelhas. "Porquê?"

Ginny sentou-se ao lado de Hermione. "Oh... eu quero que seja surpresa! Quer dizer, eu estava a pensar contar a todos a novidade nos anos do Percy... pensei que talvez fosse giro fazermos a surpresa juntas!" Gargalhou. "Estou mesmo a imaginar! A minha mãe vai ter uma coisinha má quando lhe caírem duas bombas destas de seguida!"

Hermione deu por si a sorrir. Era uma óptima ideia. Mas... "Mas Ginny... eu queria contar ao Ron..."

"Oh, claro! Mas claro que tens de contar ao Ron!" Olhou para Hermione como se fosse óbvio e esse assunto estivesse implícito na sua frase anterior. "Eu também fui logo a correr a contar ao Harry! Havias de ver a cara dele!" Sorriu. "Nunca mais largou a minha barriga depois disso...!"

Hermione não ouviu mais nada do que a sua amiga lhe disse. Ia ser mãe... estava preparada. Sabia disso. Tudo iria correr bem. Ignorou veemente a quase inaudível vozinha que já se tinha tornado uma constante irritante que lhe sussurrava ao ouvido: "Abre os olhos, Granger..."


"Ron? Ron estás em casa?"

Não obteve qualquer resposta. Apenas uma casa vazia e silenciosa a saudou da gratificante visita a São Mungo. Encolheu os ombros e tirou o casaco, pendurando-o de seguida no cabide da entrada.

Suspirou. Estava tão contente. Precisava de partilhar as notícias com alguém! Pensou em ligar aos seus pais, mas no minuto a seguir lembrou-se que eles estavam de férias numa segunda lua-de-mel romântica e a última coisa que ela queria era interromper isso!

Encolheu os ombros novamente e dirigiu-se para o quarto para vestir algo mais confortável. Inconscientemente pousou a mão direita sobre a sua barriga e trauteou uma canção que flutuou na sua memória. Uma canção antiga que a sua mãe lhe costumava cantar quando era pequenina. Não se lembrava das palavras exactas, mas conhecia o ritmo de cor.

Hermione sorriu e suprimiu de novo a vontade de telefonar aos seus pais e contar tudo. Oh a sua mãe iria ficar louca da vida quando soubesse que iria ser avó. Se lhe ligasse agora, até era bem capaz de fazer com que ela voltasse para casa de imediato, só para puder cuidar da sua filhinha e passar a gravidez a seu lado. Mas não o iria fazer.

Sorriu e lembrou-se da outra avó que o seu filho, ou filha, iria ter. Mal podia esperar pela reacção da Srª Weasley! Ainda para mais com uma notícia dupla no mesmo dia! Tinha a ligeira sensação que iriam ouvir todo o dia a voz esganiçada da Celestina Warbeck, já que a Srª Weasley idolatrava a cantora e esta seria certamente uma situação que pediria canções.

Quando chegou ao quarto livrou-se das roupas pesadas do trabalho e vestiu algo bem mais confortável para andar por casa. De seguida dirigiu-se à cozinha para adiantar o jantar. Suspirou. Iria ser uma noite maravilhosa.


"Podes-me explicar o que raio é que é esta trampa?"

Draco segurava um pote de uma mistela acinzentada numa mão e um punhado de ervas amareladas na outra. Na sua face rondava um misto de asco e estranheza pelos objectos que segurava.

Nott olhava o seu amigo atentamente. "Um kit de 'como preparar a sua própria poção', ao que parece." Comentou objectivamente.

"O quê?" Draco olhou-o escandalizado. "Pensei que isto já vinha pronto a beber!" Olhou para o conteúdo de uma caixa de largura média que estava aberta sobre a mesa da sala de jantar dos Malfoys. "Que idiotice é esta?"

