10ºCapítulo

O próximo passo dela foi voltar para casa, com uma penseira devidamente encolhida em seu bolso, cheia de memórias roubadas de uma mulher que àquela altura provavelmente não vivia mais.

Antes de começar a analisar as memórias ela pensou sobre o que deveria observar com mais atenção.

O que fazia de cada pessoa um ser único? Além das memórias é claro, provavelmente o jeito de falar, de andar, talvez as manias que a maioria das pessoas costumavam ter, superstições e outras bobagens como fé.

Continuou a pensar e logo não estava mais divagando sobre tais questões filosóficas, estava pensando sobre si mesma. Ela tinha lembranças lógico, um sotaque próprio e um jeito próprio de andar, supunha, mas achava que não tinha manias e tinha certeza de que não tinha fé em coisa alguma exceto nela mesma.

Nunca tinha acreditado em uma força superior que supostamente tecia as teias do universo, apesar do esforço de sua mãe de lhe incutir tais linhas de pensamento.

Não acreditava em destino nem em justiça cósmica. Se tal coisa existisse teria de admitir que ela tinha o que merecia ter, nem mais nem menos. E nisso não poderia haver justiça.

As horas que se seguiram foi de intenso trabalho, ela sabia por meio do Lord das Trevas que não tinha muito tempo, tinha de ocupar o lugar da outra antes que alguém sentisse falta da tal Elizabeth. O Lord tinha sido cuidadoso e sumido com ela no fim de uma sexta-feira, depois do dia de treinamento dos aspirantes a aurores, no início de um fim de semana em que o namorado da garota estaria fora do país, na Escócia, em missão oficial.

Ele jamais voltaria de lá e mesmo que Elizabeth não tivesse família próxima, ela tinha de agir rápido. Tinha de estar lá quando viessem lhe contar, alguém certamente faria isso não?

Ela se dedicou a estudar as memórias da outra com afinco, as primeiras na Acadêmia dos aurores foram mais fáceis, aparentemente a garota não tinha amigos muito próximos naquele lugar apesar dela ser muito expansiva, isso certamente seria um problema, ela nunca foi do tipo popular.

Entretanto as lembranças que a outra tinha de outros lugares que frequentava eram mais difíceis de assistir, embora ela não soubesse exatamente o porquê.

A garota aparentemente gostava muito de sair, quase todo fim de semana pelo visto. Uma lembrança em particular a incomodou, lembrança de um show no qual ela estava com um rapaz ruivo, alto, bonito, de ombros largos e lindos olhos azuis que não paravam de olhar para a garota de cabelo azul.

Ele a levantava em seus ombros para que ela pudesse ver melhor o show. Aparentemente não era nada demais, só um momento entre namorados. Ela sabia que o ruivo era Gideão, ele se tornava cada vez mais constante nas memórias que assistia.

Mas a incomodava. A incomodava porque ela se lembrava do show em questão, um mega espetáculo que foi assunto de rodinhas de conversa por semanas no final do verão antes de seu sexto ano na escola. Em todo lugar, todos pareciam ter ido. Apesar de já ter idade para ir ao show ela não pode ir, primeiro porque não tinha dinheiro e depois porque não tinha companhia. Em seus quase dezenove anos ela nunca tinha tido um namorado. Não era expansiva e simpática nem excepcionalmente charmosa, também não era absurdamente bonita e tinha notas excelentes, uma péssima combinação para uma adolescente que queria arranjar um namorado. Claro ela poderia ter alterado sua aparência o quanto quisesse mas não lhe parecia justo, embora não fosse uma expert em relacionamentos ela sempre esteve convicta de que fosse quem fosse teria de gostar dela do jeito que era, com a aparência que tinha.

Realmente aquela garota a incomodava e começava a se perguntar se aquilo poderia dar certo. A ideia era boa é claro mas daí dizer que daria certo, talvez a garota tivesse razão e a descobrissem. Ela não queria nem imaginar o que fariam com ela se a descobrissem, sua vida certamente estaria acabada. Ela seria trancada em Azkaban e jogariam a chave fora. Ela tremeu com a possibilidade. Pela primeira vez na vida desde que se lembrava, ela temeu, custou a dormir e quando o fez teve pesadelos.

N/A: esse é um tiquinho de nada maior que os outros e eu nem demorei tanto dessa vez :p E vcs sabem, todos nós que cá estamos nada ganhamos nem com o que lemos nem com o que escrevemos, exceto talvez alguma experiência :D