Nott sorriu com o canto dos lábios. "Tem calma, Malfoy. Isto é uma poção extremamente delicada. Tem de ser tomada nas 12 horas a seguir à sua preparação. Por isso não podia vir preparada..." Olhou-o como se tal facto fosse óbvio.

Draco levou as mãos à cabeça, o desespero assolou-o.

"Lindo. Perfeito! Adoro surpresas!" Suspirou. "Só espero que seja uma poção bem mais fácil de preparar do que as que o Snape nos dava nas aulas..." Sorriu levemente ao lembrar-se do seu professor favorito. "Para além do mais, essas só conseguiam ser preparadas na perfeição pela super-cabeçinha da Granger! E não é como se eu lhe pudesse pedir para preparar a poção por mim!"

O seu sorriso desvaneceu-se completamente. Estaria a Granger bem? Tinha saído de São Mungo antes de saber o diagnóstico.

Abanou a cabeça com convicção. Poderia estar ele realmente preocupado com a morena?

Encarou novamente o enorme monte de ervas, frasquinhos, olhos, garras, línguas e outras coisas que tal que o olhavam de volta na caixa e suspirou. Um suspiro que aumentou consideravelmente de volume quando Draco vislumbrou o 'manual de preparação'.

Era um livro capaz de fazer concorrência ao 'Hogwarts Uma História' no que tocava à grossura. Tudo por uma simples poção...

Estava condenado.


22:00 horas

"Pelas barbas de Merlin, Ron, onde estás tu?"

Hermione passeava-se para trás e para a frente no hall de entrada. Podia jurar que estava a gastar tanto a carpete como a sola dos chinelos no sítio onde passava. Ron já devia ter chegado a casa há mais de três horas atrás.

Não lhe tinha sequer mandado uma coruja a avisar que ia chegar tarde. Podia estar a apodrecer num beco qualquer e Hermione sem saber dele. E isso estava a enlouquecê-la de preocupação.

Contactou o ministério e, oh que surpresa, não sabiam nada dele. Tinha saído há horas. Comentaram que tinha havido um qualquer problema no departamento dele, mas não lhe souberam adiantar mais nenhuma informação.

Suspirou uma vez mais ao olhar o relógio. Já não sabia o que fazer. Quando ponderava falar com o Harry para a ajudar a procurar (visto já ter falado a inquirir sobre o seu paradeiro - que Harry de nada sabia - ), a porta abriu-se com um estrondoso click.

"Ron!" O seu grito foi de espanto, alívio e raiva. Não necessariamente por essa ordem.

"Por onde andaste? Estava preocupadíssima!" Correu de encontro ao seu marido. "Podias ter dito alguma coisa! Onde-... estiveste a beber?"

A voz tremeu-lhe na última frase quando o cheiro a álcool lhe assolou as narinas. Ron grunhiu e pendurou o casaco num cabide inexistente quase um metro à frente do cabide real. Não dando sequer pelo facto de o seu casaco ter caído ao chão, Ron continuou a andar.

"Chega para lá mulher... Ainda agora cheguei e já me estas a moer o juízo com perguntas idiotas?"

Arrotou bem alto e bateu com o punho no peito em sinal de satisfação. Hermione sentiu lágrimas a ferirem-lhe os olhos. Malditas hormonas!

"Ron... tu prometeste... Tu juraste que não irias mais tocar numa bebida..." Talvez a culpa funcionasse. Deixou que as lágrimas lhe lavassem a face.

Ron continuou a caminhar para o quarto sem sequer parar para olhar para trás. "As promessas foram feitas para serem quebradas. Não aprendeste nada em Hogwarts?"

Hermione encarou as costas do seu marido, curvadas com o peso do álcool, e levou a mão à barriga. "Isso são as regras, Ron, não as promessas... Essas são para se cumprir..." Suspirou e engoliu uma nova torrente de lágrimas. Não seria hoje que iria contar a Ron a feliz novidade. E certamente não seria amanhã.

Amanhã ia passar o dia a oferecer-lhe um belo tratamento de silêncio e desprezo.

"Hermione! Porque é que o meu jantar não está feito?" A voz carregada de Ron soava-lhe fria e distante.

A morena suspirou pesadamente. "Porque estás no quarto, Ron... o teu jantar está na cozinha." Subitamente sentiu-se sem forças e deixou-se cair no sofá. Enrolou os braços à sua volta num abraço protector e deixou as lágrimas caírem livremente.

Sabia perfeitamente que estava emocional. Conhecia os sintomas da gravidez, mas parte daquelas lágrimas eram atribuídas ao facto de ter perdido a confiança cega que tinha no seu marido.

Acarinhou a sua barriga.

A altura não poderia ser pior... agora mais do que nunca precisava de alguém sempre ao seu lado. Protector, amável e carinhoso. Não um bêbado imprestável que nem o casaco consegue pendurar sozinho.

Levantou-se e foi para o quarto. Antes de se deitar trancou a porta magicamente. Parte de si dizia que não era realmente necessário fazê-lo e que não o fazia pela sua segurança, mas sim para castigar Ron, pois o seu marido jamais lhe voltaria a levantar a mão.

Mas a parte de si que estava magoada e dorida e que tinha acabado de perder a confiança no seu mais que tudo, na sua muleta que a guiava pela vida, assustava-a. E havia ainda a vozinha insistente que lhe repetia vezes sem conta ao ouvido a mesma frase, quase como um tantra, sempre a recordar-lhe de algo que preferia esquecer:

"Abre os olhos, Granger..."


"Hermione abre a porta." Duas batidas firmes na madeira dura seguiram-se às, já sem conta, anteriores. "Abre a porta Hermione. Desculpa... sei que fui um idiota! Não devia ter bebido! Eu sei que prometi querida, mas..."

Hermione rebolava na cama já desde que o sol se tinha levantado. Na verdade não dormira muito naquela noite. Tinha-se levantado apenas para ir buscar algo que comer à cozinha. De resto ainda não tinha saído da cama.

Era meio-dia e tinha o seu marido, com certeza esfomeado, a bater-lhe à porta.

Oh mas ela não iria ceder. Tinha provisões para o resto do fim-de-semana, uma televisão, imensos livros e a casa de banho. Podia permanecer no seu refúgio o tempo que bem lhe apetecesse. Ron iria aprender a lição.

"Hermione! Já pedi desculpa, sim? Deixas-me entrar? Deves estar com fome... eu preparo-te o almoço!"

Hermione não mexeu um músculo. Ficou contente com o facto de Ron não se ter tornado violento na noite anterior, principalmente porque agora tinha uma nova vida com que se preocupar, mas não o iria perdoar tão facilmente.

Aliás, o mal já estava feito... ela já não confiava nele.

Hermione detestava que Ron bebesse... e ele tinha prometido! A morena rebolou na cama. Estava calor. "Abre a porta, Hermione, vá lá!"

A voz de Ron era cada vez mais insistente. O cérebro de Hermione começou a trabalhar a mil à hora. O Ron não costuma quebrar promessas. Isso a morena sabia-o bem. Então porque raio teria ele ido beber? Teria o chamamento do álcool sido assim tão forte, ou teria acontecido algo mais grave que ela não tinha conhecimento?

Todas estas interrogações estavam a incomodá-la, mas não via maneira de as ver respondidas sem falar com o seu marido, coisa que não iria acontecer, pelo menos, nas próximas 24 horas.

Suspirou. A curiosidade era realmente um bichinho perigoso...

"Ron...?"

Ouviu o seu marido a levantar-se do chão, onde provavelmente tinha estado sentado na última hora, desde que começara a implorar para Hermione lhe abrir a porta.

"Sim querida, diz!"

A sua voz era esperançosa e Hermione não conseguiu esconder o sorriso ao presenciar o tom de alívio do seu marido.

"Lá por estar a falar contigo não quer dizer que estejas perdoado, Ronald, aliás, nada que se pareça." Ouviu o consentimento apressado de Ron e continuou. "Só estou curiosa..."

Fez uma pequena pausa. Não sabia muito bem se queria saber a resposta à sua própria questão.

"Ron... porque é que te embebedaste ontem? Sei que não faltarias a uma promessa apenas por motivos recreativos, por isso... preciso de saber..."

Silêncio.

Depois ouviu um suspiro pesado e, de seguida, o barulho de Ron a sentar-se novamente no chão, à entrada da porta.

"Hermione eu... eu não queria dizer nada ainda... mas ontem não tive coragem de voltar para casa e te contar... fui um cobarde... sei que sim, mas... eu..." Silêncio. "Antes de voltar fui até ao bar 'encomendar' um pouco de coragem líquida..."

Fez outra pausa. Hermione esperou pacientemente, apesar de já fazer ideia do que vinha a caminho.

"Hermione, eles despediram-me de vez..."

Bingo.

"A culpa foi minha... cometi um erro enorme e quando descobri, tentei encobrir a embrulhada e ainda foi pior! Não sei como o fiz, Hermione, mas acabei por explodir com metade do departamento..."

Hermione sentiu o seu queixo embater contra o chão.

"Tu explodiste o ministério?" O seu grito saiu-lhe mais histérico do que aquilo que contava.

"Não! O ministério não! Só um departamento..." A voz de Ron saiu abafada e envergonhada.

"Oh, sim! Realmente essa perspectiva é bastante mais animadora!" A morena levantou-se de um pulo e começou a andar às voltas no quarto.

Se bem que não o justificasse totalmente e não fosse, de maneira nenhuma, uma desculpa, Ron tinha uma razão plausível para o facto de ter quebrado a sua promessa. Suspirou e encostou-se à porta do quarto.

"Ron, mesmo assim não gostei que me faltasses à promessa. Eu compreendo que estivesses aborrecido e deprimido, mas a bebida não é a melhor solução, não achas?" Passou a mão carinhosamente na sua barriga. "Eu preciso de ti, Ron. Preciso de saber que não me faltas quando eu precisar da tua ajuda..."

Suspirou e sentiu lágrimas a escorrerem-lhe pela cara e a toldarem-lhe a visão.

Malditas hormonas!

"Ron, eu preciso de confiar em ti e, sinceramente, neste momento não consigo..."

Ron permaneceu silencioso durante uns bons minutos. "Hermione... eu... eu sei que te faltei... eu sei que tenho sido um perfeito idiota. Mas não quero que deixes de confiar em mim por causa disto..." Mais um silêncio. "Se o fizeres, parece que estamos a recuar um passo na nossa relação... e eu não quero isso!"

Hermione ouviu o suspiro pesado do seu marido. "Não tenho desculpa possível, eu sei, mas não vou desistir de ti assim tão facilmente. Sei que te magoei. Não o voltarei a fazer!"

Mais um suspiro. "Não vou prometer porque sei que já não acreditas nas minhas promessas, mas vou, a todo o custo, cumprir a promessa anterior. Aquela em que ainda confiavas em mim..."

A morena suspirou pesadamente. Estava visivelmente comovida com o seu marido, mas ainda magoada. "Lamento, Ron. Não sei se palavras serão suficientes..."

Ron ergueu-se de um pulo. "Mas eu sei! E vou provar-to, Hermione, vais ver!"

Hermione esboçou um sorriso céptico.

"Amanhã vou arranjar um emprego ou o meu nome não é Ron Weasley!"

Hermione suspirou e, ainda sorrindo, abriu a porta para encarar o seu marido. Ele tinha, realmente, um ar decidido e sincero. Ela sorriu uma vez mais e abraçou-o.


O suor escorria-lhe pelo rosto branco como cal. As suas mãos tremiam, ainda que levemente, e ele abria-as e fechava-as constantemente, como que para afastar a dormência que o preenchia. Os seus olhos não se moviam e as suas pálpebras mal pestanejavam, tal era a sua concentração.

À sua frente encontrava-se um caldeirão vazio e Draco olhava-o com um crescendo de apreensão que lhe apertava o estômago e o nauseava até à exaustão.

Suspirou pesadamente e o seu olhar pousou num livro empoeirado e velho que se encontrava aberto junto ao caldeirão. As suas folhas já estavam tão gastas e decadentes que não era sequer necessário segurá-lo para que se mantivesse aberto: a lombada quebradiça executava esse trabalho na perfeição.

À sua volta a casa ressoava numa harmonia quebrada de gritos histéricos e poderosos. Uma melodia decadente e ensurdecedora que ribombava nas paredes à sua volta e ressoava na sua cabeça como se lá pertencesse.

Draco suspirou uma vez mais e lambeu os lábios, humedecendo-os, retomando a leitura. Esta era, sem sombra de dúvida, a poção mais complicada que alguma fez tentara fazer. E, infelizmente, não se podia dar ao luxo de se enganar na sua confecção.

Era por isso que lia e relia cada ingrediente, cada passo, cada pesagem, cada volta de concha...

Todo o cuidado era pouco. Era por ela que fazia isto... não se podia dar ao luxo de falhar. Já o tinha feito vezes suficientes.

"Mestre Draco..."

A voz fininha do elfo doméstico acordou Draco do seu transe e o seu olhar pousou agora na pequena figura do seu servo que o olhava com consternação, as suas finas sobrancelhas elevadas com preocupação.

"Sim, Snoket, qual é o problema?" A sua voz soava-lhe distante. Cansada.

Não. exausta...

O elfo baixou a cabeça. "Senhor Mestre Draco... já tentamos de tudo! Os calmantes não estão a fazer efeito desta vez e as correntes só a magoam... Não sabemos o que fazer mais, Mestre Draco!"

A voz de Snoket tornou-se mais aguda para o final da frase e o elfo passou os braços por cima da cabeça para se proteger, apesar de saber que não iria sofrer nenhum castigo às mãos de Draco.

Draco suspirou. Sim... nada estava a funcionar desta vez. Esse facto já tinha constatado por ele mesmo. Levantou-se e, com um gesto algo afável, baixou os braços de Snoket e saiu pela porta. "Eu trato disso..." Murmurou sombriamente.


"Ron! Mesa! Está tudo pronto."

Ron apareceu à entrada da cozinha e ajudou Hermione a pôr os tachos na mesa. Tudo para se manter nas boas graças da sua mulher! Sentaram-se e, por breves momentos nada disseram. Apreciaram apenas a familiaridade da comida quente de Hermione e da companhia um do outro.

Passado alguns momentos começaram a indagar sobre as possibilidades de Ron arranjar um novo emprego e sobre qual emprego seria o mais adequado.

"Olha Ron, sabes, há males que vêm por bem..." O seu marido arqueou as sobrancelhas ao dizer antigo que lhe era desconhecido. Hermione continuou. "A verdade é que nunca gostaste verdadeiramente do trabalho que fazias no ministério. Talvez devas encarar isto como a oportunidade perfeita de mudares de vida e seguires o teu sonho." Sorriu calorosamente e, inconscientemente, pousou a mão na barriga.

Ron suspirou e levou uma garfada do empadão de atum à boca. "Pois, querida, mas esse é que é o verdadeiro problema," Engoliu e tomou um gole de sumo de abóbora. "Eu não sei qual é o meu sonho..."

Hermione suspirou e sorriu ao mesmo tempo. "Bem Ron, começamos com algo simples." Sentiu-se corar. "Não queres ter uma família?"

Olhou para o prato não achando coragem para enfrentar o olhar do seu marido. Tinha tomado a decisão de não lhe contar ainda. Não queria que se sentisse culpado por não ter emprego e não conseguir suportar a família financeiramente. Aliás, tal facto só lhe iria baralhar os pensamentos e afastá-lo do caminho para encontrar um novo emprego.

Contar-lhe-ia mais tarde. Tinha a certeza que Ron encontraria um emprego seguro bem mais cedo do que ambos pensavam.

Ron pegou na mão de Hermione e levantou-lhe a face para poder olhá-la nos olhos. "Claro que sim, Hermione. Sabes bem que quero ter uma família contigo. Pelo menos um menino e uma menina. Todos os outros que se seguirem serão bem-vindos!" Disse a sorrir.

Hermione sorriu aliviada. "Bem, é um começo. Pensa agora no que gostarias que os teus filhos pensassem de ti. Um emprego que os faria orgulhosos do seu pai!"

Ron largou os talheres e olhou a sua mulher com um ar sério. "Bem Hermione... eu... bem... eu sempre quis jogar Quidditch profissionalmente..." Coçou a cabeça e corou. "Como o Harry... sabes... sempre gostei... mas nunca tive a confiança..."

Os olhos de Hermione enterneceram ao pensar na carreira de jogador do seu marido em Hogwarts. "É esse o teu sonho?"

Ron olhou-a meio de lado. "Acho que sim..."

A morena bateu uma palma. "Então faz com que aconteça, Ron! De que estás à espera? Não há melhor altura que esta!"

Ron olhou Hermione e engoliu em seco. "Tens a certeza?"

A morena sorriu ao ver o espanto do seu marido. "Só quero que sejas feliz Ron... quero que sejamos uma família grande e feliz!"

Ron sorriu e abraçou a sua mulher, visivelmente emocionado pelo caminho que ambos tinham escolhido para ele. Beijou a sua mulher e piscou-lhe o olho sedutoramente. "Bem, enquanto não temos nenhum bebé, sempre podemos ir treinando os procedimentos para quando quisermos fazer um. Que achas?"

Hermione deu por si a gargalhar. Fez um ar sério, ainda que o sorriso permanecesse nos seus olhos achocolatados, e deu uma chapada no ombro do seu marido. "Parvo..." Mas seguiu-o até ao quarto na mesma...


"Sim, mãe. Eu compreendo. Não te preocupes! Eu vou até à casa da tia. Não tens de voltar! Quero que passes um bom tempo com o pai e que não te preocupes com nada. Eu não tenho nada planeado, mãe. Posso perfeitamente passar na tia."

Hermione estava ao telefone com a sua mãe enquanto Ron tomava o pequeno-almoço e lia a secção de Quidditch do Profeta.

"Não há qualquer problema, mãe. Sim, eu depois ligo-te quando chegar à tia. Adeus! Até logo. Beijinhos ao pai!"

A morena desligou o telefone e suspirou.

"O que foi querida?" Ron era todo carinhos e mimos. Ainda não se tinha esquecido do amuo da sua mulher.

"Oh, nem sabes." Suspirou mais uma vez e sentou-se em frente ao seu marido, servindo-se de um croissant simples. "Era a minha mãe."

"Mas está tudo bem?"

Hermione sorriu. "Sim, ela está bem. O problema é a minha tia. Apanhou uma gripe horrível e não consegue sair da cama... E como o meu tio está fora do país, não tem ninguém para cuidar das gémeas..."

Suspirou uma vez mais enquanto tomava dois goles do seu sumo. "A minha mãe disse-me que ela não queria incomodar, por isso é que não me ligou. Mas eu disse à minha mãe que não incomodava nada. Não vale a pena a minha mãe vir embora da segunda lua-de-mel só por isto!"

Pousou a face na mão direita. "A mim não me custa nada tomar conta das miúdas por dois dias. E sei que te safas sozinho!"

Ron arqueou as sobrancelhas. "Dois dias? Como sabes que não será mais?"

Hermione sorriu atrevidamente. "Oh, simplesmente porque prepararei uma poção para acelerar a cura. Nada de muito repentino, claro. Os meus tios são Muggles e eu não posso quebrar o regulamento." Deitou a língua de fora. "Mas posso dar uma ajudinha!"

Ron gargalhou levemente. "Pois, onde é que eu tinha a cabeça, realmente! Mas acho muito bem. Assim voltas mais depressa para o teu querido maridinho!"

E agarrou-a pelos ombros puxando-a para si e sufocando-a com um beijo sedutor.


"Malfoy, vou ter de tirar uns dias de férias..." Hermione passou o peso do seu corpo de um pé para o outro e apertou as mãos. Não sabia porque raio estava tão nervosa na presença do Malfoy. Teria algo a ver com a preocupação que ele tinha mostrado por ela? Quem sabe...

Draco olhou-a por cima do jornal arqueando a sobrancelha. "Porquê? Estás doente? O que é que te disse o Medibruxo?"

Demasiado rápido. As suas perguntas tinham sido demasiadas e demasiado atabalhoadas. Pigarreou tentando aclarar os seus pensamentos. Calma. Compostura. Ele era um Malfoy, afinal. Porque raio é que estaria ele preocupado com uma bruxa como a Hermione?

"É algo de preocupação?" Perguntou mais calmamente, tentando rectificar as suas acções apressadas.

Hermione sentiu-se corar. Poderia estar o imponente Draco Malfoy preocupado com ela? Certamente tinha sido impressão sua. Uma simples alteração na voz afectada que tanto o caracterizava. Nada mais.

"Ah, isso..." Olhou para o chão e brincou com os pés. Tinha chegado a altura. "Eu ainda não te agradeci... sabes, por teres-me levado a São Mungo. Não era necessário!"

Draco roncou com altivez e Hermione franziu as sobrancelhas perante tal acto. Se havia alguém capaz de roncar e fazê-lo com um ar de quem pertencia à realeza era, realmente, Draco Malfoy.

"Claro, Granger. Claro que não era necessário. Para a próxima deixo-te a morrer aqui no meu escritório. Que bela assombração que davas, realmente."

Hermione corou. Não soube se de raiva ou se devido ao elogio parcialmente escondido no seu insulto. "Oh, francamente! Eu não estava assim tão mal! Foi só um desmaio."

Draco suspirou e levou a mão à testa, apertando gentilmente. Ainda estava exausto da noite anterior. "Como queiras... Estavas a dizer?"

Hermione gaguejou e hesitou um pouco. Os seus olhos vaguearam novamente de volta para os seus pés inquietos e a morena suspirou. Ao que parecia a palavra 'obrigado' era um constante desafio entre os dois.

Que importava? Ela fá-lo-ia de cabeça erguida. "Oh, bem... obrigada, Malfoy."

Draco sorriu e pousou o jornal, cruzando os braços por detrás da cabeça e colocando os pés sobre o tampo da secretária.

Hermione corou de frustração. O Malfoy estava a divertir-se às suas custas e ela tinha de o suportar.

"Muito bem. Não tens de quê." Sorriu novamente, cada vez mais divertido com a situação. "Mas ainda não me disseste o que tens, nem porque é que queres tirar férias, principalmente agora que a empresa levou um baque deste tamanho." Disse referindo-se às tiradas do Profeta que Hermione lidara com eficiência uns meros dias antes.

"Ouve, Malfoy. Eu não te pedia dias de férias se não precisasse deles. Não é como se fosse para a Riviera Francesa ou algo que se pareça!" Inspirou fundo. Não se sabia se Draco iria compreender a situação. "É a minha tia. Ficou doente e não tem quem lhe cuide das filhas. Elas são pequeninas e eu preciso de a ajudar."

Viu o olhar de Draco penetrá-la e inspirou novamente. Estava já preparada para argumentar até que lhe doesse a voz para o convencer. "Malfoy, tens de compreender, é família e-..."

Ele interrompeu-a. "Podes ir. O tempo que precisares."

Hermione gaguejou nas palavras que ficaram por dizer e olhou-o estranhamente. Não conseguia ler nada na face de pedra de Draco Malfoy. "Eu..." Não sabia o que dizer. As únicas palavras que lhe vinham à cabeça eram contra argumentações para conseguir os dias de férias e dessas, certamente, já não precisava.

"Obrigada..." Desta vez a palavra saiu fluidamente. Facilmente. E foi, certamente sentida. "Vou tentar não me demorar, mas por agora tiro três dias de férias, incluindo hoje. Pode ser?" Falava calmamente, ainda embasbacada pela atitude de Draco.

Ele anuiu e voltou a olhar o jornal. "Tudo bem. O tempo que precisares." O seu semblante tinha-se tornado sério de repente. Hermione suspirou e preparou-se para sair. "Espera." Ela parou e voltou-se lentamente. Teria ele mudado de ideias? Ou teria arranjado uma espécie de contra partida para a humilhar? Seria certamente algo que Draco Malfoy faria...

"Sim?"

Ele sorriu novamente. "Ainda não me disseste o que aconteceu em São Mungo, Granger. Eu não me esqueço."

Hermione inspirou. É óbvio que não lhe ia contar que estava grávida! Tudo bem, teria de lhe contar mais cedo ou mais tarde, mas primeiro queria contar ao Ron, à sua família, não a Malfoy.

"É Weasley." Frisou, tentando afastá-lo do cerne da questão.

"Não importa. Dei-te as férias, Granger, quero a resposta."

Pouco lhe importava se parecia ansioso. Estava curioso. Era apenas isso. Mera curiosidade. Certo?

"Malfoy, não te preocupes que a tua melhor empregada está fina e nova. Foi só uma quebra de tensão. Nada com que me preocupar. Só tenho de me lembrar de comer ao invés de estar constantemente a trabalhar."

Draco sorriu. Tinha percebido a indirecta. Ainda que tivesse sido bem directa.

"Quanto a isso Granger, não estejas à espera de qualquer compensação monetária. Se bem me lembro, algumas das tuas acções nesse dia foram deploráveis." Comentou lembrando-a das contas que tinha andado a bisbilhotar e do orfanato que visitara em seu nome, sem qualquer autorização.

Hermione também sorriu. Ele era bom a jogar o jogo dos insultos, mesmo que escondidos em delicadeza. Sempre o fora, desde os tempos de Hogwarts.

"Voltaremos a falar disso noutra altura, Malfoy. Tenho de ir." Sorriu e virou-lhe as costas, abrindo a porta. Quando viu Freeda a correr para a sua secretária, fingindo que não estava a escutar à porta, decidiu dar-lhe algo em que falar. Fez um ar consternado e olhou para Draco. "Sei que vais sentir a minha falta." E desapareceu.

Draco sorriu levemente quando quase ouviu o queixo de Freeda embater na secretária. Pelo que valia, Hermione Granger também era boa a jogar o jogo de insultos e mesquinhices. Mesmo que disfarçados...

O sorriso desvaneceu-se-lhe da face quando se lembrou da mentira que ela tinha arquitectado. Quebra de tensão uma ova. Era algo mais. Mas ele ia descobrir. Ah, se ia.

"Mestre Malfoy?"

A voz de Snoket acordou-o novamente do seu transe. Já se vinha a tornar um hábito.

"Sim?"

Não esperou que o elfo retorquisse para fechar a porta e protegê-la de ouvido alheios (leia-se Freeda).

"Senhor Mestre Draco... ela fugiu!" O elfo não esperou a reacção de Draco e lançou-se em pranto contra a secretária.

Draco nem teve reacção para o parar.

Ela tinha fugido.


Notas de Autora: O que acharam? ^^